quinta-feira, 26 de maio de 2016

Teatro/CRÍTICA

"Cidade Correria"

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Surpreendente e imperdível



Lionel Fischer



"Cidade Correria é um espetáculo sobre a cidade. A dramaturgia é fruto de trabalho radicalmente coletivo, inspirado em imagens, filmes, situações cotidianas, histórias de vida e contos literários. O espetáculo não é uma história, é uma invasão, um transbordamento de nossas urgências cotidianas, nossas contradições, alegrias, delírios, feridas e potências. Uma cidade inventada, em deriva, que poderia ser a nossa cidade, ou qualquer cidade. Sejam bem-vindos à cidade caos, cidade contradição, cidade maravilhosa, cidade impedida, cidade carnaval, cidade invenção, cidade revolução. Cidade Correria".

O belo trecho acima, extraído do programa, define as premissas essenciais de "Cidade Correria", que, após circular por todas as arenas cariocas no ano passado, está agora em cartaz no Espaço Cultural Sérgio Porto. Criado em 2014, o Coletivo Bonobando responde pela dramaturgia, estando a direção a cargo de Adriana Schneider e Lucas Oradovschi. No elenco, Daniela Joyce, Hugo Bernardo, Igor da Silva, Jardila Baptista, Karla Suarez, Lívia Laso, Marcelo Magano, Patrick Sonata, Thiago Rosa e Vanessa Rocha. 

De acordo com o release que me foi enviado, o grupo pesquisou vários textos, tais como "O bebê de tarlatana rosa" (João do Rio), "A última chuva do prisioneiro" (Mia Couto), "O duelo entre a criança que diz sim e a cidade que diz não" (Thiago Rosa), "Banzeiro" (Ricardo Cotrim), "Cidade Correria 1" (Thiago Florencio) e "Cidade Correria 2" (Daniel Guimarães). E mesmo não tendo condições de avaliar em que medida esses textos foram preservados ou adaptados, é inegável que o resultado final é de excelente qualidade.

Tal excelência se deve a vários fatores, sendo um dos principais a capacidade do grupo de abordar criticamente alguns aspectos da realidade cotidiana de nossa cidade. E essa abordagem, em muitos momentos, envereda para uma recriação desta mesma realidade, apontando eventuais caminhos e novas possibilidades, ora priorizando o lúdico, ora lançando mão de uma ironia devastadoramente cômica. Sem dúvida, e sob todos os aspectos, estamos diante de um dos melhores textos atualmente em cartaz no Rio de Janeiro.

Quanto ao espetáculo, Adriana Schneider e Lucas Oradovschi  impõem à cena uma dinâmica em total sintonia com o material dramatúrgico. Valendo-se de marcações invariavelmente criativas e imprevistas, e trabalhando os tempos rítmicos de forma irrepreensível, a dupla de encenadores exibe o mérito suplementar de haver extraído ótimo rendimento do jovem e carismático elenco.

E embora alguns atores ainda necessitem de um maior aprimoramento técnico, sobretudo vocal, esta pequena e sanável deficiência é amplamente compensada pelo excelente trabalho corporal de todos. E também pela forma corajosa com que se apropriam do espaço, impregnando-o de transbordante energia e conferindo total credibilidade às ideias que defendem. Assim, não me resta outra opção a não ser implorar aos sempre caprichosos deuses do teatro que abençoem este jovem grupo e permita que ele tenha uma bela trajetória artística.

Com relação à equipe técnica, parabenizo com o mesmo entusiasmo as preciosas colaborações de todos os profissionais envolvidos nesta surpreendente e imperdível empreitada teatral - Adriana Schneider (metodologia de dramaturgia), Cátia Costa e Mariana Mordente (direção de movimento), Ricardo Cotrim (direção musical e trilha sonora), Fabiana Mimura (direção de arte), Nina Balbi (iluminação), Cátia Costa (preparação corporal), Lucas Oradovschi (treinamento de máscaras balinesas), Verônica Machado (suponho que a preparadora vocal concorde comigo, mas certamente fez um excelente trabalho, na medida do possível) e Filipe Duarte (assistência de arte). 

CIDADE CORRERIA - Texto coletivo. Direção de Adriana Schneider e Lucas Oradovschi. Com o Coletivo Bonobando. Espaço Cultural Sérgio Porto. Sábado e segunda, 21h. Domingo, 20h.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Teatro/CRÍTICA

"Mercedes"

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Lúdica e sensual homenagem



Lionel Fischer



Primeira bailarina negra do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Mercedes Baptista (1921-2014) teve uma vida plena de realizações. Conseguiu introduzir no currículo da escola de danças do referido teatro a disciplina Danças Afro-Brasileiras; contribuiu para a inserção do Teatro Experimental do Negro (criado por Abdias do Nascimento) no cenário cultural da época; introduziu a coreografia nos desfiles das Escolas de Samba; e, para não me estender em demasia, criou o Ballet Folclórico Mercedes Baptista, o que possibilitou uma nova visão da dança afro-brasileira.

