quarta-feira, 2 de março de 2016

El dia que me quieras

                                                                           de José Ignácio Cabrujas

Tradução e adaptação
de Antonio Mercado




PERSONAGENS:
(por ordem de entrada em cena)
Luíza Ancízar
Pio Miranda
Elvira Anzízar
Matilde Ancízar
Plácido Ancízar
Alfredo Le Pera
Carlos Gardel

1º ATO

(A sala e o pátio das Ancízar ao meio- dia. Um relógio soa e é a única exatidão do local. O resto é árabe e fantasioso: jarrões dourados, borboletas de louça, pastorzinhos pálidos, lótus, bambus e quinquilharias. Maria Luíza está sentada num sofá austríaco. A seu lado, Pio Miranda observa o ralo do pátio)

Maria Luíza - E Stalin?

Pio - Stalin reúne todos eles no grande salão de conferências, à esquerda da porta principal, como quem vai para a sala de jantar de Ivan, o Terrível. Stalin aguarda e entra Bukárin, entra Zinoviev, entra Kamenev e Trotski e os velhos bolcheviques, tensos, compenetrados, solenes. Rakovski tosse.

Maria Luíza - Quem é Rakovski, Pio?

Pio - Rakovski é o comissário da Armênia, conhecido como o “Grande Urso”. Rakovski tosse. Stalin olha para ele. Rakovski não tosse. Stalin se levanta, sombrio, essencial, profundo. E é aquele momento de angústia. E Stalin diz: “Camaradas: Vladimir Ilich Lênin acaba de falecer”. “O quê?”, diz Kamenev, um quê sufocado, terrível. E a cabeça se move...

Maria Luíza - A cabeça de quem?

Pio - A cabeça de Kamenev. Bukárin se levanta e vai até a famosa janela da czarina, como era chamada no tempo da opressão. Zinoviev olha para ele. Stalin olha para ele e Trotski pergunta: “O que o camarada Bukárin está fazendo na famosa janela da czarina?”

Maria Luíza - Estava chorando.

Pio - Estava chorando. Os grandes olhos de Bukárin repletos de lágrimas. Lênin partira para sempre naquele dia 21 de janeiro de 1924. Então Stalin baixou a cabeça, pela única vez até hoje, e disse: “Camaradas, como é que se preenche um vazio?”

Maria Luíza - Como é que se preenche um vazio?

Pio - Aí entra Alliluyeva, a mulher de Stalin, com o  samovar da tarde.

Maria Luíza - Ah, nada como um chá de samovar! Será que um dia vamos ter um, Pio?

Pio - Acho que sim. Senão, eles deixam a gente usar o samovar do colcós.

Maria Luíza - Tem neve lá, não é, Pio? Deve ser tão frio...

Pio - No começo. Depois a gente acostuma.

Maria Luíza - Vou falar com a Elvira hoje.

Pio - Por que não esperamos a resposta de Romain Rolland?

Maria Luíza - Ela não sabe quem é Romain Rolland. A gente chega em Moscou e fala a verdade. Para que precisamos de uma carta de Romain Rolland? Em Moscou é diferente, não é? Não tem tanta burocracia como aqui. A gente vai ao Kremlin e fica lá junto ao túmulo de Lênin. Acaba chegando alguém. Chega o Rakovski, o Zinoviev, o Kameniev, alguém. Quem sabe o próprio Stalin. Então a gente bota as cartas na mesa: “Olha, Stalin, nós viemos de Caracas, Pio Miranda e Maria Luíza Ancízar, muito prazer”. O que pode acontecer, Pio?

Pio - Ele não vai entender.

Maria Luíza - Por que não?

Pio - Porque o camarada Stalin não fala espanhol.

Maria Luíza - Talvez o Zinoviev ou o Kameniev.

Pio - São pessoas muito ocupadas, Maria Luíza. Você não pode ir atrás deles assim, sem mais nem menos, e dizer que está chegando de Caracas.

Maria Luíza - Por que? Eles não sabem onde é Caracas?

Pio - Claro que sabem. O camarada Stalin tem uma visão global do planeta! Não é esse o problema. E além do mais, é impossível entrar num país desse jeito. Existem alfândegas. Se existem aqui, neste equívoco da História, como não vão existir na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas? Foi justamente por isso que escrevi a Romain Rolland. Porque é um humanista, unha e carne com o camarada Stalin e fala grosso na Internacional Socialista. Entrar no Kremlin como quem entra na casa da sogra, não é a mesma coisa que levar uma carta de Romain Rolland dizendo: “Apresento-lhes Pio Miranda e Maria Luíza Ancízar, de Caracas, que aí vão com a intenção de participar da vida colcosiana, dentro do plano quinquenal, etc, etc. (Entra Elvira Ancízar. Chega da rua)

Elvira - Matilde já chegou?

Maria Luíza - Ainda não.

Elvira - Você viram as faixas? Meu Deus, é ver todas aquelas faixas e bandeiras e depois morrer! Não há mais uma flor na cidade inteira. Esta noite o Municipal vai ser puro perfume de magnólia. E ele veio de preto, imaginem! Mas nem uma gota de suor no corpo inteiro. Aquela testa limpa e todo mundo comentando: “Ele não sua, ela não sua!”

Pio - Lênin também não suava.

Elvira - Lênin está embalsamado. (Entra Matilde)

Matilde - Já sabem?

Elvira - Que ele não sua?

Matilde - Não sua!

Elvira - Acabei de contar.

Matilde - E a história do trem?

Elvira - O que é que houve no trem?

Maria Luíza - Matilde, depois você conta. Agora eu tenho que conversar com a Elvira.

Elvira - O que é que houve no trem?

Matilde - Ele subiu no trem. Era um vagão só para ele. O povo apinhado, assim de gente, pedindo uma canção.

Elvira - Selvagens.

Matilde - Então ele sorri, mostra a garganta e diz: “Esta noite, esta noite”. Aliás, aquela história de ouro no dente é mentira. Os dentes são perfeitos, uma dentadura impecável.

Pio - Quem viu a dentadura dele?

Matilde - Vox populi.

Elvira - É que esta gentinha não cansa de inventar bobagens. Faz anos que eu repito: é mentira isso do dente, como é mentira a história do bordel da mãe dele, é calúnia que o pai era maricas, como é mentira isso do Uruguai, a pior mentira de todas!

Pio - E por que ele não pode ser uruguaio?

Elvira - Porque está na cara que não é uruguaio. Ele irradia o Mediterrâneo, Toulouse, no tom da voz, no vinco das calças, no talhe do paletó, e você logo vê: isso não é uruguaio.

Pio - O Uruguai é um país culto.

Elvira - Mas a duras penas. Tem muito pampa. E além disso, o nome: Gardel, que em francês arcaico quer dizer “guardião”.

Matilde - Queriam arrancá-lo pela janela do vagão. E ele dizia: “Acabei de chegar de uma longa viagem e gostaria de me transformar em dez mil pessoas para apertar a mão de todos vocês e abraçar o general Gómez”.

Maria Luíza - Matilde, eu vou embora.

Pio - Quanto é que estão pagando a ele?

Elvira - E que interessa quanto estão pagando? Não estão pagando nada. Quanto é que estão pagando àquele russo de bigode, o Stalin?

Pio - Trezentos rublos. E ele devolde duzentos ao comitê central. O dinheiro não é fundamental na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Elvira - Meus parabéns.

Matilde - Daí a locomotiva se pôs em moviento, então ele fechou os olhos e cantou “Amores de estudiante” e quando disse “amores”, ele olhou para mim!

Maria Luíza e Elvira - Como é?

Matilde - Eu sei que olhou para mim. Ele, na sua janela do trem, e eu ali. Mas eu senti que “Amores” era para mim!

Elvira - Ele veio sozinho?

Matilde - Com o sr. Le Pera.

Elvira - E como é esse Le Pera?

Matilde - Não vi direito. Era tanta gente.

Elvira - E eu na agência do correio, vendendo selos como um judeu errante. Vinte anos destacando os selos no picote exato, sem faltar um só dia ao trabalho. (A Pio)  E você falando de marxismo. Marxismo é botar uma bomba no correio e ficar na esquina vendo cair do céu aquela chuva de tijolos com pedaços de carne do superintendente Bartorelli.

Pio - E quem disse que não?

Elvira - Você e a sua Internacional Comunista! Onde está essa Internacional? Não a vejo em lugar nenhum. Vejo é o Bartorelli me negando a licença para ir à estação. Isso é que é a exploração do homem pelo homem, no guichê do correio! Gardel chega, “Mi Buenos Aires Querido”, “Mano a Mano”, “Melodía de Arrabal”, “Volver”, “El Día Que me Quieras”, o supra-sumo do tango, presidentes que dançam tango, reis que dançam tango, gente de verdade lá do exterior, Gardel, Le Pera, a Broadway, e eu picontando selos na agência do correio. O mundo é uma merda.

Maria Luíza - Elvira!

Elvira - É hoje o dia. Disseram: Gardel vai chegar! E eu disse: é mentira. Vai chegar pra que? Por que ele precisa vir? E agora ele está aqui. A gente quer ver a História e acaba sempre ouvindo.

Maria Luíza - Mas o que é que o Pio tem a ver com...

Elvira - E o Pio já teve alguma coisa a ver com o quê? Eu gostaria muito que um dia você me explicasse com o que é que o Pio tem a ver. Quando mamãe estava agonizando, na cama, antes de dar o último suspiro, me disse, como irmã mais velha: “Elvira, ou esse homem se define de uma vez por todas com Maria Luíza, de véu e grinalda na Santa Madre Igueja, ou eu não vou ter sossego no túmulo”.

Pio - Elvira, acho que já expliquei mais de mil vezes as razões de minha conduta nesta casa.

Elvira - Você é o rei da explicação. É capaz de explicar até uma valsa a um surdo, da introdução ao tcha-tcha-bum do último compasso.

Maria Luíza - Elvira...Pio e eu vamos embora hoje.

Matilde - Para onde, tia Maria Luíza?

Maria Luíza - Para um colcós na Ucrânia.

Matilde - O que é um colcós na Ucrânia?

Maria Luíza - É um lugar no campo, uma espécie de fazenda coletiva.

Matilde - Um lugar russo?

Maria Luíza - Pio e eu estamos esperando uma carta de Romain Rolland, o autor de “Jean-Christophe”.

Elvira - Mas quem é Romain Rolland?

Pio - Há um mês escrevemos para ele, um famoso escritor francês, muito admirado não só pelas suas obras, mas também por sua luta em favor da paz e da amizade entre os povos.

Elvira - E o que é que um escritor francês tem a ver com a vida da minha irmã?

Maria Luíza - Elvira...eu quero vender a casa.

Elvira - Vender nossa casa? A casa dos Ancízar? A quem? Ao Romain Rolland?

Pio - Não. Romain Rolland mora em Paris e não tem o menor interesse nesta casa.

Maria Luíza - Vender a casa a quem pague um preço justo.

Elvira - E quem vai pagar um preço justo por esta casa? E o que vamos fazer com Matilde?

Matilde - Tia Maria Luíza, por que você tem que ir para tão longe, com tanta agricultura por aqui?

Elvira - Essa é a terrível conseqüência dos namoros longos. As pessoas ficam ociosas e onanistas de tanto pensar e cismam de acabar a vida na Ucrânia ou em qualquer país de camelos. Dez anos dessa baboseira comunista e você já não tem lei, nem respeito, nem família! Vender a casa! É a única coisa que lhe vem à cabeça!

Maria Luíza - Acho bom te lembrar, Elvira, que na mesma cama e na mesma agonia, mamãe falou que a casa seria vendida quando uma de nós precisasse. E não admito mais nenhuma ofensa à pessoa do meu noivo. Porque se eu quiser passar o resto da minha vida com este homem nas estepes soviéticas, é uma decisão que me pertence, como pertence a vida a quem já tem trinta e quatro anos.  

