quinta-feira, 26 de setembro de 2019



A Terceira Semana do Núcleo de Dramaturgia Firjan SESI ocupará o Oi Futuro Flamengo de 7 a 12 de outubro

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Criações da 5ª turma do Núcleo de Dramaturgia Firjan SESI serão apresentadas em encenações, vídeo-leituras, performances e conversas com entrada gratuita. 
Haverá também uma oficina e o lançamento de três dramaturgias da turma de 2018 pela Editora Cobogó


Autores do Núcleo de Dramaturgia Firjan SESI, coordenado pelo diretor e dramaturgo Diogo Liberano, são constantemente estimulados a saírem de sua zona de conforto e se arriscarem durante o processo de escrita. Os resultados dos riscos tomados pela quinta turma do projeto são apresentados agora na Terceira Semana do Núcleo de Dramaturgia Firjan SESI, que, em parceria com o Oi Futuro Flamengo, ocupará o centro cultural de 7 a 12 de outubro, com encenações, vídeo-leituras, performances, leituras-críticas e leituras-em-cena com entradas gratuitas. Haverá também o lançamento de três dramaturgias da turma de 2018 pela Editora Cobogó: ‘Saia’, de Marcéli Torquato; ‘DESCULPE O TRANSTORNO’, de Jonatan Magella, e ‘só percebo que estou correndo quando vejo que estou caindo’, de Lane Lopes.

Criado com o objetivo de descobrir e desenvolver novos autores brasileiros, o Núcleo de Dramaturgia Firjan SESI é um programa anual que conta com 15 participantes e encontros semanais. Cada autor da turma de 2019 escreveu uma dramaturgia, de 12 a 15 páginas, estimulado pelo Manifesto Pós-Futurista, publicado em 2009 pelo italiano Franco Berardi. Essas criações serão experimentadas pela primeira vez agora em ações artísticas diversas. Até o fim do ano, os alunos também escreverão uma dramaturgia final e uma delas será selecionada para temporada no Teatro Sesi Centro no ano que vem.

“O projeto é focado no texto, no processo de escrita, em discussões filosóficas e conversas. A ‘Semana’ é o momento que temos para colocar as dramaturgias à prova”, explica Diogo Liberano que, além de coordenador do núcleo, faz a curadoria do evento. “No final do primeiro semestre, há a escrita de um texto a partir de uma provocação que faço. Este ano, escolhi o Manifesto Pós-Futurista, de Franco Berardi, como inspiração. Nele, há uma crítica ao futuro e uma chamada para o presente. Precisamos cuidar do agora. A partir daí, nasceram dramaturgias muitos distintas que são experimentadas na programação da Semana”, acrescenta.

Entre as atividades da Terceira Semana do Núcleo de Dramaturgia Firjan SESI, estão as encenações de “Cume”, escrito por Filipe Meira, com direção de Inez Viana, e “Anima”, de Suzana Velasco, com direção de Gunnar Borges; o encontro da dramaturgia “MEL”, de Mayara Máximo, e de “A torre de Argento do Tombo”, de Tiago Torres, lidas e comentadas pela primeira vez, respectivamente, pela atriz Mariana Lima e pelo ator e diretor Cesar Augusto; exibição, em looping, de vídeo-leituras de quatro dramaturgias: Soraya Ravenle lê “ANTES DURANTE DEPOIS (e tudo agora)”, de Gabriela Chalub; Felipe Frazão lê “Não Derramar Sobre Fogo”, de Lúcio Martínez; Laura Nielsen lê “quadro-a-quadro”, de Agatha Duarte; e Drayson Menezes lê “TRAÇANTE”, de Zé Alex; leituras em cena de “BALANÇO moving”, de Leonardo Hinckel, e “Laika”, de João Ricardo, feitas pelo grupo Teatro Voador Não Identificado (TVNI), e de “nenhum futuro: dos 25 dias em que ele esteve empregado”, de Paulo Barbeto, e “SEGUNDA VOZ”, de Marcos Bassini, pela Cia. Código de Artes Cênicas; além de performances a partir das dramaturgias “BRUXA BRUXA BRUXA”, de Teo Pasquini, “GYNÓIDES” de Sergio Lipkin, e “Relâmpagos, Tormenta, Chuva Fina”, de Sonia Alves,  feitas pelo Grupo Barka. Leia a programação por dia abaixo.

