Teatro/CRÍTICA
"Mulheres à beira de um ataque de nervos - O Musical"
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Montagem imperdível no Oi Casa Grande
Lionel Fischer
"No palco, a história de três mulheres com problemas amorosos se cruza e revela toda a complexidade dos relacionamentos e da vida feminina. Pepa, atriz que guarda em segredo sua gravidez, é abandonada pelo amante e se vê perdida. Candela, sua melhor amiga, se apaixona por um terrorista e decide pedir ajuda a sua confidente temendo parar na cadeia como cúmplice. Lúcia, mulher do amante de Pepa, resolve se vingar do ex-marido nos tribunais depois depois de ter sido deixada por ele. O resultado é um dia conturbado de encontros e desencontros."
Extraído do ótimo release que me foi enviado, o trecho acima resume o enredo de "Mulheres à beira de um ataque de nervos - O Musical", comédia musical baseada no filme homônimo de Pedro Almodóvar, em cartaz no Teatro Oi Casa Grande. Jeffrey Lane responde pelo texto e David Yazbek pela música e letras, sendo a versão brasileira e direção assinadas por Miguel Falabella. No elenco, Marisa Orth, Stella Miranda, Juan Alba, Helga Nemeczyk, Daniel Torres, Ivan Parente, Erika Riba, Carla Vazquez, Bruna Pazinato, Clara Verdier, Giovana Zotti, Nay Fernandes, Tassia Cabanas, Arízio Magalhães, Betto Marque, Carlos Leça, Frank Tavantti, Kiko do Valle e Oscar Fabião.
Não assisti ao espetáculo na Broadway, e portanto não tenho como avaliar sua eficácia e menos ainda compará-lo com o que está em cartaz no Rio de Janeiro, após ótima temporada em São Paulo. Mas não tenho a menor dúvida de que a atual versão nada fica a dever à norte-americana, pelo simples fato de ter a chancela de Miguel Falabella. Especialista no gênero e responsável (ao lado de Charles Möeller e Claudio Botelho) pelos melhores musicais levados à cena no Brasil, Falabella valoriza ao máximo o divertido, contundente e profundamente humano texto de Jeffrey Lane, embalado pelas excelentes canções de David Yazbek.
Tal valorização se dá não apenas em função de marcações criativas e imprevistas, assim como de irretocável precisão no que diz respeito aos tempos rítmicos, mas também, e sobretudo, pela extraordinária capacidade de Falabella de compreender que o risível e o trágico devem ser levados igualmente a sério. Em mãos inadequadas, este texto poderia virar uma lamentável comédia pastelão. No entanto, aqui se dá o oposto: estamos diante de personagens que vivem intensamente todas as suas emoções, e se deles muitas vezes rimos, não é porque façam graça, mas porque as paixões, dada a sua natureza arrebatada e não raro paroxística, costuma fugir por completo ao controle. E tudo o que foge ao controle acaba sendo um tanto engraçado - ao menos para quem observa...
Na pele da protagonista Pepa, Mariza Orth reafirma seus extraordinários dotes interpretativos. Capaz de fazer qualquer papel, seja qual for o gênero, aqui a atriz investe profundamente no drama vivido pela personagem, abstendo-se de tentar extrair comicidade quando o que importa é o sofrimento verdadeiro e visceral de Pepa. E se algumas vezes rimos do que acontece com a personagem, isto se deve às bizarras situações em que ela se vê metida, e não em uma patética tentativa da atriz de, digamos assim, "ganhar a plateia". Até por que Mariza Orth já ganhou todas as plateias (no cinema, na televisão e no teatro) desde que optou por ser atriz. Assim, só me resta agradecer o privilégio de, mais uma vez, vê-la em cena atuando e cantando esplendidamente, e desejar aos sempre caprichosos deuses do teatro que continuem abençoando sua maravilhosa trajetória artística.
Outro desempenho notável é o de Stella Miranda. Na pele da desvairada e intempestiva Lúcia, a atriz responde pelos momentos mais engraçados do espetáculo. Comediante por excelência, possuidora de belíssima voz e imenso carisma, Stella convence plenamente tanto nas canções que interpreta quanto nas passagens em que o texto predomina. Sob todos os pontos de vista, uma das performances mais brilhantes da atual temporada.
Helga Nemeczyk mostra-se inteiramente à vontade vivendo a simplória e frágil Candela, o mesmo aplicando-se a Juan Alba (que dá vida ao simpático sedutor Ivan), a Daniel Torres (que interpreta Carlos, o dominado filho de Lúcia) e Ivan Parente (narrador da história e proprietário do psicodélico táxi). Quanto aos demais, todos também exibem ótimas vozes e irrepreensíveis performances nas coreografias, contribuindo decisivamente para o incontestável êxito do espetáculo.
Com relação à equipe técnica, considero irrepreensíveis as maravilhosas contribuições de todos os profissionais envolvidos nesta divertida e lúdica produção teatral - André Cortada (direção musical), Fernanda Chamma (direção de movimento e coreografias), J.C. Serroni (cenografia), Fábio Namatame (figurinos), Dicko Lorenzo (visagismo), Drika Matheus (iluminação), Rico Vilarouca e Renato Vilarouca (videografismo e projeções), e Luciana Ferraz e Otavio Juliano (vídeos de cena). Cumpre também destacar a preciosa colaboração dos músicos André Cortada (regência e teclado 3), Andrei Presser (teclado 1), Claudia Elizeu (teclado 2), Anderson Oliveira (bateria), Raphael Coelho (percussão), Deco Araújo (guitarra) e Gabriel Conti (baixo).
MULHERES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS - O MUSICAL - Texto de Jeffrey Lane. Música e letras de David Yazbek. Versão brasileira e direção de Miguel Falabella. Com Mariza Orth, Stella Miranda e grande elenco. Teatro Oi Casa Grande. Sexta, 21h. Sábado, 17h30 e 21h30. Domingo, 17h30.
segunda-feira, 14 de março de 2016
segunda-feira, 7 de março de 2016
Teatro/CRÍTICA
"Dorotéia"
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Obra de Nelson em impecável versão
Lionel Fischer
"Dorotéia, ex-prostituta que largou a profissão depois da morte do filho, vai morar na casa de suas primas, três viúvas puritanas e feias que não dormem para não sonhar e, portanto, condenadas à desumanização e à negação do corpo, dos sentimentos e da sexualidade. Dorotéia, linda e amorosa, nega o destino e entrega-se aos prazeres sexuais. Este é seu crime, e por ele pagará com a vida do filho buscando a sua remissão".
Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima resume o enredo de "Dorotéia", de Nelson Rodrigues, em cartaz no Teatro Tom Jobim. Jorge Farjalla assina a direção do espetáculo, estando o elenco formado por Letícia Spiller (Dorotéia), Rosamaria Murtinho (Dona Flávia), Alexia Deschamps (Maura), Anna Machado (Maria das Dores), Jacqueline Farias (Carmelita) e Dida Camero (Dona Assunta), que dividem a cena com os atores-músicos (aqui chamados Homens Jarro) Fernando Gajo, Pablo Vares, André Américo, Du Machado, Daniel Veiga Martins e Rafael Kalil.
Definida pelo autor como "uma farsa irresponsável", não sei até que ponto a peça é realmente uma farsa e menos ainda se é responsável ou não. Tampouco poderia afirmar que Nelson Rodrigues, ao menos em alguma medida, tenha se inspirado nas Fúrias da Mitologia Grega - três figuras femininas de negro e usando máscaras, aterrorizantes e hieráticas, personagens da "Oréstia", de Ésquilo. Mas me parece irrefutável que neste texto estão presentes alguns temas recorrentes na obra do autor, como castidade, pudor, culpa, repressão etc. E se tais temas pudessem aqui ser resumidos numa única frase, esta poderia ser a seguinte: a solidão vil do sexo sem amor.
Toda a ação transcorre numa casa sem quartos, o que soa coerente, já que uma das personagens afirma que "é no quarto que a alma e a carne se perdem", embora todos saibamos que tanto nossa alma, quanto nossa carne, podem se perder em diversificadas geografias. Mas aqui o quarto passa a ser uma espécie de símbolo do pecado, da transgressão, da ausência de pureza, de todas as possíveis e condenáveis tentações.
Outro dado interessante diz respeito à identidade de Dorotéia. Na família existiram duas: uma teria se afogado, por não suportar o conhecimento de que "por dentro de seu vestido estava um corpo nu"; a outra perdeu-se, tornou-se prostituta. Finalmente: qual das duas é a que está em cena? Acaba-se sabendo que é a ex-prostituta, que perdeu um filho e agora deseja trilhar o caminho da virtude. Mas é belíssima, enquanto todas as mulheres da família são medonhas. E para se chegar à virtude, há que se matar a beleza...
E por último: a bisavó das primas, em sua noite de núpcias, fora acometida pela Náusea. Ou seja: na hora em que a onça deveria beber água, teria sido possuída por uma total repulsa ao sexo, sendo esta, a partir de então, transmitida a toda sua descendência feminina. Em resumo: um contexto bem mais adequado a um estudo psicanalítico do que propriamente à avaliação de um crítico teatral...mas sigamos.
Provavelmente, este não é um dos melhores textos de Nelson Rodrigues, mas nem por isso destituído de interesse, sobretudo quando levado à cena de forma não convencional e corajosa, como acontece na presente montagem. Esta exibe, dentre outros méritos, o de materializar de forma brilhante alguns símbolos, sendo o mais expressivo os já mencionados Homens Jarro, que talvez possam ser interpretados como os muitos homens que passaram pela vida da ex-prostituta. Esta espécie de coro fálico permeia toda a montagem, executando ao vivo todas as canções e sons do espetáculo. Além disso, Farjalla impõe à cena uma dinâmica ao mesmo tempo ritualística e claustrofóbica, valorizando todos os conteúdos através de marcações de grande expressividade. E, mérito suplementar, o encenador extrai ótimas atuações de todo o elenco.
Na pele de Dorotéia, Letícia Spiller exibe performance irretocável, tanto nas passagens mais angustiadas quanto naquelas em que, renunciando momentaneamente à pretendida pureza, a personagem permite o aflorar de sua imensa sensualidade. O mesmo se aplica a Rosamaria Murtinho: possuidora de ótima voz e forte presença cênica, a atriz comemora em grande estilo seus 60 anos de carreira, construindo uma Dona Flávia irresistível em seus histéricos furores. Alexia Deschamps (Maura) e Jacqueline Farias (Carmelita) estão muito bem vivendo as irmãs mais novas da desvairada matriarca, com Anna Machado exibindo ótima performance vocal e corporal na pele de Maria das Dores. Quanto a Dida Camero, a atriz, como de hábito, e felizmente, sempre que surge em cena o faz com o assombroso vigor das grandes tempestades.
Na equipe técnica, José Dias responde por belíssima cenografia, cabendo destacar as árvores e galhos que envolvem o espaço, como a sugerir uma densa e tenebrosa floresta que sufoca os impulsos mais viscerais inerentes à vida. Também considero irrepreensíveis os figurinos de Lulu Areal, de uma beleza ora exuberante, ora impregnada de morte. Finalmente, cumpre destacar a impecável direção musical de JP Mendonça , que reforça de forma contundente todas as emoções em causa e a performance dos ótimos músicos.
DOROTÉIA - Texto de Nelson Rodrigues. Direção de Jorge Farjalla. Com Letícia Spiller, Rosamaria Murtinho, Alexia Deschamps, Dida Camero, Anna Machado e Jacqueline Farias. Teatro Tom Jobim. Quinta a sábado, 21h. Domingo, 20h.
"Dorotéia"
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Obra de Nelson em impecável versão
Lionel Fischer
"Dorotéia, ex-prostituta que largou a profissão depois da morte do filho, vai morar na casa de suas primas, três viúvas puritanas e feias que não dormem para não sonhar e, portanto, condenadas à desumanização e à negação do corpo, dos sentimentos e da sexualidade. Dorotéia, linda e amorosa, nega o destino e entrega-se aos prazeres sexuais. Este é seu crime, e por ele pagará com a vida do filho buscando a sua remissão".
Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima resume o enredo de "Dorotéia", de Nelson Rodrigues, em cartaz no Teatro Tom Jobim. Jorge Farjalla assina a direção do espetáculo, estando o elenco formado por Letícia Spiller (Dorotéia), Rosamaria Murtinho (Dona Flávia), Alexia Deschamps (Maura), Anna Machado (Maria das Dores), Jacqueline Farias (Carmelita) e Dida Camero (Dona Assunta), que dividem a cena com os atores-músicos (aqui chamados Homens Jarro) Fernando Gajo, Pablo Vares, André Américo, Du Machado, Daniel Veiga Martins e Rafael Kalil.
