Teatrro/CRÍTICA
"Abajur lilás"
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Choque de linguagens minimiza alcance do texto
Lionel Fischer
"As prostitutas Dilma, Célia e mais adiante Leninha vivem confinadas num cubículo, exploradas pelo cafetão Giro, que vive acompanhado pelo segurança Oswaldo, um sádico torturador. Dilma é uma mulher sofrida e só aceita as condições impostas por causa do filho que precisa sustentar. Célia, revoltada e explosiva, bebe todos os dias e quase não rende de noite. E por não aguentar mais as pressões e ameaças de Giro, propõe um plano para Dilma: matar o cafetão e ficar com o prostíbulo. Mas um incidente provocado por Leninha acaba fazendo com que as coisas são saiam como planejadas".
Extraído (e levemente editado) do release que me foi enviado, o trecho acima resume o enredo e o contexto de "Abajur lilás", de autoria de Plínio Marcos (1935-1999). Em cartaz no Teatro Sesc Tijuca, a montagem leva a assinatura de Renato Carrera, estando o elenco formado por Andreza Bittencourt (Dilma), Larissa Siqueira (Célia), Laura Nielsen (Leninha), Éber Inácio (Giro) e Higor Campagnaro (Osvaldo).
Muito já se escreveu sobre esta peça, pela maioria dos analistas considerada uma das mais violentas e politizadas do genial autor paulista. Por ter sido escrita em 1969 e censurada pela ditadura em 1975, não são poucos os que a consideram uma metáfora do que o país vivia sob o regime militar. E embora ache pertinente esta visão, ainda assim minha leitura sempre foi (e continua sendo) mais realista do que metafórica, e o que me encanta no texto é a capacidade de Plínio Marcos de retratar com tanta crueza e agudez um universo impregnado de violência e ausência de perspectivas, mas nem por isso isento de dilacerada poesia.
Mas a presente montagem me gerou muitas dúvidas. Se por um lado o encenador Renato Carrera faz absoluta questão de investir no realismo - muitas cenas de nudez, como aquela em que as mulheres se lavam em bacias ou a frustrada tentativa do impotente torturador de fazer sexo com Dilma -, por outro esse investimento acaba soando estranho, já que as mencionadas cenas (e muitas outras) são revestidas de um evidente caráter ritualístico. Ou seja: estaríamos diante de uma proposta em cujo cerne habitariam tanto o realismo como o ritual, o que para mim minimiza o alcance do texto.
E essa dualidade se estende por todos os segmentos do espetáculo. Como é evidente, a ação se passa em um mísero cubículo. No entanto, a cenografia de André Sanches exibe paredes de telhas translúcidas, certamente para permitir maiores possibilidades expressivas para a bela iluminação de Renato Machado. Com relação aos figurinos, corretos para as prostitutas, os mesmos me parecem totalmente exagerados no que diz respeito a Giro e Osvaldo - este último, por sinal, sugere estar paramentado para uma festa sadomasoquista, o que ao menos para mim retirou do personagem todo o seu caráter aterrorizante. No que concerne à trilha sonora de Alexandre Elias, esta pontua com eficiência os climas emocionais em jogo, cabendo destacar a ótima preparação corporal de Felipe Koury.
No que diz respeito à performance do elenco, muitas pessoas me disseram ter ficado admiradas com a coragem das atrizes de exporem totalmente seus corpos em situações nem um pouco glamurosas. De minha parte, não vejo nisso coragem alguma, apenas adesão total a uma proposta cênica. A coragem que as atrizes exibem - e esta sim cabe destacar com entusiasmo - é muito mais a de se desnudarem interiormente, de se esvaziarem para serem preenchidas e impregnadas de sentimentos e contradições que provavelmente desconheciam - ao menos no nível exigido por Plínio Marcos.
Ainda assim, e mesmo admirando as performances de Andreza Bittencourt, Larissa Siqueira e Laura Nielsen, acredito que todas poderiam se sair ainda melhor se encontrassem mais variações de tom, que a meu ver não precisa ser tão exacerbado o tempo todo. Éber Inácio e Higor Campagnaro exibem vigor e grande capacidade de entrega, mas a composição de seus personagens me parece bastante equivocada.
ABAJUR LILÁS - Texto de Plínio Marcos. Direção de Renato Carrera. Com Andreza Bittencourt, Laura Nielsen, Larissa Siqueira, Higor Campagnaro e Éber Inácio. Teatro Sesc Tijuca. Sexta a domingo, 20h.
terça-feira, 20 de outubro de 2015
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
MULTICIDADE - FESTIVAL INTERNACIONAL DE
MULHERES NAS ARTES CÊNICAS
Primeiro Festival na Cidade do Rio de Janeiro
inteiramente dedicado à produção teatral feminina, o “Multicidade - Festival Internacional de Mulheres nas Artes Cênicas”, que em sua primeira edição recebe mais de 50 artistas de 10 países
da Europa, América Latina e Oceania,acontece de 31 de Outubro a 7 de Novembro
de 2015, no Espaço Tom Jobim, localizado dentro do Parque Jardim Botânico do
Rio de Janeiro. 70% da programação é gratuita.
Organizado pela atriz italiana Paola Vellucci, pela diretora sérvia
Jadranka Andjelic e pela cineasta brasileira Eveline Costa, a programação
do Multicidade é focada na produção teatral contemporânea, contemplando
11 espetáculos (7 internacionais), 4 performances (1 internacional), 8 oficinas
(5 internacionais), 3 fóruns, 3 instalações e Espaço Aberto reservado
para intercâmbio entre público e artistas. Durante 8 dias, mulheres
artistas, ativistas sociais, pensadoras, de culturas diversas:
Argentina, Dinamarca, Itália, México, Noruega, Nova Zelândia, Sérvia, Suiça,
Reino Unido e Brasil, com artistas de Brasília, Florianópolis, Recife, Rio de
Janeiro e São Paulo, vão compartilhar suas práticas e experimentações na produção
teatral contemporânea, nas suas múltiplas facetas, interferindo na cidade,
dialogando sobre o fazer e pensar o teatro e suas plataformas, entre as
diferentes gerações. “Todos os trabalhos possuem forte referência ao
conflito da modernidade”, comenta Jadranka Andjelic.
