domingo, 9 de setembro de 2018

TRIBO DO TEATRO / SERGIO FONTA - 94 FM / Roquette-Pinto , de segunda a sábado, ao meio-dia e meia.
 
Hoje, 01:00

domingo, 2 de setembro de 2018

Teatro/CRÍTICA

"O frenético Dancin' Days"

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Visceral pulsão de vida



Lionel Fischer



"Idealizada pelos amigos Nelson Motta, Scarlet Moon, Leonardo Netto, Dom Pepe e Djalma Limongi, a boate Dancin'Days foi inaugurada em 05 de agosto de 1976, no recém criado Shopping da Gávea. Mas funcionou por apenas quatro meses, pois o contrato era limitado ao período que antecedia a abertura do Teatro dos Quatro. A casa reunia famosos e anônimos, hippies e comunistas, todas as tribos com o único objetivo de celebrar a vida. E o sucesso foi tamanho que a casa foi reaberta no Morro da Urca e inspirou a novela Dancin' Days, de Gilberto Braga, que tinha a música homônima das Frenéticas como tema de abertura". 

Extraído (e levemente editado) do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza a importância da Dancin' Days como um lugar essencialmente libertário, que abrigou a chegada da discoteca no país. Ali se apresentaram, dentre muitos outros, Lady Zu, a Banda Black in Rio, Tim Maia, Rita Lee, Raul Seixas e Gilberto Gil. E, como é sabido, foi no Dancin' Days que surgiram As Frenéticas. Em vista disso, me parece extremamente oportuna a proposta de relembrar o tempo em que, apesar da ditadura militar, o país inteiro caiu na gandaia e entrou na festa.

Com texto assinado por Nelson Motta e Patrícia Andrade, o musical "O frenético Dancin' Days" (Teatro Bradesco) chega à cena com direção geral de Deborah Colker - cabe assinalar que esta é a primeira encenação teatral de uma das maiores coreógrafas do mundo. No elenco, Stella Miranda (Dona Dayse), Ariane Souza (Madalena), Bruno Fraga (Nelson Motta), Cadu Fávero (Djalma), Franco Kuster (Léo Netto), André Ramiro (Dom Pepe), Gabriel Manita (Tony Manero/Inácio/Catarino), Karine Barros (coro), Larissa Venturini (Scarlet), Natasha Jascalevich (Bárbara) e as Frenéticas Carol Rangel (Edyr de Castro), Ester Freitas (Dhu Moraes), Ingrid Gaigher (Lidoca), Julia Gorman (Regina Chaves), Larissa Carneiro (Leiloca) e Ludmila Brandão (Sandra Pêra). Completam a equipe os bailarinos Romulo Vlad, Andrey Fellipy, Isadora Amorim, Elio Barbe, Eddy Soares, Julia Strauss e Rogger Castro.

Dividido em dois atos, no primeiro o espetáculo prioriza as premissas que levaram à criação da célebre boate. E aqui cabe salientar a tenacidade de Nelson Motta e seus parceiros no sentido de viabilizar a criação de um espaço destinado à música e à dança, e cujo permanente combustível seria a alegria. Já no segundo, com a casa em pleno funcionamento, a festa irrompe irresistível, tornando-se literalmente impossível não se deixar contagiar pela visceral pulsão de vida que emana do palco. 

Bem escrito, contendo ótimos personagens e uma ação que diverte e emociona a plateia, "O frenético Dancin' Days" recebeu ótima versão cênica de Deborah Colker, não apenas no tocante à criatividade das marcações, mas também no que diz respeito à precisão dos tempos rítmicos. Quanto às coreografias, que Deborah assina em parceria com Jacqueline Motta, haveria de ser surpreendente se não fossem, como são, deslumbrantes, magnificamente executadas pelos ótimos bailarinos. E o mesmo deslumbre se faz presente nas preciosas colaborações de Alexandre Elias (direção musical), Gringo Cardia (cenografia e direção de arte), Maneco Quinderé (iluminação), Fernando Cozendey (figurinos) e Max Weber (visagismo).

Com relação ao elenco, todos os profissionais extraem o máximo de seus personagens. Mas é impossível não conferir um destaque especial a Stella Miranda, arrebatadora no breve momento que divide os dois atos e daí em diante, sempre exibindo sua fortíssima presença cênica, imenso carisma, delicioso humor e voz maravilhosa. 

Finalmente, uma breve consideração sobre Nelson Motta, com quem jamais tive o privilégio de ter qualquer contato. Dentre seus muitos predicados - poeta, jornalista, repórter, colunista etc. - um deles me parece essencial: sua aparentemente inesgotável capacidade de gerar felicidade e alegria. Que Deus (caso exista) o conserve sempre assim. E que sua alma otimista e generosa nos ajude a acreditar que o tempo sombrio em que vivemos haverá de passar, como passou o da infame ditadura que muitos acreditavam que haveria de se perpetuar.     