Definida pelo autor como "uma farsa irresponsável", não sei até que ponto a peça é realmente uma farsa e menos ainda se é responsável ou não. Tampouco poderia afirmar que Nelson Rodrigues, ao menos em alguma medida, tenha se inspirado nas Fúrias da Mitologia Grega - três figuras femininas de negro e usando máscaras, aterrorizantes e hieráticas, personagens da "Oréstia", de Ésquilo. Mas me parece irrefutável que neste texto estão presentes alguns temas recorrentes na obra do autor, como castidade, pudor, culpa, repressão etc. E se tais temas pudessem aqui ser resumidos numa única frase, esta poderia ser a seguinte: a solidão vil do sexo sem amor.
Toda a ação transcorre numa casa sem quartos, o que soa coerente, já que uma das personagens afirma que "é no quarto que a alma e a carne se perdem", embora todos saibamos que tanto nossa alma, quanto nossa carne, podem se perder em diversificadas geografias. Mas aqui o quarto passa a ser uma espécie de símbolo do pecado, da transgressão, da ausência de pureza, de todas as possíveis e condenáveis tentações.
Outro dado interessante diz respeito à identidade de Dorotéia. Na família existiram duas: uma teria se afogado, por não suportar o conhecimento de que "por dentro de seu vestido estava um corpo nu"; a outra perdeu-se, tornou-se prostituta. Finalmente: qual das duas é a que está em cena? Acaba-se sabendo que é a ex-prostituta, que perdeu um filho e agora deseja trilhar o caminho da virtude. Mas é belíssima, enquanto todas as mulheres da família são medonhas. E para se chegar à virtude, há que se matar a beleza...
E por último: a bisavó das primas, em sua noite de núpcias, fora acometida pela Náusea. Ou seja: na hora em que a onça deveria beber água, teria sido possuída por uma total repulsa ao sexo, sendo esta, a partir de então, transmitida a toda sua descendência feminina. Em resumo: um contexto bem mais adequado a um estudo psicanalítico do que propriamente à avaliação de um crítico teatral...mas sigamos.
Provavelmente, este não é um dos melhores textos de Nelson Rodrigues, mas nem por isso destituído de interesse, sobretudo quando levado à cena de forma não convencional e corajosa, como acontece na presente montagem. Esta exibe, dentre outros méritos, o de materializar de forma brilhante alguns símbolos, sendo o mais expressivo os já mencionados Homens Jarro, que talvez possam ser interpretados como os muitos homens que passaram pela vida da ex-prostituta. Esta espécie de coro fálico permeia toda a montagem, executando ao vivo todas as canções e sons do espetáculo. Além disso, Farjalla impõe à cena uma dinâmica ao mesmo tempo ritualística e claustrofóbica, valorizando todos os conteúdos através de marcações de grande expressividade. E, mérito suplementar, o encenador extrai ótimas atuações de todo o elenco.
Na pele de Dorotéia, Letícia Spiller exibe performance irretocável, tanto nas passagens mais angustiadas quanto naquelas em que, renunciando momentaneamente à pretendida pureza, a personagem permite o aflorar de sua imensa sensualidade. O mesmo se aplica a Rosamaria Murtinho: possuidora de ótima voz e forte presença cênica, a atriz comemora em grande estilo seus 60 anos de carreira, construindo uma Dona Flávia irresistível em seus histéricos furores. Alexia Deschamps (Maura) e Jacqueline Farias (Carmelita) estão muito bem vivendo as irmãs mais novas da desvairada matriarca, com Anna Machado exibindo ótima performance vocal e corporal na pele de Maria das Dores. Quanto a Dida Camero, a atriz, como de hábito, e felizmente, sempre que surge em cena o faz com o assombroso vigor das grandes tempestades.
Na equipe técnica, José Dias responde por belíssima cenografia, cabendo destacar as árvores e galhos que envolvem o espaço, como a sugerir uma densa e tenebrosa floresta que sufoca os impulsos mais viscerais inerentes à vida. Também considero irrepreensíveis os figurinos de Lulu Areal, de uma beleza ora exuberante, ora impregnada de morte. Finalmente, cumpre destacar a impecável direção musical de JP Mendonça , que reforça de forma contundente todas as emoções em causa e a performance dos ótimos músicos.
DOROTÉIA - Texto de Nelson Rodrigues. Direção de Jorge Farjalla. Com Letícia Spiller, Rosamaria Murtinho, Alexia Deschamps, Dida Camero, Anna Machado e Jacqueline Farias. Teatro Tom Jobim. Quinta a sábado, 21h. Domingo, 20h.
quarta-feira, 2 de março de 2016
O que é a
teoria do caos?
É uma das leis mais importantes do Universo, presente na essência de
quase tudo o que nos cerca. A idéia central da teoria do caos é que uma
pequenina mudança no início de um evento qualquer pode trazer conseqüências
enormes e absolutamente desconhecidas no futuro. Por isso, tais eventos seriam
praticamente imprevisíveis - caóticos, portanto. Parece assustador, mas é só
dar uma olhada nos fenômenos mais casuais da vida para notar que essa idéia faz
sentido. Imagine que, no passado, você tenha perdido o vestibular na faculdade
de seus sonhos porque um prego furou o pneu do ônibus. Desconsolado, você entra
em outra universidade. Então, as pessoas com quem você vai conviver serão
outras, seus amigos vão mudar, os amores serão diferentes, seus filhos e netos
podem ser outros...
No final, sua vida se alterou por completo, e tudo por causa do tal
prego no início dessa seqüência de eventos! Esse tipo de imprevisibilidade
nunca foi segredo, mas a coisa ganhou ares de estudo científico sério no início
da década de 1960, quando o meteorologista americano Edward Lorenz descobriu
que fenômenos aparentemente simples têm um comportamento tão caótico quanto a
vida. Ele chegou a essa conclusão ao testar um programa de computador que
simulava o movimento de massas de ar. Um dia, Lorenz teclou um dos números que
alimentava os cálculos da máquina com algumas casas decimais a menos, esperando
que o resultado mudasse pouco. Mas a alteração insignificante, equivalente ao
prego do nosso exemplo, transformou completamente o padrão das massas de ar.
Para Lorenz, era como se "o bater das asas de uma borboleta no Brasil
causasse, tempos depois, um tornado no Texas". Com base nessas
observações, ele formulou equações que mostravam o tal "efeito
borboleta".