Artista fundamental na criação de uma identidade negra na dança brasileira, Mercedes Baptista ganha agora uma justíssima homenagem com o espetáculo "Mercedes", em cartaz no Espaço Sesc. Cássio Duque e Sol Miranda respondem pela dramaturgia (com a colaboração do Grupo Emú), estando a direção a cargo de Juracy de Oliveira e Thiago Catarino. No elenco, Iléa Ferraz (Mercedes), Sol Miranda (Mercedes), Ariane Hime (Eros Volúsia e Katherine Dunham), Núbia Pimentel (Ignácia, mãe de Mercedes), Raphael Rodrigues (comadre de Ignácia), Drayson Menezes (Abdias do Nascimento) e Tuany Zanini (repórter e aluna de Mercedes). 

Estruturado de forma a permitir vários encontros da personagem Mercedes em duas épocas diferentes de sua vida - uma Mercedes ainda bem jovem e outra em idade mais avançada -, o texto se vale deste recurso para, ao que me pareceu, possibilitar uma avaliação da trajetória da artista feita por ela mesma. Uma boa ideia, sem dúvida. No entanto, não consegui entender a razão que leva a Mercedes mais velha a exibir quase sempre um tom amargo, quase que impregnado de um sentimento de culpa, já que sua trajetória, apesar de todas as dificuldades, foi efetivamente luminosa. 

Outra questão diz respeito a fatos importantes da caminhada da artista. Embora alguns deles não deixem de ser mencionados, acredito que a mera menção poderia ter sido substituída, ao menos eventualmente, por uma efetiva dramatização, o que conferiria maior interesse ao texto articulado. Ainda assim, cabe registrar que a dramaturgia apresenta momentos saborosos, especialmente aqueles em que o humor predomina.

Com relação ao espetáculo, Juracy de Oliveira e Thiago Catarino impõem à cena uma dinâmica plena de vigor e fantasia, em total sintonia com as belíssimas coreografias de Fábio Batista, também responsável pela irrepreensível direção de movimento. Dentro deste lúdico e sensual contexto, os atores exibem interpretações corretas no que tange ao texto articulado, e irrepreensíveis no tocante a tudo que expressam através da dança e do universo gestual. E no quesito dança, considero preciosas as participações de Renata Araújo, Canela Monteiro, Evandro Machado, Priscila Lúcia e Raphael Rodrigues.

No complemento da equipe técnica, destaco com o mesmo entusiasmo as colaborações de João Paulo Alves e Reinaldo Junior (participação especial), Charles Nelson, Elton Sacramento e Fábio Batista (preparação corporal), Sérgio Pererê (direção musical), Kadú Monteiro e Sérgio Pererê (composição musical), Priscilla Lacerda (preparação vocal), Paulo César Medeiros (iluminação), Adriano Farias (cenografia) e Lucas Pereira (figurino), cabendo ainda destacar o ótimo nível dos músicos Richard Neves (piano), Frida Maurine (violino), Raquel terra (violoncelo) e Kaio Ventura (percussão).

MERCEDES - Texto de Cássio Duque e Sol Miranda. Direção de Juracy de Oliveira e Thiago Catarino. Com Iléa ferras, Sol Miranda e outros. Espaço Sesc. Quinta a sábado, 20h30. Domingo, 19h. 



 


quarta-feira, 18 de maio de 2016

Teatro/CRÍTICA

"Se eu fosse Iracema"

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Inesquecível encontro no Sérgio Porto



Lionel Fischer



"A peça não tem a intenção de levantar uma bandeira e, sim, uma reflexão. Branco, mestiço, índio, ocidental. É possível coexistir? Abordando a questão indígena no Brasil, a montagem pretende examinar a questão da possibilidade de convivência das diferenças". O trecho, extraído do release que me foi enviado, sintetiza a proposta de "Se eu fosse Iracema", em cartaz no Espaço Cultural Sérgio Porto. Fernando Marques assina a dramaturgia, estando a direção a cargo de Fernando Nicolau. Adassa Martins dá vida ao monólogo.

Diante da crucial pergunta "é possível coexistir?", a maioria das pessoas dirá que sim. No entanto, existe uma considerável diferença entre meramente aceitar alguém que não pensa como nós, que não é como nós, e efetivamente estabelecer com esse alguém uma real coexistência, ou seja, um existir junto. 

No presente caso, o foco é a questão indígena. Em que medida ela nos preocupa, nos afeta, nos mobiliza? É claro que, quando nos deparamos com um caso como o do índio Galdino - queimado vivo em Brasília por um grupo de jovens brancos e bem-nascidos -, o horror nos invade. Mas imediatamente somos levados a crer que se trata de um caso isolado e que a exemplar punição desses jovens nos redime de qualquer responsabilidade. No entanto, e mesmo considerando a hipótese de que esses jovens padecessem de brutal psicopatia, a doença deles não exclui a nossa, em última instância muito mais grave: a indiferença. 

Todos nós sabemos que os índios foram quase que dizimados pelos colonizadores; todos nós sabemos que, os que restaram, foram sendo aos poucos privados de suas terras; todos nós sabemos que os direitos básicos dos índios são sistematicamente desrespeitados. E, no entanto, a maioria de nós permanece calada, como se tais questões não tivessem a menor relevância. Mas por que agimos assim? Ou melhor, por que nos recusamos a gir? Dentre as muitas respostas possíveis, opto pela mais trágica: para a maioria de nós, o índio não existe.  

Mas graças ao bom Deus, a todos os Pajés e aos Deuses do Teatro temos agora a possibilidade de dar início a um inadiável processo de redenção. Sim, pois "Se eu fosse Iracema" fustiga de tal forma nossa adormecida consciência que, após assistir ao espetáculo, certamente todos os espectadores passarão a olhar a questão indígena com outros olhos e, quem sabe, passarão da inércia à ação.
Neste sentido, me incluo entre os que, mesmo não sabendo exatamente como, passarão a agir.