“O maior investimento da Semana de Dramaturgia está em promover o encontro da dramaturgia contemporânea com outras práticas artísticas. Além da cena teatral e da leitura, que nutrem relações mais habituais com o texto teatral, experimentamos também a dramaturgia como estímulo para a prática da arte da performance e para a composição de vídeo-leituras. Tais experiências visam manifestar a enorme elasticidade do texto dramatúrgico, confirmando que dramaturgia, antes de qualquer coisa, é uma composição literária disponível a inúmeros e variados destinos”, observa Diogo Liberano.
Núcleo de Dramaturgia Firjan SESI
Em sua quinta edição, o Núcleo de Dramaturgia Firjan SESI nasceu da vontade de descobrir e desenvolver novos autores teatrais brasileiros e é aberto para quem gosta de escrita, com ou sem experiência em dramaturgia. O programa anual de estudo e criação mistura teoria e prática, por meio de atividades de leitura de textos filosóficos e dramaturgias escritas no decorrer dos séculos; discussões; exercícios individuais e coletivos; e encontros presenciais com autores e artistas profissionais da cena contemporânea. Além dessas experimentações, os participantes escrevem duas dramaturgias, sob orientação de Diogo Liberano, coordenador do Núcleo de Dramaturgia Firjan SESI: uma menor, com cerca de 15 páginas, e uma final de no mínimo 30 páginas. “Pedagogicamente a atividade se dá a partir de distintos modos e tipos de escrita que cada autor ou autora traz. As turmas são compostas por 15 pessoas, a cada ano, assim, a diversidade de modos de escrita é muito grande. Temos encontros semanais com a turma toda e também encontros individuais comigo, nos quais discutimos a dramaturgia de cada aluno de maneira bastante profunda”, conta Liberano.

Terceira Semana do Núcleo de Dramaturgia Firjan SESI
De 7 a 12 de outubro de 2019
Oi Futuro Flamengo: Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo
Telefone: (21) 3131-3060.
Ingressos: entrada gratuita, sujeita à lotação (distribuição de senhas uma hora antes)
Classificação indicativa: 14 anos

Programação:

Dia 7 de outubro (segunda-feira)

15h às 17h: Conversa – Pedagogia da dramaturgia ou Como ensinar (a escrever) dramaturgia? – Com Gustavo Colombini (diretor e dramaturgo formado pelo Núcleo de Dramaturgia de São Paulo) e Lígia Souza Oliveira (dramaturga, pesquisadora e atual coordenadora do Núcleo de Dramaturgia SESI/PR). Mediação de Diogo Liberano (coordenador do Núcleo de Dramaturgia Firjan SESI).

17h às 19h: Lançamento das publicações da quarta turma (2018) pela Editora Cobogó, seguido de conversa com as autoras Marcéli Torquato (“Saia”), Lane Lopes (“Só percebo que estou correndo quando vejo que estou caindo”) e com o autor Jonatan Magella (“DESCULPE O TRANSTORNO”). Mediação de Diogo Liberano (coordenador do Núcleo de Dramaturgia Firjan SESI).

20h: Encenação – “Cume” de Filipe Meira, com direção de Inez Viana.

Ao longo do dia: 
- Vídeo-Leitura – Quatro dramaturgias lidas e gravadas em vídeo exibidas, em looping, no café do Teatro Oi Futuro Flamengo (e também disponíveis online): Soraya Ravenle lê “ANTES DURANTE DEPOIS (e tudo agora)”, de Gabriela Chalub; Felipe Frazão lê “Não Derramar Sobre Fogo”, de Lúcio Martínez; Laura Nielsen lê “quadro-a-quadro” de Agatha Duarte; e Drayson Menezes lê “TRAÇANTE”, de Zé Alex.

- Stand de vendas da coleção Dramaturgia da Editora Cobogó – também no café do Teatro do Oi Futuro Flamengo.

Dia 8 de outubro (terça-feira)

14h às 16h: Leitura-Crítica – “A torre de Argento do Tombo” de Tiago Torres lida e comentada presencialmente – e pela primeira vez – por ator e diretor Cesar Augusto.

