terça-feira, 12 de julho de 2022

Teatro/CRÍTICA


"O Cálice"


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O Tablado volta à cena em grande estilo


Lionel Fischer 


Após mais de dois anos sem exibir nenhum espetáculo em função da pandemia, O Tablado está de volta em grande estilo, exibindo um espetáculo que traz ao menos duas de suas marcas registradas: um elenco de jovens (a maioria estudando na casa) e altíssima qualidade artística. Livremente inspirada no filme "Monty Python em busca do Cálice Sagrado", a montagem gira em torno da saga do Rei Arthur e de seus cavaleiros da Távola Redonda em busca do Cálice Sagrado.

Com texto de autoria de Lucas Barbosa e direção geral assinada por Cacá Mourthé, o espetáculo chega à cena com elenco formado por Ágatha Marinho, Alyssa Mischler, Beatriz Linhales, Bernardo Riley, Breno Brizola, Chico Moraes, Clara Farroco, Diogo Tarré, Gabriel Aguiar, Gabriel Terra, Gabriela Ruppert, Grila Grimaldi, Helena Alpino, Isadora Ruppert, Joana Chaves, João Pedro Schneider, José Beltrão, Lucas Barbosa, Mariana Tepedino, Rafael Saraiva, Samuel Valladares, Theo Jost, Vicente Valle, Vini Portella e Vitor Hugo Guimarães. 

Lançado em 1975, o filme fez um sucesso estrondoso, dentre outras razões por satirizar de forma impiedosa a saga do Rei Arthur e de seus cavaleiros, até então retratada de forma invariavelmente romântica. E o ótimo texto de Lucas Barbosa prioriza o mesmo enfoque, gerando muitos risos e imediata cumplicidade da platéia. Mas esta também deve ser atribuída à irrepreensível contribuição dos muitos artistas envolvidos nesta marcante empreitada teatral. A começar pela direção geral de Cacá Mourthé, que contou com a co-direção de Isadora Ruppert e Marcelo Cavalcanti.

Sobrinha de Maria Clara Machado e diretora artística do Tablado há muitos anos, Cacá Mourthé herdou uma tarefa em princípio um tanto ingrata, pois não seria nada fácil manter o mesmo nível de excelência da maior autora e diretora de textos infantis de todos os tempos. Mas, abençoada pelos caprichosos deuses do teatro, Cacá vem trilhando uma brilhante trajetória artística, aqui mais uma vez comprovada. Impondo à cena uma dinâmica ágil e criativa, impregnada de marcações divertidas e muito expressivas, a encenadora reabre o Tablado com uma montagem que certamente haverá de fazer um mais do que merecido sucesso.

Quanto ao numeroso elenco, é realmente emocionante ver mais de 20 jovens intérpretes em cena, a maioria - como já foi dito - ainda estudando na casa. E alguns, possivelmente, fazendo sua estreia no palco do Tablado. Sendo assim, nada mais natural que alguns atores  estejam defendendo papéis de maior destaque do que outros. Mas o que me parece fundamental destacar é a força do conjunto, a ótima contracena, a alegria que todos exibem de estar em cena e a consciência que certamente possuem do momento histórico do qual participam. A todos, portanto, agradeço a divertida e emocionante noite que me proporcionaram, e a todos desejo um belo futuro como artistas. 

Com relação à equipe técnica, destaco com o mesmo entusiasmo as preciosas colaborações de todos os envolvidos nesta irrepreensível empreitada teatral - Lincoln Vargas (direção musical e músicas), Julia Marina (cenografia), Ronald Teixeira (direção de arte), Ronald Teixeira, Jovanna Souza e Ricardo Júnior (figurinos), Gabriel Boliclifer (adereços), Daniel Galvan (Iluminação) e Caio Paranaguá, Lincoln Vargas, Ney Feijão e Vinícius Nesi (músicos). 

