Teatro/CRÍTICA
"A paixão segundo Adélia Prado"
................................................................................
Apaixonante encontro na Laura Alvim
Lionel Fischer
Tão carente em tantos aspectos, o Rio de Janeiro acaba de receber um inestimável presente: a reinauguração do Teatro Laura Alvim, fechado há mais de um ano. E isto se dá através de um espetáculo admirável, que faculta ao público conhecer um pouco mais a vida e a obra de nossa maior poeta viva, Adélia Prado. Com adaptação teatral assinada por Elisa Lucinda e Geovana Pires, direção de Geovana e interpretação de Elisa, que divide a cena com o músico André Ramos, "A paixão segundo Adélia Prado" vai cumprir temporada de três meses, o que promete tornar ainda mais apaixonante o verão que se aproxima.
O primeiro grande trunfo da montagem diz respeito ao excelente roteiro. A partir de versos, textos em prosa e entrevistas, as adaptadoras criam uma circunstância cênica que, sem abdicar da teatralidade, aproxima de forma calorosa a poeta daqueles que a assistem. Em dados momentos, tive a sensação de estar diante de Adélia na sala de sua casa, sendo merecedor de saborosas e aparentemente corriqueiras confissões. Mas em outras passagens, o tom ameno cede espaço aos dilacerantes embates de uma mulher que procura um ponto de equilíbrio entre o profano e o sagrado, que tenta desesperadamente conciliar seu arrebatador erotismo com os preceitos essenciais do catolicismo. A alma e o corpo são inconciliáveis? O desejo e a fé são incompatíveis? O espectro da punição é na realidade nosso anjo da guarda?
Enfim...essas e muitas outras questões são abordadas com delicadeza e furor neste espetáculo dirigido de forma impecável por Geovana Pires, que valoriza com enorme sensibilidade os muitos e diversificados climas emocionais em jogo. E a Geovana Pires cabe o mérito suplementar de haver extraído excelente performance de Elisa Lucinda, ela também uma poeta de primeiríssima linha.
Além de possuir ótima voz, expressividade corporal e inteligência cênica, Elisa Lucinda exibe a rara qualidade de nos magnetizar por completo desde que entre em cena, faça ela o que fizer, e ainda que nada faça. Um exemplo: há uma passagem em que ela permanece sentada olhando para a plateia. Através de sutis alterações faciais e corporais, a atriz sugere que a personagem pode estar pensando algo a respeito de si mesma, ou então que seu alvo somos nós, que a olhamos. Aos poucos, um riso algo nervoso, algo cúmplice, se estabelece. E logo todos estamos sorrindo, sem saber exatamente por que. Sob todos os aspectos, um breve e memorável momento de total comunhão entre quem faz e quem assiste.
Mas é óbvio que a atuação de Elisa Lucinda não se resume ao momento acima mencionado. Ao longo de todo o espetáculo, é maravilhoso ver a coragem com que mergulha visceralmente em um universo em que lágrimas e sorrisos caminham sempre de mãos dadas, em que momentâneas tréguas são sempre o prenúncio de inevitáveis tempestades. Assim, só me resta agradecer o privilégio de ver em cena uma artista do porte de Elisa Lucinda - muito bem acompanhada pelo excelente músico André Ramos -, e desejar que os sempre caprichosos deuses do teatro abençoem esta imperdível empreitada teatral.
Com relação à equipe técnica, a todos parabenizo com o mesmo entusiasmo - Carlos Malta (direção musical), Djalma Amaral (iluminação), Bia Junqueira (cenografia), Madu Penido (figurino), Duda Maia (direção de movimento), Ronald Valle (preparação vocal) e David Lima e Bruno Cachimbo (direção artística).
A PAIXÃO SEGUNDO ADÉLIA PRADO - Textos de Adélia Prado. Adaptação teatral de Elisa Lucinda e Geovana Pires. Direção de Geovana Pires. Com Elisa Lucinda e o músico André Ramos. Teatro Laura Alvim. Quinta a sábado, 21h. Domingo, 20h.
terça-feira, 22 de novembro de 2016
quinta-feira, 17 de novembro de 2016
Caros amigos,
O ano está praticamente no fim e vamos encerrar nosso FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA apresentando no dia 25 de novembro, às 18h, na Sala Vera Janacópulos da UNIRIO, um filme sensível e penetrante: O VISITANTE (The Visitor, 2008, 105 min.), segundo longa-metragem dirigido pelo premiado Tom McCarthy, expoente do Oscar de roteiro original obtido pelo filme Spotlight: segredos revelados (2015).
O título escolhido para fecharmos o ano obteve significativo reconhecimento em diversos festivais internacionais com um elenco de peso, sendo o personagem principal interpretado por Richard Jenkins, indicado ao Oscar de melhor ator e a outros prêmios por sua atuação, contando ainda com a participação da extraordinária atriz árabe-israelense, Hiam Abbass, conhecida no Brasil pelo filme Lemon Tree.
Exibido na mostra Panorama do Cinema Mundial, no Festival do Rio 2008, a película tangencia o estado paranoico do pós 11 de setembro, e segue para além de questões políticas ou da discussão étnico cultural, versando sobre as surpresas que a vida traz quando se permite seguir seu fluxo sem julgamentos ou preconceitos. É um filme que emociona com leveza, sem ser dramático, acompanhando como o personagem Walter se envolve com seus inquilinos – amigos, transformando completamente sua vida monótona e vazia.