17h às 20h: Leitura-em-Cena – “BALANÇO moving”, de Leonardo Hinckel, e “Laika”, de João Ricardo, lidas em cena pelo grupo Teatro Voador Não Identificado (TVNI).

Ao longo do dia: 
- Vídeo-Leitura – Quatro dramaturgias lidas e gravadas em vídeo exibidas, em looping, no café do Teatro Oi Futuro Flamengo (e também disponíveis online): Soraya Ravenle lê “ANTES DURANTE DEPOIS (e tudo agora)”, de Gabriela Chalub; Felipe Frazão lê “Não Derramar Sobre Fogo”, de Lúcio Martínez; Laura Nielsen lê “quadro-a-quadro” de Agatha Duarte; e Drayson Menezes lê “TRAÇANTE”, de Zé Alex.
- Stand de vendas da coleção Dramaturgia da Editora Cobogó – também no café do Teatro do Oi Futuro Flamengo.
Dia 9 de outubro (quarta-feira)

15h às 17h: Conversa – Para que serve uma (formação em) dramaturgia? – Entre autoras de turmas anteriores do Núcleo de Dramaturgia Firjan SESI: Nivea Oliveira (1ª Turma), Luíza Goulart (3ª Turma) e Sheila Kaplan (4ª Turma). Mediação de Diogo Liberano (coordenador do Núcleo de Dramaturgia Firjan SESI).

17h às 19h: Conversa – Você escreve para quem? – Com Álamo Facó (ator e dramaturgo) e Jô Bilac (dramaturgo). Mediação de Diogo Liberano (coordenador do Núcleo de Dramaturgia Firjan SESI).

20h: Encenação – “Anima” de Suzana Velasco, com direção de Gunnar Borges.

Ao longo do dia: 
- Vídeo-Leitura – Quatro dramaturgias lidas e gravadas em vídeo exibidas, em looping, no café do Teatro Oi Futuro Flamengo (e também disponíveis online): Soraya Ravenle lê “ANTES DURANTE DEPOIS (e tudo agora)”, de Gabriela Chalub; Felipe Frazão lê “Não Derramar Sobre Fogo”, de Lúcio Martínez; Laura Nielsen lê “quadro-a-quadro” de Agatha Duarte; e Drayson Menezes lê “TRAÇANTE”, de Zé Alex.

- Stand de vendas da coleção Dramaturgia da Editora Cobogó – também no café do Teatro do Oi Futuro Flamengo.


Dia 10 de outubro (quinta-feira)
14h às 16h: Leitura-Crítica – “MEL”, de Mayara Máximo, lida e comentada presencialmente – e pela primeira vez – pela atriz Mariana Lima.
17h às 20h: Leitura-em-Cena – “nenhum futuro: dos 25 dias em que ele esteve empregado”, de Paulo Barbeto, e “SEGUNDA VOZ”, de Marcos Bassini, lidas em cena pela Cia. Código de Artes Cênicas.
Ao longo do dia: 
- Vídeo-Leitura – Quatro dramaturgias lidas e gravadas em vídeo exibidas, em looping, no café do Teatro Oi Futuro Flamengo (e também disponíveis online): Soraya Ravenle lê “ANTES DURANTE DEPOIS (e tudo agora)”, de Gabriela Chalub; Felipe Frazão lê “Não Derramar Sobre Fogo”, de Lúcio Martínez; Laura Nielsen lê “quadro-a-quadro” de Agatha Duarte; e Drayson Menezes lê “TRAÇANTE”, de Zé Alex.

- Stand de vendas da coleção Dramaturgia da Editora Cobogó – também no café do Teatro do Oi Futuro Flamengo.

Dia 11 de outubro (sexta-feira)
15h às 17h: Performance “BRUXA BRUXA”, de Teo Pasquini, “GYNÓIDES” de Sergio Lipkin, e “Relâmpagos, Tormenta, Chuva Fina”, de Sonia Alves experimentadas – via ações performativas – pelo Grupo Barka (Dominique Arantes e Rúbia Rodrigues)
Dia 12 de outubro (sábado)

14h às 20h: Oficina – “Livro em performance – O teatro no interior do texto”, com Lígia Souza Oliveira (dramaturga, pesquisadora e atual coordenadora do Núcleo de Dramaturgia SESI/PR).




