sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Teatro/CRÍTICA

"Conversando com mamãe"

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Amor, humor e humanidade


Lionel Fischer


Sempre que escuto alguém dizer que uma peça é excelente porque partiu de uma ótima idéia, invariavelmente me recordo daquela que é considerada a melhor dentre todas já escritas: "Hamlet", de Shakespeare. Reduzida à sua essência, a obra gira em torno de um príncipe que, logo no início do texto, é informado pelo fantasma de seu pai que fora assassinado pelo irmão, que logo em seguida se casou com a viúva, obviamente cúmplice da macabra trama. Uma vez feita esta revelação, o jovem príncipe passa cinco atos imerso em dúvidas, até finalmente consumar a vingança prometida ao pai. Pois bem: trata-se de uma idéia genial? Em absoluto. O que converte o texto em uma inigualável obra-prima é a forma como Shakespeare expandiu a idéia inicial, os fantásticos personagens que criou, as reflexões que empreendeu, a avassaladora ação que impõe à narrativa - dentre muitas outras virtudes. Ou seja: uma idéia inicial que nada tem de extraordinária pode gerar uma obra-prima, da mesma forma que uma idéia brilhante pode resultar em um produto final bisonho.

Tais considerações foram feitas para explicitar minha crença absoluta de que um texto como "Conversando com mamãe", cujo tema já foi explorado infinitas vezes e nada propõe de novo em termos formais, ainda assim pode tocar profundamente o coração do espectador, e certamente levá-lo a reavaliar muitos aspectos de suas relações familiares. Em cartaz no Centro Cultural Correios, "Conversando com mamãe", de autoria do cineasta argentino Santiago Carlos Oves, chega à cena com versão teatral do catalão Jordi Galceran, direção de Susana Garcia e elenco formado por Beatriz Segall e Herson Capri.

Em termos de enredo, este pode ser assim resumido: um homem de 50 anos, atualmente desempregado e vivendo um casamento fracassado, vai até o apartamento da mãe, uma senhora de 82 anos, com o objetivo de convencê-la de que o imóvel (de sua propriedade e de sua esposa) precisa ser vendido para quitar dívidas, o que implica que a mãe tenha de deixá-lo. A partir daí, no entanto, o autor desenvolve uma narrativa em que a venda ou não do imóvel passa a um plano secundário, e o que prevalece é um progressivo processo de inesperadas revelações de ambas as partes, algumas impregnadas de humor, outras de melancolia. Mas todas elas contribuem para estreitar os laços afetivos entre os dois personagens, assim como para ampliar o pouco conhecimento que tinham um do outro.

Bem escrito, contendo ótimos personagens, pleno de delicadeza, humor e humanidade, "Conversando com mamãe" chega à cena com ótima direção de Susana Garcia, que sabiamente investiu no que realmente importa: a relação entre os personagens. Isto significa que reduziu a movimentação ao estritamente necessário, investindo muito mais no potencial expressivo de eventuais e constrangedores silêncios, na dificuldade dos personagens de se colocarem com absoluta franqueza, no humor que brota inesperadamente em função de imprevistas cumplicidades, enfim, explorou ao máximo os conteúdos propostos pelo autor. Mas é claro que tal êxito também se deve, e muito, à sua capacidade de extrair atuações irretocáveis dos dois intérpretes.

Estão em cena dois profissionais de reconhecido talento e vastíssima experiência. Mas isso, por si só, não garantiria o sucesso da montagem. O que me parece fundamental é a química entre Herson Capri e Beatriz Segall, a evidente cumplidade entre ambos, a capacidade de se entregar totalmente às emoções em causa, de viver profundamente todos os sentimentos inerentes ao contexto, sendo tais atributos os maiores responsáveis pela total adesão do público ao espetáculo, que o assiste alternando muitos risos e furtivas lágrimas - com relação a estas últimas, me vejo obrigado a confessar que, em muitas passagens, só não chorei em voz alta como uma carpideira grega por temor de incomodar aos que me circundavam, mas não foram poucas as ocasiões em que lamentei o fato de jamais ter um lenço como acessório...

Com relação à equipe técnica, são maravilhosas e decisivas as contribuições de todos os profissionais envolvidos neste sensível e mais do que oportuno projeto - Kalma Murtinho (figurinos), Marcos Flaksman (cenografia), Paulo César Medeiros (iluminação), Alexandre Elias (trilha sonora original) e Pedro Freire (tradução)

CONVERSANDO COM MAMÃE - Texto de Santiago Carlos Oves. Versão teatral de Jordi Galceran. Direção de Susana Garcia. Com Beatriz Segall e Herson Capri. Centro Cultural Correios. Quinta a domingo, 19h.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Flores de Chumbo

Lionel Fischer
(1984)

CAPÍTULO XXI


A ausência de monsenhor Flávio deveria me agradar, já que me permitia ficar a sós com minha amada. Mas paradoxalmente me encheu de inquietação. Parado à frente de irmã Geovana, eu não sabia que atitude tomar. Convidá-la novamente a se sentar me parecia ridículo, mas ao mesmo tempo não ousava lhe propor que fôssemos para o quarto. Não havendo vitrola na casa, não poderíamos sequer dançar. Foi então que, subitamente, percebi que os olhos de minha amada emitiam o mesmo e estranho brilho que tanto me impressionara uma hora atrás. Comecei a suar frio. Minhas pernas fraquejavam e eu pressenti que se não tomasse uma atitude, qualquer que fosse ela, acabaria desmaiando. Se isso acontecesse, não me restaria outra alternativa a não ser a de me suicidar tão logo recobrasse os sentidos. Mas eu não tinha o menor interesse em renunciar à vida, justo no momento em que ela começava a me interessar. Felizmente, irmã Geovana tomou a iniciativa.

- Você já bebeu todo aquele vinho que eu mandei?

- Não, claro que não. Por quê? (Que pergunta, meu Deus!?)

- Você poderia ir buscá-lo....

Mas eu estava tão idiotizado que ela teve que colocar um adendo em sua proposta.

- Ou prefere que eu vá?

Só então me dei conta de que agia como se tivesse 12 anos.

- Imagina! Eu volto num segundo!

E abandonei a sala. Chegando na cozinha, comecei a procurar uma jarra, pois não me pareceu de bom tom regressar com um garrafão bojudo. Enquanto me ocupava vasculhando os armários, minhas pernas foram pouco a pouco parando de tremer e minha respiração se normalizando. Quando finalmente encontrei o que procurava, me senti tão à vontade que comecei a ssoviar. E foi assoviando que enchi a jarra, peguei os copos e coloquei harmoniosamente esses objetos numa bandeja, que tive o cuidado de forrar com um paninho branco - se alguém me visse nesse momento julgaria que eu era o tipo de homem habituado a receber donzelas em sua casa, tal o meu desembaraço. Mas o pior é que eu próprio era o primeiro a acreditar nisso, agindo como se nada mais pudesse abalar a segurança que supostamente se apossara de mim.

Quando, no entanto, peguei a bandeja e caminhei três passos, percebi que se desse mais um ela me cairia das mãos. Os copos deram início a uma rumba tão frenética que por um momento acreditei que haviam adquirido vida própria. Apavorado, tentei de todas as formas dominar o histérico tremor, mas parecia que eu havia contraído o "mal de Parkinson". Em poucos segundos, a animação dos "bailarinos" se tornou tão contagiante que até a barriguda jarra insinuou uma singular coreografia. Julguei-me então perdido: não conseguiria nem mesmo retornar até a pia, situada a menos de dois metros de onde eu estava. Entretanto, alguma coisa me disse que eu deveria ao menos tentar, que era mais digno fracassar indo ao encontro da mulher amada do que ficar plantado no centro de uma cozinha. E foi o que fiz.

Como uma cascavel tomada de súbito furor, saí chacoalhando sem me preocupar com coisa alguma que não atingir a sala, onde me aguardava a mulher que eu tanto amava e diante de quem eu poderia, se fosse o caso, deixar que tudo despencasse, pois ao invés de me julgar um idiota, ela haveria de valorizar meu nervosismo, prova inconteste do imenso amor que lhe devotava. Assim, acabei atingindo meu objetivo. Mas, para minha surpresa, irmã Geovana não estava mais na sala. Ante o impacto de sua inesperada ausência, meus tremores desapareceram de imediato.

