terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Prêmio Cesgranrio de Teatro 2015
Vencedores

MELHOR FIGURINO
Carol Lobato ("Kiss me, Kate - O Beijo da Megera")

MELHOR CENOGRAFIA
Bia Junqueira ("A Santa Joana dos matadouros"/ "Meu Saba" / "Santa")

MELHOR ILUMINAÇÃO
Aurélio de Simoni ("Meu Saba")

MELHOR ATOR
Bruce Gomlevsky ("Uma Ilíada")

MELHOR ATOR EM TEATRO MUSICAL
José Mayer ("Kiss me, Kate")

CATEGORIA ESPECIAL
Claudio Lins (adaptação da obra de Nelson Rodrigues para o teatro musical)

MELHOR ATRIZ
Ana Paula Secco ("O Pena Carioca")

MELHOR ATRIZ EM TEATRO MUSICAL
Alessandra Verney ("Kiss me, Kate")

MELHOR DIREÇÃO
Marco André Nunes ("Caranguejo Overdrive")

MELHOR DIREÇÃO MUSICAL
Marcelo Alonso Neves ("Amargo Fruto - A vida de Billie Holiday")

MELHOR TEXTO NACIONAL INÉDITO
Pedro Kosovski ("Caranguejo Overdrive")

MELHOR ESPETÁCULO
"Krum"

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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

"Labirinto" em debate no Oi Futuro


Nesta quinta, dia 14/01, será realizado um debate com a diretora Daniela Amorim e os atores Alcemar Vieira, Otto Jr. e Paula Calaes após a peça "Labirinto", no Oi Futuro, sobre o processo de concepção e realização do espetáculo. Na próxima semana, quinta, dia 21, os autores Alexandre Costa e Patrick Pessoa conversarão com o público sobre a adaptação do mito para o universo teatral.

Os antigos mitos gregos oferecem várias versões do célebre embate entre Teseu e o Minotauro, consolidando um enredo que desde a sua origem vem sendo sucessivamente transmitido e reinventado e, mais recentemente, inspirou obras de autores como Nietzsche, André Gide, Gilles Deleuze, Julio Cortázar, Jorge Luis Borges e Sarah Kane. 

Com dramaturgia inédita de Alexandre Costa e Patrick Pessoa, o espetáculo subverte inteiramente o enredo original do mito, dando voz aos personagens anônimos dessa história. Com direção de Daniela Amorim e codireção de Patrick Pessoa, a peça está em cartaz no Oi Futuro no Flamengo. A temporada seguirá até 31 de janeiro, sempre de quinta a domingo.
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sábado, 9 de janeiro de 2016

Teatro/CRÍTICA

"Brimas"

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Precioso encontro no Cândido Mendes




Lionel Fischer




"Inspiradas em suas avós, as atrizes trazem para o palco histórias reais de suas famílias, que, mesmo sendo de religiões diferentes, são similares quando tangem o idioma, hábitos e costumes. A peça fala sobre o amor à terra em que se nasce, orgulho de pertencer à pátria brasileira que as acolheu como filhas, a travessia, o ir em frente, a esperança, a memória do que ficou para trás, a saudade e a expectativa da alegria de dias melhores".

Extraído do material de divulgação entregue à imprensa, o trecho acima resume o contexto em que se dá "Brimas", que, após vitoriosa temporada no ano passado no Midrash, está novamente em cartaz, agora no Teatro Candido Mendes. Beth Zalcman e Somone Kalil respondem pelo texto e pela atuação, estando a direção a cargo de Luiz Antônio Rocha.

Em uma época em que conflitos de todas as naturezas parecem fadados a se perpetuar, com a intolerância se sobrepondo à razão e aos sentimentos mais elementares, assim eliminando (ou parecendo eliminar) qualquer possibilidade de entendimento entre os homens, uma peça como "Brimas" assume conotações preciosas. 