O Multicidade é um espaço de intercâmbio e de estímulo à
solidariedade entre realidades sociais distintas e de aprendizado mútuo entre
as participantes. Através dos fóruns
cria-se um espaço qualificado que atenda à necessidade de reflexão,
questionamentos e contribui com a valorização do fazer artístico das mulheres. As
8 oficinas (3 delas gratuitas e destinadas a pessoas menos favorecidas
economicamente) oferecem a oportunidade de experimentar diferentes técnicas,
que são a base dos espetáculos, como também envolver participantes e empoderar
as mulheres das comunidades do Rio de Janeiro e alunos de escolas
públicas. A programação completa está disponível no site www.multicidade.com.
Com o patrocínio da DOVE e Ministério de Cultura, por meio da Lei de
Incentivo a Cultura, e da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro/Secretaria
Municipal de Cultura, apoio do Consulado do México e do Consulado da
Argentina, e realizado pela Sequência Filmes, Músicas e Cênicas e
Studioline Filmes, o “Multicidade - Festival Internacional de Mulheres nas
Artes Cênicas” faz parte da Rede Internacional de Mulheres nas Artes Cênicas
Contemporâneas - THE MAGDALENA PROJECT (http://www.themagdalenaproject.org), fundada
em 1986 e que até hoje teve mais de 100 encontros e festivais na Europa, Ásia,
Austrália, América Latina e EUA.
Ficha Técnica
Comissão Organizadora: Paola Vellucci, Jadranka Andjelic e Eveline Costa
/ Concepção e Coordenação Geral: Paola Vellucci / Direção
Artística: Paola Vellucci e Jadranka Andjelic /Direção de Produção e Direção
Técnica: Eveline Costa / Coordenação de Projeto: Jadranka Andjelic / Produção
Executiva e Logística: Érika Costa / Cenográfo: Oswaldo Eduardo Lioi /
Coordenação de Montagem: Paulo Denizot / Coordenação de Palco: Rodrigo Ferreira
/ Técnico de Luz: Hermes Ericeira / Técnicos de Som: Jorge Madeira e Felipe
Ribeiro / Coordenação de Oficinas: Tânia Ikeoka / Tradução: Zaba Azevedo e
Eva Zilahi / Assistência de Produção: Leila Meirelles, Juliana Trimer e
Otávio Silva / Secretária de Produção: Lohrana Cristine / Equipe Espaço
Tom Jobim: Georgina Staneck, André Julião, Nicole Marengo, Leandro Alves
e Pardal Rondon / Projeto Gráfico: Bel Petri e Miguel Carvalho / Redes
Sociais: Carol Costa / Assessoria de Imprensa: Ney Motta / Catering: Cacau
Gourmet / Contabilidade: AGR Assessoria Contábil / Realização: Sequência f i l
m e s, músicas e cênicas e Studioline filmes
Serviço
“Multicidade - Festival Internacional de Mulheres nas Artes Cênicas”
Período: 31 de Outubro a 7 de Novembro de 2015
Local: Espaço Tom Jobim – Rua Jardim Botânico 1008, Rio de Janeiro
(dentro do Parque Jardim Botânico) – Tel. (21) 2274-7012 / 3874-0594
Programação – Para informações a respeito das atrações, inclusive
classificação indicative, dias e horários, consulte o site www.multicidade.com
Valor do ingresso – Todas as atrações que acontecem até às 20h são
gratuitas, a partir das 20h o ingresso custa R$ 30,00 (inteira).
31/10, Sábado
09:00h às 21:30h – Exposicão “La Negra de Goya” | Bel Petri / RJ-BRASIL
| ENTRADA FRANCA
19:00h – Intervenções de Grafiteiras | Camila Camiz e Juliana Fervo
/ RJ-BRASIL | ENTRADA FRANCA
19:30h – Performance com Máscara | Erika Rettl, Teatro Moitará /
RJ-BRASIL | ENTRADA FRANCA
20:00h – Espetáculo “NK603” | Violeta Luna / MÉXICO | Ingresso R$ 30,00
(inteira)
01/11, Domingo
09:00h às 21:30h – Exposicão “La Negra de Goya” | Bel Petri /
RJ-BRASIL | ENTRADA FRANCA
15:00h – Fórum “O Sentido da Rede” | Julia Varley / DINAMARCA, Ana Woolf
/ ARGENTINA e Marisa Naspolini / Florianópolis-BRASIL | ENTRADA FRANCA
17:00h – Aula-Espetáculo “Sete Ventos” | Debora Almeida /
RJ-BRASIL | ENTRADA FRANCA
17:30h – Documentário “Um filme de Dança” | Carmen Luz, Cia Étnica
/ RJ-BRASIL | ENTRADA FRANCA
20:00h – Espetáculo “O Tremor da Rosa” | Dah Teatro / SÉRVIA |
Ingresso R$ 30,00 (inteira)
21:30h – Espetáculo “Esther Williams não quer mais nadar” | Andréa Elias
/ RJ-BRASIL | Ingresso R$ 30,00 (inteira)
02/11, Segunda-feira
09:00h às 21:30h – Exposicão “La Negra de Goya” | Bel Petri /
RJ-BRASIL | ENTRADA FRANCA
14:30h – Espaço Aberto - Intercâmbio entre público e
artistas | ENTRADA FRANCA
16:30h – Work in Progress “O Equilibrista” | Cia YinsPiração
Contemporâneas / Brasília-BRASIL | ENTRADA FRANCA
17:00h – Palestra “Magdalena Brasília - Solos Férteis” | Luciana
Martuchelli / Brasília-BRASIL | ENTRADA FRANCA
18:00h – Instalação “Invisívelvisível - No Reino da Paper
Doll” | Paola Terranova / RJ-BRASIL | ENTRADA FRANCA
20:00h – Espetáculo “Ave Maria” | Julia Varley, Teatro ODIN /
DINAMARCA | Ingresso R$ 30,00 (inteira)
21:30h – Performance “Gotas D’água” | Paola Luna /
ITÁLIA-BRASIL | Ingresso R$ 30,00 (inteira)
03/11, Terça-feira
09:00h às 21:30h – Exposicão “La Negra de Goya” | Bel Petri /