Texto belíssimo, "Se eu fosse Iracema" começa com a figura de um pajé interpretando um texto em guarani, se não me engano inspirado em fala proferida pelo cacique Raoni. Em seguida, nos deparamos com um mulher embriagada que empreende desconexas reflexões sobre artigos da Constituição de 1988. Mais adiante, uma personagem, ao que parece inspirada na ministra Kátia Abreu, exibe uma ironia tão hedionda que a faria merecedora de umas belas chibatadas. E outros personagens surgem, os já citados retornam, todos contribuindo para nos possibilitar, ao menos em princípio, a possibilidade de não nos tornarmos órfãos de nós mesmos. 

Quanto ao espetáculo, Fernando Nicolau impõe à cena uma dinâmica cujo cerne repousa no desconforto que provoca. Nada indaguei, evidentemente, dos demais espectadores, mas quanto a mim, devo confessar que a montagem me chegou, em todos os momentos, com a virulência das grandes tempestades. E mesmo que deslumbrado com a beleza e expressividade das marcações, com a maestria dos tempos rítmicos, com a originalidade das soluções, ao mesmo tempo me senti permanentemente incomodado, como se me estivessem sendo imputadas responsabilidades que até então fizera questão de negar. Sob todos os pontos de vista, um belíssimo e inesquecível encontro. Com o teatro e comigo mesmo.

Com relação a Adassa Martins, a atriz exibe aqui a melhor performance de sua carreira. Possuidora de ótima voz, irrepreensível trabalho corporal, forte presença cênica e inegável carisma, a intérprete também revela visceral capacidade de entrega, afora uma inteligência cênica que jamais a leva a adotar soluções previsíveis. Sem dúvida, estamos diante da mais instigante e poderosa performance da atual temporada.  

Na equipe técnica, parabenizo com o mesmo e irrestrito entusiasmo as maravilhosas contribuições de todos os profissionais envolvidos nesta mais do que oportuna empreitada teatral - Licurgo Caseira (iluminação e cenografia), Luiza Fradin (figurino e caracterização), João Schmid (trilha sonora original e desenho de som), Fernando Nicolau (direção de arte e projeto gráfico), Bruno Dante (escultura do busto) e João Julio Mello (fotografia).

SE EU FOSSE IRACEMA - Texto de Fernando Marques. Direção de Fernando Nicolau. Com Adassa Martins. Espaço Cultural Sergio Porto. Sexta, sábado e segunda, 20h. Domingo, 19h.
     








sexta-feira, 13 de maio de 2016

Solos na Sede

Mostra de teatro é patrocinada pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e pela Secretaria Municipal de Cultura e integra o Circuito Cultural Rio

Coordenação e Idealização Ivan Sugahara e Tárik Puggina

De 21 de maio a 27 de junho na SEDE DAS CIAS

De 21 de maio a 27 de junho, a SEDE DAS CIAS apresenta a mostra SOLOS NA SEDE, integrante do Circuito Cultural Rio, idealizada pela Secretaria Municipal de Cultura e pela Prefeitura do Rio, para a programação cultural dos períodos Olímpico e Paralímpico, que vai de maio a setembro de 2016. A mostra reúne seis monólogos teatrais consagrados: “A Descoberta Das Américas”, com Julio Adrião e direção de Alessandra Vanucci; “Calango Deu! Os causos da Dona Zaninha, com Suzana Nascimento e direção de Isaac Bernat; “O Filho Eterno”, com Charles Fricks e direção de Daniel Herz; “Ato de Comunhão”, com Gilberto Gawronski e direção do próprio Gilberto Gawronski e de Warley Goulart; “Estamira - Beira do Mundo”, com Dani Barros e direção de Beatriz Sayad; e “Meu Caro Amigo”, com Kelzy Ecard e direção de Joana Lebreiro. Ao longo de um mês e meio, a cada semana, serão realizadas três sessões de cada, sempre a preços populares. As sessões de domingo contarão com intérprete de libras, de forma que todas as peças terão uma apresentação com acessibilidade para deficientes auditivos.

O projeto que integra o Circuito Cultural Rio, com patrocínio da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro/Secretaria Municipal de Cultura, celebra os três anos da SEDE DAS CIAS, idealizada como um espaço de pesquisa teatral da cidade do Rio de Janeiro, com foco em grupos e companhias. Ao completar seis meses de criação, em dezembro de 2013, a SEDE recebeu uma indicação ao Prêmio Shell na Categoria Inovação pela “dinamização do espaço com uma proposta inovadora de ocupação”. Sob a gestão daNevaxca Produções e da cia. Os Dezequilibrados e com o patrocínio da Petrobras, a SEDE tem três companhias residentes: a Cia. dos Atores, Os Dezequilibrados e a Pangeia cia.deteatro.


