Flores de Chumbo
Lionel Fischer
(1984)
CAPÍTULO XVIII
O quarto dia de permanência na granja começou da pior maneira possível. Assim que despertei tive o pressentimento de que sofreria sem parar ao longo das próximas 24 horas. Não sabia a que atribuir a incômoda premonição, já que me deitara satisfeito e não tivera nenhum sonho desagradável. Ainda no leito tentei atribuir essa sensação à chuva torrencial que caía, tão forte que dava a impressão de que faria o teto desabar. Mas essa justificativa não me satisfez, pois a chuva nunca me gerara uma aflição parecida. Minha dificuldade em respirar e meus acelarados batimentos cardíacos deveriam, portanto, ter uma outra explicação.
Após meia-hora de intensas especulações, resolvi enfrentar a vida. Quando caminhava pelo corredor em direção ao banheiro escutei a voz de monsenhor, vinda da sala, que gorgeava desafinadamente uma canção inexpressiva. Isso teve o poder de me irritar, pois sabedor de que já deviam ser umas dez horas não via nenhum motivo para que o prelado ainda estivesse naquela casa. Em todo caso, fui até o banheiro, fiz o que todo mundo faz assim que acorda e voltei para o quarto. Enquanto me vestia e ouvia os malditos trinados, minha irritação crescia, a ponto de me fazer considerar a hipótese de tamponar a boca de monsenhor com um chumaço de algodão. Ou no mínimo lhe passar uma reprimenda, pois eu não era obrigado a conviver com seus gorgeios.
Mas ao chegar na sala, minha ira se aplacou de imediato, embora monsenhor prosseguisse massacrando a tal musiquinha: tendo acordado mais cedo do que eu e possivelmente querendo retribuir minha hospitalidade, ele resolvera fazer uma faxina completa no ambiente. Para tanto, com exceção da mesa onde depositara nosso desdejum de forma impecável, arrastara todo o resto do mobiliário para os cantos. Com um trapo amarrado na cintura em forma de avental e munido de um rodo em cuja extremidade enrolara um pano úmido, monsenhor, com o empenho de uma doméstica recém contratada, fazia a assepsia do assoalho. Ia e vinha em movimentos ritmados, cuja sincronia com a canção o fazia parecer-se com um personagem de opereta. Quando julgava que o pano já estava imundo, ele o retirava do rodo e desaparecia na direção da área, de onde retornava com o paninho gotejando, que novamente enrolava na ponta do rodo e então recomeçava sua incansável tarefa. Depois de observá-lo por uns 15 minutos, resolvi intervir:
- Mas monsenhor, que absurdo! Quem lhe deu ordens para empreender tão exaustiva faxina? - perguntei, aparentemente sério.
- Não sei quais são seus padrões de higiene, Gabriel, mas me foi impossível permanecer mais um minuto nesta casa em meio a essa poeirada...- retorquiu, faceiro, sem interromper a limpeza cadenciada.
- Por que o senhor não me acordou? Eu poderia ajudar.
- Você só iria atrapalhar. Ficaria dando palpites, tentando abreviar o serviço...
- Mas o senhor nem ao menos se alimentou!? Poderá ter vertigens...
- Estava esperando você acordar. Um hóspede nunca se serve antes do anfitrião.
Nesse momento, ele interrompeu sua obsessiva faxina e se virou para mim. Seu rosto denotava tanta simpatia que não reprimi um sorriso. Dizem que as pessoas em vias de morrer afogadas conseguem relembrar, em poucos segundos, grande parte de suas vidas. Embora meus pulmões não estivessem cheios d'água, deu-se comigo o mesmo fenômeno. Toda a minha curta mas intensa vida em comum com monsenhor me veio à cabeça, com uma incrível riqueza de detalhes. E o saldo dessa convivência era extremamente positivo, pois se chagáramnos a ter algumas brigas, em contrapartida também vivêramos momentos de grande cumplicidade. A partir daí, monsenhor e eu nunca mais nos desentendemos, ao menos seriamente. Esse sorriso que trocamos nessa manhã de temporal veio como que selar um pacto de amizade que nem a morte do prelado conseguiu romper, pois mesmo depois que ele se foi continuei sentindo sua presença amiga, como se ele tivesse se convertido em meu anjo da guarda. Aliás, em minha opinião, certos sentimentos, como o amor e a amizade, quando realmente verdadeiros, transcendem a existência temporal e se prolongam por toda a eternidade.
Assim que concluí essas divagações, falei:
- Bem, monsenhor, e que tal se agora sentássemos para comer?
- Acho uma ótima idéia! - retrucou, tirando o avental e dirigindo-se para a mesa.
Como de costume, comemos em silêncio. Mantivemos sempre esse singular hábito, para o qual nunca encontrei uma explicação convincente, pois o que não nos faltava era assunto. Quanto ao nosso desdejum, monsenhor fora pródigo em sua escolha, já que além de pão, queijo e leite ele colocara na mesa biscoitos, geléia e um doce de goiaba cuja calda era o néctar dos deuses. Embora sem sofreguidão, nos empanturramos como dois romanos que participassem de uma orgia gastronômica. Só nos levantamos quando percebemos que uma próxima garfada, colherada ou golada poderia ser fatal. Um tanto zonzos, fomos cada qual cuidar de seus interesses. Monsenhor recomeçou a faxina interrompida, sempre a solfejar, e eu fui até o quarto onde depositara a vida de Ambrosina, decidido a continuar a trabalhar em sua história.
Mas infelizmente não conseguia me concentrar. Tentei durante mais de duas horas dar prosseguimento à curta narrativa iniciada na véspera, mas meus pensamentos se voltavam a todo momento para aquela que amava desesperadamente e cujo amor já imaginava haver perdido. Quando percebi que a qualquer momento acabaria ateando fogo em toda aquela papelada, deixei o quarto e fui para a varanda. Ao passar pela sala, monsenhor já havia terminado a limpeza e todos os móveis estavam em seus lugares. Mas sua vozinha, vinda dos fundos da casa, indicava que ele continuava empenhado em transformar todo o espaço em algo habitável. Sentado nos degraus da varanda, comecei a contemplar a inacreditável chuva que caía.
Minha impressão era a de habitar uma casa fluvial, pois não havia nas imediações um único pedaço de terra que não tivesse sido coberto pelas águas. Numa tentativa de dominar a angústia que a ausência de irmã Geovana me causava, iniciei inúmeras conjecturas: tentei adivinhar as espécies de árvores que circundavam a granja, avaliei até que ponto a casa resistiria ou conseguiria se manter impermeável àquele aguaceiro, enfim, agarrei-me a essas e outras banalidades como um náufrago a um tonel flutuante. Mas uma hora depois, apesar dos meus esforços, irmã Geovana se apossou de mim como uma doença incurável. Escutava sua voz, sentia nos cabelos a maciez de suas mãos, a tristeza que um dia transferira de sua boca para a minha e que agora me umedecia os lábios. Em suma: minhas lembranças se materializavam de forma avassaladora.
De repente, levado por um súbito descontrole, abandonei a varanda e saí feito um louco pela granja, chutando a água que me impedia de correr, golpeando as árvores à minha frente, arrancando flores cuja beleza me parecia agora uma afronta à minha dor e amaldiçoando aquela que me acenara com a perspectiva de um futuro comum que jamais se cumpriria. Deus, que inventara o amor, não escapou à minha cólera - como naquela noite no terraço do convento - e contra Ele dirigi as piores ofensas, como se assim agindo pudesse amenizar o sofrimento que minha imaturidade impedia de suportar com resignação. Quando, por fim, se esgotaram tanto o meu fôlego como minha capacidade de inventar novas injúrias, tombei de quatro como um animal agonizante e nessa ridícula postura permaneci até meus músculos amolecerem, quando então mergulhei no charco.
Incapaz de compreender o que me acontecia, teria morrido afogado não tivesse monsenhor Flávio me agarrado pelos cabelos e, dando mostras de uma imprevista energia, me arrancado dali. Como disse há pouco, ele estava nos fundos da casa fazendo faxina e por sorte me vira passar feito um alucinado. Imaginando que algo de grave deveria estar acontecendo, resolveu me seguir. Devido ao defeito pernal, só pôde fazê-lo a uma certa distância, felizmente não tão grande que o impedisse de chegar a tempo de evitar minha morte. Conseguindo levantar-me da descomunal poça em que mergulhara, amparou-me até a casa, em cuja varanda nos estiramos, ambos exaustos. Dessa vez quem chorava amargamente era eu, mas monsenhor teve o bom senso de aguardar que se esgotasse o meu pranto, para então manter comigo o seguinte diálogo:
- Você acredita em premonições, Gabriel?
- Acredito, monsenhor...embora todas as que tive até hoje tenham sido péssimas.
- E você acha que elas se dão de forma casual ou revelam um desejo íntimo, profundo, adormecido no nosso inconsciente?
- Não sei, monsenhor...eu desconheço os mecanismos que regem a nossa mente. Mas se for verdade que as premonições são o reflexo de um desejo, então o meu inconsciente só nutre a meu respeito as piores intenções.
Nós não estávamos nos olhando, portanto não pude avaliar a reação de monsenhor a essa afirmativa. Em todo caso, depois de um breve silêncio, ele prosseguiu:
- É engraçado...mas hoje, assim que acordei, tive a intuição de que você teria um dia muito feliz.
- Pois eu tive uma intuição diametralmente oposta! - retruquei, erguendo-me nos cotovelos. - E pelo visto estava certo...
- O dia mal começou, Gabriel...-retorquiu, imitando minha postura.
- Eu sei...- e tornei a me estirar. - Mas tenho certeza de que a única coisa que poderia realmente me fazer feliz, hoje, não vai acontecer. Seria bom demais...
- Quem sabe?
Monsenhor se sentou e então eu pude vê-lo. Sua expressão denotava tamanha confiança que por um momento acreditei que o milagre se daria. Interessante figura, monsenhor Flávio: seu desespero e sua esperança se manifestavam com idêntico vigor. Ele, nesse instante, irradiava tanta certeza, tanta fé e, mais do que isso, tanta vontade de que eu fosse feliz que novamente me descontrolei e comecei a soluçar. Mais uma vez monsenhor aguardou que eu me acalmasse, sem pronunciar uma única palavra ou esboçar qualquer gesto. E no entanto eu o sentia todo tempo ao meu lado, presente, amigo. Quando tornei a olhá-lo, ele estava encostado à grade de madeira que limitava a varanda, olhando absorto a chuva que ainda caía, mas já com menor intensidade.
- O temporal se vai, meu amigo. É um bom sinal.
- Monsenhor...- falei, acercando-me dele - que a chuva caia ou deixe de cair, isso não altera nada!?
- Engano seu, Gabriel...- retrucou, olhando-me fixamente. - É imprescindível que pare de chover. Senão os caminhos se tornam impraticáveis.
Sua resposta me encheu de perplexidade. Que estaria monsenhor pretendendo dizer? Meu coração começou a bater mais forte, enquanto eu tentava desvendar o real sentido de suas palavras. Ele sustentou meu olhar com amesma serenidade e confiança anteriores, mas percebi em sua expressão o sorriso típico daquele que, mesmo conhecendo o segredo do outro, se abstém de explicitá-lo. Mas...seria a minha alma assim tão fácil de ser devassada? Não era possível que ele tivesse detectado o motivo de minha angústia, a menos que...
Foi então que para mim tudo se tornou claro. Ele ouvira meus gritos, portanto sabia do meu amor por irmã Geovana. Sua intuição, na verdade, não passava de um ardil que ele utilizara para tocar no assunto. Assim, ainda que movido pelas melhores intenções, ele me mentira e isso era grave. Afantando-me um pouco, disse:
- Essa história de premonição não passa de um blefe. O senhor ouviu meus greitos, nos quais o nome de uma determinada pessoa foi inúmeras vezes invocado. Agradeço sua intenção de me reconfortar, como sou grato por ter salvo a minha vida. Mas o senhor poderia ter ido direto ao assunto, me privando de escutar um preâmbulo totalmente dispensável!
Monsenhor ouviu esse breve e ardoroso discurso de forma impassível. Quando o concluí, se aproximou de mim e disse, com toda a calma:
- O nosso pacto de confiança absoluta ainda se mantém de pé?
- De minha parte, sim. Por quê?
- E se eu disser que a chuva torrencial que caía me impediu de compreender uma única palavra que você proferiu, você acreditaria?
- Só se o senhor jurar! - retorqui, secamente.
- A confiança dispensa juramentos. O essencial é a palavra dada - ajuntou, com firmeza.
À minha frente se achava um homem a quem eu fizera uma proposta, prontamente aceita, que me parecera a única que nos permitiria continuar convivendo em paz. Entretanto, na primeira ocasião em que sua consistência era posta à prova, eu vacilava. Não que estivesse arrependido de tê-la feito, apenas nunca vivera uma situação em que precisasse confiar cegamente em alguém.Isso me assustava. Não se tratava apenas de ceder, mas de aceitar sem qualquer restrição que monsenhor não estivesse mentindo. A manutenção de nosso pacto dependia disso, assim como nossa amizade.
Quando não suportei mais a urgência de seu olhar, afastei-me um pouco e fitei o horizonte. A chuva, nesse momento, já cessara e alguns raios de sol se infiltravam, atrevidos, por entre as nuvens que o vento dispersava. A natureza alterava seu humor, bania a própria angústia. Dentro de poucos minutos, os animais abandonariam seus refúgios e tornariam a caminhar pelos campos. As aves dançariam num céu sem nuvens e todos os seres dotados de vida haveriam de festejar, cada qual à sua maneira, a paz que de novo se instalava.
Pouco a pouco, esse espetáculo foi exercendo sobre mim uma poderosa influência e tal como o vento fizera com as nuvens, acabou afastando do meu coração toda a incerteza que o oprimia. Finalmente, quando tornei a olhar para monsenhor Flávio, já não tinha mais qualquer dúvida quanto à resposta que lhe daria. Curiuosamente, não senti nenhuma vontade de verbalizar a confirmação de nosso pacto. Nossa cumplicidade era evidente e as palavras, portanto, dispensáveis.
Monsenhor e eu continuamos na varanda, observando o fantástico espetáculo que a natureza nos oferecia. Pouco nos importamos com nossas roupas encharcadas. O essencial era apreciar as cores, os reflexos, as transparências, as infinitas gradações tonais que se davam no firmamento, que parecia empenhado em nos demonstrar sua incrível capacidade de mutação. Por volta das seis horas o céu se encheu de diamantes e só então voltamos a conversar.
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terça-feira, 19 de outubro de 2010
Os cegos
de Michel de Ghelderode
tradução de Aníbal Machado
PERSONAGENS:
De Witte
De Strop
Den Os
Lamprido (o caolho, rei do país dos fossos)
CENÁRIO:
Uma estrada em Brabante, perto de uma grande cidade.
(Ouve-se um canto. Peregrinos aproximam-se, pela estrada. É bastante lento o canto, se bem que entoado por homens de boa saúde. Os peregrinos são cegos que avançam, tateando com um bastão e segurando-se um ao outro pela ponta do casaco. Eis seu canto de marcha: "Congaudeant catholici retentur vivis celivi. Die ista.")
De Witte - E agora? Por mim eu paro! Se a nossa canção de peregrinos agrada a Deus, não comove as pedras do caminho. Meus pés estão sangrando e tenho a garganta seca que nem uma cratera.
De Strope - É preciso parar. Quando um de nós para, os três devemos parar; e quando um canta, devemos cantar; e quando um anda, andamos os três...Que destino!
Den Os - Que destino! Caminhar numa estrada que não enxergamos o fim, cantar uma lamentação em latim que não entendemos! Companheiros de miséria, proponho gemer os três com todas as nossas forças. Talvez alguém nos ouça, lá pelas nuvens ou na terra. Vamos gemer! Miserere!