Enfim, uma oportunidade imperdível de se assistir e comentar um trabalho indagador. Contando, como sempre, com a divulgação aos amigos e interessados no viés cultural e psicanalítico, aguardamos todos vocês para mais um instigante debate.
E, nos reencontraremos no mês de março de 2017, após o recesso da UNIRIO e terminarmos a seleção dos filmes, que será enviada a todos. Um abraço de Ana Lúcia de Castro e Neilton Silva.
SERVIÇO:
DATA: 25 DE NOVEMBRO DE 2016.
HORÁRIO: FILME: 18h; ANÁLISE E DEBATE: 20 h às 22 h.
LOCAL: SALA VERA JANACÓPULOS – UNIRIO
ENDEREÇO: AV. PASTEUR, 296.
ANÁLISE CULTURAL: PROF. DRA. ANA LÚCIA DE CASTRO
ANÁLISE PSICANALÍTICA: DR. NEILTON SILVA
ENTRADA FRANCA - INFORMAÇÕES: forumpsicinema@gmail.com
NOTA: Quem se interessar em adquirir o livro: Fórum de Psicanálise e Cinema: 20 filmes analisados, de autoria de Ana Lúcia de Castro e Neilton Silva, ele se encontra à venda nos dias do FÓRUM.
HISTÓRICO: O FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA FOI CRIADO EM 1997, COMO UM PROJETO CIENTÍFICO DA ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA RIO 3, PELO ENTÃO PRESIDENTE, DR. WALDEMAR ZUSMAN, E PELO DIRETOR DO INSTITUTO, DR. NEILTON DIAS DA SILVA. DESDE 2004 PASSOU A CONTAR COM A PARTICIPAÇÃO DA MUSEÓLOGA E PROFESSORA DA UNIRIO, DRA ANA LÚCIA DE CASTRO, RESPONSÁVEL PELAS ANÁLISES CULTURAIS DOS FILMES. EM 2006, A APRIO 3, ATUAL SPRJ, CELEBROU PARCERIA COM A UNIRIO PARA SEDIAR O PROJETO MENSALMENTE, SEMPRE MUITO CONCORRIDO.
sábado, 5 de novembro de 2016
Teatro/CRÍTICA
"A vida passou por aqui"
..........................................................................
Montagem imperdível no Café Pequeno
Lionel Fischer
"A peça conta a história de uma profunda amizade entre uma mulher e um homem de estratos sociais diferentes. Silvia, professora e artista plástica, viveu grande parte de sua vida às voltas com as crises em seu casamento. Floriano, contínuo, inteligente e de hábitos simples, sempre levou a vida com leveza e bom humor. Quando se inicia a ação, Silvia é uma mulher solitária que se recupera de um AVC e Floriano é o único amigo presente. Aos poucos, graças a seu bom humor e alegria, ele contagia Silvia a ponto de fazê-la recuperar os movimentos. E juntos se divertem e comemoram os altos e baixos de quase 50 anos de amizade".
Extraído (e levemente editado) do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o enredo de "A vida passou por aqui", de autoria de Claudia Mauro, em cartaz no Teatro Café Pequeno. Alice Borges assina a direção do espetáculo, tendo Marcos Ácher como diretor assistente. No elenco, Claudia Mauro e Édio Nunes.
Como se sabe, muitos textos já foram escritos abordando a amizade e, mais especificamente, a amizade entre um homem e uma mulher. Mas este me parece especial, não tanto porque envolve pessoas pertencentes a estratos sociais diferentes, mas sobretudo porque enfatiza o poder que a alegria possui de promover verdadeiros milagres.
Sem entrar em maiores detalhes sobre o enredo, pois isso privaria o espectador de deliciosas surpresas, ao longo da peça constatamos que Silvia pertence àquele grupo de pessoas que tende a reagir de forma drástica aos percalços da vida, independentemente de sua maior ou menor gravidade. Já Floriano adota uma postura inversa, pois apesar de também sofrer eventuais percalços, não os encara
como determinantes do seu futuro, talvez pela consciência que possui de que é impossível levar um barco sem temporais. Enquanto Silvia acredita estar sempre à beira de um naufrágio, Floriano aposta no caráter efêmero do vento.
Sob todos os aspectos, "A vida passou por aqui" é um texto de primeiríssima qualidade. Valendo-se de ótimos diálogos e de personagens maravilhosamente estruturados, Claudia Mauro aborda, sempre com humor e delicadeza, não apenas a amizade entre um homem e uma mulher, mas também questões referentes à velhice, à relação com os filhos, aos sonhos que acalentamos e nem sempre materializamos, dentre outros temas. E, em última instância, parece nos sugerir que, se eventualmente lágrimas são inevitáveis, ainda assim elas devem ser encaradas como prenúncio de muitos risos.
Com relação ao espetáculo, a excelente atriz Alice Borges realizou um trabalho primoroso, tanto pela dinâmica que impõe à cena - marcações expressivas, notável precisão rítmica - quanto por sua atuação junto ao elenco. Sem nenhum temor de estar equivocado, não hesito em afirmar que Claudia Mauro e Édio Nunes exibem as melhores performances de suas carreiras.
Ambos com aplaudidas atuações mais voltadas para o humor, aqui os intérpretes mergulham profundamente em um universo em que só eventualmente a exuberância se materializa - isto ocorre nas passagens em que dançam, humilhando impiedosamente os mortais que os assistem. Mas na maior parte da peça, o que prevalece são gestos delicados, vozes que articulam o texto sem apelar para desnecessárias ênfases, o que nos permite absorver os múltiplos conteúdos com uma serena sensação de cumplicidade. A ambos, portanto, agradeço a maravilhosa noite que me proporcionaram, e desejo que muitos possam ter o privilégio de usufruir emoções semelhantes às que senti na noite de ontem.