RJ-BRASIL | ENTRADA FRANCA
09:00h às 21:30h – Instalação “Invisívelvisível - No Reino da Paper
Doll” | Paola Terranova / RJ-BRASIL | ENTRADA FRANCA
14:30h – Espaço Aberto - Intercâmbio entre público e
artistas | ENTRADA FRANCA
17:00h –
Documentário “O Projeto Magdalena - O
que faz a rede crescer e se manter?” | Jill Greenhalgh e Sara Penrhyn Jones /
UK | ENTRADA FRANCA
18:00h – Palestra “Gênero e Teatro” | Lúcia Sander /
Brasília-BRASIL | ENTRADA FRANCA
20:00h – Espetáculo “Jogo de Damas” | Esther Weitzman Companhia de Dança
/ RJ-BRASIL | Ingresso R$ 30,00 (inteira)
21:30h – Espetáculo “Sementes da Memória” | Ana Woolf / ARGENTINA |
Ingresso R$ 30,00 (inteira)
04/11, Quarta-feira
09:00h às 21:30h – Exposicão “La Negra de Goya” | Bel Petri /
RJ-BRASIL | ENTRADA FRANCA
14:30h – Espaço Aberto - Intercâmbio entre público e
artistas | ENTRADA FRANCA
16:30h – Fórum “Reflexões sobre a Cena Contemporânea e Multimídia”
| Rossella Viti / ITÁLIA, Helen Varley Jemieson / NOVA ZELÂNDIA e Violeta Luna
/ MÉXICO | ENTRADA FRANCA
18:00h – Instalação “Tríptico: Ossos, Batom Vermelho e Hamlet” |
Thais de Medeiros / SP-BRASIL | ENTRADA FRANCA
20:00h – Espetáculo “Não há médico para mortos” | Grenland Friteatret /
NORUEGA | Ingresso R$ 30,00 (inteira)
21:30h – Espetáculo “Somático” | Monica Siedler /
Florianópolis-BRASIL | Ingresso R$ 30,00 (inteira)
05/11, Quinta-feira
09:00h às 21:30h – Exposicão “La Negra de Goya” | Bel Petri /
RJ-BRASIL | ENTRADA FRANCA
14:30h – Espaço Aberto - Intercâmbio entre público e
artistas | ENTRADA FRANCA
16:00h – Performance “Work In Progress” | Núcleo de atrizes do Teatro
Moitará / RJ-BRASIL | ENTRADA FRANCA
17:00h – Filme “Cada Vez Mais Longe” | Eveline Costa e Oswaldo Eduardo
Lioi / RJ-BRASIL | ENTRADA FRANCA
18:15h – Instalação “Tapete Manifesto” | Coletivo Galeria Gruta /
SP-BRASIL | ENTRADA FRANCA
20:00h – Espetáculo “Memórias do Pequeno Circo” | Sequência Cênicas e
Coletivo Teatral Sala Preta / RJ-BRASIL | Ingresso R$ 30,00 (inteira)
21:30h – Espetáculo “Se o silêncio soubesse” | Cristina Castrillo,
Teatro Delle Radici / SUÍÇA | Ingresso R$ 30,00 (inteira)
06/11, Sexta-feira
09:00h às 21:30h – Exposicão “La Negra de Goya” | Bel Petri /
RJ-BRASIL | ENTRADA FRANCA
14:30h – Espaço Aberto - Intercâmbio entre público e
artistas | ENTRADA FRANCA
17:00h – Palestra com Cantos “De Divas a Devas” | Alba Lírio /
RJ-BRASIL | ENTRADA FRANCA
20:00h – Espetáculo “Vistos do Alto” | Vocabolomacchia teatro.studio /
ITÁLIA | Ingresso R$ 30,00 (inteira)
21:30h – Performance “Ofélia Explica” | Lúcia Sander /
Brasília-BRASIL | Ingresso R$ 30,00 (inteira)
07/11, Sábado
09:00h às 21:30h – Exposicão “La Negra de Goya” | Bel Petri /
RJ-BRASIL | ENTRADA FRANCA
10:00h – Apresentação da oficina “Laboratório Madalena-Anastácia: Teatro
das Oprimidas” | ENTRADA FRANCA
12:00h – Apresentação da oficina “As Mulheres e os Silêncios da
História” | ENTRADA FRANCA
16:00h – Foto Instalação (resultado do oficina) “Sapatinhos
Vermelhos” | ENTRADA FRANCA
19:00h – Cyberfomance “Temos uma questão!” | Helen Varley Jamieson /
NOVA ZELÂNDIA | ENTRADA FRANCA
21:00h – Show Musical “Encantações” | Renata Rosa / Recife-BRASIL |
Ingresso R$ 30,00 (inteira)
Ney Motta | contemporânea comunicação
assessoria de imprensa
21 98718-1965 / 2539-2873
21 98718-1965 / 2539-2873
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sábado, 17 de outubro de 2015
(UNIRIO/PROEXC - PROJETO CULTURAL) E
SOCIEDADE PSICANALÍTICA DO RIO DE JANEIRO (SPRJ)
FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA
Caríssimos,
Nosso próximo filme, a ser exibido no dia 30 de outubro, às 18h, discutirá o instigante filme argentino: CATIVA (Cautiva 2004, 115 min.), dirigido e roteirizado pelo cineasta Gaston Biraben, que conta a história real de Sofía Lombardi, filha de desaparecidos no período da ditadura argentina, registrada fraudulentamente como filha de um policial e a esposa, com o nome de Cristina Quadri, constituindo um dos muitos casos de roubo de bebês na época. A jovem, agora com 16 anos, inteira-se subitamente de sua situação -uma vida em cativeiro sem saber - e, desse momento em diante, vive o drama de alguém que perde sua identidade e tenta se reconstruir sobre suas verdadeiras origens e laços biológicos.
Uma obra premiada internacionalmente, pioneira em retratar os horrores do passado relativamente recente da Argentina, e de diversos países da América Latina, como o Brasil, e do pesadelo que custou dezenas de milhares de vidas durante o tempo em que o país mergulhou na guerra suja. Um filme não lançado no Brasil, imperdível.
Contando sempre com a divulgação e com os nossos agradecimentos pela presença, recebam um grande abraço.
Ana Lúcia, Neilton e Zusman.
SERVIÇO:
FILME: CATIVA (CAUTIVA, 2004, 115 min.)