Não podia acreditar que ela tivesse ido embora, enquanto eu me debatia na cozinha tentando dominar o efeito que tinha ela como causa. Não, uma tal atitude revelaria uma natureza abjeta e cruel, que não se encaixava em tudo que já percebera em sua pessoa. Entretanto, essas considerações não impediram que meus olhos se enchessem de lágrimas. Mas a depressão que ameaçava se instalar em mim foi logo substituída por um desejo cego de quebrar toda aquela casa, de reduzir a escombros aquele refúgio onde supus que viveria um momento inesquecível. Erguendo então a bandeja acima da cabeça, como um exímio garçon, já me preparava para iniciar minhas atividades predatórias quando ouvi um som que me pareceu em tudo semelhante ao relincho de um cavalo.

A princípio pensei tratar-se de um delírio auditivo, mas como ele se repetiu, depositei a bandeja na mesa e corri até a varanda. Lá chegando, minha esperança renasceu, pois avistei o corcel de minha amada que, talvez ressentido com sua prolongada ausência, apelava para que ela retornasse. Ah, amigo leitor! Nunca a visão de um eqüino me deixou tão exultante e fossem outras as circunstâncias, eu teria lhe dado ao menos 30 beijos. Mas eu tinha toda a pressa do mundo, já que não nutria mais a menor dúvida quando ao paradeiro de irmã Geovana!

Dessa vez, a bandeja não me tremeu nas mãos. Caminhei para o quarto com uma tranqüilidade que chegou a me surpreender. E nele entrei sem a menor ansiedade. Mas irmã Geovana resolvera brincar com meus nervos...Na mesinha de cabeceira, junto às flores, ardiam duas velas. Nas cadeiras em que supus que iríamos nos sentar, ela depositara suas vestes. E na cama que não me atrevi a imaginar que nos deitaríamos, ela se refugiara...

Imediatamente me lembrei de nosso primeiro encontro, quando a defini como alguém que "não era deste mundo". E estava certo: não era admissível que uma simples mortal reunisse tanta beleza e espiritualidade. E não me refiro apenas ao rosto que, emoldurado por negros cabelos, parecia ainda mais diáfano do que de costume. Não, cada parte do seu corpo exibia a mesma pureza e sensação de eternidade.

Não sei por quanto tempo permaneci contemplando-a extasiado, como também ignoro o que sentiu irmã Geovana ao ver-se devassada com tanta meticulosiodade. Tudo que posso garantir é que se a morte, sempre tão presente em minha fantasia, me tivesse levado nesse momento eu não a censuraria, pois me teria concedido, como a Moisés, o privilégio de ao menos ver a Terra Prometida! Mas como a morte se absteve de copiar a atitude simbólico-pedagógica do Senhor, irmã Geovana e eu pudemos celebrar de forma inesquecível aquela oportunidade única.

Até então, sempre considerara as pessoas que íam para a cama comigo mais como corpos - cujos anseios me sentia obrigado a saciar - do que propriamente como seres humanos, que poderiam estar buscando algum tipo de interação comigo. Essa postura, fruto possivelmente de uma brutal dificuldade de me entregar a alguém, me transformava numa espécie de máquina extremamente hábil, que conseguia detectar as necessidades puramente físicas de minhas parceiras e em seguida satisfazê-las. Com irmã Geovana, no entanto, nada disso aconteceu. Em todos os meus gestos havia um sentimento, jamais uma finalidade. As palavras que pronunciei evidenciaram sempre a existência de uma emoção, não de uma tática. O amor, ao impedir que aflorassem as obsessões de sempre, resgatou minha própria humanidade. E o amante que apenas atuava cedeu lugar ao homem que sentia.

Às quatro e meia monsenhor Flávio deu três pancadinhas na porta e anunciou, com voz de camareira de hotel chique, que dentro de meia-hora se faria dia. Irmã Geovana e eu, embriagados de felicidade e inteiramente alheios aos problemas desse mundo, demoramos um certo tempo para compreender o sentido daquele apelo. Aliás, só nos demos conta de que era preciso abandonar o leito quando monsenhor renovou suas pancadinhas, agora em número de quatro, e anunciou que faltavam apenas 25 minutos para amanhecer. Então nos levantamos e começamos a nos vestir. Quando abrimos a porta, monsenhor já estava prestes a dar seqüência aos seus chamados.

- Já sei, monsenhor...- disse irmã Geovana, sorrindo. - Faltam apenas 25 minutos para o dia clarear...

- Dezenove, para sermos mais precisos... - retrucou o prelado, após rápida consulta ao seu reloginho de bolso.

Tomamos juntos o café da manhã, mas se trocamos duas ou três palavras foi muito. Estávamos tristes com a iminente separação e também apreensivos, pois a possibilidade de que descobrissem que minha amada se ausentara não era nem um pouco remota. Ela poderia, é bem verdade, alegar que resolvera passear ou simplesmente não dar satisfação alguma. Mas esse fato seria usado contra ela, sobretudo porque nunca acontecera antes, ao menos de madrugada. Hipóteses seriam formuladas, todas elas desfavoráveis à minha deusa e a oposição se fortaleceria. É evidente que eu desejava que irmã Geovana fosse embora comigo, mas não queria de modo algum vê-la escorraçada de um lugar ao qual dedicara dez anos de sua vida e ajudara a transformar. Por isso torcia para que a situação no convento se normalizasse, pois só assim ela poderia fazer sua opção livremente, sem nada a pressioná-la.

Quando estávamos quase termiando a refeição, monsenhor se levantou e foi buscar o cavalo. Não precisaria, evidentemente, ter feito isso. Mas quis ser delicado deixando-nos sozinhos para trocarmos nossas últimas palavras. No entanto, nenhum de nós conseguiu articular coisa alguma: limitamo-nos a permanecer de mãos dadas até o momento em que o belo corcel soltou um espantoso relincho, como a sugerir que era chegada a hora de nos separarmos. Caminhamos então até o pátio como se nos dirigíssimos ao patíbulo. Enquanto eu ajudava irmã Geovana a montar, monsenhor Flávio, que fungava visivelmente, se afastou alguns passos. Mas nem assim conseguimos nos dizer nada. Ela ainda tentou sorrir, mas como não nascera atriz, fracassou de forma lamentável. Então optou por mandar um beijo e começou a se afastar. Quando estava prestes a perdê-la de vista, me veio o grito inesperado:

- Eu te amo!

- Eu também! - respondeu minha deusa, sem se voltar.

Tomado então de um sentimento de paixão incontrolável, iniciei uma desabalada corrida em sua direção. Mas irmã Geovana, certamente para evitar o prolongamento de uma dor inútil, atiçou sua montada e em rápidos galopes desapareceu.

Acho que teria ficado imóvel a manhã inteira no mesmo lugar onde interrompi meu sprint. Mas monsenhor enganchou seu braço no meu e me arrastou para um passeio pela granja. Tentei protestar, mas o prelado se fez de surdo e começou um longo solilóquio que tinha como tema as vantagens de se ser otimista. Ainda consegui lhe dizer que atearia fogo ao convento se alguma daquelas possessas ousasse maltratar minha amada, mas sua lábia acabou me convencendo de que tudo acabaria dando certo. Quando regressamos à casa, estava de excelente humor, como um singelo Cândido oportunamente confortado por seu inestimável Pangloss.

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Sêneca e a reflexão sobre as contradições
da condição humana

Lúcia Sá Rebello


Lúcio Anneo Sêneca nasceu em Córdoba, Espanha. Seu pai foi Anneo Sêneca - Sêneca, o velho -, conhecido como retórico e do qual restou apenas uma obra escrita, intitulada "Declamações". Sêneca, o moço, foi educado em Roma, tendo estudado retórica ligada à filosofia. Em pouco tempo, tornou-se conhecido como advogado e ascendeu politicamente, passando a ser membro do senado romano e, mais tarde, questor (magistrado encarregado das finanças).

