segunda-feira, 25 de maio de 2015

Teatro/CRÍTICA

"2x2 = 5 - O homem do subsolo"

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Profundo mergulho na alma humana



Lionel Fischer



Publicado em 1864, o pequeno romance "Memórias do subsolo" divide-se em duas partes: na primeira, "O subterrâneo" (11 capítulos), o funcionário aposentado basicamente faz uma paródia de falas alheias, assim como afirma, dentre outras coisas, que gostaria de encontrar um sentido para a própria vida; na segunda parte, "A propósito da neve fundida" (10 capítulos), três episódios retratam o personagem como que encurralado pelos discursos e ações de uma sociedade despótica, e aqui constata-se um dos melhores exemplos do recurso literário conhecido como fluxo de consciência

De autoria do russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881), o romance ganha agora uma versão teatral, "2x2 = 5 - O homem do subsolo", em cartaz no Espaço Sesc. Stefano Geraci responde pela dramaturgia e Roberto Bacci pela direção, estando a interpretação do único personagem a cargo de Cacá Carvalho.

Como a presente obra-prima já foi alvo de incontáveis análises de renomados especialistas de todo o mundo, certamente muito mais capazes do que eu, não me atreverei a acrescentar muita coisa ao que já foi dito. Limito-me, apenas, e com total modéstia, a supor que o dito subsolo possa ser entendido como uma metáfora do inconsciente, o que deixa implícita a possibilidade de os fatos evocados não terem necessariamente ocorrido no real da vida do protagonista - ou ao menos não exatamente como ele os relata..

Mas tenham ou não ocorrido tais fatos, esteja correta ou não minha suposição, o que realmente importa destacar é a extraordinária capacidade de Dostoiévski - para mim o maior romancista de todos os tempos - de mergulhar tão profundamente na alma humana, vasculhando suas entranhas com a obstinação de um arqueólogo obcecado em fazer emergir tudo aquilo que não é visível.  

Impondo à cena uma dinâmica em total sintonia com o material dramatúrgico - claustrofóbica, sufocante e muitas vezes impregnada de ácida ironia -, Roberto Bacci exibe o mérito suplementar de, mais uma vez, extrair a máxima expressividade de Cacá Carvalho. Já muitas vezes escrevi sobre este ator de exceção, que a cada nova performance só faz ratificar seus excepcionais dotes interpretativos. Se o teatro é, como afirma Peter Brook, a arte do encontro, então nenhum espectador minimamente sensível pode se dar ao luxo de faltar a este memorável encontro com Cacá Carvalho.

Na equipe técnica, destaco com o mesmo entusiasmo as contribuições de todos os profissionais envolvidos nesta mais do que oportuna empreitada teatral - Stefano Geraci (dramaturgia), Márcio Medina (cenário e figurino), Fábio Retti (iluminação), Ares Tavolazzi (música original) e Anna Mantovani (tradução para o português).

2x2 = 5 - O HOMEM DO SUBSOLO - Texto de Dostoiévski. Dramaturgia de Stefano Geraci. Direção de Roberto Bacci. Com Cacá Carvalho. Espaço Sesc. Quinta e sexta às 20h30. Sábado às 18h e 20h30. Domingo às 17h e 19h. Terça (26/05) às 20h30. Quarta (27/05) às 20h30. 