IVAN SUGAHARA E TÁRIK PUGGINA

Idealizadores e coordenadores da Sede das Cias, o diretor Ivan Sugahara e o produtor Tárik Puggina já desenvolveram uma dezena de projetos de sucesso juntos. A parceria teve início em 2010 com a peça “Sade em Sodoma”, de Flávio Braga. Em 2011, realizaram juntos duas produções de autores argentinos contemporâneos: “A Estupidez”, de Rafael Spregelburd, com a Cia. Os Dezequilibrados (dirigida por Ivan e desde então produzida por Tárik), e “Mulheres Sonharam Cavalos”, de Daniel Veronese. Em 2012, a dupla realizou os espetáculos “A Serpente”, de Nelson Rodrigues”, com a Cia. Os Dezequilibrados, e “Antes que você me toque”, de Claudia Mele e Ivan Sugahara. Em 2013, fizeram juntos o espetáculo “Pacto”, de Stephen Dolginoff, e ganharam o edital da Petrobrás de Manutenção de Grupos Teatrais para a cia. Os Dezequilibrados. Desta forma, criaram a Sede das Cias e promoveram, no mesmo ano, uma temporada carioca e uma temporada paulista de dois espetáculos do repertório do grupo: “A Serpente” e “Últimos Remorsos Antes do Esquecimento”, de Jean Luc Lagarce. Em 2014, realizaram as montagens de “Preciso Andar”, de Nick Payne, e “Fala comigo como a chuva e me deixa ouvir”, de Tennesse Williams, ganhadora do Prêmio Cesgranrio de Melhor Espetáculo. Em 2015, fizeram as peças “Marco Zero”, de Neil Labute, e “Beija-me como nos livros”, de Ivan Sugahara, que esteve em cartaz no Rio e em São Paulo, e circulou por 23 cidades do país.   

CIRCUITO CULTURAL RIO

Idealizado pela Prefeitura do Rio, o Circuito Cultural Rio conta com mais de 700 atrações, selecionadas e patrocinadas por meio dos editais da Secretaria Municipal de Cultura, que serão apresentadas em mais de 100 espaços culturais espalhados por toda a Cidade, além dos eventos que acontecem ao ar livre. Com peças de teatro, exposições, shows, espetáculos de dança, atrações circenses, eventos de gastronomia, manifestações de rua, saraus, bailes e afins, o Circuito Cultural Rio vai possibilitar uma experiência integral da diversidade cultural carioca. 

FICHA TÉCNICA
Coordenação e Idealização: Ivan Sugahara e Tárik Puggina
Curadoria: Ivan Sugahara
Produção Geral: Tárik Puggina
Produção Executiva: Fernanda Alencar
Administração Financeira: Amanda Cezarina
Fotografia: Dalton Valério
Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti
Programação Visual: Luciano Cian
Marketing Digital: Laura Limp
Realização: Nevaxca Produções e Sede das Cias

SERVIÇO
Local: Sede das Cias (Rua Manuel Carneiro, 12 - Escadaria Selarón – Lapa)
Informações: (21) 2137-1271 (a partir de 14 horas)
Ingressos: R$ 30,00
Horário: sábado a segunda, às 20h
Bilheteria: diariamente, uma hora antes do espetáculo

21 a 23 de maio

A Descoberta das Américas

Texto original Dario Fo
Tradução e adaptação Alessandra Vannucci e Julio Adrião
Direção Alessandra Vannucci
Com Julio Adrião
Júlio Adrião é um Zé ninguém de nome Johan Padan. Rústico, esperto e carismático, escapa da fogueira da inquisição embarcando, em Sevilha, numa das caravelas de Cristóvão Colombo. No Novo Mundo, nosso herói sobrevive a naufrágios, testemunha massacres, é preso, escravizado e quase devorado pelos canibais. Com o tempo, aprende a língua dos nativos, cativa-os e safa-se fazendo “milagres” com alguma técnica e uma boa dose de sorte.  Venerado como filho do sol e da lua, catequiza e guia os nativos numa batalha de libertação contra os espanhóis invasores.

O espetáculo, há 10 anos em cartaz, esteve em várias cidades do Brasil e do exterior: Na Europa apresentou-se em Londres, Inglaterra; na Espanha apresentou-se nas cidades de Ourense e Santiago de Compostella; em Portugal nas cidades de Lisboa, Porto, Coimbra, Bragança, Oeiras, Vila Nova de Gaia, Matozinho e Guarda. Na África, Julio Adrião participou do Mindelact, em Mindello, e Praia, ambos em Cabo Verde e também em Luanda, na Angola. Por último, em 2013, foi ao Chile, em Santiago, onde fez A Descoberta das Américas, pela primeira vez, em espanhol.

Entre as diversas apresentações em festivais no Brasil e exterior, o ator Júlio Adrião cumpriu, em 2010, o Projeto de Circulação com patrocínio da BR Petrobras Distribuidora e Governo Federal através da Lei Rouanet, passando por Belém, Cuiabá, Maceió, Aracajú, Campina Grande e Mossoró.