Pio - Maria Luíza...

Maria Luíza  (À Elvira) - Não estou botando você para fora de casa.

Elvira - Era só o que me faltava.

Maria Luíza - Mas decidi tentar a vida em outro lugar e ninguém vai me impedir!

Pio - Quero esclarecer que essa é uma decisão de Maria Luíza e que de forma alguma penso em tocar num único rublo de sua herança!

Elvira - Não acredito numa única palavra do que você diz. Porque, pra começo de conversa, a idéia de ir para a Ucrânia é sua. Faz trinta e quatro anos que conheço minha irmã, desde a água fervendo na hora do parto até hoje e ela nunca me falou de colcós na Ucrânia, nem de bolcheviques, nem da revolução de outubro. Esse interesse pelo estrangeiro só começou depois que você chegou com essa lenga-lenga de materialismo.

Pio - Lenga-lenga? Eu partilho as minhas idéias com a minha camarada! Acredito num mundo onde se partilham as idéias com a camara mulher! E me oponho às braguilhas solitárias e ao macho quinzenal, em nome da humanidade nova! O dinheiro de Maria Luíza não tem nada a ver com este assunto. Planejei com ela a possibilidade de irmos para a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas porque quero que meus filhos nasçam dentro da verdade proletária e não nesta lata de lixo do imperialismo. Mas em nenhum momento - juro pela foice e o martelo e pela imaculada Rosa de Luxemburgo - me passou pela cabeça aceitar um único rublo de propriedade de Maria Luíza!

Matilde - Mas por que não falamos disso amanhã?

Elvira - Matilde, já para o quarto.

Matilde - Gardel chegou! Vai cantar no Municipal esta noite! Será que vocês não entendem? (Entra Plácido Ancízar)

Plácido - Já chegou ao Hotel Majestic!

Elvira - Quando?

Plácido - Onze malas! Há uma multidão no lobby do hotel: o governador, o reitor, a Academia de História e até o arcebispo, furioso porque levou um beliscão na bunda. E o pessoal explicando: “Não senhor, foi sem querer, não estamos em Sodoma”.

Matilde - E o Gardel?

Plácido - No banheiro, com Le Pera. Quando nós entramos no hotel, o sr. Pimentel e eu, representando a empresa, a polícia não queria nos deixar passar. Aí o Pimentel disse: “O senhor Gardel vai cantar no ‘meu’ teatro esta noite. O sr. Gardel está me esperando”.

Maria Luíza - Pio, vamos lá fora.

Plácido - Que é que houve?

Maria Luíza - Nada.

Plácido - Mas eu trouxe as entradas!

Maria Luíza - Esta noite eu não vou.

Plácido - Por que?

Elvira - Maria Luíza!

Maria Luíza - Não vou e pronto!

Pio - Faço constar que não influí na decisão dela!

Matilde - Tia Maria Luíza!

Maria Luíza - Venda a minha entrada. Não estou com vontade de ir.

Plácido - Mas eu tive que suplicar ao seu Pimentel para conseguir as três entradas!? O que é que eu vou dizer a ele?

Maria Luíza - Nada. Dê a um pobre. Ou então venda. Vamos, Pio.

Pio - Pelo menos você pode ganhar a mais valia. Boa tarde. (Saem Maria Luíza e Pio)

Plácido - Tia Maria Luíza! O que é que eu faço com a entrada?

Elvira - Deixa ela. Levantou de ovo virado. Coisas de mulher.

Plácido (Saindo) - Tia Maria Líza! Consegui para você na sexta fila! Você tem que ir!

Matilde - Tia Elvira.

Elvira - Melhor não se meter.

Matilde - Podíamos ir ao Majestic.

Elvira - Para quê?

Matilde - Para ver.

Elvira - Vender a casa...você ouviu?

Matilde - Tia, por que você não fala com ela?

Elvira - E ela vai me responder o quê? Ucrânia! União das Repúblicas Socialistas Soviéticas! Nada mais interessa, porque agora ela é comunista. Como se soubesse o que é um pobre, como se tivesse trabalhado algum dia! Hipócrita!

Matilde - Tia Elvira...

Elvira - Mil vezes hipócrita!

Matilde - Mas não é a felicidade dela? Porque eu a vejo tão leve, como se flutuasse no ar.
Elvira - Eu conheço a felicidade das mulheres. Ela não continua virgem? Então que besteira de felicidade é essa? A felicidade da Santa Rosa de Lima, que ficava contente quando via um canário?

Matilde - Mas como tem certeza de que ela é virgem, tia?

Elvira - Porque esse sujeitinho é incapaz de ser macho em território nacional. Até a biologia dele só funciona na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Pois ele não falou da imaculada Rosa de Luxemburgo? Quem garante que essa tal de Rosa de Luxemburgo queria mesmo ser imaculada?

Matilde - Quem é Rosa de Luxemburgo?

Elvira - Sei lá! Felicidade...Quando me casei com Raimundo Galarraga, tive pelo menos uma alegria que foi um pouco além dos canários de Santa Rosa. Era químico, o Raimundo. Ou pelo menos dizia que era químico. Na verdade, fabricava um perfume horrendo, enjoativo, que as mulheres da zona compravam aos litros.

Matilde - E fugiu para Trinidad.

Elvira - Com uma negra chamada Jenniffer. Inventou que o governo o perseguia e durante uns três anos eu fiquei mandando dinheiro para ele, lá para o número 18 da Caimán Street. Quando descobri a verdade, tive vontade de me deitar para sempre com um círio nas mãos, de tão santa e tão burra. Felicidade...um mínimo de decência. Isso é felicidade.

Matilde - Como naquele filme do Gardel, “Em día que me quieras”, quando Rosita Moreno pega tuberculose galopante e o lenço se enxarca de sangue cada vez que ela tosse, e a amiga dela se preocupa e diz: “Aura, o que é que você tem? O que está acontecendo com você” e Rosita Moreno responde: “Nada, nada”, com uma voz de navio que se afasta e de horizonte que se desfaz. “Nada, nada” e a amiga de Rosita Moreno, desesperada porque o lenço está molhado de sangue, implora que ela conte a verdade e diga ao Gardel que é sangue, sim; que é agonia e cruz e calvário...lembra, tia Elvira?

Elvira - Sim.

Matilde - E a Rosita Moreno faz de tudo para que ele não perceba.

Elvira - É, era assim mesmo. Mas por que?

Matilde - Um ano depois, Gardel volta àquela casa. E vê os móveis cheios de pó e o colchão enrolado no canto.

Elvira - Nunca reparei no colchão.

Matilde - É que nessa hora ele cantava “Sus ojos se cerraron”.

Elvira - “Por que tus alas...” Com que vestido você vai hoje à noite?

Matilde - O branco de lacinhos azuis. Era um sacrifício tão grande...como se Rosita Moreno fosse uma pomba que vai virar canja...

Elvira - Você devia ir de preto. Que mania de usar lacinho e bolinha o tempo todo! Você já tem 25 anos!

Matilde (Cantando) - “...quise olvidarla y más pudo la muerte”.

Elvira (Chorando) - É “obrigarla, não olvidarla”. Taí o disco! (Sai para o quarto. Matilde aciona o gramofone e se escuta “Sus ojos se cerraron”. Entra Plácido)

Plácido - Ele está aqui, Matilde.

Matilde - Já deve ter saído do banheiro, não é?

Plácido - Que banheiro?

Matilde - Você não disse que ele tinha se trancado num banheiro com o Le Pera?

Plácido - Sim, mas depois saiu.

Matilde - E o que eles foram fazer lá? Mijar?

Plácido - Falei com ele, Matilde.

Matilde - Onde?

Plácido - Na cozinha do Majestic. O seu Pimentel e eu entramos. Ele ficou me olhando e disse: “Como as pessoas daqui são estranhas”.

Matilde - Assim mesmo, Plácido?

Plácido - Desse jeito.

Matilde - “Como as pessoas daqui são estranhas”. E que mais?

Plácido - Aí eu disse: “Olhe, Gardel, o sr. Pimentel aqui, como empresário, e este seu servidor, queremos lhe perguntar se está bem acomodado”.

Matilde - Ele é alto, Plácido?

Plácido - Matilde: quando o vi, minha virilidade teve um choque. Ele é como nos filmes e tem uma espécie de luz que se irradia dele.

Matilde - E o le Pera?

Plácido - Le Pera no meio das panelas, vigiando, provando o molho, mordiscando. Foi aí que eu lhe disse: “Olhe, Gardel, já que está bem acomodado, talvez queira verificar as instalações do teatro, o camarim, as coxias, as cortinas, o telão pintado, a táboa que range, o microfone, os alto-falantes. Porque me deu uma bruta vergonha de tudo, Matilde. Pimentel, mudo. As cozinheiras do Majestic, como se estivessem vendo um fantasma! Aí o Gardel me disse: “Como é o seu nome?” E eu respondi: “Plácido Ancízar, neto do general Ancízar”. “Plácido Ancízar”, respondeu ele, “se você acha que está tudo bem, para mim está tudo bem”. E eu senti a História Universal do ser humano, Matilde, desde o massacre de Tróia até a chegada de Colombo. Era como se ele devolvesse o meu nome embrulhado em cultura!

Matilde - “Se você acha que está tudo bem, para mim está tudo bem”. (Entra Pio)

Pio - Matilde, onde está Elvira?

Matilde - Ela sentiu-se mal e foi para o quarto, Pio. Por que você não deixa para falar com ela amanhã, depois do espetáculo?

Pio - Para mim, Gardel não é um divisor de águas da História.

Plácido - Mas é um homem de idéias avançadas, um homem do povo. Com oito anos já vendia mate nas ruas de Montevidéu. Tenho certeza que ele simpatiza com a Internacional Comunista.

Pio - Matilde, diga a Elvira que preciso falar com ela e que Maria Luiza está lá na calçada me esperando.

Matilde - Chegou a carta de Romain Rolland? Já vou, já vou. (E sai. Plácido guarda  o disco de Gardel)

Plácido - Vai mesmo levá-la embora, Pio?

Pio - Já me viu alguma vez  forçando sua tia nesta casa?

Plácido - Eu compreendo os ideais, Pio. Entendo que o pobre sofre e se fode. E sei que existe gente que tem demais e gente que tem de menos e que a humanidade precisa de uma reviravolta, de umas cabeças cortadas, uma revolução geral! Tudo isso está gravado na minha cabeça, Pio, e também a mais valia desse negócio do Pimentel, que bota o capital e me rouba o trabalho, e mais as cinco leis da dialética e o desvio de Trotsky, o imperialismo e a luta de classes. Eu não era nada, Pio, antes de você me dar essa luz. Hoje, vejo o Pimentel no escritório e penso: Ah, Pimentel, e me preparo, na moita, para o dia da coisa. Quando Pimentel me vir entrando no escritório, em 1947, com a metralhadora na mão.

Pio - Como é que você sabe que vai ser em 1947?

Plácido - Sei lá. Sempre achei que ia ser em 1947.

Pio - Vamos colocar a bandeira vermelha no capitólio.

Plácido - Coma foice e o martelo. Stalin também virá, não é?

Pio - O camarada Stalin virá nos visitar.

Plácido - Como Gardel.

Pio - Nunca se verá tanta gente em Caracas. Nessa manhã, vamos nos encontrar em frente ao congresso e se me for dada a honra, vou te entregar o cordel da bandeira vermelha para que você mesmo a hasteie no mastro.

Plácido - Sério? (Entra Elvira)

Elvira - Matilde está te chamando na cozinha, quer mais detalhes do Gardel.