Os Três - Miserere! Miserere! (Desafinados)
A Voz (Ao longe) - Miserere!
De Witte - Vocês ouviram? (Silêncio, ouvindo) Mais nada.
De Strope - Parecia que estava ouvindo...É a fome e a sede, a sede principalmente que nos perturba os sentidos.
Den Os - Eu ouvi. Sabem o que é? O eco. Vou experimentar: ou é o diabo que faz troça de nós e não responderá, ou então é o eco, que não mente e responde. Porque vou provocá-lo religiosamente.
De Witte - Sim, cante a missa para ele.
Den Os (Canta) - Kyyyy...
Os Três - Vamos escutar.
A Voz (ao longe, concluindo o cantochão) - Kyyyrie eleison...
De Witte - Está se vendo que não é coisa do diabo! É o eco, um eco de verdade, na certa um eco de um convento!
Den Os - Ah! Se esse eco quisesse nos dar uma esmola, ou pelo menos nos arranjar um canecão de cerveja escura!
De Strop - Não percam a esperança! Nosso sofrimento, nossa fome, nossa sede vão acabar, eu sei. É que nisso eu enxergo melhor que vocês.
De Witte - Mentiroso duas vezes! Você nasceu tão cego como nós.
Den Os - Mentiroso três vezes! Você é o mais cego de nós três!
De Strop - Amigos da minha dor, fiquem sabendo: já não estamos longe de Roma!
Den Os - Oh! Oh! Oh!
De Strop - Não sentiram que o sol ficou mais quente? Faz sete semanas que andamos. Vejam, ainda agora ouvimos um eco que canta missa...Em Flandres, para falar a verdade, não existe eco: tudo é chato, tudo é plano...Nas montanhas, sim, existem ecos. Estamos nas montanhas! E esse pintor que nos pintou faz pouco, que esteve na Itália, não disse que devíamos atravessar as montanhas? Como se chamava o pintor? Aquele esquisito, que nos deu um florim?
De Witte - Acho que era um tal de Brueghel.
De Strop - Esse mesmo, Brueghel! Ele disse que passando as montanhas já não estávamos longe de Roma!
Den Os - Disse também que podíamos andar sem medo nem receio, que de qualquer jeito acabávamos chegando, porque todos os caminhos vão dar em Roma.
De Strope - Aleluia! Vamos ver o Papa em pessoa, o Papa que nos vai fazer um milagre: dar-nos de novo nossos olhos!
De Witte - Aleluia! Vamos ver um montão de maravilhas...Ou então não veremos nada! O certo é que Roma é a cidade mais mirífica da Cristandade, e que lá beberemos até não poder mais, comeremos à farta, e dormiremos e dançaremos...Sei, de boa fonte, que esses romanos são de natural alegre e amigos dos prazeres. E nunca mais voltaremos para Flandres. Eu me planto nos degraus da Basílica, e acabo meus dias, ao sol.
De Strop - Eh! mau paroquiano! Faremos o que o Santo Papa nos mandar fazer!
Den Os - Quem sabe se ele não quer que a gente dê uma chegadinha até Jerusalém?
De Witte - Ou quem sabe, depois de nos ter olhado bastante, nos aconselha a voltar para o nosso país?
De Strop - Silêncio! Abram depressa os ouvidos! (Ouve-se um carrilhão longínquo)
Den Os - Agora sim! Sinos numa torre! Os sinos de Roma!
De Witte - Você está doido! É um carrilhão! E toca uma música que eu conheço, uma canção que em nossa terra se canta nos mercados.
De Strop - Vou dizer a vocês a verdade. É o célebre carrilhão de Roma! Como o Papa soube que três peregrinos flamengos estavam chegando, mandou tocar uma ária de Flandres, em nossa honra. Vejam só!
Os três (cantando a ária com o carrilhão) - La-la...la...bing...bong...(Gritando) Tocai, sinos benditos! Tocai para os que vêm de Flandres! Aqui estamos! Viva Roma e suas igrejas!
De Strop - Como dói ouvir, em terra estranha, os cantos de nossa velha pátria!
De Witte - Até parece o carrilhão de Bruges, onde nasci.
Den Os - Ou melhor, o do altivo campanário de Gand, minha nobre cidade.
De Strop - É tal e qual o de Antuérpia, a riquíssima, onde vi a luz do dia...(Choram os três sem nenhuma harmonia)
A Voz (ao longe, rindo às gargalhadas) - Ah! Ah! Ah!
De Witte - Escutem! Estão rindo no horizonte! Que nação maravilhosa esta Itália! Enquanto choramos, os ecos riem para os anjos! (Riem)
De Strop - Esse humor é que é admirável! Contemplem estes altos cimos nevados, donde vamos descobrir as cúpulas e os campanários da Cidade Eterna.
Den Os - Antes de mais nada, sintam estes perfumes estranhos. As flores têm cheiro de incenso, garanto!
De Witte - E vejo num relógio de sol que já é tempo de a gente se por a caminho. Quem vai à frente? Eu! Eu quero ser o primeiro a entrar na cidade mística.
Den Os - Serei eu! Nisto vejo melhor que vocês!
De Strop - Por que não eu, o menos cego dos três?
Den Os - Vamos!
De Witte - Seguremo-nos pelo casaco e batamos os cajados em cadência. (Caminham e cantam "Plenus pulchris caminibus studeat atque cantibus die ista").
A Voz - Die ista...
De Witte - Ué! O eco já não tem a mesma voz. Em que ponto cardeal está agindo agora?
De Strop - Será que estamos voltando, em vez de ir para Roma?
Den Os - Seria terrível! Acho bom interrogar o eco. Se é que ele sabe latim, deve saber geografia. Eu me encarrego disto. (Solenemente) Senhor Eco, digne-se a responder a três cegos que procuram seu caminho. Onde está, eco sutil?
A Voz de Lamprido - Numa árvore da qual descerei para ser-lhes agradável. Sou uma voz que tem patas e chegarei até vocês.
De Witte - Bem que eu pressentia, é um homem! Tanto melhor, ele nos dará esmolas. Vejo-o que vem chegando; um grandalhão, de chapéu redondo.
Den Os - É um pequeno, de chapéu quadrado.
De Strop - Calem-se! É um grande que ficou pequeno, porque é corcunda, nem mais nem menos, e o chapéu dele não passa de um boné de medalhas!
Lamprido (entrando) - Aqui estou, minha gente.
Os Três (tomando ares de mendigo e salmodiando em falsete) - Aqui está o bondoso cristão! Tende piedade de pobres ceguinhos, grandes pecadores! Piedade de calamitosos peregrinos, peregrinando neste vale de lágrimas! Tende piedade de nós!
Lamprido - Piedade tenho de cegos pecadores peregrinando. (ri)
Den Os - Por que ri? (Furioso) Quem é você?
Lamprido - Sou D. Lamprido, rei do país dos fossos, homem sábio que fica pendurado numa árvore em vez de caminhar tolamente para uma Roma onde vocês jamais chegarão. Pedem esmola? Vou dar-lhes maçãs, peras, ameixas, pêssegos, mel, ovos de pata.
De Strop - Nada disso! Queremos dinheiro!
Lamprido - Não o terão, mas posso dar-lhes conselhos e minha ajuda, que é certamente o de que vocês precisam.
De Witte - Não precisamos nem de ajuda nem de conselhos! Por mais cegos que sejamos, os três juntos enxergamos bem claro.
Lamprido - Orgulhosos! Sabem em que lugar estão?
De Witte - Sabemos! Estamos nas altas montanhas, no limiar da campanha romana.
Lamprido - Pois sim! Então escutem!
Den Os - Sim, sim...Somos cegos, não surdos. É o carrilhão de Roma!
Lamprido - Inocentes! Estão no país dos fossos. É preciso acreditarem em mim. Porque, sendo caolho, tenho a vantagem de ver com um olho; mas um só olho basta. Há muitos cegos no país dos fossos, onde sou rei, eu, caolho clarividente.
Os três (sem arrebatamento) - Iii! Ii! É um aleijado! Ha! Ha! E diz que é clarividente! Hi! Hi! E acha que não estamos perto de Roma!
Den Os - Vai-te embora, rei caolho! Não queremos saber nada de ti. És um farsante e teu país dos fossos não existe! Nossos longos cajados têm olhos e nos descrevem os aspectos das campinas. Sai daqui ou nós te batemos!
Os Dois Outros - Vamos dar nele, sim! (Os três dão cajadadas em todas as direções)
De Strop - Quem me bate?
Den Os - Assassino! Você está batendo em mim!
De Witte - Estão nos batendo! Acudam!
Lamprido - Ó trágico engano! Batem uns nos outros e se desancam! Batam à vontade, meus ceguinhos! Mas..o que? Pararam? Sim, sejam pacíficos. Agora escutem! Vou fazer-lhes uma caridade.
Os Três - Tende piedade, piedade dos pobres ceguinhos condenados a peregrinar pelos seus pecados.
Lamprido - Nem um vintém! Nem um tostão roído! O hálito de vocês bem me diz que adoram a pinga. Ouçam-me! Vou, caridosamente, desviá-los da desgraça iminente. (Silêncio) Os três escutam boquiabertos). O sol vai se por, as brumas sobem, violáceas...Há semanas que os vejo passar e repassar por estes caminhos, que de maneira alguma levam a Roma...Vocês não deixaram Brabante, e os sinos que ouvem são os da torre de São Nicolau, de Bruxelas. Pela minha única vista, avisto daqui os muros da cidade, as torres de Santa Gúdula e o famoso São Miguel Guerreiro, todo dourado, em cima da flexa de sua torre de pedra.
Den Os - É feio caçoar de três miseráveis que não enxergam!
De Witte - Está mentindo para nós. Não é meio-dia. E já faz semanas que deixamos os Países Baixos.
Den Strop - Tome cuidado, Lamprido! Você é um malvado! Denunciaremos você ao Papa! Compadres, não será algum bandido de estradas que vai cortar nossos tornozelos? Senhor!
Lamprido - Pela última vez lhes digo: estão no país dos fossos e a estrada é toda cheia de pântanos e prados inundados. Um passo em falso e desaparecerão! Dentro em pouco descerão as trevas. Vou tomá-los pela mão e conduzí-los ao refúgio da abadia, onde passarão a noite. Eis uma oportuna caridade, e a única que eu quero fazer.
De Witte - Acabemos com isto! A caminho! Deixemos esse velhaco com seus disparates!
De Strop - Embora cegos, temos dignidade! Acha que vamos aceitar auxílio de um caolho? Havemos de entrar em Roma, ainda esta noite!
Lamprido - Pois vão! Entrem em Roma! Mas tenham cuidado de, antes, recomendar suas almas e seus corpos à Providência! Cem vezes cegos aqueles que não querem acreditar no caolho! (Fica aborrecido) Todos os caminhos levam à morte! (Zombando) É ainda uma vaidade entre todas, querer bem ao próximo! Prossigam!
Os Três - Caminhemos.
De Strop - Adeus, caolho! E obrigado pela esmola!
Den Os - Adeus, rei dos fossos, rei das rãs e dos batráquios!
De Witte - Adeus, eco asneirento! Trepa de novo na tua árvore e prega às corujas! Chegou a nossa vez, amigos. Para adiante! E segurem o meu casaco.
Den Os - Eu seguro o casaco, segura o meu. Quem vai à frente?
De Strop - Para o Oriente! Direto!
Lamprido - Vocês estão indo para o Ocidente! Direitinho para a lama fétida, para o nada! Sigam!
Os Três - Honra aos gloriosos peregrinos de Flandres! (Avançam, afastando-se, e o canto ressoa) Haec este dies laubadilis divina luce nobilis...(O canto se interrompe) Socorro! Não me empurrem! Não me puxem! Lamprido! Socorro! É a água! Misericórdia! Estamos afundando...Eu me afogo! Jesus salvai-me! (Gritos ainda ofegos, e as vozes se extibguem).
Lamprido - Nada posso fazer por eles! Os fossos são tão profundos! Não cantarão mais os cegos! Acabou-se o seu caminho...Descansem em paz, meus irmãos, no velho barro de que todo mortal é formado. A noite avança. Vou ganhar de novo a minha árvore onde, por entre os pássaros adormecidos, rezarei por vossas almas cegas, pobres ceguinhos. Amém! (Lamprido sai. O carrilhão soa alegremente nos confins do crepúsculo).
FIM
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Esta peça está publicada na revista Cadernos de Teatro nº 68/1976/edição já esgotada.
de Michel de Ghelderode
tradução de Aníbal Machado
PERSONAGENS:
De Witte
De Strop
Den Os
Lamprido (o caolho, rei do país dos fossos)
CENÁRIO:
Uma estrada em Brabante, perto de uma grande cidade.
(Ouve-se um canto. Peregrinos aproximam-se, pela estrada. É bastante lento o canto, se bem que entoado por homens de boa saúde. Os peregrinos são cegos que avançam, tateando com um bastão e segurando-se um ao outro pela ponta do casaco. Eis seu canto de marcha: "Congaudeant catholici retentur vivis celivi. Die ista.")
De Witte - E agora? Por mim eu paro! Se a nossa canção de peregrinos agrada a Deus, não comove as pedras do caminho. Meus pés estão sangrando e tenho a garganta seca que nem uma cratera.
De Strope - É preciso parar. Quando um de nós para, os três devemos parar; e quando um canta, devemos cantar; e quando um anda, andamos os três...Que destino!
Den Os - Que destino! Caminhar numa estrada que não enxergamos o fim, cantar uma lamentação em latim que não entendemos! Companheiros de miséria, proponho gemer os três com todas as nossas forças. Talvez alguém nos ouça, lá pelas nuvens ou na terra. Vamos gemer! Miserere!
Os Três - Miserere! Miserere! (Desafinados)
A Voz (Ao longe) - Miserere!
De Witte - Vocês ouviram? (Silêncio, ouvindo) Mais nada.
De Strope - Parecia que estava ouvindo...É a fome e a sede, a sede principalmente que nos perturba os sentidos.
Den Os - Eu ouvi. Sabem o que é? O eco. Vou experimentar: ou é o diabo que faz troça de nós e não responderá, ou então é o eco, que não mente e responde. Porque vou provocá-lo religiosamente.
De Witte - Sim, cante a missa para ele.
Den Os (Canta) - Kyyyy...
Os Três - Vamos escutar.
A Voz (ao longe, concluindo o cantochão) - Kyyyrie eleison...
De Witte - Está se vendo que não é coisa do diabo! É o eco, um eco de verdade, na certa um eco de um convento!
Den Os - Ah! Se esse eco quisesse nos dar uma esmola, ou pelo menos nos arranjar um canecão de cerveja escura!
De Strop - Não percam a esperança! Nosso sofrimento, nossa fome, nossa sede vão acabar, eu sei. É que nisso eu enxergo melhor que vocês.
De Witte - Mentiroso duas vezes! Você nasceu tão cego como nós.
Den Os - Mentiroso três vezes! Você é o mais cego de nós três!
De Strop - Amigos da minha dor, fiquem sabendo: já não estamos longe de Roma!
Den Os - Oh! Oh! Oh!
De Strop - Não sentiram que o sol ficou mais quente? Faz sete semanas que andamos. Vejam, ainda agora ouvimos um eco que canta missa...Em Flandres, para falar a verdade, não existe eco: tudo é chato, tudo é plano...Nas montanhas, sim, existem ecos. Estamos nas montanhas! E esse pintor que nos pintou faz pouco, que esteve na Itália, não disse que devíamos atravessar as montanhas? Como se chamava o pintor? Aquele esquisito, que nos deu um florim?
De Witte - Acho que era um tal de Brueghel.
De Strop - Esse mesmo, Brueghel! Ele disse que passando as montanhas já não estávamos longe de Roma!
Den Os - Disse também que podíamos andar sem medo nem receio, que de qualquer jeito acabávamos chegando, porque todos os caminhos vão dar em Roma.
