quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

13ºPRÊMIO APTR

No dia 09 de abril acontecerá, no Rio de Janeiro, a entrega do 13º Prêmio APTR, contemplando os espetáculos e os profissionais de maior destaque na cena teatral carioca no ano de 2018.
 
No próximo dia 22, a Associação de Produtores de Teatro anunciará os indicados a melhor produção, prêmio especial e homenageados.
 
Segue abaixo lista dos indicados em cada categoria:
 
- AUTOR
 
LEANDRO MUNIZ por A VIDA NÃO É UM MUSICAL - O MUSICAL
LEONARDO NETTO por A ORDEM NATURAL DAS COISAS
MARIANA LIMA por CÉREBROCORAÇÃO 
PABLO CAPISTRANO E HENRIQUE FONTES por A INVENÇÃO DO NORDESTE
PEDRO BRÍCIO por O CONDOMÍNIO
 
- DIREÇÃO
 
BIA LESSA por GRANDE SERTÃO: VEREDAS
BRUCE GOMLEVSKY por UM TARTUFO
DUDA MAIA por ELZA
GUILHERME LEME GARCIA por ROMEU E JULIETA
QUITÉRIA KELLY por A INVENÇÃO DO NORDESTE
TADEU AGUIAR por BIBI, UMA VIDA EM MUSICAL 
 
- CENOGRAFIA
 
BELI ARAÚJO E CESAR AUGUSTO por INSETOS
CAMILA TOLEDO COM COLABORAÇÃO DE PAULO MENDES DA ROCHA por GRANDE SERTÃO: VEREDAS
DANIELA THOMAS por ROMEU E JULIETA
DÓRIS ROLEMBERG por A ÚLTIMA AVENTURA É A MORTE
MATHIEU DUVIGNAUD por A INVENÇÃO DO NORDESTE
 
- FIGURINO
 
CLAUDIO TOVAR por O HOMEM DE LA MANCHA
JOÃO PIMENTA por DOGVILLE
JOÃO PIMENTA por ROMEU E JULIETA 
MARIA DUARTE e MÁRCIA PITANGA por UM TARTUFO
NEY MADEIRA E DANI VIDAL por BIBI, UMA VIDA EM MUSICAL
 
- ILUMINAÇÃO
 
BINHO SCHAEFER E BIA LESSA por GRANDE SERTÃO: VEREDAS
FELICIO MAFRA por MEMÓRIAS DO ESQUECIMENTO
MARCELO LAZZARATTO por ILHADA EM MIM - SYIVIA PLATH
MONIQUE GARDENBERG E ADRIANA ORTIZ por ROMEU E JULIETA
RENATO MACHADO por ELZA
 
- MÚSICA
 
EGBERTO GISMONTI (MÚSICA) E DANY ROLAND (TRILHA SONORA) por GRANDE SERTÃO: VEREDAS
FELIPE STORINO E FÁBIO STORINO por A ÚLTIMA AVENTURA É A MORTE
FABIANO KRIEGER E GUSTAVO SALGADO (DIREÇÃO MUSICAL) E FABIANO KRIEGER E LEANDRO MUNIZ (MÚSICAS ORIGINAIS) por A VIDA NÃO É UM MUSICAL - O MUSICAL
PEDRO LUÍS, LARISSA LUZ E ANTÔNIA ADNET por ELZA
THEREZA TINOCO (MÚSICA ORIGINAL) e TONY LUCCHESI (ARRANJOS e DIREÇÃO MUSICAL) por BIBI, UMA VIDA EM MUSICAL
 
- ATOR EM PAPEL COADJUVANTE
 
CLAUDIO GALVAN por ROMEU E JULIETA
MATEUS CARDOSO por A INVENÇÃO DO NORDESTE
NILTON BICUDO por MOLIÈRE, UMA COMÉDIA MUSICAL DE SABINA BERMAN
ROBSON MEDEIROS por A INVENÇÃO DO NORDESTE
VITOR THIRÉ por VOU DEIXAR DE SER FELIZ POR MEDO DE FICAR TRISTE?
 
