Teatro/CRÍTICA
"Hedwig e o Centímetro Enfurecido"
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O amor em tempos de fúria
Lionel Fischer
Nascido em Berlim Oriental, Hansel conhece o militar Luther, por quem se apaixona. Este último, ainda que simulando idêntico sentimento, impõe a Hansel que troque de sexo, pois do contrário não o levará consigo para os Estados Unidos. A operação é feita, mas falha, e Hansel (agora Hedwig) é abandonada por Luther num trailer em Kansas City. Mais adiante, se apaixona pelo músico Tommy Speck, que rouba suas canções e se converte numa estrela do rock. Mais uma vez descartada, Hedwig passa a perseguir Tommy em sua turnê mundial, apresentando-se em restaurantes perto dos estádios onde ele toca. Durante seus shows, dá especial ênfase ao amor e à busca por sua cara-metade.
Eis, em resumo, o enredo do musical "Hedwig e o Centímetro Enfurecido", de John Cameron Mitchell, que conta com letras e músicas assinadas por Stephen Trask. Exibido com sucesso nos Estados Unidos e em muitos países, o musical chega ao Brasil com direção e adaptação de Evandro Mesquita, tradução de Jonas Calmon Klabin e elenco formado por Paulo Vilhena e Pierre Baitelli (ambos interpretam o papel de Hedwig) e Eline Porto (Yitzhak), que dividem o palco com os músicos Alexandre Griva (bateria), Fabrizio Iorio (teclado), Patrick Laplan (baixo) e Pedro Nogueira (guitarra).
Estruturado na forma de monólogos e números musicais, o espetáculo propõe à platéia, através da trágica história da protagonista, uma série de reflexões, com especial ênfase, como já foi dito, no amor. Mas este, em função do contexto, é abordado em múltiplos de seus aspectos, o que confere grande atualidade ao tema, visto que, em nossa época, as relações amorosas vem passando por constantes transformações. O conceito de "amor ideal" já há muito deixou de existir, assim como certas fronteiras foram abolidas. Seja como for, o que permanece inalterado é o desejo que todos sentimos de encontrar nossa alma gêmea, sem o que a plena felicidade torna-se impossível - ao menos em minha opinião.
Estamos, pois, diante de um texto bastante pertinente, que mescla a todo momento doses equivalentes de ironia e dor, e cuja única ressalva é sua extensão - acredito que, se um pouco reduzida, a peça atingiria ainda mais o espectador. Mas tal ressalva é amplamente compensada por uma produção impecável, materializada na cena sob o comando de Evandro Mesquita.
Impondo à cena uma dinâmica em total sintonia com as propostas do autor, Evandro Mesquita nos põe em contato com um universo decadente e desesperador, mas ainda assim não isento de alguma esperança. Esta deve ser atribuída à tenacidade com que a protagonista insiste em perseguir seus principais objetivos, quais sejam o de tornar-se uma artista reconhecida e encontrar alguém que a ame sem reservas, e a quem possa entregar-se totalmente, assim objetivando escrever uma nova história. Valendo-se de marcas debochadas, patéticas e ao mesmo tempo furiosas, o encenador consegue aproximar o delirante universo da protagonista da platéia, que se torna cúmplice de um ser que, em princípio, tenderia a rejeitar - ou, no máximo, encarar com uma certa piedade.
No elenco, Paulo Vilhena e Pierre Baitelli exibem performances irretocáveis, tanto nas partes cantadas quanto naquelas em que "contracenam" ou se relacionam diretamente com a platéia, entregando-se por completo à nada fácil tarefa de encarnar uma personalidade tão complexa. Aliás, com relação a Paulo Vilhena, gostaria de fazer o seguinte registro: acho admirável a postura adotada pelo ator, que jamais traz para os palcos personagens semelhantes aos que interpreta com tanto sucesso na TV, assim visando garantir, ao menos em teoria, um maior núnero de espectadores. Completando o elenco, Eline Porto canta e dança com a mesma eficiência, também se saindo muito bem nos momentos em que contracena com os protagonistas.
Com relação à equipe técnica, destacamos a direção musical de Danilo Timm e Evandro Mesquita, a brilhante atuação dos músicos, os maravilhosos figurinos de Marta Reis, a expressiva iluminação de Luiz Paulo Nenen e a "roqueira" (não encontrei termo melhor) cenografia de Suzane Queiroz. Cabe ainda registrar a preparação vocal de Danilo Timm, a edição de imagens de Alice Grillo, a bela programação visual de Tania Grillo, o abrangente release que me foi enviado e, finalmente, a eficiência dos profissionais que operam a luz (Marcelo Andrade), o som (Edson Barbosa) e as projeções (Rafael Mose).
HEDWIG E O CENTÍMETRO ENFURECIDO - Texto de John Cameron Mitchel. Direção de Evandro Mesquita. Com Paulo Vilhena, Pierre Baitelli e Eline Porto. Teatro das Artes. Quarta e quinta, 20h; sexta e sábado, 23h30.
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
O estranho
(47)
O embate foi breve. Fui tomado por um acesso de loucura e, em meu braço, senti o vigor e a força de mil homens. Ao cabo de alguns segundos empurrei-o com força bruta de encontro ao lambril e, assim, tendo-o à minha mercê, embebi minha espada repetidas vezes em seu peito com uma fúria selvagem.
Naquele instante alguém tentou abrir a porta. Apressei-me em evitar a intrusão e, de imediato, voltei para junto do meu adversário moribundo. Que língua humana, no entanto, seria capaz de expressar a surpresa, o horror que senti ao testemunhar o espetáculo apresentado aos meus olhos? Aparentemente, o breve instante em que desviei o olhar fora o suficiente para desencadear uma alteração considerável na situação do lado mais alto ou oposto do aposento. Um enorme espelho - foi assim que me pareceu em meio à confusão - assomou onde instantes atrás não havia nada; e, enquanto eu me aproximava em um paroxismo de terror, minha própria imagem, de aspecto pálido e manchada de sangue, avançou em minha direção a passos débeis e hesitantes.
Foi assim que pareceu, mas não foi. Era o meu adversário - era Wilson quem se erguia diante de mim nas agonias do seu ocaso. A máscara e o manto dele estavam onde os havia atirado, no chão. Nenhum fio em seus trajes - nenhuma linha em todo o seu semblante marcado e singular que não fosse, mesmo na identidade mais absoluta, o meu próprio! (Edgar Allan Poe, "William Wilson", 1839).
O crítico estruturalista francês de origem búlgara Tzvetan Todorov propôs que as histórias sobrenaturais fossem divididas em três categorias: o maravilhoso, em que nenhuma explicação dos fenômenos sobrenaturais é possível; o estranho, em que são possíveis; e o fantástico, em que a narrativa hesita, sem se decidir, entre explicações naturais e sobrenaturais.
Um exemplo do fantástico, segundo esse uso, é a famosa história de fantasmas "A volta do parafuso", de Henri James. Uma jovem governanta assume a guarda de duas crianças órfãs em uma casa de campo isolada, e começa a ver vultos que parecem lembrar a ex-governanta e o criado maléfico que a seduziu, ambos já falecidos. A governanta acredita que esses espíritos do mal têm poderes sobre as crianças que estão sob seus cuidados e tenta livrá-las dessa influência. No clímax da história, a jovem heroína luta contra o fantasma do criado para evitar que ele se aposse da alma de Miles, e o garoto morre: "seu pequeno coração, despossuído, parara".
A história, narrada pela governanta, pode ser e vem sendo lida de dois modos diferentes, que correspondem ao "maravilhoso" e ao "estranho" de Todorov: ou os fantasmas são "reais" e a governanta se envolve em uma batalha heróica contra os poderes sobrenaturais do mal, ou são projeções das próprias neuroses e paranoias sexuais da jovem, com as quais ela literalmente mata de susto o garoto de quem deveria cuidar. Os críticos tentaram, em vão, provar a exatidão desta ou daquela leitura. O mais importante nessa história é a possibilidade de uma dupla interpretação, o que a torna imune ao ceticismo do leitor.
A classificação de Todorov é um chamado provocativo à reflexão sobre o assunto, ainda que sua nomenclatura possa causar alguma confusão quando traduzida, pois "fantástico" em geral é entendido como em oposição ao "real", e "estranho" parece um termo pouco natural para classificar uma história como "A volta do parafuso". Também podemos discutir as minúcias da aplicação desta terminologia.
O próprio Todorov foi obrigado a reconhecer que existem obras que desafiam essa categorização e precisam ser classificadas como "fantástico-estranhas" ou "fantástico-maravilhosas". "William Wilson", de Edgar Allan Poe, é uma dessas obras. Ainda que Todorov leia o conto como a alegoria ou a parábola de uma consciência perturbada (o que o torna "estranho", segundo sua própria classificação), a história traz um elemento de ambigüidade que o crítico encara como sendo a característica essencial do "fantástico".
"William Wilson" é uma história de Doppelgänger. O narrador epônimo, que admite a própria devassidão no início da história, descreve o primeiro internato onde estudou como uma construção onde "era difícil, a qualquer momento, dizer com certeza em qual dos dois níveis estava (essa ambigüidade sem dúvida é proposital). Lá, Wilson tinha um rival com o mesmo nome, admitido à escola no mesmo dia, com a mesma data de aniversário e fisicamente muito parecido com o narrador, cujo comportamento o segundo Wilson satirizava. A única diferença entre o duplo e o narrador é que o primeiro é incapaz de elevar a voz a mais do que à altura de um sussurro.
Wilson gradua-se em Eton e vai para Oxford, enquanto se afunda cada vez mais na degradação. Sempre que o personagem pratica alguma ação particularmente odiosa surge um homem vestido em trajes iguais aos seus e com o rosto escondido, que murmura "William Wilson" em um sussurro inconfundível. Desmascarado pelo duplo enquanto trapaceava em um jogo de cartas, Wilson foge para o estrangeiro, mas o Doppelgänger o persegue em toda a parte. "Muitas e muitas vezes, em comunhão secreta com o meu próprio espírito, eu perguntava-me: quem é ele - e o que pretende?. Em Veneza, Wilson, à espera de uma mulher casada para um encontro adúltero, sente "o leve toque de uma mão sobre o ombro, e aquele inesquecível, grave e odioso sussurro nos meus ouvidos". Tomado de ódio, o personagem investe sobre o algoz de espada em punho.
É óbvio que o duplo pode ser interpretado como a externalização alucinatória da consciência ou de uma versão melhorada de Wilson, e no texto existem várias pistas que apontam nessa direção. Wilson afirma, por exemplo, que o duplo de sua época de garoto tinha "princípios morais muito além dos meus próprios", e ninguém além do próprio Wilson parece espantar-se com a semelhança física entre os dois. Mas a história não teria essa força perturbadora e sugestiva se não conferisse uma concretude plausível aos acontecimentos estranhos.
O clímax do conto parece especialmente engenhoso graças à referência ambígüa ao espelho. A partir de uma perspectiva racional, poderíamos supor que, em um delírio motivado pela culpa e pelo ódio a si mesmo, Wilson tenha confundido a própria imagem refletida no espelho com o duplo e investido sobre ela, mutilando-se no processo; mas, segundo a perspectiva de Wilson, o contrário parece ter acontecido - o que Wilson a princípio crê ser o reflexo da prórpria imagem revela-se a figura ensanguentada e agonizante do duplo.