Assessoria de imprensa
Racca Comunicação

Rachel Almeida
| (21) 3579-1352 | (21) 99196-1489 | racca.almeida@gmail.com

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Teatro/CRÍTICA

"Diário do farol - Uma peça sobre a maldade"

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Montagem imperdível no Sesc




Lionel Fischer




"O público entra na sala e já encontra o ator em cena. Após pedir a um espectador que abra a garrafa d'água que beberá ao longo da narrativa, o personagem inicia seu relato dizendo: O que vou contar agora é honesto e verdadeiro. Sou capaz de matar. Já matei. A partir daí, a plateia conhece a relação dele com o pai, pautada pela total falta de afeto, sua passagem pelo seminário, onde presta favores sexuais em troca de privilégios, culminando no trabalho de informante e torturador do Dops, a temida polícia do governo militar. E uma única vez foi capaz de amar, mas tempos depois Maria Helena haveria de pagar um preço muito caro por tê-lo rejeitado".

Extraído (e levemente editado) do excelente release que me foi enviado pelo assessor de imprensa Christovam Chevalier, o trecho acima sintetiza a narrativa de "Diário do farol - Uma peça sobre a maldade", inspirada no romance "O diário do farol", de João Ubaldo Ribeiro. O projeto chega à cena graças ao estímulo de Domingos Oliveira, que considerava Fernando Philbert capaz de materializá-lo com a imprescindível potência. Philbert e Thelmo Fernandes respondem pela adaptação, cabendo a este último dar vida ao famigerado personagem. A montagem está em cartaz no Mezanino do Espaço Sesc. 

No parágrafo inicial, estão explicitados alguns fatos protagonizados pelo personagem, mas certamente omiti muitos outros para não privar os leitores de algumas aterrorizantes surpresas. Mas o que me parece essencial ressaltar é a genialidade de João Ubaldo na construção do personagem. Se este fosse meramente um psicopata 
(ainda que o personagem possa sê-lo) e portanto capaz de cometer atrocidades sem nenhuma piedade ou posterior remorso, a obra não teria a transcendência que exibe. E esta ocorre na medida em que o protagonista consegue enxergar beleza na maldade, sendo totalmente sincero ao defender este abjeto ponto de vista. 

Ou seja: o que o difere de um serial killer ou de um torturador que apenas cumpre ordens é que estes podem até sentir prazer com as  ações que praticam, mas certamente não atribuem a elas nenhum valor estético, como ocorre com o protagonista de João Ubaldo. Ele age como se fosse um artista no processo de elaboração de uma obra e tal postura lhe confere uma dimensão ainda mais aterrorizante. 

Sob todos os aspectos, estamos diante de uma obra que tenho certeza que Dostoiévski adoraria, tamanha a profundidade com que João Ubaldo mergulha nos aspectos mais sombrios de uma personalidade execrável. E a ótima adaptação da mesma resultou em um espetáculo que deve ser prestigiado de forma incondicional pelo público. Vejamos por que. 

Em primeiro lugar, porque Fernando Philbert contou com as preciosas contribuições de Natália Lama (cenografia e figurino) e Vilmar Olos (iluminação), determinantes para a valorização dos múltiplos climas emocionais em jogo. E depois porque foi capaz de, mais uma vez, extrair o máximo de um ator que dirige em um monólogo - vou citar apenas a arrebatadora atuação de Marcos Caruso em "O escândalo Philippe Dussaert". No presente caso, tem como parceiro Thelmo Fernandes, um dos melhores atores não apenas de sua geração, mas do país. Vejamos por que - agora me dei conta de que termino este parágrafo da mesma forma que o anterior, o que talvez constitua um defeito ou um discreto charme estilístico, dependendo do ponto de vista.  

Por que Thelmo Fernandes é um ator de primeiríssima linha? É óbvio que possui grandes predicados técnicos, mas não são eles que constituem o essencial. Em meu entendimento, três virtudes o singularizam: enorme versatilidade, visceral capacidade de entrega a todos os personagens que interpreta e uma inteligência cênica que o leva a fazer opões jamais atreladas ao previsível. E aqui, salvo monumental engano de minha parte, o ator exibe a melhor performance de sua carreira, um verdadeiro presente para todos aqueles que amam a arte de interpretar. Assim, só me resta desejar que os sempre caprichosos deuses do teatro continuem abençoando sua trajetória artística. E que ele permaneça o que sempre foi: um homem extremamente doce e com o senso de humor que caracteriza as pessoas do bem.