Estava fundada a teoria do caos. Com o tempo, cientistas concluíram que
a mesma imprevisibilidade aparecia em quase tudo, do ritmo dos batimentos
cardíacos às cotações da Bolsa de Valores. Na década de 70, o matemático
polonês Benoit Mandelbrot deu um novo impulso à teoria ao notar que as equações
de Lorenz batiam com as que ele próprio havia feito quando desenvolveu os
fractais, figuras geradas a partir de fórmulas que retratam matematicamente a
geometria da natureza, como o relevo do solo ou as ramificações de nossas veias
e artérias. A junção do experimento de Lorenz com a matemática de Mandelbrot
indica que o caos parece estar na essência de tudo, moldando o Universo.
"Lorenz e eu buscávamos a mesma verdade, escondida no meio de uma grande
montanha.
A diferença é que escavamos a partir de lugares diferentes", diz
Mandelbrot, hoje na Universidade de Yale, nos Estados Unidos. E pesquisas
recentes mostraram algo ainda mais surpreendente: equações idênticas aparecem
em fenômenos caóticos que não têm nada a ver uns com os outros. "As
equações de Lorenz para o caos das massas de ar surgem também em experimentos
com raio laser, e as mesmas fórmulas que regem certas soluções químicas se
repetem quando estudamos o ritmo desordenado das gotas de uma torneira",
afirma o matemático Steven Strogatz, da Universidade Cornell, nos Estados
Unidos. Isso significa que pode haver uma estranha ordem por trás de toda a
imprevisibilidade. Só a continuação das "escavações" pode resolver o
mistério.
Imprevistos decisivosA idéia central da tese é que pequenas
alterações numa situação trazem efeitos incalculáveis
1. A essência da teoria do caos é que uma mudança muito pequena nas
condições iniciais de uma situação leva a efeitos imprevisíveis. É o que
acontece nesse exemplo hipotético, em que uma menina brinca despreocupadamente
com sua bola. Parece uma situação sem grandes conseqüências, mas...
2. ... uma borboleta surpreende a garotinha! Pronto: apareceu a tal
"pequena alteração nas condições iniciais". Com o susto, ela deixa a
bola cair
3. A bola vai rolando em direção à estrada e a menina corre atrás para
recuperá-la. Enquanto isso, um caminhão carregado de sal está passando por ali
4. Para não atropelar a menina, o motorista vira o volante subitamente.
Mas o caminhão não agüenta a manobra e tomba. O veículo começa a pegar fogo
5. Todo o suprimento de sal começa a torrar. A fumaça do incêndio está
carregada de minúsculas partículas de cloreto de sódio, que sobem para as
nuvens
6. Nas nuvens, as partículas de cloreto de sódio atraem pequenas
gotinhas de vapor d’ água e começam a formar gotas de chuva,
que crescem até terem peso suficiente para cair
7. Com as nuvens
pesadas, começa a chover depois de algum tempo. Ou seja, a brincadeira inocente
da menina, no fim, produziu uma alteração imprevisível nas condições
climáticas!
Geometria reveladoraGráficos indicam quando um evento é
caótico
Cientistas traduzem o movimento de um objeto ou de um sistema dinâmico
como a atmosfera em gráficos abstratos, chamados de atratores. Dependendo do
desenho que surge, dá para saber se um determinado acontecimento é previsível
ou não
Ponto imóvel
O gráfico abstrato de algo estático, como uma bolinha de gude parada, é
um simples ponto. Basta pensar um pouco: se não houver uma força externa, como
alguém que resolva empurrá-la, a bolinha sempre vai estar ali e o ponto isolado
indica essa ausência de movimento
Movimento previsível
No caso de um pêndulo, que se move harmonicamente, o gráfico do
movimento tem formato espiral. Isso indica que ele se movimentará por um certo
tempo até parar. Dependendo da força inicial, dá para saber exatamente quando e
onde isso vai acontecer
Caos total
As equações que
explicam o comportamento de eventos imprevisíveis dão origem a gráficos
conhecidos como fractais, figuras de geometria maluca e detalhes infinitos. O
desenho acima é a representação artística do gráfico que indica o movimento das
massas de ar
TEXTO PARA ESTUDO
No
momento não estou
de Elisa Lucinda
Olhando a cara dos dias, vejo como é sórdida tua secretária eletrônica:
Ela mente pra mim na mesma tônica: doublé de seu medo...Vou te contar um
segredo: Eles venceram. Venceu a mesquinharia, a pequeneza, a teoria rasa, a
safadeza...No meio da luta, você preferiu ser o nêgo filho da puta da história
que escreveram pra você encenar, da promessa que fizeram pra você cumprir, pra
você pagar. Essa noite, sua covardia repete o açoite: aceita a mesma escravidão
pra te enganar. Ai, como é mórbida tua secretária eletrônica, roubou meu batom
e no mesmo tom me diz que você não está. Como uma armadilha de sonora trilha,
pede um recado após o sinal...Não dou! Antes disso terá um longo curto-circuito
entre as pernas, essa tua secretária calhorda, essa tua secretária moderna, tão
sonsa, tão palerma. Ligada por ti pra te sacanear! Acionada por ti pra te
carear os dentes da alma e depois te pede pra sorrir pra sua própria demência.
Uma ridícula dona de casa chamada Ausência!
*
* *
Sugestão para estudo:
Talvez seja correto afirmar que Elisa Lucinda escreve poesias para
serem ouvidas, tamanha é a teatralidade nelas contida - isto não significa, bem
entendido, que não possam ser apreciadas quando apenas lidas. Assim, quase todas elas oferecem excelentes
oportunidades para um ótimo trabalho de interpretação. Esta focaliza com
sensibilidade uma série de queixas amorosas e, de quebra, investe contra esse
abominável aparelho denominado secretária
eletrônica, permanente fonte de desgostos e frustrações.
Vamos, portanto, fazer com que a poesia aconteça, imaginando quem seria
a mulher que se lamenta e acusa; em seguida, uma circunstância que confira
credibilidade ao desabafo - a personagem está sozinha, fala na secretária
eletrônica, está escrevendo uma carta?. E finalmente, trabalhar as idéias e
sentimentos com a maior carga possível de verdade e emoção. Quem sabe a pessoa
do outro lado desliga a secretária e atende? (LF)
* * *
MULHERES
Entediado, o
Senhor vaga pelo universo na esperança de que algo o surpreenda, mesmo sabendo
que nada pode surpreendê-lo, já que tudo que existe é obra da sua vontade e
segue o inexorável destino que ele próprio traçou.
Mas, ainda
assim, ele vaga.
Amaldiçoando sua onipotência, desejando
ardentemente o impossível, ou seja, se deparar com algo que, por qualquer
razão, possa ter escapado ao seu rígido controle.