ANÁLISE CULTURAL: PROF. DRA. ANA LÚCIA DE CASTRO
ANÁLISES PSICANALÍTICAS: DR. NEILTON SILVA E DR. WALDEMAR ZUSMAN
DATA: 30 DE OUTUBRO DE 2015
HORÁRIO: FILME: 18h; ANÁLISE E DEBATE: 20h às 22h.
LOCAL: SALA VERA JANACÓPULOS – UNIRIO
ENDEREÇO: AV. PASTEUR, 296.
ENTRADA FRANCA
NOTA: Quem se interessar em adquirir o livro: Fórum de Psicanálise e Cinema: 20 análises culturais e psicanalíticas, de Ana Lúcia de Castro e Neilton Silva, ele se encontra à venda pelo site - www.travessa.com.br – ou pela editora: www.letracapital.com.br, assim como nos dias do FÓRUM.
Igualmente, o livro do Dr. Waldemar Zusman: Poemas & Textos de um Psicanalista: rimas, risos & reflexões, poderá ser adquirido no Fórum.
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
Teatro/CRÍTICA
"Nordestinos"
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Delicioso encontro no Sesi
Lionel Fischer
Em cena, quatro atores nordestinos que vivem e trabalham no Rio de Janeiro, o mesmo ocorrendo com o responsável pela direção. E o que fazem os tais atores? Encenam diversas histórias de nordestinos (recebidas através de cartas) que decidiram migrar do Nordeste para o Rio ou São Paulo em busca da realização de seus sonhos.
Eis, em resumo, o contexto em que se dá "Nordestinos", em cartaz no Teatro Sesi. Walter Daguerre responde pela dramaturgia, Tuca Andrada pela direção e Alexandre Lino pelo argumento e idealização do projeto. No elenco, Alexandre Lino, Erlene Melo, Paulo Roque e Rose Germano.
Diante de um material tão rico e diversificado, Walter Daguerre conseguiu costurar as histórias selecionadas de forma a chegar a um produto final que mescla dramaturgia e jogo, já que são encenadas pequenas histórias e ao mesmo tempo o elenco estabelece uma relação direta com a plateia, afetuosamente convidada a participar de uma grande festa.
Impregnado de humor e lirismo, "Nordestinos" recebeu ótima versão cênica de Tuca Andrada. Impondo à cena uma dinâmica ao mesmo tempo simples e sofisticada, impecável no tocante aos tempos rítmicos e sempre ressaltando a garra nordestina e sua inata alegria, o encenador exibe o mérito suplementar de haver extraído ótimas performances do elenco. Inteiramente à vontade dentro do universo retratado, Alexandre Lino, Erlene Melo, Paulo Roque e Rose Germano possibilitam à plateia um delicioso encontro com personagens plenos de humor e humanidade.
Na equipe técnica, Alexandre Elias responde por excelente direção musical, a mesma excelência presente na iluminação de Renato Machado e na cenografia e figurinos de Karlla De Luca. Cabe também destacar a ótima preparação corporal e direção de movimento de Paula Feitosa.
NORDESTINOS - Texto de Walter Daguerre. Direção de Tuca Andrada. Com Alexandre Lino, Erlene Melo, Paulo Roque e Rose Germano. Teatro Sesi. Quinta a sábado, 19h30.
"Nordestinos"
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Delicioso encontro no Sesi
Lionel Fischer
Em cena, quatro atores nordestinos que vivem e trabalham no Rio de Janeiro, o mesmo ocorrendo com o responsável pela direção. E o que fazem os tais atores? Encenam diversas histórias de nordestinos (recebidas através de cartas) que decidiram migrar do Nordeste para o Rio ou São Paulo em busca da realização de seus sonhos.
Eis, em resumo, o contexto em que se dá "Nordestinos", em cartaz no Teatro Sesi. Walter Daguerre responde pela dramaturgia, Tuca Andrada pela direção e Alexandre Lino pelo argumento e idealização do projeto. No elenco, Alexandre Lino, Erlene Melo, Paulo Roque e Rose Germano.
Diante de um material tão rico e diversificado, Walter Daguerre conseguiu costurar as histórias selecionadas de forma a chegar a um produto final que mescla dramaturgia e jogo, já que são encenadas pequenas histórias e ao mesmo tempo o elenco estabelece uma relação direta com a plateia, afetuosamente convidada a participar de uma grande festa.
Impregnado de humor e lirismo, "Nordestinos" recebeu ótima versão cênica de Tuca Andrada. Impondo à cena uma dinâmica ao mesmo tempo simples e sofisticada, impecável no tocante aos tempos rítmicos e sempre ressaltando a garra nordestina e sua inata alegria, o encenador exibe o mérito suplementar de haver extraído ótimas performances do elenco. Inteiramente à vontade dentro do universo retratado, Alexandre Lino, Erlene Melo, Paulo Roque e Rose Germano possibilitam à plateia um delicioso encontro com personagens plenos de humor e humanidade.
Na equipe técnica, Alexandre Elias responde por excelente direção musical, a mesma excelência presente na iluminação de Renato Machado e na cenografia e figurinos de Karlla De Luca. Cabe também destacar a ótima preparação corporal e direção de movimento de Paula Feitosa.
NORDESTINOS - Texto de Walter Daguerre. Direção de Tuca Andrada. Com Alexandre Lino, Erlene Melo, Paulo Roque e Rose Germano. Teatro Sesi. Quinta a sábado, 19h30.
terça-feira, 13 de outubro de 2015
Teatro/CRÍTICA
"The Pillowman - O Homem Travesseiro"
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Texto brilhante em ótima versão
Lionel Fischer
Um homem está sendo brutalmente interrogado em uma delegacia sob a acusação de haver matado duas crianças - talvez três. E o motivo de sua detenção é que ele é escritor e na maioria de suas histórias crianças são brutalmente assassinadas. Na sala ao lado, seu irmão deficiente mental também está sendo interrogado e de forma igualmente brutal. Com o desenrolar da trama, é explicitada a razão que levou o escritor Katurian a criar histórias tão macabras: seus pais torturaram seu irmão Michal durante anos, no quarto ao lado, acreditando que seus gritos de desespero poderiam estimular a criatividade de Katurian. Este acaba por assassinar os pais e a tomar sob sua responsabilidade a existência do irmão.