FICHA TÉCNICA
Texto original: Dario Fo
Tradução e adaptação: Alessandra Vannucci e Julio Adrião
Direção: Alessandra Vannucci
Atuação: Julio Adrião
Iluminação: Luiz André Alvim
Operação de Luz:  Guiga Ensá
Figurino: Priscilla Duarte
Programação visual: Fernando Alax
Fotografias: Maria Elisa Franco
Produção Executiva: Thais Teixeira e Martha Avelar
Assessoria de Imprensa: Diversa & Fabulanas
Coordenação de Produção e administração: EmCartaz Empreendimentos Culturais

Temporada: 21 a 23 de maio
Duração: 80 minutos
Gênero: comédia
Capacidade: 60 pessoas
Classificação: 14 anos

28 a 30 de maio

Calango Deu

Texto, atuação e direção musical Suzana Nascimento
Direção Isaac Bernat
Com Suzana Nascimento

Sucesso absoluto de público e crítica, dirigido por Isaac Bernat, o monólogo Calango deu! – Os causos da Dona Zaninha, primeiro espetáculo da Cia. Caititu, escrito e interpretado por Suzana Nascimento, é um espetáculo teatral baseado na cultura popular mineira. Dona Zaninha é uma guardiã de ricos acervos de memórias  – uma genuína contadora de causos, hilária por seu jeito e seu linguajar, mas profunda com suas “sabências” sobre o Tempo. Além de contar surpreendentes causos, a personagem também convida a plateia a cantar com seu bandolim. Entre um cafezinho e uma boa cachaça mineira, Dona Zaninha nos conduz a outras paragens, verídicas - da atriz mineira e seus relicários - ou fantasiosas, mas recheadas de humor, poesia e memória.

FICHA TÉCNICA
Texto, atuação e direção musical: Suzana Nascimento
Direção: Isaac Bernat
Cenário e Figurino: Desirée Bastos
Direção de movimento: Marcelle Sampaio
Preparação e supervisão musical: Pedro Amorim
Iluminação: Aurélio de Simoni
Técnico de Luz: João Gioia
Fotografia: Sergio Santoian e Julio Ricardo
Projeto gráfico: Raquel Alvarenga
Participações nas fotos: Maria Mirabel
Administração do projeto: Amanda Cezarina
Produção: Aline Mohamad e  Gabriel Salabert
Assessoria de Imprensa: Minas de Ideias
Realização: Cia Caititu e M&S Arte e Cultura

Temporada: 28 a 30 de maio
Duração: 90 minutos
Gênero: comédia
Capacidade: 60 pessoas
Classificação: 12 anos

04 a 06 de junho

O Filho Eterno

A partir do romance de Cristovão Tezza
Adaptação Bruno Lara Resende
Direção Daniel Herz
Com Charles Fricks

“O Filho Eterno” é a adaptação para os palcos de uma das obras literárias mais importantes e premiadas no Brasil. O livro homônimo de Cristovão Tezza narra a história de um jovem pai, escritor, sustentado financeiramente pela mulher e que se vê prestes a ser pai pela primeira vez. Sua ansiedade e a expectativa com o nascimento do primeiro filho cedem o lugar à decepção inicial por ele nascer Down (Síndrome de Down). O pai, inicialmente, nega amor àquela criança "errada". Frases de impacto, fortes e cruas, são proferidas como uma avalanche de emoções jorrando do palco para a plateia, que acompanha as tentativas do pai em "normalizar" o filho de qualquer jeito.  Ao longo do espetáculo, esse pai vai aprender, a duras penas, a amar essa criança.

FICHA TÉCNICA
A partir do romance de Cristovão Tezza
Adaptação: Bruno Lara Resende
Direção: Daniel Herz
Atuação: Charles Fricks
Figurino: Marcelo Pies
Cenário: Aurora dos Campos
Direção Musical: Lucas Marcier
Iluminação: Aurélio de Simoni
Direção de Movimento: Márcia Rubin
Diretora de Produção:: Renata Campos
Assistente de Direção: Clarissa Kahane
Consultoria Psicanalítica: Evelyn Disitzer
Direção Artística da Cia Atores de Laura: Daniel Herz

Temporada: 04 a 06 de junho
Duração: 78 minutos
Gênero: romance
Capacidade: 60 pessoas
Classificação: 12 anos

11 a 13 de junho

Ato de Comunhão

Texto Lautaro Vilo
Tradução Amir Harif
Direção Gilberto Gawronski e Warley Goulart
Com Gilberto Gawronski

Em cena, um homem relembra três momentos de sua vida: o aniversário de oito anos, a morte da mãe e um jantar bastante peculiar com outro homem que conhecera pela internet. Livremente baseada num fato real que ficou conhecido na mídia como o do “canibal alemão”, a peça coloca no palco, com elaborada delicadeza, algumas complexidades perturbadoras da vida contemporânea. Tecnologia, conexão, solidão, instinto e civilização permeiam esta história verídica que oscila entre o moderno e o arcaico.

FICHA TÉCNICA
Texto: Lautaro Vilo
Tradução: Amir Harif
Direção: Gilberto Gawronski e Warley Goulart
Atuação: Gilberto Gawronski 
Fotos: Paulo Severo e Jorge Etecheber
Vídeos: Jorge Neto
Iluminação: Vilmar Olos
Assessoria de Imprensa: Meise Halabi
Gravação de Áudio e efeitos sonoros: Rodrigo Marçal do Studio ARP.X
Produção: Wagner Uchôa
Montagem e operação de Luz: Boy Jorge
Operação de som e projeção: Amir Harif
Realização: GPS Produções Artísticas LTDA

Temporada: 11 a 13 de junho
Duração: 55 minutos
Gênero: drama
Capacidade: 60 pessoas
Classificação: 18 anos



18 a 20 de junho

Estamira

Direção e dramaturgia Beatriz Sayad
Atuação, dramaturgia e idealização Dani Barros

“Estamira – beira do mundo” é livremente inspirado no documentário “Estamira” do diretor Marcos Prado, que ganhou mais de 23 prêmios nacionais e internacionais, e retrata a história de uma catadora de lixo, que dá nome ao filme, com uma doença mental crônica, mas com uma percepção do mundo surpreendente e devastadora; uma profeta do lixão, carregada de tragédia e humor, delirante e sábia, atordoante e provocadora. Mais do que uma adaptação, o projeto é também um depoimento pessoal e artístico, fala sobre os que se encontram à margem da sociedade, no meio do lixo do descaso e que são tratados como restos na maior parte da vida. A voz de Estamira é uma resposta a essa negligência social: o lixão é a representação irônica e trágica da própria condição em que vive a nossa sociedade.