E finalmente - quase ia me esquecendo - gostaria de destacar a elegância daquele a quem costumo chamar de Mestre Carlão, que cumpre no Tablado diversas funções, dentre elas a de zelar pela segurança da casa. E ele, sempre que o encontro aos domingos quando vou dar aula com minha filha Julia Stockler, me chama de Meu Jovem, o que muito me envaidece.    

O CÁLICE - Texto de Lucas Barbosa. Direção de Cacá Mourthé. Com grande elenco. Teatro O Tablado. Sábados e domingos às 20h.


 












sábado, 9 de julho de 2022

 Teatro/CRÍTICA


"O homem do planeta Auschwitz"


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Certas feridas não podem cicatrizar


Lionel Fischer


"A peça conta a história do escritor judeu polonês Yehiel De - Nur, sobrevivente do campo de extermínio em Auschwitz, sul da Polônia, onde morreram milhares de judeus durante a Segunda Guerra Mundial, e do seu possível encontro com a filósofa Hannah Arendt. Ele foi uma das testemunhas do julgamento de Adolf Eichmann, um dos carrascos mais violentos, responsável por Auschwitz, e que propiciou a Hanna a criação de seu conceito de 'banalidade do mal', discutido até hoje".

Extraído do programa oferecido ao público, o trecho acima sintetiza o essencial das personalidades retratadas, cabendo apenas enfatizar que o encontro entre a filósofa e o escritor é fictício. De autoria de Miriam Halfim, "O homem do planeta Auschwitz" (Casa de Cultura Laura Alvim) chega à cena com direção de Ary Coslov, estando o elenco formado por Mario Borges e Susanna Kruger.

Tendo como temas centrais as opiniões divergentes dos personagens sobre a legitimidade da captura de Adolf Eichmann, na Argentina, por um comando do Mossad - o carrasco nazista foi levado para Israel e após julgamento enforcado em 1961 -, assim como um suposto excesso de teatralidade no julgamento de Nuremberg, o belo e contundente texto de Miriam Halfim faculta à plateia não apenas o acesso às poderosas argumentações dos personagens, mas sobretudo faz questão de nos lembrar que certas feridas jamais cicatrizam, e que o ato de compreender jamais pode ser confundido com o ato de perdoar.

Impondo à cena uma dinâmica austera, felizmente isenta de inócuas mirabolâncias formais, Ary Coslov aposta todas as suas fichas na potência do texto e na interpretação dos atores. Mas embora o considere um dos encenadores que mais entende de atuação, aqui me parece que Coslov comete um equívoco na primeira parte da montagem, felizmente sanado ao longo da mesma. 

Ao longo dos últimos 33 anos de exercício da crítica teatral, já escrevi inúmeras vezes sobre Mario Borges, a quem considero um dos melhores atores do país. Mas por razões que não consegui compreender, o ator inicia a peça num tom tão exacerbado que me impediu, inclusive, de entender tudo que ele diz. Ao mesmo tempo, Susanna Kruger articula seu texto em um tom oposto, trabalhando sua voz em um registro um tanto agudo, sugerindo uma insegurança que a personagem evidentemente não possui.

No entanto, e como já dito, este equívoco inicial se dissipa ao longo da montagem. E quando finalmente abdica de seu tom paroxístico,  então Mario Borges extrai do personagem todo seu imenso potencial, cabendo registrar sua notável capacidade de nos gerar imagens a partir de suas palavras. O mesmo pode ser dito de Susanna Kruger: pouco a pouco sua voz começa a ser trabalhada em um registro mais grave e a ótima personagem adquire a força e a dimensão que a caracterizam. 

Com relação à equipe técnica, Marcos Flaksman assina uma cenografia minimalista e de grande expressividade, esta também presente na soturna iluminação de Aurélio de Simoni. Cabe também destacar os apropriados figurinos de Wanderley Gomes, em total sintonia com as personalidades retratadas, e a excelente trilha sonora de Ary Coslov.

