sábado, 14 de novembro de 2015

Teatro/CRÍTICA

"Autobiografia Autorizada"

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Humor e lirismo na Casa da Gávea



Lionel Fischer



A noite de ontem foi muito especial para mim. Com indesculpável atraso, resolvi assistir "Autobiografia Autorizada", em cartaz na Casa da Gávea após cumprir bela temporada nos Correios e percorrer inúmeras cidades no país. Mas ao chegar ao referido espaço constatei a presença de poucos espectadores, certamente por que, no mesmo horário, o Brasil estaria jogando com a Argentina pelas eliminatórias da Copa do Mundo.

Então, perguntei a Paulo Betti se ele não preferia cancelar a sessão, pois havia a possibilidade de o Brasil jogar bem (o que não acorreu e parece que jamais ocorrerá) e a gritaria se instalar nas redondezas, prejudicando o espetáculo. Paulo me disse que não cancelaria a apresentação, mesmo com a possibilidade de foguetórios. E enfatizou, sempre sorridente e com enorme simpatia, que o fato de ali estarem poucas pessoas não alterava nada: "O teatro é isso, não é? Um dia representamos para muitos, um dia representamos para poucos". 

Efetivamente, o teatro é isso. O verdadeiro artista não permite que sua disponibilidade para se doar esteja atrelada ao número de espectadores. E certamente os poucos que estiveram, ontem, na Casa da Gávea, de lá saíram tão gratificados como eu, pois ali se materializou a melhor definição de teatro que conheço, proferida pelo maior encenador vivo, o inglês Peter Brook: "O teatro é a arte do encontro".

Paulo Betti está comemorando 40 anos de uma belíssima carreira, tendo realizado um total de 117 trabalhos como ator em teatro, cinema, TV, diretor e narrador. E poderia ter escolhido um belo texto de autor consagrado para festejar uma data tão especial. Mas optou por escrever sobre si mesmo, sobre sua família, sobre sua infância e adolescência. E para aqueles que, apressadamente, possam imaginar que na origem de tal iniciativa repousaria uma discutível dose de vaidade, gostaria de dizer que considero abençoados os que se envaidecem de suas trajetórias, desde que as mesmas, naturalmente, contenham tanta poesia, humor e humanidade, como a de Paulo Betti.

Optando por uma estrutura narrativa que mescla confissões e materializações de pessoas vitais, o belíssimo texto de Paulo Betti encontra justa correspondência na brilhante direção de Betti em parceria com Rafael Ponzi, que valoriza, com a mesma intensidade e lirismo, tanto as passagens mais dramáticas quanto aquelas em que o humor predomina. E se a isto somarmos a deslumbrante performance de Paulo Betti, o resultado só poderia ser um dos mais expressivos espetáculos da atual temporada, que deve ser prestigiado de forma incondicional pelo público.

Na equipe técnica, considero igualmente irretocáveis as contribuições de todos os profissionais envolvidos nesta imperdível empreitada teatral - Mana Bernardes (cenário), Letícia Ponzi (figurino), Dani sanchez e Luiz Paulo Neném (iluminação) Pedro Bernardes (trilha sonora)  e Miriam Weitzman (direção de movimento).

AUTOBIOGRAFIA AUTORIZADA - Texto de Paulo Betti. Direção de Betti e Rafael Ponzi. Com Paulo Betti. Casa da Gávea. Sexta e sábado, 21h. Domingo, 20h.








sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Teatro/CRÍTICA

"Banho de sol"

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Várias leituras dificultam conexão



Lionel Fischer



"Primeiro trabalho da Companhia Doêrro - criada em 2014 - a trama abre ao público a possibilidade de várias interpretações. O espetáculo é uma sequência de solos curtos, que abordam a solidão através de linguagens teatrais diferentes". 

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza a essência de "Banho de sol", que tem direção e dramaturgia assinadas por Helena Almeida e Ruy Carvalho, também intérpretes do espetáculo em cartaz no Teatro Café Pequeno.

Como se sabe, o teatro é uma arte fundamentalmente libertária, e portanto pode e deve abrigar uma infinidade de temas e linguagens. No entanto, há que se levar em consideração, como sustenta Peter Brook (maior encenador vivo), que o teatro é essencialmente "a arte do encontro". Ou seja: há que existir algum elo entre quem faz e quem assiste, independentemente da linguagem, tema ou espaço em que se dê a representação. 