FICHA TECNICA:
Direção e Dramaturgia: Beatriz Sayad
Atuação, Dramaturgia e Idealização: Dani Barros
Trechos de: Ana Cristina Cesar, Antonin Artaud, Estamira Gomes De Souza, Manoel De Barros,  Michel Foucault e Nuno Ramos 
Luz: Tomás Ribas
Cenário: Aurora dos Campos (Colaboração: Beatriz Sayad e Dani Barros)
Figurino: Juliana Nicolay
Direção Musical: Fabiano Krieger e Lucas Marcier
Design de Som:  Andrea Zeni
Assistente de Direção: Marina Provenzzano
Preparação de Ator: Georgette Fadel
Preparação Vocal: Luciana Oliveira (Fonoaudióloga)
Voz do Fado: Soraya Ravenle
Preparador Vocal (Soraya): Felipe Abreu
Técnico, Operador de Luz e Som, Contra Regra: Sandro Lima
Técnico e Operador de Luz: Walace Furtado
Microfonista: Allan Moniz
Boneca Getúlio Damado   
Fotos: Barbara Copque e Felipe Araújo Lima
Projeto Gráfico: Cubículo
Assessoria de Imprensa: Luciana Medeiros
Edição de Vídeo: Antonio Baines
Assistente de Cenografia: Camila Cristina
Costureira: Cleide Moreira 
Colaborou para esta criação: Ana Achcar 
Direção de Produção: Verônica Prates
Produção: Quintal Produções
Gerente de Projetos Quintal: Maitê Medeiros
Assistente de Produção Quintal: Thiago Miyamoto
Coordenação Geral do Projeto: Dani Barros  
Realização: Momoenddas Produções Artísticas

Temporada: 18 a 20 de junho
Duração: 70 minutos
Gênero: documental
Capacidade: 60 pessoas
Classificação: 14 anos

25 a 27 de junho

Meu Caro Amigo

Atuação Kelzy Ecard
Músico em Cena João Bittencourt
Texto Felipe Barenco
Direção Joana Lebreiro

Meu Caro Amigo conta a história de Norma, uma mulher de 50 anos, professora de História do Brasil, que viveu a segunda metade do século XX de forma intensa e apaixonada. Para Norma, Chico Buarque foi capaz de traduzir seus estados de alma em música e poesia, imaginando até que muitas foram compostas para ela, tamanha a abrangência das mesmas em relação à sua vida. Enquanto o espetáculo se desenrola, Norma compartilha suas memórias com o público, constituindo, assim, a verdadeira ação dramática do espetáculo em dois âmbitos. Temos a história pessoal desta mulher: sua relação com seu pai – um entusiasta do regime militar –, com sua família e com o grande amor de sua vida. E temos também a relação de Norma frente às lembranças da história recente do país, nos acontecimentos marcantes da última metade do século.

O espetáculo começa nos anos 60, na infância da personagem Norma, quando Chico Buarque surge com “A Banda” e é a revelação dos Festivais de Música, encarnando a figura de ‘bom moço’ e ‘rapaz de família’. Passa pelo golpe militar e endurecimento da ditadura durante a década de 70, quando nosso homenageado começa a ser perseguido politicamente e tem muitas de suas músicas censuradas – e também quando nossa personagem passa pela adolescência e primeiras descobertas amorosas e políticas. Os anos 80 chegam e trazem Norma adulta acompanhando a luta pela redemocratização do país e a admiração cada vez maior por seu ídolo. O espetáculo termina no final dos anos 90, quando o amor de Norma por Chico Buarque já alcançou o patamar de encantamento em estado puro e consciente de seu lugar – como metáfora de todos os âmbitos afetivos de sua vida.
Estas histórias/memórias ficcionais e coletivas nacionais são embaladas e costuradas pelas canções de Chico Buarque durante todo o espetáculo.

FICHA TÉCNICA
Atuação: Kelzy Ecard
Músico em Cena: João Bittencourt
Texto: Felipe Barenco 
Direção: Joana Lebreiro
Direção Musical: Marcelo Alonso Neves
Cenário e Figurinos: Ney Madeira
Iluminação: Paulo César Medeiros
Preparação Vocal: Pedro Lima
Direção de Movimento: Thais Tedesco
Direção de Produção: Mônica Farias
Coordenação de Projeto: Kelzy Ecard e Joana Lebreiro

Temporada: 25 a 27 de junho
Duração: 75 minutos
Gênero: romance
Capacidade: 60 pessoas
Classificação: 12 anos





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quarta-feira, 11 de maio de 2016

UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (UNIRIO/PROEXC /ESCOLA DE TEATRO) &
SOCIEDADE PSICANALÍTICA DO RIO DE JANEIRO (SPRJ)
APRESENTAM:
FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA
20/05- O HOMEM IRRACIONAL (The irrational man)2014. Abe, um professor de filosofia mergulhado em crise existencial, reencontra a vontade de viver em uma universidade de pequeno porte. Ao se envolver com uma colega e com sua melhor aluna, a quem fascina por sua cultura, começa a mostrar sinais de desequilíbrio mental, desencadeando uma série de situações que afetará a todos.
DIREÇÃO: Woody Allen. 94 min.
SERVIÇO:
SEMPRE ÀS ÚLTIMAS SEXTAS-FEIRAS DO MÊS, DAS 18H ÀS 22H.
LOCAL – SALA VERA JANACOPOLUS / REITORIA DA UNIRIO
ENDEREÇO: AVENIDA PASTEUR, 296 – URCA.
ENTRADA FRANCA E ESTACIONAMENTO. FILME: 18H; DEBATE: 20H
PEQUENO HISTÓRICO DO FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA
FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA FOI CRIADO PELOS PSICANALISTAS DR. WALDEMAR ZUSMAN E DR. NEILTON SILVA. A PARTIR DE 2004, PASSA A CONTAR COM A PARTICIPAÇÃO DA MUSEÓLOGA E PROFESSORA DRA ANA LÚCIA DE CASTRO, RESPONSÁVEL PELA PESQUISA, DIVULGAÇÃO E PELA ANÁLISE CULTURAL DOS FILMES.
COM A PARCERIA: UNIRIO – PROEXC - ESCOLA DE TEATRO E SPRJ, O PROJETO DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA MANTÉM UMA REGULARIDADE HÁ DEZ ANOS, TORNANDO-SE UM EVENTO SEMPRE MUITO CONCORRIDO, COM UM PÚBLICO FIEL E PARTICIPATIVO.
INFORMAÇÕES: forumpsicinema@gmail.com

Teatro/CRÍTICA

"Elogio da paixão"

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Deliciosa exaltação da vida



Lionel Fischer



Já um tanto debilitado por uma vida de excessos, um ator de 60 anos (Charles) contrata um escritor de 29 (Daniel) para escrever o texto de seu último espetáculo, com a premissa de que este faça uma apologia da paixão. Personalidades diametralmente opostas (o ator é apaixonado pela vida, pelas mulheres e pela bebida, enquanto o jovem prioriza a depressão e o recolhimento, fortemente influenciado por Schopenhauer), os dois aparentemente jamais conseguirão se entender. Mas tudo começa a mudar a partir da entrada de Fabiana, filha de Charles, por quem Daniel se apaixona perdidamente - ela cuida com extremo zelo do pai, tentando sempre coibir seus excessos. 

Eis, em resumo, o enredo de "Elogio da paixão", de autoria de Marcelo Pedreira, também responsável pela direção do espetáculo, em cartaz no Centro Cultural Correios. No elenco, Adriano Garib (Charles), André Arteche (Daniel) e Marina Palha (Fabiana). A montagem tem como fundo musical 11 canções da Bossa Nova, quase todas assinadas por Vinícius de Moraes e, como não poderia deixar de ser, enaltecendo apaixonadamente o amor.

No parágrafo inicial, mencionamos a paixão do escritor por Schopenhauer (1788-1860), paixão esta que o ator contrapõe com sua admiração por Nietzsche (1844-1900). E embora este espaço não se destine a divagações filosóficas, como os dois pensadores são muito citados no espetáculo acho oportuno que o leitor conheça o que se segue.

Nietzsche descobriu Schopenhauer quando ainda estava na universidade e o fez em uma livraria: comprou "O mundo como vontade e como representação" e se apaixonou imediatamente por sua filosofia, que dispensava Deus e a providência divina, e priorizava uma vontade cega e insaciável. Anos mais tarde, como sempre fazia com pessoas que admirava, Nietzsche acabou divergindo fortemente de seu antigo ídolo. E se alguém se interessar por conhecer detalhes de suas maiores diferenças, cito as cinco principais: Vontade, Dor, Arte, Vida e Niilismo. Digressão feita, voltemos à peça.

Marcelo Pedreira partiu de uma ótima ideia (o que não garante nada) e chegou a um ótimo resultado (que é o que importa). O enredo é muito bem desenvolvido e cabe registrar o ótimo achado final - Charles pede a Daniel que escreva justamente sobre as experiências que ambos estão vivenciando, o que supostamente haveria de conferir grande veracidade ao texto, já que este teria um caráter confessional. Afora isto, é inegável a capacidade do dramaturgo de escrever ótimos diálogos, valorizando ao máximo as personalidades envolvidas e suas muitas contradições. Pleno de humor e humanidade, "Elogio da paixão" é um dos melhores textos da atual temporada.

Com relação ao espetáculo, devo confessar que, inicialmente, levei um susto quando Adriano Garib começou a cantar, se não me engano, "Samba do avião", de Tom Jobim. Já sabia que o espetáculo era permeado por canções, mas ignorava como elas estariam inseridas. Mas logo este susto inicial foi substituído por total encantamento, tanto pela beleza das canções como pelo fato de serem cantadas com simplicidade, sem nenhuma afetação. E também por seu perfeito encaixe em cada uma das situações. 