Narrativas "estranhas" clássicas usam sempre narradores em primeira pessoa e imitam formas discursivas como confissões, cartas e depoimentos para dar maior credibilidade ao relato. (Podemos citar "Frankenstein", de Mary Shelley, e "O médico e o monstro", de Robert Louis Stevenson, como exemplos). Esses narradores tendem a escrever num estilo bastante literário que, em outros contextos, poderia parecer um tanto batido: no primeiro parágrafo do trecho, por exemplo, aparecem "acesso de loucura", "força de mil homens", "força bruta" e "fúria selvagem".
Na tradição gótica de horror à qual pertence Poe, e à qual o autor americano deu um forte impulso, não faltam exemplos desses textos "mal bem escritos". A previsibilidade retórica e a própria falta de originalidade garantem a lisura do narrador e tornam mais plausíveis as estranhas experiências relatadas.
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Extraído de "A arte da ficção", de David Lodge (LYPM POCKET, tradução de Guilherme da Silva Braga). O livro contém 50 deliciosos artigos sobre a arte de contar histórias.
(47)
O embate foi breve. Fui tomado por um acesso de loucura e, em meu braço, senti o vigor e a força de mil homens. Ao cabo de alguns segundos empurrei-o com força bruta de encontro ao lambril e, assim, tendo-o à minha mercê, embebi minha espada repetidas vezes em seu peito com uma fúria selvagem.
Naquele instante alguém tentou abrir a porta. Apressei-me em evitar a intrusão e, de imediato, voltei para junto do meu adversário moribundo. Que língua humana, no entanto, seria capaz de expressar a surpresa, o horror que senti ao testemunhar o espetáculo apresentado aos meus olhos? Aparentemente, o breve instante em que desviei o olhar fora o suficiente para desencadear uma alteração considerável na situação do lado mais alto ou oposto do aposento. Um enorme espelho - foi assim que me pareceu em meio à confusão - assomou onde instantes atrás não havia nada; e, enquanto eu me aproximava em um paroxismo de terror, minha própria imagem, de aspecto pálido e manchada de sangue, avançou em minha direção a passos débeis e hesitantes.
Foi assim que pareceu, mas não foi. Era o meu adversário - era Wilson quem se erguia diante de mim nas agonias do seu ocaso. A máscara e o manto dele estavam onde os havia atirado, no chão. Nenhum fio em seus trajes - nenhuma linha em todo o seu semblante marcado e singular que não fosse, mesmo na identidade mais absoluta, o meu próprio! (Edgar Allan Poe, "William Wilson", 1839).
O crítico estruturalista francês de origem búlgara Tzvetan Todorov propôs que as histórias sobrenaturais fossem divididas em três categorias: o maravilhoso, em que nenhuma explicação dos fenômenos sobrenaturais é possível; o estranho, em que são possíveis; e o fantástico, em que a narrativa hesita, sem se decidir, entre explicações naturais e sobrenaturais.
Um exemplo do fantástico, segundo esse uso, é a famosa história de fantasmas "A volta do parafuso", de Henri James. Uma jovem governanta assume a guarda de duas crianças órfãs em uma casa de campo isolada, e começa a ver vultos que parecem lembrar a ex-governanta e o criado maléfico que a seduziu, ambos já falecidos. A governanta acredita que esses espíritos do mal têm poderes sobre as crianças que estão sob seus cuidados e tenta livrá-las dessa influência. No clímax da história, a jovem heroína luta contra o fantasma do criado para evitar que ele se aposse da alma de Miles, e o garoto morre: "seu pequeno coração, despossuído, parara".
A história, narrada pela governanta, pode ser e vem sendo lida de dois modos diferentes, que correspondem ao "maravilhoso" e ao "estranho" de Todorov: ou os fantasmas são "reais" e a governanta se envolve em uma batalha heróica contra os poderes sobrenaturais do mal, ou são projeções das próprias neuroses e paranoias sexuais da jovem, com as quais ela literalmente mata de susto o garoto de quem deveria cuidar. Os críticos tentaram, em vão, provar a exatidão desta ou daquela leitura. O mais importante nessa história é a possibilidade de uma dupla interpretação, o que a torna imune ao ceticismo do leitor.
A classificação de Todorov é um chamado provocativo à reflexão sobre o assunto, ainda que sua nomenclatura possa causar alguma confusão quando traduzida, pois "fantástico" em geral é entendido como em oposição ao "real", e "estranho" parece um termo pouco natural para classificar uma história como "A volta do parafuso". Também podemos discutir as minúcias da aplicação desta terminologia.
O próprio Todorov foi obrigado a reconhecer que existem obras que desafiam essa categorização e precisam ser classificadas como "fantástico-estranhas" ou "fantástico-maravilhosas". "William Wilson", de Edgar Allan Poe, é uma dessas obras. Ainda que Todorov leia o conto como a alegoria ou a parábola de uma consciência perturbada (o que o torna "estranho", segundo sua própria classificação), a história traz um elemento de ambigüidade que o crítico encara como sendo a característica essencial do "fantástico".
"William Wilson" é uma história de Doppelgänger. O narrador epônimo, que admite a própria devassidão no início da história, descreve o primeiro internato onde estudou como uma construção onde "era difícil, a qualquer momento, dizer com certeza em qual dos dois níveis estava (essa ambigüidade sem dúvida é proposital). Lá, Wilson tinha um rival com o mesmo nome, admitido à escola no mesmo dia, com a mesma data de aniversário e fisicamente muito parecido com o narrador, cujo comportamento o segundo Wilson satirizava. A única diferença entre o duplo e o narrador é que o primeiro é incapaz de elevar a voz a mais do que à altura de um sussurro.
Wilson gradua-se em Eton e vai para Oxford, enquanto se afunda cada vez mais na degradação. Sempre que o personagem pratica alguma ação particularmente odiosa surge um homem vestido em trajes iguais aos seus e com o rosto escondido, que murmura "William Wilson" em um sussurro inconfundível. Desmascarado pelo duplo enquanto trapaceava em um jogo de cartas, Wilson foge para o estrangeiro, mas o Doppelgänger o persegue em toda a parte. "Muitas e muitas vezes, em comunhão secreta com o meu próprio espírito, eu perguntava-me: quem é ele - e o que pretende?. Em Veneza, Wilson, à espera de uma mulher casada para um encontro adúltero, sente "o leve toque de uma mão sobre o ombro, e aquele inesquecível, grave e odioso sussurro nos meus ouvidos". Tomado de ódio, o personagem investe sobre o algoz de espada em punho.
É óbvio que o duplo pode ser interpretado como a externalização alucinatória da consciência ou de uma versão melhorada de Wilson, e no texto existem várias pistas que apontam nessa direção. Wilson afirma, por exemplo, que o duplo de sua época de garoto tinha "princípios morais muito além dos meus próprios", e ninguém além do próprio Wilson parece espantar-se com a semelhança física entre os dois. Mas a história não teria essa força perturbadora e sugestiva se não conferisse uma concretude plausível aos acontecimentos estranhos.
O clímax do conto parece especialmente engenhoso graças à referência ambígüa ao espelho. A partir de uma perspectiva racional, poderíamos supor que, em um delírio motivado pela culpa e pelo ódio a si mesmo, Wilson tenha confundido a própria imagem refletida no espelho com o duplo e investido sobre ela, mutilando-se no processo; mas, segundo a perspectiva de Wilson, o contrário parece ter acontecido - o que Wilson a princípio crê ser o reflexo da prórpria imagem revela-se a figura ensanguentada e agonizante do duplo.
Narrativas "estranhas" clássicas usam sempre narradores em primeira pessoa e imitam formas discursivas como confissões, cartas e depoimentos para dar maior credibilidade ao relato. (Podemos citar "Frankenstein", de Mary Shelley, e "O médico e o monstro", de Robert Louis Stevenson, como exemplos). Esses narradores tendem a escrever num estilo bastante literário que, em outros contextos, poderia parecer um tanto batido: no primeiro parágrafo do trecho, por exemplo, aparecem "acesso de loucura", "força de mil homens", "força bruta" e "fúria selvagem".
Na tradição gótica de horror à qual pertence Poe, e à qual o autor americano deu um forte impulso, não faltam exemplos desses textos "mal bem escritos". A previsibilidade retórica e a própria falta de originalidade garantem a lisura do narrador e tornam mais plausíveis as estranhas experiências relatadas.
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Extraído de "A arte da ficção", de David Lodge (LYPM POCKET, tradução de Guilherme da Silva Braga). O livro contém 50 deliciosos artigos sobre a arte de contar histórias.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Flores de Chumbo
Lionel Fischer
(1984)
CAPÍTULO XVI
Passaram-se dois dias. Monsenhor Flávio não apareceu, tampouco Anacleto. Quanto a irmã Geovana, nem sombra dela. Comecei a suspeitar que jamais viria, que me instalara naquela granja movida por um impulso do qual já se arrependera - mal sabia eu que tão logo deixei o convento nele começaram a eclodir conflitos cuja evolução, totalmente imprevista, acabariam conduzindo a um trágico desfecho. Naquele momento, no entanto, devido à falta de conhecimento dessa realidade, tudo que de concreto havia era a solidão. Temendo empreender uma iniciativa suicida, como ir até o convento procurar minha amada, resolvi ocupar a cabeça iniciando a história de Ambrosina e os braços, cavando um abrigo subterrâneo para me ocultar da turba. As tarefas começaram ao raiar do terceiro dia, sendo que nos dois primeiros me dediquei a ler os manuscritos iniciais da espantosa criatura.
Eles relatavam sua infância naquela cidade, seu casamento aos quinze anos e seu exílio aos trinta, depois que seu marido e sua filha encontraram a morte no mesmo dia e de maneira igualmente ridícula - ele devido a um coice dado pelo dromedário de um circo que passava por ali; ela, sufocada por um instrumento, semelhante a uma tuba, com o qual realizava experiências acústicas. Mas pelo que pude perceber, já bem antes do duplo acidente ela manifestava a intenção de abandonar a cidade, não o tendo feito antes em virtude da existência do marido e da filha, ainda que com ambos vivesse às turras. Com a morte do dois, não encontrou mais nada que pudesse detê-la naquele lugar e partiu sem se despedir de ninguém, com a intenção de nunca mais voltar.
O relato desse trecho da vida de Ambrosina me impressionou bastante, pois estava impregnado de acontecimentos dolorosos e funestos. Mas em meio a tudo que li, um fato assumiu para mim uma dimensão enorme, posto que absolutamente inesperado. Ambrosina possuía uma irmã, um pouco mais jovem, com quem cortara relações ainda na infância e que permanecera na cidade. Essa irmã, convencida de que não poderia fazer-lhe frente nem em beleza, nem em inteligência, dedicara-se ao estudo de ciências ocultas, tendo adquirido com o passar do tempo a fama de bruxa. E embora durante a ausência de Ambrosina tivesse alcançado considerável prestígio junto à comunidade, quando a irmã, passados sessenta anos, retornou à cidade, seus prestígio tornou-se nulo, passando a ser por todos desprezada. Essa criatura escapara da chacina no cemitério apenas porque sua presença não seria tolerada no funeral - como o amigo leitor já deve ter notado, estou me referindo à hedionda Ecúria, a feiticeira que falava sem abrir a boca, cujos cabelos cor de limo chegavam até os pés e que previra a falência do meu amor e minha morte na cidade.