Eis, em resumo, o contexto em que se dá "The Pilowman - O Homem Travesseiro", do autor inglês (filho de pais irlandeses) Martin McDonagh. Em cartaz no Teatro Poeirinha, a peça tem direção assinada por Bruno Guida e Dagoberto Feliz, estando o elenco formado por Bruno Autran (Michal), Bruno Guida (investigador Ariel), Daniel Infantini (investigador Tupalski), Flavio Tolezani (Katurian) e Wandré Gouveia (vários personagens).
Embora já tenha sido encenada em mais de 40 países (inclusive no Brasil, por Bruce Gomlevski) e recebido muitos e importantíssimos prêmios, "O homem travesseiro" não é uma unanimidade. John Simon, por exemplo, afirma que "...o que torna a peça verdadeiramente ofensiva é a maliciosa auto-satisfação autoral que ela apresenta com uma certa dose de maldade (New York Magazine Review). Já Eamonn Jordan sustenta, no ensaio War or Narrative: The Pillowman, que "...o autor se distingue por um senso de anomalia jamais visto no teatro irlandês". A se considerar apenas essas duas opiniões, emitidas por profissionais de reconhecido gabarito, o autor seria ofensivo, malicioso, mau e anômalo. Mas será que tais adjetivações são realmente justas? E se justas são, em que medida?
Em minha opinião, as mencionadas adjetivações não são justas em nenhuma medida. O que me parece que ocorre é que " O Homem Travesseiro", por um lado, aborda muitos e diversificados temas - a violência (particularmente abjeta quando envolve crianças), a intolerância, a obra de arte como resultado do sofrimento, a possibilidade da arte influenciar fortemente a vida para o bem ou para o mal etc.; e por outro, o autor propõe uma estrutura narrativa que, a princípio centrada no realismo, de repente envereda para a fábula e mais adiante retorna ao realismo, e novamente envereda para a a fábula, tudo isso sem pedir licença aos espectadores e menos ainda aos críticos, que talvez se irritem e se sintam desnorteados.
Isto posto, cabe indagar: por que essa permanente alternância entre o real e o onírico haveria de gerar irritação e desnorteamento? E ainda que irrite e desnorteie, qual o problema? A principal função do teatro não consiste justamente em nos tirar do eixo, nos obrigar a renunciar à nossa zona de conforto? Um teatro que não incomoda, que não faz pensar, que não produz emoções contraditórias e em função de todas essas carências não gera nenhuma transformação, em minha opinião pode ser tudo, menos teatro. Enfim...
Particularmente, considero "O Homem Travesseiro" um texto brilhante, e não hesito em afirmar que o mesmo recebeu excelente versão cênica de Bruno Guida e Dagoberto Feliz. Ao optarem por uma estética expressionista (com claros elementos de bufonaria), os encenadores conseguiram valorizar ao máximo os muitos e complexos conteúdos em jogo. E o grotesco presente na composição dos personagens contribui tanto para ressaltar a tragicidade do contexto quanto seus aspectos humorísticos - é claro que estou me referindo a humor negro.
Quanto ao elenco, todos os atores exibem performances irretocáveis, seja no que concerne ao texto articulado, seja no que diz respeito ao universo gestual, sob todos os aspectos riquíssimo. Assim, a todos parabenizo com o mesmo entusiasmo e a todos agradeço a maravilhosa noite que me proporcionaram.
Na equipe técnica, Daniel Infantini responde por figurinos adequadamente sombrios e andrajosos (exceção feita à roupa de Michal, por razões óbvias). Ulisses Cohn assina uma cenografia de altíssimo nível, igualmente sombria e também claustrofóbica, predicados semelhantes ao da excelente iluminação de Aline Santini.
THE PILOWMAN - O HOMEM TRAVESSEIRO - Texto de Martin McDonagh. Direção de Bruno Guida e Dagoberto Feliz. Com Bruno Autran, Bruno Guida, Daniel Infantini, Flavio Tolezani e Wandré Gouveia. Teatro Poeirinha. Quinta a sábado, 21h. Domingo, 19h.
"The Pillowman - O Homem Travesseiro"
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Texto brilhante em ótima versão
Lionel Fischer
Um homem está sendo brutalmente interrogado em uma delegacia sob a acusação de haver matado duas crianças - talvez três. E o motivo de sua detenção é que ele é escritor e na maioria de suas histórias crianças são brutalmente assassinadas. Na sala ao lado, seu irmão deficiente mental também está sendo interrogado e de forma igualmente brutal. Com o desenrolar da trama, é explicitada a razão que levou o escritor Katurian a criar histórias tão macabras: seus pais torturaram seu irmão Michal durante anos, no quarto ao lado, acreditando que seus gritos de desespero poderiam estimular a criatividade de Katurian. Este acaba por assassinar os pais e a tomar sob sua responsabilidade a existência do irmão.
Eis, em resumo, o contexto em que se dá "The Pilowman - O Homem Travesseiro", do autor inglês (filho de pais irlandeses) Martin McDonagh. Em cartaz no Teatro Poeirinha, a peça tem direção assinada por Bruno Guida e Dagoberto Feliz, estando o elenco formado por Bruno Autran (Michal), Bruno Guida (investigador Ariel), Daniel Infantini (investigador Tupalski), Flavio Tolezani (Katurian) e Wandré Gouveia (vários personagens).
Embora já tenha sido encenada em mais de 40 países (inclusive no Brasil, por Bruce Gomlevski) e recebido muitos e importantíssimos prêmios, "O homem travesseiro" não é uma unanimidade. John Simon, por exemplo, afirma que "...o que torna a peça verdadeiramente ofensiva é a maliciosa auto-satisfação autoral que ela apresenta com uma certa dose de maldade (New York Magazine Review). Já Eamonn Jordan sustenta, no ensaio War or Narrative: The Pillowman, que "...o autor se distingue por um senso de anomalia jamais visto no teatro irlandês". A se considerar apenas essas duas opiniões, emitidas por profissionais de reconhecido gabarito, o autor seria ofensivo, malicioso, mau e anômalo. Mas será que tais adjetivações são realmente justas? E se justas são, em que medida?