Em Roma, o triunfo político não acontecia impunemente, e a notoriedade de Sêneca suscitou a inveja do imperador Calígula, que morreu antes de poder destruí-lo. Dessa forma, Sêneca pôde continuar vivendo com relativa tranqüilidade, mas essa não durou muito tempo. Em 41 d.C, foi desterrado para a Córsega sob a acusação de adultério, supostamente com Júlia Livila, sobrinha do novo imperador Cláudio César Germânico.

Na Córsega, Sêneca viveu cerca de dez anos com grande privação material. Dedicou-se aos estudos e redigiu vários de seus principais tratados filosóficos, entre os quais os três intitulados "Consolos", nos quais expõe os ideais estóicos clássicos de renúncia aos bens materiais e de busca da tranqüilidade da alma por meio do conhecimento e da contemplação.

Em 49 d.C, Messalina, primeira esposa do imperador Cláudio, foi condenada à morte. O imperador casa-se, então, com Agripina. Pouco tempo depois, ela manda chamar Sêneca para se encarregar da educação de seu filho Nero, tornando-o, em 50 d.C, pretor.

Sêneca casou-se com Pompéia Paulina e organizou um poderoso grupo de amigos. Logo após a morte de Cláudio, ocorrida em 54 d.C, o escritor vingou-se do imperador com um texto que foi considerado a obra-prima das sátiras romanas, "Transformação em abóbora do divino Cláudio". Nessa obra, Sêneca critica o autoritarismo do imperador e narra como ele é recusado pelos deuses.

Quando Nero foi nomeado imperador, Sêneca tornou-se seu principal conselheiro e tentou orientá-lo para uma política de justiça e de humanidade. Durante algum tempo, exerceu influência benéfica sobre o jovem, mas, aos poucos, foi forçado a adotar uma atitude de complacência. Chegou ao ponto de redigir uma carta ao Senado para justificar a execução de Agripina em 59 d.C, pelo filho. Nessa ocasião, foi muito criticado por sua postura frente à tirania e à acumulação de riquezas de Nero, incompatíveis com as suas próprias concepções filosóficas.

O escritor e filósofo destacou-se por sua ironia, arma da qual se utilizava com muita sabedoria, principalmente nas tragédias, as únicas do gênero na literatura da antiga Roma. Conhecidas como versões retóricas de peças gregas, elas substituem o elemento dramático por efeitos violentos, como mortes em cena e discursos agressivos, demonstrando uma visão mais trágica e individualista da existência.

Sêneca deixou a vida pública em 62 d.C. Dentre seus textos constam a compilação científica "Problemas naturais", os tratados "Da tranqüilidade da alma", "Da vida beata", as cartas reunidas em "Sobre a brevidade da vida" e, talvez sua obra mais profunda, as "Cartas morais" dirigidas a Lucílio. As "Cartas morais", escritas entre os anos 63 d.C e 65 d.C, misturam elementos epicuristas com idéias estóicas e contêm observações pessoais, reflexões sobre a literatura e crítica satírica aos vícios da época.

Acusado de participar na conjuração de Pisão, em 65 d.C, Sêneca recebeu de Nero a ordem de suicidar-se, que executou com o mesmo ânimo sereno que pregava em sua filosofia. Conta-se que sua morte foi uma lenta agonia. Abriu as veias do braço, mas o sangue correu muito lentamente; assim, cortou as veias das pernas. Porém, como a morte demorava, pediu a seu médico que lhe desse uma dose de veneno. Como este não surtiu efeito, enquanto ditava um texto a um dos discípulos, tomava banho quente para ampliar o sangramento. Por fim, fez com que o transportassem para um banho a vapor e, ali, morreu sufocado.


Da obra

Chama-se epístola a composição datada e escrita por um indivíduo ou em nome de um grupo com o objetivo de ser recebida por um destinatário. O termo tem uso antigo e constitui gênero literário importante a partir do conjunto de textos do Novo testamento que ficaram conhecidos por epístolas. Assim, distingue-se uma epístola de uma carta comum, pois não se destina apenas à comunicação de fatos de natureza pessoal ou familiar, aproximando-se mais da crônica histórica que procura relatar acontecimentos do passado.

A utilização do termo alarga-se, posteriormente, a todo tipo de correspondência privada ou oficial, literária ou filosófica, religiosa ou política, tornando-se difícil estabelecer com rigor a diferença entre uma epístola e uma carta. À arte de escrever epístolas ou formas registradas de correspondência escrita entre indivíduos dá-se o nome de epistolografia.

Na literatura latina, são referências obrigatórias do gênero epistolar as Epístolas, de Horácio, as cartas de Varrão, Plínio, Ovídeo e, sobretudo, de Cícero, que fixaram um modelo que foi fartamente imitado. Como referência obrigatória, deve-se incluir os textos epistolares de Sêneca, cujo tom coloquial define que o estilo que melhor convém a uma carta não deve conter um acúmulo de conhecimentos dos diversos ramos do saber ou ser afetado.

Sêneca é o mais importante representante da filosofia estóica em seu último período, e suas preocupações são, em essência, éticas. É um filósofo de espírito mais prático que teórico. Afasta-se, em alguns pontos, do estoicismo, o que resulta em um ecletismo de caráter moralista, preocupado com a filosofia enquanto ensinamento e consolo para a vida.

Para Sêneca, a filosofia gira em torno do "sábio". A sabedoria e a virtude são a meta da vida moral, o único bem imortal que possuem os mortais. A sabedoria consistirá, segundo a doutrina estóica, em seguir a natureza, deixando-se guiar por suas leis e seus exemplos. Estando a natureza regida pela razão, obedecer-lhe é obedecer à razão, podendo o homem, assim, ser feliz.

A felicidade consiste em adaptar-se à natureza para manter um equilíbrio que nos deixe a salvo das vaidades da fortuna e dos impulsos do desejo que obscurecem a liberdade. A liberdade, então, configura-se como a tranqüilidade do espírito, a imperturbabilidade do ânimo frente ao destino, ou seja, a ataraxia. Segundo Sêneca, "O melhor é dirigir-te para a sabedoria, onde encontrarás, ao mesmo tempo, tranqüilidade e grandes possibilidades de crescimento". (LXXIV)

As cartas que Sêneca envia ao amigo Lucílio fazem parte de uma longa tradição do gênero epistolar, que se prolonga em autores modernos. Essas cartas, escritas entre os anos 63 e 65 d.C, misturam elementos epicuristas com idéias estóicas e contêm observações pessoais, reflexões sobre a literatura e crítica satírica dos vícios comuns na época. Não se sabe se Lucílio existiu ou se configura apenas em mero interlocutor imaginário criado pelo filósofo para desenvolver a sua filosofia à maneira de diálogo, o que foi bastante comum durante muitos séculos.

Nas cartas a Lucílio, Sêneca aborda diversas questões. É um otimista. Considera que todas as pessoas trazem consigo a semente de uma vida honesta, embora os bons exemplos exerçam um papel essencial na adoção das virtudes. A educação moral consiste em fazer com que os atos correspondam aos princípios éticos. Por vezes, a vontade é fraca ou deficiente. O homem possui uma natureza que o predispõe quer para o bem quer para o mal, e nem sempre possui a força de vontade e a sabedoria suficientes para optar pelo bem em detrimento do mal.

Sêneca traça um programa de heroísmo passivo, que exige uma reformulação da mente para que não se impressione com o horror das dores, da miséria e da morte. Os homens devem auxiliar uns aos outros e viver em sociedade, professando o afeto e a estima. A natureza exige o amor dos elementos que a compõem. Causar dano a outro homem é algo irracional que vai contra a própria essência da natureza.

A morte não é um bem nem um mal, podendo tornar-se uma libertação quando as circunstâncias da vida condenam o homem a uma escravidão incompatível com a liberdade. Dessa forma, está aberto o caminho para que o homem deixe a vida. Nada os obriga a viver na miséria ou no cativeiro. Essas são apenas algumas das inúmeras questões tratadas nas 29 cartas de Sêneca dirigidas a Lucílio que estão reunidas neste volume.