DIÁRIO DO FAROL - UMA PEÇA SOBRE A MALDADE - da obra de João Ubaldo Ribeiro. Adaptação de Fernando Philbert e Thelmo Fernandes. Direção de Philbert, atuação de Fernandes. Mezanino do Espaço Sesc. Quinta a domingo, 20h.

  








  

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Teatro/CRÍTICA

"Eu, Mãe"

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Bela reflexão sobre o tempo e a maternidade



Lionel Fischer



"Criando uma espécie de peça-cápsula-do-tempo, a atriz encena e registra para suas duas filhas, por meio de uma câmera, todo seu assombro com a passagem do tempo e com a maternidade recente, para que elas assistam no futuro e compreendam como a mãe delas se sentia aos 43 anos de idade. Em diversos momentos da peça, a intérprete se dirige à câmera, como se conversasse com as filhas do outro lado da tela".

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o contexto em que se dá "Eu, Mãe", de autoria de Cristina Fagundes, também responsável pela atuação. Em cartaz na Casa Rio, o espetáculo leva a assinatura de Alexandre Barros, Cristina Fagundes e Daniel Leuback.

"Eu quero que você, Nina, que hoje está com cinco anos, e que você, Bruna, que hoje está com três anos, possam, aí no futuro, me ver como eu sou hoje, no auge da saúde, da vitalidade. No auge da minha vida. E quero que assistam a essa gravação também quanto tiverem 43 anos de idade cada uma para que possamos por pelo menos uma vez na vida, num encontro único no tempo, ter a mesma idade. Eu queria ser amiga de vocês, ir caminhando junto com vocês, mas não posso, meu tempo é outro, eu vim primeiro. Então vamos fazer esse registro, está bem? Esta cápsula do tempo".

Esta fala, que consta do espetáculo, me tocou profundamente. E por diversas razões, sendo a principal a de que sempre desejei, como a autora, que o tempo me permitisse o impossível, ou seja, me encontrar com minhas duas filhas e meu filho quando tivéssemos a mesma idade. Como seria esse encontro? Talvez eu perguntasse: "E aí, amados? Eu fui um bom pai? Eu acolhi vocês nos momentos mais duros e com vocês brindei os mais alegres?". 

Caso a resposta fosse afirmativa - e acredito que seria - então talvez enchêssemos a cara e fôssemos os quatro dançar forró na Feira de São Cristóvão, como a autora fez inúmeras vezes, evidenciando notável habilidade - e aqui, sem falsa modéstia, gostaria de dizer que meus filhos e eu também somos forrozeiros deslumbrantes. Mas voltemos à peça.

Estamos diante de um texto cujo principal mérito reside na capacidade da autora de conferir poesia a fatos inerentes à maternidade que todos conhecem - a dor do parto, as horas de sono subtraídas, a perda (ao menos circunstancial) da antiga liberdade etc. -, assim como a outros que dizem respeito à passagem do tempo e às relações que estabelecemos com aqueles que nos precederam. Neste último quesito, achei particularmente tocante a passagem em que a atriz fala de sua mãe e de sua avó, deixando claro que ambas estão nela e sempre estarão, mesmo quando tiverem partido, posto que instaladas em seu coração. 

Com relação ao espetáculo, estruturado em uma chave hiper realista - toda a ação se passa na cozinha da Casa Rio e os objetos manipulados estão atrelados ao cotidiano -, nem por isso as soluções encontradas pela direção estão circunscritas ao previsível. Neste sentido, poderia destacar inúmeras passagens, mas opto por aquela que mais me encantou - a água transborda de um copo e se converte em chuva. 

No tocante a Cristina Fagundes, trata-se de uma excelente atriz, possuidora de vastos recursos expressivos e que sempre se entrega de forma visceral às personagens que interpreta. No presente caso, não interpreta ninguém, pois está em cena vivendo a si própria e nos contando sua história. E esta merece ser prestigiada por todos aqueles que, a exemplo da autora, conseguem enxergar a vida como uma verdadeira dádiva.