E aqui não me refiro à carpintaria teatral, sem dúvida deliciosa, mas de grande simplicidade: o essencial diz respeito à mensagem que o texto transmite e que consiste, basicamente, em demonstrar que é possível manter-se fiel às suas convicções, sem que isso implique em rejeitar aqueles que pensam diferente - desde que a ética, naturalmente, predomine.

Impregnado de humor e humanidade, mesclando fantasia e realidade em um contexto singelo (duas mulheres preparam quitutes para um velório), "Brimas" recebeu excelente versão cênica de Luiz Antônio Rocha, que sabiamente optou por uma dinâmica isenta de inócuas firulas formais e assim conseguiu, de forma emocionante e emocionada, valorizar ao extremo todos os conteúdos propostos. Além disso, Rocha exibe o mérito suplementar de haver extraído ótimas performances de Beth Zalcman e Simone Kalil.

Irrepreensíveis tanto do ponto de vista vocal como corporal, as duas atrizes evidenciam aquele raro tipo de cumplicidade cênica que só existe quando os intérpretes acreditam totalmente no que estão fazendo, nas ideias e sentimentos que defendem, na importância que atribuem ao espetáculo em que estão atuando. 

Peter Brook, o maior encenador vivo, definiu o teatro como "A arte do encontro", deixando implícito que um forte elo precisa ser estabelecido entre quem faz e quem assiste. Sendo tal definição verdadeira, e acredito piamente nela, não hesito em afirmar que todos aqueles que comparecerem ao Cândido Mendes dele sairão plenamente convictos de que o Teatro - assim como os diamantes e O Tablado - é eterno. 

Na equipe técnica, considero irrepreensíveis as contribuições dos profissionais envolvidos nesta mais do que oportuna empreitada teatral - Toninho Lôbo (cenário e adereços) e Claudia Goldbach (figurino). Gostaria de citar o responsável pela sensível iluminação, mas infelizmente seu nome não consta do programa que me foi entregue.

BRIMAS - Texto e atuação de Beth Zalcman e Simone Kalil. Direção de Luiz Antônio Rocha. Teatro Cândido Mendes. Sexta e sábado, 21h. Domingo, 20h.


 


domingo, 20 de dezembro de 2015

Teatro/CRÍTICA

"Uma Ilíada"

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Inesquecível encontro no CCBB



Lionel Fischer



Poema épico cuja autoria é atribuída a Homero (poeta grego do século VIII a.C.), a "Ilíada" descreve a Guerra de Troia (entre gregos e troianos) em vinte cantos. Na obra, Homero conta o penúltimo ano desta guerra, que durou dez anos. Após sequestrarem a princesa grega Helena, os troianos são atacados pelos gregos. Depois de anos de batalha, os gregos conseguem vencer, após presentearem os troianos com um gigantesco cavalo de madeira, o Cavalo de Troia, dentro do qual estavam escondidos centenas de soldados. De madrugada, os soldados gregos saíram da barriga do cavalo e dizimaram a cidade inimiga. Porém, vale lembrar que o episódio do Cavalo de Troia não aparece nos cantos da "Ilíada", mas apenas na "Odisseia", outro poema de Homero, quando o herói Ulisses apresenta lembranças desta guerra.

Baseados nesta que constitui uma das obras mais relevantes da antiguidade, os norte-americanos Lisa Peterson e Denis O'Hare escreveram "An Iliad" ("Uma Ilíada"), em cartaz no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil. Bruce Gomlevsky assina a direção do espetáculo e interpreta o único personagem, que talvez possa ser definido como um contador de histórias. A tradução ficou a cargo do poeta Geraldo Carneiro.

Escrito há cerca de três mil anos e contendo mais de quinze mil versos, a "Ilíada" é considerado não apenas o mais antigo e extenso documento literário grego que chegou até nossos dias, mas também a obra fundadora da literatura ocidental e uma das mais importantes da literatura mundial. Isto posto, caberia a pergunta: seria possível adaptar a monumental obra para o teatro, condensando-a a ponto de gerar um espetáculo de pouco mais de uma hora? A resposta é um entusiasmadíssimo sim! E isto se deve, como explicita Bruce Gomlevsky no release que me foi enviado, à capacidade dos autores de produzir "uma escrita acessível e comunicativa para as plateias contemporâneas, sem perder a profundidade e beleza do texto original".