- ATRIZ EM PAPEL COADJUVANTE
 
ELENCO COADJUVANTE (KÉSIA ESTÁCIO, JANAMÔ, KHRYSTAL, LAÍS LACORTE, VERÔNICA BONFIM, JÚLIA TIZUMBA) por ELZA
GEORGETTE FADEL por MOLIÈRE, UMA COMÉDIA MUSICAL DE SABINA BERMAN
LUISA ARRAES por GRANDE SERTÃO: VEREDAS
STELLA MARIA RODRIGUES por ROMEU E JULIETA
STELLA MIRANDA por O FRENÉTICO DANCIN DAYS
 
- ATOR PAPEL PROTAGONISTA
 
BRUCE GOMLEVSKY por MEMÓRIAS DO ESQUECIMENTO
CAIO BLAT por GRANDE SERTÃO: VEREDAS
DANIEL DANTAS por O INOPORTUNO
JOÃO VELHO por A ORDEM NATURAL DAS COISAS
MATHEUS NACHTERGAELE por MOLIÈRE, UMA COMÉDIA MUSICAL DE SABINA BERMAN
 
- ATRIZ EM PAPEL PROTAGONISTA
 
AMANDA ACOSTA por BIBI, UMA VIDA EM MUSICAL
AMANDA LYRA por QUARTO 19
GISELE FRÓES por O IMORTAL
LARISSA LUZ por ELZA
MARIANA LIMA por CÉREBROCORAÇÃO
 
- ESPETÁCULO
 
BIBI, UMA VIDA EM MUSICAL
ELZA
GRANDE SERTÃO: VEREDAS
A INVENÇÃO DO NORDESTE
A ÚLTIMA AVENTURA É A MORTE
 
 
E segue abaixo lista com os jurados desta edição: 
 
- Daniel Schenker
 
- Bia Radunsky
 
- Maria Siman
 
- Macksen Luiz
 
- Lionel Fischer
 
- Rafael Teixeira
 
- Renata Magalhães
 
- Rodrigo Fonseca
 
- Tania Brandão
 
- Wagner Corrêa
 
- APTR

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Teatro/CRÍTICA


"As crianças"

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Inesquecível encontro no Poeira



Lionel Fischer


"O casal de físicos aposentados Dayse e Robin vive só e sem vizinhos numa casa improvisada perto da costa, numa região inóspita assolada por um acidente nuclear. Após uma ausência de quase 40 anos, Rose, antiga colega de profissão e amiga, chega a essa casa com uma missão que poderá mudar para sempre a vida do casal. Para complicar as coisas, Robin teve uma relação com Rose no passado".

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o enredo de "As crianças", da dramaturga inglesa Lucy Kirkwood.
Em cartaz no Teatro Poeira, a montagem leva a assinatura de Rodrigo Portella, estando o elenco formado por Mario Borges (Robin), Analu Prestes (Dayse) e Stela Freitas (Rose).

Ao me dirigir ao Teatro Poeira neste último sábado, nada sabia sobre a autora. Ao deixar o teatro, fiz questão absoluta de saber o máximo sobre ela. Pois bem: ela é inglesa, é atriz, dramaturga e roteirista, já coleciona muitos e importantes prêmios e, para minha total surpresa, tem apenas 35 anos! E quando escreveu "As crianças", o fez com apenas 32!? E essa constatação me deixou pálido de espanto, como um personagem de soneto - adoraria ter escrito essa frase, mas o crédito cabe a Nelson Rodrigues. Mas a que atribuir tal espanto?

Em primeiro lugar, tentei encontrar uma explicação minimamente plausível para o fato de uma pessoa tão jovem ter decidido escrever uma peça com personagens sexagenários. Após tecer inúmeras conjecturas, não cheguei a nenhuma conclusão que me satisfizesse, o que sempre acho interessante, posto que isso ativa em mim um estado que muito aprecio: o de total perplexidade.

E esta perplexidade, enquanto assistia a montagem, foi se convertendo em progressivo assombro, tamanha a beleza do texto, a magnífica construção dos personagens, a profundidade com que muitos temas são abordados e a deslumbrante teatralidade dos diálogos. E como tudo se dá em um contexto aparentemente banal, mas que aos poucos permite o aflorar de questões que pareciam fadadas ao esquecimento, não tenho a menor dúvida em afirmar  que Kirkwood é a reencarnação feminina de Tchecov - se tal assertiva parecer bizarra, e ainda que respeitando quem assim a considere, recomendo uma leitura atenta das obras-primas do genial dramaturgo russo. 