Na equipe técnica, parabenizo a todos com o mesmo entusiasmo - Fernanda Montovani (iluminação), Alice Cruz e Tuca Benvenutti (cenário e adereços), Flavia Espírito Santo (figurino) e Cristina Fagundes e Gui Stutz (trilha sonora)

EU, MÃE - Texto e atuação de Cristina Fagundes. Direção de Alexandre Barros, Cristina Fagundes e Daniel Leuback. Casa Rio. Quartas e quintas às 20h.  















segunda-feira, 12 de agosto de 2019


UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (UNIRIO/PROEXC/ESCOLA DE TEATRO)
&
SOCIEDADE PSICANALÍTICA DO RIO DE JANEIRO (SPRJ)
APRESENTAM:
FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA
PROGRAMAÇÃO DE 2019-2
FILMES ANALISADOS PELO PSICANALISTA: DR. NEILTON DIAS DA SILVA
E PELA MUSEÓLOGA DA UNIRIO: PROF. DRA. ANA LÚCIA DE CASTRO.
30/08 – A FESTA (The Party, 2018, 71 min.)
DIREÇÃO: SALLY PORTER
    Sinopse: Janet, uma política de esquerda, convida os amigos do partido para comemorar a sua escolha para o cargo de Ministra da Saúde britânica, porém, durante a festa, a surpresa revelada pelo marido de Janet, o intelectual Bill, transforma completamente o clima da celebração.
27/09 – A CASA DOS ESPÍRITOS (La Casa De Los Espíritus, 1994, 146 min.)
DIREÇÃO: BILLY AUSGUST
    Sinopse: A partir do romance de Isabel Allende, o filme analisa a saga da família Trueba, da década de 1920 aos anos 1970, com a união de um homem simples que enriquece com uma jovem de poderes paranormais, até a família ser atingida pelo golpe que derrubou o presidente Salvador Allende.
25/10 – A GAROTA DO TREM (The Girl On The Train, 2016, 117 min.)
DIREÇÃO: TATE TAYLOR
    Sinopse: Arrasada por seu recente divórcio, Rachel vive fantasiando sobre um casal aparentemente perfeito que mora em uma casa pela qual seu trem passa todos os dias. Certo dia, ela presencia algo estranho e começa sua própria investigação.
29/11 – NASCE UMA ESTRELA (A Star Is Born, 2018, 146 min.)
DIREÇÃO: BRADLEY COOPER
    Sinopse: Jackson Maine, um cantor famoso, conhece Ally, uma cantora que trabalha em um restaurante. Encantado com seu talento, decide acolhê-la. Ally, ao ascender ao estrelato, Jackson vive uma crise pessoal e profissional devido aos problemas com o álcool.
SERVIÇO:
SEMPRE ÀS ÚLTIMAS SEXTAS-FEIRAS DO MÊS, DAS 18H ÀS 22H.
LOCAL – SALA VERA JANACOPOLUS / REITORIA DA UNIRIO
ENDEREÇO: AVENIDA PASTEUR, 296 – URCA.
ENTRADA FRANCA E ESTACIONAMENTO. FILME: 18H; DEBATE: 20H
PEQUENO HISTÓRICO DO FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA:
                CRIADO PELOS PSICANALISTAS: DR. WALDEMAR ZUSMAN E DR. NEILTON DIAS DA SILVA, A PARTIR DE 2004 PASSA A CONTAR COM A PARTICIPAÇÃO DA MUSEÓLOGA E PROFESSORA DA UNIRIO, DRA. ANA LÚCIA DE CASTRO, RESPONSÁVEL PELA PESQUISA, DIVULGAÇÃO E ANÁLISE CULTURAL DOS FILMES.
          COM A PARCERIA: UNIRIO – PROEXC - ESCOLA DE TEATRO E SPRJ, O PROJETO DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA MANTÉM UMA REGULARIDADE HÁ MAIS DE ONZE ANOS, TORNANDO-SE UM EVENTO MUITO CONCORRIDO, COM UM PÚBLICO FIEL E PARTICIPATIVO.
INFORMAÇÕES: forumpsicinema@gmail.com

domingo, 21 de julho de 2019

Teatro/CRÍTICA

"A Ponte"

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Lionel Fischer



"Três irmãs, separadas pela vida, são obrigadas a se reunir para enfrentar a morte iminente da mãe. Theresa, a mais velha, é uma freira que se isolou da família em um retiro religioso. Agnes, a irmã do meio, vive uma atriz falida, que foi tentar a sorte longe de sua cidade natal. Louise, a mais jovem, é obcecada por séries de TV e desinteressada pelo mundo além do virtual. Neste reencontro, ambientado na cozinha da casa onde foram criadas, as três revelam os seus valores, crenças e diferenças em busca da possível reconstrução de uma célula familiar há muito fragmentada".