Plácido - Elvira, diga a ele para te explicar o dia da bandeira, para falar de 1947. (E sai)

Pio - Desculpe ter discutido e peço desculpas.

Elvira - Não há porquê.

Pio - Pedi a Maria Luíza para vir comigo hoje mesmo. Vamos procurar um lugar para ficar e depois vamos embora.

Elvira - Me avise para onde devo mandar a cama dela!

Pio - Não me interessa a cama de Maria Luíza, nem seus pertences.

Elvira - Muito me alegra.

Pio - Agora faça o favor de me ouvir, porque vou falar deste assunto pela última vez. Neste meus quarenta e tantos anos de vida já fui professor primário, tipógrafo, secretário de um comprador de esmeraldas, espírita, seminarista, rosacruz, maçon, ateu, livre-prensador e comunista. E agora vou lhe explicar porque sou comunista! Quando era menino, minha santa mãe, Ernestina, viúva e enfermeira aposentada do Hospital dos Leprosos, se enforcou no quarto. E sabe como ela se enforcou? Empilhou no chão Os Miseráveis, O Conde de Monte Cristo,  A Dama das Camélias, O Crime do Padre Amaro e uma edição ilustrada da Bíblia. A desgraçada pulou da pilha de livros e não me deixou nem uma merda de bilhete explicando por quê. Simplesmente se atirou do alto do melodrama romântico com uma fúria inexplicável. Hoje até parece piada e eu mesmo já me peguei rindo, às vezes, ao contar o caso. Mas desde esse dia passei a ter medo! Fazia xixi na cama de puro medo! Não conseguia atravessar o pátio depois das onze, de medo de encontrá-la debaixo do limoeiro! Você vai perguntar: medo de quê, porra? Medo de que ela me explicasse por quê tinha feito aquilo. Medo de acabar na mesma viga, debaixo do mesmo teto. Li todos os livros daquele patíbulo, procurando uma explicação qualquer! Páginas e páginas...e nada! Entrei para o seminário arquidiocesano e comecei a me masturbar todas as noites. Um dia me pegaram com a imagem de Santa Rita. E me tacharam de louco e de pocesso! Então deixei de acreditar em Deus. Casto, como é que eu podia acreditar em Deus, se a imagem de Santa Rita me provocava? Você não percebe que me expulsaram da vida?

Elvira - Bendito seja o Misericordioso.

Pio - Não existe um Senhor Misericordioso! Você está no mundo com suas mãos, com sua língua! Eu podia lhe dizer que sou comunista pelo fígado de Marx e pela cabeça de Engels! Mas não: sou comunista por causa do que disse a cozinheira da pensão onde mamãe morreu! Sabe por que mamãe se enforcou? Porque cortaram o orçamento do Ministério da Saúde e houve um erro na lista dos pensionistas! Um mês e meio sem dinheiro! Morreu de vergonha! E então eu me perguntei: onde estão os incendiários desta sagrada merda?

Elvira - Acho que estou com enxaqueca. Diga a Maria Luíza para entrar. Não tem nada o que fazer na calçada.

Pio - Às vezes me dá vontade de sair correndo e não voltar nunca mais. Fundar um colcós na Guiana e ficar mudo para sempre.

Elvira - Quer terminar o noivado com Maria Luíza?

Pio - Não sei. Honestamente, não sei.

Elvira - E a carta do Romain Rolland?

Pio - Ele não vai responder.

Elvira - Como é que você sabe?

Pio - Nunca mandei a carta.

Elvira - Judas.

Pio - Não sei nem onde mora Romain Rolland. E mesmo que soubesse, que interesse ele pode ter nisso?

Elvira - E minha irmã?

Pio - Venho buscá-la esta noite.

Elvira - E vão para onde? Para a pensão Bolívar?

Pio - Acho que nasci cinquenta anos antes do que devia. Ou quem sabe me extraviei do mundo. Às vezes olho o mapa da Austrália só porque é longe como o diabo. E fico pensando que lá deve existir um outro como eu, um vendedor de soluções, um falsificador. Me aproximo de estranhos e cinco minutos depois estou explicando alguma coisa. Como se tivesse pena deles. As pessoas ficam sem graça e em vez de falarem, eu mesmo respondo, explico e reparto pedaços de mundo. Com a única intenção de que me perdoem. E tenho vontade de gritar: que merda de vida vocês levam, só porque não nasceram um pouquinho mais para lá! Ninguém está me pedindo explicações! Ninguém se interessa por elas, e eu peço perdão por ser testemunha dessa imbecilidade toda! Foi assim também com Maria Luíza. “O que vamos fazer, Pio? Quando partimos, Pio? Quando vamos casar, Pio?” E eu fechei os olhos e me vi num beco sem saída. Então disse que ía escrever uma carta ao Romain Rolland, para que ela pensasse que ele era a saída do beco sem saída. Romain Rolland falaria com Stalin e Stalin era o colcós de beterrabas na Ucrânia. Ridículo, não é?

Elvira - Vivemos tão mal, Pio, com as samambaias e os canários, e o crucifixo atrás da porta. Vivemos tão mal...(Entra Matilde. Pôs o vestido branco com lacinhos azuis)

Matilde - Que tal?

Elvira - Está um doce.

Matilde - E a tia Maria Luíza?

Pio - Vou chamá-la. (E sai)

Elvira - Maria Luíza vai, sim, e vamos ter uma grande noite. Daqui a cinquenta anos, quando eu estiver morta, continuará sendo uma grande noite...(Elvira começa a cantar o refrão de “Cuesta abajo”. Matilde junta sua voz à dela. A voz de Gardel faz-se ouvir na primeira estrofe. Maria Luíza e Pio entram, juntando-se ao coro)

Matilde - Nós três juntas, hoje à noite, na sexta fila do Municipal, ouvindo Gardel cantar “Cuesta abajo” ao vivo! Eu não acredito! (Da rua vem o som de foguetes que anunciam a chegada de Gardel) Foguetes! Plácido, Plácido! (Sai para a rua)

Elvira - Por que não vai ver os fogos, Pio? Quem sabe a revolução não é também um som? Enfim, esta noite você vai com a Passionária para a pensão Bolívar. Não esqueça de me dar o endereço, para quando chegar a carta de Romain Rolland.

Pio - Às vezes o correio demora.

Elvira - A culpa é do Bartorelli. Mas tudo isso vai mudar quando hastearem a bandeira vermelha no capitólio.

Pio - Em 1947.

Elvira - Pois é.

Maria Luíza - Que é que há com vocês dois?

Elvira - Nada. Conversamos e nos desculpamos. Todos nós temos os nossos problemas.

Pio - Volto à noite, Maria Luíza. Depois do show. (Pio sai)

Maria Luíza - Tinha que ser hoje.

Elvira - Não diga nada e me dê um abraço.

Maria Luíza - Minha irmãzinha querida. Bom...não vai ser por muito tempo. Uns sete, oito anos, só.

Elvira - É.

Maria Luíza - E quem sabe você...

Elvira - O que?

Maria Luíza - Dá uma jeito de ir.

Elvira - Tão longe?

Maria Luíza - Eu economizo e te mando a passagem.

Elvira - Vamos ver.

Maria Luíza - É bonito lá. Tem campos de beterraba e programas culturais. Uma vez  por ano Stalin distribui a medalha do trabalho e as pessoas se reúnem na sede do colcós.

Elvira - Maria Luíza: como é que você vai fazer para cultivar campos de beterraba? Você nunca plantou um nabo!?

Maria Luíza - Eu aprendo. Também não é tão difíícil assim. Eles dão as sementes e a gente enfia na terra. Com o tempo elas crescem.

Elvira - Bem, afinal...é a sua vida, não é?

Maria Luíza - Que é que eu vou fazer, se ficar aqui? Visitar o Pio na cadeia?

Elvira - Nem pensar.

Maria Luíza - Aprendi a escutar a voz dele, seus rompantes, sua ternura, quando quero saber alguma coisa, ele me explica. E já houve tantos silêncios depois de suas palavras...

Elvira - Eu sei como é.

Maria Luíza - Sentamos sempre neste sofá.

Elvira - Você tem que levar um sobretudo. Faz um frio danado, lá.

Maria Luíza - Não sei da revolução, Elvira. Sei de mim. E às vezes é maravilhoso saber de mim. É incrível como fui me descobrindo, a cada dia. Às vezes penso que ele não vai voltar e me dá um medo. Mas ele vem todos os dias, às onze e meia, sempre como um intruso, envergonhado pelo almoço, dizendo que não quer incomodar. Ele nunca me tocou. Você acredita? Na verdade, não temos nada para recordar. Vivemos para o dia em que haverá justiça e o mundo pertencerá a todos. (Entra Le Pera)

Le Pera - Desculpem. A porta estava aberta.

Elvira - O que é que o senhor deseja?

Le Pera - É aqui que mora o sr. Plácido Ancízar?

Elvira - Sim.

Le Pera - Carlos! Chegamos! É aqui! (Entra Gardel)

Elvira - Desculpe, mas quem é o senhor?

Gardel - Boa tarde. Meu nome é Gardel.

FIM DO 1º ATO

*     *     *

SEGUNDO ATO

  (A sala e o pátio das Ancízar à meia-noite. Elvira acende a luz da sala. Maria Luíza e Matilde entram junto com ela. Vêm do Municipal)

Matilde - É que não existem palavras para contar como foi! Que apoteose! (Canta alto) “Barrio, barrio, que tenés el alma inquieta de un gorrión sentimental”.

Maria Luíza - Matilde, cante mais baixo.

Matilde - Por quê? Quero que o mundo inteiro ouça! Quero que todos acordem! (A berros) “Viejo barrio, perdoná si al evocarte, si me planta un lacrimón, que al rodar en tu empedrao, es um beso prolongao, que te dá mi corazón”. Gente, que exagero de homem!

Maria Luíza - Ficou maluca.

Elvira - Agora é que eu quero ver a cara do Bartorelli! Amanhã só vou chegar no guichê às onze. E quando aquela cavalgadura me perguntar por que me atrasei, vou dizer: lamento muito, Bartorelli, mas ontem Carlos Gardel esteve em minha casa, e há certos compromissos que nos obrigam a um pequeno atraso! Não creio que este acidente burocrático prejudique a eficiência das comunicações nacionais!

Maria Luíza - Acho que não temos taças suficientes.

Elvira - Por que? Só vem ele e o Le Pera.

Maria Luíza - E se ele convidar mais alguém?

Matilde - Ele foi claro e límpido quando entrou por esta porta às dua e meia da tarde, antes do meu desmaio. (Citando Gardel) “Dona Elvira”.

Elvira - “Dona Elvira, distinta senhora”.

Matilde - “Poderia eu ter a honra”.

Maria Luíza - “De visitá-las hoje à noite, depois de minha apresentação no Municipal?”

Matilde - Não é possível! Não acredito!

Elvira - Vamos celebrar esta noite de sonho com champanhe. Queria tanto que ao menos uma vez você erguesse a cabeça e olhasse para o céu. Às vezes há estrelas.

Maria Luíza - Pio deve estar quase chegando.

Matilde - Me deu uma vontade de fazer xixi.

Elvira - Vai, menina.

Matilde - E se o Gardel chegar? Jure que não vai deizer nada a ele.

Elvira - Juro.

Matilde - Fale de flores. Se ele chegar, fale de flores. (Sai)

Elvira - Você vai mesmo esta noite?

Maria Luíza - Vou.

Elvira - E sua roupa?

Maria Luíza - Depois venho buscar.

Elvira - Maria Luíza.

Maria Luíza - Elvira, pelo que há de mais sagrado, não diga que não tenho razão. Há dez anos pressinto o perfume deste dia. É hoje. Vamos para uma pensão, por enquanto, depois...