No presente caso, estamos diante de um espetáculo que, como consta do trecho do release acima mencionado, permite várias interpretações. Isto, em princípio, nada tem de grave. Mas é óbvio que, dentre várias possibilidades, deve existir ao menos uma com a qual o espectador possa estabelecer uma conexão minimamente satisfatória. Não foi o que me aconteceu, pelas razões que explicito em seguida.

Inicialmente, vemos um homem que, após grande período de imobilidade, começa a proferir palavras intercaladas com uma oração. Este homem, ao longo do espetáculo, empreende uma espécie de partitura, que o leva a repetir gestos e a arrumar e a rearrumar obsessivamente seus pertences - a partir de um certo ponto, seu estado emocional vai se tornando cada vez mais exacerbado, o que o leva a se auto-agredir ou ser agredido por alguém que não vemos. Quem é esse homem? 

Também no início, um vulto de mulher permanece um bom tempo imóvel. De repente, ela começa a falar, mas a iluminação impede que vejamos seu rosto, somente seu vestido. Ela faz uma sôfrega confissão acerca de sua própria personalidade e de como se comporta na vida. Mas o fato de, ao menos durante esta longa fala, não vermos seu rosto, talvez indique que não se trata de alguém em particular, mas da condição feminina. Seria isso?

A partir daí, o homem - como já dito - segue sua partitura. Quanto à mulher, ela basicamente canta trechos de canções infantis. Os dois personagens jamais se encontram (ou tem brevíssimo contato) e talvez a proposta não seja a de mostrar o que está ocorrendo entre duas pessoas que possam ter vivido uma história, mas sim a de enfatizar a solidão humana. Será que esta seria a leitura mais próxima do pretendido? Sinceramente, não sei. 

Seja como for, é inegável a seriedade do projeto, assim como torna-se imperioso destacar o excelente trabalho corporal de Ruy Carvalho e a grande capacidade de entrega de Helena Almeida, assim como a beleza dos figurinos de Júlia Faria (Mulher) e Florência Santángelo (Homem), dos objetos de cena e da iluminação, feita pelos atores com supervisão de Bruno Peixoto.  

BANHO DE SOL - Dramaturgia e direção de Helena Almeida e Ruy Carvalho. Companhia Doêrro. Com Helena Almeida e Ruy Carvalho. Teatro Café Pequeno. Quarta e quinta, 21h.



  







sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Teatro/CRÍTICA

"Nine - um musical felliniano"

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Montagem imperdível no Clara Nunes



Lionel Fischer



"Guido Contini, diretor de cinema conhecido internacionalmente, está em uma grave crise criativa, sem saber como desenvolver o seu próximo projeto. Para fugir das tensões, ele resolve passar alguns dias em uma SPA em Veneza, onde encontra - em diferentes planos, como realidade, memória, fantasia, sonho - todas as mulheres de sua vida: a mãe, a esposa, a amante, a musa de seus filmes, a prostituta e a sua produtora."

Extraído do ótimo release que me foi enviado, o trecho acima contextualiza "Nine - um musical felliniano", de Maury Yeston (composições e letras) e Arthur Kopit (texto). Baseado no filme 
"8  1/2", de Fellini, lançado em 1963, "Nine" estreou na Broadway em 1982, obtendo extraordinário sucesso. Agora, após cumprir excelente temporada em São Paulo, "Nine" pode ser assistido até o próximo domingo no Teatro Clara Nunes.

Contando com direção artística de Charles Möeller e Claudio Botelho (este também responsável pela versão brasileira), "Nine" traz no elenco Totia Meireles, Carol Castro, Malu Rodrigues, Leticia Birkheuer, Karen Junqueira, Sonia Clara, Myra Ruiz, Agata Matos, Camila Marotti, Laís Lenci, Lola Fanucchi, Priscila Esteves, Luiz Felipe Mello e Nicola Lama, este vivendo o protagonista Guido.