Com relação à equipe técnica, considero irrepreensíveis as contribuições de todos os profissionais envolvidos nesta imperdível empreitada teatral - Nello Marrese (cenografia), Ana Roque (figurinos), Paulo César Medeiros (iluminação), Claudio Lins e Patricia Mauro (trilha sonora), Larissa Bracher (coach), Paula Águas (supervisão de movimento), Édio Nunes (coreografias) e Renata Paschoal, que cada vez mais se firma como uma das melhores profissionais de produção do teatro carioca.
A VIDA PASSOU POR AQUI - Texto de Claudia Mauro. Direção de Alice Borges. Com Claudia Mauro e Édio Nunes. Teatro Café Pequeno. Sexta a domingo, 20h.
"A vida passou por aqui"
..........................................................................
Montagem imperdível no Café Pequeno
Lionel Fischer
"A peça conta a história de uma profunda amizade entre uma mulher e um homem de estratos sociais diferentes. Silvia, professora e artista plástica, viveu grande parte de sua vida às voltas com as crises em seu casamento. Floriano, contínuo, inteligente e de hábitos simples, sempre levou a vida com leveza e bom humor. Quando se inicia a ação, Silvia é uma mulher solitária que se recupera de um AVC e Floriano é o único amigo presente. Aos poucos, graças a seu bom humor e alegria, ele contagia Silvia a ponto de fazê-la recuperar os movimentos. E juntos se divertem e comemoram os altos e baixos de quase 50 anos de amizade".
Extraído (e levemente editado) do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o enredo de "A vida passou por aqui", de autoria de Claudia Mauro, em cartaz no Teatro Café Pequeno. Alice Borges assina a direção do espetáculo, tendo Marcos Ácher como diretor assistente. No elenco, Claudia Mauro e Édio Nunes.
Como se sabe, muitos textos já foram escritos abordando a amizade e, mais especificamente, a amizade entre um homem e uma mulher. Mas este me parece especial, não tanto porque envolve pessoas pertencentes a estratos sociais diferentes, mas sobretudo porque enfatiza o poder que a alegria possui de promover verdadeiros milagres.
Sem entrar em maiores detalhes sobre o enredo, pois isso privaria o espectador de deliciosas surpresas, ao longo da peça constatamos que Silvia pertence àquele grupo de pessoas que tende a reagir de forma drástica aos percalços da vida, independentemente de sua maior ou menor gravidade. Já Floriano adota uma postura inversa, pois apesar de também sofrer eventuais percalços, não os encara
como determinantes do seu futuro, talvez pela consciência que possui de que é impossível levar um barco sem temporais. Enquanto Silvia acredita estar sempre à beira de um naufrágio, Floriano aposta no caráter efêmero do vento.
Sob todos os aspectos, "A vida passou por aqui" é um texto de primeiríssima qualidade. Valendo-se de ótimos diálogos e de personagens maravilhosamente estruturados, Claudia Mauro aborda, sempre com humor e delicadeza, não apenas a amizade entre um homem e uma mulher, mas também questões referentes à velhice, à relação com os filhos, aos sonhos que acalentamos e nem sempre materializamos, dentre outros temas. E, em última instância, parece nos sugerir que, se eventualmente lágrimas são inevitáveis, ainda assim elas devem ser encaradas como prenúncio de muitos risos.
Com relação ao espetáculo, a excelente atriz Alice Borges realizou um trabalho primoroso, tanto pela dinâmica que impõe à cena - marcações expressivas, notável precisão rítmica - quanto por sua atuação junto ao elenco. Sem nenhum temor de estar equivocado, não hesito em afirmar que Claudia Mauro e Édio Nunes exibem as melhores performances de suas carreiras.
Ambos com aplaudidas atuações mais voltadas para o humor, aqui os intérpretes mergulham profundamente em um universo em que só eventualmente a exuberância se materializa - isto ocorre nas passagens em que dançam, humilhando impiedosamente os mortais que os assistem. Mas na maior parte da peça, o que prevalece são gestos delicados, vozes que articulam o texto sem apelar para desnecessárias ênfases, o que nos permite absorver os múltiplos conteúdos com uma serena sensação de cumplicidade. A ambos, portanto, agradeço a maravilhosa noite que me proporcionaram, e desejo que muitos possam ter o privilégio de usufruir emoções semelhantes às que senti na noite de ontem.
Com relação à equipe técnica, considero irrepreensíveis as contribuições de todos os profissionais envolvidos nesta imperdível empreitada teatral - Nello Marrese (cenografia), Ana Roque (figurinos), Paulo César Medeiros (iluminação), Claudio Lins e Patricia Mauro (trilha sonora), Larissa Bracher (coach), Paula Águas (supervisão de movimento), Édio Nunes (coreografias) e Renata Paschoal, que cada vez mais se firma como uma das melhores profissionais de produção do teatro carioca.
A VIDA PASSOU POR AQUI - Texto de Claudia Mauro. Direção de Alice Borges. Com Claudia Mauro e Édio Nunes. Teatro Café Pequeno. Sexta a domingo, 20h.
sexta-feira, 28 de outubro de 2016
Teatro/CRÍTICA
"Depois da Terceira Onda"
..............................................................................