No que concerne à dinâmica cênica, Marcelo Pedreira fez a sábia opção de dispensar inócuas firulas formais e construiu um espetáculo simples e objetivo, que, sem desprezar a expressividade, prioriza o que de fato importa: o trabalho dos atores. Neste sentido, Adriano Garib exibe uma das melhores performances de sua carreira, materializando um Charles que é uma espécie de ode à vida, a tudo de belo, imprevisto e intempestivo que ela pode oferecer - não me casei nove vezes como o personagem, mas o faria sem nenhuma hesitação... 

André Arteche também está muito bem na pele do depressivo e reprimido personagem, o mesmo ocorrendo quando ele se apaixona e então renuncia às trevas abissais de sua inconcebível solidão. Quanto a Marina Palha, a atriz valoriza com grande sensibilidade sua apaixonada e conturbada relação com o pai, exibindo em outras passagens uma sensualidade cujo encanto reside na total ausência de vulgaridade. Sem dúvida, uma atriz cuja trajetória merece ser acompanhada com grande atenção.

No tocante à equipe técnica, Duda Maia, como de hábito, responde por impecável direção de movimento, o mesmo ocorrendo com a direção musical e arranjos de Felipe Habib - e aqui cabe um destaque todo especial para a excelente participação dos músicos João Bittencourt (piano e acordeom), Felipe Habib (acordeom), Fernando Carvalho (violão) e Alfredo Del Penho (violão de sete cordas). Paulo Denizot responde por corretas iluminação e cenografia, a mesma correção presente nos figurinos de Marcelo Pedreira.

ELOGIO DA PAIXÃO - Texto e direção de Marcelo Pedreira. Com Adriano Garib, André Arteche e Marina Palha. Centro Cultural Correios. Quinta a domingo, 19h.






quarta-feira, 27 de abril de 2016

Teatro/CRÍTICA

"Memórias de Adriano"

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Ótima versão de obra-prima



Lionel Fischer



Pouco antes de morrer, o Imperador Adriano - senhor absoluto dos territórios romanos entre 117 e 138 d.C. - escreve uma carta-testamento para o jovem Marco Aurélio, que o sucederá no trono. Nela, Adriano relembra a relação de afeto com a mulher do imperador Trajano, Plotina, as campanhas militares, as viagens à Ásia Menor, a paixão pela caça, as discussões filosóficas travadas com os principais pensadores de seu tempo e seu amor platônico pelo jovem grego Antínoo, que se matara no auge de sua beleza. A partir desta perda, ele se interroga sobre o destino da humanidade, a precariedade da vida e a inevitabilidade da morte.

Estes são, em resumo, os principais temas abordados em "Memórias de Adriano", por muitos considerado a obra-prima da escritora Marguerite Yoourcenar (1903-1987). Thereza Falcão assina a adaptação dramatúrgica do romance, cabendo a Inez Viana a direção do espetáculo, em cartaz na Sala Multiuso do Espaço Sesc. O monólogo é interpretado por Luciano Chirolli.

A grande invenção da escritora reside na saída encontrada (a autobiografia de Adriano) para contar detalhes de todo um período histórico por meio de uma narrativa próxima, não raro muito emocionada, centrada em uma das mais vigorosas personalidades do mundo romano. E o grande mérito de Thereza Falcão foi o de ter conseguido sintetizar algumas das questões mais essenciais do livro, tarefa sem dúvida meritória sobretudo quando levamos em conta que o romance tem 359 páginas e o espetáculo dura cerca de 60 minutos.

Vindo de ótima temporada em São Paulo, a montagem tem por cenário apenas uma banheira, na qual o personagem está imerso ao proferir suas primeiras falas - estas, assim como todas as outras, são dirigidas diretamente à plateia. Mais adiante, o figurino de época (belíssimo, por sinal) é substituído por um terno de tom neutro, e o personagem se vale de um microfone para continuar narrando sua história, sempre impregnada de pertinentes, agudas, sensíveis e eventualmente irônicas reflexões. Esta transformação de vestimenta me parece querer expressar a convicção da encenadora no tocante à atualidade dos pensamentos de Adriano, o que certamente não merece nenhum reparo. 

Com relação à dinâmica cênica, creio já ter ficado implícito que esta é extremamente despojada e sabiamente centrada na performance do ator. Neste sentido, o trabalho de Inez Viana é irretocável, já que Luciano Chirolli exibe atuação irrepreensível, tanto nas passagens mais emotivas quanto naquelas em que o personagem empreende as já mencionadas reflexões. Possuidor de ótima voz, forte presença cênica e grande carisma, Chirolli apresenta um dos melhores desempenhos da atual temporada.

Na equipe técnica, Marcelo H, presente em cena, presta excelente contribuição como músico. Aurora dos Campos responde por instigante cenografia, estruturada basicamente em cima de um painel ao fundo que me pareceu exibir uma profusão de radiografias - se é isto mesmo, a ideia talvez tenha sido a de sugerir a finitude da matéria, mas não a das ideias. Tomás Ribas ilumina a cena com sobriedade, sendo excelentes o figurino de Juliana Nicolay e a trilha sonora de João Callado e Marcello H, assim como a preparação corporal de Márcia Rubin.

MEMÓRIAS DE ADRIANO - Texto de Marguerite Yourcenar. Adaptação de Thereza Falcão. Direção de Inez Viana. Com Luciano Chirolli. Sala Multiuso do Espaço Sesc. Sexta e sábado, 19h. Domingo, 18h.