Como sempre ocorre com puristas de plantão, imagino que quase todos poderão ter torcido seus desgraciosos narizes e levantado argumentos poderosíssimos do tipo "mas o filme de Fellini tinha isso, o filme de Fellini tinha aquilo..." e assim por diante. Diante de colocações de tamanha relevância, limito-me humildemente em enfatizar o óbvio: é totalmente pueril se tentar estabelecer comparações entre linguagens diferentes. Até por que, no presente caso, o protagonista não está mergulhado em questões estéticas e existenciais, como no filme, e sim vivendo embates com mulheres fundamentais de sua vida - e tudo isso, diga-se de passagem, acontecendo basicamente dentro de sua cabeça. Isto posto, sigamos adiante.

Não hesito em afirmar que os norte-americanos Yeston e Kopit produziram um material de altíssima qualidade e que este, em sua versão nacional, manteve-se deslumbrante. Em seu trigésimo quinto espetáculo, a dupla Möeller e Botelho reafirma sua excelência, presente em todos os segmentos desta montagem deliciosa e imperdível. 

Com relação à dinâmica cênica, os diretores criaram marcações impregnadas de vigor e teatralidade, além de conseguirem extrair ótimo rendimento de todo o elenco. Em participações mais centradas no canto, Agata Matos, Camila Maroti, Laís Lenci,  Lola Fanucchi e Priscila Esteves exibem vozes belíssimas, além de corpos igualmente belos e forte presença cênica. Na pele da esposa Luisa, Carol Castro destaca-se pela intensidade de sua performance. Karen Junqueira, a diva Claudia, valoriza muito o solo que lhe cabe. Letícia Birkheuer interpreta com correção a crítica Stephanie, com idêntico resultado quando canta. 

Totia Meireles (a produtora Lili La Fleur) é uma presença fascinante, tanto nas passagens faladas quanto naquelas em que nos brinda com sua bela voz. A mesma excelência se faz presente em Malu Rodrigues (a amante Carla) e em Myra Ruiz (a prostituta Sarraghina) - esta última protagoniza a passagem coreográfica mais brilhante do espetáculo. Luiz Felipe Mello, de apenas 9 anos de idade, canta muito bem e é uma figura encantadora em cena. Quanto a Nicola Lama, este vive Guido Contini de forma arrebatadora, exibindo forte presença cênica, grande carisma, voz poderosa e notável capacidade de materializar toda a angústia e fragilidade do protagonista, assim como seu irresistível humor. Sem dúvida, uma performance deslumbrante.

Na equipe técnica, considero irrepreensíveis as contribuições de todos os profissionais envolvidos nesta sedutora e imperdível empreitada teatral - Alonso Barros (coreografia), Rogério Falcão (cenografia), Lino Villaventura (figurinos), Ademir Moraes Jr. (desenho de som), Paulo Cesar Medeiros (iluminação), Beto Carramanhos (visagismo) e Paulo Nogueira (direção musical e regência). Cabe também destacar a excelência dos músicos Paulo Nogueira (regente e piano 1), Rodrigo Hyppolito (piano 2 e regente substituto), Douglas Andrade (bateria/percussão), Mauro Domenech (baixo acústico), Helena Imasato (violino), Watson Clis (violoncelo), Paulo Jordão (trompete), Douglas Freitas (trombone) e Mauro Oliveira (reed/multi-madeiras).

NINE- UM MUSICAL FELLINIANO - Texto de Arthur Kopit, música e letras de Maury Yeston. Versão brasileira de Claudio Botelho. Direção de Botelho e Charles Möeller. Com Nicola Lama, Carol Castro, Totia Meireles e grande elenco. Teatro Clara Nunes. Hoje e amanhã, 21h. Domingo, 19h.







terça-feira, 3 de novembro de 2015

Teatro/CRÍTICA

"Talk Radio"

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Sombria e pertinente visão da América



Lionel Fischer



"O locutor de rádio Barry Champlain comanda, todas as madrugadas, um programa onde responde aos telefonemas de seus ouvintes - pessoas estranhas, solitárias e problemáticas. O programa aborda assuntos polêmicos, como legalização de drogas, homossexualismo, racismo, preconceitos, diferenças religiosas e patologias do comportamento humano. Ao mesmo tempo, a peça mostra os bastidores do programa e a tumultuada relação de Barry com seus colegas de emissora".