Oportuna reflexão sobre o Brasil atual
Lionel Fischer
Na primavera de 1967, em Palo Alto, Califórnia (EUA), o professor Ron Jones propôs à sua turma de ensino médio uma curiosa experiência. Durante uma semana, ao invés de apenas discutirem o tema Autocracia, professor e alunos tentariam recriar o ambiente nazi-fascista da Alemanha pouco antes da Segunda Guerra Mundial. Inicialmente, os alunos foram induzidos a chamar Jones de Senhor Jones; mais adiante, aceitaram que as cadeiras fossem dispostas arbitrariamente; em seguida, não criaram objeção para o uso de uniformes e assim por diante. E pouco a pouco, para a surpresa de Jones, o rendimento escolar melhorou e todos (exceção feita a um único aluno) se mostraram perfeitamente adaptados a um regime em que alguém ditava ordens e todos obedeciam, com o coletivo se sobrepondo totalmente ao indivíduo.
Eis, em resumo, o contexto em que se dá "Depois da Terceira Onda", mais recente espetáculo da Abrupta Cia. de Teatro, em cartaz no Centro Cultural Justiça Federal. Inspirado no documentário "Lesson Plan - A História da Terceira Onda", no filme alemão "A Onda" e em depoimentos do professor Ron Jones, o espetáculo tem dramaturgia e direção assinadas por Jarbas Albuquerque, estando o elenco formado por Adriana Perin, Daniel Bouzas, Henrique Guimarães, Ignácio Aldunate, Lu Lopes, Maíra Kestenberg e Samuel Vieira.
Tratados já foram escritos pelos mais renomados estudiosos do comportamento humano sobre as razões que teriam levado o povo alemão a aderir fervorosamente à ideologia nazista. Dentre as mais recorrentes alegações estão a perda da Primeira Guerra Mundial, a suposta humilhação imposta pelos vencedores e a terrível recessão que tomou conta do país.
Tudo isso pode ser verdade, mas não creio que explique totalmente o fato de uma das nações mais cultas do mundo ter se transformado em uma celeiro de fanáticos, dispostos a apoiar incondicionalmente um regime que preconizava a supremacia da raça ariana sobre todas as demais e que, em função desta supremacia, poderia dar-se ao luxo de simplesmente exterminar quem bem entendesse, em especial as minorias - judeus, ciganos e homossexuais, dentre outras.
Assim sendo, o que de fato teria levado o povo alemão a uma tal barbárie? Obviamente que não sei a resposta, mas me atrevo a supor que uma das razões possa ser a mesma - guardadas as devidas proporções - que transformou os alunos em seres robotizados e totalmente dispostos a seguir as orientações de um líder: a necessidade de ordem. E por ordem entenda-se um contexto que, mesmo tornando obrigatória a anulação das individualidades, em contrapartida facultaria a segurança no grupo e a identificação coletiva, o que teoricamente eliminaria as angústias pessoais e qualquer possibilidade de solidão - trata-se, naturalmente, apenas de uma hipótese e, como tal, sujeita a todos os enganos. Mas voltemos à peça.
Qual seria a validade de se encenar hoje, no Brasil, um texto como "Depois da Terceira Onda"?. Estaríamos na iminência de viver novamente o horror de uma ditadura militar? Creio que não. No entanto, as condições são muito favoráveis para o surgimento de alguém que, honestamente ou movido por impulsos espúrios, apregoe a necessidade imperiosa de se dar início a algumas mudanças que todos desejamos, tais como o fim da corrupção, das balas perdidas, dos estupros, de um sistema educacional e de saúde totalmente deficientes e assim por diante.
Pois bem: e se essa pessoa surgir e nos convencer de que precisamos agir, independentemente das leis que nos regem? Hesitaremos ou partiremos para ações efetivas, certamente que amparados por pessoas que também já estão fartas e pensam como aquele que passou a nos liderar? O caos se instalaria? As instituições sofreriam profundo abalo? E aqueles que não concordassem, seriam respeitados? Ou simplesmente eliminados, posto que haveriam de constituir um entrave para a consumação de uma nova realidade?. E de que lado ficaríamos?
Em meu entendimento, o maior mérito do presente texto é o de nos alertar no tocante à possibilidade de aparecer em nosso país alguém que, não pedagogicamente, como o citado professor, mas a sério, nos convença de que precisamos nos reeducar, e que essa reeducação pressupõe a anulação de nossas individualidades e nossa total adesão a um sistema que, ainda que prescindindo de nosso pensamento próprio, em contrapartida haverá de nos proporcionar uma segurança em tudo semelhante à dos grandes cardumes e das grandes manadas.
Com relação ao espetáculo, Jarbas Albuquerque impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com o material dramatúrgico. Valendo-se de marcas diversificadas e não raro muito expressivas, e de um ritmo sempre em consonância com as emoções em causa, o diretor exibe o mérito suplementar de haver extraído seguras e sensíveis atuações de todo o elenco, que sugere total compreensão de todos os conteúdos implícitos.
A mesma eficiência se faz presente nas colaborações de toda a equipe técnica - Paula Barbosa (direção de movimento), Gregório Rosenbusch e Mariana Meneguetti (cenografia), Henrique Guimarães (figurinos), Federico Puppi (trilha sonora original) e Elisa Tandeta (iluminação). Com relação à iluminação, na noite em que assisti o espetáculo ocorreram alguns problemas técnicos, logo solucionados. E ainda que não tenham sido totalmente solucionados, para mim ficou evidente a qualidade da luz. E, não custa nada lembrar, o grande encanto do teatro e o grande desafio do mesmo é que tudo sempre pode dar errado. Mas o fundamental, como de fato aconteceu, é assumir o erro e tentar remediá-lo, às claras e sem nenhum disfarce. Parabéns, portanto, ao grupo por sua honestidade.