Ao me inteirar desse parentesco, senti um certo pânico, pois conhecendo meu interesse pela irmã, Ecúria se sentiria plenamente recompensada se pudesse ver concretizadas suas professias. Primeiro porque já me odiava, desde o nosso incidente; e depois porque, conseguindo vitimar-me, impediria que a história de Ambrosina fosse ao mundo divulgada. Se quisesse, portanto, levar a bom termo tanto o meu amor quanto minhas ambições literárias, deveria me cercar de todas as precauções, pois ao menor vacilo a bruxa ventríloca me liquidaria. Dentre essas precauções se incluía, naturalmente, monsenhor Flávio, que em função de seu estado poderia ser seduzido pela megera e em seu agente convertido.
Ao entardecer do terceiro dia, já estava em vias de interromper minhas atividades de toupeira - eu estava construindo meu refúgio no quintal que havia nos fundos e que já media dois metros de altura, o dobro de comprimento e um de largura - quando escutei um rumor de passos no lado oposto da casa. Apelando para o resto de energia que ainda possuía, empunhei a pesada pá que me fizera companhia a tarde toda e avancei na direção do intruso, pronto a desferir violento golpe ao menor sinal de perigo. Quando já estava quase na frente da casa quase tropeço nas saias de monsenhor Flávio, que, não me encontrando estirado na varanda da sala, resolvera me procurar nos fundos. Ao me ver empunhando ameaçadoramente a dita pá, monsenhor, por acreditar que sua hora havia chegado, caiu de joelhos e bradou:
- Agradeço-te, Oh Pai, por resolveres finalmente abreviar minha agonia!
E disparou um "Pai Nosso" numa tal velocidade que me deu a impressão de que temia passar ao outro mundo sem ter tempo de concluí-lo. Em seguida, percebendo que ainda vivia, emendou um "Salve Rainha" numa rotação idêntica, procurando por certo sensibilizar Nossa Senhora no caso do bom Deus ficar em dúvida quanto ao destino que daria à sua alma. Mas quando monsenhor iniciou um "Creio em Deus Pai...", aí eu achei que já era hora de interromper seu fervor implorativo e lhe dei uma sutil cutucada na orelha esquerda com o cabo da pá, o que o fez soltar um grito tão estridente que parecia que eu o havia marcado a fogo, como um bezerro. Em seguida, tombou de bruços e no barro se imobilizou. Nesse momento eu tive tanta raiva de sua ridícula histeria que por pouco não o joguei no buraco que cavara e o cobri com terra, terminando de uma vez por todas com a vida desse sujeitinho que me azucrinara um dia inteiro com suas histórias de morte.
Evidentemente que não o fiz, mas em compensação o tratei com bastante severidade, recriminando asperamente a frivolidade com que fizera suas orações e demonstrando que seu descontrole só encontrava equivalência nos ataques das adolescentes nobres do século passado. Para arrematar, obriguei-o a jurar sobre uma bíblia imaginária que uma histeria como aquela não se repetiria em hipótese alguma, sob pena de eu afastá-lo para sempre de meu convívio. Monsenhor não apenas jurou quanto pareceu estar de acordo com tudo que lhe disse. Assumiu, inclusive, uma postura tão subserviente que por um momento imaginei que iria se oferecer para me engraxar os sapatos. Mas como eu não estava interessado em prolongar um clima tão desagradável, mudei de tom e perguntei o que ele desejava.
- Vê-lo...- respondeu, constrangido e humilhado. Apesar disso, o caráter óbvio de sua resposta me deu uma certa cólera.
- O senhor ficou de voltar no dia seguinte, se não me falha a memória. Por que não veio? Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu...e não aconteceu. Quer dizer... - retrucou, hesitante.
Monsenhor Flávio parecia um colegial diante do reitor. Não despregava os olhos do chão e sua voz era quase inaudível. Percebi que ele esperava que eu lhe facilitasse a tarefa, mas eu estava tão cansado e preocupado com meus próprios problemas que me faltava disposição para tentar ajudá-lo a vencer seu embaraço. Alguns minutos se passaram e monsenhor não completava a frase deixada em suspenso. Propus então que me acompanhasse até a sala e me aguardasse enquanto tomava banho e trocava de roupa.
- Depois comemos alguma coisa e o senhor me conta o que houve. Está bem assim?
- Eu lhe agradeço... - murmurou baixinho e me seguiu como um viralatas até a sala, voltando a se sentar na parte do sofá onde as molas espetavam. Ao sair em direção ao banheiro, não me furtei em lhe fazer uma singela observação:
- Cuidado com o rabo, monsenhor...
Quando voltei, trazendo numa bandeja pão, leite e um pedaço de queijo, monsenhor estava sentado no mesmo lugar, o que me levou à suspeita de que ele não devia ser de todo insensível a uma pressão nas nádegas. Sentamo-nos à mesa e comemos em silêncio. Ele acabou primeiro e parecia disposto a repetir, mas eu fingi não perceber os ávidos olhares que me lançava e quando terminei me dirigi para a poltrona, forçando-o a me acompanhar. Dessa vez monsenhor optou pela parte sã do sofá, talvez por imaginar que nossa conversa seria longa. De minha parte, esperava que fosse bem curta, pois estava caindo de sono. Para afugentá-lo, assim como a um mosquito que me rondava, acendi um cigarro.
Surpreendentemente, ao invés de começar a falar, monsenhor pôs-se a acompanhar fascinado a mágica trajetória da fumaça, como se nunca a tivesse visto. Percebendo seu interesse, comecei a expelí-la em forma de anéis, que atravessam a distância que nos separava e íam se chocar com seu nariz. Ele os aspirava com evidente prazer, embora não fosse fumante, o que me fez recordar a discussão que tivera com Ambrosina sobre o excesso de incenso na igreja. Ela reclamara que em certas ocasiões até mesmo a visão do altar ficava sacrificada, insinuando maliciosamente que monsenhor mantinha com essa substância uma relação mais narcótica do que religiosa. E embora ele tenha reagido energicamente a esse insinuação, é bem provável que, no fundo, ela não fosse de todo infundada.
Quando meu cigarro já estava quase no fim, decidi impressionar monsenhor ainda mais. Soltando todo o ar de que dispunha, dei uma tragada imensa; em seguida, expeli a fumaça na forma de um único anel, que ganhou altura e passou por cima da cabeça dele. Monsenhor não resistiu e se virou para acompanhar sua trajetória. Como havia na sala uma corrente de ar, meu anel foi por ela carregado até sumir na noite, tendo inclusive aumentado de tamanho durante esse percurso. Ao voltar-se para mim, o prelado parecia comovido com minha habilidade e seus olhinhos brilhavam. Por um momento cheguei a cogitar em ir até a cozinha e de lá voltar equilibrando uma cadeira na testa, proeza que realizava com igual competência, mas abdiquei da idéia por temor de que ela pudesse não ser bem recebida - monsenhor poderia achar que eu o estava fazendo de palhaço e eu não pretendia isso. Mas também não queria passar a noite toda contemplando suas orelhas pontudas e seu nariz de Pinóquio, como um pintor que estudasse seu modelo. Assim, tomei a iniciativa:
- Caro monsenhor: eu o esperei dois dias na maior ansiedade (mentira) e o senhor não deu o ar de sua graça. Estou muito ocupado com alguns assuntos da maior importância e não tenho tempo a perder. Portanto, peço que me diga a que veio sem mais delongas. Estou muito cansado e não pretendo dormir tarde.
Ao ouvir essas palavras, monsenhor ficou rubro como um tomate. Suas orelhas se agitaram em sentido oposto, fazendo dançar o chapeuzinho que ele se esquecera de tirar. Sua boca desapareceu e suas mãos, crispadas no sofá, completavam um quadro geral de indignação que muito me surpreendeu. Afinal, eu não dissera nada que pudesse tê-lo magoado desse jeito; fora, quando muito, assertivo ao lhe expor com clareza minha situação. Mas monsenhor reagia como se eu lhe tivesse dado uma bofetada. O curioso é que, pouco antes, no pátio, eu havia sido bem mais ríspido e ele não esboçara a menor reação. Talvez porque estivesse de estômago vazio, mas o fato é que se comportou da maneira mais submissa possível. E agora se permitia uma atitude para a qual eu não encontrava a menor justificativa. Quando estava a ponto de lhe pedir explicações, ele se levantou e me disse:
- O senhor não precisa se inquietar porque eu já vou deixar esta casa e nela nunca mais entrarei. Mas antes de fazê-lo, quero que saiba que só faltei ao nosso encontro por sua causa. Não fiz outra coisa durante esses dias a não ser me ocupar de sua pessoa. Se tivesse agido de outra forma, a esta altura o senhor provavelmente já estaria morto!
Aí quem se levantou fui eu. Mas monsenhor não me deu tempo de dizer nada.
- Muito obrigado, senhor Aquino, pela sua atenção e pela sua comida. Espero que tenha um sono tranquilo.
E partiu célere, batendo a porta com violência. Por ter levado uns cinco segundos para me recuperar do choque, quando o alcancei monsenhor já estava quase na porteira. Mas eu me coloquei à sua frente, impedindo sua passagem. A lua, feérica, conferia à colera do prelado uma dimensão sobrenatural. Banhado por essa luz diáfana, seu rosto parecia uma máscara mortuária.
- Monsenhor: creio que o senhor interpretou mal minhas palavras. Em nenhum momento pensei que elas pudessem magoá-lo dessa forma. Talvez tenha sido excessivamente direto, mas isso deve ser creditado ao meu caráter e à minha formação (distorcia um pouco a verdade, não resta dúvida). Em todo caso, quero que saiba que prefiro perder sua amizade pela minha franqueza do que conservá-la valendo-me da hipocrisia.
Depois de um breve momento de reflexão, monsenhor murmurou, com voz levemente embargada:
- Lamento a atitude intempestiva que tomei, abandonando a sala sem lhe dar ciência dos fatos. Mais uma vez sou forçado a lhe perdir perdão.
- E eu o concedo com o maior prazer, monsenhor! - emendei, exibindo todas as obturações. E de braços dados regressamos à sala, onde ouvi de monsenhor o espantoso e assustador relato que se segue.
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Lionel Fischer
(1984)
CAPÍTULO XVI
Passaram-se dois dias. Monsenhor Flávio não apareceu, tampouco Anacleto. Quanto a irmã Geovana, nem sombra dela. Comecei a suspeitar que jamais viria, que me instalara naquela granja movida por um impulso do qual já se arrependera - mal sabia eu que tão logo deixei o convento nele começaram a eclodir conflitos cuja evolução, totalmente imprevista, acabariam conduzindo a um trágico desfecho. Naquele momento, no entanto, devido à falta de conhecimento dessa realidade, tudo que de concreto havia era a solidão. Temendo empreender uma iniciativa suicida, como ir até o convento procurar minha amada, resolvi ocupar a cabeça iniciando a história de Ambrosina e os braços, cavando um abrigo subterrâneo para me ocultar da turba. As tarefas começaram ao raiar do terceiro dia, sendo que nos dois primeiros me dediquei a ler os manuscritos iniciais da espantosa criatura.