Extraído, e um pouco editado, do release que me foi enviado, o trecho acima resume o contexto em que se dá "Talk Radio", do norte-americano Eric Bogosian. Maria Maya responde pela direção do espetáculo (Teatro Solar de Botafogo), estando o elenco formado por Leonardo Franco (Barry Champlain), Alexandre Varella (Dan, ouvintes), Bernardo Mendes (Kent), Marcelo Aquino (Stu, ouvintes), Mariana Consoli (ouvintes), Raul Franco (ouvintes) e Stela Maria Rodriygues (Linda).

Escrito em 1987, este texto poderia soar um tanto defasado, em função da era digital. Mas acredito que o rádio jamais perdeu ou perderá sua força, e menos ainda quando pessoas, como no presente caso, podem conversar com alguém sem nenhuma intermediação. E mais: sabendo que também estão sendo ouvidas por outras pessoas, o que deve gerar algum consolo para os que padecem de solidão ou que julgam que suas opiniões ou desabafos não merecem ser levados a sério. Mas será que Barry leva a sério seus ouvintes?

Em alguns poucos casos, sim, mas na maioria, não. De uma maneira geral, o apresentar se vale dos telefonemas para expor, de forma virulenta e sarcástica, seu desprezo pelas opiniões emitidas e valorizar as próprias. No entanto, se fosse apenas isso, a peça se resumiria em expor uma forte, irônica, virulenta e carismática personalidade, quando na realidade o autor pretendeu muito mais. Em meu entendimento, o que está em causa não são as patologias individuais, mas a patologia de uma nação. 

Posso estar enganado, evidentemente, mas acredito que os ouvintes que telefonam - e não raro inventam histórias - não são tão importantes enquanto indivíduos e sim como integrantes de uma coletividade que, resguardada pelo anonimato, constitui uma das mais graves ameaças a qualquer sociedade: a maioria silenciosa. 

Neste sentido, ao dar voz àqueles que em princípio jamais seriam escutados, o que Barry pretende não é se compadecer com eventuais infortúnios ou desancar os que defendem valores diferentes dos seus, mas fundamentalmente fazer emergir o que jamais vem à tona, exibindo o lodo que se esconde sob a superfície supostamente límpida de uma sociedade que, da forma mais descarada, ainda insiste em ser tomada como exemplo.

Bem escrito, contendo ótimos personagens e exibindo uma ação que prende a atenção do espectador desde o início, "Talk Radio" recebeu segura versão cênica de Maria Maya, tanto nas passagens em que Barry se relaciona com seus ouvintes quanto naquelas em que o foco recai na emissora, durante os intervalos comerciais. A única ressalva que faço à encenadora diz respeito à iluminação de Adriana Ortiz, com a qual, evidentemente, Maria Maya concordou.

Que a luz que incide sobre o apresentador, enquanto o programa está no ar, seja basicamente sombria, até aí tudo bem. Mas por que manter a mesma e imutável atmosfera soturna quando vemos os ouvintes? Será que algum tipo de contraste não tornaria essas relações mais vivas e expressivas? Será que a apropriada utilização da cor não contribuiria para enfatizar ainda mais os diversificados climas emocionais em jogo? Enfim...fica a sugestão.

Com relação ao elenco, Leonardo Franco exibe uma das melhores performances de sua carreira, conseguindo materializar na cena as principais características de uma personalidade controversa e fascinante. No que diz respeito a Alexandre Varella, Bernardo Mendes, Marcelo Aquino, Mariana Consoli, Raul Franco e Stela Maria Rodriygues (por sinal, cada vez mais linda), todos contribuem de forma decisiva para o êxito desta poderosa e mais do que pertinente empreitada teatral.

No complemento da ficha técnica, considero irrepreensíveis as contribuições de Leonardo Franco (tradução), José Dias (cenografia), João Paulo Mendonça (produtor musical), Marina Beltrão (visagismo), Verônica Machado (preparação vocal) e Cynthia Reis (direção de movimento).

TALK RADIO - Texto de Eric Bogosian. Direção de Maria Maya. Com Leonardo Franco, Alexandre Varella, Bernardo Mendes, Marcelo Aquino, Mariana Consoli, Raul Franco e Stela Maria Rodriygues. Teatro Solar de Botafogo. Sexta e sábado, 21h. Domingo, 20h.