De Strope - Aleluia! Vamos ver o Papa em pessoa, o Papa que nos vai fazer um milagre: dar-nos de novo nossos olhos!
De Witte - Aleluia! Vamos ver um montão de maravilhas...Ou então não veremos nada! O certo é que Roma é a cidade mais mirífica da Cristandade, e que lá beberemos até não poder mais, comeremos à farta, e dormiremos e dançaremos...Sei, de boa fonte, que esses romanos são de natural alegre e amigos dos prazeres. E nunca mais voltaremos para Flandres. Eu me planto nos degraus da Basílica, e acabo meus dias, ao sol.
De Strop - Eh! mau paroquiano! Faremos o que o Santo Papa nos mandar fazer!
Den Os - Quem sabe se ele não quer que a gente dê uma chegadinha até Jerusalém?
De Witte - Ou quem sabe, depois de nos ter olhado bastante, nos aconselha a voltar para o nosso país?
De Strop - Silêncio! Abram depressa os ouvidos! (Ouve-se um carrilhão longínquo)
Den Os - Agora sim! Sinos numa torre! Os sinos de Roma!
De Witte - Você está doido! É um carrilhão! E toca uma música que eu conheço, uma canção que em nossa terra se canta nos mercados.
De Strop - Vou dizer a vocês a verdade. É o célebre carrilhão de Roma! Como o Papa soube que três peregrinos flamengos estavam chegando, mandou tocar uma ária de Flandres, em nossa honra. Vejam só!
Os três (cantando a ária com o carrilhão) - La-la...la...bing...bong...(Gritando) Tocai, sinos benditos! Tocai para os que vêm de Flandres! Aqui estamos! Viva Roma e suas igrejas!
De Strop - Como dói ouvir, em terra estranha, os cantos de nossa velha pátria!
De Witte - Até parece o carrilhão de Bruges, onde nasci.
Den Os - Ou melhor, o do altivo campanário de Gand, minha nobre cidade.
De Strop - É tal e qual o de Antuérpia, a riquíssima, onde vi a luz do dia...(Choram os três sem nenhuma harmonia)
A Voz (ao longe, rindo às gargalhadas) - Ah! Ah! Ah!
De Witte - Escutem! Estão rindo no horizonte! Que nação maravilhosa esta Itália! Enquanto choramos, os ecos riem para os anjos! (Riem)
De Strop - Esse humor é que é admirável! Contemplem estes altos cimos nevados, donde vamos descobrir as cúpulas e os campanários da Cidade Eterna.
Den Os - Antes de mais nada, sintam estes perfumes estranhos. As flores têm cheiro de incenso, garanto!
De Witte - E vejo num relógio de sol que já é tempo de a gente se por a caminho. Quem vai à frente? Eu! Eu quero ser o primeiro a entrar na cidade mística.
Den Os - Serei eu! Nisto vejo melhor que vocês!
De Strop - Por que não eu, o menos cego dos três?
Den Os - Vamos!
De Witte - Seguremo-nos pelo casaco e batamos os cajados em cadência. (Caminham e cantam "Plenus pulchris caminibus studeat atque cantibus die ista").
A Voz - Die ista...
De Witte - Ué! O eco já não tem a mesma voz. Em que ponto cardeal está agindo agora?
De Strop - Será que estamos voltando, em vez de ir para Roma?
Den Os - Seria terrível! Acho bom interrogar o eco. Se é que ele sabe latim, deve saber geografia. Eu me encarrego disto. (Solenemente) Senhor Eco, digne-se a responder a três cegos que procuram seu caminho. Onde está, eco sutil?
A Voz de Lamprido - Numa árvore da qual descerei para ser-lhes agradável. Sou uma voz que tem patas e chegarei até vocês.
De Witte - Bem que eu pressentia, é um homem! Tanto melhor, ele nos dará esmolas. Vejo-o que vem chegando; um grandalhão, de chapéu redondo.
Den Os - É um pequeno, de chapéu quadrado.
De Strop - Calem-se! É um grande que ficou pequeno, porque é corcunda, nem mais nem menos, e o chapéu dele não passa de um boné de medalhas!
Lamprido (entrando) - Aqui estou, minha gente.
Os Três (tomando ares de mendigo e salmodiando em falsete) - Aqui está o bondoso cristão! Tende piedade de pobres ceguinhos, grandes pecadores! Piedade de calamitosos peregrinos, peregrinando neste vale de lágrimas! Tende piedade de nós!
Lamprido - Piedade tenho de cegos pecadores peregrinando. (ri)
Den Os - Por que ri? (Furioso) Quem é você?
Lamprido - Sou D. Lamprido, rei do país dos fossos, homem sábio que fica pendurado numa árvore em vez de caminhar tolamente para uma Roma onde vocês jamais chegarão. Pedem esmola? Vou dar-lhes maçãs, peras, ameixas, pêssegos, mel, ovos de pata.
De Strop - Nada disso! Queremos dinheiro!
Lamprido - Não o terão, mas posso dar-lhes conselhos e minha ajuda, que é certamente o de que vocês precisam.
De Witte - Não precisamos nem de ajuda nem de conselhos! Por mais cegos que sejamos, os três juntos enxergamos bem claro.
Lamprido - Orgulhosos! Sabem em que lugar estão?
De Witte - Sabemos! Estamos nas altas montanhas, no limiar da campanha romana.
Lamprido - Pois sim! Então escutem!
Den Os - Sim, sim...Somos cegos, não surdos. É o carrilhão de Roma!
Lamprido - Inocentes! Estão no país dos fossos. É preciso acreditarem em mim. Porque, sendo caolho, tenho a vantagem de ver com um olho; mas um só olho basta. Há muitos cegos no país dos fossos, onde sou rei, eu, caolho clarividente.
Os três (sem arrebatamento) - Iii! Ii! É um aleijado! Ha! Ha! E diz que é clarividente! Hi! Hi! E acha que não estamos perto de Roma!
Den Os - Vai-te embora, rei caolho! Não queremos saber nada de ti. És um farsante e teu país dos fossos não existe! Nossos longos cajados têm olhos e nos descrevem os aspectos das campinas. Sai daqui ou nós te batemos!
Os Dois Outros - Vamos dar nele, sim! (Os três dão cajadadas em todas as direções)
De Strop - Quem me bate?
Den Os - Assassino! Você está batendo em mim!
De Witte - Estão nos batendo! Acudam!
Lamprido - Ó trágico engano! Batem uns nos outros e se desancam! Batam à vontade, meus ceguinhos! Mas..o que? Pararam? Sim, sejam pacíficos. Agora escutem! Vou fazer-lhes uma caridade.
Os Três - Tende piedade, piedade dos pobres ceguinhos condenados a peregrinar pelos seus pecados.
Lamprido - Nem um vintém! Nem um tostão roído! O hálito de vocês bem me diz que adoram a pinga. Ouçam-me! Vou, caridosamente, desviá-los da desgraça iminente. (Silêncio) Os três escutam boquiabertos). O sol vai se por, as brumas sobem, violáceas...Há semanas que os vejo passar e repassar por estes caminhos, que de maneira alguma levam a Roma...Vocês não deixaram Brabante, e os sinos que ouvem são os da torre de São Nicolau, de Bruxelas. Pela minha única vista, avisto daqui os muros da cidade, as torres de Santa Gúdula e o famoso São Miguel Guerreiro, todo dourado, em cima da flexa de sua torre de pedra.
Den Os - É feio caçoar de três miseráveis que não enxergam!
De Witte - Está mentindo para nós. Não é meio-dia. E já faz semanas que deixamos os Países Baixos.
Den Strop - Tome cuidado, Lamprido! Você é um malvado! Denunciaremos você ao Papa! Compadres, não será algum bandido de estradas que vai cortar nossos tornozelos? Senhor!
Lamprido - Pela última vez lhes digo: estão no país dos fossos e a estrada é toda cheia de pântanos e prados inundados. Um passo em falso e desaparecerão! Dentro em pouco descerão as trevas. Vou tomá-los pela mão e conduzí-los ao refúgio da abadia, onde passarão a noite. Eis uma oportuna caridade, e a única que eu quero fazer.
De Witte - Acabemos com isto! A caminho! Deixemos esse velhaco com seus disparates!
De Strop - Embora cegos, temos dignidade! Acha que vamos aceitar auxílio de um caolho? Havemos de entrar em Roma, ainda esta noite!
Lamprido - Pois vão! Entrem em Roma! Mas tenham cuidado de, antes, recomendar suas almas e seus corpos à Providência! Cem vezes cegos aqueles que não querem acreditar no caolho! (Fica aborrecido) Todos os caminhos levam à morte! (Zombando) É ainda uma vaidade entre todas, querer bem ao próximo! Prossigam!
Os Três - Caminhemos.
De Strop - Adeus, caolho! E obrigado pela esmola!
Den Os - Adeus, rei dos fossos, rei das rãs e dos batráquios!
De Witte - Adeus, eco asneirento! Trepa de novo na tua árvore e prega às corujas! Chegou a nossa vez, amigos. Para adiante! E segurem o meu casaco.
Den Os - Eu seguro o casaco, segura o meu. Quem vai à frente?
De Strop - Para o Oriente! Direto!
Lamprido - Vocês estão indo para o Ocidente! Direitinho para a lama fétida, para o nada! Sigam!
Os Três - Honra aos gloriosos peregrinos de Flandres! (Avançam, afastando-se, e o canto ressoa) Haec este dies laubadilis divina luce nobilis...(O canto se interrompe) Socorro! Não me empurrem! Não me puxem! Lamprido! Socorro! É a água! Misericórdia! Estamos afundando...Eu me afogo! Jesus salvai-me! (Gritos ainda ofegos, e as vozes se extibguem).
Lamprido - Nada posso fazer por eles! Os fossos são tão profundos! Não cantarão mais os cegos! Acabou-se o seu caminho...Descansem em paz, meus irmãos, no velho barro de que todo mortal é formado. A noite avança. Vou ganhar de novo a minha árvore onde, por entre os pássaros adormecidos, rezarei por vossas almas cegas, pobres ceguinhos. Amém! (Lamprido sai. O carrilhão soa alegremente nos confins do crepúsculo).
FIM
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Esta peça está publicada na revista Cadernos de Teatro nº 68/1976/edição já esgotada.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Eugène Ionesco e Bob Wilson
Quando Eugène Ionesco - romeno naturalizado francês, Papa do Teatro do Absurdo, membro da Academia Francesa, e autor de "A cantora careca" e "A lição" que, juntas, formam o espetáculo de carreira mais longa na história do teatro (mais de 20 anos em cartaz no mesmo espaço, o Teatro Huchette, Paris) - encontra Bob Wilson - americano, navaiorguino, e autor do "Teatro de 24 horas" e que São Paulo já teve uma mostra no Festival Internacional de Teatro, em 1976) -, o nonsense, o absurdo, e a loucura saem de cena para dar lugar a um diálogo cândido, lógico e racional. O tema, obviamente, é o Teatro.
* * *
BOB WILSON: Gostamos muito de sua obra na América. Você e Beckett são praticamente os únicos autores clássicos cujas peças foram encenadas na Broadway.
IONESCO: Você sabe, com exceção de "Rinoceronte", minhas peças foram off Broadway, e mesmo off off Broadway, ou então nas universidades, onde os estudantes se interessam ativamente pelos problemas novos da literatura e do teatro.
BW: Há uma falta alarmante de talentos no novo teatro dos Estados Unidos. Temos muito poucas salas subvencionadas. Faltando uma estrutura de festival como a que vocês têm na Europa, que permite divulgar espetáculos que, de outra forma, não viriam à luz.
IONESCO: Mas o Festival de Nancy não produziu grande coisa na França, pois, no final das contas, ficou restrito a Nancy.
BW: Foi em Nancy que se montou pela primeira vez "O olhar do surdo" na versão integral de sete horas. Pretendiam divulgar obras que pareciam anormais no teatro tradicional.
IONESCO: Fiquei deslumbrado com esta peça. Pensava que não fosse verdade, que não se pudesse fazer isso no teatro. É uma obra que ultrapassa tanto o cotidiano como a história individual e a política. Ela me parece como uma visão global da história da humanidade e até da história cósmica, com esta esperança insensata no final, quando o mundo renasce numa nova beleza. Alguém que não você pode remontar esta peça? Você tem cadernos, notas, ou é o único a poder dirigi-la?
BW: Tenho algumas anotações, mas são tão pessoais que outra pessoa teria dificuldade em utilizá-las. E além disso é uma obra construída a partir de pessoas que encontrei nessa época, como esse jovem negro cego. Ela está muito ligada aos atores.
IONESCO: Eu bem senti que era um momento único. É isso que faz sua beleza e infelicidade, em certo sentido.
BW: Você começou como autor de teatro?
IONESCO: Sim. Mas percebo até que ponto meu teatro é pouco teatral comparado com o seu, como é ligado à literatura (rindo): fui prisioneiro do ensino que me deram, o qual dividia a literatura em três gêneros: épico, lírico e dramático. O teatro nada mais é que tudo isso; é um sistema de expressão completamente particular, e foi com você que aprendi isso.
BW (constrangido): No que você trabalha atualmente?
IONESCO: Comecei uma nova peça. E embora tenha visto as suas peças, não me sinto desencorajado a escrevê-la (rindo) e recomecei porque é preciso fazer alguma coisa. Você trabalha nhesse momento em Paris?
BW: Sim, nos estúdios de vídeo de Beaubourg. Estou fascinado com as possibilidades de trocas que a estrutura arquitetônica permite entre as disciplinas. Tal como é concebido, o museu permite uma imensa abertura social. É o centro cultural da cidade, um pouco como as cidades que Paolo Soleri, um arquiteto do Arizona, construiu para daqui a duzentos ou trezentos ano. Ele introduz sempre um elemento cultural no centro e depois cerca este núcleo com as outras atividades da cidade, constituídas pela vida privada, a vida pública, os escritórios etc. Eu realizo nestes estúdios 200 episódios em vídeos de 30 segundos, sem palavras, para as televisões francesa, italiana e alemã. Mas como não há problema de língua, pode-se projetá-los em qualquer lugar.
IONESCO: Você acredita que, em 30 segundos, os telespectadores terão tempo de fixar isso?
BW: Sim, porque a televisão não é um instrumento como os outros. É como uma janela numa casa, completamente inserida na vida cotidiana: pode-se falar ao telefone, comer, fazer amor com o aparelho ligado.
IONESCO: Então é gravado pelo inconsciente e vem à superfície de modo mais sutil e insinuante.
BW: Creio que um episódio poético projetado no meio de uma partida de futebol pode mudar uma impressão mental em alguns instantes; minhas experiências sobre a duração cobrem agora uma gama muito ampla, porque se estende de 30 segundos a 24 horas. E em meio minuto pode-se dar uma enorme quantidade de informações, de impressões, pode-se representar uma vida completa. Mas é difícil incomodar pessoas por 30 segundos.
IONESCO: Eu mesmo fiz cenas muito curtas em minha nova peça, numa passagem cada vez mais fechada, hermética, a linguagem dos sonhos. É impossível num tempo mais longo e seguido não fazer ideologia, apesar de toda a boa vontade que se tem. E o que mais desejo é evitar explicar o mundo.
BW: Iniciada uma peça, como você a desenvolve?
IONESCO: Parece-me escutar uma réplica ou então parto de uma imagem cênica e então a desenvolvo.
BW: Você mesmo dirige suas peças?
IONESCO: Eu brigo com o diretor. Você briga consigo mesmo. (risos).
BW: Você não tem medo de ser mal interpretado?
IONESCO: Pode, é claro, haver conflitos se o diretor não compreende minha linguagem ou se as posições ideológicas entre o realizador e eu próprio são diferentes. Mas quando há compreensão, creio que a compreensão é justa. Aliás, minhas peças são muito simples.