quinta-feira, 21 de maio de 2015

UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
(UNIRIO/PROEXC - PROJETO CULTURAL) E
SOCIEDADE PSICANALÍTICA DO RIO DE JANEIRO (SPRJ)
Amigos,
O FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA, no dia 29 de maio, às 18h, exibirá o belo filme francês: ANTES DO INVERNO (Avant l’inver, 2013, 102 min.), narrativa com toques autobiográficos do diretor, roteirista e escritor Philippe Claudel. O filme apresenta a jornada de um neurocirurgião de sucesso, na faixa de 63 anos, cuja rotina se altera após buquês de rosas serem deixados anonimamente em sua casa e em seu consultório, a partir do momento em que Lou, uma moça de vinte anos, cruza seu caminho a todo instante. O roteiro possibilita uma série de questionamentos na busca de respostas, a partir de indagações formuladas pelo diretor: As pessoas são realmente quem elas pretendem ser? Será agora, justamente antes da velhice, o momento certo para revelar os segredos? 
Um filme fascinante que, por certo, ensejará um estimulante debate e troca de ideias.
SERVIÇO:
ANÁLISE CULTURAL: PROF. DRA. ANA LÚCIA DE CASTRO
ANÁLISES PSICANALÍTICAS: DR. NEILTON SILVA E DR. WALDEMAR ZUSMAN.
FILME: ANTES DO INVERNO; DIREÇÃO: PHILIPPE CLAUDEL.
ELENCO: DANIEL AUTEUIL, KRISTIN SCOTT THOMAS ERICHARD BERRY.
DATA: 29 DE MAIO DE 2015
HORÁRIO: FILME - 18h; ANÁLISE E DEBATE - 20h às 22h
LOCAL: SALA VERA JANACÓPULOS – UNIRIO
ENDEREÇO: AV. PASTEUR, 296.
ENTRADA FRANCA
Contando sempre com a divulgação e com os nossos agradecimentos pela presença, recebam um grande abraçoAna Lúcia, Neilton e Zusman.
NOTA: Quem se interessar em adquirir o livro: Fórum de Psicanálise e Cinema: análises culturais e psicanalíticas, de Ana Lúcia de Castro e Neilton Silva, ele se encontra à venda pelo site - www.travessa.com.br/ - e nas diversas filiais da Livraria da Travessa, assim como nos dias do FÓRUM. 
Igualmente, o livro do Dr. Waldemar Zusman: Poemas & Textos de um Psicanalista: rimas, risos & reflexõespoderá ser adquirido no Fórum.




Grupo Moitará apresenta a 
Palestra-Espetáculo
"A Máscara na Energia do Ator"

Uma reflexão sobre a influência da máscara no teatro e na cultura. Esta é uma das propostas da palestra-espetáculo “A Máscara na Energia do Ator”, do Grupo Moitará, que acontece no dia 29 de maio, às 20 horas, no Espaço Moitará, na Lapa.
Unindo a parte didática com o lúdico, o Moitará apresenta ainda algumas demonstrações de trabalho baseadas na pesquisa sobre a dramaturgia do ator desenvolvida nos últimos 27 anos.
Além de aprender um pouco mais sobre essa linguagem, utilizada nas artes e especialmente no teatro há milhares de anos, o público ainda vai se divertir e se emocionar com as cenas, acompanhadas por música ao vivo.
“A palestra foi a primeira estrutura didática e pedagógica criada pelo Grupo Moitará, ainda no seu início. Mas ela é mutante. A cada nova palestra, vão entrando outras máscaras com novas cenas, reflexo do trabalho de pesquisa continuada desenvolvido pelo grupo”, aponta Venício Fonseca, diretor do Grupo Moitará.
Um dos compromissos do Grupo Moitará com a cidade é a acessibilidade da comunidade surda. Além do projeto “Palavras Visíveis”, focado na capacitação de atores surdos, a palestra-espetáculo também contará com a presença de um intérprete de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais).
As senhas serão distribuídas a partir das 19 horas.
 Sobre o Grupo Moitará
Com uma efetiva participação na cena teatral brasileira através da participação em festivais nacionais e internacionais, e também pela atuação pedagógica, o Grupo Moitará desenvolve há 27 anos  ininterruptos o trabalho de pesquisa sobre a dramaturgia do ator com a linguagem da máscara teatral.
Aliado ao trabalho diário de pesquisa dos atores, o grupo ainda democratiza os conhecimentos sobre a Linguagem da Máscara a estudantes, pesquisadores, artistas e ao público em geral, através de oficinas, palestras-espetáculo, seminários e intercâmbios, oferecendo rica contribuição ao desenvolvimento cultural do país.
Moitará é um termo kamaiurá que significa troca, escambo, comércio e é também a única ocasião em que diferentes tribos indígenas do Alto Xingú acampam no mesmo local para realizar trocas de artefatos. O Moitará subsiste como forma estimuladora de contatos e é também uma oportunidade para que haja o confronto e a autoafirmação dos grupos como entidades distintas.
É esta a dimensão que o nome dá ao Grupo Teatral Moitará, um espaço de trocas, de valorização das diferenças culturais.
Serviço:
Palestra-espetáculo “A Máscara na Energia do Ator”
29 de maio
Às 20hs.
Entrada gratuita e classificação livre
Senhas distribuídas uma hora antes do início do evento.
Espaço Moitará – Rua Joaquim Silva, 56/2º andar