Teatro/CRÍTICA

"Cenas de um casamento"

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Bela encenação de adaptação ousada



Lionel Fischer



Inicialmente exibida na televisão sueca em seis episódios ("Inocência e pânico", "A arte de empurrar os problemas para debaixo do tapete", "Paula", "O vale de lágrimas", "Os analfabetos" e "No meio da noite em uma casa escura em algum lugar"), a série "Cenas de um casamento", de Ingmar Bergman,  acabou virando filme homônimo e de idêntico sucesso. O presente espetáculo é baseado no roteiro do filme e sua tradução e adaptação ficaram a cargo de Maria Adelaide Amaral.  Bruce Gomlevsky assina a direção do espetáculo (Teatro Ipanema), estando o elenco formado por Juliana Martins (Marianne) e Heitor Martinez (Johan).

Antes de tecer considerações sobre a montagem, julgo oportuno discorrer sobre a presente adaptação. No original, eram nove personagens. Aqui, apenas dois: o casal Marianne e Johan. Isso significa que muitas passagens importantes foram suprimidas, como a entrevista que ambos concedem a uma emissora de televisão para falar sobre o sucesso de seu matrimônio e a visita que recebem de um casal amigo que, durante o jantar, acaba revelando que seu casamento passa por gravíssimas dificuldades.

Isto posto, caberia a pergunta: a omissão de tantas cenas e personagens compromete a essência do projeto de Bergman? A resposta, em princípio, deveria ser sim - ao menos para aqueles que desejassem ver no palco uma transposição do filme. Ocorre, porém, que Maria Adelaide Amaral optou por centrar toda a ação na relação do casal e ao fazê-lo, é claro que de forma consciente, sabia que tal redução implicaria no sacrifício de muitas passagens importantes. 

Ainda assim, todas as reduções efetuadas não me impediram de me envolver profundamente com a trajetória do casal, com seus encontros e desencontros, suas tentativas desesperadas (sobretudo as de Marianne) de reverter um quadro irreversível, suas reflexões sobre o amor, a deterioração do sexo, a dificuldade de educar as filhas, a constante necessidade de aprovação por parte de suas famílias, a massacrante rotina, a inexorável passagem do tempo e assim por diante. Em resumo: não padeci de nenhuma orfandade com relação ao original e consegui usufruir plenamente o belíssimo texto de Bergman, que aqui mereceu ousada adaptação.

Com relação ao espetáculo, o maior mérito de Bruce Gomlevsky não se prende apenas à expressividade de suas marcações e à precisão dos tempos rítmicos, mas fundamentalmente à sua profunda compreensão do caráter, aspirações, carências e contradições dos personagens, o que certamente o ajudou a extrair ótimas atuações do elenco.

Na pele de Johan, Heitor Martinez consegue materializar, com grande sensibilidade, a curva emocional de um homem que, a princípio aparentemente conformado com sua vida e seu casamento, e sugerindo que jamais tomará qualquer atitude capaz de reverter uma situação que parece fadada a se perpetuar, mais adiante é aquele que age - arruma uma amante, sai de casa e tenta trabalhar no exterior. E ao empreender essa mudança, o ator materializa pertinentes alterações vocais, corporais e rítmicas, o que me leva a considerar irrepreensível sua performance.

Juliana Martins é uma atriz que sempre me dá a sensação de que considera perfeitamente possível que cada apresentação sua possa ser a última, ou seja: entrega-se sem reservas, de forma absolutamente visceral, nada economizando e ofertando ao público tudo o que de melhor possui. No presente caso, esse tudo é vasto: valendo-se de sua inteligência cênica e de seus muitos recursos vocais e corporais, a atriz nos brinda com uma composição cuja origem não advém de impulsos exteriores, mas parece surgir de suas entranhas. Sob todos os aspectos e sem sombra de dúvida, estamos diante de uma das melhores performances da atual temporada.

Na equipe técnica, considero excelentes a tradução de Maria Adelaide Amaral, a trilha sonora original de Alex Fonseca, a iluminação de Elisa Tandeta e o figurino de Ticiana Passos. Quanto à cenografia de Pati Faedo, só encontro uma explicação para a permanente mobilidade da mesma: uma tentativa de sugerir que, à medida que os personagens mudam, os espaços que ocupam também se alteram. Mas, ainda que tenha sido esta a ideia, não a considero relevante para a apreensão dos diversificados conteúdos em jogo.