Como já dito, Robin e Dayse moram numa região inóspita, assolada por um acidente nuclear. E um tal acidente, como todos sabemos, gera consequências terríveis, que podem se estender por um tempo indeterminado. Os três personagens trabalhavam na usina quando ocorreu o acidente e obviamente que por ele também são responsáveis. Mas seguiram suas vidas - o casal entregue às suas tarefas cotidianas e Rose vivendo em um lugar ignorado. No entanto, ela retorna imprevistamente. Com que objetivo? Resgatar sua relação com Robin? Propor ao casal uma atitude concreta em face do que ocorreu 40 anos atrás? Enfim...paro por aqui pois prosseguir me obrigaria a revelar as muitas surpresas e reviravoltas da trama.

Ainda assim, e mesmo admitindo que os fatos narrados tenham realmente acontecido, ouso supor que a tragédia ocorrida na usina nuclear também possa abarcar uma interpretação metafórica, ou seja: de quantos acidentes conseguimos nos livrar acreditando que não deixaram sequelas, posto que relegados ao passado, e inesperadamente esse conforto é aniquilado por algo que jamais poderíamos imaginar que tivesse esse poder? A radiação nuclear, quando não mata, deforma. Algo semelhante acontece com a culpa: ou a admitimos, a elaboramos e agimos, ou então ela acabará nos convertendo em uma espécie de náufragos de nós mesmos, ainda que ninguém perceba (nem mesmo os que estão afundando) a trágica dimensão deste naufrágio.

Com relação ao espetáculo, Rodrigo Portella impõe à cena uma dinâmica de enganosa simplicidade. Não há efeitos mirabolantes, videografismos, projeções e mais uma infinidade de recursos tão em voga em encenações contemporâneas. No entanto, Portella realiza um trabalho absolutamente extraordinário, na medida em que aposta todas suas fichas na contundência do texto e na interpretação do elenco. Todas as alternâncias de climas emocionais em jogo são trabalhadas com calma e total sutileza, e para tanto o encenador se vale de marcações extremamente expressivas e admirável maestria no tocante aos tempos rítmicos - neste quesito, cabe ressaltar a potência das pausas, dos silêncios que conferem à cena um inquietante estado de suspensão, sem jamais resvalar para a monotonia. Em resumo: uma encenação brilhante, que merece ficar em cartaz por muitos anos. Além disso, cabe a Rodrigo Portella o mérito suplementar de haver contribuído para a deslumbrante atuação do elenco.

Sem o menor receio de me tornar repetitivo, volto a afirmar que  este país pode carecer de tudo, menos de grandes intérpretes. E neste seleto rol estão incluídos Mario Borges, Analu Prestes e Stela Freitas. E esta inclusão não se deve apenas a aspectos técnicos, mas a algo que os transcende. Mas o que seria esse "algo"? Acredito que possa resumi-lo em dois tópicos, embora minha lista seja bem mais extensa. O primeiro:  Mario, Analu e Stela entregam-se de tal forma aos personagens e às relações entre eles que parecem acreditar que cada apresentação possa ser a última, e portanto nada pode ser poupado, adiado ou feito mecanicamente - atores deste quilate às vezes ligam o automático e desgraçadamente nos enganam. O segundo: certamente acreditam que o teatro, como sustenta Peter Brook, é a arte do encontro. E quem for ao Teatro Poeira haverá de constatar a potência deste inesquecível encontro.

Na ficha técnica, Rodrigo Portella e Julia Deccache respondem por uma cenografia simples e funcional, cabendo destacar o chão coberto de fragmentos de rocha triturada, que produzem um som inquietante e sugerem que algo possa estar prestes a desmoronar. Paulo Cesar Medeiros assina uma de suas mais expressivas iluminações, sempre reforçando os climas emocionais em jogo e encerrando a montagem com focos vindos do fundo, cuja potência aumenta gradativamente como a sugerir que redentoras transformações começam a florescer. Também de altíssima qualidade são os figurinos de Rita Murtinho, a trilha sonora original de Marcelo H e Federico Puppi, a tradução de Diego Teza e a preparação corporal de Marcelo Aquino. 

AS CRIANÇAS - Texto de Lucy Kirkwood. Direção de Rodrigo Portella. Com Mario Borges, Analu Prestes e Stela Freitas. Teatro Poeira. Quinta a sábado, 21h. Domingo, 19h.