Sem dúvida, muitas das observações e conclusões que fazem parte dessas cartas poderiam ser aplicadas às inquietudes do mundo atual. Sêneca escreveu as mais belas máximas de pureza da vida; nele se uniram todas as perfeições do pensamento humano, a elevação do espírito e o entusiasmo pela virtude. As cartas a Lucílio demonstram sua larga experiência e contêm as reflexões mais profundas sobre as contradições da condição humana. Que o leitor aprecie a leitura desta obra, fruto de um grande pensador da vida e de suas imprevisibilidades.
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As informações sobre o presente volume encontram-se no final da carta que se segue.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Da economia do tempo
Sêneca saúda o amigo Lucílio


Comporta-te assim, meu Lucílio, reivindica o teu direito sobre ti mesmo e o tempo que até hoje foi levado embora, foi roubado ou fugiu, recolhe e aproveita esse tempo. Convence-te de que é assim como te escrevo: certos momentos nos são tomados, outros nos são furtados e outros ainda se perdem no vento. Mas a coisa mais lamentável é perder tempo por negligência. Se pensares bem, passamos grande parte da vida agindo mal, a maior parte sem fazer nada, ou fazendo algo diferente do que se deveria fazer.

Podes me indicar alguém que dê valor ao seu tempo, valorize o seu dia, entenda que se morre diariamente? Nisso, pois, falhamos: pensamos que a morte é coisa do futuro, mas parte dela já é coisa do passado. Qualquer tempo que já passou pertence à morte.

Então, caro Lucílio, procura fazer aquilo que me escreves: aproveita todas as horas; serás menos dependente do amanhã se te lançares ao presente. Enquanto adiamos, a vida se vai. Todas as coisas, Lucílio, nos são alheias; só o tempo é nosso. A natureza deu-nos posse de uma única coisa fugaz e escorregadia, da qual qualquer um que queira pode nos privar.

E é tanta a estupidez dos mortais que, por coisas insignificantes e desprezíveis, as quais certamente se podem recuperar, concordam em contrair dívidas de bom grado, mas ninguém pensa que alguém lhe deva algo ao tomar o seu tempo, quando, na verdade, ele é único, e mesmo aquele que reconhece que o recebeu não pode devolver esse tempo de quem tirou.

Talvez me perguntes o que faço para te dar esses conselhos. Eu te direi francamente: tenho consciência de que vivo de modo requintado, porém cuidadoso. Não posso dizer que não perco nada, mas posso dizer o que perco, o porquê e como; e te darei as razões pelas quais me considero miserável. No entanto, a mim acontece o que ocorre com a maioria que está na miséria não por culpa própria: todos estão prontos a desculpar, ninguém a dar a mão.

E agora? A uma pessoa para a qual basta o pouco que lhe resta, não a considero pobre. Mas é melhor que tu conserves todos os teus pertences, e começarás em tempo hábil. Porque, como diz um sábio ditado, é tarde para poupar quando só resta o fundo da garrafa. E o que sobra é muito pouco, é o pior. Passa bem!
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Extraído de "Aprendendo a viver", Editora L&PMPOCKET. Tradução do latim por Lúcia Rebello e Itanajara Neves. O volume apresenta 29 dos 124 textos escritos por Sêneca (4 a.C - 65 d. C) a seu amigo Lucílio, sendo tais textos por muitos considerados a obra-prima do filósofo latino.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Flores de Chumbo

Lionel Fischer
(1984)

CAPÍTULO XX


Se a natureza tivesse me dotado de uma ínfima capacidade de fazer versos eu teria saudado minha deusa com um soneto, já que a ocasião não poderia ser mais propícia para a criação de metáforas e rimas. Não sei se o amigo leitor concorda, mas acho que o poeta leva sobre os demais mortais uma vantagem descabida, na medida em que consegue conferir uma dimensão única até mesmo a um fato corriqueiro - o que não era o caso, nesse momento. No que diz respeito ao amor, claro está que o dom da poesia não torna aquele que o possui mais capacitado para senti-lo do que um outro que dele carece. Entretanto, a diferença entre ambos é significativa, pois enquanto o segundo apenas o vive, o primeiro, além disso, o eterniza. Mas voltemos aos fatos.

Não possuindo nenhuma intimidade com o sublime, depois de rápida indecisão corri na direção de minha amada. Mas ao invés de franquear-lhe a entrada abrindo a porteira, escalei-a como uma lagartixa e lá de cima dei um salto magnífico, cujo destino seria a garupa de minha deusa, mas que acabou no chão enlameado graças ao soberbo corcel - insensível às coisas do amor, ele teve a gentileza de afastar-se bruscamente de seu lugar de origem. Todavia, esse pequeno descompasso não arrefeceu meu arroubo de paixão. Pegando o cabresto do animal, pus-me a correr em círculos, gritando a plenos pulmões o meu amor, a minha saudade e tudo o mais que me veio à cabeça. Só interrompi os frenéticos rodopios quando meu fôlego se exauriu. Então, com o peito colado ao pescoço do perplexo eqüino, olhei para aquela que se apossara de minha vida para todo o sempre.

Embora comovida com aquela exuberante e infantil demonstração de afeto, irmã Geovana me pareceu algo tensa. Mas antes que pudesse indagar o que havia, ela desceu graciosamente de sua montada e se jogou em meus braços, sem dizer uma única palavra. O prazer que isso me proporcionou me fez esquecer a tensão que nela percebera e me entreguei a esse abraço com toda a força do meu sentimento. Porém, quando deixei de apertá-la como se estivesse me despedindo dela para sempre e me limitei a estreitá-la com suavidade, notei que irmã Geovana insistia em permanecer agarrada ao meu pescoço, o que veio reforçar minhas suspeitas de que algo efetivamente não ía bem. Mas não a submeti a nenhum interrogatório. Intui que antes de mais nada seria preciso fazer com que ela relaxasse. Murmurei então palavras ternas e acariciei-a como se ela fosse uma criança. Essa estratégia se mostrou eficaz, pois aos poucos minha amada foi ficando menos tensa e ao cabo de uns cinco minutos consegui que ela me olhasse nos olhos. A inquietação que lhe agitava a alma era ainda perceptível, mas num grau menos alarmante.

- Você não pode imaginar como eu gostaria que esse nosso encontro não tivesse nada a atrapalhá-lo...- principiou, com extrema doçura. - Mas assim que você deixou o convento começaram a acontecer coisas tão desagradáveis que eu...enfim...na verdade eu estou aqui muito mais como uma amiga em busca de apoio do que propriamente como...

Por excesso de pudor, irmã Geovana não completou a frase como deveria. Esse hiato, no entanto, só veio reforçar a evidência de que havia de sua parte, em relação a mim, algo mais do que uma simples amizade, o que quase me levou a sair dando cambalhotas pelo lamaçal. Mas consegui me dominar, cônscio de que já esgotara minha cota de debilidade.

- Só o fato de você ter me procurado para partilhar o que te inquieta já é suficiente para que eu me sinta o mais feliz dos homens...- retruquei, inflado de orgulho. - Tomara que eu possa corresponder à sua confiança. Seria terrível para mim te ver regressar ao convento mais aflita do que quando aqui chegou.

- É pouco provável que isso aconteça. Mas se por acaso acontecer, você não deve se sentir culpado ou responsável. Afinal, eu não o procurei imaginando que você poderia resolver os meus problemas e sim para desabafar. Eu preciso muito mais do seu apoio e da sua compreensão do que de eventuais conselhos que você possa me dar.

Essas palavras, proferidas com extrema seriedade, tiveram sobre mim um duplo efeito. Por um lado me tranquilizaram, na medida em que me desobrigavam de encontrar uma solução para os problemas que a atormentavam. Em contrapartida, fizeram com que eu me sentisse um tanto diminuído, já que eliminavam - ou pelo menos não consideravam muito viável - a hipótese de que eu pudesse oferecer algo mais do que um simples amparo. Em suma: me acalmei e me ofendi. Senti-me útil e descartável. Mas tive o cuidado de camuflar essas emoções contraditórias e convidei-a a me acompanhar até a casa.

Quando estávamos quase na varanda me lembrei da existência de monsenhor Flávio. Temendo que sua presença a chocasse - sobretudo se ele já estivesse de pijama - prevení-a de que havia mais alguém na casa.