CENAS DE UM CASAMENTO. Texto de Ingmar Bergman. Tradução e adaptação de Maria Adelaide Amaral. Direção de Bruce Gomlevsky. Com Juliana Martins e Heitor Martinez. Teatro Ipanema. Sexta a domingo, 20h.





quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Teatro/CRÍTICA

"Ou tudo ou nada - O musical"

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Deliciosa montagem no Net Rio




Lionel Fischer



Os que entendem da vida sustentam que, em tempos de crise, a criatividade aumenta. E é mesmo possível, ao menos se tomarmos como exemplo Jerry e Dave. Desempregados há meses, o primeiro correndo o risco de perder a guarda do filho e o segundo a atual esposa, ambos decidem dar a seguinte e inesperada guinada em suas vidas: formar uma trupe composta por homens igualmente desempregados para apresentar um show de streap-tease - a ideia surgiu após constatarem que as mulheres não hesitam em pagar um alto preço para desfrutar as delícias de um show dessa natureza. No entanto, será que a empreitada daria certo, já que protagonizada por homens comuns e possuidores de corpos isentos de sedutoras protuberâncias e instigantes concavidades?

Eis o enredo de "Ou tudo ou nada - O musical", em cartaz no Teatro Net Rio. Primeira versão brasileira do musical americano "The Full Monty" (texto de Terrence McNally e música de David Yazbek) baseado no filme homônimo britânico, o espetáculo chega à cena com versão para o português assinada por Artur Xexéu e direção de Tadeu Aguiar. No elenco, Mouhamed Harfouch, Claudio Mendes, André Dias, Victor Maia, Carlos Arruza, Sergio Menezes, Xande Valois, Patrícia França, Kacau Gomes, Sylvia Massari, Samantha Caracante, Carol Futuro, Sara Marques, Larissa Landin, Fabio Bianchini, Felipe Niemeyer e Gabriel Peregrino.

Os que entendem de teatro, seja qual for o gênero, sustentam ser imprescindível se partir de uma boa ideia. Embora não concorde com tal premissa (ou alguém acha que "Hamlet" parte de uma boa ideia?), no presente caso admito duas coisas. A primeira: a ideia é sensacional. A segunda: só mesmo um autor e um músico medíocres conseguiriam o prodígio de desfigurá-la. 

Felizmente, McNally e Yazbeck materializaram uma obra irretocável - o texto, pleno de humor e humanidade, e de impressionante atualidade, cativa a plateia desde o início; e as belas canções são determinantes para a compreensão e evolução da trama, jamais surgindo como meros acessórios para atores/cantores exibirem seus dotes vocais. E, evidentemente, cabe ressaltar a excelente versão para o português feita por Artur Xexéu, a irretocável direção musical de Miguel Briamonte e a deliciosa encenação de Tadeu Aguiar.

Impondo à cena uma dinâmica ágil e criativa, irrepreensível no tocante aos tempos rítmicos e sempre atenta no sentido de valorizar ao máximo todos os diversificados conteúdos em jogo, tanto os mais dramáticos quanto aqueles em que o humor predomina, Tadeu Aguiar exibe o mérito suplementar de haver extraído ótimas atuações de todo o elenco, seja no que se refere aos protagonistas, seja no que concerne aos que têm oportunidades menores. 

E mesmo que alguns possuam vozes mais poderosas, aqui isso não é tão relevante, pois o que está em causa é um universo composto por pessoas comuns - ao menos para mim haveria de soar um tanto estranho se, por exemplo, lá pelas tantas uma atriz que faz uma participação menor emitisse agudos ou graves de uma Maria Callas...

Com relação à equipe técnica, considero irrepreensíveis as colaborações de todos os profissionais envolvidos nesta divertida empreitada teatral - Edward Monteiro (cenografia), Ney Madeira e Dani Vidal (figurinos), Alan Rezende (coreografia), (David Bosboom e Dani Sanchez (desenho de luz), Gabriel D'Angelo e Bruno Pìnho (desenho de som), Harold Wheeler (orquestração), Ted Sperling (arranjos vocais e incidentais), Zane Mark (arranjos para músicas de dança) e Mirna Rubim (preparação vocal). Cabe também destacar a excelência dos músicos Miguel Briamonte e Daniel Sanches (piano), Josias Franco, Ricardo Hulck e Marco Moreira (sopros), Marcelo Rezende (guitarra), Leandro Vasques (baixo) e Tiago Calderano (bateria).