O HOMEM DO PLANETA AUSCHWITZ - Texto de Miriam Halfim. Direção de Ary Coslov. Com Mario Borges e Susanna Kruger. Casa de Cultura Laura Alvim. Sexta e sábado, 20h. Domingo, 19h. 

 




sexta-feira, 27 de maio de 2022

 Teatro/CRÍTICA


"Cuidado quando for falar de mim"


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Corajoso brado contra o preconceito e a discriminação


Lionel Fischer


Embora só tenha sido oficialmente identificada em 1981, estudos demonstram que a AIDS surgiu por volta de 1930. E o que vem a ser ela? É causada pelo vírus HIV, que interfere na capacidade do indivíduo de combater infecções. Inicialmente gerando efeitos devastadores, já há algum tempo a doença - ainda que não tenha cura - pode ser controlada através de tratamentos que  impedem a multiplicação do vírus. Ou seja: os infectados, desde que não negligenciem o tratamento, podem levar uma vida normal. Mas como a sociedade se relaciona com eles? Já não são mais discriminados? Já não mais padecem do estigma em torno da doença, posto que uma de suas formas de transmissão se dá pela prática de sexo não seguro, ou seja, sem preservativo? 

As questões acima formuladas, assim como outras - relações abusivas, dificuldade de se entregar ao amor, o livre arbítrio para abortar ou não etc. - estão na essência de "Cuidado quando for falar de mim", em cartaz na Sede das Cias até o próximo domingo. De autoria de Caroline Lavigne, a peça tem direção assinada por Ricardo Santos, estando o elenco formado por Higor Compagnaro, Juracy de Oliveira, Laura Araújo, Maurício Lima, Nina da Costa Reis, Taye Couto e Whiverson Reis - Jordhan Lessa faz participações em vídeos..

Embora aqui não exista uma narrativa no sentido convencional do termo, posto que as histórias apresentadas são independentes, cumpre registrar que as mesmas são intercaladas por vídeos protagonizados por Jordhan Lessa, que aborda com segurança e tranquilidade alguns aspectos instigantes de sua trajetória - não entro aqui em maiores detalhes pois isso privaria o espectador de comoventes e impactantes surpresas.

Com relação à dramaturgia propriamente dita, são apresentadas quatro cenas. Na primeira estamos diante de uma reunião de acolhimento de pessoas vivendo e convivendo com HIV. Em seguida tudo gira em torno de uma mulher que, cansada de ser tratada abusivamente pelo marido, encontra abrigo - físico, amoroso e espiritual - com uma vizinha; mas finalmente ela resolve voltar para o marido, ingenuamente acreditando que ele pode ter mudado. A terceira cena tem o aborto como tema. E na que encerra o espetáculo uma prostituta aceita o convite de um policial para viver com ele, com a condição de que ela jamais abra uma determinada mala. Por que será que ele faz esse pedido? 

Contendo pertinentes reflexões sobre os temas abordados, o ótimo texto de Caroline Lavigne recebeu sensível e criativa versão cênica de Ricardo Santos. E além disso muito corajosa, à medida que trabalha os conflitos de tal forma que nos faculta o indispensável tempo para absorvê-los e vivenciá-los. Neste sentido, o encenador confere ao silêncio um imenso potencial expressivo. Mas isto não significa que não haja passagens de ritmo acelerado, mas mesmo nessas há momentos de suspensão que geram instigante dúvida na plateia com relação ao que virá em seguida.

Com relação ao elenco, todos os profissionais que estão em cena exibem ótimos desempenhos, visceral capacidade de entrega e a certeza de que acreditam totalmente na relevância do projeto que ajudaram a materializar. A todos, portanto, parabenizo com o mesmo entusiasmo e a todos agradeço pelo precioso encontro que tivemos. 