BW: Você emprega, contudo, em sua nova peça, uma linguagem hermética...
IONESCO: Espero que o público queira me acompanhar.
BW: Você está inquieto?
IONESCO: Sim.
BW: Contudo, "A lição" é representada há 21 anos...
IONESCO: Isso pode efetivamente parecer-se com um penhor de fidelidade.
BW: A peça evoluiu, desde a sua criação?
IONESCO: Degradou-se. No início era um texto bufo intepretado de modo muito austero; agora os comediantes são cúmplices dos espectadores, criam efeitos, não têm mais a austeridade do início, interpretam um texto bufo enfatizando a pilhéria. Minha ambição era "dessignificar" a linguagem e finalmente esta peça adquiriu toda a espécie de significações que não me passavam pela cabeça: paródia do teatro, crítica à linguagem pequeno-burguesa...Quanto à "Cantora careca", transformou-se completamente numa peça de bulevar.
BW: A leitura das críticas também pode influenciar o comportamento dos atores. Durante a representação de "O olhar do surdo", os comediantes leram em alguns jornais que representavam lentamente, quando nós havíamos adotado um ritmo lento, pouco tradicional, mas que excluía a idéia de lentidão cinematográfica. Eles não mais reencontraram a seguir seu ritmo inicial.
IONESCO: Nunca devemos ler as críticas.
BW: Você as lê?
IONESCO: Sim.
BW: E se elas são negativas?
IONESCO: Não tem importância. Quando J. J. Gautier disse, no início de minha carreira que, ou eu era um trapaceiro ou um idiota, eu lhe respondi que talvez fosse um idiota, mas não era trapaceiro. (risos).
BW: Durante sua série de conferências nos Estados Unidos, uma pergunta voltava sempre: "Por que você entrou na Academia Francesa?" O que é que, na sua opinião, provoca esse espanto?
IONESCO: As pessoas não sabem o que é a Academia Francesa. Imaginam que é uma instituição muito convencional, ao passo que é um clube de solitários de vanguarda. Temos entre nós Lévi-Strauss, que criou uma nova Etnologia, De Broglie, que é um dos fundadores da Física Moderna e sobretudo o Sr. Wolf, particularmente interesssante porque é um biólogo que fabrica monstros, animais com cinco patas ou com duas cabeças. Mas não os vejo com freqüência, pois só raramente vou às reuniões. E, sobretudo, quando volto lá após cinco ou seis meses, há sempre uma dezena de mortos.
BW: Você tem dificuldade em aprender os nomes dos novos membros?
IONESCO: Sim, tenho...(rindo)
BW: Você foi ao teatro, na América?
IONESCO: Sim, principalmente em Nova Iorque vi uma peça que lembrava terrivelmente sua atmosfera. Esqueci o nome do autor, mas, como dizia Roger Blin: "O olhar do surdo não chegou aos ouvidos de um cego". (risos). Você formou uma escola em Nova Iorque; as pessoas se inspiram em você. Ouvi dizer que havia também tentativas de renovação do teatro em Los Angeles e do cinema fora de Hollywood. Pergunto-me se o futuro cultural da América não estará na Califórnia. O que você acha disso?
BW: Não gosto da Califórnia...(risos). O sol brilha, as pessoas são belas, com boa saúde. Prefiro as cidades sujas, feias, agressivas; trabalho melhor em Nova Iorque. É mais estimulante.
IONESCO: Eu tinha a impressão que Nova Iorque era menos trágica. As pessoas se agitam e, agitando-se, extravasam suas angústias. Na Califórnia, tem-se a impressão que as pessoas dissimulam isso sob uma aparência sorridente, esperando o fim do mundo. Mas é verdade que Nova Iorque é bem você, é a história do mundo tal como ela se faz. Vejo a Califórnia sobretudo como uma região para escritores como Beckett, uma região onde os autores morrem tranqüilamente, assim, como num sonho.
BW: O que lhe parece característico da juventude americana?
IONESCO: Achei os jovens extremamente acolhedores, escutam com muita atenção, tanta atenção que chega a ser constrangedor, porque acho que eles estavam lá para escutar coisas extremamente importantes, e eu não tenho nada de importante para dizer (risos); mas exagero um pouco, não é nada disso o que eu penso.
BW: O que você pensa exatamente?
IONESCO: Que consegui dizer alguma coisa.
BW: Fale-nos de sua próxima peça. São variações sobre temas obsessivos...
IONESCO: As coisas com as quais eu sonho à noite, sempre as mesmas; me encontro na infância, estou em conflito com meus pais...
BW: Descrevendo suas obsessões você pensa conseguir exorcizá-las?
IONESCO: Nunca pude exorcizar nada, nem o medo da morte, nem nenhuma angústia fundamental. Já que sei fazer literatura, faço literatura com isso. Afinal as angústias não são outra coisa além de materiais com os quais se constrói algo, já que uma obra é uma estrutura. Creio que a angústia é o sentimento fundamental que todos nós temos, é a coisa mais profunda que existe em nós - e a mais autêntica também. Temos razão, aliás, em sermos angustiados, encurralados como estamos entre a vida e a morte: realmente há motivo para se sentir angustiado.
____________________________
Extraído de INTERVIEW, ano 1., 1978. A presente entrevista consta da revista Cadernos de Teatro nº 79/1978, edição já esgotada.
Quando Eugène Ionesco - romeno naturalizado francês, Papa do Teatro do Absurdo, membro da Academia Francesa, e autor de "A cantora careca" e "A lição" que, juntas, formam o espetáculo de carreira mais longa na história do teatro (mais de 20 anos em cartaz no mesmo espaço, o Teatro Huchette, Paris) - encontra Bob Wilson - americano, navaiorguino, e autor do "Teatro de 24 horas" e que São Paulo já teve uma mostra no Festival Internacional de Teatro, em 1976) -, o nonsense, o absurdo, e a loucura saem de cena para dar lugar a um diálogo cândido, lógico e racional. O tema, obviamente, é o Teatro.
* * *
BOB WILSON: Gostamos muito de sua obra na América. Você e Beckett são praticamente os únicos autores clássicos cujas peças foram encenadas na Broadway.
IONESCO: Você sabe, com exceção de "Rinoceronte", minhas peças foram off Broadway, e mesmo off off Broadway, ou então nas universidades, onde os estudantes se interessam ativamente pelos problemas novos da literatura e do teatro.
BW: Há uma falta alarmante de talentos no novo teatro dos Estados Unidos. Temos muito poucas salas subvencionadas. Faltando uma estrutura de festival como a que vocês têm na Europa, que permite divulgar espetáculos que, de outra forma, não viriam à luz.
IONESCO: Mas o Festival de Nancy não produziu grande coisa na França, pois, no final das contas, ficou restrito a Nancy.
BW: Foi em Nancy que se montou pela primeira vez "O olhar do surdo" na versão integral de sete horas. Pretendiam divulgar obras que pareciam anormais no teatro tradicional.
IONESCO: Fiquei deslumbrado com esta peça. Pensava que não fosse verdade, que não se pudesse fazer isso no teatro. É uma obra que ultrapassa tanto o cotidiano como a história individual e a política. Ela me parece como uma visão global da história da humanidade e até da história cósmica, com esta esperança insensata no final, quando o mundo renasce numa nova beleza. Alguém que não você pode remontar esta peça? Você tem cadernos, notas, ou é o único a poder dirigi-la?
BW: Tenho algumas anotações, mas são tão pessoais que outra pessoa teria dificuldade em utilizá-las. E além disso é uma obra construída a partir de pessoas que encontrei nessa época, como esse jovem negro cego. Ela está muito ligada aos atores.
IONESCO: Eu bem senti que era um momento único. É isso que faz sua beleza e infelicidade, em certo sentido.
BW: Você começou como autor de teatro?
IONESCO: Sim. Mas percebo até que ponto meu teatro é pouco teatral comparado com o seu, como é ligado à literatura (rindo): fui prisioneiro do ensino que me deram, o qual dividia a literatura em três gêneros: épico, lírico e dramático. O teatro nada mais é que tudo isso; é um sistema de expressão completamente particular, e foi com você que aprendi isso.
BW (constrangido): No que você trabalha atualmente?
IONESCO: Comecei uma nova peça. E embora tenha visto as suas peças, não me sinto desencorajado a escrevê-la (rindo) e recomecei porque é preciso fazer alguma coisa. Você trabalha nhesse momento em Paris?
BW: Sim, nos estúdios de vídeo de Beaubourg. Estou fascinado com as possibilidades de trocas que a estrutura arquitetônica permite entre as disciplinas. Tal como é concebido, o museu permite uma imensa abertura social. É o centro cultural da cidade, um pouco como as cidades que Paolo Soleri, um arquiteto do Arizona, construiu para daqui a duzentos ou trezentos ano. Ele introduz sempre um elemento cultural no centro e depois cerca este núcleo com as outras atividades da cidade, constituídas pela vida privada, a vida pública, os escritórios etc. Eu realizo nestes estúdios 200 episódios em vídeos de 30 segundos, sem palavras, para as televisões francesa, italiana e alemã. Mas como não há problema de língua, pode-se projetá-los em qualquer lugar.
IONESCO: Você acredita que, em 30 segundos, os telespectadores terão tempo de fixar isso?
BW: Sim, porque a televisão não é um instrumento como os outros. É como uma janela numa casa, completamente inserida na vida cotidiana: pode-se falar ao telefone, comer, fazer amor com o aparelho ligado.
IONESCO: Então é gravado pelo inconsciente e vem à superfície de modo mais sutil e insinuante.
BW: Creio que um episódio poético projetado no meio de uma partida de futebol pode mudar uma impressão mental em alguns instantes; minhas experiências sobre a duração cobrem agora uma gama muito ampla, porque se estende de 30 segundos a 24 horas. E em meio minuto pode-se dar uma enorme quantidade de informações, de impressões, pode-se representar uma vida completa. Mas é difícil incomodar pessoas por 30 segundos.
IONESCO: Eu mesmo fiz cenas muito curtas em minha nova peça, numa passagem cada vez mais fechada, hermética, a linguagem dos sonhos. É impossível num tempo mais longo e seguido não fazer ideologia, apesar de toda a boa vontade que se tem. E o que mais desejo é evitar explicar o mundo.
BW: Iniciada uma peça, como você a desenvolve?
IONESCO: Parece-me escutar uma réplica ou então parto de uma imagem cênica e então a desenvolvo.
BW: Você mesmo dirige suas peças?
IONESCO: Eu brigo com o diretor. Você briga consigo mesmo. (risos).
BW: Você não tem medo de ser mal interpretado?
IONESCO: Pode, é claro, haver conflitos se o diretor não compreende minha linguagem ou se as posições ideológicas entre o realizador e eu próprio são diferentes. Mas quando há compreensão, creio que a compreensão é justa. Aliás, minhas peças são muito simples.
BW: Você emprega, contudo, em sua nova peça, uma linguagem hermética...
IONESCO: Espero que o público queira me acompanhar.
BW: Você está inquieto?
IONESCO: Sim.
BW: Contudo, "A lição" é representada há 21 anos...
IONESCO: Isso pode efetivamente parecer-se com um penhor de fidelidade.
BW: A peça evoluiu, desde a sua criação?
IONESCO: Degradou-se. No início era um texto bufo intepretado de modo muito austero; agora os comediantes são cúmplices dos espectadores, criam efeitos, não têm mais a austeridade do início, interpretam um texto bufo enfatizando a pilhéria. Minha ambição era "dessignificar" a linguagem e finalmente esta peça adquiriu toda a espécie de significações que não me passavam pela cabeça: paródia do teatro, crítica à linguagem pequeno-burguesa...Quanto à "Cantora careca", transformou-se completamente numa peça de bulevar.
BW: A leitura das críticas também pode influenciar o comportamento dos atores. Durante a representação de "O olhar do surdo", os comediantes leram em alguns jornais que representavam lentamente, quando nós havíamos adotado um ritmo lento, pouco tradicional, mas que excluía a idéia de lentidão cinematográfica. Eles não mais reencontraram a seguir seu ritmo inicial.
IONESCO: Nunca devemos ler as críticas.
BW: Você as lê?
IONESCO: Sim.
BW: E se elas são negativas?
IONESCO: Não tem importância. Quando J. J. Gautier disse, no início de minha carreira que, ou eu era um trapaceiro ou um idiota, eu lhe respondi que talvez fosse um idiota, mas não era trapaceiro. (risos).
BW: Durante sua série de conferências nos Estados Unidos, uma pergunta voltava sempre: "Por que você entrou na Academia Francesa?" O que é que, na sua opinião, provoca esse espanto?
IONESCO: As pessoas não sabem o que é a Academia Francesa. Imaginam que é uma instituição muito convencional, ao passo que é um clube de solitários de vanguarda. Temos entre nós Lévi-Strauss, que criou uma nova Etnologia, De Broglie, que é um dos fundadores da Física Moderna e sobretudo o Sr. Wolf, particularmente interesssante porque é um biólogo que fabrica monstros, animais com cinco patas ou com duas cabeças. Mas não os vejo com freqüência, pois só raramente vou às reuniões. E, sobretudo, quando volto lá após cinco ou seis meses, há sempre uma dezena de mortos.
BW: Você tem dificuldade em aprender os nomes dos novos membros?
IONESCO: Sim, tenho...(rindo)
BW: Você foi ao teatro, na América?
IONESCO: Sim, principalmente em Nova Iorque vi uma peça que lembrava terrivelmente sua atmosfera. Esqueci o nome do autor, mas, como dizia Roger Blin: "O olhar do surdo não chegou aos ouvidos de um cego". (risos). Você formou uma escola em Nova Iorque; as pessoas se inspiram em você. Ouvi dizer que havia também tentativas de renovação do teatro em Los Angeles e do cinema fora de Hollywood. Pergunto-me se o futuro cultural da América não estará na Califórnia. O que você acha disso?
BW: Não gosto da Califórnia...(risos). O sol brilha, as pessoas são belas, com boa saúde. Prefiro as cidades sujas, feias, agressivas; trabalho melhor em Nova Iorque. É mais estimulante.
IONESCO: Eu tinha a impressão que Nova Iorque era menos trágica. As pessoas se agitam e, agitando-se, extravasam suas angústias. Na Califórnia, tem-se a impressão que as pessoas dissimulam isso sob uma aparência sorridente, esperando o fim do mundo. Mas é verdade que Nova Iorque é bem você, é a história do mundo tal como ela se faz. Vejo a Califórnia sobretudo como uma região para escritores como Beckett, uma região onde os autores morrem tranqüilamente, assim, como num sonho.
BW: O que lhe parece característico da juventude americana?
IONESCO: Achei os jovens extremamente acolhedores, escutam com muita atenção, tanta atenção que chega a ser constrangedor, porque acho que eles estavam lá para escutar coisas extremamente importantes, e eu não tenho nada de importante para dizer (risos); mas exagero um pouco, não é nada disso o que eu penso.
BW: O que você pensa exatamente?
IONESCO: Que consegui dizer alguma coisa.
BW: Fale-nos de sua próxima peça. São variações sobre temas obsessivos...
IONESCO: As coisas com as quais eu sonho à noite, sempre as mesmas; me encontro na infância, estou em conflito com meus pais...
BW: Descrevendo suas obsessões você pensa conseguir exorcizá-las?
IONESCO: Nunca pude exorcizar nada, nem o medo da morte, nem nenhuma angústia fundamental. Já que sei fazer literatura, faço literatura com isso. Afinal as angústias não são outra coisa além de materiais com os quais se constrói algo, já que uma obra é uma estrutura. Creio que a angústia é o sentimento fundamental que todos nós temos, é a coisa mais profunda que existe em nós - e a mais autêntica também. Temos razão, aliás, em sermos angustiados, encurralados como estamos entre a vida e a morte: realmente há motivo para se sentir angustiado.