Teatro/CRÍTICA

"Acorda, amor!"

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Humor e encantamento no Eva Herz



Lionel Fischer



Desde que comecei a exercer a profissão (dentre outras) de crítico teatral, há exatos 26 anos, venho elaborando uma teoria que, mesmo sem estar ainda concluída, pode se resumir ao seguinte: todos os espetáculos podem ter 15 minutos a menos. Inclusive os mais extraordinários. Quanto aos lamentáveis, é evidente que o tempo de redução deveria ser bem maior.

E tal premissa, por uma questão de coerência, deveria valer para o presente espetáculo. No entanto, acabei desejando que o mesmo durasse bem mais do que 50 minutos, tal o encantamento que me gerou - as razões serão explicitadas a seguir. Adaptação de "A Bela Adormecida", de Charles Perrault, "Acorda, amor!" (Teatro Eva Herz) tem dramaturgia assinada por Florencia Santángelo e Marcos Camelo, sendo que ela interpreta o monólogo e ele o dirige. O projeto é da Cia Quatro Manos.

Falei acima de encantamento. E este se deve a uma série de fatores. A começar pela ótima dramaturgia, que sintetiza o original de forma brilhante. E por dramaturgia entenda-se, no presente caso, não apenas o que se refere ao texto articulado, mas também a palavras cujo sentido apreendemos em função dos gestos a que estão associadas. Finalmente, um destaque todo especial para o universo sonoro, determinante para o fortalecimento das imagens sugeridas.

Impondo à cena uma dinâmica criativa e imprevista, impregnada de humor e lirismo, e irretocável no tocante aos tempos rítmicos, Marcos Camelo exibe o mérito suplementar de haver contribuído para a maravilhosa performance de Florencia Santángelo. Possuidora de ótima voz e impecável trabalho corporal, a atriz também evidencia notável capacidade de improviso e grande inteligência cênica, perceptível pelas escolhas que faz, que jamais privilegiam o previsível. Sob todos os pontos de vista, estamos diante de um espetáculo e de um desempenho que se inserem entre os mais significativos da atual temporada. 

Na equipe técnica, considero irrepreensíveis as contribuições de todos os profissionais envolvidos nesta mais do que portuna e imperdível empreitada teatral - Rodrigo Maia (preparação corporal e direção de movimento), Paulo Denizot (cenografia e iluminação), Florencia Santángelo (figurino) e André Vidal (visagismo).

ACORDA, AMOR! - Dramaturgia de Florencia Santángelo e Marcos Camelo. Direção de Marcos Camelo. Com Florencia Santángelo. Teatro Eva Herz.Terças e quartas, 19h30.   



segunda-feira, 18 de maio de 2015

Teatro/CRÍTICA

"Próxima parada"

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Divertida e comovente homenagem



Lionel Fischer




"No ano em que o Brasil comemora 30 anos do fim do regime militar, o ineditismo do projeto vem do foco no percurso de ambos os autores e de personagens de suas obras, entrelaçando histórias reais e ficcionais, dados históricos e políticos, e depoimentos recolhidos através das cartas que José Vicente e Antonio Bivar trocaram ao longo de anos de amizade e de viagens feitas pela Europa e América Latina, atingindo a dramaturgia, a interpretação, a cenografia e demais elementos cênicos".