- Como assim? - perguntou, um tanto perplexa. - Pensei que não havia mais ninguém na cidade!?

- Duas pessoas escaparam. Uma delas, a velha Ecúria.

- A irmã de Ambrosina...

- Você a conhece?

- Infelizmente. Mas espero que você não tenha tido a idéia de...

- Não, é claro. Imagina se eu hospedaria justamente uma pessoa que tentou me matar.

- Tentou...o quê?

- Ela construiu um boneco igualzinho a mim e pretendia me eliminar cravando uma agulha no meu coração. Mas nós conseguimos raptar a réplica no último instante e a enterramos no quintal, numa vala que eu estava cavando para escapar da turba!

Já estava animadíssimo para lhe contar toda a aventura quando percebi que ela não estava compreendendo nada. Eu sem dúvida a atordoara com essas informações e não me espantaria nem um pouco se irmã Geovana estivesse achando que eu havia enlouquecido. Para tranquilizá-la, garanti que continuava mentalmente são e que logo lhe contaria não apenas esse incidente, mas tudo que havia me acontecido desde nossa separação. Mas irmã Geovana, embora não tenha desviado seus olhos dos meus nem por um segundo, me pareceu não haver prestado a menor atenção nessa parte final de meu atabalhoado relato, como se algo que não minha loucura ou lucidez a tivesse monopolizado. E eu não me enganara.

- Desculpe se eu me desliguei do que você dizia, mas é que de repente eu tive a esperança de que...

- Esperança? Como assim?

- Bobagem minha. Seria bom demais...

- Eu não estou entendendo. O que é que seria bom demais?

- Você disse que duas pessoas haviam sobrevivido. Então eu pensei que...ou melhor, eu desejei que essa segunda pessoa fosse alguém que eu amava muito. Mas ela deve ter sido uma das primeiras a tombar no cemitério...

Nesse momento, a porta da casa se abriu e monsenhor Flávio irrompeu na varanda de pijama, segurando com a mão direita uma orquídea e com a esquerda as calças que lhe caíam. Assim que o viu, irmã Geovana gritou seu nome de forma tão curiosa que por um momento fiquei em dúvida se aquela visão - pois era uma visão!? - a agradava ou não. Mas como em seguida ela se jogou nos braços de monsenhor, deduzi que ele deveria ser a pessoa à qual irmã Geovana se referira.

Embora tenha achado comovente o encontro entre ambos, me foi impossível não sentir ciúme de monsenhor, que mereceu de minha amada não apenas uma considerável quantidade de beijos, mas também as palavras mais elogiosas que já escutei alguém ouvir. O comportamento dos dois, cumpre registrar, extrapolava completamente o recato que em geral caracteriza as relações afetivas entre religiosos - só mais tarde vim a saber que uma das muitas causas dessa intimidade se devia ao fato de irmã Geovana, antes de se tornar freira, ter se hospedado durante um mês na igreja. Monsenhor a encontrara chorando na estação, sem saber ao certo se rumava para o convento ou embarcava de novo no trem que a trouxera; vendo-a naquele estado, monsenhor lhe propôs que permanecesse na igreja pelo tempo que julgasse necessário, até que fossem dirimidas todas as dúvidas. E embora irmã Geovana tenha manifestado certa relutãncia em aceitar a oferta, o prelado acabou convencendo-a de que um período de reflexão só contribuiria para que sua decisão, qualquer que fosse ela, não lhe acarretasse arrependimentos futuros.

E aqui eu gostaria de fazer um registro sobre o comportamento exemplar de monsenhor. Ele jamais procurou influenciar a jovem indecisa; limitou-se, quando muito, a prestar alguns esclarecimentos sobre a ordem e os hábitos do convento. E não foram poucas as vezes em que irmã Geovana lhe rogou uma opinião concreta sobre o seu caso, sobretudo nos primeiros dias, quando sua insegurança era ainda pronunciada. Mas monsenhor, se alguma opinião possuía, se absteve de explicitá-la. Aos poucos, convencida de que não obteria do prelado a espécie de ajuda que pleiteava, acabou mergulhando profundamente em si mesma e examinou uma por uma todas as suas contradições. Um mês depois, quando partiu para o convento, estava absolutamente convicta de sua opção - naturalmente que ela não poderia prever que essa opção, dez anos depois, sofreria um grande abalo...

Quando por fim irmã Geovana e monsenhor Flávio se acalmaram e se limitaram a permanecer abraçados, como se estivessem em êxtase, julguei que era o momento de intervir e emiti forte pigarro. Ambos me olharam ao mesmo tempo e ao mesmo tempo sorriram. Meu ciúme, a essa altura, era indisfarçável. Os dois então se aproximaram e me envolveram delicadamente, como se eu fosse um objeto raro ao qual devotavam idêntica afeição. E tão envolvente foi esse abraço que por um momento tive a sensação de que havíamos perdido nossas individualidades e nos tornáramos um só corpo, indissolúvel, algo assim como uma célula cujo núcleo era eu mesmo e da qual faziam parte duas substâncias tão preciosas quanto raras: o amor e a amizade.

Passados alguns instantes, monsenhor sugeriu que entrássemos. Irmã Geovana ficou encantada com o aspecto geral da casa, que inspecionou inteira. Enquanto o fazia, monsenhor e eu permanecemos na sala, quando então aproveitei para perguntar a quem pertencia a granja com a qual minha deusa parecia ter uma relação tão próxima. Ele me disse que pertencera a Ambrosina, que ali recebera a superiora inúmeras vezes para conversar. Disse também que coubera a ele fazer as apresentações, isto mais ou menos um ano após a chegada de irmã Geovana. Completando suas informações, deu-me a conhecer um fato curioso: Ambrosina havia desembarcado na cidade no mesmo dia em que irmã Geovana a deixava, rumo ao convento.

- Se elas tivessem se conhecido nessa época, é bem possível que irmã Geovana não se tornasse freira...

Não sei a troco do quê fiz essa observação, mas monsenhor me pareceu bastante surpreso com a mesma, visto ter aberto desmesuradamente a boca e arregalado os olhos. No entanto, não teve tempo de me pedir os devidos esclarecimentos, pois irmã Geovana retornou à sala nesse instante.

- O seu quarto...está lindo!

Achei que ela só poderia estar se referindo ao quarto ocupado por monsenhor, pois o meu estava na mais absoluta desordem. Meio sem jeito, perguntei:

- Você entrou no primeiro ou no segundo quarto?

- Entrei em todos. No primeiro, certamente, está alojado monsenhor Flávio. No último, "a vida de Ambrosina", como você um dia se referiu aos seus diários. O do meio, portanto, só pode ser o seu.

E me fez um gesto sugerindo que a acompanhasse. Quando entramos no meu quarto, levei um susto: minhas roupas não estavam mais jogadas de qualquer jeito sobre a cadeira; a cama estava impecavelmente feita e em ambas as mesinhas de cabeceira - a cama era de casal - havia dois lindos recipientes com flores! Monsenhor, evidentemente, fora o artífice de toda essa metamorfose. Mas por que se dera a esse trabalho? Apenas para que irmã Geovana tivesse a meu respeito a impressão de um sujeito organizado? Ou será que imaginara que ela poderia querer passar a noite ali?

Na verdade, após ter visto meu encontro com irmã Geovana no pátio, monsenhor resolveu assumir o papel de zelosa alcoviteira, assim como antes assumira o de faxineira. Por isso criou um ambiente ao mesmo tempo delicado e romântico, no qual irmã Geovana e eu poderíamos, se quiséssemos, assumir integralmente o afeto que ele percebeu que nutríamos. Claro está que jamais lhe perguntei por que se empenhara em transformar meu mafuá numa alcova; contentei-me apenas em lhe ser grato para todo o sempre, pois foi nesse cenário que eu vivi a noite mais maravilhosa de minha vida.

Depois de formular para mim mesmo tudo o que acabo de relatar, o que por sinal não durou mais do que um breve instante, contei a verdade a irmã Geovana.

- Realmente, o quarto está lindo. Mas há uma hora atrás você o acharia detestável...

- Por quê?