DEPOIS DA TERCEIRA ONDA - Dramaturgia e direção de Jarbas Albuquerque. Com a Abrupta Cia. de Teatro. Centro Cultural Justiça Federal. Quartas e quintas, 19h.
"Depois da Terceira Onda"
..............................................................................
Oportuna reflexão sobre o Brasil atual
Lionel Fischer
Na primavera de 1967, em Palo Alto, Califórnia (EUA), o professor Ron Jones propôs à sua turma de ensino médio uma curiosa experiência. Durante uma semana, ao invés de apenas discutirem o tema Autocracia, professor e alunos tentariam recriar o ambiente nazi-fascista da Alemanha pouco antes da Segunda Guerra Mundial. Inicialmente, os alunos foram induzidos a chamar Jones de Senhor Jones; mais adiante, aceitaram que as cadeiras fossem dispostas arbitrariamente; em seguida, não criaram objeção para o uso de uniformes e assim por diante. E pouco a pouco, para a surpresa de Jones, o rendimento escolar melhorou e todos (exceção feita a um único aluno) se mostraram perfeitamente adaptados a um regime em que alguém ditava ordens e todos obedeciam, com o coletivo se sobrepondo totalmente ao indivíduo.
Eis, em resumo, o contexto em que se dá "Depois da Terceira Onda", mais recente espetáculo da Abrupta Cia. de Teatro, em cartaz no Centro Cultural Justiça Federal. Inspirado no documentário "Lesson Plan - A História da Terceira Onda", no filme alemão "A Onda" e em depoimentos do professor Ron Jones, o espetáculo tem dramaturgia e direção assinadas por Jarbas Albuquerque, estando o elenco formado por Adriana Perin, Daniel Bouzas, Henrique Guimarães, Ignácio Aldunate, Lu Lopes, Maíra Kestenberg e Samuel Vieira.
Tratados já foram escritos pelos mais renomados estudiosos do comportamento humano sobre as razões que teriam levado o povo alemão a aderir fervorosamente à ideologia nazista. Dentre as mais recorrentes alegações estão a perda da Primeira Guerra Mundial, a suposta humilhação imposta pelos vencedores e a terrível recessão que tomou conta do país.
Tudo isso pode ser verdade, mas não creio que explique totalmente o fato de uma das nações mais cultas do mundo ter se transformado em uma celeiro de fanáticos, dispostos a apoiar incondicionalmente um regime que preconizava a supremacia da raça ariana sobre todas as demais e que, em função desta supremacia, poderia dar-se ao luxo de simplesmente exterminar quem bem entendesse, em especial as minorias - judeus, ciganos e homossexuais, dentre outras.
Assim sendo, o que de fato teria levado o povo alemão a uma tal barbárie? Obviamente que não sei a resposta, mas me atrevo a supor que uma das razões possa ser a mesma - guardadas as devidas proporções - que transformou os alunos em seres robotizados e totalmente dispostos a seguir as orientações de um líder: a necessidade de ordem. E por ordem entenda-se um contexto que, mesmo tornando obrigatória a anulação das individualidades, em contrapartida facultaria a segurança no grupo e a identificação coletiva, o que teoricamente eliminaria as angústias pessoais e qualquer possibilidade de solidão - trata-se, naturalmente, apenas de uma hipótese e, como tal, sujeita a todos os enganos. Mas voltemos à peça.
Qual seria a validade de se encenar hoje, no Brasil, um texto como "Depois da Terceira Onda"?. Estaríamos na iminência de viver novamente o horror de uma ditadura militar? Creio que não. No entanto, as condições são muito favoráveis para o surgimento de alguém que, honestamente ou movido por impulsos espúrios, apregoe a necessidade imperiosa de se dar início a algumas mudanças que todos desejamos, tais como o fim da corrupção, das balas perdidas, dos estupros, de um sistema educacional e de saúde totalmente deficientes e assim por diante.
Pois bem: e se essa pessoa surgir e nos convencer de que precisamos agir, independentemente das leis que nos regem? Hesitaremos ou partiremos para ações efetivas, certamente que amparados por pessoas que também já estão fartas e pensam como aquele que passou a nos liderar? O caos se instalaria? As instituições sofreriam profundo abalo? E aqueles que não concordassem, seriam respeitados? Ou simplesmente eliminados, posto que haveriam de constituir um entrave para a consumação de uma nova realidade?. E de que lado ficaríamos?
Em meu entendimento, o maior mérito do presente texto é o de nos alertar no tocante à possibilidade de aparecer em nosso país alguém que, não pedagogicamente, como o citado professor, mas a sério, nos convença de que precisamos nos reeducar, e que essa reeducação pressupõe a anulação de nossas individualidades e nossa total adesão a um sistema que, ainda que prescindindo de nosso pensamento próprio, em contrapartida haverá de nos proporcionar uma segurança em tudo semelhante à dos grandes cardumes e das grandes manadas.
Com relação ao espetáculo, Jarbas Albuquerque impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com o material dramatúrgico. Valendo-se de marcas diversificadas e não raro muito expressivas, e de um ritmo sempre em consonância com as emoções em causa, o diretor exibe o mérito suplementar de haver extraído seguras e sensíveis atuações de todo o elenco, que sugere total compreensão de todos os conteúdos implícitos.