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima explicita os objetivos de "Próxima parada", divertida e comovente homenagem a dois dos mais importantes dramaturgos brasileiros, o mineiro José Vicente (1945-2007) e o paulista Antonio Bivar. O primeiro assinou "Hoje é dia de rock" e "O assalto", e o segundo "Cordélia Brasil" e "O cão siamês ou Alzira Power", dentre muitas outras obras relevantes.

Em cartaz no Teatro Café Pequeno, "Próxima parada" tem dramaturgia assinada por Cesar Augusto e Felipe Vaz, direção de Cesar Augusto e elenco formado por André Rosa, Breno Motta, Dani Cavanellas, Danilo Rosa, Felipe Frazão, Flavia Coutinho, Haroldo Costa Ferrari, Rômulo Chindelar, Sarah Lessa e Victor Albuquerque.

Como minha juventude coincidiu com a dos autores, assisti a todas as montagens de suas obras. E especialmente no que se refere a "Hoje é dia de rock" e "O assalto", minha relação com essas peças foi muito próxima, já que exibidas no Teatro Ipanema, espaço que vi nascer e que me propiciou fortíssimas relações de amizade com Rubens Corrêa e Ivan de Albuquerque. Assim, para mim foi muito fácil embarcar na viagem proposta pelo espetáculo. 

Sim, pois todas as referências e analogias, assim como a memória de episódios marcantes da época - os hippies, as drogas, a contracultura, a virulência do regime militar etc. - me são totalmente familiares. No entanto, não sei em que medida espectadores mais jovens, ou idosos reacionários que pouco se envolveram com a efervescência da época poderão acompanhar o espetáculo com facilidade. Talvez o texto necessitasse de um pouco mais de informação sobre os autores, sem que isso enveredasse para um enfadonho didatismo. 

Seja como for, o fato é que o texto me divertiu e comoveu em igual medida, assim como a montagem. Valendo-se de marcas criativas e imprevistas, ótima ocupação do espaço e notável domínio dos tempos rítmicos, o diretor Cesar Augusto construiu uma dinâmica cênica que retrata com humor e dramaticidade um dos períodos mais marcantes da recente história de nosso país. Além disso, conseguiu extrair seguras e convincentes atuações de todo o elenco, cuja coesão tornaria injusta a menção de algum intérprete em particular. Assim, a todos agradeço a maravilhosa noite que me proporcionaram e aproveito para desejar vida longa para este espetáculo tão significativo.

Na equipe técnica, Genilson Barbosa ilumina na cena com grande sensibilidade, sendo irretocáveis os figurinos de Lilian Bonfim e a trilha sonora de Rodrigo Marçal. Os vídeos de Elisa Mendes e João Marcelo Iglesias também colaboram de forma decisiva para o sucesso desta mais do que oportuna empreitada teatral.

PRÓXIMA PARADA - Dramaturgia de Cesar Augusto e Felippe Vaz. Direção de Cesar Augusto. Com André Rosa, Breno Motta, Dani Cavanellas e grande elenco. Teatro Café Pequeno. Sexta a domingo, 20h.  





quarta-feira, 13 de maio de 2015

Teatro/CRÍTICA

"Contra o vento - um musicaos"

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Montagem imperdível no CCBB



Lionel Fischer



"A peça conta a história de um diário (fictício) que teria sido encontrado na demolição do Solar da Fossa. Este diário tem, presas à sua capa, somente as páginas do início em 1967 e do final em 1969, pois todo o conteúdo do meio está espalhado por entre páginas soltas e desordenadas. Por isso as histórias da peça não seguem numa ordem cronológica, e o espetáculo pode acontecer a cada dia em uma ordem diferente. Para decidir essa ordem haverá uma votação feita pelo público no início de cada apresentação".