- Não se atreveria sequer a entrar nele, tamanha a desordem. Monsenhor Flávio é realmente um prodígio. Enquanto estávamos no pátio, ele conseguiu transformá-lo nisto que você está vendo. Todos os méritos cabem a ele. Eu estou tão surpreso quanto você.

Irmã Geovana não fez qualquer comentário. Mas passou a olhar cada um dos objetos com extrema atenção, como se pretendesse fixá-los em sua memória. A princípio estranhei essa atitude, mas de repente, num dos raros momentos de perspicácia de minha vida, julguei compreender o que havia por trás do curioso comportamento de minha amada. A iniciativa de monsenhor Flávio a abalara profundamente, visto que, ultrapassando os limites de uma simples gentileza, revelava uma evidente cumplicidade, algo assim como uma aprovação apriorística de nosso amor. Em resumo: é óbvio que ela concluíra que o quarto fora arrumado para nós!

Quando tornou a se virar para mim, seus olhos emitiam um brilho estranho, enigmático, que subjugou totalmente os meus. Nesse momento me lembrei do sonho que tivera com Ambrosina, cujo olhar, se não me engano, descrevi como capaz de "radiografar a alma" e intuí que viveria de novo a mesma experiência, só que desta vez acordado. É claro que não posso garantir que irmã Geovana tivesse a intenção de percorrer-me as entranhas, mas que elas se sentiam percorridas, quanto a isso não resta a menor dúvida.

Mas de repente, e para meu alívio - ainda que estivesse magnetizado - irmã Geovana parou de me olhar de maneira radiográfica e voltou a exibir o mesmo ar de encantamento que tanto me havia fascinado pouco antes na sala. Em seguida, deu um passo em minha direção, tomando minhas mãos com extremo desembaraço.

- Vamos para a sala? Monsenhor pode estar aflito, imaginando coisas...

A forma encantadoramente cínica com que irmã Geovana proferiu essa frase me fez rir. Sendo o riso, como o medo, extremamente contagiante, em poucos segundos ríamos os dois às gargalhadas. E foi assim que retornamos à sala e logo monsenhor aderiu ao nosso descontrole, sem saber o que o gerara. Quando finalmente conseguimos nos dominar, irmã Geovana se acercou de monsenhor, abraçou-o carinhosamente e murmurou:

- Obrigado, monsenhor.

Durante toda a hora que se seguiu, monsenhor Flávio e eu nos limitamos a ouvir as surpreendentes revelações feitas por minha amada sobre o clima que se instalou no convento tão logo o abandonei - mas antes forneceu a monsenhor as informações indispensáveis acerca do período em que lá permaneci, para que ele pudesse melhor compreender o que narraria a seguir. Em resumo, acontecera o seguinte.

Semibreve e suas compoarsas não se conformaram com o fato de irmã Geovana ter me aceito como hóspede e passaram a desenvolver uma vasta gama de atividades sorrateiras, que incluía coação e espionagem. No primeiro caso, procuravam detectar entre as paretidárias de minha amada aquelas que lhes pareciam passíveis de serem influenciadas e então tentavam convcencê-las com argumentos - se estes revelavam-se insuficientes, partiam para ameaças físicas. Não foram poucas, infelizmente, as que trocaram de lado.

No que diz respeito à espionagem, puseram-se a vigiar os passos de irmã Geovana, objetivando demonstrar que sua hospitalidade não passava de um pretexto para me manter ao alcance do que denominavam "impulsos bestiais". Informada do que se passava, irmã Geovana resolveu me afastar não apenas de si própria, como também de todas as irmãs, exceção feita àquela que me servia as refeições e arrumava meu quarto, para ver se controlava os sórdidos rumores que corriam entre aquelas paredes.

Entretanto, nem isso foi o bastante. Semibreve e Cia. espalharam que meu súbito isolamento não passava de uma farsa, pois meu quarto possuía uma passagem secreta que levava ao de irmã Geovana. Indignada, minha amada reuniu toda a comunidade no mesmo dia em que eu parti e depois de rebater todas as acusações, desafiou Semibreve a provar a existência da aludida passagem secreta. Para sua surpresa, o aleijão corcunda aceitou o desafio e propôs que todas as irmãs fossem imediatamente comprovar a veracidade do que afirmara. Uma hora depois, quando voltaram a se reunir, irmã Geovana era a própria imagem da derrota: havia de fato a tal passagem!

Aproveitando-se do impacto causado pela existência do que ousou chamar de "túnel da devassidão", Semibreve propôs inicialmente a imediata destituição de irmã Geovana de suas funções de superiora, alegando que lhe faltavam predicados morais para continuar a exercê-las. É claro que a proposta transformou a assembléia num mercado árabe. Todas as irmãs falavam ao mesmo tempo, a maioria aos gritos e não foram poucas as que trocaram bofetões e unhadas. Quando finalmente as mais sensatas conseguiram acalmar as mais exaltadas e esperava-se que um debate civilizado resolvesse a questão, a medonha corcunda lançou uma segunda e ainda mais terrível proposta, que consistia em escorraçar irmã Geovana do convento, não sem antes inflingir-lhe uma punição à altura de suas faltas.

Ante a brutalidade e absurdo da nova proposta, até mesmo as irmãs que ainda seriam capazes de sacrificar a própria vida por minha amada mantiveram-se paralisadas, incapazes de esboçar qualquer protesto. Sentindo-se então senhora da situação, a antiga superiora ordenou a algumas de suas asseclas que confinassem irmã Geovana num pequeno quarto, que durante sua gestão era utilizado com freqüência como uma espécie de solitária, onde as irmãs que ousavam questionar qualquer determinação sua passavam às vezes várias semanas e que irmã Geovana, tão logo asusmiu o posto máximo no convento, mandara lacrar.

Já estava minha amadfa cercada por um bando de hienas e prestes a ser arrastada para o lúgubre calabouço quando irmã Ocampo, dando mostras de formidável coragem, se apossou dos dois cajados que sustinham a entrevada criatura - como eu já havia feito uma vez, lembram-se? - e desfez o famigerado assédio a cajadadas, distribuindo golpes tão certeiros que ao cabo de poucos minutos todas as que haviam ousado se aproximar de minha deusa nada mais faziam do que apalpar ferimentos e choramingar em torno da abominável Quasímoda, que outras partidárias tentavem erguer com cuidados de arqueólogo. Porém, ao perceber que a passividade de irmã Geovana - que parecia não estar entendendo nada do que se passava - poderia estimular um novo ataque, irmã Ocampo bradou:

- Pelo amor de Deus, Geovana, diga alguma coisa ou estaremos perdidas!

E se afastou alguns passos, mantendo os cajados de prontidão. Mas tal precaução se revelou desnecessária, pois de súbito minha amada, como que recobrando a consciência, proferiu um discurso tão inflamado que ninguém se atreveu a mover um só músculo do próprio corpo, muito menos levantar qualquer objeção à defesa apaixonada que fez de sua honra e integridade - não nos esqueçamos de que seus sentimentos por mim surgiram a posteriori e ela só apareceu no meu quarto duas vezes: a primeira para me desejar felicidades pelo meu aniversário, e depois na véspera de minha partida, quando então nos beijamos. E finalizou o soberbo improviso propondo a todas as irmãs que refletissem durante uma semana acerca da conveniência ou não de ser mantida no cargo. Findo esse prazo, a comunidade voltaria a se reunir e cada irmã anunciaria em voz alta a conclusão a que havia chegado. Computados os votos, prevaleceria a vontade da maioria. Em seguida, retirou-se para os seus aposentos, em meio a um silêncio que gritava. E deles só saiu para vir ao meu encontro.

Monsenhor Flávio se mostrou menos surpreso do que eu com os fatos narrados. Conhecendo o caráter abominável da abjeta corcunda e o ódio que devotava à minha amada, não achou nada de muito extraordinário que ela engendrasse toda uma pérfida trama para prejudicar sua sucessora. O que lhe causou espanto foi a quantidade de irmãs que a ela haviam aderido e que representavam, em sua opinião, uma ameaça concreta de retorno aos tempos de obscurantismo. Irmã Geovana conseguira, em menos de dez anos, abalar as estruturas aparentemenmte sólidas sobre as quais a ordem estava assentada desde tempos imemoriais, ao propor uma nova avaliação do papel de uma religiosa no mundo moderno. Abstendo-se de mencionar aqui todas as suas lutas, suas muitas vitórias e alguns poucos fracassos, citarei apenas um exemplo de sua coragem, lucidez e determinação.