E, finalmente: ainda que não tenha particularizado nenhuma atuação por considerar excelentes todas elas (como já dito), faço absoluta questão de expressar meu total encantamento com a performance do menino Xande Valois que, além de exibir forte presença cênica e incrível charme, interpreta com extrema competência o difícil papel de Nathan, filho de Jerry. 

OU TUDO OU NADA - O MUSICAL - Texto de Terrence McNally. Música de David Yazbek. Versão para o português de Artur Xexéu. Direção de Tadeu Aguiar. Com Mouhamed Harfouch, Claudio Mendes e grande elenco. Teatro Net Rio. Quinta e sexta, 21h. Sábado às 18h e 21h30. Domingo, 19h.








terça-feira, 27 de outubro de 2015

Teatro/CRÍTICA

"Pequenos poderes"

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Direção e elenco valorizam ótimo texto



Lionel Fischer



"O bullying sofrido por um aluno de origem nordestina, a tensão entre um assaltante e a gerente em uma agência bancária, a confissão recheada de situações cabeludas a um padre, a entrevista tendenciosa feita por uma entrevistadora de TV e o depoimento de um réu com opiniões polêmicas durante o próprio julgamento costuram o texto de Pequeno Poderes, que discute a ruptura de valores da sociedade atual, questionando qual seria o limitador mais eficiente para os nossos impulsos: religião? Lei? Ética? Ou simplesmente a ausência do poder?".

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima resume o enredo das cinco narrativas e propõe uma pertinente questão. De autoria de Diego Molina, "Pequenos poderes" (inspirado na obra do cartunista Nani) está em cartaz na Casa da Gávea. Breno Sanches responde pela direção da montagem, que traz no elenco Andy Gercker, Bia Guedes, Zé Auro Travassos e Rita Fischer - esta última substituindo Mariana Consoli desde a semana passada.  

Afora exibirem diálogos ágeis, críticos e personagens bem estruturados (na medida em que podem ser bem estruturados personagens de narrativas muito curtas), os textos de Diego Molina possuem o mérito suplementar e surpreendente de inverter sempre os papéis entre dominadores e dominados, fazendo com que tais reviravoltas não se tornem nem um pouco gratuitas. Um bom exemplo, e talvez o melhor e mais engraçado, é o quadro envolvendo o assaltante e a gerente de uma agência bancária - o assaltante acaba sendo convencido pela gerente a devolver tudo o que acabara de roubar, com argumentos burocraticamente hilariantes.

Com relação à montagem, Breno Sanches impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com o material dramatúrgico. Suas marcas, sempre criativas e diversificadas, valorizam ao máximo todos os conteúdos propostos pelo autor, cabendo ressaltar a coragem do encenador para, não raro, enveredar por um caminho cujo paroxismo poderia se revelar desnecessário, mas que no presente caso se mostra perfeitamente adequado e coerente.

No elenco, Bia Guedes está muito bem na pele da insana e punitiva professora, assim como no da tendenciosa entrevistadora, mas acredito que ainda possa se soltar mais quando vive a promotora carente de um braço. Andy Gercker convence plenamente em todas as suas participações, em especial no quadro do julgamento, quando seu personagem renuncia ao papel de julgado e passa a julgar as instituições. Zé Auro Travassos exibe a mesma excelência, sendo impagável sua performance na pele do homem que faz confissões ao sacerdote. Rita Fischer está muito bem vivendo a gerente do banco (atuação propositadamente calma e suavemente irônica), mas seu melhor momento ocorre interpretando a entrevistada, quando exibe impecável trabalho vocal e corporal.

Na equipe técnica, Ana Luiza de Simoni assina expressiva iluminação, que em muito colabora para ressaltar os diversificados climas emocionais em jogo. Bruno Perlatto responde por ótimos figurinos, a mesma excelência presente na cenografia de Diego Molina, na trilha sonora de Armando Babaioff e Breno Sanches, nos adereços de Tuca e no visagismo de Diego Nardes.

PEQUENOS PODERES - Texto de Diego Molina. Direção de Breno Sanches. Com Andy Gercker, Bia Guedes, Rita Fischer e Zé Auro Travassos. Casa da Gávea. Sexta e sábado, 21h. Domingo, 20h.