Elvira - E agora? O que é que você vai fazer agora? Faz dez anos que só ouço o Pio falar de depois. Quero saber é agora.

Maria Luíza - Não sei. Vou ficar por aí. Mas esta noite, são dez anos que vão terminar esta noite. E vai ser como todo mundo. Como você com Galarraga, não é mesmo?

Elvira - Galarraga tomou um porre, ficoui recitando poemas e falando de uma fábrica de essências. No dia seguinte foi embora. E quando ele saiu, pensei: não vou aguentar...porque era uma dor terrível. Mas no fundo tinha alguma coisa que eu nunca soube exatamente o que...Eu tinha vinte anos...como é que vou me lembrar? (Volta Matilde)

Matilde - Vocês repararam o cabelo dele? Tem um brilho incrível, como se fosse o reflexo do sol na cabeça. Aquele brilho latino do meio dia. Quem sabe se a história do Uruguai não é verdadeira?

Elvira - Esta noite todos os mistérios serão desvendados.

Matilde - Esta noite!

Maria Luíza - Será que a mãe dele não era índia?

Elvira - Branca e loira como a duquesa de Alba. Esse homem não pertence a nós.

Matilde - Quero ouvir de novo o que ele disse da casa!

Maria Luíza - Matilde, não precisa gritar!

Elvira - Mordeu uma folha de samambaia, olhou para mim e disse: “Dona Elvira, a senhora há de estranhar meu pedido, mas gostaria de partilhar esta noite com vocês”.

Maria Luíza - “Seria uma honra, cavalheiro”.

Elvira - “Porque esta casa se parece com a da minha mãe em Buenos Aires, quando chegamos de Montevidéu”.

Matilde - Como é que a gente faz para não gritar? Ao pisar neste assoalho, o primeiro latino-americano transcendental desde Anchieta, declara que esta casa se parece com a de sua mãe!

Maria Luíza - Foi tão bonito no teatro.

Matilde - Ver Gardel e depois morrer!

Maria Luíza - Quando nos dedicou “Yira, Yira” me deu vontade de chorar.

Elvira - E ninguém sabia para quem era. Mas todos se roendo de inveja.

Maria Luíza - Ele olhou bem para nós e disse: “esta tarde conheci três criaturinhas de quem vou levar a melhor lembrança”.

Matilde - “E elas são tão doces, tão gentis, quero dedicar um tango carinhoso: “Yira, Yira”. (Ouve-se a voz de Gardel cantando “Yira, Yira”. As três juntam suas vozes à dele)

Elvira - Ainda não pusemos a toalha.

Maria Luíza - Vocês vão até a cozinha buscar as taças. Eu coloco a toalha.

Matilde - Será que ele vem, Elvira?

Elvira - Vai chegar a qualquer momento. Eu sei. Pressinto. (Saem Elvira e Matilde. Maria Luíza procura a toalha e com milimétrica competência cobre a mesa que puseram ali para a transcendental ocasião. Entra Gardel)

Gardel - Com licença? (Maria Luíza se volta. Gardel cheira a toalha) Patchouli.

Maria Luíza - A casa toda tem sachês de Patchouli.

Gardel - Você é Maria Luíza?

Maria Luíza - Ancízar.

Gardel - Pega-se o centro da toalha, fazendo-se coincidir com o centro da mesa. Depois é fácil. (A toalha fica posta com incrível rigor) Aprendi isso na Holanda, com a pequena Guilhermina.

Maria Luíza - Quem é Guilhermina?

Gardel - A rainha, é claro. Guilhermina e suas toalhas de renda. Guilhermina e seus caprichos. Onde estão os guardanapos?

Maria Luíza - Na cristaleira. Não se incomode.

Gardel - Não é incômodo. É um modo de viver. (Gardel pega os guardanapos) Minha mãe sempre diz que os guardanapos devem ser o dobro do número de convidados. Não é incrível essa minha mãe?

Maria Luíza - Ela é argentina?

Gardel - Não sei. Você acredita que não sei? (Coloca os guardanapos nos lugares) Le Pera e Plácido vão trazer o vinho. E seu noivo?

Maria Luíza - Como sabe do meu...

Gardel - Plácido me falou dele. Um intelectual, pelo que entendi.

Maria Luíza - Acha mesmo?

Gardel - Por que não? Há uns três meses, em Paris, Romain Rolland me dizia...conhecem Romain Rolland por aqui?

Maria Luíza - Não. Sim.

Gardel - Bom, o velho Rolland me dizia, debaixo de uma marquise de Montparnasse: “Cher Gardel...” “Querido Gardel, há dois mil anos que confiamos no futuro. Não é muito chato?”

Maria Luíza - Quem? Romain Rolland?

Gardel - Não, o futuro. Rolland e suas manias. Ah, adoro os dias chuvosos de Paris. Nunca esteve lá?

Maria Luíza - Não.

Gardel - Que pena...Desculpe, não perguntei pela Elvira e pela Matilde. Se a minha mãe estivesse aqui me dava um puxão de orelha...

Maria Luíza - Meu Deus! Nem lembrei! Elas estão na cozinha! Quer que eu chame?

Gardel - Não devemos perturbar a intimidade culinária de duas damas. Vamos sentir a 
noite. Está abafado, não?

Maria Luíza - Se o sr. me permite...acho que é por causa do cachecol.

Gardel - Tem razão. (Tira o cachecol). Guarde. É seu. (Observa) Por que está tremendo?

Maria Luíza - Meu?    

Gardel - Não se fazem perguntas quando se recebe um presente, dizia Mahatma Ghandi. (Ri) Conhecem Mahatma Ghandi por aqui?

Maria Luíza - Não. Nunca esteve em Caracas.

Gardel - Ah, que pena.

Maria Luíza - Se importa se eu fizer uma pergunta? Uma só? Por que veio aqui? Por que esta noite? Por que nós?

Gardel - Coisas técnicas do le Pera. Sei lá, um microfone, o som do violão. Havia um bando de gente no hall do Majestic e de repente eu o vi sair. Ele estava procurando o Plácido. Então eu disse: vou com você. Quando chegamos aqui, a porta estava aberta e lá da rua vi as samambaias...(Entra Pio com uma maleta)

Pio - Você está pronta?

Maria Luíza - Este é Gardel.

Pio - Gardel?

Gardel - Mas nós já nos conhecemos! Há meia hora que ela só fala em você! (Aperta a mão de Pio) Gardel, enchanté (Corrige) Meu deus, a Babel dos idiomas: muito prazer!

Pio - Pio Miranda. Maria Luíza, o que ele está fazendo aqui?

Maria Luíza - Estávamos no pátio e de repente nós o vimos. Não me pergunte como, não sei. Ele queria uma muda de samambaia, não foi?


Gardel - Está de partida, meu caro Pio? Mas que romântico! Antes de enfrentar a dura estrada, veio despedir-se da noiva. Isso é que é galanteria!

Maria Luíza - Ainda não pude avisar a Elvira e Matilde! Elas não vão me perdoar nunca! (A Gardel) Com licença. Volto já. (E sai)

Gardel - Deixe-me olhá-lo bem, Pio Miranda, homem feliz! Que linda noiva você arranjou. Existe um certo ar de urgência neste país que me impressiona: é como se tudo acontecesse num instante. Como se algo importante estivesse prestes a acontecer e as pessoas ficassem em silêncio. E então, querido, como vai a vida?

Pio - Bem, obrigado.

Gardel - Onde é que você trabalha?

Pio - Numa escola noturna.

Gardel - Ah, um mestre! Sócrates! A dialética! Às vezes, na cama, quando não há damas nas proximidades, fico pensando...Para que serve o homem, meu caro Pio? Ou dá uma de macho e os penduricalhos endurecem, ou pensa e os penduricalhos se ausentam .Tudo o mais é fantasia. Então penso, num sentido assim meio cartesiano, que existem homens como você, e me vejo cantando “Volver”, “Mi Buenos Aires Querida”, “Mano a mano”, sem o menor pudor. Então digo aos meus botões: para que você vive, Gardel, essa vida de prazeres que o sufoca? Mas depois acabo dormindo, porque ganho cem mil dólares por ano e sei que existem pessoas como você, no Paraguai, na Nicarágua e principalmente na república de El Salvador. Do contrário eu não dormiria, grande Pio, porque...como é que se pode dormir sabendo que existe a república de El Salvador?

Pio - O senhor acha, mesmo?

Gardel - De coração! Eu cantei bem, Pio?

Pio - Infelizmente não pude ir ao teatro.

Gardel - Às vezes eu fico em dúvida quanto à minha voz. Por que você não foi?

Pio - Tinha meus motivos. (Ouve-se uma hecatombe de taças e pratos quebrados)

Gardel - É sorte, Matilde! Elvira, estou aqui! (Entram Elvira, Matilde e Maria Luíza)

Elvira - Eu sempre soube que viria. E hoje, 11 de julho de 1935, posso afirmar que valeu a pena ter vivido quarenta e seis longos anos e uma traição, para ver esta noite de glória. Desculpe a humildade de nossa casa. Matilde e eu ensaiamos uma reverência em sua homenagem, porque não é possível recebê-lo com um simples e corriqueiro “boa noite”. (Elvira e Matilde fazem uma reverência que acaba de joelhos no chão)

Matilde (Se aproxima de Gardel com uma espiga) - Em nome desta família e de meu avô, o general Ancízar, herói da guerra da Independência, queremos dar-lhe as boas vindas e dizer que vimos todos os seus filmes e ouvimos todas as canções que você gravou, milhares de vezes, até decorar todas as letras, palavra por palavra. Sentimos, como se fosse nossa, a dor de cada personagem que você interpretou. Em nome dessas recordações, queremos lhe oferecer esta espiga, símbolo da fertilidade do nosso solo.

Gardel (Beija a espiga) - Eu a recebo, beijo, devolvo-a à terra e proíbo que nela se toque, porque será minha forma de permanecer nesta casa.


Pio - Acho que já está na hora, Maria Luíza. O último ônibus passa à meia-noite e meia.

Maria Luíza - Sim, Pio.

Gardel - Mas como? Essa flor deslumbrante vai embora?

Maria Luíza - Eu?

Pio - Sr.Gardel, fico satisfeito de saber que sua apresentação foi bem sucedida.

Gardel - Obrigado.

Pio - Sua presença nesta casa é um belo gesto, digno de um grande artista popular. No entanto, permita-me dizer-lhe que há vinte e sete anos somos vítimas de uma ditadura brutal e que nosso povo está morrendo de fome, enquanto os donos do poder esbanjam o dinheiro em negociatas e obras faraônicas. Mas por toda a parte existe um espírito de resistência que em breve há de triunfar, quando as massas alcançarem um nível de consciência histórica definitiva, sob a liderança do glorioso proletariado nacional. No dia em que isso acontecer, e há de acontecer, o governo popular vai convidá-lo para vir novamente a Caracas, a fim de que sua arte possa ser apreciada pelo povo, e não pelo bando de criminosos que hoje eram maioria no Municipal.

Matilde - Amém.

Gardel - Quando chegar esse dia, por favor, escreva para mim em Buenos Aires.

Maria Luíza - Qual é o endereço?

Gardel - Escreva na carta simplesmente Carlos Gardel. Buenos Aires. Em mãos. É que todo mundo me conhece e mamãe sempre guarda minha correspondência.

Matilde - Tia Maria Luíza, por que você não deixa para ir amanhã?

Elvira - Não se meta.

Matilde - Pio, não dá no mesmo? Afinal, vocês esperaram dez anos. E quem sabe amanhã chega a carta daquele senhor francês!?

Gardel - Vou esperar o Plácido e o le Pera lá no portão. Já devem estar chegando.