Em minha opinião, as mencionadas adjetivações não são justas em nenhuma medida. O que me parece que ocorre é que " O Homem Travesseiro", por um lado, aborda muitos e diversificados temas - a violência (particularmente abjeta quando envolve crianças), a intolerância, a obra de arte como resultado do sofrimento, a possibilidade da arte influenciar fortemente a vida para o bem ou para o mal etc.; e por outro, o autor propõe uma estrutura narrativa que, a princípio centrada no realismo, de repente envereda para a fábula e mais adiante retorna ao realismo, e novamente envereda para a a fábula, tudo isso sem pedir licença aos espectadores e menos ainda aos críticos, que talvez se irritem e se sintam desnorteados.
Isto posto, cabe indagar: por que essa permanente alternância entre o real e o onírico haveria de gerar irritação e desnorteamento? E ainda que irrite e desnorteie, qual o problema? A principal função do teatro não consiste justamente em nos tirar do eixo, nos obrigar a renunciar à nossa zona de conforto? Um teatro que não incomoda, que não faz pensar, que não produz emoções contraditórias e em função de todas essas carências não gera nenhuma transformação, em minha opinião pode ser tudo, menos teatro. Enfim...
Particularmente, considero "O Homem Travesseiro" um texto brilhante, e não hesito em afirmar que o mesmo recebeu excelente versão cênica de Bruno Guida e Dagoberto Feliz. Ao optarem por uma estética expressionista (com claros elementos de bufonaria), os encenadores conseguiram valorizar ao máximo os muitos e complexos conteúdos em jogo. E o grotesco presente na composição dos personagens contribui tanto para ressaltar a tragicidade do contexto quanto seus aspectos humorísticos - é claro que estou me referindo a humor negro.
Quanto ao elenco, todos os atores exibem performances irretocáveis, seja no que concerne ao texto articulado, seja no que diz respeito ao universo gestual, sob todos os aspectos riquíssimo. Assim, a todos parabenizo com o mesmo entusiasmo e a todos agradeço a maravilhosa noite que me proporcionaram.
Na equipe técnica, Daniel Infantini responde por figurinos adequadamente sombrios e andrajosos (exceção feita à roupa de Michal, por razões óbvias). Ulisses Cohn assina uma cenografia de altíssimo nível, igualmente sombria e também claustrofóbica, predicados semelhantes ao da excelente iluminação de Aline Santini.
THE PILOWMAN - O HOMEM TRAVESSEIRO - Texto de Martin McDonagh. Direção de Bruno Guida e Dagoberto Feliz. Com Bruno Autran, Bruno Guida, Daniel Infantini, Flavio Tolezani e Wandré Gouveia. Teatro Poeirinha. Quinta a sábado, 21h. Domingo, 19h.
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
Teatro/CRÍTICA
"O narrador"
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Precioso encontro com Diogo Liberano
Lionel Fischer
Por razões que a razão desconhece (ou será que não?), o fato é que só no último domingo assisti "O narrador", na Casa da Gávea, quando o espetáculo encerrava sua segunda temporada no Rio de Janeiro - e sendo assim, não faria muito sentido escrever sobre ele. No entanto, e felizmente, a montagem volta a ser exibida no Centro Cultural Justiça Federal, de 03 de outubro a 01 de novembro. Isto significa que possíveis retardatários, como eu, terão talvez a última oportunidade (ao menos nesta cidade) de vivenciar um belíssimo encontro com Diogo Liberano, que responde pelo texto e pela direção de uma das mais significativas empreitadas teatrais do grupo Teatro Inominável.
De acordo com o release que me foi enviado, Diogo Liberano teve como grande referência o ensaio "O narrador - considerações sobre a obra de Nikolai Leskov", escrito em 1936 pelo filósofo alemão Walter Benjamin. Abstendo-me de entrar em maiores considerações sobre a obra de Leskov, e igualmente sobre o referido ensaio, acredito que do mesmo Liberano possa ter se fixado na tese de Benjamin de que a arte de narrar histórias estaria em extinção. Isto significa que o narrador convive inexoravelmente com a consciência da própria finitude, e consequentemente de suas histórias. Daí deriva, segundo Benjamin, sua força e singular autoridade.
No presente texto, Diogo Liberano não tece nenhuma consideração teórica sobre a obra de Leskov e tampouco sobre o ensaio de Benjamin - apenas o menciona. Mas me parece óbvio, em função do material dramatúrgico, que o autor se vale da concretude da morte para tentar encontrar uma nova forma de enxergar a vida. E mesmo quando o desespero é inevitável e arrasador, mesmo quando nada mais parece fazer sentido e a sensação que predomina é a certeza de que se está diante de uma batalha que não pode ser vencida, ainda assim o texto deixa implícita a possibilidade de renascimento. Acredito, portanto, que o maior mérito de "O narrador" seja o de nos mostrar que tudo é possível para aquele que se dispõe a refletir sobre sua própria vida e, a partir de tal reflexão, reinventá-la.
Com relação ao espetáculo, Diogo Liberano (único ator em cena) fica sentado em uma cadeira, ao lado da qual há uma outra com um bichinho de pelúcia; intercalando falas e goles de água, o ator lê seu texto, pausadamente, valendo-se de um microfone; veste-se com roupas corriqueiras, a iluminação é discreta, de vez em quando uma música pontua algumas passagens. O espetáculo nos é apresentado como uma performance. Talvez seja. Mas o fundamental, para mim, não consiste em avaliá-lo a partir de tal premissa e sim declarar meu deslumbramento com a beleza da escrita e a profundidade das reflexões proferidas. E agradecer a Diogo Liberano por, através de suas histórias, iluminar minha vida.
Na equipe técnica, é de excelente nível a composição musical assinada por Rodrigo Marçal. E certamente preciosas as colaborações dos demais integrantes do Teatro Inominável
(Adassa Martins, Caroline Helena, Flávia Naves e Natássia Vello) e de João Pedro Madureira, ator e diretor da companhia gaúcha vai!ciadeteatro, que participaram de todo o processo.
E, finalmente: algumas pessoas me perguntaram se eu achava que todas as histórias de "O narrador" eram mesmo verdadeiras, se Diogo Liberano havia efetivamente vivido tudo aquilo. A todas respondi que achava que sim. Até que uma delas me disse, olhando-me fixamente nos olhos, como costumam fazer as pessoas profundas e os oculistas: "E se um dia você descobrir que tudo aquilo foi inventado"?. Candidamente, retruquei que se Diogo Liberano havia tudo inventado, é porque, ao menos em alguma instância, tudo aquilo havia vivido...