Abordando uma série de temas, dentre eles a ganância, a violência, a ferocidade humana, e novamente me reportando a Gomlevsky, "a necessidade infindável do homem de guerrear, conquistar e subjugar seu semelhante", a presente obra propicia ao espectador uma rara oportunidade de refletir sobre algumas de suas questões essenciais e, quem sabe, a partir dessas reflexões empreender algum movimento no sentido de interromper essa ancestral tendência que não privilegia a vida, mas a morte.

Impondo à cena uma dinâmica que, sem deixar de exibir componentes ritualísticos, consegue estabelecer fortíssima comunicação com a plateia, Bruce Gomlevsky valoriza ao máximo o excelente material dramatúrgico, cabendo destacar a forma como explora a excelente cenografia de sua autoria (um grande círculo composto por velas) e também como interage com a dramática trilha sonora original de Mauro Berman, executada de forma primorosa pela contrabaixista Alana Alberg. 

Homem de teatro na acepção máxima do termo (atua, dirige, produz), Bruce Gomlevsky é um ator de exceção. E isto se deve não apenas aos seus vastíssimos recursos vocais e corporais, à sua refinada sensibilidade e à inteligência de suas escolhas como intérprete, que jamais descambam para o previsível.  Acredito que existe algo mais em Bruce Gomlevsky do que apenas um talento avassalador para representar: sua profunda compreensão do fenômeno teatral,  que pressupõe um visceral encontro entre quem faz e quem assiste. E sua atual performance, magistral sob todos os pontos de vista, só faz ratificar minha crença de que o ator é um elemento fundamental no processo de descoberta e transformação do homem. Assim, agradeço a Bruce Gomlevsky o inesquecível encontro que tivemos, e peço aos sempre caprichosos deuses do teatro que permitam que este espetáculo, cuja temporada se encerra na próxima segunda-feira, volte a ser exibido o mais rapidamente possível e que fique muito tempo em cartaz.

No complemento da ficha técnica, o poeta Geraldo Carneiro assina, como de hábito, maravilhosa tradução, bem ao seu estilo, mesclando erudição e humor. A destacar também as preciosas colaborações de Daniella Visco (direção de movimento), Carol Lobato (figurino), Derô Martin (efeito especial), Mauricio Grecco (arte e identidade visual) e Thiago Ristow (projeto gráfico).

UMA ILÍADA - Texto de Lisa Peterson e Denis O'Hare. Tradução de Geraldo Carneiro. Direção e interpretação de Bruce Gomlevsky. Teatro I do CCBB. Quarta a segunda, 19h












segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Prêmio Cesgranrio de Teatro 2015
Indicados do Segundo Semestre


Melhor Direção:

Marco André Nunes ("Caranguejo overdrive")

Marina Vianna e Diogo Liberano ( "A Santa Joana dos 

Matadouros")

Charles Möeller ("Kiss me, Kate")


Melhor Ator:

Bruce Gomlevski ("Uma Ilíada")

Mateus Macena ("Caranguejo overdrive")

Renato Carrera ("O Homossexual")


Melhor Atriz:

Ana Paula Secco ("O Pena Carioca")

Letícia Isnard ("Marco Zero")


Melhor Espetáculo:

"Kiss me, Kate"

"Caranguejo overdrive"

"A Santa Joana dos Matadouros"


Melhor Cenografia:

Paulo de Moraes e Carla Berri ("Inútil a Chuva")

Bia Junqueira ("A Santa Joana dos Matadouros" e "Santa")


Melhor Iluminação:

Maneco Quinderé ("Inútil a Chuva")

Paulo César Medeiros ("A Santa Joana dos Matadouros")

Renato Machado ("O Homossexual")


Melhor Figurino:

Carol Lobato ("Kiss me, Kate")

Antonio Guedes ("O Homossexual" e "O Pena Carioca")


Melhor Texto Nacional Inédito:

"Caranguejo overdrive" (Pedro Kosovski)

"Sexo neutro" (João Cícero)

"O Narrador" (Diogo Liberano)


Categoria Especial:

Bia Radunski - pela importância da curadoria no Espaço Sesc.