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima explicita a premissa dramatúrgica e a forma como se dá cada espetáculo - mais adiante falarei um pouco sobre o Solar da Fossa. De autoria de Daniela Pereira de Carvalho, o texto chega à cena (Teatro I do CCBB) com direção de Felipe Vidal e elenco formado por Adassa Martins (D. Jurema), Clarisse Zarvos (Ana), Felipe Antello (Tavares), Gui Stutz (Claudio), Guilherme Miranda (Caos), Izak Dahora (Betinho), Jefferson Almeida (Rômulo/Romina), Julia Bernat (Rita), Julie Wein (Laura), Laura Becker (Maria), Leonardo Corajo (Leo), Luciano Moreira (Tonico/Velho Aposentado) e Tainá Nogueira (Clarice, dona do diário).

O Solar da Fossa era um casarão situado em Botafogo onde hoje fica o Shopping Rio Sul. Funcionava como pensão e abrigou dezenas de artistas, ainda desconhecidos, como Caetano Veloso, Gal Costa, Tim Maia e Paulo Coelho. Palco de histórias memoráveis, o Solar tem aqui sua história recriada (em termos ficcionais) e ao mesmo tempo a autora oferta ao público uma divertida visão do movimento tropicalista. E como o país vivia os tenebrosos Anos de Chumbo, Daniela Pereira de Carvalho inseriu dolorosas passagens abordando fatos inerentes à escabrosa ditadura militar. 

Dividido em três blocos - "Panis et circencis", "Sinal Fechado" e "Três da madrugada" -, o texto presta emocionado tributo aos artistas (aqui, mais especificamente, aos ligados à musica) que tiveram a coragem de enfrentar o autoritarismo e se dispuseram a romper com todas as regras e propor novos caminhos, tanto em termos de criação quanto de postura perante a vida. 

Exibindo ótimos personagens, diálogos fluentes e uma narrativa que prende a atenção do público desde o início, "Contra o vento" recebeu esplêndida direção de Felipe Vidal. A começar pelo olhar coloquial que impõe à cena, totalmente despida de grandiloquentes empostações, o que certamente gera um clima de familiaridade com que todos se identificam. Tudo transcorre em uma atmosfera tão engenhosamente construída que se torna absolutamente natural a fusão do texto com as canções, treze das quais (em um total de 21) compostas por Vidal em parceria com Luciano Moreira, em sua maioria belíssimas.

Mas os méritos de Felipe Vidal vão além. Valendo-se de marcações imprevistas e criativas, o encenador extrai grande expressividade tanto das passagens mais divertidas quanto daquelas em que a dramaticidade predomina. E, como se não bastasse, ainda contribui decisivamente no tocante às maravilhosas performances de todo o elenco, impecável na elocução do texto, nas partes cantadas e na execução de uma infinidade de instrumentos. Sem sombra de dúvida, Felipe Vidal materializa aqui a melhor direção de sua carreira.

Na equipe técnica, considero brilhantes as contribuições de todos os profissionais envolvidos nesta mais do que oportuna empreitada teatral - Marcelo Alonso Neves (direção musical), cabendo aqui destacar o deslumbrante arranjo para "Portas abertas", Mona Vilardo (preparação e arranjos vocais), Renata Jambeiro (preparação corporal e direção de movimento), Aurora dos Campos (cenografia), Flávio Souza e Raquel Theo (figurinos), Tomás Ribas (iluminação), Eduardo Souza e Paulo Caetano (videografismo e programação visual), Daniele Avila Small (interlocução crítica) e Juliana Mendes (visagismo).

CONTRA O VENTO - UM MUSICAOS - Texto de Daniela Pereira de Carvalho. Direção de Felipe Vidal. Uma realização do Complexo Duplo e Fomenta Produções. Com Julia Bernat, Julie Wein e grande elenco. Teatro I do CCBB. Quarta a domingo, 19h.