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Extraído de INTERVIEW, ano 1., 1978. A presente entrevista consta da revista Cadernos de Teatro nº 79/1978, edição já esgotada.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Teatro/CRÍTICA
"Ponto de fuga"
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As lavas de um vulcão
Lionel Fischer
Embora a princípio possa causar uma certa estranheza, julgo procedente iniciar a crítica do presente espetáculo falando um pouco de música. E mais especificamente de duas obras fundamentais de J. S. Bach. Na primeira, "O Cravo Bem Temperado", o genial compositor criou 48 prelúdios e fugas, sendo um prelúdio e uma fuga para cada tonalidade maior e menor. Na segunda, "A Arte da Fuga", que a morte impediu Bach de completá-la, a intenção era a de criar um conjunto de exemplos das técnicas de contraponto - são 14 fugas, de diferentes formas, mas todas oriundas de um mesmo tema.
Com a introdução acima, minha intenção foi a de estabelecer um paralelo entre a fuga, em seu sentido estritamente musical, e as fugas das quais tantas vezes tentamos nos valer para escapar ao real da vida, para suplantar a dor de existir. No entanto, certas questões são tão implacáveis que às vezes somos induzidos a acreditar que não há escapatória, que nenhum contraponto haverá de compensar determinadas lacunas. Então, só nos restariam duas alternativas: simplesmente enlouquecer ou, através da Arte, buscar alguma forma de novamente se inserir na vida. E é exatamente isto - salvo monumental engano de minha parte - que o autor Rodrigo Nogueira buscou materializar na cena.
Em cartaz no Teatro Gláucio Gill, "Ponto de fuga" gira em torno de uma mulher que, ao assistir a uma peça de teatro, se identifica tanto com um personagem (um músico que perde a capacidade de compor e só consegue ouvir música em seus sonhos) que de certa forma o incorpora, numa desesperada tentativa - consciente ou não - de estabelecer algum tipo de contato com o mundo real, do qual já vinha se afastando há muito tempo. Escrita e dirigida por Rodrigo Nogueira, a obra chega à cena com elenco formado por Cristina Flores (Cristina), Michel Blois (Michel), Luísa Friese (irmã/empregada), Lucas Gouvêa (marido/garoto de programa) e Aline Fanju (amiga/musicista) - estas últimas personagens também são interpretadas por Lilianne Rovaris, às quartas-feiras; mas como assisti ao espetáculo na quinta, só posso avaliar a atuação de Aline.
Mesmo que tenha resumido o enredo da peça, me abstenho de detalhá-lo ainda mais, pois isso privaria o espectador de, em dado momento, perceber o contraponto entre o real e o imaginário. Ainda assim, cumpre ressaltar uma série de aspectos altamente positivos do presente texto, sem dúvida o melhor já escrito por Rodrigo Nogueira.
Além de ter criado ótimos personagens e uma ação que gera um permanente estado de inquietação, o autor se mostra capaz de externar uma angústia que não é apenas sua, mas de todos aqueles que não se contentam com uma existência mediana e previsível, que não se enquadram nos padrões ditados pela moral e os bons costumes, que trazem em si carências e desejos que às vezes sequer conseguem definir com clareza, mas que estão ali, represados, como as lavas de um vulcão que precisam necessariamente eclodir.
Em caso contrário, só lhes restará a loucura - renúncia total à vida - ou a Arte como possibilidade de nela se inserir, como já foi dito. Haveria, também, uma terceira hipótese: encarar a vida como um jogo de cartas marcadas, facultando ao destino a aleatória tarefa de escolher aqueles a quem beneficiaria com a sorte. E é exatamente esta a postura adotada pela maioria: a de aceitar navegar em um barco desprovido de leme, assim renunciando a assumir o papel de protagonista de sua própria história. E é justamente o oposto o que nos propõe Rodrigo Nogueira que, ao escrever este texto, renunciou à adolescência e tornou-se um homem.
Quanto ao espetáculo, este exibe uma dinâmica em total sintonia com o material dramatúrgico. A estranheza e a imprevisibilidade são a tônica. Eventuais momentos de total obscuridade nos obrigam a um mergulho interno, não raro desconfortável, assim como certas pausas nos aclaram conteúdos incapazes de serem expressos através de palavras. Enfim, uma direção brilhante, a qual se soma um irrepreensível trabalho de todo o elenco. A começar pelo da protagonista, Cristina Flores.
Em minha opinião, trata-se de uma das melhores atrizes de sua geração, e não apenas por exibir vastos recursos expressivos. O que me parece fundamental, em Cristina Flores, é sua coragem de se entregar totalmente às personagens que interpreta, criando-as não a partir de maneirismos, mas de uma busca interna muitas vezes, ao que imagino, nada confortável. Mas certamente Cristina Flores sabe que contém tudo que é inerente ao humano. Para o bem ou para o mal. E por não temer confrontar-se consigo mesma, ou ainda que eventualmente temendo esse encontro, dele não abdica. E aí reside toda a diferença entre uma grande atriz e uma atriz essencial. Cristina Flores pertence a este segundo e seleto grupo.
Quanto aos demais atores, todos também se entregam sem relutância à complexa tarefa de materializar personagens de diferentes matizes, mas sempre com o mesmo vigor e sensibilidade.
E aqui retornamos ao contraponto: o drama vivido pelo músico que não consegue compor, assim como o da protagonista que já não se mostra capaz de viver o real da vida, só adquire uma dimensão trágica porque estão cercados, de uma maneira geral, por personagens perfeitamente enquadrados. E que obviamente não entendem comportamentos que contrariam suas expectativas.
Na equipe técnica, Paulo César Medeiros ilumina a cena com a indispensável dramaticidade, sendo irrepreensíveis a cenografia de Natália Lana, os figurinos de Priscila Barcelos e Rose Duarte, assim como a trilha sonora de Gabriel Fomm, que mescla sons indefinidos com, por exemplo, trechos da "Bachiana nº 7", de Villa-Lobos, gerando um resultado que contribui decisivamente para o fortalecimento dos múltiplos climas emocionais em jogo.
PONTO DE FUGA - Texto e direção de Rodrigo Nogueira. Com Aline Fanju, Cristina Flores, Lucas Gouvêa, Luísa Friese e Michel Blois - ressaltando, mais uma vez, que Liliane Rovaris divide com Aline Fanju os personagens da amiga e da musicista. Teatro Gláucio Gill. Quartas e quintas, 21h.
"Ponto de fuga"
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As lavas de um vulcão
Lionel Fischer
Embora a princípio possa causar uma certa estranheza, julgo procedente iniciar a crítica do presente espetáculo falando um pouco de música. E mais especificamente de duas obras fundamentais de J. S. Bach. Na primeira, "O Cravo Bem Temperado", o genial compositor criou 48 prelúdios e fugas, sendo um prelúdio e uma fuga para cada tonalidade maior e menor. Na segunda, "A Arte da Fuga", que a morte impediu Bach de completá-la, a intenção era a de criar um conjunto de exemplos das técnicas de contraponto - são 14 fugas, de diferentes formas, mas todas oriundas de um mesmo tema.
Com a introdução acima, minha intenção foi a de estabelecer um paralelo entre a fuga, em seu sentido estritamente musical, e as fugas das quais tantas vezes tentamos nos valer para escapar ao real da vida, para suplantar a dor de existir. No entanto, certas questões são tão implacáveis que às vezes somos induzidos a acreditar que não há escapatória, que nenhum contraponto haverá de compensar determinadas lacunas. Então, só nos restariam duas alternativas: simplesmente enlouquecer ou, através da Arte, buscar alguma forma de novamente se inserir na vida. E é exatamente isto - salvo monumental engano de minha parte - que o autor Rodrigo Nogueira buscou materializar na cena.
Em cartaz no Teatro Gláucio Gill, "Ponto de fuga" gira em torno de uma mulher que, ao assistir a uma peça de teatro, se identifica tanto com um personagem (um músico que perde a capacidade de compor e só consegue ouvir música em seus sonhos) que de certa forma o incorpora, numa desesperada tentativa - consciente ou não - de estabelecer algum tipo de contato com o mundo real, do qual já vinha se afastando há muito tempo. Escrita e dirigida por Rodrigo Nogueira, a obra chega à cena com elenco formado por Cristina Flores (Cristina), Michel Blois (Michel), Luísa Friese (irmã/empregada), Lucas Gouvêa (marido/garoto de programa) e Aline Fanju (amiga/musicista) - estas últimas personagens também são interpretadas por Lilianne Rovaris, às quartas-feiras; mas como assisti ao espetáculo na quinta, só posso avaliar a atuação de Aline.
Mesmo que tenha resumido o enredo da peça, me abstenho de detalhá-lo ainda mais, pois isso privaria o espectador de, em dado momento, perceber o contraponto entre o real e o imaginário. Ainda assim, cumpre ressaltar uma série de aspectos altamente positivos do presente texto, sem dúvida o melhor já escrito por Rodrigo Nogueira.
Além de ter criado ótimos personagens e uma ação que gera um permanente estado de inquietação, o autor se mostra capaz de externar uma angústia que não é apenas sua, mas de todos aqueles que não se contentam com uma existência mediana e previsível, que não se enquadram nos padrões ditados pela moral e os bons costumes, que trazem em si carências e desejos que às vezes sequer conseguem definir com clareza, mas que estão ali, represados, como as lavas de um vulcão que precisam necessariamente eclodir.
Em caso contrário, só lhes restará a loucura - renúncia total à vida - ou a Arte como possibilidade de nela se inserir, como já foi dito. Haveria, também, uma terceira hipótese: encarar a vida como um jogo de cartas marcadas, facultando ao destino a aleatória tarefa de escolher aqueles a quem beneficiaria com a sorte. E é exatamente esta a postura adotada pela maioria: a de aceitar navegar em um barco desprovido de leme, assim renunciando a assumir o papel de protagonista de sua própria história. E é justamente o oposto o que nos propõe Rodrigo Nogueira que, ao escrever este texto, renunciou à adolescência e tornou-se um homem.
Quanto ao espetáculo, este exibe uma dinâmica em total sintonia com o material dramatúrgico. A estranheza e a imprevisibilidade são a tônica. Eventuais momentos de total obscuridade nos obrigam a um mergulho interno, não raro desconfortável, assim como certas pausas nos aclaram conteúdos incapazes de serem expressos através de palavras. Enfim, uma direção brilhante, a qual se soma um irrepreensível trabalho de todo o elenco. A começar pelo da protagonista, Cristina Flores.
Em minha opinião, trata-se de uma das melhores atrizes de sua geração, e não apenas por exibir vastos recursos expressivos. O que me parece fundamental, em Cristina Flores, é sua coragem de se entregar totalmente às personagens que interpreta, criando-as não a partir de maneirismos, mas de uma busca interna muitas vezes, ao que imagino, nada confortável. Mas certamente Cristina Flores sabe que contém tudo que é inerente ao humano. Para o bem ou para o mal. E por não temer confrontar-se consigo mesma, ou ainda que eventualmente temendo esse encontro, dele não abdica. E aí reside toda a diferença entre uma grande atriz e uma atriz essencial. Cristina Flores pertence a este segundo e seleto grupo.
Quanto aos demais atores, todos também se entregam sem relutância à complexa tarefa de materializar personagens de diferentes matizes, mas sempre com o mesmo vigor e sensibilidade.
E aqui retornamos ao contraponto: o drama vivido pelo músico que não consegue compor, assim como o da protagonista que já não se mostra capaz de viver o real da vida, só adquire uma dimensão trágica porque estão cercados, de uma maneira geral, por personagens perfeitamente enquadrados. E que obviamente não entendem comportamentos que contrariam suas expectativas.
Na equipe técnica, Paulo César Medeiros ilumina a cena com a indispensável dramaticidade, sendo irrepreensíveis a cenografia de Natália Lana, os figurinos de Priscila Barcelos e Rose Duarte, assim como a trilha sonora de Gabriel Fomm, que mescla sons indefinidos com, por exemplo, trechos da "Bachiana nº 7", de Villa-Lobos, gerando um resultado que contribui decisivamente para o fortalecimento dos múltiplos climas emocionais em jogo.
PONTO DE FUGA - Texto e direção de Rodrigo Nogueira. Com Aline Fanju, Cristina Flores, Lucas Gouvêa, Luísa Friese e Michel Blois - ressaltando, mais uma vez, que Liliane Rovaris divide com Aline Fanju os personagens da amiga e da musicista. Teatro Gláucio Gill. Quartas e quintas, 21h.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Flores de Chumbo
Lionel Fischer
(1984)
CAPÍTULO XVII
Na manhã do dia seguinte ao de sua primeira visita, monsenhor resolveu aparecer de surpresa na granja. Vinha caminhando alegremente, na certeza de que saborearia um lauto desdejum, quando, a uns cinquenta passos da casa da velha Ecúria, teve a impressão de que ela conversava com alguém diante de sua porta. Como sabia que todos os habitantes da cidade estavam mortos, aproximou-se furtivamente visando decifrar o enigma. Esse "alguém" estava sentado numa cadeira de balanço e merecia da megera cuidados de mãe solteira. A todo momento ela abandonava a própria cadeira e o tocava, afastando-se em seguida para de novo o observar. Passados alguns instantes, tornava a se aproximar e assim sucessivamente.
Monsenhor Flávio imaginou que a pessoa com quem Ecúria conversava fosse eu, não apenas porque comigo ele se parecia, mas sobretudo pela ausência de uma outra disponível. Mas sua intuição lhe dizia ser esse encontro bastante improvável. Então, resolveu se posicionar de tal forma que pudesse enxergar com clareza a pessoa em questão. Dando uma volta na casa, esgueirou-se como uma lagartixa junto a uma das paredes laterais e graças a essa artimanha pôde contemplar a intrigante cena de um ângulo privilegiado.
A "pessoa" com quem Ecúria conversava simplesmente não existia!? Tratava-se de um boneco que, embora ainda não totalmente concluído, comigo já se parecia como se meu irmão gêmeo fosse. No exato instante em que monsenhor chegou a essa conclusão, a feiticeira colava meu cavanhaque - utilizando uma mecha de seu cabelo - e preparava-se para tingí-lo de preto. Monsenhor ficou duplamente impressionado. Primeiro, com a habilidade da bruxa, da qual ninguém jamais suspeitara; e depois com sua própria incapacidade de encontrar uma explicação para tão estranho procedimento.
- Se ela estivesse apenas exercitando seus dotes artísticos, a questão morreria neste ponto. Mas na medida em que o elegera como modelo, algo me disse que suas intenções não deviam ser nada boas.
- Estou de pleno acordo com o senhor...- e me sentei ao seu lado no sofá, repetindo sem o perceber a mesma atitude que tomara muitas vezes na infância com relação à minha avó, quando suas histórias espantosas começavam a me assustar além da conta. Monsenhor Flávio interpretou minha iniciativa com extrema sagacidade, ou seja, percebeu tanto o meu interesse por sua narrativa como minha premente necessidade de proteção. Mas creio que não precisava depositar sua mãozinha suarenta e fria sobre a minha.
- Passei todo aquele dia espreitando a construção do seu duplo. Só me afastei no final da tarde para aliviar os intestinos, mas logo retornei ao meu posto de observação. A velha Ecúria continuava lá, incansável. Já tingira sua barba, concluíra suas orelhas e se dedicava ao acabamento das mãos. À meia-noite comecei a sentir um sono terrível e resolvi voltar para a igreja, decidido a vir aqui no dia seguinte para lhe comunicar a novidade. Acordei bem cedo, mas não resisti e fui dar uma espiada. O senhor já estava quase pronto. Faltava apenas ajustar o pé direito e encurtar dois dedos do esquerdo, o mindinho sobretudo, que ultrapassava em comprimento o dedão. Deveria ter vindo conforme prometera, não é mesmo? Mas algo me impediu de arredar os pés dali. Estava como que hipnotizado pela sua duplicata, tão perfeita e expressiva que não me surpreenderia se Ecúria, parafraseando Michelângelo, de repente exclamasse "Parla!". O senhor conhece esta passagem da vida do gênio italiano, ao que suponho...