   









sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Teatro/CRÍTICA

"A ira de Narciso"

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Ser e ser: eis a questão



Lionel Fischer




"A peça é uma autoficção em primeira pessoa, que conta a passagem do autor por Ljubljana, capital da Eslovênia, onde vai dar uma palestra sobre o mito de Narciso. O drama se passa em um quarto de hotel, onde o autor está hospedado, durante os últimos preparativos para a conferência, enquanto descreve os vários encontros com um jovem esloveno que acabara de conhecer. A partir da descoberta de uma mancha de sangue no carpete, o relato da viagem profissional e dos encontros amorosos dá lugar a uma intriga policial. Alternando sutilmente narração, palestra e confissão, A ira de Narciso é uma jornada arriscada que conduz o espectador em um labirinto do eu, da linguagem e do tempo".

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o contexto em que se dá "A ira de Narciso", de autoria do uruguaio (radicado na França) Sergio Blanco. Em cartaz no Teatro Poeirinha, a montagem tem direção assinada por Yara de Novaes, estando a interpretação a cargo de Gilberto Gawronski - Renato Krueger atua como ator assistente.

Antes de passarmos à análise do presente espetáculo, julgo oportuno tecer algumas considerações sobre o que é ou possa ser autoficção. Tratados já foram escritos sobre o tema, nem sempre concordantes. Seja como for, reproduzo agora o ponto de partida de todas as vertentes: "Autoficção é um termo usado na crítica literária para se referir a uma forma de autobiografia ficcional. O termo foi cunhado por Serge Doubrovsky em 1977, com referência ao seu romance Fils".

Como não estou escrevendo para acadêmicos e sim para leitores de níveis culturais variados, vou tentar ser o mais simples possível. Quando alguém escreve uma biografia, refere-se a uma outra pessoa. Quando alguém escreve uma autobiografia, obviamente refere-se a si mesmo. Mas o que acontece quando nos deparamos com uma autoficção, que combina dois estilos paradoxalmente contraditórios, o de autobiografia e ficção? Como o leitor/espectador deve se posicionar diante de uma obra assim estruturada?

Sem pretender dar conselhos a ninguém, até pela consciência que tenho de que conselhos jamais são seguidos, acredito que a postura mais salutar seja a de admitir que tudo é verdade e não é. Um exemplo: se em dado momento o Narrador nos conta algo supostamente vivido pelo Autor (e aqui o Narrador e o Autor seriam a mesma pessoa), eu posso acreditar em suas palavras, mas também posso atribuí-las ao Intérprete que está em cena, que talvez tenha decidido recriá-las. 

Em vista disso, torna-se inócua qualquer tentativa de se relacionar com o espetáculo a partir da apreensão do mesmo pautada na lógica. O essencial, em meu entendimento, é entrar no jogo, deixar-se impregnar de todas as ambiguidades e delas extrair o que pareça mais relevante. Com isso estou querendo dizer que cada espectador fará a sua leitura do espetáculo. E se por acaso todas as leituras forem divergentes, ouso supor que o autor haveria de ficar muito satisfeito. 

Bem escrito, contendo pertinentes reflexões sobre a arte, a sexualidade e o tempo (dentre muitas outras), o texto de Sergio Blanco recebeu ótima versão cênica de Yara de Novaes, cujo maior mérito foi o de materializar os conteúdos propostos pelo autor em total sintonia com sua escrita - haveria de ser patético se a encenadora optasse por, digamos assim, facilitar a compreensão do espectador, ao invés de estimulá-lo a criar sua própria relação com o espetáculo. Valendo-se de marcação criativas e imprevistas, e explorando com grande maestria todos os climas emocionais em jogo, Yara de Novaes exibe o mérito suplementar de haver contribuído para que Gilberto Gawronski nos brindasse com mais uma performance deslumbrante.

E meu deslumbre não se atém a aspectos meramente técnicos, como excelente voz, exímio preparo corporal, e tampouco à sua notável capacidade de entrega, grande inteligência cênica etc. Há algo em Gawronski que sempre me fascinou, que é a sua aparentemente inesgotável capacidade de não ser previsível. Ou seja: nunca consigo prever o que ele fará, como dirá determinada frase (no caso de conhecer a peça), por quanto tempo sustentará uma pausa e assim por diante. Gawronski, como todo intérprete de exceção, me gera sempre uma mescla de espanto e deliciosa ansiedade. Que Deus, caso exista, o conserve sempre assim. Renato Krueger desempenha com vigor e eficiência as tarefas que lhe cabem no espetáculo.  