O NARRADOR - Texto e direção de Diogo Liberano. Centro Cultural Justiça deferal. Sábado e domingo, 19h.
"O narrador"
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Precioso encontro com Diogo Liberano
Lionel Fischer
Por razões que a razão desconhece (ou será que não?), o fato é que só no último domingo assisti "O narrador", na Casa da Gávea, quando o espetáculo encerrava sua segunda temporada no Rio de Janeiro - e sendo assim, não faria muito sentido escrever sobre ele. No entanto, e felizmente, a montagem volta a ser exibida no Centro Cultural Justiça Federal, de 03 de outubro a 01 de novembro. Isto significa que possíveis retardatários, como eu, terão talvez a última oportunidade (ao menos nesta cidade) de vivenciar um belíssimo encontro com Diogo Liberano, que responde pelo texto e pela direção de uma das mais significativas empreitadas teatrais do grupo Teatro Inominável.
De acordo com o release que me foi enviado, Diogo Liberano teve como grande referência o ensaio "O narrador - considerações sobre a obra de Nikolai Leskov", escrito em 1936 pelo filósofo alemão Walter Benjamin. Abstendo-me de entrar em maiores considerações sobre a obra de Leskov, e igualmente sobre o referido ensaio, acredito que do mesmo Liberano possa ter se fixado na tese de Benjamin de que a arte de narrar histórias estaria em extinção. Isto significa que o narrador convive inexoravelmente com a consciência da própria finitude, e consequentemente de suas histórias. Daí deriva, segundo Benjamin, sua força e singular autoridade.
No presente texto, Diogo Liberano não tece nenhuma consideração teórica sobre a obra de Leskov e tampouco sobre o ensaio de Benjamin - apenas o menciona. Mas me parece óbvio, em função do material dramatúrgico, que o autor se vale da concretude da morte para tentar encontrar uma nova forma de enxergar a vida. E mesmo quando o desespero é inevitável e arrasador, mesmo quando nada mais parece fazer sentido e a sensação que predomina é a certeza de que se está diante de uma batalha que não pode ser vencida, ainda assim o texto deixa implícita a possibilidade de renascimento. Acredito, portanto, que o maior mérito de "O narrador" seja o de nos mostrar que tudo é possível para aquele que se dispõe a refletir sobre sua própria vida e, a partir de tal reflexão, reinventá-la.
Com relação ao espetáculo, Diogo Liberano (único ator em cena) fica sentado em uma cadeira, ao lado da qual há uma outra com um bichinho de pelúcia; intercalando falas e goles de água, o ator lê seu texto, pausadamente, valendo-se de um microfone; veste-se com roupas corriqueiras, a iluminação é discreta, de vez em quando uma música pontua algumas passagens. O espetáculo nos é apresentado como uma performance. Talvez seja. Mas o fundamental, para mim, não consiste em avaliá-lo a partir de tal premissa e sim declarar meu deslumbramento com a beleza da escrita e a profundidade das reflexões proferidas. E agradecer a Diogo Liberano por, através de suas histórias, iluminar minha vida.
Na equipe técnica, é de excelente nível a composição musical assinada por Rodrigo Marçal. E certamente preciosas as colaborações dos demais integrantes do Teatro Inominável
(Adassa Martins, Caroline Helena, Flávia Naves e Natássia Vello) e de João Pedro Madureira, ator e diretor da companhia gaúcha vai!ciadeteatro, que participaram de todo o processo.
E, finalmente: algumas pessoas me perguntaram se eu achava que todas as histórias de "O narrador" eram mesmo verdadeiras, se Diogo Liberano havia efetivamente vivido tudo aquilo. A todas respondi que achava que sim. Até que uma delas me disse, olhando-me fixamente nos olhos, como costumam fazer as pessoas profundas e os oculistas: "E se um dia você descobrir que tudo aquilo foi inventado"?. Candidamente, retruquei que se Diogo Liberano havia tudo inventado, é porque, ao menos em alguma instância, tudo aquilo havia vivido...
O NARRADOR - Texto e direção de Diogo Liberano. Centro Cultural Justiça deferal. Sábado e domingo, 19h.
sábado, 26 de setembro de 2015
Teatro/ CRÍTICA
"Vulgar"
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Adaptação minimiza alcance do original
Lionel Fischer
Henrik Vogler, diretor de teatro experiente e perfeccionista, ensaia a peça O Sonho, de Strindberg. Depois de uma tarde de trabalho, ele está cochilando no palco quando volta ao teatro sua jovem protagonista, Anna, com a desculpa de procurar uma pulseira perdida. Durante o que seria uma conversa casual, surge uma avalanche de revelações pessoais, que vão transformando o texto em obra confessional. Em uma licença poética, ou num devaneio, ou mesmo em um sonho, mais adiante surge Raquel, mãe de Anna, que no passado interpretou o papel que hoje é da filha.
O trecho acima resume o enredo de "Depois do ensaio", de autoria de Ingmar Bergman, peça escrita em 1980 e quatro anos depois transformada em filme para a televisão. De acordo com o release que me foi enviado, o filme foi escolhido pela atriz Luisa Friese como "estímulo e fio condutor para a criação do novo trabalho". Um belo estímulo, sem dúvida, cujo resultado será avaliado em seguida.
"Vulgar" tem dramaturgia assinada por Diego de Angeli, estando a direção a cargo de Miwa Yanagizawa. No elenco, Lucas Gouvêa e Luisa Friese - o espetáculo deixa hoje a Sala Multiuso do Sesc, mas como acredito que prosseguirá temporada em outro espaço, acho que a presente crítica se justifica.
Nada tenho contra adaptações, estímulos ou fios condutores, mas o fato é que o texto de Diego de Angeli minimiza muito o alcance da belíssima reflexão que Bergman faz sobre a arte teatral. No original, a estrutura narrativa reforça de forma brilhante o caráter lúdico e mágico do teatro, pois jamais se chega a saber, com absoluta certeza, se alguns episódios aconteceram da forma como estão materializados (como a relação de Vogler e Raquel, esta última supostamente já falecida), ou se tudo se resume a um devaneio do diretor semi-adormecido. Ou seja: o espectador é convidado não a racionalizar sobre o que assiste, mas a liberar sua fantasia e deixar-se encharcar pela poesia do palco, que encontrará um campo muito mais fértil não em sua inteligência ou cultura, mas em seu inconsciente.