Claudio Botelho - pela versão brasileira de "Kiss me, Kate".

Claudio Lins - pela adaptação da obra de Nelson Rodrigues para a linguagem do musical.


Melhor Direção Musical:

Nando Duarte (SamBra- o musical")

Marcelo Castro ("Kiss me, Kate")

Marcelo Alonso Neves ("Amargo Fruto")


Melhor Ator em Musical:

José Meyer ("Kiss me, Kate")

Thelmo Fernandes ("O beijo no asfalto")


Melhor Atriz em Musical:

Alessandcra Verney ("Kiss me, Kate")

Laila Garin ("O beijo no asfalto")

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quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Teatro/CRÍTICA

"Kiss me, Kate - O beijo da megera"

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Obra-prima de Cole Porter em versão imperdível



Lionel Fischer



Ator protagonista e dono de uma companhia teatral, Fred Graham está remontando "A megera domada", de Shakespeare. Mas enfrenta muitos problemas, sendo um deles a conturbada relação com sua ex-esposa Lili Vanessi, no momento noiva de um general. Outra questão, e é ela que dispara a trama, diz respeito a uma dívida de jogo contraída pelo galã Bill em nome do patrão - dois gangsteres aparecem no teatro para cobrar a dívida e não se convencem de que não foi Graham quem perdeu o dinheiro no cassino. Este, então, propõe um acordo aos marginais: se esperarem até o final de semana, a dívida será paga com a bilheteria de "A megera domada". Mas, para isso, a peça precisa permanecer em cartaz e Lili Vanessi se mostra disposta a ir embora... 

Eis, em resumo, o enredo de "Kiss me, Kate - O beijo da megera" (Teatro Bradesco), de autoria de Cole Porter (música e letras) e Sam e Bella Spewack (texto). Charles Möeller assina a direção do espetáculo, com Claudio Botelho respondendo pela versão brasileira e supervisão musical. 

No elenco, José Mayer (Fred Graham/Petruchio), Alessandra Verney (Lilli Vanessi/Kate), Fabi Bang (Lois/Bianca), Guilherme Logullo (Bill/Lucentio), Chico Caruso (gangster 1), Will Anderson (gangster 2), Léo Wainer (General Harrisson Howell), Jitman Vibranovsli (Batista), Ruben Gabira (Paul), Ivanna Domenyco (Hattie), Igor Pontes (Grêmio), Leo Wagner (Hortêncio), Marcel Octavio (Ralph), Beto Vandesteen (Pops), com os demais interpretando integrantes da companhia teatral - Augusto Arcanjo, Giselle Prattes, João Paulo de Almeida, Lana Rhodes, Mariana Gallindo, Patricia Athayde, Thiago Garça e Tomas Quaresma. 

Um dos grandes achados do presente musical diz respeito à ideia de se criar uma trama em que realidade e ficção se misturam. No original de Shakespeare, "A megera domada", Petruchio enfrenta (e vence) o desafio de domar a intempestiva Catarina. Aqui a protagonista Lilli Vanessi exibe temperamento muito parecido, o que a leva a travar com Graham embates semelhantes aos dos personagens shakespeareanos. 

Mas é claro que só isso não justificaria o enorme êxito de "Kiss me, Kate", o mais celebrado musical de Cole Porter, vencedor do Prêmio Tony de 1949. Além do ótimo libreto de Sam e Bella Spewack, as canções de Porter são simplesmente deslumbrantes, algumas verdadeiras obras-primas, como "I hate men" ("Homens, não") e "Where is the life that late i led?" ("Cadê a vida que eu vivi?"). E a lista de méritos prossegue, e é extensa.