- Conheço, monsenhor, embora não acredite nela...- respondi, já achando que o prelado começava a render demais sua história. Nesse momento, uma mosca de tamanho médio se introduziu em uma das narinas de monsenhor, levando-o a estapeá-la furiosamente, fato de que me aproveitei para me afastar dele, visando escapar de sua mãozinha repelente. Mas, para meu desespero, assim que ele desalojou a mosca tornou a depositá-la em cima da minha, que eu colocara sobre o ventre numa tentativa de lhe dificultar a tarefa. Como eu já havia conseguido dominar minha ansiedade - ao menos externamente - achei esquisito ele insistir em permanecer de mãos dadas comigo. Em todo caso, preferi deixar para mais tarde uma análise mais depurada de suas possíveis tendências.
- Passei o dia inteiro vigiando. Às duas da madrugada Ecúria concluiu sua obra e fê-la ficar de pé. Se relegados a um segundo plano os detalhes macabros que cercavam o projeto, o espetáculo do senhor inanimado, exposto aos generosos eflúvios da lua, era realmente extraordinário! Embora o ache um rapaz bonito, o fato é que Ecúria construíra um verdadeiro Apolo, perfeito nos seus mínimos detalhes e de uma harmonia ímpar!
Ao descrever a obra, monsenhor parecia em êxtase. Apertava minha mão com tanta força que parecia ter a intenção de machucá-la. Eu ainda não conhecia sua paixão pela arte, em particular pelas esculturas, portanto nada mais justo que começasse a desconfiar que seu arrebatamento tinha muuito mais a ver com o modelo do que com sua réplica...
Passados alguns minutos, a situação, de embaraçosa, tornou-se crítica. Monsenhor literalmente me encurralara no canto do sofá e acariciava com ambas as mãos as partes do meu corpo que julgava terem sido reproduzidas com maior maestria pela velha Ecúria. Quando já não sabia mais o que fazer e estava a ponto de lhe dar um safanão, ele se levantou e caminhou bamboleante até uma das janelas, em cujo parapeito se apoiou, visivelmente transtornado. E não era para menos: afinal, o desvio de sua personalidade que tanto abominava e contra o qual lutara a vida inteira conseguira uma vez mais sobrepujar sua vontade e aflorara de maneira incontrolável - a confissão de sua homossexualidade me foi feita quando, já agonizante, monsenhor pressentiu que poderia morrrer a qualquer momento. Exceção feita a Ambrosina e irmã Geovana, eu fui a única pessoa com quem ele partilhou esse segredo que tanto o atormentava e que fora responsável, inclusive, por sua vinda para a pequena cidade, na qual julgara ser mais fácil se controlar.
Mas é claro que, no momento em que se deu o desagradável incidente, eu não tinha a menor idéia da extensão do drama daquele homem. Portanto, minha primeira reação foi de alívio. Pouco a pouco, porém, seu estado começou a me inquietar, pois monsenhor não conseguia dominar o pranto. Depois de refletir um instante, me aproximei dele com a intenção de proferir algumas palavras. Mas não consegui dizer nada. Tudo que me veio à cabeça me pareceu de uma banalidade insuportável. Eu ainda era muito imaturo e imaginava que uma bela frase pudesse amenizar o sofrimento alheio, agindo em relação ao espírito como um antibiótico com o corpo. Isso explica a sensação de fracasso que se apossou de mim quando voltei para a poltrona. Só muito mais tarde me conscientizei de que, em face de uma grande dor, as palavras são inúteis e que a única atitude possível é a de se fazer presente, facultando àquele que sofre todas as iniciativas.
Passou-se um bom tempo, durante o qual permaneci de olhos fechados, procurando fixar as imagens que me vinham à cabeça, tentando não escutar aquele desespero. Quando tornei a abrir os olhos, monsenhor estava parado à minha frente, apartentemente refeito.
- Vamos?
- Para onde, monsenhor?
- Para a casa de Ecúria.
- Fazer o quê?
- Impedir que ela crave uma enorme agulha no seu coração!
Então ele me deu as costas e foi engolido pela noite. Durante todo o percurso consegui o prodígio de me manter de boca fechada, só me atrevendo a abrí-la quando a casa da bruxa se tornou visível. Agarrando monsenhor pelo braço, perguntei:
- O senhor acredita em bruxarias, monsenhor?
- Não deveria, dada a minha condição de religioso. Mas como estamos vivendo uma situação extraordinária, é melhor não facilitar.
- Mas monsenhor...- insisti - como é que o senhor sabe que a velha Ecúria pretende me espetar? O senhor a ouviu mencionar esse desejo? Ou pelo menos viu a tal agulha?
Mas monsenhor, ao invés de me responder, ordenou com um gesto que eu ficasse calado. Nesse exato instante a hedionda deixava sua casa e se aproximava do meu duplo trazendo uma espécie de bandeja, na qual se podia notar a presença de um ameaçador estilete, que parecia ser de prata. Agindo como se participasse de uma cerimônia ritualística, ela se ajoelhou diante de minha réplica, beijou seu agulhão pontudo e o depositou no chão. Em seguida, tornou a desaparecer dentro da casa.
Embora o mortífero objeto não deixasse de me interessar, o fato é que o boneco gerou em mim o mesmo fascínio que antes em monsenhor, tão perfeito e expressivo ele era. A perfeição, propriamente dita, era o que menos me fascinava, pois apenas revelava uma espantosa habilidade para copiar. Mas a expressividade do meu duplo era realmente extraordinária. Ecúria conseguira o prodígio de me retratar exatamente como eu gostaria de ser visto pelos outros, ou seja, como uma pessoa forte, segura e corajosa. Parecia que a obra havia sido por mim encomendada, tanto que me favorecia. Confesso mesmo que depois de alguns minutos sua visão passou a me incomodar, na medida em que suas qualidades ultrapassavam em muito às do modelo em que se inspirara...
Pensando em partilhar essa desagradável sensação com monsenhor Flávio, dei-lhe um discreto cutucão. Mas ele, totalmente concentrado, sequer deu mostras de haver sentido meu apelo. Como eu insistisse, puxando as mangas de seu hábito, ele se virou para mim e sussurrou:
- Mas pelo amor de Deus, senhor Aquino! Será que não percebe que é a sua vida que está em jogo?
Não, eu não percebia. Achava, quando muito, que a velha Ecúria armava uma cerimônia macabra com o intuito de me fazer mal, mas não acreditava em sua eficácia. Quando, porém, a medonha apareceu com uma bacia cheia de um líquido que me pareceu ser sangue e o derramou em cima de mim, aí sim me deu uma certa dúvida. A cena se tornava impressionante. Caminhando à minha volta como se eu fosse um totem, a megera soltava gritos e se convulsionava como se estivesse possuída. Monsenhor Flávio, hirto, não movia um músculo. De repente, ao ver a bruxa pegar o estilete e erguê-lo em direção à lua, monsenhor não se conteve e exclamou baixinho, como se falasse consigo mesmo:
- O manto! Meu Deus, e o manto?
- Que manto, monsenhor? - perguntei, a essa altura já completamente aterrorizado.
- É preciso que ela vá buscá-lo! Não é possível que tenha se esquecido!?
Nesse exato instante, quando a velha Ecúria já se aproximava do meu coração fazendo pontaria, aconteceu o que mais tarde monsenhor denominou de "intervenção divina". A bruxa subitamente se imobilizou, como se o apelo de monsenhor lhe tivesse chegado aos ouvidos. Soltando um uivo, deu as costas para o meu duplo e foi para dentro de casa.
- Vamos! - bradou monsenhor. - É agora ou nunca!
E partiu na direção da minha duplicata. Eu o acompanhei, já com intensa falta de ar. Quando a atingimos, monsenhor me ordenou que a pegasse pelo tronco, enquanto ele a sustentaria pelas pernas. Isto feito, nos afastamos o mais rapidamente possível, como se o demônio estivesse em nosso encalço, brandindo um garfo incandescente. Tão logo dobramos a primeira esquina, escutamos um formidável estrondo. Involuntariamente, diminuí a marcha e ergui os olhos para o céu, imaginando que nele se armava uma soberba tempestade.
- Não seja estúpiodo! - rosnou monsenhor. - Esse uivo não partiu das nuvens!
E me obrigou a retomar o ritmo inicial. Evidentemente que eu fora um idiota, já que conhecia os poderes vocais da velha Ecúria. Ao constatar que sua obra-prima desaparecera, ela apenas liberara sua fúria, que eu cretinamente confundira com um trovão. Nunca, em toda a minha vida, tive tanta certeza de que jamais poderia ser um agente secreto, pois quando o medo afeta meu sistema nervoso, eu me torno um mongolóide exemplar, desses que qualquer faculdade de medicina gostaria de manter sob contrato para que os estudantes, em suas aulas práticas, possam ter a exata dimensão dos efeitos produzidos no organismo humano pela terrível enfermidade.
Ao chegarmos à granja, monsenhor me arrastou para os fundos da casa, o que me causou estranheza, pois imaginei que iríamos para dentro dela e o mais rápido possível.
- Para onde nos conduz, monsenhor?
- Precisamos nos livrar disso.
- Há um grande armário num dos quartos. Nós podemos enfiar lá!?
- Dentro da casa? O senhor é realmente uma personalidade única...
Antes que pudesse chegar a uma conclusão definitiva quanto ao verdadeiro sentido de sua observação, que em princípio não me pareceu favorável à minha pessoa, a terra se abriu e nos tragou aos três. Preocupado em decifrar as palavras de monsenhor, esquecera-me de que caminhávamos em direção ao refúgio que começara a cavar. Monsenhor, que ía um pouco à frente, foi quem mais sofreu com a queda, pois além do susto recebeu sobre seu frágil corpo o peso do meu e o de minha réplica somados. Literalmente amassado, me lançava apelos desesperados para que o libertasse da tremenda pressão. Mas como havíamos caído meio embolados e o espaço era um tanto exígüo, eu não conseguia me firmar para tentar satisfazer-lhe o premente desejo. Além disso, tinha medo de lhe causar um sério dano, se por exemplo me apoiasse em seu pescoço para retornar à superfície.
Quando, no entanto, sua súplicas começaram a diminuir em número e intensidade, concluí que se não agisse com presteza o prelado, daquele buraco, não precisaria mais sair. Finquei, então, meu pé direito sobre uma superfície gelatinosa e das profundezas emergi. Monsenhor, ao invés de uma exclamação de alívio, soltou um berro de hiena maltratada.
- O que foi, monsenhor? Será que eu pisei no seu saco?
- Na minha bexiga...- gemeu, com um fiozinho de voz.
- Ainda bem, monsenhor - respondi, aliviado. - Já pensou se tivesse sido mais embaixo?
- Eu me mijei todo, senhor Aquino...meu hábito está empapado!?
- E daí, monsenhor? Daqui a pouco ele seca! - retorqui, animado. - O importante é que o senhor não sofreu nenhuma lesão grave.
Isto dizendo, debrucei-me e comecei a içar o meu duplo, que continuava em cima de monsenhor.
- Tenho a impressão de que quebrei as pernas...- choramingou.
- Bobagem, monsenhor! - respondi, terminando de retirar minha duplicata. - Garanto que não houve nada com elas.
- Qual o motivo desse alçapão, senhor Aquino? O senhor, por acaso, estava construindo um túmulo?
- Um abrigo! - e agarrei suas saias.
- Devagar, por favor! - implorou. - As fraturas devem estar expostas!
- Monsenhor...-falei, enquanto o suspendia. - Eu tenho absoluta certeza de que suas pernas estão intactas. É até possível que a menorzinha tenha se igualado à outra!? - brinquei, sem me dar conta da extrema inadequação de minha piada. No entanto, tão logo consegui retirar monsenhor do buraco, ela me foi apontada:
- Se não estivesse absolutamente convencido de que o senhor é uma ótima pessoa, não tenha amenor dúvida de que o odiaria para sempre!
E antes que eu pudesse retrucar qualquer coisa, arrematou:
- E agora ponha-me no chão, por favor. Não há a menor necessidade de o senhor me manter no seu colo, como se eu fosse um recém nascido.
- Desculpe, monsenhor...- e o coloquei no chão. - Eu apenas pretendia...
- É sempre bom ter em mente o poder das palavras. Às vezes, mesmo que de forma involuntária, elas podem causar uma profunda mágoa.
Monsenhor Flávio estava certo. As palavras, sempre as palavras. Quando precisava delas, não me vinham. Se dispensáveis, apresentavam-se de imediato.
- Um abrigo, o senhor disse? - perguntou monsenhor, inspecionando o buraco.
- Exato.
- Com que finalidade?
- Quando a cidade for invadida, eu não quero ser encontrado.
- Invadida? Como assim?
Expliquei então que irmã Geovana enviara uma carta às autoridades comunicando a tragédia e pedindo providências. Contudo, essa explicação não convenceu monsenhor quanto à necessidade da construção de um abrigo subterrâneo.
- Mas para que o senhor está se dando a esse trabalho, se já possui a granja para se esconder?
- E o senhor acha que alguém respeita uma porta trancada quando sabe, ou pelo menos supõe, que do outro lado não há ninguém?
Mais uma vez monsenhor reagiu como se eu lhe tivesse dado uma bofetada. Embora eu tenha feito essa observação sem nenhuma intenção de relembrar as ações que ambos havíamos cometido quando nossos clamores estomacais sobrepujaram nossos valores éticos, ele a interpretou como se eu pretendesse atingí-lo.
- Em minha opinião, todas as pessoas respeitam uma porta trancada, salvo as que não prestam e as que estão desesperadas. O senhor tem alguma dúvida quanto a isso?
- Nenhuma, monsenhor....- respondi, fazendo-me de desentendido. - Eu penso exatamente como o senhor.
- Será? - perguntou, numa inflexão provocativa. Por um instante fiquei indeciso, mas acabei decidindo colocar tudo às claras.
- Olha aqui, monsenhor: nós estamos vivendo uma situação extraordinária. Se pretendemos sair dela conservando um resto de lucidez é preciso que a tornemos o menos complicada possível. Não pretendi fazer nenhuma insinuação maldosa em relação às atitudes que o senhor tomou para não morrer de fome, mesmo porque eu as tomei também. Portanto, esse sentimento de ofensa não cabe, como creio que não há mais lugar entre nós para mal-entendidos de qualquer espécie. Ou confiamos um no outro sem meias medidas ou é melhor que não nos vejamos mais!
As palavras, desta vez, se apresentaram da maneira que eu desejava. Monsenhor não esperava, naturalmente, uma réplica tão assertiva, pois ficou me olhando meio abismado, enquanto eu me mantinha com a postura típica de quem acaba de proferir uma verdade eterna. Por fim, ele disse:
- Você está certo. A confiança é a única saída.
Satisfeito com sua concordância e com a nova forma de tratamento - aquele "senhor" sempre me soara um tanto deslocado - pedi que a partir desse momento a mantivesse. Monsenhor não levantou qualquer objeção e aproveitando o clima amigável que de novo se instalara se permitiu afirmar que prosseguir com a construção daquele abrigo não passava de renomada tolice. Segundo ele, não havia a menor garantia de que as autoridades dessem crédito às afirmações de irmã Geovana. E na hipótese de que acreditassem nelas, dificilmente se abalariam até aquele fim de mundo, a menos que o caso ganhasse uma dimensão inesperada e fosse baixada, pelo governo federal, uma determinação nesse sentido. Mesmo assim, dessa comitiva não fariam parte mais do que umas dez pessoas, dentre outras coisas porque não havia praticamente nada a fazer, quando muito a constatar. Alguns dias mais tarde, no entanto, os fatos viriam a demonstrar o quanto mosenhor estava errado...