Na equipe técnica, considero irrepreensíveis as colaborações de Isabella Raposo (vídeos), Tatiana Rodrigues (figurino), Rodrigo Marçal (direção musical), Eugenio Oliveira (iluminação) e Josué Ribeiro (programação visual).

CUIDADO QUANDO FOR FALAR DE MIM - Texto de Caroline Lavigne. Direção de Ricardo Santos. Com Higor Compagnaro, Juracy de Oliveira, Laura Araújo, Maurício Lima, Nina da Costa Reis, Taye Couto, Whiverson Reis e Jordhan Lessa (participação em vídeo). Sede das Cias. Sexta e sábado, 20h. Domingo, 19h. 

 








quinta-feira, 26 de maio de 2022

 16º PRÊMIO APTR DE TEATRO ANUNCIA OS INDICADOS DE 2021


LISTA DE INDICADOS PELO JÚRI

Autor:

Consuelo De Castro - Medeia Por Consuelo De Castro

Guilherme Gonzalez - Rainha

Júlia Spadaccini e Marcia Brasil - Angustia-Me

Luiz Marfuz - A Filha Da Monga

Pedro Bertoldi - A Última Negra


Direção:

Fernando Philbert - Cuidado Com As Velhinhas Carentes E Solitárias

Gabriel Fernandes E Bete Coelho - Medeia Por Consuelo De Castro

Marcos Damaceno - Árvores Abatidas Ou Para Luis Melo

Miwa Yanagizawa - Em Nome Da Mãe

Vinicius Arneiro - Aquilo De Que Não Se Pode Falar


Cenografia:

Analu Prestes - Sonhos Para Vestir

Desirée Bastos - Em Nome Da Mãe

Luciano Wieser - A Última Invenção

Natalia Lana - Cuidado Com As Velhinhas Carentes E Solitárias

Sara Antunes - Dora


Figurino:

Desirée Bastos - Em Nome Da Mãe

Kabila Aruanda - Sonhos Para Vestir

Marieta Spada - Cuidado Com As Velhinhas Carentes E Solitárias

Simone Mina E Carol Bertier - Gaivota

Quitéria Kelly - A Frasqueira De Jacy


Iluminação:

Elisa Mendes - Em Nome Da Mãe

Valdo León - Árvores Abatidas Ou Para Luis Melo

Renato Machado - Vozes Do Silêncio

Vilmar Olos - Cuidado Com As Velhinhas Carentes E Solitárias

Wagner Antônio - Dora


Música:

Barulhista - Ficções Sônicas 02

Federico Puppi - Em Nome Da Mãe

Felipe Storino - Aquilo De Que Não Se Pode Falar

Luciano Salvador Bahia - A Filha Da Monga

Marcelo Alonso Neves - Cuidado Com As Velhinhas Carentes E Solitárias


Ator em papel Coadjuvante:

Alexandre Mitre - Conectados

Eduardo Ramos - Psicose 4h48

Joelson Medeiros - Cuidado Com As Velhinhas Carentes E Solitárias

Osvaldo Mil - Pão E Circo

Thadeu Matos - Conectados


Atriz em papel Coadjuvante:

Luiza Curvo - Gaivota

Márcia Do Vale - Luíza Mahin - Eu Ainda Continuo Aqui

Maria Esmeralda Forte - Meu Filho Só Anda Um Pouco Mais Lento


Ator em papel Protagonista:

Claudio Mendes - Lições Dramáticas Por João Caetano

Felipe Codeço - Aquilo De Que Não Se Pode Falar

Henrique Fontes - A Frasqueira De Jacy

Luis Lobianco - Macbeth 2020

Sérgio Rufino - Rainha


Atriz em papel Protagonista:

Bete Coelho - Medeia Por Consuelo De Castro

Carolina Virgüez - Vozes Do Silêncio

Rosana Stavis - Psicose 4h48 / Árvores Abatidas Ou Para Luis Melo

Sara Antunes - Dora / Sonhos Para Vestir

Suzana Nascimento - Em Nome Da Mãe

Vilma Melo - Mãe De Santo


Espetáculo:

Aquilo De Que Não Se Pode Falar

Dora

Em Nome Da Mãe

Ficções Sônicas 02

Medeia Por Consuelo De Castro

Vozes Do Silêncio


Jovem Talento – Troféu Manoela Pinto Guimarães:

Elenco - Invencíveis

Elenco - Revolução Na América Do Sul

Felipe Frazão - Meu Filho Só Anda Um Pouco Mais Lento

Lucas Andrade - Ficções Sônicas 02

Yumo Apurinã - Por Detrás De O Balcão


LISTA DE INDICADOS POR MEMBROS DA COMISSÃO DO PRÊMIO

Espetáculo Infanto-Juvenil:

A Menina Akili E Seu Tambor Falante, O Musical - Autor: Verônica Bonfim|

Direção: Rodrigo França

Ah, Se La Fontaine Estivesse Por Aqui... - Autor: Denise Crispun| Direção: Marta

Paret

Cabelos Arrepiados - Autor: Karen Acioly| Direção: Tércio Silva

Na Borda Do Mundo - Autor: Cecília Ripoll Direção: Bando De Palhaços Com

Supervisão Cênica De Luiz Carlos Vasconcelos

Papelê - Uma Aventura De Papel - Autor: Dramaturgia De Max Reinert A Partir De

Processo Colaborativo De Criação| Direção: Max Reinert

Quase De Verdade - Autor: Clarice Lispector| Direção Coletiva: Carol Badra,

Débora Duboc, Gpeteanh, Marco Lima E Petrônio Gontijo


Categoria Especial:

Ana Beatriz Nogueira - Pelo Projeto "Teatro Sem Bolso".


Produção:

Zaquim - O Musical - Aventura Teatros Ltda

Pinóquio - Cia Pequod - Teatro De Animação

O Dragão - Companhia Ensaio Aberto

Coração De Campanha - Niska Produções Culturais Ltda.

sexta-feira, 6 de maio de 2022

 s

 

Cia OS SATYROS oferece oficinas gratuitas de dramaturgia, direção e atuação para meios digitais.

 

A cia encenou nada menos que 16 espetáculos especialmente criados para o meio on-line  durante a pandemia, muitos deles com elencos de todos os continentes, fomentando um diálogo mundial inédito nas artes cênicas.

Estas peças criadas durante a pandemia reuniram um público de cerca de 60.000 espectadores/aparelhos conectados e receberam um total de 12 prêmios e 14 indicações nacionais e internacionais, no Brasil, nos EUA, na Europa e na Ásia.

As oficinas atenderão a um público sem fronteiras, uma vez que serão realizadas também online.

INSCRIÇÕES E MAIS INFORMAÇÕES:

► ATUAÇÃO PARA TEATRO DIGITAL: https://forms.gle/ibcw1M6e6BmHH4NcA  ► ENCENAÇÃO PARA TEATRO DIGITAL: https://forms.gle/8KDn4PaYojiBbfQ17  ► DRAMATURGIA CONTEMPORÂNEA E ESCRITA PERFORMATIVA: https://forms.gle/adzLV4yKqjBsbE9M6   ► Ou no site www.satyros.com.br/oficinasINSCRIÇÕES ABERTAS ATÉ 29 DE MAIO

A cia. teatral Os Satyros é também uma das mais antigas e importantes em São Paulo, já produziu  em 32 anos mais de 100 espetáculos, se apresentou em 27 países e ganhou mais de 100 prêmios – incluindo os maiores do teatro brasileiro, como APCA, Shell, Mambembe, APETESP e Governador do Estado de São Paulo.

segunda-feira, 11 de abril de 2022

 Teatro/CRÍTICA


"Intimidade indecente"