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima resume o enredo de "A Ponte", do dramaturgo canadense Daniel MacIvor. Em cartaz no Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil, a montagem leva a assinatura de Adriano Guimarães, estando o elenco formado por Bel Kowarick (Theresa), Debora Lamm (Agnes) e Maria Flor (Louise).

Autor de vários textos já encenados no Brasil - "In on It", "À primeira vista", "Aqui jaz Henry" e "Cine-Monstro" -, Daniel MacIvor possui, dentre seus muitos méritos, dois que me parecem essenciais: tem sempre o que dizer e dá enorme importância ao trabalho dos atores - esta última assertiva, na verdade uma suposição, me parece válida à medida que suas peças jamais podem ser plenamente usufruídas se em cena não estiverem excelentes intérpretes, como no presente caso, como se verá mais adiante.

A primeira curiosidade com relação à peça diz respeito à sua ambientação. Por razões óbvias, a ação não poderia se passar no quarto da mãe agonizante, a menos que a intenção fosse a de conferir um caráter mórbido à narrativa. Se esta acontecesse no quarto de uma das irmãs, isto poderia sinalizar algum tipo de ascendência, o que não é o caso. Então chegamos ao ambiente escolhido: a cozinha. Ainda que possa estar enganado, penso que o autor objetivou conferir ao espaço um caráter que transcende o prosaico, pois ali os alimentos consumidos não buscam saciar necessidades físicas, mas aquelas de há muito represadas no coração das três irmãs. 

Bem escrito, contendo personagens maravilhosamente estruturados e uma ação que prende por completo a atenção do espectador - isto se dá à medida que a trama foge por completo ao previsível, sendo literalmente impossível se prever o que virá em seguida -, creio que o maior mérito de "A ponte" tenha total relação com seu título. Vejamos: as três irmãs possuem histórias de vida e personalidades diametralmente opostas, o que em princípio inviabilizaria qualquer  possibilidade de entendimento. 

No entanto, as circunstâncias as levam a explicitar mágoas e carências jamais reveladas, e quando  renunciam a todas as defesas e decidem abrir seus corações sem reservas, o que antes se afigurava como um abismo aparentemente intransponível converte-se em uma ponte capaz de aproximá-las, o que me permite supor que o autor acredita na possibilidade de que possamos e devamos conviver com as diferenças - nos sombrios tempos que correm, tal crença é não apenas necessária, mas inadiável.

Com relação ao espetáculo, e ainda que este exiba marcas diversificadas e expressivas, torna-se evidente que o diretor Adriano Guimarães deu especial atenção ao elenco, encarregado de materializar personagens de altíssima complexidade. E o resultado não poderia ser melhor: Bel Kowarick, Debora Lamm e Maria Flor extraem o máximo de suas personagens, cabendo ressaltar a coletiva capacidade de entrega, a ótima contracena e a inegável inteligência cênica das intérpretes, que nos brindam com atuações inesquecíveis. Sem sombra de dúvida, um raro presente para aqueles que, como eu, acreditam que o teatro pertence essencialmente aos que estão em cena. 

Na equipe técnica, destaco com o mesmo entusiasmo as belíssimas contribuições de todos os profissionais envolvidos nesta mais do que oportuna empreitada teatral - Emanuel Aragão (dramaturgia), Adriano Guimarães e Ismael Monticelli (cenografia), Bárbara Duvivier (tradução), Ticiana Passos (figurino), Wagner Pinto (iluminação) e Denise Stutz (direção de movimento).

A PONTE - Texto original de Daniel MacIvor. Dramaturgia de Emanuel Aragão. Direção de Adriano Guimarães. Com Bel Kowarick, Debora Lamm e Maria Flor. Teatro II do CCBB. Quinta a segunda, 19h30.