A mesma eficiência se faz presente nas colaborações de toda a equipe técnica - Paula Barbosa (direção de movimento), Gregório Rosenbusch e Mariana Meneguetti (cenografia), Henrique Guimarães (figurinos), Federico Puppi (trilha sonora original) e Elisa Tandeta (iluminação). Com relação à iluminação, na noite em que assisti o espetáculo ocorreram alguns problemas técnicos, logo solucionados. E ainda que não tenham sido totalmente solucionados, para mim ficou evidente a qualidade da luz. E, não custa nada lembrar, o grande encanto do teatro e o grande desafio do mesmo é que tudo sempre pode dar errado. Mas o fundamental, como de fato aconteceu, é assumir o erro e tentar remediá-lo, às claras e sem nenhum disfarce. Parabéns, portanto, ao grupo por sua honestidade.
DEPOIS DA TERCEIRA ONDA - Dramaturgia e direção de Jarbas Albuquerque. Com a Abrupta Cia. de Teatro. Centro Cultural Justiça Federal. Quartas e quintas, 19h.
sábado, 15 de outubro de 2016
(UNIRIO/PROEXC – ESCOLA DE TEATRO) &
SOCIEDADE PSICANALÍTICA DO RIO DE JANEIRO (SPRJ)
Caríssimos,
O FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA apresenta, no dia 28 de outubro, às 18h, na Sala Vera Janacópulos da UNIRIO, um dos filmes mais impactantes da década: INCÊNDIOS (Incendies, 2010, 123 min.), dirigido e roteirizado pelo canadense Dennis Villeneuve, baseado na terceira parte da tretalogia do escritor, teatrólogo e ator Wajdi Mouawad, uma obra que deixa o público sem palavras para descrever a experiência de assisti-lo. O texto investiga o trauma e o tormento da guerra moderna no Oriente Médio, resgata e recupera tragédias e odisseias, incestos e revoltas em suas circunscrições trágicas inconfundíveis, cuja narrativa não tem espaço e nem tempo pré-fixados, indo tanto de um lugar a outro como de uma cultura a outra, em cenas que vão e voltam ao longo de 50 anos. Com um elenco de peso, no qual se destaca a atriz belga, Lubna Azabal, interpretando a mãe, Nawal Marwan, em torno da qual a tragédia edípica envolve todos os personagens.
O filme obteve reconhecimento internacional como, entre outros, a indicação oficial do Canadá para o Oscar 2011. Enfim, uma oportunidade imperdível de se assistir e comentar uma obra-prima. Contando, como sempre, com a divulgação aos amigos e interessados no viés cultural e psicanalítico, aguardamos todos vocês para mais um instigante debate.
Ana Lúcia de Castro e Neilton Silva.
SERVIÇO:
DATA: 28 DE OUTUBRO DE 2016.
HORÁRIO: FILME: 18h; ANÁLISE E DEBATE: 20 h às 22 h.
LOCAL: SALA VERA JANACÓPULOS – UNIRIO
ENDEREÇO: AV. PASTEUR, 296.
ANÁLISE CULTURAL: PROF. DRA. ANA LÚCIA DE CASTRO
ANÁLISE PSICANALÍTCA: DR. NEILTON SILVA
ENTRADA FRANCA - INFORMAÇÕES: forumpsicinema@gmail.com
NOTA: Quem se interessar em adquirir o livro: Fórum de Psicanálise e Cinema: 20 filmes analisados, de autoria de Ana Lúcia de Castro e Neilton Silva, ele se encontra à venda nos dias do FÓRUM.
HISTÓRICO: O FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA FOI CRIADO EM 1997, COMO UM PROJETO CIENTÍFICO DA ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA RIO 3, PELO ENTÃO PRESIDENTE, DR. WALDEMAR ZUSMAN, E PELO DIRETOR DO INSTITUTO, DR. NEILTON DIAS DA SILVA. DESDE 2004 PASSOU A CONTAR COM A PARTICIPAÇÃO DA MUSEÓLOGA E PROFESSORA DA UNIRIO, DRA ANA LÚCIA DE CASTRO, RESPONSÁVEL PELAS ANÁLISES CULTURAIS DOS FILMES. EM 2006, A APRIO 3, ATUAL SPRJ, CELEBROU PARCERIA COM A UNIRIO PARA SEDIAR O PROJETO MENSALMENTE, SEMPRE MUITO CONCORRIDO.
sexta-feira, 7 de outubro de 2016
Teatro/CRÍTICA
"Encerramento do amor"
..................................................................................................
Dilacerada abordagem sobre as relações afetivas
Lionel Fischer
"Dois performers em cena. São atores que interpretam atores. Não há enredo, trama, arco dramático, antes ou depois do ato, o que há é o instante da cena, a intensidade do momento em que estes dois personagens travam um embate, um conflito incontornável que marca o fim de um projeto de relação criativa e amorosa idealizado por ambos".
Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza a circunstância cênica em que se dá "Encerramento do amor", primeira das duas peças de Pascal Rambert em cartaz na Sala Mezanino do Espaço Sesc. A outra, exibida em sequência - "O começo do A." - mostra o encontro dos dois personagens, quando iniciaram uma relação afetiva e de trabalho. Mas as considerações que se seguem dizem respeito apenas à primeira peça. Luiz Felipe Reis responde pela direção, adaptação e concepção sonora e visual dos dois textos, interpretados por Julia Lund e Otto Jr. Trata-se da mais nova empreitada da Polifônica Cia.