Elvira - Fique em seu lugar, no centro desta casa. Acontece que depois de dez anos de namoro, minha irmã e o noivo resolveram partir esta noite, pela estrada que vai de Caracas à Ucrânia, com uma provável parada no limbo para o café da manhã. Como vê, é uma longa viagem, e não há tempo para despedidas.

Maria Luíza - Por que é que você tem que falar desse jeito?

Elvira - Por nada. Só falei por falar.

Maria Luíza (A Gardel) - Bom...pelo menos eu coloquei a toalha, não foi?

Gardel - Por favor!

Maria Luíza - Existe um dia, não é? E tem que ser neste dia.  Não pode ser amanhã. Entende que não pode ser amanhã? (Aponta Pio) Olhe bem para ele. Não tenho razão?

Pio - Maria Luíza, a troco de quê?

Maria Luíza - Eu sei que ele vai entender. Não é, Gardel?

Elvira - Claro que vai entender! Vocês ainda não notaram que ele vem sempre aqui à meia-noite? E não repararam que ele sai todos os dias antes do padeiro das cinco e meia? Pode contar a ele sua vida toda, batendo papo de camisola e chinelos. Não é ninguém. É só Carlos Gardel. Você devia ter vergonha.  

Gardel - Desculpem, mas se o problema é transporte, posso resolver. Le Pera já está chegando, com a limousine do Pimentel, e pode levá-los onde quiserem.

Maria Luíza - Pio.

Pio - Bom, nesse caso...

Gardel - Mas esse é o caso, Pio santíssimo! Eu estou aqui! Vamos comemorar! (Entram Plácido e Le Pera com cestas de bebidas, cantando “Volver”, sendo logo acompanhados pelo coro dos presentes, à exceção de Gardel)

Plácido -  Declaro a todos os presentes que esta é a maior noite já vivida por este histórico solar dos Ancízar!

Le Pera - Champanhe e vinho...vão ter que acrescentar um novo marco à História de Caracas! Como você cantou! (Le Pera coloca as cestas na mesa)

Plácido -  Pio! Eu tinha arranjado um banquinho na cabine de luz para você escutar esta dialética! Onde é que você estava quando o cidadão Gardel cantou “Volver”, explicando o materialismo a um sapateiro? Pio, quando é que você vai relaxar um pouco? Quando é que vai deixar para lá as contrariedades do planeta? Le Perinha, cumpra a sua promessa! Atenção, todo mundo! Quantos somos? (Começa a contar) Elvira, a abandonada...

Gardel - Quem abandonou Elvira?

Elvira - Isso foi no tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça.

Plácido -  Elvira, a abandonada. Matilde, a futura, e o meu amigo Pio Miranda. Eu não era ninguém antes de conhecer o grande Pio aqui. Carlos - posso lhe chamar de Carlos? - Eu era  uma titica, uma excrescência, antes da mensagem dele...é verdade ou não é?

Gardel - E o que foi que o le Pera prometeu?

Le Pera - Que você ía cantar um tango.

Plácido -  Que ía cantar “El día que me quieras”, dedicado ao nosso marxista-leninista aqui presente, a quem dou permissão para que leve minha tia esta noite e tome o poder.

Gardel - Mais tarde, talvez. Agora estou cansado.

Elvira - Agora chega. (A Plácido) Ou você modera os tragos que andou tomando ou vai já para a cama!

Le Pera - Quem me ajuda com a champanhe?

Maria Luíza - Com licença. (Abre uma garrafa. Elvira sente o perfume de Gardel)

Matilde - Perfume de quê?

Elvira - De universo. De Rei Mago.

Matilde - Deixe ver...(E cheira Gardel)

Le Pera - Saúde! 

Maria Luíza - Saúde! 

Plácido -  Só uma taça, Elvira!

Elvira - Saúde!

Le Pera  - O que vocês não sabem é que o rapaz aqui tinha esta noite uma audiência com o ditador local, o tal de Gómez, e mais o crème-de-la-crème de tout Caracas. E aqui está ele, tranquilo, aproveitando a noitada. Não por muito tempo, é claro, porque cada amanhecer deste rouxinol custa doze mil pesos...

Maria Luíza - Carlos, posso chamá-lo assim?

Gardel - Claro, Maria Luíza. Estamos em família (Brinda) Saúde!

Maria Luíza - É que eu fico tão sem jeito... Acontece que o Carlos estava me falando há pouco de...

Gardel - De quem?

Maria Luíza - De Romain Rolland. É assim que se pronuncia, não é?

Gardel - Bravo! (A Le Pera) Você se lembra, Alfredo, do Romain Rolland?

Le Pera - Quem é Romain Rolland?

Gardel - O velhinho de cabelo cacheado.

Le Pera - Qual velhinho? Aquele de Amsterdã?

Gardel - Não, o de Paris. O chato. Aquele de Montparnasse e da chuva. Esqueceu?

Le Pera - Ah, sei! Aquele que estragou nossa noite debaixo da marquise! O que tem ele?

Pio -Maria Luíza...

Gardel - O que há com ele?

Maria Luíza - Pio, é agora ou nunca. Já que ele está aqui, podíamos pedir-lhe o favor...

Pio -É que...

Elvira - Saúde, Pio!

Gardel - Pra que tanta cerimônia? Qual é o favor?

Maria Luíza - O caso é muito simples. Por coincidência, há um mês escrevemos uma carta a Romain Rolland, um famoso escritor. Bom, não é preciso explicar, você fica debaixo da marquise com ele. Escrevemos a Romain Rolland porque ele é...explique você, Pio...

Pio -Porque ele é simpatizante da Terceira Internacional.

Maria Luíza - Isso é muito confidencial, ninguém pode saber. Pio e eu pertencemos à Internacional Socialista. E achamos que podia ser uma boa idéia...

Elvira - Você não sabe explicar, Maria Luíza. (A Gardel) Não repare. Escreveram uma carta ao tal senhor Rolland para que, por sua vez, o camarada Rolland transmitisse ao camarada Stalin o desejo de minha irmã e seu noivo de se radicarem na Ucrânia. E o sr. Rolland, por alguma petulante razão, não se dignou a responder à missiva, ocasionando uma verdadeira hecatombe na paz familiar dos Ancízar.

Maria Luíza - E, abusando de sua confiança, queria pedir-lhe, em nome de meu noivo e no meu, se pudesse fazer a gentileza de enviar ao sr. Rolland um cartãozinho, recomendando o nosso pedido...

Gardel - Com o maior prazer. Amanhã mesmo vou mandar um telegrama ao Rolland. O Le Pera vê isso logo de manhã.

Maria Luíza - Pio! Agora eu sei que é verdade! Agora sei que vamos mesmo!

Matilde - Estão vendo como tudo se arranja?

Plácido - Pio, na Ucrânia, não se esqueça de mim! Fale com eles! Diga que estou aqui! Que...qualquer coisa, estou às ordens!

Le Pera (Brinda) - À felicidade dos noivos! Saúde, Carlos!

Gardel - Para mim está sendo uma noite deliciosa. Mas daqui a pouco tenho que ir embora com a muda de samambaia que Elvira vai me dar de presente. É curioso. Acho que não sei quase nada de mim. Sei desta noite, e de outras noites como esta. Abro os olhos e acordo em Tacuarembu, com fome e querendo fugir para Buenos Aires. Abro a voz e a voz soa. E o som desta noite, o som de vocês, gente de verdade. Elvira, o som é Elvira. Talvez porque queira dizer alguma coisa e não consiga.

Elvira - Que todo dia acordo e vou à cozinha. Contando sempre os mesmos passos. Faço o café, a água ferve enquanto troco a água dos canários. E penso em Raimundo Galarraga, o químico dos perfumes. Que eu odeio e amo. Porque parecia com a glória deste mundo. Depois dele foi o nada, como se alguma coisa tivesse emudecido até esta tarde, quando você entrou por aquela porta. Eu disse a elas que esta noite tudo seria revelado por sua própria boca, que desvendaríamos todos os seus mistérios. Mas o único mistério é você. E não quero desvendá-lo. Para mim, basta sentir que está aqui...mais nada.

Gardel - Então você era assim, Elvira! Eu sabia.

Matilde - Como é que você vai fazer na Rússia, tia Maria Luíza? Você chega lá e...

Maria Luíza - Não sei, o Pio é que entende disso.

Matilde (A Pio) - É verdade que na Rússia todo mundo é feliz?

Pio -Digamos que é diferente.

Plácido - Absolutamente diferente. Em primeiro lugar, há quatro estações: primavera, outono, inverno e verão. E lá tudo é de todos. Você vai andando pela rua e lhe dá na veneta, sei lá, queijo, costeleta, um capricho qualquer. Aí você entra no mercado, na maior tranquilidade e pede: me dá isso, me dá aquilo também. E por que é que eu vou dar a você? Porque sou um homem, pertenço ao gênero humano. E estou com fome. Ah, então toma! Não é assim, Pio? Já sei de cor. Vai, Pio, pergunte, pra todos verem...

Pio -Agora não, Plácido, não é hora.

Plácido - Pergunte, Pio. Tia Maria Luíza também sabe responder.

Maria Luíza - O que?

Plácido - Carlinhos, preste atenção: Pio pergunta, eu e Maria Luíza respondemos.

Gardel - Ah, um jogo!

Plácido - Um jogo. Quer ver? O que notamos quando analisamos a sociedade atual? Pergunte, Pio, o que notamos?

Pio -Não.

Maria Luíza - Anda, Pio. Pergunte. Você começa e nós continuamos. O que notamos quando analisamos...

Pio -A sociedade atual?

Maria Luíza e Plácido - Uma profunda desigualdade entre os homens.

Gardel - Extraordinário!

Le Pera - Bravo!

Pio -E como se manifesta essa desigualdade?

Maria Luíza e Plácido - Pela existência de dois tipos de homens: o proletário e o burguês.

Gardel - Fantástico! Genial!

Le Pera - Na mosca!

Pio -Quem é o proletário?

Maria Luíza e Plácido - O pobre. Aquele que não tem nada.

Gardel - Excelente resposta!

Le Pera - E o que mais?

Pio -E quem é o burguês?

Maria Luíza e Plácido - O rico, aquele que possui tudo.

Gardel - Incrível!

Le Pera - Perfeito!

Pio -O que é o proletariado?

Maria Luíza e Plácido - O conjunto de todos os proletários.

Pio -O que é a burguesia?

Maria Luíza e Plácido - O conjunto de todos os burgueses.

Pio -A sociedade atual está bem constituída?

Maria Luíza e Plácido - Não. Porque existem duas classes sociais: o proletariado e a burguesia.

Gardel - Profundo! Brilhante! Matemático!

Le Pera - Ahá!

Pio -Existe harmonia entre o proletariado e a burguesia?

Matilde e Le Pera - Ahá! Ahá!

Maria Luíza e Plácido - Não. A burguesia combate o proletariado. E o proletariado combate a burguesia. Estão em luta contínua. A luta...de...classes!!! (Todos aplaudem, com exceção de Elvira e Pio)

Pio -Está bem, senhores. Chega. Vão gozar a mãe! Faz dez anos que venho a esta casa, todo santo dia, na hora do almoço. E tudo porque, digamos, vejo um cão, assim, com as costelas de fora. Uma fome de cão. E fico pensando: que merda! Como se o responsável fosse eu. Desculpem. Não é verdade. Não é problema meu. A culpa não é minha. O país não me pertence. Não tenho porquê responder. Sou um guerreiro ensangüentado. Desculpem. Não fui eu. Lavo minhas mãos. (À Maria Luíza) Não existe nada na Ucrânia. Nem sei onde fica a Ucrânia. Não existe a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Não existe Kamenev, nem Zinoviev. Não sei nem pronunciar isso. Não existe Trostsky, não existe samovar. Não existe Stalin. Não existe janela da czarina. Não existe Lênis. Não existe nada!?