Sim, Deus
vaga desesperado.
À procura de algo que o negue, de uma
centelha de revolta, mesmo que partindo da mais ínfima criatura, do menor dos
átomos, da mais insignificante das moléculas!
Mas é tudo inútil...
Então,
sentindo-se uma espécie de náufrago de si mesmo, Deus chora de raiva de seu
monumental engano: o de imaginar que poderia ser feliz em um universo isento de
espantos!
Mas até as
lágrimas de Deus acabam por secar.
E quando isso
aconteceu, Ele teve o insite!
Sim, seria
preciso inventar uma criatura inteiramente diferente de todas as outras. Uma
criatura ao mesmo tempo divertida e trágica, insolente e delicada, frágil e
transgressora. Uma criatura que jamais poderia ser totalmente apreendida, já
que estaria sempre em permanente processo de mutação.
E foi nesse
momento que Deus concebeu e deu forma à sua mais esplêndida criação: a
mulher!!! (Lionel
Fischer, aos 17 anos)
____________________
Para os homens que
amam suas mulheres
Mulher
(Woman)
Mulher
eu posso com dificuldade expressar
minhas emoções
confusas, em meus atordoamentos. Afinal
de contas,
estou eternamente em dívida para com
você.
Mulher
eu tentarei expressar os meus
sentimentos mais
íntimos e a minha gratidão, por você ter
me mostrado
o significado do sucesso.
Mulher
eu sei que
você compreende a criança que existe
dentro de mim. Por favor, lembre-se:
minha vida está em suas mãos.
Mulher
Segure-me
bem junto do seu coração, para que mesmo longe não nos afastemos. Afinal, está
escrito nas estrelas...
Mulher
Por favor,
deixe-me explicar, nunca tive a intenção de lhe causar tristeza ou dor. E
então, deixe-me dizer outra vez, outra vez e outra vez:
Eu te amo,
sim, sim
Agora e para
sempre.
(John
Lennon)
A última gravação
de Samuel Beckett
Noite, sobre a tarde, de
aqui a algum tempo. No proscênio ao centro, uma mesinha de duas gavetas que
abrem para o lado da sala. Sentado à mesa, de rosto para o público, quer dizer:
do lado oposto às gavetas, um velho de aspecto relaxado. Krapp.
Calças estreitas,
demasiado curtas, de um negro duvidoso. Colete sem mangas de um negro não menos
duvidoso e com quatro grandes bolsos. Relógio de prata, pesado e de corrente.
Camisa branca sebenta, desabotoada no pescoço, sem colarinho. Surpreendente par
de botas, de um branco encardido, remontando pelo menos a 48, muito estreitas e
bicudas.
Rosto branco. Nariz
violáceo. Cabeleira cinzenta em desordem. Mal barbeado. Muito míope (mas sem
óculos). Duro de ouvido. Voz de cana rachada muito particular. Andar laborioso.
Em cima da mesa, um
magneto fone mais o respectivo microfone e numerosas caixas de cartão com
bobinas de fita impressionada dentro.
A mesa e as imediações
banhadas em luz crua. O resto da cena na obscuridade. Krapp permanece um
momento imóvel, solta um enorme suspiro, olha para o relógio, vasculha os
bolsos, tira um sobrescrito de um deles. Torna a escondê-lo, vasculha de novo,
tira um minúsculo molho de chaves, ergue-o a altura dos olhos, escolhe uma
chave, levanta- se e caminha para a frente da mesa. Baixa- se, abre a fechadura
da primeira gaveta, espreita para dentro, mete- a na mão, tira uma bobina,
examina- a de perto, torna a escondê-la, volta a fechar a gaveta. A chave, abre
e fecha na segunda gaveta, espreita pra dentro, mete a mão, tira de lá uma
grande banana. Examina- a de perto, torna a fechar a gaveta a chave e volta a
por as chaves no bolso. Volta, avança até a beira da cena, detém- se, acaricia
a banana, descasca- a, deixa cair as casas ao seus pés, mete a ponta da banana
na boca e permanece imóvel, os olhos fixos no vazio. Por fim morde a
extremidade da banana volta- se e põe- se a andar de cá para lá à beira da
cena, isto é: à razão de quatro ou cinco passos no Maximo em cada sentido,
mastigando ao mesmo tempo meditativamente a banana. Pisa a casca, tropeça, por
pouco não cai, equilibra- se, inclina- se, contempla a casca e por fim, sempre
curvado, empurra-a com a ponts do pé para o fosso da orquestra. Retoma o seu
vaivém, acaba de comer a banana, volta para a esa, senta- se, fica um momento
imóvel, solta um enorme suspiro, tira as chaves do bolso, levanta- se a altura
dos olhos, escolhe uma chave, levanta- se e caminha para a frente da mesa, abre
a fechadura da segunda gaveta, tira dela uma segunda grande banana, examina- a
de perto, torna a fechar a gaveta à chave, torna a por as chaves no bolso,
volta- se, avança até a beira da cena, detém- se, acaricia a banana, descasca-
a, atira a casca para o fosso da orquestra, mete a ponta da banana na boca e fica
imóvel, os olhos fixos no vazio. Por fim, tem uma idéia, Põe a banana num dos
bolsos do colete onde fica com a ponta de fora e com toda a velocidade de que é
capaz corre para o fundo da cena, que esta na obscuridade. Dez segundos. Ruído
de um tirar de tampo. Quinze segundos. Volta para a luz, carregando um registro
velho, e senta- se à mesa. Pousa o registro em cima da mesa, enxuga os lábios,
limpa as mãos ao colete, bate palmas e esfrega- as.
KRAPP- (com
vivacidade) Ah! (inclina- se sobre os registros, vira as páginas, encontra a
ficha que procura, lê). Caixa...três...bobina..(levanta a cabeça e olha
fixamente diante de si, com prazer).Bobiña! (Pausa) Bobiña. (Debruça- se sonre
a mesa feliz, ecomeçaa vasculhar as caixas examinando- as de perto) Caixa...três...três...quarto...dois...
(Surpresa)... Nove! Santo nome de Deus!.. Sete...ah! Magana! (Agarra uma caixa,
examina-a de muito perto) Caixa- três. (Pousa- a sobre a mesa, abre-a e
inclina- a sobre as bobinas que tem dentro). Bobina... (curva- se sobre o
registro) Cinco...cinco..ah! Sua farroupilha! (Tira uma bobina, examina- a de
perto) Bobina cinco. (Poe- na em cima da mesa, fecha a caixa três, arruma- a
junto das outras, torna a pegar a bobina). Caixa três, bobina cinco. (Inclina-
se sobre o aparelho, levanta a cabeça. Com prazer). Bobina!! (Sorriso feliz.
