segunda-feira, 25 de julho de 2011

Teatro/CRÍTICA

"Grito d'alma"

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Trama confusa no Solar


Lionel Fischer


"Feliz e Clara, dois irmãos atores donos de companhia mambembe, são abandonados pelo restante do grupo num desconhecido palco subterrâneo. Em meio a um clima tenso e denso, ao mesmo tempo em que delicado e sensual, representam a 'A peça de dois personagens' que ele escreveu para ela e cujos personagens são também dois irmãos com seus mesmos nomes vivendo numa Nova Belém ensolarada na casa dos pais após sua morte trágica, local de onde não querem sair. O público torna-se hostil e termina por abandonar o teatro, o que os obriga a encerrar a representação passando a enfrentar frio e escuridão naquele palco de fim de mundo, lugar de onde não conseguem sair. Para se livrarem da infernal situação só lhes resta voltar à peça e ao seu luminoso girassol".

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima resume o enredo de "Grito d'alma", de Tennessee Williams (1911-1983). Em cartaz no Centro Cultural Solar de Botafogo, a montagem tem direção assinada por Diogo Salles, estando o elenco formado por Glauce Guima e Marcelo Pio.

Um dos maiores dramaturgos norte-americanos do século passado, Tennessee Williams deixou uma obra vastíssima, com muitas de suas peças sendo representadas com freqüência em todo o mundo, dentre elas "À margem da vida", "Um bonde chamado desejo", "A rosa tatuada", "De repente, no último verão", "Gata em teto de zinco quente", "Doce pássaro da juventude" e "A noite do Iguana".

Segundo consta do release, Williams considerava "Grito d'alma" seu mais belo texto desde "Um bonde chamado desejo", e o ator Marcelo Pio não reluta em afirmar que "Grito d'alma" é um dos  melhores textos da dramaturgia mundial, "está na esfera de um 'Hamlet', sinceramente". São duas opiniões, obviamente que sinceras, e por isso merecem ser respeitadas. No entanto, me permito discordar de ambas, também valendo-me da mesma sinceridade.

Sou um admirador incondicional da obra de Williams, embora não a conheça em sua totalidade - é o caso de "Grito d'alma". E minha admiração advém, dentre outras razões, da extraordinária capacidade do autor de criar tramas que abordam algumas das questões mais pertinentes da natureza humana, para tanto valendo-se de personagens maravilhosamente construídos e de diálogos de espantosa fluência. E ao que acaba de ser dito vale acrescentar a óbvia ternura de Williams por seus personagens - postura semelhante à adotada por Tchecov - e a clareza com que expõe e desenvolve os conflitos em jogo.

Pois bem: no presente texto, a clareza acima mencionada jamais se fez presente, ao menos para mim. E isso não tem nada a ver com fato de estarmos diante de um texto que trabalha uma peça dentro de outra, recurso que nada tem de inusitado. Mas tornou-se inusitado para mim, em se tratando de Williams, que, ao menos em suas peças mais consagradas, jamais utilizou este expediente. 

No entanto, poderia tê-lo feito com sucesso. Mas não me parece ser este o caso. A trama é confusa, os conflitos entre os personagens não fazem progredir a ação e não raro se tornam repetitivos, como se o autor não soubesse exatamente o rumo que pretendia dar à sua história e a fizesse andar em círculos.

Isso não exclui, naturalmente, uma ou outra passagem significativa, já que estamos diante de um monstro sagrado da dramaturgia. Mas o fato é que jamais consegui me envolver com a montagem e com ela estabelecer um elo mais profundo - o que não significa que a platéia sinta o mesmo que eu, que fique bem claro.      

Quanto ao espetáculo, Diogo Salles impõe à cena uma dinâmica que tenta ao máximo materializar a atmosfera claustrofóbica e inquietante que, ao que suponho, tenha sido uma das pretensões do autor. E neste sentido sua encenação merece ser considerada bem sucedida, sendo muito expressivas grande parte de suas marcações.

No que se refere ao elenco, Glauce Guima e Marcelo Pio exibem grande capacidade de entrega, estabelecem ótima contracena e tentam ao máximo tornar convincentes personagens que, a meu ver, primam pela ausência de contornos mais nítidos.

Na equipe técnica, são igualmente eficientes a cenografia de Arthur Arnold, os figurinos de Manu Coutinho e Carlos Guilherme Azevedo, a iluminação de Marcelo Andrade, a trilha sonora original de Sérgio Ricardo e a direção de movimento de Carla Tausz, cabendo ainda destacar a fluente tradução de Francisco Carneiro da Cunha.

GRITO D' ALMA - Texto de Tennessee Williams. Direção de Diogo Salles. Com Glauce Guima e Marcelo Pio. Centro Cultural Solar de Botafogo. Quinta a sábado, 21h. Domingo, 20h. Última semana.

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