Não aceitando que as irmãs fossem proibidas de manter contato com o mundo exterior, o que em sua opinião as convertia em seres inúteis, irmã Geovana não descansou enquanto não conseguiu convencer suas companheiras de que essa atitude em nada contribuía para tornar os homens mais felizes e que o compromisso com a felicidade tinha que ser prioritário. Sustentou ainda que a idéia de que as pessoas deveriam penar na Terra para que depois o Senhor as recompensasse no paraíso não passava de uma manobra que visava favorecer os poderosos, em detrimento de uma maioria que vivia esmagada por falsas crenças e impregnada de falsos temores.

Essa batalha durou exatamente um ano e a vitória final de minha amada contribuiu para que o convento se modificasse, pois na medida em que as irmãs romperam o isolamento em que viviam e passaram a participar mais ativamente da vida da cidade, as antigas e inócuas conversas que mantinham foram substituídas por vivas discussões sobre os problemas da comuniudade e o que poderia ser feito para solucioná-los. Naturalmente que algumas irmãs, fascinadas pela perspectiva de uma vida ainda mais atuante ou por se perceberem carentes de uma verdadeira vocação religiosa, acabaram deixando o convento, o que levava à loucura a facção mais ortodoxa da ordem. Mas minha deusa não se aborrecia nem um pouco, pois para ela sempre que o convento perdia uma irmã insatisfeita, o mundo ganhava uma cristã convicta. E quando a acusavam de estar trabalhando não para o fortalecimento da ordem, mas para sua extinção, irmã Geovana respondia que se a ordem não conseguia conviver com o livre-arbítrio, então era melhor que fosse extinta mesmo.

No momento presente, no entanto, o prestígio de irmã Geovana já não era o mesmo, em que pese ter conseguido impor sua proposta de votação. Monsenhor, extremanmete perspicaz, deu uma opinião muito interessante a respeito do que estava se passando:

- O que está em jogo não é propriamente sua conduta, mas a da própria Igreja. Aquele mosntro e você são como símbolos: ela, da velha Igreja, com todas as deformações que a caracterizam; você, da nova, com todas as suas aspirações libertárias. Portanto, optar por você ou por ela significa assumir uma postura não apenas diante da religião, mas igualmente da História. E isso, sem dúvida, é assustador.

Irmã Geovana e eu concordamos integralmente com sua interpretação dos fatos e insistimos para que monsenhor aventasse hipóteses sobre seus possíveis desdobramentos. Mas o prelado, alegando cansaço, avisou que iria dormir. Antes, porém, de retirar-se, aproximou-se de irmã Geovana e lhe deu um forte abraço, perguntando em seguida a que horas gostaria de levantar.

- Antes do sol nascer...- respondeu minha deusa.

- Eu te chamo...- disse o prelado, e depois de me brindar com um sorriso curioso, desapareceu.

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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Teatro/CRÍTICA

"Trem Fantasma - uma comédia romântica"

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Amor e humor no Casarão

Lionel Fischer

Drummond escreveu que havia uma pedra no caminho - eu diria que podem ser muitas as pedras, dependendo do caminho. Já num trem fantasma, inexistem pedras, mas abundâncias de curvas e em cada uma delas uma surpresa que assusta. E no que diz respeito ao amor: também seria assim? Para o autor Ivan Fernandes, de certa forma e em alguma medida, o mesmo fenômeno se repetiria: a relação amorosa poderia conter, digamos, pequenas retas pacíficas, mas logo (e sempre) surgiriam as tais curvas imprevistas e assustadoras. Daí a curiosa analogia entre um brinquedo destinado às crianças e um outro, do qual dificilmente os adultos escapam.

Em cartaz no Casarão da Glória, "Trem Fantasma - uma comédia romântica" chega à cena com direção de Mário Hermeto e elenco formado por Rodrigo Candelot (Aristóteles), Ana Bugarin (Clarisse), Daniel Satixe (Felipe), Juliana Prandini (Alê), Igor Paiva (namorado abandonado), Helena Machado (Mariana) e Aldo Perrota (Platão), que dividem a cena com um elenco de apoio - que personifica diversificados "monstros" - vivido por Hugo Grativol, Bianca Branco, Carol Colli, Tulanih, Cleber Salgado, Gé Lisboa e Fabricio Victorino.

Para facilitar a platéia a entrar no clima do espetáculo, os espectadores são submetidos, à medida que caminham pelo jardim do Casarão, a sucessivos sustos, ao mesmo tempo em que escutam pequenas frases algo misteriosas. Finalmente, uma vez instalados no interior - que serão convidados a abandonar algumas vezes - tomam conhecimento da história. Esta tem como ponto de partida o fim da relação entre Aristóteles e Clarisse, com esta logo arrumando outra companhia, enquanto seu ex-parceiro, sem saber o que fazer, acaba contratando uma garota de programa, não tanto para usufruir as delícias (?) do amor pago, mas sobretudo para causar inveja na ex-namorada. Mas ambos acabam se apaixonando. E a trama segue, sempre repleta de surpresas, mas alternando divertidas e amargas reflexões sobre o amor, ainda que com predominância das primeiras - afinal, trata-se de uma comédia romântica.

Bem escrito, contendo personagens interessantes e, como já foi dito, muitas surpresas, o texto de Ivan Fernandes atinge plenamente os objetivos a que se propôs, mas seria ainda mais eficiente se tivesse sido um pouco reduzido - a cena final, por exemplo, ainda que bem escrita e bem interpretada, poderia ser mais curta.

Quanto ao espetáculo, Mário Hermeto cria uma dinâmica cênica em total sintonia com o texto, valorizando ao máximo seus principais conteúdos e jamais permitindo que o espectador "se acomode", ou seja, se sinta confortável a ponto de pensar que já sabe o que virá a seguir. O encenador também exibe dois méritos suplementares: a ótima exploração que faz do espaço e as excelentes atuações que extrai de todo o elenco. Neste particular, é óbvio que os quatro personagens principais (Aristóteles, Clarisse, Alê e Platão) têm maiores oportunidades, mas os demais, assim como o elenco de apoio, também conseguem extrair o máximo de seus papéis.

Na equipe técnica, destaco com o mesmo entusiasmo a cenografia e direção de arte de Pedro Fasanello, os figurinos de Livia Diniz e Joana Bueno (Projeto Transforma da ONG Pimpolhos da Grande Rio), a caracterização de Fernanda Santoro, a iluminação de Fernanda Mantovani e José Amarilio Jr., a trilha sonora de Pedro Cintra e a preparação corporal de Patricia Nieddermeier.

TREM FANTASMA - UMA COMÉDIA ROMÂNTICA - Texto de Ivan Fernandes. Direção de Mário Hermeto. Com Rodrigo Candelot, Ana Bugarin e grande elenco. Casarão da Glória. Sexta e sábado, 20h30. Domingo, 20h.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

"Antígona"

de Sófocles


Numa das mais belas e dramáticas tragédias já escritas, Sófocles devassa em toda a sua profundidade o amor, a lealdade, a dignidade. A história pode ser assim resumida: Tebas, governada pelo tirano Creonte, entra em guerra contra Argos. Um dos sobrinhos de Creonte, Etéocles, permanece fiel, enquanto Polinice, já não suportando mais os desmandos de Creonte, se passa para o lado de Argos. Durante o combate, Etéocles e Polinice se matam, e Creonte reserva ao primeiro um funeral de herói; quanto ao outro, decide privá-lo de sepultura, o que constituía grave ofensa ao morto e sua família, pois a alma do morto não faria a transição adequada ao mundo dos mortos. Antígona, irmã de Ismene, enfurecida desobedece o decreto de Creonte e enterra o irmão, sendo pouco depois levada à presença do tio para justificar sua atitude. A partir daí, os acontecimentos assumem cada vez mais uma dimensão trágica. A seguir, reproduzo o célebre embate entre Antígona e Creonte, do qual também participa Ismene, utilizando a tradução de Donaldo Schüler, feita diretamente do grego. (LF)

* * *

CREONTE - E tu, tu que baixas a cabeça, admites ou negas que procedeste assim?