Maria Luíza - Pio!

Pio -Pergunte à Elvira. Ela sabe. É a única que sabe. Eu tenho que explicar a um cão o porquê das costelas de fora. Eu...estou me sentindo mal. Vou embora e nunca mais volto a esta casa. Não me espere. Não existe nada. Eu menti! Essa era a palavra esperada, a palavra profética! Menti! Não existe Romain Rolland! Nunca escrevi a Romain Rolland! Foda-se Romain Rolland! Caguei para a paz e a amizade entre os povos! Chega! Acabou! Fim! Obrigado pelos almoços. O cão me espera. E tenho que explicar por que o sol vai nascer amanhã. Adeus. Perdão. (Sai)

Le Pera - Carlos, acho que já é hora. Temos que viajar amanhã.

Gardel - Tem razão. Boa noite, Elvira. Boa noite, Matilde. O melhor dos mundos para você, camarada Maria Luíza.

Matilde - E “El día que me quieras”?

Le Pera - Não sei. Acho que o rouxinol hoje não vai poder...

Matilde - E se fechássemos os olhos? Porque vai ser horrível ver você sair. Nós ficamos parados, aqui. Você canta “El día que me quieras” e vai embora.

Plácido - Assim a gente pode contar aos outros: ele esteve aqui e cantou.

Elvira - E quem vai acreditar?

Plácido - Não importa. A gente mesmo acredita. Faça isso, Gardel.

Matilde - Por favor! (Gardel canta e depois sai com Le Pera. Longa pausa)

Elvira - É hora de dormir. Vamos, Maria Luíza?

Maria Luíza - Plácido...feche o portão.

Plácido - Sim. (E sai)

Maria Luíza - Será que ainda tem café? Quer dizer, para amanhã...

Elvira - Comprei hoje. (Volta Plácido) Que horas são, Plácido?

Plácido - Meia-noite e meia. A visita foi curta.

Matilde - Boa noite, Plácido. Boa noite, tia Maria Luíza. A benção, tia Elvira.

Elvira - Deus te abençoe. E troque os lençois. Hoje é dia de trocar os lençois.

Matilde - Não é amanhã?

Elvira - Não. É hoje.

Matilde - Ninguém vai tirar isso da gente, vai? Acho que agora não podemos mais vender a casa. Vender como, depois desta noite?

Elvira - É. (Matilde sai)

Plácido - Boa noite, tia Elvira. Boa noite, tia Maria Luíza. ( E sai)

Elvira - Ele deixou a mala. Talvez volte amanhã.

Maria Luíza - É, talvez.

Elvira - Já passou. Depois amanhece e as coisas mudam.

Maria Luíza - Você não se importa de fazer um café?

Elvira - Claro que não. (E vai para a cozinha)

Maria Luíza - Não muito forte. Senão não durmo. (Maria Luíza vai até a maleta de Pio. Abre-a. Procura entre camisas remendadas e calças gastas. E encontra uma bandeira vermelha com a foice e o martelo. Coloca- a no espaldar do sofá. Elvira volta) Quero que ela fique aqui. Ate amanhã. pelo menos, até amanhã.

Elvira - A casa é sua, Maria Luíza. Você é quem manda.

FIM



A NÁUSEA: PROCESSO PSICOTERAPÊUTICO DE ROQUENTIN

La Nausée é o primeiro romance de Sartre a ser publicado. Começara a redigi-lo em 1931, passando por diferentes manuscritos, que se chamaram, sucessivamente, Fato sobre a contingência, Melancolia, até que, finalmente, para fins de publicação, em 1938, por sugestão de Gaston Gallimard (que seria, daquele momento em diante, o editor de Sartre), foi intitulado A Náusea. O livro é escrito em forma de diário e narra as experiências vividas por Antoine Roquentin, historiador que se fixou em Bouville, cidade do interior da França, para realizar pesquisas sobre o Marquês de Rollebon, um personagem da vida política francesa do século XVIII.

Nesse diário, Roquentin narra uma série de acontecimentos que estavam ocorrendo em sua vida sem que ele os compreendesse. Havia mudanças na sua relação com o mundo, com os objetos. Escreve: “os objetos não deveriam tocar, já que não vivem. (...) E a mim eles tocam – é insuportável. Tenho medo de entrar em contato com eles exatamente como se fossem animais vivos” (SARTRE, 2000, p.26). Essas mudanças se expressavam através de uma “metamorfose insinuante e delicadamente horrível de todas as sensações; era a náusea” (SARTRE, 2000, p.26). Em diferentes ocasiões, caminhando na rua, jogando pedras ao mar, sentado em um café, subitamente, Antoine era tomado por aquela irritante experiência, uma espécie de enjôo adocicado, uma leve tontura, uma náusea, sem que conseguisse facilmente dela se livrar e sem perceber o que o levava a essa emoção. Era uma experimentação psicofísica, corpo e consciência envolvidos no acontecimento. O personagem questionava-se acerca dessas alterações que lhe vinham ocorrendo nas últimas semanas. Eram alterações difusas, que não se fixavam em nada. O que mudou? Foi ele? Foi o quarto onde se encontrava, a natureza ao seu redor? Chega à conclusão de que foi ele mesmo que se transformou. Mas como? De que maneira? O que estava acontecendo? Declara: “Não creio que a profissão de historiador incite à análise psicológica. Em nosso trabalho lidamos com sentimentos inteiros. No entanto, se tivesse um mínimo de conhecimento de mim mesmo, seria esse o momento de utilizá-lo” (SARTRE, 2000, p.17).

Espelho

Olha-se no espelho e não se reconhece. Não consegue entender nada de seu rosto: ali estão o mesmo nariz, boca, orelhas, mas já não têm expressão humana. Não consegue definir se é bonito, ou feio, nem encontrar sentido nessa face, nem em seu corpo. Não consegue compreender seu rosto. Questiona-se se isso ocorre por que é um homem sozinho? As pessoas que convivem em sociedade aprendem a se enxergar através dos outros, já que estes fazem o papel de espelho. E ele, que não tem ninguém? Como escapar a essa carne nua e crua, a essa natureza sem homem? Antoine vive inteiramente só, nunca fala com ninguém, a não ser em conversas formais com o autodidata (estudioso que sempre encontra na biblioteca), ou uma relação amorosa fortuita, de tempos em tempos, que mantém com a dona do café Rendez-vous des Cheminots, perto de onde mora. Sua amiga tem vários amantes, sendo ele somente mais um deles. Pela primeira vez o incomoda estar só; gostaria de poder dividir com alguém o que está lhe acontecendo. Recorda-se de Anny, sua ex-namorada, que faz quatro anos que não vê.

Experimenta um tédio enorme de viver. Bouville e seus habitantes acomodados, mergulhados em seus hábitos e problemas pequeno-burgueses o enojam; o Sr. De Rollebon o enfada, suas pesquisas o desagradam. Nada mais tem muito sentido. A náusea se apossa dele, está nele sem que consiga dela se livrar. Sente medo sobre o que pode vir a lhe acontecer.

Queixas

Podemos notar que a narrativa de Antoine, desde o início de seu diário, encaixa-se perfeitamente nas queixas que os pacientes trazem para o processo psicoterapêutico. Descrevem as emoções, os impasses psicológicos que os acometem, sem que consigam compreendê-los. São tomados por eles e experimentam-se assustados frente ao seu descontrole emocional.

A única coisa que conseguia livrar Antoine da náusea era a música, uma música específica, que sempre solicitava que fosse tocada, quando ia ao café “Rendez-vous des Cheminots”: a canção de jazz “Some of these days”. Absorvia-se na música, ela o fazia viajar a outro tempo, tempo de aventuras. Quando se dava conta, o enjôo havia passado.

Pouco a pouco, na busca de compreender o que lhe ocorria, o personagem começa a reviver o seu passado, retomando o grande sentido de sua existência que fora “viver aventuras”. Atravessara os mares, deixara cidades, subira rios, adentrara em florestas, tivera várias mulheres, várias brigas. Tudo isto o havia levado para onde, questiona-se? O que lhe acrescentaram essas aventuras? O tédio e a náusea agravam-se ainda mais! Até há dois anos atrás, tudo corria tranqüilo: bastava fechar os olhos para lembrar de miríades de cidades, rostos, lugares. Tudo o alegrava; no entanto, hoje não deixam mais do que um gosto amargo na sua boca. Suas histórias estão mortas, limitam-se a palavras, sem sustância: “referem-se a um sujeito que fez isto ou aquilo, mas não sou eu, não tenho nada em comum com ele” (SARTRE, 2000, p.57). Nunca havia experimentado o sentimento, como agora, de ser alguém sem “dimensões secretas”, reduzindo-se a ser somente seu corpo. Compelido ao presente, preso nele, não consegue fugir de estar frente a si mesmo.

Mentira

O sentimento de aventura que o guiara até o momento, que definira o sentido de sua vida, esvaíra-se. Sempre “imaginara que em determinados momentos minha vida deveria assumir uma qualidade rara e preciosa. (...) É isso que me tiram agora. Acabo de descobrir, sem razão aparente, que menti a mim mesmo durante dez anos. As aventuras estão nos livros” (SARTRE, 2000, p.57). Consegue compreender que viveu muitas histórias, fatos, incidentes, mas não aventuras, pois estas são simplesmente formas de contar o que lhe sucedeu, pois o que delineia o tom da aventura é a forma de narrá-la. Buscava um momento precioso, que o tivesse marcado para todo o sempre; descobre, no entanto, que quem conferia o caráter aventuroso sobre o que havia vivido era ele próprio, o sentido que ele mesmo dava à história, iluminado por suas paixões futuras. Era o futuro, portanto, que definia o significado desse passado; o fim que a tudo define já está presente na história. Essas reflexões levam-no a modificar sua relação com o passado: “a importância dessa descoberta não está apenas no fato de que um passado querido tem um sentido alterado, mas ainda o fato de que a própria vida lhe aparecerá com uma qualidade até então insuspeita” (MOUTINHO, 1995, p.50).
Aqui nessas passagens subjaz a concepção de temporalidade em Sartre, conforme a qual passado, presente, futuro estão imbricados numa dinâmica temporal inseparável. No entanto, o que confere sentido à existência, definindo o significado dos acontecimentos passados, é o futuro que, segundo o existencialista, concretiza-se através do “projeto de ser”. Sartre demonstra que a temporalidade real, antropológica, vem do futuro para o passado, enquanto que o movimento aparente é a temporalidade ocorrer do passado para o futuro (BERTOLINO, 2005).

Perturbações

O que vai emergindo do romance é que, na verdade, o que está em questão é o “projeto de ser” de Roquentin, conduzindo o leitor a compreender as perturbações psicológicas experimentadas pelo personagem. A náusea é só a expressão psicofísica desse questionamento crucial de seu ser: toda sua vida está em questão, olha para sua história e não mais se reconhece. O espontaneismo que marcara sua história, já que vivia voltado para “o momento”, deixando-se levar pelos acontecimentos, ou seja, por uma vida de aventuras, tornou Roquentin “prisioneiro da passagem”, isto é, sem um lugar seu, sem referências afetivas, sem compromissos ontológicos, sem vislumbrar um futuro. Por isso, olhava para o espelho e não se reconhecia. Era a expressão de seu ser que estava em questão. Quem era, afinal, Roquentin? O que tinha feito de sua existência? Experimentava-se vazio. Vivera aventuras, é verdade, no entanto estas, com sua transitoriedade, têm sentido somente enquanto acontecem; não fornecem “lastro” para o “ser” de um sujeito, pois que não o lançam em um tecido sociológico, isto é, em uma rede de relações de mediação. É nesse tecido que se encontram as amarras ontológicas e psicológicas de qualquer homem. Era exatamente o que Antoine não possuía, daí sua experimentação de vazio de ser.