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Deliciosas reflexões sobre o amor e a passagem do tempo


Lionel Fischer


"Mariano e Roberta formam um casal sessentão desgastado pela mesmice da rotina. O desejo esfriou, o sexo falta e a implicância sobra. Ávidos por novas experiências, entendem que não há mais porque ficar juntos. Acontece que, como num efeito bumerangue, a vida insiste em devolver um ao outro. E é nessas idas e vindas que, aos poucos, os dois descobrem-se os maiores cúmplices. O sentimento, ainda vivo e sólido, faz com que se entendam mais do que qualquer outra pessoa de fora. Assim, conforme os anos vão passando, resistem cada vez menos à presença um do outro em suas vidas novamente".

Extraído do ótimo release que me foi enviado pelos assessores de imprensa João Pontes e Stella Stephany, o trecho acima resume o enredo de "Intimidade indecente", de Leilah Assumpção, em cartaz no Teatro dos 4. Guilherme Leme Garcia assina a direção da montagem, estando o elenco formado por Eliane Giardini e Marcos Caruso.

Autora de 16 peças teatrais, com especial destaque (além da presente obra)  para "Fala baixo senão eu grito", "Boca molhada de paixão calada" e "Vejo um vulto na janela, me acudam que eu sou donzela", Leilha Assumpção também escreveu para a televisão, assinando em parceria com Daniel Más a novela "Um sonho a mais" e a minissérie "Avenida paulista". No caso específico de "Intimidade indecente", estamos diante de uma comédia dramática que se inicia de forma inusitada (o casal se separando) e aos poucos vai esmiuçando todas as contradições e impasses que em geral caracterizam uma longa relação matrimonial. 

Entretanto, como explicitado no parágrafo inicial, Mariano e Roberta não conseguem se desligar completamente e à medida que envelhecem a antiga cumplicidade ganha novos e imprevistos contornos, tornando evidente que, apesar de tudo que aconteceu, ambos nasceram um para o outro - não detalho os "novos e imprevistos contornos" porque isto privaria o espectador de deliciosas surpresas.

Bem escrita, contendo ótimos personagens e reflexões mais do que pertinentes sobre o amor e a passagem do tempo, "Intimidade indecente" recebeu ótima versão cênica de Guilherme Leme Garcia. Abstendo-se de inócuas mirabolância formais, o encenador concentrou-se basicamente em extrair o máximo potencial dos dois intérpretes, sendo totalmente bem sucedido neste quesito - mas isto não significa que a cena careça de marcações expressivas que potencializam tanto as passagens mais dramáticas quanto aquelas em que o humor predomina.

Mesmo correndo o risco de ser ou parecer monótono, reafirmo agora o que já disse várias vezes ao longo dos últimos 34 anos de exercício da crítica teatral: este país pode carecer de tudo, menos de intérpretes extraordinários. E Eliane Giardini e Marcos Caruso estão totalmente inseridos nesta seleta categoria. Portanto, me parece desnecessário detalhar seus maravilhosos e já mais do que reconhecidos recursos expressivos, o que os faz valorizar ao máximo todas as possibilidades dos excelentes personagens que interpretam. Mas gostaria de destacar dois momentos - apenas dois, dentre muitos - em que ambos deixam claro porque são intérpretes deslumbrantes.

Há um momento em que Eliane Giardini começa a cantar, bem baixinho, uma canção infantil. O "normal" seria que a platéia a escutasse. Mas eis que muitos espectadores começam a cantar com ela, materializando um coral pleno de encantamento. Como se consegue isso? No tocante a Marcos Caruso, em dado momento (precedido de muitos risos) o ator subitamente pergunta à sua parceira: "Você sabe o que é solidão?". Pois bem: o teatro emudece completamente e o silêncio se prolonga (por muito tempo) até o ator dar seguimento à sua fala. Como se consegue isso? Só perguntando aos sempre caprichosos deuses do teatro, que certamente abençoam Eliane Giardini e Marcos Caruso desde que  pisaram em um palco pela primeira vez...

