sexta-feira, 27 de abril de 2018

Teatro/CRÍTICA

"Maria!"

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Imperdível encontro no Sesc



Lionel Fischer



"A peça é uma organização das crônicas e canções de Antônio Maria (1921/1964), costuradas de modo a constituírem um enredo. O tempo cronológico do espetáculo é o de um dia na vida de Maria, o dia de seu aniversário, mas suas lembranças é que dão o tom biográfico que cria o enredo da peça. Maria! resgata o poeta e o traz de volta à luz no seu palco original, Copacabana, bairro no qual viveu a maior parte de sua vida".

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o contexto em que se dá "Maria!", em cartaz no Mezanino do Sesc Copacabana. Os textos e canções são de autoria de Antônio Maria, estando a dramaturgia a cargo de Claudio Mendes, que dá vida ao cronista, poeta e compositor, dividindo a cena com a violoncelista Maria Clara Valle. Inez Viana assina a direção da montagem.

Nascido no Recife, Antônio Maria veio muito jovem para o Rio de Janeiro, sempre morando em Copacabana. Exerceu múltiplas atividades em sua breve existência, mas seu principal legado são os poemas, crônicas e canções, dentre elas as apresentadas no espetáculo - "Valsa de uma cidade" (parceria com Ismael Netto), "Menino Grande", "Se eu morresse amanhã de manhã", "Frevo nº 1 do Recife", "Quando tua passas por mim" (parceria com Vinícius de Moraes), "Carioca 1954" (parceria com Ismael Netto), "Ninguém me ama" (parceria com Fernando Lobo) e "Manhã de carnaval" (parceria com Luiz Bonfá).

Se uma única palavra pudesse definir Antônio Maria, suponho que seria "paixão". E a mesma abarcava palavras, melodias, mulheres, bebidas, a cidade que idolatrava e seus incontáveis amigos e amigas - dentre muitos outros, Vinícius de Moraes, Di Cavalcanti, Maysa e Dolores Duran. Além disso, seu humor, inteligência, sensibilidade e simpatia faziam dele uma pessoa extremamente querida, acolhida com o mesmo afeto em diversificados ambientes.

Em face do que já foi dito, só uma dramaturgia desastrada, uma direção inexpressiva e um ator incapaz de materializar uma personalidade tão fascinante poderiam gerar um espetáculo tedioso. No entanto, ocorre justamente o oposto. Claudio Mendes costurou poemas, crônicas e músicas de Antônio Maria de forma admirável, oferecendo ao espectador um retrato sensível e divertido do artista.
O mesmo brilho e eficiência se fazem presentes na direção de Inez Vianna, tanto no que diz respeito à dinâmica cênica - diversificada, expressiva, divertida e sempre intimista, já que Claudio Mendes estabelece permanente contato com a platéia - quanto no que diz respeito à sua atuação junto ao intérprete. E aqui me permito explicitar uma singela tese.

Mesmo admitindo que um grande diretor, que não tenha feito carreira como intérprete, possa extrair de seu elenco ótimas performances, acredito piamente que, sendo ele também um grande intérprete, a probabilidade de se chegar a um resultado mais impactante é bem maior. E isto se deve ao óbvio fato de que ele conhece os diversificados caminhos a serem percorridos da primeira leitura à estreia. Um profissional com essa dupla qualificação entende que cada ator tem um processo próprio, uma forma singular de se apropriar do personagem, o que pressupõe uma mútua adequação - em caso contrário, não haverá cumplicidade e encontro entre aquele que dirige e aquele que interpreta. 

No presente caso, como todos sabemos, Inez Viana é não apenas uma excelente diretora, mas também uma atriz maravilhosa. E certamente este duplo predicado foi determinante para a irretocável performance de Claudio Mendes. Possuidor de ótima voz, irrepreensível trabalho corporal, grande carisma e notável inteligência cênica, o ator nos brinda aqui com uma das melhores atuações de sua carreira, cabendo também salientar que canta de forma encantadora, com uma naturalidade nem sempre presente nos intérpretes de musicais.

No tocante à equipe técnica, Ricardo Góes responde por excelente direção musical, cabendo um registro especial para a técnica e sensibilidade da violoncelista Maria Clara Valle. Como de hábito, Paulo Cesar Medeiros ilumina a cena com grande sensibilidade, contribuindo decisivamente para o fortalecimento dos múltiplos climas emocionais em jogo. Flavio Souza assina um figurino em total sintonia com a personalidade retratada, cabendo também registrar a despojada e eficiente cenografia, não assinada - basicamente um banquinho, um abajur e uma bandeja.

MARIA! - Autoria de Antônio Maria. Dramaturgia de Claudio Mendes. Direção de Inez Viana. Com Claudio Mendes e a violoncelista Maria Clara Valle. Mezanino do Sesc Copacabana. Quinta a sábado, 21h. Domingo, 20h.






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