Busca

Em um primeiro momento, frente a todas essas mudanças e questionamentos, busca a resposta em seu trabalho, algo que lhe devolva o sentido de ser. Só o Marquês o salvará. Aos poucos, no entanto, vai percebendo que este era outro engodo. “O Sr. De Rollebon era meu sócio: precisava de mim para ser, e eu precisava dele para não sentir meu ser. (...) Eu era apenas um meio de fazê-lo viver, ele era minha razão de ser, me libertava de mim mesmo. Que farei agora?”. (SARTRE, 2000, p.148). Dá-se conta, então, que sua existência está liberada, desprendida, que reflui sobre ele. O que fará de si mesmo? Aparece novamente a náusea.

Aos poucos constata que a náusea não fora mais do que a descoberta da contingência, ou seja, do fato da gratuidade da existência, que se revela absoluta, pois viver não é necessário, mas sim um ato contínuo de escolha, assim como os objetos, que não são necessários, mas contingentes. Daí experimentar-se tocado pelos objetos, como a raiz do castanheiro, por exemplo, que o invadia com sua solidez, pois era espelho para suas dúvidas, lançando-o para o âmago de seus impasses. Os objetos do mundo, a natureza, estavam aí, existiam simplesmente, eram gratuitos, não eram necessários; quem define o sentido delas sempre foi o homem, a consciência que os constata.

Gratuidade
Ora, nenhum ser necessário pode explicar a existência: a contingência não é uma ilusão, uma aparência que se pode dissipar; é o absoluto, por conseguinte a gratuidade perfeita. Tudo é gratuito: esse jardim, essa cidade e eu próprio. Quando ocorre que nos apercebemos disso sentimos o estômago embrulhado, e tudo se põe a flutuar como outra noite (...): é isso a Náusea; é isso que os salafrários, os do Coteau Vert (bairro nobre de Bouville) e os outros tentam esconder de si mesmos com sua idéia de direito (SARTRE, 2000, p.194 – nota nossa).
A existência se desvela, como a Descartes, através de seu cogito. No entanto, para Roquentin, ao contrário do que prega o filósofo, não é somente a experiência do pensamento que a faz aparecer, mas uma experimentação concreta, psicofísica, corpo e consciência absorvidos pela situação nauseante. A transformação de seu corpo é uma experiência insuprimível (MOUTINHO, 1995). Suas reflexões fazem-no apropriar-se dessas experimentações, ou seja, conforme a linguagem técnica de La Transcendence de L’Ego, a consciência de segundo grau (reflexionante) apropria-se das consciências espontâneas (irrefletidas) (SARTRE, 1965). Assim, a apropriação reflexiva que realiza das transformações psicofísicas sofridas coloca-o frente à sua liberdade, ou seja, possibilita que compreenda, aos poucos, que o sentido das coisas que o cercam dependem de seu livre lançar-se para elas: em relação aos objetos, ao seu trabalho, ao seu passado. A ele cabia significá-los. Estava, portanto, experimentando aquilo que se define como “vertigem da liberdade”. As coisas são inteiramente o que são, nada há por trás delas que as definam ou justifiquem “a priori”; é a relação do sujeito com as coisas que constitui o mundo. Esta é a relação entre o ser (as coisas) e o nada (a consciência), base da ontologia de Sartre.

O que fazer do seu ser? Questiona-se Roquentin. Ninguém, nem coisa alguma, irá lhe dizer ou lhe determinar a ser. A definição de si próprio depende de seu movimento no mundo, do que ele deseja realizar. Está, pois, livre e só.

Porto seguro

Ao debater-se com sua problemática, Antoine foi em busca do último “porto seguro” de sua história: foi encontrar-se com Anny, a única mulher que amou de verdade na vida, mas com quem em realidade sempre mantivera uma relação conturbada. Anny queria viver os “momentos perfeitos”, no que buscava transformar qualquer acontecimento de sua vida, pois acreditava que algo se revelaria a ela. Acreditava nessa mística: não sabia de onde viria essa força, mas acreditava que aconteceria. Acusava Antoine de fazer os “momentos perfeitos” se esvaírem, pois ele não sabia o que dizer no momento oportuno, que ações realizar no momento exigido, desmontando o encantamento em que ela apostava. As situações viravam tragédias, pois Anny irritava-se profundamente com o namorado.

No reencontro, depois de tantos anos, descobre que Anny não buscava mais os “momentos perfeitos”, assim como ele havia desistido de viver “aventuras”; os dois haviam perdido o sentido alienante de seu ser anterior. Anny experimentava-se tão esvaziada quanto ele, chegando a afirmar: “sobrevivo a mim mesma”. Descobrem, no entanto, que nada mais há que um possa mediar para o outro. Enquanto viviam aprisionados na espontaneidade, na vivência do “aqui e agora”, um dava suporte para a alienação do outro, mas agora, nada podem fazer mutuamente. Anny diz que ele lhe é indispensável, pois enquanto ela muda, ele fica fixo, imutável, servindo-lhe de marco de referência. Antoine constata que ela não o compreende, não o enxerga, não consegue ver nada a não ser a si mesma. Realmente, não é mais possível resgatar nada dessa relação. Roquentin não ficou arrasado por deixá-la, já que ela nada mais tem a lhe oferecer; no entanto, experimentou um grande medo de voltar à solidão. Após seu encontro com Anny, Roquentin desfez-se de sua última amarra com o passado.

Libertação

Está finalmente liberto de seus impasses com sua história, desfez-se de uma dinâmica de ser que, na espontaneidade, sem compromisso com coisa alguma, o impeliu para a solidão e para a falta de sentido existencial. Essa situação tornou-se de tal modo insuportável, concretizando-se numa espécie de psicopatologia, que o lançou a experimentar distúrbios psicofísicos - a náusea. Seu diário narra a apropriação de seus impasses, o enfrentamento de suas dificuldades. Roquentin teve o esvaziamento de seu projeto de ser questionado até a raiz – nada mais lhe fazia sentido. “Agora, quando digo ‘eu’, isso me parece oco. Já não consigo muito bem me sentir, de tal modo que estou esquecido. Tudo o que resta de real em mim é existência que se sente existir. Antoine Roquentin não existe para ninguém. É algo abstrato” (SARTRE, 2000, p.247).
O que fazer de sua vida? O que fazer de seu ser?

A angústia não o larga. Tem dinheiro e é jovem, pois só tem trinta anos, o que fazer de sua existência? Decide ir embora para Paris. Mas o que fazer por lá? Ir ao cinema? Passear nos jardins? Freqüentar as bibliotecas? Nada disso o afastará do tédio. Precisa encontrar um sentido para sua existência.

Percepção

Será novamente a mesma música que o arrancará do impasse, do vazio de ser. Escuta-a uma última vez, no café, antes de partir para Paris. A voz canta: some of these days... Na música nada é demais, ela simplesmente é; como ele também quis ser. Aliás, ele somente quis isso, eis a chave de sua vida. Agora percebe que é um simples sujeito, sentando no banco de um café, escutando aquela melodia. Através dela entra na realidade, ela o faz ver a importância que tem preencher o mundo, dar sentido à sua vida. A cantora espalha sua bela voz pelo ar... Antoine compreende, finalmente, a função da canção, que é a de justificar a existência da cantora. Aos poucos vai percebendo que também precisa fazer algo de concreto no mundo que justifique sua existência. Não seria uma canção, pois nada entende disso, mas quem sabe um livro, pois o que sabe fazer é escrever. Não poderá ser um livro de história, porque isso fala do que já existiu; mas um romance de aventura, que por trás das palavras façam surgir algo acima da existência. Reflete: “chegaria o momento em que o livro estaria escrito, estaria atrás de mim, e creio que um pouco de claridade iluminaria meu passado. Então, talvez através dele eu pudesse evocar minha vida sem repugnância (...) E conseguiria – no passado, somente no passado – me aceitar” (SARTRE, 2000, p.258). Roquentin consegue, enfim, redefinir seu projeto. Será um escritor! Um escritor de romances de aventura. As aventuras não são mais do que narrativas de alguém. È isso o que fará, contará aventuras, atingindo os leitores de diferentes maneiras, perpetuando-se através dessas narrativas.

Sua existência ganha sentido novamente. Agora pode encarar sua história, seu passado, admitir sua temporalidade. Consegue, com isso, superar seus impasses psicológicos, colocando-se como uma totalização em curso, corpo/consciência em direção a um futuro. Está inteiro para retomar sua existência, agora justificada, no sentido de estar indo em direção a um fim, a um projeto de ser. Poderíamos dizer, em uma linguagem clínica, que Antoine “curou-se”, no sentido de ter esclarecido seu projeto, suas estratégias de ser, tomando sua história em suas próprias mãos, superando seus sintomas psicofísicos.

Mediação

A canção exerceu, no romance, importante função terapêutica (MOUTINHO, 1995). Foi ela a mediadora das reflexões críticas de Roquentin, que lhe permitiram superar as perturbações psicofísicas, as emoções (náusea), os impasses psicológicos – que nada mais eram do que expressões da perda de sentido de ser, engendrada pela espontaneismo e pela solidão em que se lançara – viabilizando a redefinição de seu projeto.

Verificamos, assim, que La Nausée é a descrição de um processo psicoterapêutico: no início, Roquentin, enredado em experimentações psicofísicas que o amedrontam, na medida em que não compreende seus significados, vai aos poucos, porém, compreendendo que elas são resultantes de seu tédio existencial, de sua solidão. Essa situação coloca-o frente a frente com sua história, frente a frente com a existência injustificada dos objetos e entes em geral. Ao compreender que o que havia feito de sua vida - viver aventuras - o levara ao “vazio de ser”, pois vivera uma existência puramente espontânea e descomprometida, sem nenhuma amarra sociológica e, por isso mesmo, injustificada, experimentando-se na mais completa solidão, que o levava a referir seu “eu” como se fosse “oco”. Antoine vai, passo a passo, libertando-se de sua alienação. Realiza um processo que lhe possibilita redefinir seu projeto, recolocar sua existência em um novo patamar. A definição de ser um escritor de romances o leva a lançar-se para o mundo em uma nova perspectiva, fincando raízes em Bouville, modificando sua relação com os outros. Ao final do livro consegue unificar sua história em um projeto, totalizar passado/presente/futuro, ganhando consistência ontológica e, assim, sentido em seu ser.
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terça-feira, 1 de março de 2016

OFICINA

Oficina ‘O Artista Realizador’
Com Tárik Puggina

De 28 de março a 01 de abril na Sede das Cias

A oficina objetiva estimular criadores teatrais de todas as áreas a desenvolverem seus projetos cênicos pessoais; apontar caminhos para realização desses projetos; desmistificar a produção; auxiliar no desenvolvimento de habilidades em produção; proporcionar o conhecimento de ferramentas de gestão/produção; análise de um ‘case’ (projeto) por aluno - individualmente.

Público-alvo: atores, atrizes, diretores, dramaturgos, iluminadores, cenógrafos, figurinistas, técnicos e produtores.

SOBRE TÁRIK PUGGINA
É ator e produtor cultural, especializado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ) com MBA em Gestão e Produção Cultural. Bacharelado em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UNIRIO). Sócio da Nevaxca Produções. Indicado ao Prêmio APTR 2014 na categoria Melhor Produção pelo espetáculo “Conselho de Classe”. No Prêmio Shell 2014 teve o projeto, idealizado por ele e Ivan Sugahara, da Sede das Cias, indicado na categoria Inovação “pela dinamização do espaço com uma proposta inovadora de ocupação”.