Na ficha técnica, considero de altíssimo nível as contribuições de Dr. Morris (direção musical), André Cortez (cenografia), Wagner Antonio (iluminação) e Fábio Namatame (figurino).

A IRA DE NARCISO - Texto de Sergio Blanco. Direção de Yara de Novaes. Com Gilberto Gawronski e Renato Krueger. Teatro Poeirinha. Terça e quarta, 21h.








sábado, 15 de dezembro de 2018

Prêmio Cesgranrio de Teatro 2018

Indicados do segundo semestre

MELHOR FIGURINO
João Pimenta, por DOGVILLE
Maria Duarte e Márcia Pitanga, por UM TARTUFO
Kika Lopes e Rocio Moure, por ELZA

MELHOR CENOGRAFIA
Dóris Rollemberg, por A ÚLTIMA AVENTURA É A MORTE
Marcos Flaksman, por O INOPORTUNO
Mathieu Duvignaud, por A INVENÇÃO DO NORDESTE

MELHOR ILUMINAÇÃO
Russinho, por MEMÓRIAS DO ESQUECIMENTO
Renato Machado, por ELZA
Renato Machado, por A ÚLTIMA AVENTURA É A MORTE

MELHOR ATOR
Daniel Dantas, por O INOPORTUNO
Robson Torinni, por TEBAS LAND
Bruce Gomlevsky, por MEMÓRIAS DO ESQUECIMENTO

MELHOR ATOR EM TEATRO MUSICAL
Luiz Felipe Mello, por PIPPIN
Rodrigo Naice, por 70? DÉCADA DO DIVINO MARAVILHOSO – DOC. MUSICAL
Tauã Delmiro, por 70? DÉCADA DO DIVINO MARAVILHOSO – DOC. MUSICAL

CATEGORIA ESPECIAL
Elenco de “ELZA”
Henrique Fontes e Pablo Capistrano, pela adaptação teatral do livro “A Invenção do Nordeste e Outras Artes” de Durval Muniz de Albuquerque Jr.
Marcia Rubim, pela direção de movimento do espetáculo “TRAJETÓRIA SEXUAL”

MELHOR ATRIZ
Mel Lisboa, por DOGVILLE
Alice Borges, por IRMÃOZINHO QUERIDO
Ana Kfouri, por UMA FRASE PARA MINHA MÃE

MELHOR ATRIZ EM TEATRO MUSICAL
Nicette Bruno, por PIPPIN
Totia Meirelles, por PIPPIN
Izabella Bicalho, por ELIZETH – A DIVINA

MELHOR DIREÇÃO
Duda Maia, por ELZA
Victor Garcia Peralta, por TEBAS LAND
Ary Coslov, por O INOPORTUNO


MELHOR DIREÇÃO MUSICAL
Pedro Luís, Larissa Luz e Antônia Adnet, por ELZA
Jules Vandystadt, por 70? DÉCADA DO DIVINO MARAVILHOSO – DOC. MUSICAL
Jules Vandystadt, por PIPPIN

MELHOR TEXTO NACIONAL INÉDITO
Pedro Brício, por O CONDOMÍNIO
Miriam Halfim, por MEUS 200 FILHOS
Eduardo Moreira, Márcio Abreu e Paulo André, por OUTROS

MELHOR ESPETÁCULO
ELZA
A INVENÇÃO DO NORDESTE
DOGVILLE

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Teatro/CRÍTICA

"Tebas Land - A história de um jovem parricida"

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Insólito e revelador encontro



Lionel Fischer




"Inspirado no mito de Édipo e na vida de São Martinho de Tours, santo europeu do século IV, a peça tem como tema central um parricídio, e em algumas passagens a mesma temática é abordada, com menções às obras "Os irmãos Karamazov" (Dostoiévski), "Um parricida" (Maupassant) e "O parricídio" (Freud). O espetáculo, porém, não foca na reconstrução do crime, mas nos encontros entre um jovem parricida e um dramaturgo interessado em escrever a história desse crime".