ANTÍGONA - Admito, não nego nada.

CREONTE - Tu, podes retirar-te para onde queres, de acusações condenatórias estás livre. E tu, declara sem rodeios, sinteticamente. Sabias que eu tinha proibido essa cerimônia?

ANTÍGONA - Sabia. Como poderia ignorá-lo? Falaste abertamente.

CREONTE - Mesmo assim ousaste transgredir minhas leis?

ANTÍGONA - Não foi, com certeza, Zeus que as proclamou, nem a Justiça com trono entre os deuses dos mortos as estabeleceu para os homens. Nem eu supunha que tuas ordens tivessem o poder de superar as leis não-escritas, perenes, dos deuses, visto que és mortal. Pois elas não são de ontem nem de hoje, mas são sempre vivas, nem se sabe quando surgiram. Por isso, não pretendo, por temor às decisões de algum homem, expor-me à sentença divina. Sei que vou morrer. Como poderia ignorá-lo? E não foi por advertência tua. Se antes da hora morremos, considero-o ganho. Quem vive num mar de aflições iguais às minhas, como não há de considerar a morte lucro? Defrontar-me com a morte não me é tormento. Tormento seria, se deixasse insepulto o morto que procede do ventre de minha mãe. Tuas ameaças não me atormentam. Se agora te pareço louca, pode ser que seja louca aos olhos de um louco.

CREONTE - Sabe, entretanto, que as vontades mais rijas são as que mais se quebram. Verás o ferro mais inflexível, endurecido a fogo, rachar com freqüência e romper. Com um pequeno pedaço de bromze sei que os potros mais xucros são domados. Não se mostre altaneiro quem é escravo da vontade alheia. Esta já se mostrou insolente aos transgredir as leis estabelecidas. Insolência renovada é orgulhar-se e rir, cometida a transgressão. Agora, entretanto, homem não serei eu, homem será ela, se permanecer impune tamanho atrevimento. Ainda que seja filha de minha irmã, ainda que me seja a mais próxima dos que rendem culto ao Zeus doméstico, nem esta nem a irmã dela escaparão da morte mais infame. Acuso também Ismene cúmplice desta trama. Chamem-na. Ainda há pouco a vi enfurecida sem saber dominar-se. A perturbação dos que tramam perversidades na sombra costuma trair os infratores. Odeio os que, quando em maquinações criminosas apanhados, procuram embelezar os delitos.

ANTÍGONA - Estou em tuas mãos. Mata-me. O que mais queres?

CREONTE - Eu? Nada. Tenho o que desejo.

ANTÍGONA - Então, o que esperas? A mim, em tuas palavras, não me agrada nada nem jamais poderá, nem há nada que te possa causar prazer. Contudo, onde poderia procurar renome mais fulgente do que na ação de dar ao meu irmão sepultura? Todos estes o aprovam, e o declarariam se o medo não lhes travasse a língua. Mas a tirania, entre muitas outras vantagens, tem o privilégio de fazer e dizer o que lhe apraz.

CREONTE - Isto, entre todos os filhos de Cadmo, só tu o vês.

ANTÍGONA - Também estes o vêem, mas, intimidados por ti, mordem a língua.

CREONTE - E tu, não te envergonhas do teu comportamento, oposto ao deles?

ANTÍGONA - Nada de vergonhoso há em honrar os do mesmo sangue.

CREONTE - Não era consangüíneo teu o que morreu lutando com ele?

ANTÍGONA - Consangüíneo, da mesma mãe e do mesmo pai.

CREONTE - Como rendes honras que lhe são injuriosas?

ANTÍGONA - Não será este o testemunho do morto.

CREONTE - Será, pois se honras um, injurias o outro.

ANTÍGONA - Quem morreu não foi um escravo, foi o irmão.

CREONTE - Ele atacava sua pátria, o outro a defendia.

ANTÍGONA - A lei do Reino dos Mortos é igual para todos.

CREONTE - Mas o mau não tem direitos iguais ao justo.

ANTÍGONA - Quem sabe se lá embaixo se terá este princípio por piedoso.

CREONTE - O inimigo, nem morto, será considerado justo.

ANTÍGONA - Não fui gerada para odiar, mas para amar.

CREONTE - Muito bem, se precisas amar os mortos, incorpora-te a eles, ama-os. Mas, em minha vida, não permitirei que uma mulher governe.

COREUTA - Já se encontra à porta Ismene, derrama lágrimas de afeto pela irmã. Nuvem sombria cobre-lhe a fronte, escurece-lhe o rosto, umedece-lhe a formosa face.

CREONTE - Tu, víbora, penetraste em meu palácio para sugar sorrateiramente meu sangue; sem saber, eu alimentava duas calamidades, ruína de meu trono. Vamos, dize-me, desta cerimônia és cúmplice ou juras que de nada sabias?

ISMENE - Cúmplice, se ela aceita minha cumplicidade, solidária no ato e na responsabilidade.

ANTÍGONA - Não, a Justiça não o permitirá, não quiseste acompanhar-me, nada tramei contigo.

ISMENE - Seja! Mas vendo-te afundada na desgraça, não me peja acompanhar-te e fazer de tua sorte a minha.

ANTÍGONA - Os atos, estes a Morte e os lá debaixo os conhecem, quanto à solidariedade não a quero só com palavras.

ISMENE - Querida irmã, não me considereis indigna de morrer contigo e contigo homenagear o que tombou.

ANTÍGONA - Não, não queiras morrer comigo, nem te comprometas com atos meus. Que eu morra basta.

ISMENE - Que vida poderá agradar-me, se tu me deixas?

ANTÍGONA - Pergunta a Creonte, que te significa tanto!

ISMENE - Por que me feres? Que ganhas com isso?

ANTÍGONA - Atormentada pela dor, eu me rio de ti.

ISMENE - Não há nada que eu poderia fazer por ti?

ANTÍGONA - Salva-te. Evita a morte. Não te invejo.

ISMENE - Desgraça! Recusas-me tua sorte?

ANTÍGONA - Tu escolheste viver; eu, morrer.

ISMENE - Sem minha advertência, não.

ANTÍGONA - Foste sábia para uns; eu, para outros.

ISMENE - Mas no erro somos iguais.

ANTÍGONA - Coragem! Vives, meu espírito já muito está morto. Morta, quero servir aos mortos.

CREONTE - Loucas, não há outra designação para ambas. Uma enlouqueceu agora, a outra é louca de nascença.

ISMENE - A razão que trazemos do nascimento não resiste ao presente infortúnio, ela se vai.

CREONTE - Issso te aconteceu ao decidires com a criminosa praticar crimes.

ISMENE - O que de bom me oferecerá a vida sem ela?

CREONTE - Não digas "ela", ela não existe mais.

ISMENE - Matarás a noiva de teu próprio filho?

CREONTE - Ele encontrará outros campos para lavrar.

ISMENE - Não há outra escolha nem para ele nem para ela.

CREONTE - Mulher desqualificada não quero para meu filho.

ISMENE - Querido Hemon, como te insulta teu pai!

CREONTE - Basta! Não me importunes com a lembrança deste matrimônio.

CORIFEU - Como? Privarás dela teu próprio filho?

CREONTE - A Morte impedirá este casamento por mim.

CORIFEU - Para mim, já decidiste matá-la.

CREONTE - Para ti e para mim. Depressa, escravos. Já para dentro com elas. Determino que estas mulheres fiquem presas e que não andem soltas por aí. Até os mais atrevidos fogem, quando vêem a Morte se aproximar para pôr fim à vida.

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Sófocles (495 a. C. - 406 a. C.) nasceu e morreu em Atenas, na Grécia, e foi um dos maiores intelectuais da antigüidade clássica. Autor prolífico e consagrado em seu tempo, produziu cerca de 120 peças das quais restaram conservadas apenas 7, dentre elas "Antígona", "Electra" e "Édipo Rei".