Eles relatavam sua infância naquela cidade, seu casamento aos quinze anos e seu exílio aos trinta, depois que seu marido e sua filha encontraram a morte no mesmo dia e de maneira igualmente ridícula - ele devido a um coice dado pelo dromedário de um circo que passava por ali; ela, sufocada por um instrumento, semelhante a uma tuba, com o qual realizava experiências acústicas. Mas pelo que pude perceber, já bem antes do duplo acidente ela manifestava a intenção de abandonar a cidade, não o tendo feito antes em virtude da existência do marido e da filha, ainda que com ambos vivesse às turras. Com a morte do dois, não encontrou mais nada que pudesse detê-la naquele lugar e partiu sem se despedir de ninguém, com a intenção de nunca mais voltar.
O relato desse trecho da vida de Ambrosina me impressionou bastante, pois estava impregnado de acontecimentos dolorosos e funestos. Mas em meio a tudo que li, um fato assumiu para mim uma dimensão enorme, posto que absolutamente inesperado. Ambrosina possuía uma irmã, um pouco mais jovem, com quem cortara relações ainda na infância e que permanecera na cidade. Essa irmã, convencida de que não poderia fazer-lhe frente nem em beleza, nem em inteligência, dedicara-se ao estudo de ciências ocultas, tendo adquirido com o passar do tempo a fama de bruxa. E embora durante a ausência de Ambrosina tivesse alcançado considerável prestígio junto à comunidade, quando a irmã, passados sessenta anos, retornou à cidade, seus prestígio tornou-se nulo, passando a ser por todos desprezada. Essa criatura escapara da chacina no cemitério apenas porque sua presença não seria tolerada no funeral - como o amigo leitor já deve ter notado, estou me referindo à hedionda Ecúria, a feiticeira que falava sem abrir a boca, cujos cabelos cor de limo chegavam até os pés e que previra a falência do meu amor e minha morte na cidade.
Ao me inteirar desse parentesco, senti um certo pânico, pois conhecendo meu interesse pela irmã, Ecúria se sentiria plenamente recompensada se pudesse ver concretizadas suas professias. Primeiro porque já me odiava, desde o nosso incidente; e depois porque, conseguindo vitimar-me, impediria que a história de Ambrosina fosse ao mundo divulgada. Se quisesse, portanto, levar a bom termo tanto o meu amor quanto minhas ambições literárias, deveria me cercar de todas as precauções, pois ao menor vacilo a bruxa ventríloca me liquidaria. Dentre essas precauções se incluía, naturalmente, monsenhor Flávio, que em função de seu estado poderia ser seduzido pela megera e em seu agente convertido.
Ao entardecer do terceiro dia, já estava em vias de interromper minhas atividades de toupeira - eu estava construindo meu refúgio no quintal que havia nos fundos e que já media dois metros de altura, o dobro de comprimento e um de largura - quando escutei um rumor de passos no lado oposto da casa. Apelando para o resto de energia que ainda possuía, empunhei a pesada pá que me fizera companhia a tarde toda e avancei na direção do intruso, pronto a desferir violento golpe ao menor sinal de perigo. Quando já estava quase na frente da casa quase tropeço nas saias de monsenhor Flávio, que, não me encontrando estirado na varanda da sala, resolvera me procurar nos fundos. Ao me ver empunhando ameaçadoramente a dita pá, monsenhor, por acreditar que sua hora havia chegado, caiu de joelhos e bradou:
- Agradeço-te, Oh Pai, por resolveres finalmente abreviar minha agonia!
E disparou um "Pai Nosso" numa tal velocidade que me deu a impressão de que temia passar ao outro mundo sem ter tempo de concluí-lo. Em seguida, percebendo que ainda vivia, emendou um "Salve Rainha" numa rotação idêntica, procurando por certo sensibilizar Nossa Senhora no caso do bom Deus ficar em dúvida quanto ao destino que daria à sua alma. Mas quando monsenhor iniciou um "Creio em Deus Pai...", aí eu achei que já era hora de interromper seu fervor implorativo e lhe dei uma sutil cutucada na orelha esquerda com o cabo da pá, o que o fez soltar um grito tão estridente que parecia que eu o havia marcado a fogo, como um bezerro. Em seguida, tombou de bruços e no barro se imobilizou. Nesse momento eu tive tanta raiva de sua ridícula histeria que por pouco não o joguei no buraco que cavara e o cobri com terra, terminando de uma vez por todas com a vida desse sujeitinho que me azucrinara um dia inteiro com suas histórias de morte.
Evidentemente que não o fiz, mas em compensação o tratei com bastante severidade, recriminando asperamente a frivolidade com que fizera suas orações e demonstrando que seu descontrole só encontrava equivalência nos ataques das adolescentes nobres do século passado. Para arrematar, obriguei-o a jurar sobre uma bíblia imaginária que uma histeria como aquela não se repetiria em hipótese alguma, sob pena de eu afastá-lo para sempre de meu convívio. Monsenhor não apenas jurou quanto pareceu estar de acordo com tudo que lhe disse. Assumiu, inclusive, uma postura tão subserviente que por um momento imaginei que iria se oferecer para me engraxar os sapatos. Mas como eu não estava interessado em prolongar um clima tão desagradável, mudei de tom e perguntei o que ele desejava.
- Vê-lo...- respondeu, constrangido e humilhado. Apesar disso, o caráter óbvio de sua resposta me deu uma certa cólera.
- O senhor ficou de voltar no dia seguinte, se não me falha a memória. Por que não veio? Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu...e não aconteceu. Quer dizer... - retrucou, hesitante.
Monsenhor Flávio parecia um colegial diante do reitor. Não despregava os olhos do chão e sua voz era quase inaudível. Percebi que ele esperava que eu lhe facilitasse a tarefa, mas eu estava tão cansado e preocupado com meus próprios problemas que me faltava disposição para tentar ajudá-lo a vencer seu embaraço. Alguns minutos se passaram e monsenhor não completava a frase deixada em suspenso. Propus então que me acompanhasse até a sala e me aguardasse enquanto tomava banho e trocava de roupa.
- Depois comemos alguma coisa e o senhor me conta o que houve. Está bem assim?
- Eu lhe agradeço... - murmurou baixinho e me seguiu como um viralatas até a sala, voltando a se sentar na parte do sofá onde as molas espetavam. Ao sair em direção ao banheiro, não me furtei em lhe fazer uma singela observação:
- Cuidado com o rabo, monsenhor...
Quando voltei, trazendo numa bandeja pão, leite e um pedaço de queijo, monsenhor estava sentado no mesmo lugar, o que me levou à suspeita de que ele não devia ser de todo insensível a uma pressão nas nádegas. Sentamo-nos à mesa e comemos em silêncio. Ele acabou primeiro e parecia disposto a repetir, mas eu fingi não perceber os ávidos olhares que me lançava e quando terminei me dirigi para a poltrona, forçando-o a me acompanhar. Dessa vez monsenhor optou pela parte sã do sofá, talvez por imaginar que nossa conversa seria longa. De minha parte, esperava que fosse bem curta, pois estava caindo de sono. Para afugentá-lo, assim como a um mosquito que me rondava, acendi um cigarro.
Surpreendentemente, ao invés de começar a falar, monsenhor pôs-se a acompanhar fascinado a mágica trajetória da fumaça, como se nunca a tivesse visto. Percebendo seu interesse, comecei a expelí-la em forma de anéis, que atravessam a distância que nos separava e íam se chocar com seu nariz. Ele os aspirava com evidente prazer, embora não fosse fumante, o que me fez recordar a discussão que tivera com Ambrosina sobre o excesso de incenso na igreja. Ela reclamara que em certas ocasiões até mesmo a visão do altar ficava sacrificada, insinuando maliciosamente que monsenhor mantinha com essa substância uma relação mais narcótica do que religiosa. E embora ele tenha reagido energicamente a esse insinuação, é bem provável que, no fundo, ela não fosse de todo infundada.
Quando meu cigarro já estava quase no fim, decidi impressionar monsenhor ainda mais. Soltando todo o ar de que dispunha, dei uma tragada imensa; em seguida, expeli a fumaça na forma de um único anel, que ganhou altura e passou por cima da cabeça dele. Monsenhor não resistiu e se virou para acompanhar sua trajetória. Como havia na sala uma corrente de ar, meu anel foi por ela carregado até sumir na noite, tendo inclusive aumentado de tamanho durante esse percurso. Ao voltar-se para mim, o prelado parecia comovido com minha habilidade e seus olhinhos brilhavam. Por um momento cheguei a cogitar em ir até a cozinha e de lá voltar equilibrando uma cadeira na testa, proeza que realizava com igual competência, mas abdiquei da idéia por temor de que ela pudesse não ser bem recebida - monsenhor poderia achar que eu o estava fazendo de palhaço e eu não pretendia isso. Mas também não queria passar a noite toda contemplando suas orelhas pontudas e seu nariz de Pinóquio, como um pintor que estudasse seu modelo. Assim, tomei a iniciativa:
- Caro monsenhor: eu o esperei dois dias na maior ansiedade (mentira) e o senhor não deu o ar de sua graça. Estou muito ocupado com alguns assuntos da maior importância e não tenho tempo a perder. Portanto, peço que me diga a que veio sem mais delongas. Estou muito cansado e não pretendo dormir tarde.
Ao ouvir essas palavras, monsenhor ficou rubro como um tomate. Suas orelhas se agitaram em sentido oposto, fazendo dançar o chapeuzinho que ele se esquecera de tirar. Sua boca desapareceu e suas mãos, crispadas no sofá, completavam um quadro geral de indignação que muito me surpreendeu. Afinal, eu não dissera nada que pudesse tê-lo magoado desse jeito; fora, quando muito, assertivo ao lhe expor com clareza minha situação. Mas monsenhor reagia como se eu lhe tivesse dado uma bofetada. O curioso é que, pouco antes, no pátio, eu havia sido bem mais ríspido e ele não esboçara a menor reação. Talvez porque estivesse de estômago vazio, mas o fato é que se comportou da maneira mais submissa possível. E agora se permitia uma atitude para a qual eu não encontrava a menor justificativa. Quando estava a ponto de lhe pedir explicações, ele se levantou e me disse:
- O senhor não precisa se inquietar porque eu já vou deixar esta casa e nela nunca mais entrarei. Mas antes de fazê-lo, quero que saiba que só faltei ao nosso encontro por sua causa. Não fiz outra coisa durante esses dias a não ser me ocupar de sua pessoa. Se tivesse agido de outra forma, a esta altura o senhor provavelmente já estaria morto!
Aí quem se levantou fui eu. Mas monsenhor não me deu tempo de dizer nada.
- Muito obrigado, senhor Aquino, pela sua atenção e pela sua comida. Espero que tenha um sono tranquilo.
E partiu célere, batendo a porta com violência. Por ter levado uns cinco segundos para me recuperar do choque, quando o alcancei monsenhor já estava quase na porteira. Mas eu me coloquei à sua frente, impedindo sua passagem. A lua, feérica, conferia à colera do prelado uma dimensão sobrenatural. Banhado por essa luz diáfana, seu rosto parecia uma máscara mortuária.