"Encerramento do amor" exibe uma curiosa estrutura. Os personagens não travam nenhum diálogo - no sentido convencional do termo. O homem fala durante 40 minutos, consumidos em dilaceradas considerações sobre o amor, a arte, a aparente impossibilidade de existir uma relação afetiva que atenda às burguesas expectativas de que dure para sempre, dentre outros temas.
Durante esses 40 minutos, a mulher apenas escuta e suas eventuais e discretas reações corporais são imediatamente questionadas pelo homem - "não chora", "levanta a cabeça", "endireita a coluna". A todos esses questionamentos a mulher obedece, sugerindo submissão e concordância.
No entanto, em seguida o jogo se inverte e é ela quem fala durante um tempo equivalente. E valendo-se igualmente de um discurso dilacerado, ainda que impregnado de amarga ironia, ela rebate todos os argumentos do homem e também questiona suas reações corporais - "não chora", "levanta a cabeça", "endireita a coluna". A todos esses questionamentos, o homem obedece, como ela fizera pouco antes.
Diante de um tal quadro, só me restam conjecturas. Se por um lado é evidente que se o autor quisesse criar uma cena convencional em que um casal discute seu relacionamento, certamente que ele o faria. E então os personagens se interromperiam, talvez chegassem até a se agredir fisicamente etc. No entanto, ele faz a opção de discursos isolados, em que um dos personagens fala e o outro apenas escuta. Por que será?
Não sei exatamente o que Pascal Rambert pretendeu. Mas imagino que, sendo ele francês, e portanto fascinado pela lógica, pela filosofia, pelo pensamento articulado, pela beleza e alcance poético da linguagem, dentre outras características, talvez tudo isso e mais alguma coisa o tenha feito optar por uma estrutura que não interferisse na apreensão de suas ideias a respeito dos temas abordados.
Ou seja: na ausência de presumíveis bate-bocas, tudo que um personagem diz é escutado pelo outro, e obviamente que pela plateia. Mas será que não estaríamos diante de uma opção por demais cerebral? Talvez sim. De qualquer forma, as questões levantadas pelo autor são tão pertinentes e sua escrita é tão bela que o espetáculo mantém o espectador - ou, ao menos, manteve a mim - em um estado de permanente tensão e expectativa.
Tais predicados, obviamente, também devem ser creditados ao diretor Luiz Felipe Reis. Não tanto pela dinâmica cênica, bastante simples e despojada, ainda que não isenta de expressividade, mas sobretudo por sua excelente atuação junto ao elenco. Otto Jr., como de hábito, entrega-se visceralmente ao personagem, extraindo de cada momento o seu máximo potencial - não por acaso o considero um dos melhores atores de sua geração. Quanto a Julia Lund, esta exibe aqui a melhor performance de sua carreira. Possuidora de bela voz, esmerado trabalho corporal e detentora de uma inteligência cênica que a leva sempre a optar por escolhas instigantes, a atriz nos brinda com uma das mais potentes atuações da atual temporada.
Na equipe técnica, parabenizo com o mesmo entusiasmo as excelentes contribuições de todos os profissionais envolvidos neta instigante e oportuna empreitada teatral - José Dias (cenografia), Tomás Ribas (iluminação), Antonio Guedes (figurino), Lu Brites (direção de movimento) e Marcus Vinicius Borja, responsável pela magnífica tradução.
ENCERRAMENTO DO AMOR - Texto de Pascal Rambert. Direção de Luiz Felipe Reis. Com Julia Lund e Otto Jr. Sala Mezanino do Espaço Sesc. Quinta a sábado, 20h. Domingo, 19h.
"Encerramento do amor"
..................................................................................................
Dilacerada abordagem sobre as relações afetivas
Lionel Fischer
"Dois performers em cena. São atores que interpretam atores. Não há enredo, trama, arco dramático, antes ou depois do ato, o que há é o instante da cena, a intensidade do momento em que estes dois personagens travam um embate, um conflito incontornável que marca o fim de um projeto de relação criativa e amorosa idealizado por ambos".
Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza a circunstância cênica em que se dá "Encerramento do amor", primeira das duas peças de Pascal Rambert em cartaz na Sala Mezanino do Espaço Sesc. A outra, exibida em sequência - "O começo do A." - mostra o encontro dos dois personagens, quando iniciaram uma relação afetiva e de trabalho. Mas as considerações que se seguem dizem respeito apenas à primeira peça. Luiz Felipe Reis responde pela direção, adaptação e concepção sonora e visual dos dois textos, interpretados por Julia Lund e Otto Jr. Trata-se da mais nova empreitada da Polifônica Cia.
"Encerramento do amor" exibe uma curiosa estrutura. Os personagens não travam nenhum diálogo - no sentido convencional do termo. O homem fala durante 40 minutos, consumidos em dilaceradas considerações sobre o amor, a arte, a aparente impossibilidade de existir uma relação afetiva que atenda às burguesas expectativas de que dure para sempre, dentre outros temas.
Durante esses 40 minutos, a mulher apenas escuta e suas eventuais e discretas reações corporais são imediatamente questionadas pelo homem - "não chora", "levanta a cabeça", "endireita a coluna". A todos esses questionamentos a mulher obedece, sugerindo submissão e concordância.