Com 25 anos de parceria, Charles Möeller e Claudio Botelho chegam ao seu 36º espetáculo. E aqui cabe uma breve reflexão. Já escutei, inúmeras vezes, invejosos de plantão alegarem que a dupla faz muito sucesso porque sempre recebe vultosos patrocínios. Em primeiro lugar, cumpre ressaltar que vultosos patrocínios não garantem nenhum sucesso; e se é verdade que Botelho e Möeller têm recebido vultosos patrocínios, mais do que merecidos, não custa nada recordar que seus primeiros espetáculos - "As malvadas" (1997), "O abre alas" (1998) e "Cole Porter - Ele nunca disse que me amava" (2.000) - foram realizados com modestos recursos. Ou seja: começaram com muito pouco e foram progressivamente conquistando a confiança e o apoio de investidores privados e de órgãos governamentais. Será que isso configuraria algum sacrilégio? Para os que acham que sim, sugiro que comecem a fazer análise, de preferência com um profissional da escola lacaniana e no mínimo cinco vezes por semana. Digressão feita, voltemos ao espetáculo. 

Como de hábito, a direção de Möeller é impecável, precisa no tocante aos tempos rítmicos, plena de marcações diversificadas, imprevistas e criativas, e de intensa e permanente comunicação com o público. Quanto a Botelho, não há ninguém neste país com sua capacidade de traduzir versos e, mais do que isso, encaixá-los no universo de nossa língua de forma a sugerir que não poderiam ser traduzidos de outra forma - os que dominam o idioma do fabuloso bardo e mantêm salutar convivência com o português haverão de concordar comigo.

Com relação ao elenco, José Mayer exibe aqui sua melhor performance em musicais. Ator completo, Mayer canta maravilhosamente e consegue materializar todos os conteúdos propostos pelos autores, afora evidenciar, como sempre, seu imenso carisma. Alessandra Verney também está estupenda, tanto nas passagens cantadas como naqueles em que o texto predomina. Chico Caruso e Will Anderson compõem uma dupla de gangsteres irresistível, cabendo ainda destacar as performances vocais de Ivanna Domenyco e Fabi Bang, e os excelentes dotes de bailarino de Ruben Gabira. Com relação aos demais, gostaria de enfatizar a preciosa colaboração de todos, sem a qual o espetáculo jamais teria chegado ao patamar de excelência que exibe.

Na equipe técnica, destaco com o mesmo entusiasmo as preciosas contribuições de todos os profissionais envolvidos nesta imperdível empreitada teatral - Marcelo Castro (Direção musical e regência), Rogério Falcão (cenografia), Carol Lobato (figurinos), Alonso Barros (coreografia), Marcelo Claret (design de som), Paulo Cesar Medeiros (iluminação), Claudia Costa e Claudio Botelho (tradução dos diálogos) e Beto Caramanhos (visagismo), cabendo também ressaltar a maravilhosa performance dos músicos Kelly Davis (violino 1), Luiz Henrique Lima (violino 2), Saulo Vignoli (cello), Zaida Valentim (teclado 1), Gustavo Salgado (teclado 2), Raphael Nocchi (piccolo, clarineta, flauta e sax alto), Gilson Balbino (clarineta e sax alto), Whatson Cardozo (clarone, clarineta e sax barítono), Matheus Moraes (trompete e flügel), Vítor Costa (trombone), Omar Cavalheiro (contrabaixo) e Marcio Romano (bateria e percussão).