Inclina- se, coloca a bobina no aparelho, esfrega as mãos). Ah! (Debruça- se
sobre o arquivo, lê a nota em baixo da página). Mamã finalmente em paz...hm...
A bola negra..(Ergue a cabeça, olhos fitos no vazio diante de si) Bola negra?..
(Inclina- se de novo sobre o arquivo, lê) A sopeira trigueira.. (Levanta a
cabeça, devaneia, inclina- se outra vez sobre o arquivo, lê). Ligeiras melhoras
do estado intestinal...hm... Memorável ...o que? (Olha mais de perto, lê).
Equinócio, memorável equinócio. (Ergue a cabeça, os olhos fitos no vazio.
Intrigado) memorável equinócio? (Pausa. Encolhe os ombros, inclina- se de novo
sobre o arquivo, lê). Adeus ao a... (volta a página) mor.
Levanta- se a cabeça,
devaneia, debruça- se sobre o aparelho, liga-o e poe- se em posição de escuta,
quer dizer o busto inclinado para frente, os cotovelos sobre a mesa, a mão em
pose de corneta acústica na direção do aparelho, de rosto para a sala.
A FITA: (Voz
forte, um tanto solene, manifestando a voz de Krapp em época muito anterior)
Trinta e nove anos hoje,
sólido como uma...
(Ao querer instalou- se
mais confortavelmente, faz cair uma das caixa, pragueja, desliga o aparelho,
atira com um gesto violento caixas e arquivo para o chão. Torna a por a fita no
ponto de partida , volta e liga o aparelho, retoma- a a posição anterior).
Trinta e nove anos hoje,
sólido como uma ponte, à parte do meu velho ponto fraco, e quando a
intelectualidade, tenho agora razões, para me suspeitar, no.. (Hesita)
no píncaro da vaga- ou pouco falta, na verdade. Celebrada a solene ocasião,
como todos esses anos, tranquilissimamente, na Taverne. Nem vivalma. Para ali
me deixar estar diante do fogo, os olhos fechados, a separar o trigo do joio cá
da minha vida. Rabisquei algumas notas nas costas de um sobrescrito. Feliz por
estar de volta à minha mansarda, aos meus trastes. Acabo de comer, lamento
dizê-lo, três bananas e abstive-me de comer a quarta sabe Deus com que custo.
Autêntico veneno para um homem no meu estado. (Com veêmencia). A
eliminar. (Pausa). A nova iluminação mesmo por cima da minha mesa
constitui um grande melhoramento. Com toda essa obscuridade à minha volta
sinto- me menos só. (Pausa) Em certo sentido. (Pausa). Adoro
levantar-me para lhe dar uma volta, depois voltar aqui a.. (Hesita) mim.
(Pausa) Krapp.
Pausa.
O trigo vejamos, pergunto a
mim mesmo que entendo eu por tal. Entendo... (Hesita) suponho que
entendo por trigo todas essas coisas que ainda hão- de valer a pena quando toda
a poeira te ver - quando toa a minha poeira se tiver depositado. Fecho os olhos
e faço força para (?)..
Pausa. Krapp fecha os
olhos, um breve instante.
Extraordinário silencio essa
noite, bem aguço os ouvidos, não se move um suspiro. A velha Miss McGlone canta
sempre a esta hora. Mas esta noite não. Canções do tempo em que era rapariga,
diz ela. Difícil imaginá-la rapariga. Maravilhosa velha apesar de tudo. Uma
Connaught, tenho a impressão. (Pausa). Eu cantarei quando tiver a idade
dela, se chegar a idade dela! Não. Cantava acaso quando era capaz? Não. Cantei
alguma vez? Não.
Pausa.
Acabei agora mesmo de ouvir
um ano antigo, passagens ao acaso. Não verifiquei no livro, mas a coisa deve
remontar a uns dez ou doze anos atrás- pelo menos. Julgo que nessa altura vivia
ainda com Blanca em Kedar Street, enfim, quando a Deus prazia. Escapei de boa,
oh, se escapei! Era um caso perdido (Pausa). Nada a respeito dela, à
parte uma homenagem aos meus olhos. Entusiástica. Tornei a vê-los de repente. (Pausa).
Incomparáveis! (Pausa). Enfim... (Pausa). Sinistras essas
exumações, mas acho-as as mais das vezes- (Krapp desliga o aparelho,
devaneia, torna a ligar o aparelho) úteis antes de me lançar a um novo... (Hesita)
volta atrás. Difícil acreditar que alguma vez eu tenha sido alguma vez aquele
cretinóide. Aquela voz!
Jesus! E aquelas aspirações!
(Risada breve a que se junta Krapp). E aquelas resoluções! (Risada
breve a que se junta a Krapp). Beber menos, nomeadamente. (Risada breve
de Krapp sozinho). Estatísticas. Mil e setecentas horas em oito mil e
alguns precedentes volatilizados apenas em tascas rascas. Mais de 20%, digamos
40%, da sua vida acordada. (Pausa). Planos par uma vida sexual menos...
(Hesita) absorvente. Ultima doença de seu pal. Procura cada vez mais
frouxa da felicidade. Flasco dos laxativos. Sarcasmos sobre o que ela chama a
sua juventude e ação de graça por ela ter acabado. (Pausa) Falta nota
neste sítio. (Pausa) Sombra do opus..magnum. E para acabar uma - (risada
breve)- casquinada em intenção da Providência. (Risada prolongada a que
se junta Krapp). Que coisa resta de todas essas misérias? Uma moça de capa
verde em uma estação? Ou não?
Pausa.
Quando contemplo- (Krapp
desliga o aparelho, devaneia, olha para o relógio, levanta- se e vai até ao
fundo da cena que está na obscuridade. Dez segundos ruído de um tirar de tampa.
Dez segundos segunda tampa. Dez segundos. Terceira tampa. Súbita cantiga, “
entre- cortada” e trêmula.)
KRAPP (cantando)-
À sombra desce das nossas montanhas.
O azul do céu vai não vai empalidece.
O barulho extingue- se
Acesso de tosse. Volta a
luz, senta- se, limpa a boca. Torna a ligar o aparelho, retoma a posição de
escuta.