Mas naquele momento seus argumentos me tranquilizaram e resolvi abandonar o projeto. Sem perda de tempo, monsenhor me convenceu a utilizar o buraco como sepulcro para minha réplica, alegando que não havia nada neste mundo capaz de se manter atuante sob sete palmos de terra. E assim feoi feito. Em meia-hora o trabalho estava concluído e então fomos para dentro de casa, ávidos de higiene e comida. Sendo já muito tarde, propuis a monsenhor que passasse a noite comigo.
- Além de se sentir mais seguro o senhor poderá, antes de dormir, lavar suas roupas no tanque e deixá-las secando no varal. No dia seguinte, quando for embora, irá impregnando os caminhos com o suave frescor da madrugada...
Monsenhor não apenas concordou com minha proposta como se emocionou ligeiramente com seu epílogo, segundo ele muito rico do ponto de vista poético. Rubro de modéstia, agradeci suas palavras generosas, dando a entender que não julgava merecê-las. Pouco depois, ambos de pijama - cedi um ao prelado - nos reunimos à mesa e em silêncio ceiamos. Às três da madrugada trocamos um aperto de mão e fomos dormir.
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Lionel Fischer
(1984)
CAPÍTULO XVII
Na manhã do dia seguinte ao de sua primeira visita, monsenhor resolveu aparecer de surpresa na granja. Vinha caminhando alegremente, na certeza de que saborearia um lauto desdejum, quando, a uns cinquenta passos da casa da velha Ecúria, teve a impressão de que ela conversava com alguém diante de sua porta. Como sabia que todos os habitantes da cidade estavam mortos, aproximou-se furtivamente visando decifrar o enigma. Esse "alguém" estava sentado numa cadeira de balanço e merecia da megera cuidados de mãe solteira. A todo momento ela abandonava a própria cadeira e o tocava, afastando-se em seguida para de novo o observar. Passados alguns instantes, tornava a se aproximar e assim sucessivamente.
Monsenhor Flávio imaginou que a pessoa com quem Ecúria conversava fosse eu, não apenas porque comigo ele se parecia, mas sobretudo pela ausência de uma outra disponível. Mas sua intuição lhe dizia ser esse encontro bastante improvável. Então, resolveu se posicionar de tal forma que pudesse enxergar com clareza a pessoa em questão. Dando uma volta na casa, esgueirou-se como uma lagartixa junto a uma das paredes laterais e graças a essa artimanha pôde contemplar a intrigante cena de um ângulo privilegiado.
A "pessoa" com quem Ecúria conversava simplesmente não existia!? Tratava-se de um boneco que, embora ainda não totalmente concluído, comigo já se parecia como se meu irmão gêmeo fosse. No exato instante em que monsenhor chegou a essa conclusão, a feiticeira colava meu cavanhaque - utilizando uma mecha de seu cabelo - e preparava-se para tingí-lo de preto. Monsenhor ficou duplamente impressionado. Primeiro, com a habilidade da bruxa, da qual ninguém jamais suspeitara; e depois com sua própria incapacidade de encontrar uma explicação para tão estranho procedimento.
- Se ela estivesse apenas exercitando seus dotes artísticos, a questão morreria neste ponto. Mas na medida em que o elegera como modelo, algo me disse que suas intenções não deviam ser nada boas.
- Estou de pleno acordo com o senhor...- e me sentei ao seu lado no sofá, repetindo sem o perceber a mesma atitude que tomara muitas vezes na infância com relação à minha avó, quando suas histórias espantosas começavam a me assustar além da conta. Monsenhor Flávio interpretou minha iniciativa com extrema sagacidade, ou seja, percebeu tanto o meu interesse por sua narrativa como minha premente necessidade de proteção. Mas creio que não precisava depositar sua mãozinha suarenta e fria sobre a minha.
- Passei todo aquele dia espreitando a construção do seu duplo. Só me afastei no final da tarde para aliviar os intestinos, mas logo retornei ao meu posto de observação. A velha Ecúria continuava lá, incansável. Já tingira sua barba, concluíra suas orelhas e se dedicava ao acabamento das mãos. À meia-noite comecei a sentir um sono terrível e resolvi voltar para a igreja, decidido a vir aqui no dia seguinte para lhe comunicar a novidade. Acordei bem cedo, mas não resisti e fui dar uma espiada. O senhor já estava quase pronto. Faltava apenas ajustar o pé direito e encurtar dois dedos do esquerdo, o mindinho sobretudo, que ultrapassava em comprimento o dedão. Deveria ter vindo conforme prometera, não é mesmo? Mas algo me impediu de arredar os pés dali. Estava como que hipnotizado pela sua duplicata, tão perfeita e expressiva que não me surpreenderia se Ecúria, parafraseando Michelângelo, de repente exclamasse "Parla!". O senhor conhece esta passagem da vida do gênio italiano, ao que suponho...
- Conheço, monsenhor, embora não acredite nela...- respondi, já achando que o prelado começava a render demais sua história. Nesse momento, uma mosca de tamanho médio se introduziu em uma das narinas de monsenhor, levando-o a estapeá-la furiosamente, fato de que me aproveitei para me afastar dele, visando escapar de sua mãozinha repelente. Mas, para meu desespero, assim que ele desalojou a mosca tornou a depositá-la em cima da minha, que eu colocara sobre o ventre numa tentativa de lhe dificultar a tarefa. Como eu já havia conseguido dominar minha ansiedade - ao menos externamente - achei esquisito ele insistir em permanecer de mãos dadas comigo. Em todo caso, preferi deixar para mais tarde uma análise mais depurada de suas possíveis tendências.
- Passei o dia inteiro vigiando. Às duas da madrugada Ecúria concluiu sua obra e fê-la ficar de pé. Se relegados a um segundo plano os detalhes macabros que cercavam o projeto, o espetáculo do senhor inanimado, exposto aos generosos eflúvios da lua, era realmente extraordinário! Embora o ache um rapaz bonito, o fato é que Ecúria construíra um verdadeiro Apolo, perfeito nos seus mínimos detalhes e de uma harmonia ímpar!
Ao descrever a obra, monsenhor parecia em êxtase. Apertava minha mão com tanta força que parecia ter a intenção de machucá-la. Eu ainda não conhecia sua paixão pela arte, em particular pelas esculturas, portanto nada mais justo que começasse a desconfiar que seu arrebatamento tinha muuito mais a ver com o modelo do que com sua réplica...
Passados alguns minutos, a situação, de embaraçosa, tornou-se crítica. Monsenhor literalmente me encurralara no canto do sofá e acariciava com ambas as mãos as partes do meu corpo que julgava terem sido reproduzidas com maior maestria pela velha Ecúria. Quando já não sabia mais o que fazer e estava a ponto de lhe dar um safanão, ele se levantou e caminhou bamboleante até uma das janelas, em cujo parapeito se apoiou, visivelmente transtornado. E não era para menos: afinal, o desvio de sua personalidade que tanto abominava e contra o qual lutara a vida inteira conseguira uma vez mais sobrepujar sua vontade e aflorara de maneira incontrolável - a confissão de sua homossexualidade me foi feita quando, já agonizante, monsenhor pressentiu que poderia morrrer a qualquer momento. Exceção feita a Ambrosina e irmã Geovana, eu fui a única pessoa com quem ele partilhou esse segredo que tanto o atormentava e que fora responsável, inclusive, por sua vinda para a pequena cidade, na qual julgara ser mais fácil se controlar.
Mas é claro que, no momento em que se deu o desagradável incidente, eu não tinha a menor idéia da extensão do drama daquele homem. Portanto, minha primeira reação foi de alívio. Pouco a pouco, porém, seu estado começou a me inquietar, pois monsenhor não conseguia dominar o pranto. Depois de refletir um instante, me aproximei dele com a intenção de proferir algumas palavras. Mas não consegui dizer nada. Tudo que me veio à cabeça me pareceu de uma banalidade insuportável. Eu ainda era muito imaturo e imaginava que uma bela frase pudesse amenizar o sofrimento alheio, agindo em relação ao espírito como um antibiótico com o corpo. Isso explica a sensação de fracasso que se apossou de mim quando voltei para a poltrona. Só muito mais tarde me conscientizei de que, em face de uma grande dor, as palavras são inúteis e que a única atitude possível é a de se fazer presente, facultando àquele que sofre todas as iniciativas.
Passou-se um bom tempo, durante o qual permaneci de olhos fechados, procurando fixar as imagens que me vinham à cabeça, tentando não escutar aquele desespero. Quando tornei a abrir os olhos, monsenhor estava parado à minha frente, apartentemente refeito.
- Vamos?
- Para onde, monsenhor?
- Para a casa de Ecúria.
- Fazer o quê?
- Impedir que ela crave uma enorme agulha no seu coração!
Então ele me deu as costas e foi engolido pela noite. Durante todo o percurso consegui o prodígio de me manter de boca fechada, só me atrevendo a abrí-la quando a casa da bruxa se tornou visível. Agarrando monsenhor pelo braço, perguntei:
- O senhor acredita em bruxarias, monsenhor?
- Não deveria, dada a minha condição de religioso. Mas como estamos vivendo uma situação extraordinária, é melhor não facilitar.
- Mas monsenhor...- insisti - como é que o senhor sabe que a velha Ecúria pretende me espetar? O senhor a ouviu mencionar esse desejo? Ou pelo menos viu a tal agulha?
Mas monsenhor, ao invés de me responder, ordenou com um gesto que eu ficasse calado. Nesse exato instante a hedionda deixava sua casa e se aproximava do meu duplo trazendo uma espécie de bandeja, na qual se podia notar a presença de um ameaçador estilete, que parecia ser de prata. Agindo como se participasse de uma cerimônia ritualística, ela se ajoelhou diante de minha réplica, beijou seu agulhão pontudo e o depositou no chão. Em seguida, tornou a desaparecer dentro da casa.
Embora o mortífero objeto não deixasse de me interessar, o fato é que o boneco gerou em mim o mesmo fascínio que antes em monsenhor, tão perfeito e expressivo ele era. A perfeição, propriamente dita, era o que menos me fascinava, pois apenas revelava uma espantosa habilidade para copiar. Mas a expressividade do meu duplo era realmente extraordinária. Ecúria conseguira o prodígio de me retratar exatamente como eu gostaria de ser visto pelos outros, ou seja, como uma pessoa forte, segura e corajosa. Parecia que a obra havia sido por mim encomendada, tanto que me favorecia. Confesso mesmo que depois de alguns minutos sua visão passou a me incomodar, na medida em que suas qualidades ultrapassavam em muito às do modelo em que se inspirara...
Pensando em partilhar essa desagradável sensação com monsenhor Flávio, dei-lhe um discreto cutucão. Mas ele, totalmente concentrado, sequer deu mostras de haver sentido meu apelo. Como eu insistisse, puxando as mangas de seu hábito, ele se virou para mim e sussurrou:
- Mas pelo amor de Deus, senhor Aquino! Será que não percebe que é a sua vida que está em jogo?
Não, eu não percebia. Achava, quando muito, que a velha Ecúria armava uma cerimônia macabra com o intuito de me fazer mal, mas não acreditava em sua eficácia. Quando, porém, a medonha apareceu com uma bacia cheia de um líquido que me pareceu ser sangue e o derramou em cima de mim, aí sim me deu uma certa dúvida. A cena se tornava impressionante. Caminhando à minha volta como se eu fosse um totem, a megera soltava gritos e se convulsionava como se estivesse possuída. Monsenhor Flávio, hirto, não movia um músculo. De repente, ao ver a bruxa pegar o estilete e erguê-lo em direção à lua, monsenhor não se conteve e exclamou baixinho, como se falasse consigo mesmo:
- O manto! Meu Deus, e o manto?
- Que manto, monsenhor? - perguntei, a essa altura já completamente aterrorizado.
- É preciso que ela vá buscá-lo! Não é possível que tenha se esquecido!?
Nesse exato instante, quando a velha Ecúria já se aproximava do meu coração fazendo pontaria, aconteceu o que mais tarde monsenhor denominou de "intervenção divina". A bruxa subitamente se imobilizou, como se o apelo de monsenhor lhe tivesse chegado aos ouvidos. Soltando um uivo, deu as costas para o meu duplo e foi para dentro de casa.
- Vamos! - bradou monsenhor. - É agora ou nunca!
E partiu na direção da minha duplicata. Eu o acompanhei, já com intensa falta de ar. Quando a atingimos, monsenhor me ordenou que a pegasse pelo tronco, enquanto ele a sustentaria pelas pernas. Isto feito, nos afastamos o mais rapidamente possível, como se o demônio estivesse em nosso encalço, brandindo um garfo incandescente. Tão logo dobramos a primeira esquina, escutamos um formidável estrondo. Involuntariamente, diminuí a marcha e ergui os olhos para o céu, imaginando que nele se armava uma soberba tempestade.
- Não seja estúpiodo! - rosnou monsenhor. - Esse uivo não partiu das nuvens!
E me obrigou a retomar o ritmo inicial. Evidentemente que eu fora um idiota, já que conhecia os poderes vocais da velha Ecúria. Ao constatar que sua obra-prima desaparecera, ela apenas liberara sua fúria, que eu cretinamente confundira com um trovão. Nunca, em toda a minha vida, tive tanta certeza de que jamais poderia ser um agente secreto, pois quando o medo afeta meu sistema nervoso, eu me torno um mongolóide exemplar, desses que qualquer faculdade de medicina gostaria de manter sob contrato para que os estudantes, em suas aulas práticas, possam ter a exata dimensão dos efeitos produzidos no organismo humano pela terrível enfermidade.
Ao chegarmos à granja, monsenhor me arrastou para os fundos da casa, o que me causou estranheza, pois imaginei que iríamos para dentro dela e o mais rápido possível.
- Para onde nos conduz, monsenhor?
- Precisamos nos livrar disso.
- Há um grande armário num dos quartos. Nós podemos enfiar lá!?
- Dentro da casa? O senhor é realmente uma personalidade única...
Antes que pudesse chegar a uma conclusão definitiva quanto ao verdadeiro sentido de sua observação, que em princípio não me pareceu favorável à minha pessoa, a terra se abriu e nos tragou aos três. Preocupado em decifrar as palavras de monsenhor, esquecera-me de que caminhávamos em direção ao refúgio que começara a cavar. Monsenhor, que ía um pouco à frente, foi quem mais sofreu com a queda, pois além do susto recebeu sobre seu frágil corpo o peso do meu e o de minha réplica somados. Literalmente amassado, me lançava apelos desesperados para que o libertasse da tremenda pressão. Mas como havíamos caído meio embolados e o espaço era um tanto exígüo, eu não conseguia me firmar para tentar satisfazer-lhe o premente desejo. Além disso, tinha medo de lhe causar um sério dano, se por exemplo me apoiasse em seu pescoço para retornar à superfície.
Quando, no entanto, sua súplicas começaram a diminuir em número e intensidade, concluí que se não agisse com presteza o prelado, daquele buraco, não precisaria mais sair. Finquei, então, meu pé direito sobre uma superfície gelatinosa e das profundezas emergi. Monsenhor, ao invés de uma exclamação de alívio, soltou um berro de hiena maltratada.
- O que foi, monsenhor? Será que eu pisei no seu saco?
- Na minha bexiga...- gemeu, com um fiozinho de voz.
- Ainda bem, monsenhor - respondi, aliviado. - Já pensou se tivesse sido mais embaixo?
- Eu me mijei todo, senhor Aquino...meu hábito está empapado!?
- E daí, monsenhor? Daqui a pouco ele seca! - retorqui, animado. - O importante é que o senhor não sofreu nenhuma lesão grave.
Isto dizendo, debrucei-me e comecei a içar o meu duplo, que continuava em cima de monsenhor.
- Tenho a impressão de que quebrei as pernas...- choramingou.
- Bobagem, monsenhor! - respondi, terminando de retirar minha duplicata. - Garanto que não houve nada com elas.