- Monsenhor: creio que o senhor interpretou mal minhas palavras. Em nenhum momento pensei que elas pudessem magoá-lo dessa forma. Talvez tenha sido excessivamente direto, mas isso deve ser creditado ao meu caráter e à minha formação (distorcia um pouco a verdade, não resta dúvida). Em todo caso, quero que saiba que prefiro perder sua amizade pela minha franqueza do que conservá-la valendo-me da hipocrisia.
Depois de um breve momento de reflexão, monsenhor murmurou, com voz levemente embargada:
- Lamento a atitude intempestiva que tomei, abandonando a sala sem lhe dar ciência dos fatos. Mais uma vez sou forçado a lhe perdir perdão.
- E eu o concedo com o maior prazer, monsenhor! - emendei, exibindo todas as obturações. E de braços dados regressamos à sala, onde ouvi de monsenhor o espantoso e assustador relato que se segue.
________________
Sobre a leitura e os livros
Arthur Schopenhauer
(1788-1860)
1.
A ignorância degrada os homens somente quando se encontra associada à riqueza. O pobre é sujeitado por sua pobreza e necessidade; no seu caso, os trabalhos substituem o saber e ocupam o pensamento. Em contrapartida, os ricos que são ignorantes vivem apenas em função de seus prazeres e se assemelham ao gado, como se pode verificar diariamente. Além disso, ainda devem ser repreendidos por não usarem sua riqueza e ócio para aquilo que lhes conferiria o maior valor.
2.
Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: apenas repetimos seu processo mental, do mesmo modo que um estudante, ao aprender a escrever, refaz com a pena os traços que seu professor fizera a lápis. Quando lemos, somos dispensados em grande parte do trabalho de pensar. É por isso que sentimos um alívio ao passarmos da ocupação com nossos próprios pensamentos para a leitura. No entanto, a nossa cabeça é, durante a leitura, apenas uma arena de pensamentos alheios. Quando eles se retiram, o que resta? Em conseqüência disso, quem lê muito e quase o dia todo, mas nos intervalos passa o tempo sem pensar nada, perde gradativamente a capacidade de pensar por si mesmo - como alguém que, de tanto cavalgar, acabasse desaprendendo a andar. Mas é este o caso de muitos eruditos: leram até ficarem burros.
Pois a leitura contínua, retomada de imediato a cada momento livre, imobiliza o espírito mais do que o trabalho manual contínuo, já que é possível entregar-se a seus próprios pensamentos durante esse trabalho. Assim como uma mola acaba perdendo sua elasticidade pela pressão incessante de outro corpo, o espírito perde a sua pela imposição constante de pensamentos alheios. E, assim como o excesso de alimentação faz mal ao estômago e dessa maneira acaba afetando o corpo todo, também é possível, com excesso de alimento espiritual, sobrecarregar e sufocar o espírito. Pois, quanto mais se lê, menor a quantidade de marcas deixadas no espírito pelo que foi lido: ele se torna como um quadro com muitas coisas escritas sobre as outras.
Com isso não se chega à iluminação: mas é só por meio dela que nos apropriamos do que foi lido, assim como as refeições não nos alimentam quando comemos, e sim quando digerimos. Em contrapartida, se alguém lê continuamente, sem parar para pensar, o que foi lido não cria raízes e se perde em grande parte. Em todo caso, com o alimento espiritual ocorre a mesma coisa que com o corporal: só a qüinquagésima parte do que alguém absorve é assimilada, o resto se perde pela transpiração, respiração e, assim por diante. Além de tudo, os pensamentos postos em papel não passam, em geral, de um vestígio deixado na areia por um passante: vê-se bem o caminho que ele tomou, mas para saber o que ele viu durante o caminho é preciso usar seus próprios olhos.
3.
Nenhuma qualidade literária - como por exemplo a capacidade de persuasão, a riqueza de imagens, o dom da comparação, a ousadia, ou a amargura, ou a concisão, ou a graça, ou a leveza da expressão, ou mesmo a argúcia, os contrastes surpreendentes, o laconismo, a ingenuidade, entre outras - pode ser adquirida pelo simples fato de lermos escritores que possuem tal qualidade. Contudo, se já as possuímos in potentia, podemos evocá-las, trazê-las à nossa consciência, podemos ver o uso que que é possível fazer delas, podemos ser fortalecidos na inclinação, na disposição para usá-las, podemos julgar o efeito de sua aplicação em exemplos e, assim, aprender a maneira correta de usá-las; e só então possuiremos tais qualidades in actu.
Essa é a única maneira de a leitura ensinar a escrever, na medida em que ela nos mostra o uso que podemos fazer de nossos próprios dons naturais; portanto, pressupondo sempre a existência destes. Sem eles, não aprendemos coisa alguma pela leitura, a não ser uma forma fria e morta, de modo que não nos tornamos nada mais do que imitadores banais.
4.
A corporação da vigilância sanitária deveria, no interesse dos olhos, prestar atenção para que o tamanho das letras impressas tivesse um mínimo estabelecido e que não pudesse ser desrespeitado. (Quando eu estava em Veneza, em 1818, numa época em que as autênticas correntinhas venezianas ainda eram fabricadas, disse-me um ourives que os fabricantes da catena fina ficavam cegos aos trinta anos).
5.
Assim como as camadas da terra conservam as séries de criaturas vivas de épocas passadas, também as prateleiras das bibliotecas conservam em série os erros do passado da maneira como foram expressos; erros que, como aquelas criaturas, eram bem vivos em seu tempo e faziam bastante barulho, mas agora permanecem ali rígidos e petrificados, num local em que apenas os paleontólogos literários os observam.
6.
Segundo Heródoto, Xerxes chorou ao contemplar seu exército inumerável, pensando que em cem anos nenhum daqueles homens estaria vivo. Quem não sentiria vontade de chorar, à vista dos grossos catálogos editoriais, se pensasse que, de todos aqueles livros, já em dez anos não haverá nenhum vivo.
7.
Ocorre na literatura o mesmo que na vida; para onde quer que alguém se volte, depara-se logo com o incorrigível vulgo da humanidade, que se encontra por toda parte em legiões, enchendo e sujando tudo, como as moscas no verão. Isso explica a quantidade de livros ruins. Essa abundante erva daninha da literatura que tira a nutrição do trigo e o sufoca. Pois eles roubam tempo, dinheiro e atenção do público, coisas que pertencem por direito aos bons livros e a seus objetivos nobres, enquanto os livros ruins são escritos exclusivamente com a intenção de ganhar dinheiro ou criar empregos. Nesse caso, eles não são apenas inúteis, mas realmente prejudiciais. Nove décimos de toda a nossa literatura atual não tem nenhum outro objetivo a não ser tirar alguns trocados do bolso do público: para isso, o autor, o editor e o crítico lieterário compactuam.
Um golpe pior e mais maldoso, porém mais digno de consideração, foi dado pelos literatos, pelos escritores prolixos que fazem da literatura seu ganha-pão, contra o bom gosto e a verdadeira formação da época, possibilitando que eles levem todo o mundo elegante na coleira, tornando-o adestrado a ler no momento certo, isto é, fazendo todos lerem sempre a mesma coisa, o livro mais recente, a fim de ter um assunto para conversar em seu círculo. Servem a esse objetivo os romances ruins e produtos semelhantes de penas antes renomadas, como as de Spindler, Bulwer, Eugène Sue, entre outros.
Contudo, o que pode ser mais mesquinho do que o destino desse público beletrista que mantém o compromisso de ler sempre a última coisa escrita por cabeças das mais vulgares, por pessoas que escrevem apenas por dinheiro e, por isso mesmo, podem ser encontradas em grande número, enquanto as obras dos espíritos mais raros e elevados de todos os tempos e países são conhecidas apenas de nome! - Em particular a imprensa diária ligada às letras constitui um meio engenhoso de roubar, ao público interessado em estética, o tempo que deveria ser dedicado aos produtos autênticos do gênero, para o bem de sua formação, de modo que esse tempo fique reservado aos remendos diários de obras feitas por cabeças banais. Como as pessoas lêem sempre, em vez dos melhores de todos os tempos, apenas a última novidade, os escritores permanecem no círculo estreito das idéias que circulam, e a época afunda cada vez mais em sua própria lama.
Por isso é tão importante, em relação ao nosso hábito de leitura, a arte de não ler. Ela consiste na atitude de não escolher para ler o que, a cada momento determinado, constitui a ocupação do grande público; por exemplo, panfletos políticos ou literários, romances, poesias etc., que causam rebuliço justamente naquele momento e chegam a ter várias edições em seu primeiro e último ano de vida. Basta nos lembrar-mos de que, em geral, quem escreve para os tolos encontra sempre um grande público, a fim de que nosso tempo destinado à leitura, que costuma ser escasso, seja voltado exclusivamente para as obras dos grandes espíritos de todos os tempos e povos, para os homens que se destacam em relação ao resto da humanidade e que são apontados como tais pela voz da notoriedade. Apenas esses espíritos realmente educam e formam os demais.
Quanto às obras ruins, nunca se lerá pouco quando se trata delas; quanto às boas, nunca elas serão lidas com freqüência excessiva. Livros ruins são veneno intelectual, capaz de fazer definhar o espírito. Para ler o que é bom uma condição é não ler o que é ruim, pois a vida é curta, o tempo e a energia são limitados.
8.
Escrevem-se livros ora sobre este, ora sobre aquele grande espírito do passado, e o público os lê, mas não lê os próprios autores dos quais eles tratam. Isso porque o público só quer ler o que acaba de ser impresso, de modo que a indiscrição fútil e insossa de uma cabeça vazia atual lhe parecerá mais homogênea e agradável do que os pensamentos de grandes espíritos. Mas eu agradeço ao destino por ter me conduzido, já na juventude, a um belo epigrama de A. W. Schlegel que desde então se tornou minha estrela guia:
Leiam com afinco os antigos, os verdadeiros e autênticos antigos: o que os modernos dizem sobre eles não significa muito.
_____________________
Artigo extraído, e aqui reduzido, do livro "A arte de escrever" (L&PMPOCKET), que contém deliciosos ensaios de um dos mais importantes filósofos alemães - todos eles, diga-se de passagem, acessíveis a leitores não necessariamente versados em Filosofia. Constam ainda do volume: "Sobre a erudição e os eruditos", "Pensar por si mesmo", "Sobre a escrita e o estilo" e "Sobre a linguagem e as palavras". Organização, tradução, prefácio e notas de Pedro Süssekind.
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Arthur Schopenhauer
(1788-1860)
1.
A ignorância degrada os homens somente quando se encontra associada à riqueza. O pobre é sujeitado por sua pobreza e necessidade; no seu caso, os trabalhos substituem o saber e ocupam o pensamento. Em contrapartida, os ricos que são ignorantes vivem apenas em função de seus prazeres e se assemelham ao gado, como se pode verificar diariamente. Além disso, ainda devem ser repreendidos por não usarem sua riqueza e ócio para aquilo que lhes conferiria o maior valor.
2.
Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: apenas repetimos seu processo mental, do mesmo modo que um estudante, ao aprender a escrever, refaz com a pena os traços que seu professor fizera a lápis. Quando lemos, somos dispensados em grande parte do trabalho de pensar. É por isso que sentimos um alívio ao passarmos da ocupação com nossos próprios pensamentos para a leitura. No entanto, a nossa cabeça é, durante a leitura, apenas uma arena de pensamentos alheios. Quando eles se retiram, o que resta? Em conseqüência disso, quem lê muito e quase o dia todo, mas nos intervalos passa o tempo sem pensar nada, perde gradativamente a capacidade de pensar por si mesmo - como alguém que, de tanto cavalgar, acabasse desaprendendo a andar. Mas é este o caso de muitos eruditos: leram até ficarem burros.