A FITA- volta- atrás ao ano do passado, com
possivelmente- espero- alguma cois do meu velho olhar por vir, existe
naturalmente a casa do canal onde a mamã se extinguia. No outono moribundo,
após uma longa viuvez (Krapp estremece). E o- (Krapp desliga o
aparelho, poe a fita um pouco mais atrás, aproxima o ouido do aparelho, torna a
ligá-lo)- se extinguia, no Outono moribundo, após uma longa viuvez, e o- (Krapp
desliga o aparelho, põe a fita um pouco mais atrás, aproxima o ouvido do
aparelho, torna a liga-lo) se extinguia, no Outono moribundo, após uma
longa viuvez, e o -
(Krapp desliga o aparelho, levanta a
cabeça, olhos fixos no vazio. Mexe os lábios sem ruídos formando as sílabas de
viuvez. Levanta- se, vai para o fundo da cena que está na obscuridade. Volta,
com um dicionário enorme, senta- se, pousa- o sobre a mesa, e procura as
palavras.)
KRAPP- (Lendo
o dicionário) Estado- ou condição- de quem é- ou permanece - viúvo- ou
viúva. (Levanta a cabeça indignado) Quem é- ou permanece?- (Pausa.
Inclina- se de novo sobre o dicionário. Volta as páginas) Viúvo... Viúvo...
Viuvez (Lendo) Os véus espessos da viuvez... Diz- se de um animal,
particularmente de um pássaro... Viuvinha ou viúva... A plumagem negra dos
machos... (Levanta a cabeça. Com deleite) A viuvinha.
Pausa. Fecha o dicionário,
liga outra vez o aparelho, retoma a posição de escuta.
A FITA- Banco perto da levada de onde podia ver os
vidros da janela dela. Ali ficava eu, sentado ao vento desabrido, desejando que
ela acabasse. (Pausa). Quase ninguém, alguns crônicos apenas, sopeiras,
garotos, velhos, cães. Acabei por conhecê-los bem- oh, quero dizer de vista,
bem entendido! Lembro- me sobretudo de uma tenra beldade morena, muito branca
do pó de arroz, com um peito incomparável, que empurrava um carrinho de capota
negra, de um fúnebre, só visto! Todas as vezes que olhava na direção dela,
tinha os olhos em cima de mim. Pois quando tive a coragem de lhe dirigir a
palavra - sem lhe ter sido apresentado- ameaçou-me de chamar a policia. Como se
eu tramasse contra a sua virtude! (Riso) A carinha que ela tinha! Que
olhos! Tal qual... (Hesita) crisólitos!
(Pausa) Enfim... (Pausa). Eu estava lá quando - (Krapp desliga
o aparelho, devaneia...torna a ligar o aparelho) Levantei a cabeça, e já
estava... Um caso, finalmente. Fiquei onde estava ainda alguns instantes,
sentado no banco, com uma bola na mão e um cão a latir atrás dela e a mendiga-
la com a pata. (Pausa) Instantes... (Pausa) os seus, dela,
instantes, os meus, muito meus, instantes. (Pausa) Os instantes do cão.
(Pausa) Por fim, ele a abocanhou com o focinho, meigamente, meigamente.
Uma bola de borracha pequena, velha, negra, plena, dura. (Pausa)
Sentirei na mão, até o dia da minha morte. (Pausa). Podia tão bem tê- la
guardado. (Pausa). Mas dei-a ao cão.
Pausa.
Enfim..
Pausa.
- Espiritualmente um ano não
se pode conceber mais negro e mais pobre até essa memorável noite de Março, na
extremidade do pontão, à ventania, nunca me esquecerei, em que tudo se
me tornou claro. A visão, finalmente.
Eis, suponho, o que tenho sobretudo que registrar esta noite, na previsão do
dia em que os meus trabalhos estiveram... (Hesita) acabados e em que eu
não terei, quem sabe, mais nenhuma recordação, nem boa nem má, do milagre
que... (Hesita) do fogo que a abrasara. O que de súbito vi então, era
que a criança que tinha guiado toda a minha vida, a saber- (Krapp desliga o
aparelho com impaciência, faz avançar a fita, ...torna a ligar o aparelho)- grandes
rochedos de granito e a espuma que jorrava sob a luz do farol e o anemômetro
que turbilhonava como uma hélice, claro para mim, enfim, que a obscuridade que
me encarniçara sempre por reclacar em mim e na realidade o meu melhor- (Krapp
desliga o aparelho com impaciência, faz avançar a foto. Torna a ligar o
aparelho)- indestrutível associação até o último suspiro da tempestade e da
noite mais a luz do entendimento e o fogo- (Krapp pragueja, desliga o
aparelho, faz avançar a fita, torna a desligar o aparelho) - o rosto entre
os seus seios e a mão por cima dela. Ali ficamos, deitados, sem nos mexermos.
Mas debaixo de nós, tudo estremecia, e nos fazia estremecer, docemente, de alto
a baixo, e de lá pra cá.
Pausa.
- Passa da meia- noite.
Jamais ouvi tamanho silêncio. A terra podia ser desabitada.
Pausa.
Aqui termino- (Krapp
desliga o aparelho, volta com a fita, atrás torna a ligar o aparelho).- no
alto do lago, mais o barco, nadei perto da margem, depois levei o barco até o
lago e deixei-o andar sem governo. Ela estava deitada sobre as tábuas do fundo,
as mãos debaixo da cabeça, e os olhos fechados. Sol, fulgurante, uma bisca de
brisa, a água um tudo nada marulhante- como eu gosto dela. Notei-lhe um
arranhão nas coxas e perguntei-lhe como o tinha feito. À colher groselhas verdes, respondeu-me ela.
Disse-lhe ainda que tudo aquilo parecia sem esperança e não valia a pena
continuar e ela fez que sim sem abrir os olhos. (Pausa). Pedi-lhe que
olhasse para mim e após alguns instantes - pausa- após alguns instantes, ela
olhou. Os olhos porém como fendas por causa do sol. Inclinei-me sobre ela para
os pôs à sombra e eles abriram- se. (Pausa). Deixaram- me entrar. (Pausa)
Derivávamos por entre os caniços e o barco encalhou. Como eles se dobravam,
suspirando diante da proa. (Pausa) Vim-me sobre ela, o rosto entre os
seus seios e a mão por cima dela. Ali ficamos deitados, sem nos mexermos. Mas
debaixo de nós, tudo estremecia, e nos fazia estremecer, docemente, de alto a
baixo e de lá para cá.
Pausa.