Extraído (e levemente editado) do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o contexto em que se dá "Tebas Land- A história de um jovem parricida", de autoria do dramaturgo uruguaio Sergio Blanco. Em cartaz no Oi Futuro, a montagem leva a assinatura de Victor Garcia Peralta, estando o elenco formado por Otto Jr. e Robson Torini.

Em uma espécie de prólogo, o ator Otto Jr., que mais adiante interpreta o dramaturgo, revela à plateia as premissas do projeto, dando a entender, em um primeiro momento, que o personagem do parricida será vivido pelo próprio. Com o andar da carruagem, uma série de impossibilidades são aclaradas: o diretor do presídio e a Secretaria de Segurança não autorizam a participação do assassino como ator e também proíbem sua presença nos ensaios - restaria a possibilidade de ele assistir a montagem, escoltado por dois policiais, o que acaba não se consumando.

Isto posto, torna-se imperioso ressaltar que achei inteiramente  desnecessária essa simulação, pois alguém que já tenha visto Robson Torini em um palco sabe perfeitamente que ele não é um parricida. Quanto ao fato de Otto Jr. estar em cena alternando sua participação como narrador e personagem (dramaturgo), o mesmo ocorrendo com Robson Torini (jovem parricida e um ator em processo de ensaio), tal estrutura é perfeitamente plausível.

A ótima cenografia de José Baltazar divide em dois o espaço. À direita, uma mesa com anotações, fotos que mais adiante serão projetadas e outros objetos; à esquerda, uma quadra de basquete onde se dão os encontros do dramaturgo com o parricida, assim como momentos em que os intérpretes conversam sobre o espetáculo, o que também ocorre no primeiro espaço. Ainda que não inédita, tal estrutura (o teatro dentro do teatro) é muito bem trabalhada pelo autor, na medida em que ficção e realidade acabam promovendo inesperadas convergências, daí resultando reflexões cuja perplexidade e amargura não constariam, em princípio, do roteiro original

Com relação ao espetáculo, Victor Garcia Peralta impõe à cena, como de hábito, grande expressividade, cabendo ressaltar sua sensibilidade no tocante aos tempos rítmicos e sua habilidade em extrair ótimas atuações do elenco. Otto Jr. exibe mais uma vez sua forte presença e visceral capacidade de entrega, convencendo plenamente em todos os momentos. A mesma eficiência se faz presente na performance de Robson Torini, cabendo ressaltar sua capacidade de conferir características totalmente diversas aos dois personagens que interpreta. 

No complemento da fica técnica, parabenizo com o mesmo entusiasmo as preciosas colaborações de Esteban Campanela (tradução), Maneco Quinderé (iluminação), Cris Amadeo (direção de movimento) e Marcello H (trilha sonora).

TEBAS LAND - A HISTÓRIA DE UM JOVEM PARRICIDA - Texto de Sergio Blanco. Direção de Victor Garcia Peralta. Com Otto Jr. e Robson Totini. Oi Futuro. Quinta a domingo, 20h.



  


segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Teatro/CRÍTICA

"GALÁXIAS I: Todo esse céu é um deserto de corações pulverizados"

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Bela reflexão sobre o sentido da vida


Lionel Fischer


"Ao mesclar referências de ficção científica, de registros documentais e TEDs de ciência e tecnologia, o espetáculo acompanha as investigações distópicas de um professor-pensador que busca desvendar, através de uma série de cartas, palavras e vídeos, o enigma da existência da vida na Terra, assim como uma possível mensagem que o Sistema Solar teria enviado a toda a Humanidade. Em paralelo às buscas do professor, há o cotidiano do irmãos JP e Zooey, que também se relacionam com as buscas e descobertas desse pensador, refletem sobre as condições da vida na Terra e buscam, cada um ao seu modo, encontrar - ou inventar -sentidos que sustentem as suas próprias existências".

Extraído do ótimo release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o contexto em que se dá "GALÁXIAS: Todo esse céu é um deserto de corações pulverizados", baseada nos textos "Sol artificial", "Os eletrocutados" e "Floresceram os neons", do argentino J. P. Zooey, e em outros de Luiz Felipe Reis. Este responde pela direção e dramaturgia, sendo que a última contou com a colaboração de Ciro Sales, Fernanda Bond e Julia Lund. Mais recente trabalho da Polifônica Cia., o espetáculo está em cartaz no Mezanino do Sesc Copacabana. No elenco, Leo Wainer (professor), JP (escritor) e Julia Lund (atriz) - os dois últimos são casados.