Pois a leitura contínua, retomada de imediato a cada momento livre, imobiliza o espírito mais do que o trabalho manual contínuo, já que é possível entregar-se a seus próprios pensamentos durante esse trabalho. Assim como uma mola acaba perdendo sua elasticidade pela pressão incessante de outro corpo, o espírito perde a sua pela imposição constante de pensamentos alheios. E, assim como o excesso de alimentação faz mal ao estômago e dessa maneira acaba afetando o corpo todo, também é possível, com excesso de alimento espiritual, sobrecarregar e sufocar o espírito. Pois, quanto mais se lê, menor a quantidade de marcas deixadas no espírito pelo que foi lido: ele se torna como um quadro com muitas coisas escritas sobre as outras.
Com isso não se chega à iluminação: mas é só por meio dela que nos apropriamos do que foi lido, assim como as refeições não nos alimentam quando comemos, e sim quando digerimos. Em contrapartida, se alguém lê continuamente, sem parar para pensar, o que foi lido não cria raízes e se perde em grande parte. Em todo caso, com o alimento espiritual ocorre a mesma coisa que com o corporal: só a qüinquagésima parte do que alguém absorve é assimilada, o resto se perde pela transpiração, respiração e, assim por diante. Além de tudo, os pensamentos postos em papel não passam, em geral, de um vestígio deixado na areia por um passante: vê-se bem o caminho que ele tomou, mas para saber o que ele viu durante o caminho é preciso usar seus próprios olhos.
3.
Nenhuma qualidade literária - como por exemplo a capacidade de persuasão, a riqueza de imagens, o dom da comparação, a ousadia, ou a amargura, ou a concisão, ou a graça, ou a leveza da expressão, ou mesmo a argúcia, os contrastes surpreendentes, o laconismo, a ingenuidade, entre outras - pode ser adquirida pelo simples fato de lermos escritores que possuem tal qualidade. Contudo, se já as possuímos in potentia, podemos evocá-las, trazê-las à nossa consciência, podemos ver o uso que que é possível fazer delas, podemos ser fortalecidos na inclinação, na disposição para usá-las, podemos julgar o efeito de sua aplicação em exemplos e, assim, aprender a maneira correta de usá-las; e só então possuiremos tais qualidades in actu.
Essa é a única maneira de a leitura ensinar a escrever, na medida em que ela nos mostra o uso que podemos fazer de nossos próprios dons naturais; portanto, pressupondo sempre a existência destes. Sem eles, não aprendemos coisa alguma pela leitura, a não ser uma forma fria e morta, de modo que não nos tornamos nada mais do que imitadores banais.
4.
A corporação da vigilância sanitária deveria, no interesse dos olhos, prestar atenção para que o tamanho das letras impressas tivesse um mínimo estabelecido e que não pudesse ser desrespeitado. (Quando eu estava em Veneza, em 1818, numa época em que as autênticas correntinhas venezianas ainda eram fabricadas, disse-me um ourives que os fabricantes da catena fina ficavam cegos aos trinta anos).
5.
Assim como as camadas da terra conservam as séries de criaturas vivas de épocas passadas, também as prateleiras das bibliotecas conservam em série os erros do passado da maneira como foram expressos; erros que, como aquelas criaturas, eram bem vivos em seu tempo e faziam bastante barulho, mas agora permanecem ali rígidos e petrificados, num local em que apenas os paleontólogos literários os observam.
6.
Segundo Heródoto, Xerxes chorou ao contemplar seu exército inumerável, pensando que em cem anos nenhum daqueles homens estaria vivo. Quem não sentiria vontade de chorar, à vista dos grossos catálogos editoriais, se pensasse que, de todos aqueles livros, já em dez anos não haverá nenhum vivo.
7.
Ocorre na literatura o mesmo que na vida; para onde quer que alguém se volte, depara-se logo com o incorrigível vulgo da humanidade, que se encontra por toda parte em legiões, enchendo e sujando tudo, como as moscas no verão. Isso explica a quantidade de livros ruins. Essa abundante erva daninha da literatura que tira a nutrição do trigo e o sufoca. Pois eles roubam tempo, dinheiro e atenção do público, coisas que pertencem por direito aos bons livros e a seus objetivos nobres, enquanto os livros ruins são escritos exclusivamente com a intenção de ganhar dinheiro ou criar empregos. Nesse caso, eles não são apenas inúteis, mas realmente prejudiciais. Nove décimos de toda a nossa literatura atual não tem nenhum outro objetivo a não ser tirar alguns trocados do bolso do público: para isso, o autor, o editor e o crítico lieterário compactuam.
Um golpe pior e mais maldoso, porém mais digno de consideração, foi dado pelos literatos, pelos escritores prolixos que fazem da literatura seu ganha-pão, contra o bom gosto e a verdadeira formação da época, possibilitando que eles levem todo o mundo elegante na coleira, tornando-o adestrado a ler no momento certo, isto é, fazendo todos lerem sempre a mesma coisa, o livro mais recente, a fim de ter um assunto para conversar em seu círculo. Servem a esse objetivo os romances ruins e produtos semelhantes de penas antes renomadas, como as de Spindler, Bulwer, Eugène Sue, entre outros.
Contudo, o que pode ser mais mesquinho do que o destino desse público beletrista que mantém o compromisso de ler sempre a última coisa escrita por cabeças das mais vulgares, por pessoas que escrevem apenas por dinheiro e, por isso mesmo, podem ser encontradas em grande número, enquanto as obras dos espíritos mais raros e elevados de todos os tempos e países são conhecidas apenas de nome! - Em particular a imprensa diária ligada às letras constitui um meio engenhoso de roubar, ao público interessado em estética, o tempo que deveria ser dedicado aos produtos autênticos do gênero, para o bem de sua formação, de modo que esse tempo fique reservado aos remendos diários de obras feitas por cabeças banais. Como as pessoas lêem sempre, em vez dos melhores de todos os tempos, apenas a última novidade, os escritores permanecem no círculo estreito das idéias que circulam, e a época afunda cada vez mais em sua própria lama.
Por isso é tão importante, em relação ao nosso hábito de leitura, a arte de não ler. Ela consiste na atitude de não escolher para ler o que, a cada momento determinado, constitui a ocupação do grande público; por exemplo, panfletos políticos ou literários, romances, poesias etc., que causam rebuliço justamente naquele momento e chegam a ter várias edições em seu primeiro e último ano de vida. Basta nos lembrar-mos de que, em geral, quem escreve para os tolos encontra sempre um grande público, a fim de que nosso tempo destinado à leitura, que costuma ser escasso, seja voltado exclusivamente para as obras dos grandes espíritos de todos os tempos e povos, para os homens que se destacam em relação ao resto da humanidade e que são apontados como tais pela voz da notoriedade. Apenas esses espíritos realmente educam e formam os demais.
Quanto às obras ruins, nunca se lerá pouco quando se trata delas; quanto às boas, nunca elas serão lidas com freqüência excessiva. Livros ruins são veneno intelectual, capaz de fazer definhar o espírito. Para ler o que é bom uma condição é não ler o que é ruim, pois a vida é curta, o tempo e a energia são limitados.
8.
Escrevem-se livros ora sobre este, ora sobre aquele grande espírito do passado, e o público os lê, mas não lê os próprios autores dos quais eles tratam. Isso porque o público só quer ler o que acaba de ser impresso, de modo que a indiscrição fútil e insossa de uma cabeça vazia atual lhe parecerá mais homogênea e agradável do que os pensamentos de grandes espíritos. Mas eu agradeço ao destino por ter me conduzido, já na juventude, a um belo epigrama de A. W. Schlegel que desde então se tornou minha estrela guia:
Leiam com afinco os antigos, os verdadeiros e autênticos antigos: o que os modernos dizem sobre eles não significa muito.
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Artigo extraído, e aqui reduzido, do livro "A arte de escrever" (L&PMPOCKET), que contém deliciosos ensaios de um dos mais importantes filósofos alemães - todos eles, diga-se de passagem, acessíveis a leitores não necessariamente versados em Filosofia. Constam ainda do volume: "Sobre a erudição e os eruditos", "Pensar por si mesmo", "Sobre a escrita e o estilo" e "Sobre a linguagem e as palavras". Organização, tradução, prefácio e notas de Pedro Süssekind.
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segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Teatro/CRÍTICA
"Terra do Nunca"
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Crescer ou não: eis a questão...
Lionel Fischer
Crescer ou não crescer: essa parece ser a questão. Digo "parece" porque o crescimento traz implícito dois significados: o crescimento físico (inevitável) e o crescimento emocional (nem sempre materializado, e aqui devendo ser entendido como amadurecimento). Tendo como mola propulsora três premissas básicas - a busca da eterna juventude, o culto à beleza e a procura da felicidade -, o presente espetáculo visa não necessariamente questionar, mas sim tentar entender as possíveis razões que levam a maioria das pessoas, nos dias atuais, a adiarem ao máximo a própria independência (em todos os sentidos), assim como a nutrirem verdadeiro horror com relação à velhice.
Em cartaz no Espaço Sesc, "Terra do Nunca" foi estruturada, além das premissas já mencionadas, a partir de quatro tópicos principais: a leitura dos livros "A criação da juventude - como o conceito de teenage revolucionou o século XX", de Jon Savage, "O retrato de Dorian Gray", de Oscar Wilde, "O pequeno pássaro branco", de James Mattew Barrie, que imortalizou a figura de Peter Pan, assim como a personalidade de Michael Jackson (que chegou a construir sua versão da Terra do Nunca) e outro ícone supostamente invencível e indestrutível, o Super-Homem.
Com dramaturgia assinada por Ivan Sugahara e Leonardo Netto (com a colaboração de Alice Ripoli, Álvaro Lazzarotto, Gabriela Carneiro da Cunha, Helena Stewart, José Karini e Letícia Isnard), "Terra do nunca" chega à cena com direção de Ivan Sugahara e elenco formado por Helena Stewart, José Karini, Leonardo Netto e Letícia Isnard.
É possível que, como especula Hamlet, muitas pessoas não ponham término às próprias vidas não por adorá-las, mas pelo temor do que possa vir em seguida. Assim sendo, restaria uma única alternativa: prolongar ao máximo a própria existência. Mas isto implica em envelhecer, em perder o viço da juventude, mesmo que esta possa ser, digamos, "prolongada" através dos mais variados recursos oferecidos pela medicina. No entanto, chega-se a um ponto em que tais recursos revelam-se inúteis e não raro as pessoas que deles lançam mão acabam se tornando patéticas caricaturas de si mesmas.
Então, como lidar com a única questão verdadeiramente relevante, qual seja, a passagem do tempo? Como compensar a inevitável deteriorização física com posturas e atitudes capazes de nos fazer compreender que a vida, em primeira e última instância, merece ser encarada como uma verdadeira dádiva?