KIS ME, KATE - O BEIJO DA MEGERA - Músicas e letras de Cole Porter. Texto de Sam e Bella Spewack. Direção de Charles Möeller. Versão brasileira e supervisão musical de Claudio Botelho. Com José Meyer, Alessandra Verney e grande elenco. Teatro Bradesco. Sexta, 21h30. Sábado, 21h. Domingo, 20h.
    



quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Teatro/CRÍTICA

"O beijo no asfalto - O Musical"

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Surpreendente e oportuna montagem



Lionel Fischer



Um dos melhores e mais encenados textos de Nelson Rodrigues, "O beijo no asfalto" parte de um fato um tanto inusitado. Casado - e bem casado - com Selminha, Arandir está com o sogro Aprígio na Praça da Bandeira quando um lotação (na época, 1960, os ônibus eram assim chamados) atropela um homem. Arandir corre para socorrê-lo e o homem, já agonizante, lhe pede um beijo, ao que parece na boca. Arandir atende esse desejo. Só que o fato é testemunhado por Amado Ribeiro, repórter sem nenhum caráter que escreve para um jornal sensacionalista. A partir daí, e graças à perversa manipulação do ocorrido pelo repórter, a vida de Arandir e de toda a sua família entre em total colapso.

Eis, em resumo, o enredo da presente obra, aqui convertida em musical. Contando com direção de João Fonseca, "O beijo no asfalto - O Musical" está em cartaz no Teatro das Artes, após cumprir temporada no Teatro Sesc Ginástico. Idealizador do projeto e responsável pelas canções originais, às quais se mesclam outras muito conhecidas, Claudio Lins integra o elenco ao lado de Laila Garin, Gracindo Jr., Yasmin Gomlevsky, Thelmo Fernandes, Claudio Tovar, Jorge Maya, Janaína Azevedo, Gabriel Stauffer, Pablo Áscoli, Juliane Bodini, Ricardo Souzedo e Juliana Marins.

Muitos e relevantes são os temas aqui tratados por Nelson Rodrigues. Vamos a dois deles, começando pela ética jornalística. Do que vive Amado Ribeiro? De notícias. Mas como escreve em um jornal sensacionalista, notícias comuns não satisfazem o voraz apetite dos seus leitores, não vendem jornal, como ele próprio afirma. Então, ele não hesita em converter um ato de aparente misericórdia em algo capaz de destruir a vida de Arandir - e aqui cumpre ressaltar que, tanto naquela época como hoje, dois homens se beijando em público (mesmo que um esteja agonizando) constitui gravíssima ofensa à moral e aos bons costumes. 

Outra questão interessante diz respeito à hipocrisia. Por mais abjetos que sejam nossos impulsos, por mais espúrios que sejam nossos desejos, nada disso parece ter a menor importância se conseguimos simular que detemos o monopólio de todas as virtudes. Se conseguimos sugerir que somos como a límpida superfície de um lago, pouco importa que em sua profundeza se acumulem vastas camadas de lodo. O essencial é que este lodo jamais venha à tona. E caso venha, que se dê em âmbito privado, sem nenhuma possibilidade de se tornar público. Podemos estar com lama até o pescoço, mas se conseguimos manter limpas as unhas nas pontas dos dedos...são os dedos que todos enxergam. A alma, jamais - ou quase nunca.  

Obra impecável do ponto de vista dramatúrgico, exibindo personagens maravilhosamente construídos, diálogos brilhantes e uma ação que prende a atenção do espectador desde o início, "O beijo no asfalto " não perdeu nenhuma de suas muitas qualidades ao ser transformada em musical. São excelentes as composições de Claudio Lins e muito apropriadas as inserções de outras tantas canções muito conhecidas.

Com relação ao espetáculo, em sua maior parte a direção de João Fonseca exibe alguns dos muitos predicados do ótimo encenador - marcas diversificadas e criativas, precisão dos tempos rítmicos e grande comunicação com a plateia. Minha única ressalva diz respeito não ao humor com que são trabalhadas muitas passagens - afinal, estamos diante de uma tragicomédia -, mas a uma deslocada visão humorística de algumas cenas inegavelmente dramáticas. Vamos apenas a dois exemplos.    