O FRENÉTICO DANCIN' DAYS - Texto de Nelson Motta e Patrícia Andrade. Direção de Deborah Colker. Com Stella Miranda, Bruno Fraga, Cadu Fávero, Franco Kuster, André Ramiro e grande elenco. Teatro Bradesco. Sexta 21h, sábado 17h e 21h, domingo 18h.


segunda-feira, 20 de agosto de 2018


 
Ontem, 22:01
Teatro/CRÍTICA

"THE AND"

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Oportuna e inesquecível montagem



Lionel Fischer



"O espetáculo promove uma interseção entre as palavras de Beckett (três novelas escritas logo após a Segunda Guerra Mundial), Machado de Assis ("Memórias Póstumas de Brás Cubas") e os gritos do nosso próprio tempo. A peça apresenta uma personagem errante, expulsa de todos os lugares e movida pelo desejo de encontrar um local para ficar quieta e sossegada. Ela é o sinônimo da própria instabilidade do nosso tempo, sem garantias e em estado de permanente desintegração".

Extraído (e levemente editado) do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o contexto em que se dá "THE AND", em cartaz no Teatro Sesc Copacabana (Sala Multiuoso). Isabel Cavalcanti responde pela dramaturgia, atuação e divide a direção do espetáculo com Claudio Gabriel. 

Como explicitado no parágrafo inicial, estamos diante de uma mulher errante, expulsa de todos os lugares e que vaga em busca de paz. Mas me parece enganoso individualizá-la, pois assim nos limitaríamos a sentir compaixão por alguém que da vida só conheceu o seu lado mais amargo. No entanto, o que está em causa transcende uma tragédia específica e se estende a todos nós. Afinal, quem somos? O que pretendemos? Para onde vamos? O que ainda podemos fazer para evitar a completa desintegração de nossos valores mais essenciais? 

O presente texto não nos acena com respostas, mas sutilmente nos imputa responsabilidades. Sim, somos todos responsáveis por tudo que fazemos e sobretudo por tudo que deixamos de fazer. Se eu não acolho e não conforto, por que haveria de ser acolhido e confortado? Se a dor do outro não me sensibiliza, por que a minha dor haveria de sensibilizar alguém? Se a empatia tornou-se um conceito meramente abstrato, então nada mais nos resta a não ser admitir que fracassamos, posto que em nossos corações já não reside qualquer resquício de humanidade. No entanto, e mesmo reconhecendo que muitas vezes a mão que afaga é a mesma que apedreja, será que ainda podemos apostar no afago?    

Contendo amargas e pertinentes reflexões sobre a condição humana, os textos de Beckett foram costurados de forma admirável por Isabel Cavalcanti, cabendo também ressaltar a surpreendente inserção das dilacerantes palavras de Machado de Assis, que me levaram a um estado que, na ausência de uma definição mais precisa, me converteram em uma espécie de náufrago de mim mesmo.   

Quanto ao espetáculo, Claudio Gabriel e Isabel Cavalcanti impuseram à cena uma dinâmica em total sintonia com os conteúdos propostos pelos autores. Tudo se dá em uma atmosfera sombria e claustrofóbica, cabendo enfatizar a expressividade de todas as marcações, assim como a maestria no tocante aos tempos rítmicos. Sem a menor sombra de dúvida, estamos diante de um dos melhores espetáculos da atual temporada.

No que se refere a Isabel Cavalcanti, sempre admirável como comediante, aqui a atriz evidencia uma extraordinária capacidade de materializar a dor e desamparo de uma personagem que simboliza a dor e o desamparo humanos, para tanto valendo-se de irretocáveis escolhas vocais e corporais. Além disso, cumpre ressaltar sua forte presença, inegável carisma, inteligência cênica e uma visceral capacidade de entrega. Assim, não hesito em afirmar que Isabel Cavalcanti exibe aqui a melhor performance de sua carreira.

Quanto à equipe técnica, destaco com o mesmo e arrebatado entusiasmo as preciosas colaborações de todos os profissionais envolvidos nesta mais do que oportuna e inesquecível empreitada teatral - Inês Cavalcanti (tradução das citações de Beckett), Cristina Amadeu (direção de movimento), Fernando Mello da Costa (cenografia), Renato Machado (iluminação), Marcelo Alonso Neves (direção musical), Claudio Gabriel e Isabel Cavalcanti (figurino) e Sonia Barreto (design visual).

THE AND - Textos de Samuel Beckett e Machado de Assis. Direção de Claudio Gabriel e Isabel Cavalcanti. Dramaturgia e atuação de Isabel Cavalcanti. Teatro Sesc Copacabana (Sala Multiuso). Sexta e sábado, 19h. Domingo, 18h.

   

    

           



  

domingo, 19 de agosto de 2018

TRIBO DO TEATRO / SERGIO FONTA - 94 FM / Roquette-Pinto , de segunda a sábado, ao meio-dia e meia.
 
Hoje, 21:51

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Amigos queridos,

Estou com um cineclube em parceria com o Teatro XP, que fica dentro do Jóquei – o novo point da Gávea.