No presente texto, seus autores não objetivam oferecer respostas, sejam elas apaziguadoras ou não. Através de cenas curtas e não necessariamente cronológicas, limitam-se a fazer indagações, exprimir perplexidades, trabalhar em cima de contradições, enfim, facultam aos espectadores a possibilidade de refletirem sobre suas próprias vidas e as escolhas feitas até então. Para mim, nisto reside o principal mérito de "Terra do Nunca".
Quanto ao espetáculo, como de hábito Ivan Sugahara encontra soluções inesperadas e não raro muito expressivas - e aqui cabe destacar a melhor cena da montagem, aquela em que uma mulher dialoga consigo mesma frente a um espelho, que obviamente reflete sua imagem. Passagem sem dúvida muito angustiante, já que impregnada de terrível solidão.
Com relação ao elenco, Helena Stewart, José Karini, Leonardo Netto e Letícia Isnard exibem desempenhos plenamente convincentes, não só pelo fato de serem ótimos intérpretes, mas também - e sobretudo - porque estão abordando questões que lhes interessam e que certamente estão procurando equacionar da melhor forma possível.
Na equipe técnica, contribuem de forma decisiva para o espetáculo os trabalhos de Alice Ripoli (preparação corporal), Ivan Sugahara e Álvaro Lazzarotto (trilha sonora), Natália Lana (cenografia), Nello Marrese (figurinos) e Renato Machado (iluminação).
TERRA DO NUNCA - Texto de Ivan Sugahara e Leonardo Netto. Direção de Sugahara. Com Helena Stewart, José Karini, Leonardo Netto e Letícia Isnard. Espaço Sesc. Quinta a sábado, 21h. Domingo, 19h30. Haverá sessão extra no próximo dia 20, quarta-feira, às 21h, em substituição à sessão não realizada ontem.
"Terra do Nunca"
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Crescer ou não: eis a questão...
Lionel Fischer
Crescer ou não crescer: essa parece ser a questão. Digo "parece" porque o crescimento traz implícito dois significados: o crescimento físico (inevitável) e o crescimento emocional (nem sempre materializado, e aqui devendo ser entendido como amadurecimento). Tendo como mola propulsora três premissas básicas - a busca da eterna juventude, o culto à beleza e a procura da felicidade -, o presente espetáculo visa não necessariamente questionar, mas sim tentar entender as possíveis razões que levam a maioria das pessoas, nos dias atuais, a adiarem ao máximo a própria independência (em todos os sentidos), assim como a nutrirem verdadeiro horror com relação à velhice.
Em cartaz no Espaço Sesc, "Terra do Nunca" foi estruturada, além das premissas já mencionadas, a partir de quatro tópicos principais: a leitura dos livros "A criação da juventude - como o conceito de teenage revolucionou o século XX", de Jon Savage, "O retrato de Dorian Gray", de Oscar Wilde, "O pequeno pássaro branco", de James Mattew Barrie, que imortalizou a figura de Peter Pan, assim como a personalidade de Michael Jackson (que chegou a construir sua versão da Terra do Nunca) e outro ícone supostamente invencível e indestrutível, o Super-Homem.
Com dramaturgia assinada por Ivan Sugahara e Leonardo Netto (com a colaboração de Alice Ripoli, Álvaro Lazzarotto, Gabriela Carneiro da Cunha, Helena Stewart, José Karini e Letícia Isnard), "Terra do nunca" chega à cena com direção de Ivan Sugahara e elenco formado por Helena Stewart, José Karini, Leonardo Netto e Letícia Isnard.
É possível que, como especula Hamlet, muitas pessoas não ponham término às próprias vidas não por adorá-las, mas pelo temor do que possa vir em seguida. Assim sendo, restaria uma única alternativa: prolongar ao máximo a própria existência. Mas isto implica em envelhecer, em perder o viço da juventude, mesmo que esta possa ser, digamos, "prolongada" através dos mais variados recursos oferecidos pela medicina. No entanto, chega-se a um ponto em que tais recursos revelam-se inúteis e não raro as pessoas que deles lançam mão acabam se tornando patéticas caricaturas de si mesmas.
Então, como lidar com a única questão verdadeiramente relevante, qual seja, a passagem do tempo? Como compensar a inevitável deteriorização física com posturas e atitudes capazes de nos fazer compreender que a vida, em primeira e última instância, merece ser encarada como uma verdadeira dádiva?
No presente texto, seus autores não objetivam oferecer respostas, sejam elas apaziguadoras ou não. Através de cenas curtas e não necessariamente cronológicas, limitam-se a fazer indagações, exprimir perplexidades, trabalhar em cima de contradições, enfim, facultam aos espectadores a possibilidade de refletirem sobre suas próprias vidas e as escolhas feitas até então. Para mim, nisto reside o principal mérito de "Terra do Nunca".
Quanto ao espetáculo, como de hábito Ivan Sugahara encontra soluções inesperadas e não raro muito expressivas - e aqui cabe destacar a melhor cena da montagem, aquela em que uma mulher dialoga consigo mesma frente a um espelho, que obviamente reflete sua imagem. Passagem sem dúvida muito angustiante, já que impregnada de terrível solidão.
Com relação ao elenco, Helena Stewart, José Karini, Leonardo Netto e Letícia Isnard exibem desempenhos plenamente convincentes, não só pelo fato de serem ótimos intérpretes, mas também - e sobretudo - porque estão abordando questões que lhes interessam e que certamente estão procurando equacionar da melhor forma possível.
Na equipe técnica, contribuem de forma decisiva para o espetáculo os trabalhos de Alice Ripoli (preparação corporal), Ivan Sugahara e Álvaro Lazzarotto (trilha sonora), Natália Lana (cenografia), Nello Marrese (figurinos) e Renato Machado (iluminação).
TERRA DO NUNCA - Texto de Ivan Sugahara e Leonardo Netto. Direção de Sugahara. Com Helena Stewart, José Karini, Leonardo Netto e Letícia Isnard. Espaço Sesc. Quinta a sábado, 21h. Domingo, 19h30. Haverá sessão extra no próximo dia 20, quarta-feira, às 21h, em substituição à sessão não realizada ontem.
domingo, 3 de outubro de 2010
Teatro/CRÍTICA
"Marlene Dietrich - as pernas do século"
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Montagem imperdível no Solar
Lionel Fischer
"No final da vida, já bem idosa, Marlene conhece um jovem que não faz a menor idéia de quem ela seja, e sequer ouviu falar do mito Marlene Dietrich. Já às vésperas de completar 90 anos, ela acaba seduzindo o rapaz de uma forma bem diferente de quando brilhava absoluta no cinema e nos palcos. Se hoje não conta mais com o frescor da juventude nem com as lendárias pernas, seu charme e inteligência estão mais vivos do que nunca, somados a uma grande aliada: a memória. Ao narrar para o desavisado rapaz sua trajetória, a diva o envolve e fascina por ter sido testemunha e personagem dos acontecimentos mais marcantes do século XX: desde o crescimento do nazismo na Alemanha nos anos 20, passando pelo glamour de Hollywood dos anos 30 a 50, sua experiência no front da Segunda Guerra, até os anos 70, pelos palcos do mundo - New York, Londres, Rio de Janeiro, Tókio".
Extraído do ótimo e abrangente release que me foi enviado pela assessoria de imprensa (JSPontes Comunicação), o trecho acima resume o que de mais essencial ocorre no presente texto, de autoria de Aimar Labaki, ora em cartaz no Centro Cultural Solar de Botafogo. William Pereira assina a direção da montagem, que chega à cena com elenco formado por Sylvia Bandeira (Marlene Dietrich), José Mauro Brant (Jovem e outros personagens), Marciah Luna Cabral e Silvio Ferrari (que também interpretam vários papéis) e dividem o palco com os músicos Roberto Bahal (piano), Luciano Corrêa (violoncelo) e Vinícius Carvalho (sopros).
A presente montagem é definida por seus realizadores como uma "biografia musicada". E de fato é o que acontece. Ao mesmo tempo em que são cantadas e tocadas cerca de 30 canções, o texto aborda de forma sensível, bem humorada e trágica a trajetória daquela que muitos consideram a maior estrela do século XX. Contendo ótimos diálogos, personagens muito bem estruturados e uma trama que flui de forma tal que envolve por completo a platéia, "Marlene Dietrich - as pernas do século" constitui um evento teatral da maior importância, que merece ser prestigiado de forma incondicional pelo público carioca.
Com relação ao espetáculo, o diretor William Pereira impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com o texto, valorizando todos os conteúdos propostos pelo autor através de um desenho cênico elegante e de grande expressividade. E cabe ainda ao encenador o mérito suplementar de haver extraído ótimas atuações do elenco, a começar pelos protagonistas.
Na pele de Marlene Dietrich, Sylvia Bandeira talvez exiba aqui a melhor performance de sua carreira. Evidenciando forte presença, carisma, inteligência cênica e uma classe à altura da personalidade que interpreta, a atriz convence em todos os momentos, emocionando o público nas passagens mais dramáticas, assim como divertindo-o naquelas em que o humor predomina, cabendo também ressaltar sua eficiência ao cantar em vários idiomas e, impossível calar o óbvio, o fato de que está cada vez mais linda. José Mauro Brant obtém excelente resultado vivendo o inicialmente alienado rapaz, que aos poucos vai se deixando fascinar pela protagonista - o ator também se sai muito bem em seus demais personagens, correspondendo inteiramente nas partes cantadas.
Quanto a Silvio Ferrari e Marciah Luna Cabral, ambos com grande experiência e vitoriosas passagens por espetáculos musicais, o rendimento de ambos também é bom, ainda que no espetáculo de estréia evidenciassem alguma insegurança. Mas esta logo passará e certamente ambos chegarão rapidamente a um patamar superior ao que exibiram nesta última sexta-feira.
Na equipe técnica, destacamos com o mesmo entusiasmo os irrepreensíveis trabalhos de todos os envolvidos nesta imperdível empreitada teatral - William Pereira (cenografia), Marcelo Marques (responsável por deslumbrantes figurinos), Paulo César Medeiros (autor de uma das mais expressivas iluminações da atual temporada), Marcia Rubin (direção de movimento), Marciah Luna Cabral (preparação vocal), Cacau Gondomar (maravilhoso projeto gráfico) e finalmente a Lúdico Produções Artísticas, mais uma vez responsável por uma produção impecável. Cabe ainda registrar a excelente direção musical e arranjos de Roberto Bahal, assim como sua performance ao piano e a de seus colegas músicos.
MARLENE DIETRICH - AS PERNAS DO SÉCULO - Texto de Aimar Labaki. Direção de William Pereira. Com Sylvia Bandeira, José Mauro Brant, Marciah Luna Cabral e Silvio Ferrari. Centro Cultural Solar de Botafogo. Quinta a sábado, 21h30. Domingo, 20h.
"Marlene Dietrich - as pernas do século"
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Montagem imperdível no Solar
Lionel Fischer
"No final da vida, já bem idosa, Marlene conhece um jovem que não faz a menor idéia de quem ela seja, e sequer ouviu falar do mito Marlene Dietrich. Já às vésperas de completar 90 anos, ela acaba seduzindo o rapaz de uma forma bem diferente de quando brilhava absoluta no cinema e nos palcos. Se hoje não conta mais com o frescor da juventude nem com as lendárias pernas, seu charme e inteligência estão mais vivos do que nunca, somados a uma grande aliada: a memória. Ao narrar para o desavisado rapaz sua trajetória, a diva o envolve e fascina por ter sido testemunha e personagem dos acontecimentos mais marcantes do século XX: desde o crescimento do nazismo na Alemanha nos anos 20, passando pelo glamour de Hollywood dos anos 30 a 50, sua experiência no front da Segunda Guerra, até os anos 70, pelos palcos do mundo - New York, Londres, Rio de Janeiro, Tókio".