- Passa da meia noite. Jamais
ouvi-
Krapp desliga o aparelho.
Devaneia. Por fim, vasculha os bolsos, encontra a banana, tira-a, examina- a de
perto, e torna a meter no bolso, vasculha outra vez, tira o sobrescrito,
vasculha outra vez, torna a meter o sobrescrito no bolso, levanta- se e vai
para o fundo da cena, que está na obscuridade. Dez segundos. Ruído de garrafa
contra o vidro. Depois breve ruído de sifão. Dez segundo. De novo a garrafa
contra o vídeo, mais nada. dez segundos. Volta com o passo mal seguro para a
luz, dirige- se para a frente da mesa, tira do bolso as suas chaves, levanta-
as à altura dos olhos, escolhe uma, abre a fechadura da primeira gaveta, olha
pra dentro, mete a mão, tira uma bobina, examina- a de perto, torna a fechar a
gaveta à chave, volta a por as chaves no bolso, vai sentar- se, tira a bobina
do aparelho, coloca-a sobre o dicionário, coloca a bobina virgem no aparelho,
tira o sobrescrito do bolso, consulta o anverso, pousa-o sobre a mesa,
devaneia, liga o aparelho, aclara a voz e começa a gravar.
KRAPP-
Acabei de ouvir esse cretinóide por quem me tomava há trinta anos, custa a
acreditar que eu já tenha sido...Ao menos, isso acabou, graças a Deus. (Pausa).
Os olhos que ela tinha! (Divaga, se percebe, que está gravando o
silencio, desliga o aparelho, divaga. Por fim). Tudo ali estava, toda a- (Percebe
que o aparelho não está ligado, torna a ligá-lo) Tudo ali estava, toda a
velha carcaça do planeta, toda a luz e a obscuridade, a fome e as comezainas
dos séculos! (Pausa. Em um grito) Sim, senhor! (Pausa. Amargo).
Deixar fugir uma coisa daquelas!Jesus! Uma coisa que podia, Tê-lo distraído dos
seus quadris! Jesus! (Com cansaço) Enfim, talvez ele tivesse razão. (Divaga,
apercebe- se . Desliga o aparelho. Consulta o sobrescrito) Bah! (Torna a
lidar o aparelho) Nada a dizer, que chatice! Que raio vem a ser isso hoje,
outro ano? Merda mastigada e rolha no cu. (Pausa) Saboreei a palavra
bobina. (Com deleite) Bobiina! O instante mais feliz dos últimos
quinhentos mil. Dezessete exemplares vendidos, dos quais onze a preço de
grossista às bibliotecas municipais do ultramar. Em riscos de me tornar alguém.
Uma libra, seis xelins e alguns dinheiros, oito provavelmente. Arrastei-me lá
por fora uma vez ou duas antes de o Verão gelar. Fiquei sentado a tiritar no
parque, mergulhado em sonhos e ardendo por acabar. Ninguém. Derradeiras
quimeras. (Com veemência). A recalcar! Queimei os olhos a ler Effie mais
uma vez, uma página por dia, de lágrimas nos olhos ainda, Effie...(Pausa)
Teria podido ser feliz com ela no mar Báltico, entre pinheiros e dunas. (Pausa)
Não? (Pausa) E ela? (Pausa) Bah! (Pausa) Fanny veio
uma ou duas vezes. Velha sombra de prostituta esquelética. Não consegui fazer
grande coisa, mas sem dúvida melhor do que um pontapé entre as pernas. A última
vez, não foi tão mal quanto isso. Como consegues a tua conta, disse-me ela, com
essa idade? Respondi-lhe que me reservara para a ela toda a vida. (Pausa)
Lá fui às Vésperas uma vez como quando usavam calções. (Pausa, canta).
Cantando- A sombra desce das nossas montanhas
O azul do céu vai não vai
empalidece,
O barulho extingue- se (Acesso
de tosse quase inaudível)
Em breve tudo vai dormir em paz.
(Ofegante) - Adormeci e cai do banco abaixo. (Pausa) Muitas
vezes me perguntei a meio da noite se um ultimo esforço me não seria talvez...(Pausa)
Basta! Emborca a garrafa e deita- te a dormir. Continua as bandalheiras amanhã.
Ou fica por aí. (Pausa) Fica por aí, pois. (Pausa) Instala- te no
escuro, agarrado aos travesseiros- e vadia. Vai outra vez até ao vale em
vésperas de Natal colher azevinho, azevinho de bagas vermelho. (Pausa) Vai
mais uma vez até à beira do Croghan um domingo de manhã, entre a bruma, e leva
a cadela, pára e escuta os sinos. (Pausa) E assim sucessivamente. (Pausa).
Toda essa velha miséria. (Pausa). Uma vez não te bastou. (Pausa)
Vem- te sobre ela.
Longa pausa. Inclina- se
bruscamente sobre o aparelho, desliga-o, arranca a fita, atira-a para longe,
coloca a outra no aparelho, fá- la avançar até a passagem que procura, torna a
ligar o aparelho, escuta de olhos fitos.
A FITA-
Groselhas verdes, respondeu-me ela. Disse-lhe ainda que tudo aquilo me parecia
sem esperança e não valia a pena continuar e ela fez que sim sem abrir os
olhos. (Pausa) Pedi-lhe que olhasse para mim e após alguns instantes- (pausa)-
após alguns instantes ela olhou, os olhos porém como fendas por causa do
sol. Inclinei-me sobre ela para os pôs à sombra e eles abriram- se. (Pausa) Deixaram-
me entrar. (Pausa) Derivávamos por entre os caniços e o barco encalhou.
Como eles se dobravam, suspirando, diante de .. (Pausa) Vim- me sobre
ela, o rosto entre os seus seios e a mão por cima dela. Ali ficamos, deitados,
sem nos mexermos. Mas, debaixo de nós, tudo estremecia, e nos fazia estremecer,
docemente de alto a baixo, e de lá pra cá.
Pausa. (Os lábios de Krapp
murmuram sem ruído)
- Passa da meia- noite.
Jamais ouvi tamanho silencio. A Terra podia ser desabitada,
Pausa.
Aqui termino esta fita.
Caixa- (pausa)- três bobinas- (pausa). Possivelmente os meus
melhores anos já passaram. Quando havia ainda uma oportunidade de felicidade!
Mas agora já não quero. Agora que tenho esse fogo dentro de mim. Não, agora já
não quero.
Krapp fica imóvel, olhos
fitos no vazio. A fita continua a desenrolar- se em
silêncio.
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