Na programação de amanhã temos, comentados, os filmes:

O POETA DO CASTELO - MANUEL BANDEIRA. Curta de 10 minutos com direção emocionada de Joaquim Pedro de Andrade e fotografia de Mario Carneiro. Chance rara de conhecer o excelente trabalho dessas duas figuras fundadoras do Cinema Novo. Meu primeiro contato com o cinema, em 1959.

JUVENTUDE – “Nova versão do diretor” do longa metragem de 2008, que fiz recentemente, cortando mais de meia hora e deixando uma duração de 45 minutos. A experiência me fez pensar sobre a influência da duração que um filme tem no resultado artístico do conteúdo de uma obra.

Espero vocês lá, amanhã às 19h!
Domingos

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Teatro/CRÍTICA

"Elza"

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Belíssimo tributo a uma grande artista



Lionel Fischer



De acordo com inglês Peter Brook, o maior encenador vivo, o teatro é a arte do encontro. Com isso ele quis dizer que um espetáculo pode até ser bom, a plateia se manter interessada, mas se algo de muito significativo não acontecer entre quem faz e quem assiste, o mencionado encontro jamais se dará. Pois aqui se dá esse encontro - emocionante, arrebatador, ao mesmo tempo divertido e trágico, em total sintonia com a trajetória pessoal e artística de Elza Soares.

Em cartaz no Teatro Riachuelo, o musical "Elza" tem dramaturgia assinada por Vinícius Calderoni e direção a cargo de Duda Maia. No elenco, sete atrizes interpretam a homenageada - Janamô, Júlia Dias, Késsia Estácio, Khrystal, Laís Lacôrte, Verônica Bonfim e Larissa Luz, cabendo a esta última a condução do espetáculo e as passagens principais do mesmo. 

Ao contrário do que em geral acontece com musicais biográficos, aqui a estrutura do texto não é necessariamente cronológica. E ainda que todos saibamos que a vida de Elza Soares foi marcada por inúmeras tragédias pessoais - a morte dos filhos e de Garrincha, violência doméstica e fartas doses de intolerância -, sua trajetória pessoal e artística nos é contada com alegria (segundo consta do release que me foi enviado, a pedido da própria Elza).

Outras duas particularidades são marcantes no presente espetáculo: tanto o elenco, como a banda, são compostos exclusivamente por mulheres. E isso me parece de suma importância em função do momento em que vivemos, que se caracteriza, dentre outros aspectos, pela força e importância cada vez maiores das mulheres, negras ou não, em todos os setores da sociedade. As mulheres já não aceitam mais o papel de coadjuvantes em um mundo até então protagonizado pelos homens. E o espetáculo, ainda que de forma não explícita, presta não apenas emocionado tributo à homenageada, mas também ao feminino.

Com relação ao texto, Vinícius Calderoni produziu uma obra belíssima, mesclando o trágico e o humor com absoluta maestria. E também conseguiu inserir  na narrativa sucessos antigos e recentes de Elza Soares sem que a mesma fosse interrompida, ou seja, quase que transformando as canções em dramaturgia. Um trabalho irrepreensível, sob todos os aspectos, que é recebido pelo público com arrebatada emoção.

Arrebatamento e emoção também estão presentes na direção de Duda Maia. E tais sentimentos advém de uma dinâmica cênica que, lidando com poucos elementos - baldes, tonéis e estruturas móveis de metal - gera um resultado de altíssima expressividade. Além de surpreendentes, todas as marcações evidenciam a imensa criatividade de uma artista maior e, além disso, em total sintonia com a contemporaneidade. Sem a menor dúvida, estamos diante de um dos melhores musicais já encenados no Rio de Janeiro.

No tocante ao elenco, todas as atrizes cantam maravilhosamente e encarnam Elza de forma irrepreensível. Mas é claro que, em função do texto, Larissa Luz tem evidente protagonismo. E o fato de se parecer fisicamente com a homenageada e também possuir um timbre de voz semelhante ao de Elza, certamente constituem trunfos adicionais. No entanto, acredito que o essencial reside na força de sua presença, em seu enorme carisma e em sua visceral capacidade de entrega, o que lhe permite valorizar ao máximo tanto as passagens mais trágicas quanto aquelas em que o humor predomina. Não hesito, portanto, em afirmar que Larissa Luz nos brinda com uma performance inesquecível.

No que concerne à equipe técnica, parabenizo com o mesmo entusiasmo as preciosas colaborações de todos os profissionais envolvidos nesta mais do que oportuna empreitada teatral - Pedro Luís (direção musical), Letieres Leite (arranjos), André Cortez (cenografia), Kika Lopes e Rocio Moure (figurinos), Renato Machado (iluminação) e Gabriel D'Angelo (design de som). E o mesmo entusiasmo estendo às excelentes musicistas Antônia Adnet, Georgia Camara, Guta Menezes, Neila Kadhí, Marfa e Priscilla Azevedo.  

ELZA - Texto de Vinícius Calderoni. Direção de Duda Maia. Com Janamô, Julia Dias, Késia Estácio, Khrystal, Laís Lacôrte, Verônica Bonfim e Larissa Luz. Teatro Riachuelo. Quinta às 19h, sexta e sábado às 20h, domingo às 18h.