Extraído do ótimo e abrangente release que me foi enviado pela assessoria de imprensa (JSPontes Comunicação), o trecho acima resume o que de mais essencial ocorre no presente texto, de autoria de Aimar Labaki, ora em cartaz no Centro Cultural Solar de Botafogo. William Pereira assina a direção da montagem, que chega à cena com elenco formado por Sylvia Bandeira (Marlene Dietrich), José Mauro Brant (Jovem e outros personagens), Marciah Luna Cabral e Silvio Ferrari (que também interpretam vários papéis) e dividem o palco com os músicos Roberto Bahal (piano), Luciano Corrêa (violoncelo) e Vinícius Carvalho (sopros).
A presente montagem é definida por seus realizadores como uma "biografia musicada". E de fato é o que acontece. Ao mesmo tempo em que são cantadas e tocadas cerca de 30 canções, o texto aborda de forma sensível, bem humorada e trágica a trajetória daquela que muitos consideram a maior estrela do século XX. Contendo ótimos diálogos, personagens muito bem estruturados e uma trama que flui de forma tal que envolve por completo a platéia, "Marlene Dietrich - as pernas do século" constitui um evento teatral da maior importância, que merece ser prestigiado de forma incondicional pelo público carioca.
Com relação ao espetáculo, o diretor William Pereira impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com o texto, valorizando todos os conteúdos propostos pelo autor através de um desenho cênico elegante e de grande expressividade. E cabe ainda ao encenador o mérito suplementar de haver extraído ótimas atuações do elenco, a começar pelos protagonistas.
Na pele de Marlene Dietrich, Sylvia Bandeira talvez exiba aqui a melhor performance de sua carreira. Evidenciando forte presença, carisma, inteligência cênica e uma classe à altura da personalidade que interpreta, a atriz convence em todos os momentos, emocionando o público nas passagens mais dramáticas, assim como divertindo-o naquelas em que o humor predomina, cabendo também ressaltar sua eficiência ao cantar em vários idiomas e, impossível calar o óbvio, o fato de que está cada vez mais linda. José Mauro Brant obtém excelente resultado vivendo o inicialmente alienado rapaz, que aos poucos vai se deixando fascinar pela protagonista - o ator também se sai muito bem em seus demais personagens, correspondendo inteiramente nas partes cantadas.
Quanto a Silvio Ferrari e Marciah Luna Cabral, ambos com grande experiência e vitoriosas passagens por espetáculos musicais, o rendimento de ambos também é bom, ainda que no espetáculo de estréia evidenciassem alguma insegurança. Mas esta logo passará e certamente ambos chegarão rapidamente a um patamar superior ao que exibiram nesta última sexta-feira.
Na equipe técnica, destacamos com o mesmo entusiasmo os irrepreensíveis trabalhos de todos os envolvidos nesta imperdível empreitada teatral - William Pereira (cenografia), Marcelo Marques (responsável por deslumbrantes figurinos), Paulo César Medeiros (autor de uma das mais expressivas iluminações da atual temporada), Marcia Rubin (direção de movimento), Marciah Luna Cabral (preparação vocal), Cacau Gondomar (maravilhoso projeto gráfico) e finalmente a Lúdico Produções Artísticas, mais uma vez responsável por uma produção impecável. Cabe ainda registrar a excelente direção musical e arranjos de Roberto Bahal, assim como sua performance ao piano e a de seus colegas músicos.
MARLENE DIETRICH - AS PERNAS DO SÉCULO - Texto de Aimar Labaki. Direção de William Pereira. Com Sylvia Bandeira, José Mauro Brant, Marciah Luna Cabral e Silvio Ferrari. Centro Cultural Solar de Botafogo. Quinta a sábado, 21h30. Domingo, 20h.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Teatro/CRÍTICA
"O inferno sou eu"
........................................
A humanização do mito
Lionel Fischer
De acordo com o release que me foi enviado, a frase "Entre a fidelidade e a liberdade, haverá uma conciliação possível?" foi a fonte inspiradora que motivou Juliana Rosenthal K. a escrever "O inferno sou eu". A peça, em cartaz no Teatro Poeira, parte de fatos reais - a estadia no Brasil, por alguns meses, do casal Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, sendo a ação ambientada na cidade do Recife - para criar uma relação fictícia entre a célebre escritora (autora da mencionada frase) e Dorinha, uma jovem estudante de Letras.
Estando o casal hospedado na casa de Marta, por quem Sartre está nutrindo forte interesse, a anfitriã encarrega Dorinha de "cuidar" de Simone, ainda recuperando-se de um tifo. Eis, em resumo, o enredo de "O inferno sou eu", que chega à cena com direção de José Rubens Siqueira e elenco formado por Marisa Orth (Simone) e Paula Weinfeld (Dorinha).
Na parte inicial do texto, vemos uma Simone de Beauvoir ainda combalida pela doença e exibindo doses equivalentes de mau humor e arrogância, sem com isso conseguir arrefecer a apaixonada admiração que por ela nutre a jovem estudante de Letras. Aos poucos, no entanto, a relação entre ambas vai perdendo a aspereza, o que decorre, fundamentalmente, da fragilidade que Simone exibe ao recordar-se de sua paixão por um norte-americano - nessas passagens, o mito cede lugar ao humano, e em última instância, ao menos neste aspecto, Simone e Dorinha se nivelam, pois esta última também nutre uma grande paixão por um homem, paixão esta que, inicialmente, Simone não cansa de ironizar.
O texto, portanto, tem o grande mérito de, como já foi dito, humanizar o mito, além de facultar à platéia algumas reflexões mais do que pertinentes da extraordinária escritora, ensaísta e pensadora francesa. Afora o fato de mesclar, com a mesma competência, diversificados climas emocionais, expressos por dois personagens muito bem construídos, que tanto evidenciam humor como não relutam em exibir suas carências, mágoas e indecisões.
Quanto ao espetáculo, José Rubens Siqueira impõe à cena uma dinâmica que, sabiamente, renuncia a desnecessárias firulas formais e prioriza o que de fato importa: a relação entre as duas personagens. E aqui cabe registrar a excelente performance das duas atrizes. Na pele de Simone de Beauvoir, Marisa Orth consegue materializar na cena as principais características de uma personalidade brilhante, mas ao mesmo tempo atormentada por questões inerentes a qualquer mulher "normal". A mesma eficiência se faz presente na atuação de Paula Weinfeld, cabendo destacar sobretudo o humor que consegue extrair de sua deliciosa personagem.
Com relação à equipe técnica, Isay Weinfeld assina uma cenografia que atende a todas as necessidades da montagem, sendo corretos os figurinos de Cássio Brasil e muito expressiva a iluminação de Guilherme Bonfanti. Também responsável pela trilha sonora, o diretor José Rubens Siqueira foi particularmente feliz, pois em alguns momentos da montagem ouvimos, dentre outras obras de Bach, a "Invenção nº 2, a Três Vozes", em dó menor. É claro que não posso garantir o que se segue, mas em minha imaginação tal escolha também se deveu, além da evidente beleza da música, ao fato de que Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre quase nunca viveram a "duas vozes", existindo frequentemente uma terceira...
O INFERNO SOU EU - Texto de Juliana Rosenthal K. Direção de José Rubens Siqueira. Com Marisa Orth e Paula Weinfeld. Teatro Poeira. Quinta a sábado, 21h. Domingo, 19h.
"O inferno sou eu"
........................................
A humanização do mito
Lionel Fischer
De acordo com o release que me foi enviado, a frase "Entre a fidelidade e a liberdade, haverá uma conciliação possível?" foi a fonte inspiradora que motivou Juliana Rosenthal K. a escrever "O inferno sou eu". A peça, em cartaz no Teatro Poeira, parte de fatos reais - a estadia no Brasil, por alguns meses, do casal Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, sendo a ação ambientada na cidade do Recife - para criar uma relação fictícia entre a célebre escritora (autora da mencionada frase) e Dorinha, uma jovem estudante de Letras.
Estando o casal hospedado na casa de Marta, por quem Sartre está nutrindo forte interesse, a anfitriã encarrega Dorinha de "cuidar" de Simone, ainda recuperando-se de um tifo. Eis, em resumo, o enredo de "O inferno sou eu", que chega à cena com direção de José Rubens Siqueira e elenco formado por Marisa Orth (Simone) e Paula Weinfeld (Dorinha).
Na parte inicial do texto, vemos uma Simone de Beauvoir ainda combalida pela doença e exibindo doses equivalentes de mau humor e arrogância, sem com isso conseguir arrefecer a apaixonada admiração que por ela nutre a jovem estudante de Letras. Aos poucos, no entanto, a relação entre ambas vai perdendo a aspereza, o que decorre, fundamentalmente, da fragilidade que Simone exibe ao recordar-se de sua paixão por um norte-americano - nessas passagens, o mito cede lugar ao humano, e em última instância, ao menos neste aspecto, Simone e Dorinha se nivelam, pois esta última também nutre uma grande paixão por um homem, paixão esta que, inicialmente, Simone não cansa de ironizar.
O texto, portanto, tem o grande mérito de, como já foi dito, humanizar o mito, além de facultar à platéia algumas reflexões mais do que pertinentes da extraordinária escritora, ensaísta e pensadora francesa. Afora o fato de mesclar, com a mesma competência, diversificados climas emocionais, expressos por dois personagens muito bem construídos, que tanto evidenciam humor como não relutam em exibir suas carências, mágoas e indecisões.
Quanto ao espetáculo, José Rubens Siqueira impõe à cena uma dinâmica que, sabiamente, renuncia a desnecessárias firulas formais e prioriza o que de fato importa: a relação entre as duas personagens. E aqui cabe registrar a excelente performance das duas atrizes. Na pele de Simone de Beauvoir, Marisa Orth consegue materializar na cena as principais características de uma personalidade brilhante, mas ao mesmo tempo atormentada por questões inerentes a qualquer mulher "normal". A mesma eficiência se faz presente na atuação de Paula Weinfeld, cabendo destacar sobretudo o humor que consegue extrair de sua deliciosa personagem.
Com relação à equipe técnica, Isay Weinfeld assina uma cenografia que atende a todas as necessidades da montagem, sendo corretos os figurinos de Cássio Brasil e muito expressiva a iluminação de Guilherme Bonfanti. Também responsável pela trilha sonora, o diretor José Rubens Siqueira foi particularmente feliz, pois em alguns momentos da montagem ouvimos, dentre outras obras de Bach, a "Invenção nº 2, a Três Vozes", em dó menor. É claro que não posso garantir o que se segue, mas em minha imaginação tal escolha também se deveu, além da evidente beleza da música, ao fato de que Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre quase nunca viveram a "duas vozes", existindo frequentemente uma terceira...
O INFERNO SOU EU - Texto de Juliana Rosenthal K. Direção de José Rubens Siqueira. Com Marisa Orth e Paula Weinfeld. Teatro Poeira. Quinta a sábado, 21h. Domingo, 19h.
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