   

terça-feira, 12 de maio de 2015

Teatro/CRÍTICA

"O acompanhamento"

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Amizade e loucura no Eva Herz



Lionel Fischer



"O metalúrgico Tuco, pouco antes de sua aposentadoria, abandona o trabalho para viver seu grande sonho: tornar-se cantor. Ridicularizado pelos amigos em função de uma fracassada apresentação que fizera - segundo ele, os músicos que o acompanharam não foram capazes de acertar o tom - e pressionado pela família, Tuco se tranca em um porão. Nesse refúgio ele ensaia sozinho enquanto aguarda a chegada dos violonistas, o acompanhamento prometido por um conhecido. Mas quem bate à porta é Sebastian, um velho amigo cuja missão é trazê-lo de volta à razão".

Extraído (e levemente editado) do release que me foi enviado, o trecho acima explicita o contexto de "O acompanhamento", de autoria de Carlos Gorostiza. Escrita em 1981 e considerada uma das obras argentinas mais relevantes sobre o tema da amizade, a peça chega à cena (Teatro Eva Herz) com tradução e adaptação de Daniel Archangelo e Wilmar Amaral, direção de Archangelo e elenco formado por Wilmar Amaral (Tuco) e Roberto Frota (Sebastian).

Muitas são as razões que podem levar alguém a perder progressivamente a razão. No caso de Tuco, além do mencionado fracasso artístico, há também que se levar em consideração o fato de não mais suportar seu trabalho em uma fábrica. E como um conhecido lhe diz (por piedade ou galhofa, jamais se chega a saber) que enviará à sua casa violonistas competentes, o contexto alienante se materializa e Tuco passa realmente a acreditar que sua desforra artística se resume tão somente a uma questão de tempo.

A chegada de Sebastian sugere que esse amargo quadro pode ser alterado, pois ele se empenha com toda a potência de seu amor e amizade para convencer o amigo de que os violonistas não virão e de que ele precisa retomar sua atividades normais. Mas é tudo inútil e finalmente Sebastian se convence de que nada lhe resta a não ser simular que acredita no delírio de Tuco - este momento, que não julgo adequado revelar aqui, se dá de uma forma absolutamente singela e lírica, e por isso mesmo profundamente comovente. 

Bem escrito, contendo ótimos personagens e pleno de amor e humanidade, "O acompanhamento" recebeu excelente versão cênica de Daniel Archangelo. Priorizando o trabalho dos intérpretes, que é o que mais importa em textos dessa natureza, o encenador criou uma dinâmica que valoriza ao extremo as sutilezas, os silêncios, os encontros e desencontros de Tuco e Sebastian, sempre valendo-se de marcas simples, mas nem por isso pouco expressivas. Afora isso, o diretor exibe o mérito suplementar de haver extraído ótimas atuações dos atores.

Na pele de Tuco, Wilmar Amaral constrói uma figura patética, impregnada de lirismo e dor, tão convincente em seus momentos de delírio quanto naqueles em que parece recuperar momentaneamente sua lucidez. Há que se destacar também sua visceral capacidade de entrega, sua ótima voz e impecável trabalho corporal. Quanto a Roberto Frota, acredito que o ator exibe aqui uma das melhores performances de sua carreira. Alternando paciência e rigor, doses equivalentes de bom senso e sincera esperança, Frota converte seu personagem na perfeita materialização da amizade - mas também julgo imperioso destacar a engraçadíssima passagem em que narra a visita de uma senhora à sua loja e que, inicialmente suave e polida, converte-se aos poucos em incontido furor.

Na equipe técnica, considero irrepreensíveis as contribuições de todos os profissionais envolvidos nesta belíssima e comovente empreitada teatral - Daniel Archangelo e Wilmar Amaral (tradução), Carlos Augusto Campos (cenografia), Ricardo Rocha (figurino) e Daniel Archangelo (iluminação).

O ACOMPANHAMENTO - Texto de Carlos Gorostiza. Direção de Daniel Archangelo. Com Wilmar Amaral e Roberto Frota. Teatro Eva Herz. Quinta a sábado, 19h30.