No entanto, em seguida o jogo se inverte e é ela quem fala durante um tempo equivalente. E valendo-se igualmente de um discurso dilacerado, ainda que impregnado de amarga ironia, ela rebate todos os argumentos do homem e também questiona suas reações corporais - "não chora", "levanta a cabeça", "endireita a coluna". A todos esses questionamentos, o homem obedece, como ela fizera pouco antes.
Diante de um tal quadro, só me restam conjecturas. Se por um lado é evidente que se o autor quisesse criar uma cena convencional em que um casal discute seu relacionamento, certamente que ele o faria. E então os personagens se interromperiam, talvez chegassem até a se agredir fisicamente etc. No entanto, ele faz a opção de discursos isolados, em que um dos personagens fala e o outro apenas escuta. Por que será?
Não sei exatamente o que Pascal Rambert pretendeu. Mas imagino que, sendo ele francês, e portanto fascinado pela lógica, pela filosofia, pelo pensamento articulado, pela beleza e alcance poético da linguagem, dentre outras características, talvez tudo isso e mais alguma coisa o tenha feito optar por uma estrutura que não interferisse na apreensão de suas ideias a respeito dos temas abordados.
Ou seja: na ausência de presumíveis bate-bocas, tudo que um personagem diz é escutado pelo outro, e obviamente que pela plateia. Mas será que não estaríamos diante de uma opção por demais cerebral? Talvez sim. De qualquer forma, as questões levantadas pelo autor são tão pertinentes e sua escrita é tão bela que o espetáculo mantém o espectador - ou, ao menos, manteve a mim - em um estado de permanente tensão e expectativa.
Tais predicados, obviamente, também devem ser creditados ao diretor Luiz Felipe Reis. Não tanto pela dinâmica cênica, bastante simples e despojada, ainda que não isenta de expressividade, mas sobretudo por sua excelente atuação junto ao elenco. Otto Jr., como de hábito, entrega-se visceralmente ao personagem, extraindo de cada momento o seu máximo potencial - não por acaso o considero um dos melhores atores de sua geração. Quanto a Julia Lund, esta exibe aqui a melhor performance de sua carreira. Possuidora de bela voz, esmerado trabalho corporal e detentora de uma inteligência cênica que a leva sempre a optar por escolhas instigantes, a atriz nos brinda com uma das mais potentes atuações da atual temporada.
Na equipe técnica, parabenizo com o mesmo entusiasmo as excelentes contribuições de todos os profissionais envolvidos neta instigante e oportuna empreitada teatral - José Dias (cenografia), Tomás Ribas (iluminação), Antonio Guedes (figurino), Lu Brites (direção de movimento) e Marcus Vinicius Borja, responsável pela magnífica tradução.
ENCERRAMENTO DO AMOR - Texto de Pascal Rambert. Direção de Luiz Felipe Reis. Com Julia Lund e Otto Jr. Sala Mezanino do Espaço Sesc. Quinta a sábado, 20h. Domingo, 19h.
terça-feira, 4 de outubro de 2016
Programação Teatro | Biblioteca Parque
Estadual
Outubro de 2016
Outubro de 2016
Outubro04 a 26.10 (terças e quartas) | 18h30 -
19h30 | Peça “Rio de Histórias” | Teatro Alcione Araújo
Atores da Cia. Teatro do Nada
improvisam cenas, histórias e diálogos que só no Rio de Janeiro seriam
possíveis. Classificação: 12 anos. Valor: R$ 20 (meia-entrada R$10).
Cadastrados com a carteirinha da BPE pagam meia.
06 a 29.10 (quintas, sextas e sábado) |
19h - 19h40 | Peça “Buscado” | Teatro Alcione Araújo
Um homem busca seu filho pelas ruas
de Nova York, Cidade do México e Tóquio, ao mesmo tempo em que também é buscado
pelo pai, um senhor de idade. Classificação: 14 anos. Valor: R$ 20
(meia-entrada R$10). Cadastrados com a carteirinha da BPE pagam meia.
Sextas e sábados de outubro | 16h - 17h
| Musical “Todo vagabundo tem seu dia de Glória” | Teatro Alcione Araújo
Musical infanto-juvenil sobre a
vontade de algumas pessoas em elevar o padrão de vida sem esforço, como o caso
do personagem Cristóvão Gerônimo, que passa de vagabundo a nobre da noite para
o dia. Classificação: livre. Valor: sextas, gratuito (distribuição de senhas às
15h); sábados, ingressos a R$ 20 (meia-entrada R$10). Cadastrados com a
carteirinha da BPE pagam meia.
07.10
| 19h - 20h | Musical “Cabaré concreto” | Auditório Darcy RibeiroMusical em homenagem aos 100 anos da
inauguração do Cabaret Voltaire em Zurich, onde o movimento dadaísta nasceu.
Classificação: 16 anos. Valor: R$ 40 (meia-entrada R$ 20). Cadastrados
com a carteirinha da BPE pagam meia.
20.10 | 15h-16h | Peça “O trânsito” | Auditório Darcy Ribeiro
Duas crianças saem de casa com os
pais, que são impedidos de andarem com seus carrinhos de bebê porque os carros
estão estacionados nas calçadas. Eles crescem, passam no vestibular, ganham um
carro e passam a cometer várias infrações enquanto dirigem. Classificação:
Livre. Valor: gratuito (distribuição de senhas às 14h).
Mais
informações: http://www.bibliotecasparque.rj.gov.br/event_categories/
Assinar:
Postagens (Atom)