- Qual o motivo desse alçapão, senhor Aquino? O senhor, por acaso, estava construindo um túmulo?
- Um abrigo! - e agarrei suas saias.
- Devagar, por favor! - implorou. - As fraturas devem estar expostas!
- Monsenhor...-falei, enquanto o suspendia. - Eu tenho absoluta certeza de que suas pernas estão intactas. É até possível que a menorzinha tenha se igualado à outra!? - brinquei, sem me dar conta da extrema inadequação de minha piada. No entanto, tão logo consegui retirar monsenhor do buraco, ela me foi apontada:
- Se não estivesse absolutamente convencido de que o senhor é uma ótima pessoa, não tenha amenor dúvida de que o odiaria para sempre!
E antes que eu pudesse retrucar qualquer coisa, arrematou:
- E agora ponha-me no chão, por favor. Não há a menor necessidade de o senhor me manter no seu colo, como se eu fosse um recém nascido.
- Desculpe, monsenhor...- e o coloquei no chão. - Eu apenas pretendia...
- É sempre bom ter em mente o poder das palavras. Às vezes, mesmo que de forma involuntária, elas podem causar uma profunda mágoa.
Monsenhor Flávio estava certo. As palavras, sempre as palavras. Quando precisava delas, não me vinham. Se dispensáveis, apresentavam-se de imediato.
- Um abrigo, o senhor disse? - perguntou monsenhor, inspecionando o buraco.
- Exato.
- Com que finalidade?
- Quando a cidade for invadida, eu não quero ser encontrado.
- Invadida? Como assim?
Expliquei então que irmã Geovana enviara uma carta às autoridades comunicando a tragédia e pedindo providências. Contudo, essa explicação não convenceu monsenhor quanto à necessidade da construção de um abrigo subterrâneo.
- Mas para que o senhor está se dando a esse trabalho, se já possui a granja para se esconder?
- E o senhor acha que alguém respeita uma porta trancada quando sabe, ou pelo menos supõe, que do outro lado não há ninguém?
Mais uma vez monsenhor reagiu como se eu lhe tivesse dado uma bofetada. Embora eu tenha feito essa observação sem nenhuma intenção de relembrar as ações que ambos havíamos cometido quando nossos clamores estomacais sobrepujaram nossos valores éticos, ele a interpretou como se eu pretendesse atingí-lo.
- Em minha opinião, todas as pessoas respeitam uma porta trancada, salvo as que não prestam e as que estão desesperadas. O senhor tem alguma dúvida quanto a isso?
- Nenhuma, monsenhor....- respondi, fazendo-me de desentendido. - Eu penso exatamente como o senhor.
- Será? - perguntou, numa inflexão provocativa. Por um instante fiquei indeciso, mas acabei decidindo colocar tudo às claras.
- Olha aqui, monsenhor: nós estamos vivendo uma situação extraordinária. Se pretendemos sair dela conservando um resto de lucidez é preciso que a tornemos o menos complicada possível. Não pretendi fazer nenhuma insinuação maldosa em relação às atitudes que o senhor tomou para não morrer de fome, mesmo porque eu as tomei também. Portanto, esse sentimento de ofensa não cabe, como creio que não há mais lugar entre nós para mal-entendidos de qualquer espécie. Ou confiamos um no outro sem meias medidas ou é melhor que não nos vejamos mais!
As palavras, desta vez, se apresentaram da maneira que eu desejava. Monsenhor não esperava, naturalmente, uma réplica tão assertiva, pois ficou me olhando meio abismado, enquanto eu me mantinha com a postura típica de quem acaba de proferir uma verdade eterna. Por fim, ele disse:
- Você está certo. A confiança é a única saída.
Satisfeito com sua concordância e com a nova forma de tratamento - aquele "senhor" sempre me soara um tanto deslocado - pedi que a partir desse momento a mantivesse. Monsenhor não levantou qualquer objeção e aproveitando o clima amigável que de novo se instalara se permitiu afirmar que prosseguir com a construção daquele abrigo não passava de renomada tolice. Segundo ele, não havia a menor garantia de que as autoridades dessem crédito às afirmações de irmã Geovana. E na hipótese de que acreditassem nelas, dificilmente se abalariam até aquele fim de mundo, a menos que o caso ganhasse uma dimensão inesperada e fosse baixada, pelo governo federal, uma determinação nesse sentido. Mesmo assim, dessa comitiva não fariam parte mais do que umas dez pessoas, dentre outras coisas porque não havia praticamente nada a fazer, quando muito a constatar. Alguns dias mais tarde, no entanto, os fatos viriam a demonstrar o quanto mosenhor estava errado...
Mas naquele momento seus argumentos me tranquilizaram e resolvi abandonar o projeto. Sem perda de tempo, monsenhor me convenceu a utilizar o buraco como sepulcro para minha réplica, alegando que não havia nada neste mundo capaz de se manter atuante sob sete palmos de terra. E assim feoi feito. Em meia-hora o trabalho estava concluído e então fomos para dentro de casa, ávidos de higiene e comida. Sendo já muito tarde, propuis a monsenhor que passasse a noite comigo.
- Além de se sentir mais seguro o senhor poderá, antes de dormir, lavar suas roupas no tanque e deixá-las secando no varal. No dia seguinte, quando for embora, irá impregnando os caminhos com o suave frescor da madrugada...
Monsenhor não apenas concordou com minha proposta como se emocionou ligeiramente com seu epílogo, segundo ele muito rico do ponto de vista poético. Rubro de modéstia, agradeci suas palavras generosas, dando a entender que não julgava merecê-las. Pouco depois, ambos de pijama - cedi um ao prelado - nos reunimos à mesa e em silêncio ceiamos. Às três da madrugada trocamos um aperto de mão e fomos dormir.
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quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Teatro/CRÍTICA
"Comédia russa"
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Crimes na repartição
Lionel Fischer
Muito já se escreveu sobre este monstro chamado burocracia, cuja principal finalidade é levar a espécie humana à loucura. Mas aqui, mesmo que exibindo a ineficiência de uma repartição pública, o ócio generalizado acaba sendo banido graças à uma seqüência de misteriosos crimes, que acabam conferindo, curiosamente, um pouco de vida ao marasmo habitual.
De autoria de Pedro Brício, "Comédia russa" é o mais recente espetáculo da Cia. Fodidos Privilegiados, ora em cartaz no Teatro Nelson Rodrigues (Caixa Cultural). João Fonseca responde pela direção, estando o elenco formado por Alexandre Pinheiro, Cristina Mayrink, Daniela Olivert, Filomena Mancuzo, Marcos Correa, Ricardo Souzedo, Roberto Lobo, Rose Abdallah e Thelmo Fernandes, além dos atores convidados Rodrigo Nogueira e Natália Lage.
Como fica perfeitamente claro, o autor Pedro Brício não pretendeu analisar ou questionar as razões que permitem a existência da máquina burocrática, cuja ineficiência é praticamente a mesma em todos os países - inclusive na Rússia, onde a ação é ambientada. Seu objetivo, ao que me parece, foi o de criar uma situação (como já foi dito) capaz de demonstrar que as mesmas pessoas que "agem" com a rapidez de uma lesma tornam-se super ativas quando confrontadas com um contexto que foge ao cotidiano de suas funções. E neste sentido seu texto pode ser considerado eficiente, embora tal eficiência pudesse ser ainda maior desde que a peça fosse um pouco reduzida.
Ainda assim, o autor cria ótimos personagens e situações hilariantes, exploradas com vigor e criatividade pelo diretor João Fonseca, a quem considero nosso melhor "especialista" quando se trata de materializar na cena contextos delirantes. E a Fonseca também deve ser creditada mais uma parcela desta bem sucedida empreitada teatral, já que consegue extrair ótimas atuações do numeroso elenco.
Na equipe técnica, destaco com o mesmo entusiasmo a cenografia de Nello Marrese, os figurinos de Rui Cortez, a iluminação de Daniela Sanchez, a música original de André Abujamra e a programação visual de Adrien Scultori.
COMÉDIA RUSSA - Texto de Pedro Brício. Direção de João Fonseca. Com a Cia. Fodidos Privilegiados. Teatro Nelson Rodrigues. Quinta a domingo, 19h30.
"Comédia russa"
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Crimes na repartição
Lionel Fischer
Muito já se escreveu sobre este monstro chamado burocracia, cuja principal finalidade é levar a espécie humana à loucura. Mas aqui, mesmo que exibindo a ineficiência de uma repartição pública, o ócio generalizado acaba sendo banido graças à uma seqüência de misteriosos crimes, que acabam conferindo, curiosamente, um pouco de vida ao marasmo habitual.
De autoria de Pedro Brício, "Comédia russa" é o mais recente espetáculo da Cia. Fodidos Privilegiados, ora em cartaz no Teatro Nelson Rodrigues (Caixa Cultural). João Fonseca responde pela direção, estando o elenco formado por Alexandre Pinheiro, Cristina Mayrink, Daniela Olivert, Filomena Mancuzo, Marcos Correa, Ricardo Souzedo, Roberto Lobo, Rose Abdallah e Thelmo Fernandes, além dos atores convidados Rodrigo Nogueira e Natália Lage.
Como fica perfeitamente claro, o autor Pedro Brício não pretendeu analisar ou questionar as razões que permitem a existência da máquina burocrática, cuja ineficiência é praticamente a mesma em todos os países - inclusive na Rússia, onde a ação é ambientada. Seu objetivo, ao que me parece, foi o de criar uma situação (como já foi dito) capaz de demonstrar que as mesmas pessoas que "agem" com a rapidez de uma lesma tornam-se super ativas quando confrontadas com um contexto que foge ao cotidiano de suas funções. E neste sentido seu texto pode ser considerado eficiente, embora tal eficiência pudesse ser ainda maior desde que a peça fosse um pouco reduzida.
Ainda assim, o autor cria ótimos personagens e situações hilariantes, exploradas com vigor e criatividade pelo diretor João Fonseca, a quem considero nosso melhor "especialista" quando se trata de materializar na cena contextos delirantes. E a Fonseca também deve ser creditada mais uma parcela desta bem sucedida empreitada teatral, já que consegue extrair ótimas atuações do numeroso elenco.
Na equipe técnica, destaco com o mesmo entusiasmo a cenografia de Nello Marrese, os figurinos de Rui Cortez, a iluminação de Daniela Sanchez, a música original de André Abujamra e a programação visual de Adrien Scultori.
COMÉDIA RUSSA - Texto de Pedro Brício. Direção de João Fonseca. Com a Cia. Fodidos Privilegiados. Teatro Nelson Rodrigues. Quinta a domingo, 19h30.
igual a você
Teatro/CRÍTICA
"Igual a você"
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Loucuras cotidianas
Lionel Fischer
"Os males da vida moderna que atacam boa parte dos habitantes das grandes metrópoles são o alicerce da comédia". Este trecho, extraído do release que me foi enviado, traduz o que realmente ocorre em cena. Estruturado na forma de esquetes, "Igual a você" (Teatro do Leblon)exibe textos de Lícia Manzo ("Paranóia" e "Vício"), Cristina Fagundes ("Ninfomania" e "Pânico"), Adriana Falcão ("Insônia"), Regiana Antonini ("TOC e TPM") e Fernando Duarte e Therèze Bellido ("Hipocondria"). Ernesto Piccolo assina a direção do espetáculo, estando o elenco formado por Camila Morgado, Bia Nunes e Anderson Müller.
Como em geral ocorre em espetáculos que reúnem esquetes, aqui alguns atingem mais plenamente seus objetivos do que outros. No presente caso, destacamos "Paranóia", "Ninfomania" e "TOC e TPM". Em "Paranóia", a autora Lícia Manzo extrai grande comicidade do primeiro encontro entre um homem e uma mulher que se conheceram através da internet. No segundo, Cristina Fagundes cria um texto muito engraçado envolvento uma jovem que reúne, em doses equivalentes, compulsão sexual e debilidade mental, gerando no rapaz que tenta seduzir um permanente estado de perplexidade.
Finalmente, em "TOC e TPM", Regiana Antonini nos mostra duas amigas em um restaurante, sendo uma delas cantora lírica que obriga a amiga a trocar de mesa a todo momento, alegando hipotéticas correntes de ar, capazes de causar irremediáveis danos às suas preciosas cordas vocais. Quanto aos demais, dramaturgicamente inferiores, ainda assim o riso acontece muitas vezes, mas muito mais em função da atuação dos intérpretes.
Com relação ao espetáculo, Ernesto Piccolo cria uma dinâmica cênica eficiente, mas isenta de maior brilho. Mas cabe ressaltar sua atuação junto ao elenco, pois Camila Morgado, Bia Nunes e Anderson Müller exibem ótimo tempo de comédia e grande versatilidade nos múltiplos personagens que interpretam. Na equipe técnica, Aurélio de Simoni (iluminação), Gabriel Lessa (trilha sonora) e Clívia Cohen (cenografia) respondem por trabalhos corretos, cabendo destacar os ótimos figurinos de Lessa de Lacerda.
IGUAL A VOCÊ - Textos de vários autores. Direção de Ernesto Piccolo. Com Camila Morgado, Bia Nunes e Anderson Müller. Teatro do Leblon. Quinta a sábado, 21h30. Domingo, 20h.
"Igual a você"
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Loucuras cotidianas
Lionel Fischer
"Os males da vida moderna que atacam boa parte dos habitantes das grandes metrópoles são o alicerce da comédia". Este trecho, extraído do release que me foi enviado, traduz o que realmente ocorre em cena. Estruturado na forma de esquetes, "Igual a você" (Teatro do Leblon)exibe textos de Lícia Manzo ("Paranóia" e "Vício"), Cristina Fagundes ("Ninfomania" e "Pânico"), Adriana Falcão ("Insônia"), Regiana Antonini ("TOC e TPM") e Fernando Duarte e Therèze Bellido ("Hipocondria"). Ernesto Piccolo assina a direção do espetáculo, estando o elenco formado por Camila Morgado, Bia Nunes e Anderson Müller.
Como em geral ocorre em espetáculos que reúnem esquetes, aqui alguns atingem mais plenamente seus objetivos do que outros. No presente caso, destacamos "Paranóia", "Ninfomania" e "TOC e TPM". Em "Paranóia", a autora Lícia Manzo extrai grande comicidade do primeiro encontro entre um homem e uma mulher que se conheceram através da internet. No segundo, Cristina Fagundes cria um texto muito engraçado envolvento uma jovem que reúne, em doses equivalentes, compulsão sexual e debilidade mental, gerando no rapaz que tenta seduzir um permanente estado de perplexidade.
Finalmente, em "TOC e TPM", Regiana Antonini nos mostra duas amigas em um restaurante, sendo uma delas cantora lírica que obriga a amiga a trocar de mesa a todo momento, alegando hipotéticas correntes de ar, capazes de causar irremediáveis danos às suas preciosas cordas vocais. Quanto aos demais, dramaturgicamente inferiores, ainda assim o riso acontece muitas vezes, mas muito mais em função da atuação dos intérpretes.
Com relação ao espetáculo, Ernesto Piccolo cria uma dinâmica cênica eficiente, mas isenta de maior brilho. Mas cabe ressaltar sua atuação junto ao elenco, pois Camila Morgado, Bia Nunes e Anderson Müller exibem ótimo tempo de comédia e grande versatilidade nos múltiplos personagens que interpretam. Na equipe técnica, Aurélio de Simoni (iluminação), Gabriel Lessa (trilha sonora) e Clívia Cohen (cenografia) respondem por trabalhos corretos, cabendo destacar os ótimos figurinos de Lessa de Lacerda.
IGUAL A VOCÊ - Textos de vários autores. Direção de Ernesto Piccolo. Com Camila Morgado, Bia Nunes e Anderson Müller. Teatro do Leblon. Quinta a sábado, 21h30. Domingo, 20h.
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