Selminha é levada à força pelo policial Aruba para uma casa obscura. Ali é interrogada com virulência por Amado Ribeiro e pelo delegado Cunha, que dela pretendem obter a confirmação de algo que lhes interessa. Pois bem: lá pelas tantas, o excelente ator Jorge Maya, que interpreta Aruba, reaparece do nada vestido como uma espécie de entidade em delírio carnavalesco. A plateia ri, naturalmente. Mas tal riso esvazia por completo a dramaticidade desta passagem, que culmina com a humilhação imposta por Amado e Cunha a Selminha, obrigada a ficar nua e ameaçada, como mais tarde fica-se sabendo, de ter os seios queimados com cigarro. 

Outro momento de discutível humor - aí não sei se proposital ou por ter sido mal concebido - ocorre durante uma tensa discussão entre Arandir e Selminha, já perto do final. Tentando demonstrar a pureza de sua atitude, Arandir evoca a cena do beijo; nesse momento entra Pablo Áscoli, que já interpretara o Morto, e se atira aos pés de Arandir. Mas a maneira como o ator entra e em seguida se joga ao solo (evidentemente que aprovadas pela direção) provocam intenso riso na plateia, esvaziando por completo a dramaticidade da cena. 

Com relação ao elenco, Claudio Lins trabalha muito bem as principais características de Arandir, que são sua pureza e integridade. Laila Garin vive de forma intensa a apaixonada e frágil Selminha. Na pele de Aprígio, Gracindo Jr. exibe desempenho sóbrio e extremamente digno. Yasmin Gomlevsky torna verossímel a intensa paixão de Dália pelo cunhado Arandir. Amado Ribeiro tem a abjeção de seu caráter extremamente valorizada por Thelmo Fernandes. Na pele do delegado Cunha, Claudio Tovar exibe bons momentos, mas acredito que o personagem, de uma maneira geral, devesse expressar mais virulência do que humor. 

Jorge Maya, por razões que desconheço, impõe comicidade a praticamente todas as suas intervenções - algumas se justificam, mas não todas. Janaína Azevedo está irrepreensível na pele da alcoviteira vizinha D. Matilde. Gabriel Stauffer (Werneck), Pablo Áscoli (o Morto e outras participações bem realizadas), Juliane Bodini (Viúva), Ricardo Souzedo (Pimentel e Comissário Barros) e Juliana Marins (D. Judith e Vizinha) colaboram de forma eficiente para o bom êxito do espetáculo.

No que diz respeito ao canto, todos se saem muito bem neste quesito, mas torna-se impossível não conferir especial destaque a Laila Garin (impecável tanto nas canções mais apaixonadas quanto naquelas em que a dramaticidade predomina), Janaína Azevedo (brilhante ao interpretar a canção da vizinha fofoqueira) e, creio que para surpresa geral da nação, Gracindo Jr (o ator exibe não apenas bela voz, mas interpretações em total sintonia com as canções escolhidas para o personagem).

Na equipe técnica, considero irrepreensíveis as colaborações de todos os profissionais envolvidos nesta surpreendente e oportuna empreitada teatral - Claudio Lins (trilha original), Délia Fischer (direção musical), Claudio Tovar (figurinos), Nello Marrese (cenografia), Luiz Paulo Nenén (iluminação), Sueli Guerra (direção de movimento), Carlos Esteves (engenheiro de som), Heberth Souza (programações eletrônicas e orquestrações), Augusto Ordine (arranjos vocais), Janaína Azevedo (preparação vocal) e Marcia Elias (visagismo). 

Com relação aos excelentes músicos, cito a todos, pois não sei particularizar os que tocaram na sessão de ontem - Evelyne Garcia/Heberth Souza (piano e regência), Matias Correa/Pedro Aune (baixo), Claudio Lima (bateria e percussão), Wanderson Cunha/Bebeto Germano (trombone) e Alex Freitas/Raphael Nocchi (sax, clarinete e flauta).

O BEIJO NO ASFALTO - O MUSICAL - Texto de Nelson Rodrigues. Direção de João Fonseca. Com Claudio Lins, Layla Garin e grande elenco. Teatro das Artes. Quinta a sábado, 21h. Domingo, 20h.