SERVIÇO
Período: 28/03 a 01/04
Horário: Segunda a Sexta das 09h às 13h
Local: Sede das Cias (Rua Manuel Carneiro, 12 - Escadaria Selarón – Lapa)
Informações: (21) 2137-1271 (a partir de 14 horas)
Valor: R$200,00
Participantes: mínimo 10



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OFICINA

Oficina Prática de Dramaturgia
Com Renata Mizrahi

De 12 a 26 de março na Sede das Cias

Uma oficina prática que visa estimular a escrita dramatúrgica para teatro através de cenas curtas pautadas por temas contemporâneos, em diferentes gêneros. A proposta é, através de leituras de textos clássicos e contemporâneos, discussão sobre a dramaturgia universal e exercícios  de dramaturgia em aula, cada aluno produzir uma curta, incentivando a reflexão sobre a estrutura clássica, motivação da personagem e a importância de diálogos criativos. O objetivo da oficina é dar noções básicas de dramaturgia, afim de estimular a escrita. Com o estudo e discussão, cada aluno produzirá uma cena curta, ou esquetes, orientada por Renata.

SOBRE RENATA MIZRAHI
Renata Mizrahi é dramaturga, roteirista e diretora. Formada em Artes Cênicas pela UNIRIO, integra a companhia Teatro de Nós. No teatro, ganhou o Prêmio Shell 2014 de melhor texto por Galápagos. Pela mesma peça foi indicada ao Prêmio APTR 2014 e ao Prêmio Cesgranrio 2014. Em 2015 a peça doi lida em Nova York, na Cuny University, através do Evento, Brazilians Contemporary Dramas. Escreveu “Silêncio!” e também foi indicada ao Prêmio Cesgranrio 2014, ao Prêmio FITA 2014 e ao Prêmio do Site Botequim Cultural.

Ganhou os prêmios Zilka Salaberry de Melhor Texto em 2012 e 2010 pelas peças “Coisas que a gente não vê” e “Joaquim e as estrelas”. Foi indicada aos prêmios FITA 2013 e Cesgranrio 2013 de Melhor Texto pela sua peça adulta “Os sapos.” Pela mesma peça também foi indicada na FITA 2013 ao prêmio Revelação de Melhor Direção ao lado de Priscila Vidca. A peça recebeu os prêmios de Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante no mesmo festival. A peça também recebeu uma versão para curta metragem em 2011, com direção de Clara Linhart. Em 2013, também foi indicada ao Prêmio Zilka Salaberry 2013 pelo texto “Nadistas e tudistas”, com direção de Daniel Herz. 
Em outubro 2014, sua peça curta “Isso é Apenas Uma Cena Curta” é encenada em Londre no Theatre503, dentro do Festival Red Likes Embers. Em 2015 estreou WAR, com direção de Diego Molina.

Escreveu, com Jô Bilac, a comédia “Bette Davis e a máquina de Coca-Cola”, da Companhia Teatro de Nós, com direção de Diego Molina, que estreou em 2012. Nesse mesmo ano, estreou “Caixa de Phósphorus”, com direção de Susanna Kruger. Outras peças encenadas: “O Jardim secreto”, direção de Rafaela Amado e Mariah Stuart; “Sarau das putas”, direção de Ivan Sugahara; “Momo e o senhor do tempo”, direção de Cristina Moura; “Nada que eu disser será suficiente até que o sol se ponha”, direção de Diego Molina (2006-2008); “Um dia Anita” (com Julia Spadaccini), direção de Diego Molina (2007-2009); “Rua dos sonhadores”, direção de Diego Molina (2007/2008); “Lar…” (com Fernando Caruso e César Amorim), direção de Diego Molina e Vinícius Arneiro (2007-2008). Fez a adaptação dos livros “Uma janela em Copacabana” de Luiz Alfredo Garcia Rosa, com direção de José Joffily. Fez adaptação de “Memórias de um rato” de João do Rio; e da peça “As you like it”, de Shakespeare, ambas com direção de César Augusto. É professora e orientadora de dramaturgia do projeto “Manguinhos em cena”, na Biblioteca Parque de Manguinhos, coordenado pela Companhia do Gesto.

SERVIÇO
Período: 12 a 26/03
Horário: Sábados das 14h às 18h
Local: Sede das Cias (Rua Manuel Carneiro, 12 - Escadaria Selarón – Lapa)
Informações: (21) 2137-1271 (a partir de 14 horas)
Valor: R$200,00
Participantes: mínimo 10



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OFICINA

Oficina Gratuita de Corpo
Com Claudia Mele

De 13 de março a 03 de abril na Sede das Cias

A oficina propõe uma pesquisa prática por diferentes estados de presença, para que o ator, individualmente ou no coletivo, possa adquirir maior domínio e consciência destes estados. Através dos conceitos básicos do Sistema de Chakras e exercícios específicos para o trabalho do ator, a oficina estimulará o aluno a adquirir consciência dos seus canais de energia, para maior atenção, escuta e criatividade, assim como, maior entendimento de seus padrões físicos, emocionais e mentais. Cada chakra será trabalhado individualmente motivando o aluno à criação de sequências de movimentos e cenas a partir da compreensão destes pontos energéticos.

Os chakras são centros organizacionais, distribuídos pelo corpo, para recepção, assimilação e transmissão de energia vital. Em sua pesquisa de dissertação de mestrado em Artes Cênicas, Claudia Mele elaborou sequências de exercícios para a estimulação de cada chakra e a harmonização dos sete chakras principais - que passam pelo centro corpo, na extensão da coluna vertebral - responsáveis pela nossa saúde física, mental e espiritual.


SOBRE CLAUDIA MELE
Claudia Mele  Mestre em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) com o tema:“Práticas para estado de presença do ator-performer”, Graduada em Licenciatura em Dança e pós-graduada em Preparação Corporal nas Artes Cênicas pela Faculdade Escola Angel Vianna, é também formada, como atriz, pela CAL, em Dança Contemporânea e Recuperação Motora e Terapia Através da Dança pela Escola Angel Vianna. Professora do curso de formação de ator e da Faculdade da CAL e da Pós-Graduação Lato Sensu em Preparação Corporal nas Artes Cênicas da Faculdade Angel Vianna.

Público alvo: estudantes, profissionais de teatro, cinema ou literatura ou ator/diretor.
Idade indicativa: 17 anos
Material solicitado: currículo, carta de intenção e foto


SERVIÇO
Período: 13/03 à 03/04
Horário: Domingos das 14h30 às 17h30
Local: Sede das Cias (Rua Manuel Carneiro, 12 - Escadaria Selarón – Lapa)
Informações: (21) 2137-1271 (a partir de 14 horas)
Valor: Gratuito
Participantes: 30 no máximo


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OFICINA

Oficina ‘Narrativa Física Solo’
Com Julio Adrião

De 21 a 25 de março na Sede das Cias

De 21 a 25 de março a Sede das Cias oferece a Oficina “Narrativa Física Solo” com Julio Adrião, ator do espetáculo solo A descoberta das Américas, de Dario Fo – Prêmio Shell 2005 de melhor ator. A oficina traz uma pesquisa prática sobre o trabalho de criação do ator no solo narrativo, com enfoque na expressão física. Uma metodologia para a fabulação, com corpo e voz em função da narração, onde mais importante que decorar o texto é conhecer a estória. O ator conta e faz a ação, tornando-se autor do texto falado e das ações que narram a estória.

Público-alvo: Para atores interessados em uma experimentação desarmada, sob uma observação generosa e autodisciplina.


SOBRE JULIO ADRIÃO
É carioca, ator, produtor e diretor teatral.
Formado pela CAL em 1987, trabalhou seis anos na Itália com treinamento físico do ator. Desde sua volta ao Brasil, dirigiu espetáculos e integrou o trio cômico Cia. do público até 2002. Com diversas participações em longas no cinema e séries na TV, ganhou o Prêmio Shell/RJ de melhor ator em 2005, com o solo narrativo A descoberta das Américas, de Dario Fo. Desde 2007, ministra a oficina Narrativa física solo.

SERVIÇO
Período: 21 a 25/03
Horário: Segunda a sexta das 09h às 13h
Local: Sede das Cias (Rua Manuel Carneiro, 12 - Escadaria Selarón – Lapa)
Informações: (21) 2137-1271 (a partir de 14 horas)
Valor: R$300,00
Participantes: 20 no máximo



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OFICINA

Oficina de Interpretação
Com Daniel Herz

De 07 a 17 de março na Sede das Cias

De 07 a 17 de março a Sede das Cias oferece a Oficina de Interpretação ministrada por Daniel Herz.  O ator, diretor e dramaturgo, fez seu primeiro trabalho como ator profissional na peça “Doente imaginário”, de Molière, em 1984. Desde então atua em diversas montagens como: “Graffite Coração”, de Bernardo Horta; “Nossa Senhora das Flores”, de Jean Genet; “A Geração Trianon”, de Anamaria Nunes; “Perigo de vida”, de Regina Miranda; “O Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda”, de Celso Lemos; “A Cada vez que se Conta Dele”, de Bruno Lara Rezende; “O Jovem Torless”, de Robert Musil, entre outras. Em 1988, recebeu indicação para o Prêmio MINC Troféu Mambembe como melhor ator por sua atuação em “João e Maria”, de Anamaria Nunes. Desde 1988 dá aulas de teatro na Casa de Cultura Laura Alvim. Desde 1992 dirige a Cia. Atores de Laura, que em 2000 passa a administrar o Teatro Miguel Falabella.

Destaca-se como encenador nas últimas duas décadas, tendo recebido prêmios de melhor direção pelos espetáculos “Romeu e Isolda” (1996), “Decote” (1997), “A flauta mágica” (2000), “As artimanhas de Scapino” (2002). Em 2000 encenou no CCBB “Esplêndidos”, peça rejeitada por Jean Genet, que até então só havia sido montada na França e na Inglaterra.
É responsável igualmente pela direção de “Zastrozzi”, de George Walker, que compartilhou com o protagonista Selton Mello (2002), “Otelo da Mangueira”, de Gustavo Gasparani (2006) e “Tom e Vinicius – o musical”, de Daniela Pereira e Eucanaã Ferraz, em cartaz no Rio de Janeiro em 2009.

Prêmios e indicações:
1988- Indicação para o Prêmio MINC Troféu Mambembe de melhor ator
1995- Indicação para o Prêmio Coca-Cola de Teatro Jovem na categoria melhor texto e de melhor direção. Espetáculo “Cartão de embarque”
1996– Prêmio Coca-Cola de Teatro Jovem na categoria melhor direção Espetáculo “Romeu e Isolda”
1997– Prêmio Coca-Cola de Teatro Jovem nas categorias de melhor direção, melhor texto e melhor espetáculo – “Decote”
1997– Prêmio de melhor direção no IV Festival de Teatro de Resende
2000– Indicado para o Prêmio Coca-Cola de Teatro na categoria de melhor direção. Espetáculo “A flauta mágica”
2000– Prêmio Coca-Cola de Teatro nas categorias melhor espetáculo infantil e melhor produção
2002– Prêmio Qualidade BR de melhor direção e de melhor espetáculo
2002– Indicado no Prêmio Shell de melhor direção
Livros publicados
A Entrevista seguido de Cartão de Embarque. Editora Relume-Dumará
Decote seguido de Romeu e Isolda. Editora Garamond.

SERVIÇO
Período: 07 a 17/03 (8 encontros)
Horário: Segunda a quinta das 10h às 13h
Local: Sede das Cias (Rua Manuel Carneiro, 12 - Escadaria Selarón – Lapa)
Informações: (21) 2137-1271 (a partir de 14 horas)
Valor: R$400,00
Participantes: 30 no máximo
Ouvintes: 20 no máximo



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