No entanto, como na presente adaptação o importantíssimo papel da mãe foi cortado (dentre outros cortes, mas fico apenas neste) a estrutura narrativa fica muito comprometida. E o texto apresentado, embora contenha bons diálogos e não deixe de abordar questões relativas à arte teatral, prioriza muito a relação homem/mulher entre o diretor e a atriz, que formaram um casal no passado. E esta relação, certamente muito mal resolvida, é reforçada em duas passagens em que a atriz fica nua, a meu ver sem a menor necessidade - na primeira, o diretor a manda tirar a roupa, obrigando-a a interromper o que faz em alguns momentos, o que talvez leve um espectador desavisado a supor que esteja diante de um outro tipo de peça; e na segunda ocasião, após ser assediada e sair de cena contrariada, surpreendentemente a atriz retorna vestindo só uma blusa...
Com relação ao espetáculo (e agora já não levando mais em conta as ressalvas dramatúrgicas e as referidas cenas de nudez) Miwa Yanagizawa impõe à cena uma dinâmica em sintonia com o texto de Diego de Angeli, valorizando todos os conteúdos através de marcas criativas e diversificadas, cabendo também destacar a habilidade da diretora no tocante aos tempos rítmicos. E no que diz respeito aos intérpretes, Lucas Gouvêa e Luisa Friese extraem o máximo dos personagens, materializando com inteligência e grande capacidade de entrega as muitas e não raro dolorosas emoções em causa.
Na equipe técnica, considero de ótima qualidade as contribuições de todos os profissionais envolvidos na produção - Ricardo Cutz (desenho de som e instalação), Maurício Shirakawa (iluminação), Yumi Sakate (figurino) e Toni Rodrigues (direção de movimento).
VULGAR - Dramaturgia de Diego de Angeli. Direção de Miwa Yanagizawa. Com Lucas Gouvêa e Luisa Friese. O espetáculo encerra hoje, às 18h, sua temporada na Sala Multioso, do Sesc.
"Vulgar"
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Adaptação minimiza alcance do original
Lionel Fischer
Henrik Vogler, diretor de teatro experiente e perfeccionista, ensaia a peça O Sonho, de Strindberg. Depois de uma tarde de trabalho, ele está cochilando no palco quando volta ao teatro sua jovem protagonista, Anna, com a desculpa de procurar uma pulseira perdida. Durante o que seria uma conversa casual, surge uma avalanche de revelações pessoais, que vão transformando o texto em obra confessional. Em uma licença poética, ou num devaneio, ou mesmo em um sonho, mais adiante surge Raquel, mãe de Anna, que no passado interpretou o papel que hoje é da filha.
O trecho acima resume o enredo de "Depois do ensaio", de autoria de Ingmar Bergman, peça escrita em 1980 e quatro anos depois transformada em filme para a televisão. De acordo com o release que me foi enviado, o filme foi escolhido pela atriz Luisa Friese como "estímulo e fio condutor para a criação do novo trabalho". Um belo estímulo, sem dúvida, cujo resultado será avaliado em seguida.
"Vulgar" tem dramaturgia assinada por Diego de Angeli, estando a direção a cargo de Miwa Yanagizawa. No elenco, Lucas Gouvêa e Luisa Friese - o espetáculo deixa hoje a Sala Multiuso do Sesc, mas como acredito que prosseguirá temporada em outro espaço, acho que a presente crítica se justifica.
Nada tenho contra adaptações, estímulos ou fios condutores, mas o fato é que o texto de Diego de Angeli minimiza muito o alcance da belíssima reflexão que Bergman faz sobre a arte teatral. No original, a estrutura narrativa reforça de forma brilhante o caráter lúdico e mágico do teatro, pois jamais se chega a saber, com absoluta certeza, se alguns episódios aconteceram da forma como estão materializados (como a relação de Vogler e Raquel, esta última supostamente já falecida), ou se tudo se resume a um devaneio do diretor semi-adormecido. Ou seja: o espectador é convidado não a racionalizar sobre o que assiste, mas a liberar sua fantasia e deixar-se encharcar pela poesia do palco, que encontrará um campo muito mais fértil não em sua inteligência ou cultura, mas em seu inconsciente.
No entanto, como na presente adaptação o importantíssimo papel da mãe foi cortado (dentre outros cortes, mas fico apenas neste) a estrutura narrativa fica muito comprometida. E o texto apresentado, embora contenha bons diálogos e não deixe de abordar questões relativas à arte teatral, prioriza muito a relação homem/mulher entre o diretor e a atriz, que formaram um casal no passado. E esta relação, certamente muito mal resolvida, é reforçada em duas passagens em que a atriz fica nua, a meu ver sem a menor necessidade - na primeira, o diretor a manda tirar a roupa, obrigando-a a interromper o que faz em alguns momentos, o que talvez leve um espectador desavisado a supor que esteja diante de um outro tipo de peça; e na segunda ocasião, após ser assediada e sair de cena contrariada, surpreendentemente a atriz retorna vestindo só uma blusa...
Com relação ao espetáculo (e agora já não levando mais em conta as ressalvas dramatúrgicas e as referidas cenas de nudez) Miwa Yanagizawa impõe à cena uma dinâmica em sintonia com o texto de Diego de Angeli, valorizando todos os conteúdos através de marcas criativas e diversificadas, cabendo também destacar a habilidade da diretora no tocante aos tempos rítmicos. E no que diz respeito aos intérpretes, Lucas Gouvêa e Luisa Friese extraem o máximo dos personagens, materializando com inteligência e grande capacidade de entrega as muitas e não raro dolorosas emoções em causa.
Na equipe técnica, considero de ótima qualidade as contribuições de todos os profissionais envolvidos na produção - Ricardo Cutz (desenho de som e instalação), Maurício Shirakawa (iluminação), Yumi Sakate (figurino) e Toni Rodrigues (direção de movimento).
VULGAR - Dramaturgia de Diego de Angeli. Direção de Miwa Yanagizawa. Com Lucas Gouvêa e Luisa Friese. O espetáculo encerra hoje, às 18h, sua temporada na Sala Multioso, do Sesc.
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