Com relação à equipe técnica, destaco com o mesmo entusiasmo a inestimável contribuição de todos os profissionais envolvidos nesta imperdível empreitada teatral - Aurora dos Campos (cenografia), Tomás Ribas (iluminação) e Aline Meyer (direção musical).

INTIMIDADE INDECENTE - Texto de Leilah Assumpção. Direção de Guilherme Leme Garcia. Com Eliane Giardini e Marcos Caruso. Teatro dos 4. Quinta a sábado, 21h. Domingo, 19h.



 



segunda-feira, 14 de março de 2022

 Teatro/ CRÍTICA


"Respira"


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Sensível e original montagem


Lionel Fischer


"É sobre viver, buscar o ar, olhar em volta, seguir adiante, se manter vivo, em movimento, trocar de pele. É sobre abrir os caminhos, ocupar os espaços e tomar a alegria de volta". Este trecho, extraído do ótimo release que me foi enviado pelo assessor de imprensa Ney Motta, sintetiza as premissas essenciais do presente espetáculo, "Respira", em cartaz na Arena do Sesc Copacabana. Tendo como material dramatúrgico o poema "Jardins", de Ericson Pires, a montagem leva a assinatura de Renato Rocha, estando o elenco formado pelos artistas criadores / Performers Camila Doring, Carol Dunham, Carol Pucu, Claudia Wer, Dani Barbosa, Daniel Bouzas, Eduardo Ibraim, Gabrielle Novello, Maria Cândida Portugal, Miguel Kalahary, Nina Rodrigues, Raquel Polistchuck, Renan Fidalgo, Tatyane Meyer e Thaisa Santoth. 

O presente trabalho não se insere nos padrões convencionais de dramaturgia, posto que não prioriza o conflito entre os personagens. Até porque estes inexistem aqui. Na realidade, estamos diante de estados coletivos que se materializam em três blocos. No primeiro, o que predomina é a sensação de desemparo, sufocamento, como se o ato de respirar demandasse exaustivo esforço. No segundo, é visível a tentativa de transcender o estado anterior, e então o ritmo se acelera e todos os intérpretes (assim como a plateia) são estimulados a respirar - este segmento tem como mola propulsora, ao que me parece, o citado poema "Jardins", proferido com furor por uma atriz. Finalmente, uma vez ultrapassadas a angústia e a não aceitação da mesma, tudo se converte em uma grande festa, estimulada por deliciosa e diversificada trilha sonora, da qual a plateia participa com total entusiasmo.

Dentre os muitos méritos desta montagem, cabe destacar a expressividade das marcações, a alternância de tempos rítmicos e o elaborado universo gestual desenhado com grande sensibilidade por Valéria Martins e executado de forma primorosa pelo elenco. Este, por sinal, contracena de forma visceral em todos os momentos, o que só é possível quando a mútua confiança é irrestrita, assim como a crença absoluta na validade do projeto. A todos, portanto, parabenizo com o mesmo entusiasmo.


Na equipe técnica, considero irrepreensíveis as colaborações de todos os profissionais envolvidos neste mais do que oportuno projeto - Daniel Castanheira (Instalação sonora), Valéria Martins (Direção de movimento), Renato Machado (Iluminação), Renato Rocha (Direção de arte), Claudia Wer (Produção de objetos artísticos), Breno Buswell (Vídeos), Rico Villarouca (Direção técnica do audiovisual), Valéria Martins (Colaboração artística), Marcio Vito (Colaboração textual), Carolina Virguëz (Participação textos em off) e O Aramista (Máscaras eletroluminescentes).

RESPIRA - Direção de Renato Rocha. Com o Núcleo de Artes Integradas (NAI). Arena Sesc Copacabana. Quinta a domingo às 19h.