Antes de iniciar a análise do presente espetáculo, permito-me explicitar dois momentos curiosos. O primeiro: tão logo me acomodei no lugar que escolhi, e pelo qual nutro particular afeto - a primeira cadeira da última fila -, o diretor Luiz Felipe Reis me sugeriu que sentasse "um pouco mais perto". Assim o fiz. Uma vez acomodado um pouco mais perto, ao contemplar o cenário meu olhar foi magnetizado por um cartaz de "A classe morta", espetáculo dirigido pelo polonês Tadeuz Kantor com o grupo Cricot 2. E isso me causou inesperada e emocionante regressão.

Estava em Paris, em 1977 (Meu Deus, como o tempo passa!), estudando improvisação com o alemão Wolfrang Mëring. Eis que se inicia o Festival de Outono, que me propiciou entrar em contato com dois gênios e as montagens que ali exibiram - Eugenio Barba ("O livro de danças") e Tadeuz Kantor ("A classe morta"). E como a vida às vezes se revela extremamente generosa, tive o privilégio adicional de ser aceito em seminários capitaneados pelos dois mestres. E, finalizando esta breve digressão, gostaria de dizer que ambos os espetáculos se inserem entre os melhores que já assisti. Mas voltemos ao Mezanino.

Qual seria a razão de constar da cenografia o cartaz de "A classe morta"?. Uma delas seria meramente prosaica: a personagem de Julia Lund é atriz e ela pode ter assistido a uma montagem da peça, ou tê-la visto em vídeo etc. No entanto, creio haver uma outra possibilidade. Dentre os muitos sentimentos em mim gerados pelo espetáculo de Kantor, talvez o principal tenha sido uma terrível sensação de inadequação, de impossibilidade de encontrar algum sentido para o ato de existir, ainda que recorrendo a conjecturas metafísicas, filosóficas ou religiosas. E aqui, ao menos em alguma medida, se dá algo parecido.

Se por um lado o professor busca desvendar o enigma da existência da vida na Terra, apoiando-se em uma possível mensagem do Sistema Solar, os dois outros personagens também tentam encontrar razões para o ato de existir, só que suas angústias estão mais atreladas ao real da vida. Ou seja: todos padecem de uma desesperadora ânsia que talvez jamais possa vir a ser saciada. No entanto, não renunciam a ela, postura que me parece extremamente salutar, posto que não existe nenhuma possibilidade de transformação que não tenha em sua origem um profundo desconforto.

Não posso precisar quais os textos do autor argentino e quais os de autoria de Luiz Felipe Reis. Mas isso é o que menos importa, já que o que nos é ofertado é de excelente nível, tanto nas passagens em que o casal dialoga quanto naquelas em que, isoladamente, expõem o que talvez possa ser definido como uma espécie de vômito existencial. A mesma e dilacerada contundência se faz presente nos solilóquios do professor, cuja comovente angústia me fez torcer  para que encontrasse a tão almejada resposta que buscava.

Com relação ao espetáculo, consta do release - e a cena confirma - que o diretor empreendeu uma pesquisa estética sobre o conceito de "polifonia cênica", que busca estabelecer uma relação não hierárquica entre diferentes formas de arte na constituição do fazer teatral. E as relações aqui estabelecidas entre dramaturgia, concerto, instalações de vídeo e luz colaboram decisivamente para o fortalecimento dos múltiplos climas emocionais em jogo, cabendo destacar que, exceção feita à deliciosa e bem humorada passagem em que a atriz entra em cena vestida de macaco vinda de um teste para um comercial, todas as demais, ainda que em graus variados, geram um permanente desconforto e nos levam a refletir sobre o que estamos fazendo com nossas vidas e com a vida deste curioso planeta que habitamos.

No tocante ao elenco, Leo Wainer exibe uma das melhores performances de sua carreira, extraindo do professor todas as possibilidades do excelente e complexo personagem. Ciro Sales também convence plenamente na pele de JP, tendo apenas que tomar um certo cuidado nas passagens mais intimistas, quando seu tom de voz se torna quase inaudível. No papel da atriz, Julia Lund evidencia mais uma vez seus notáveis recursos expressivos, cabendo também ressaltar sua visceral capacidade de entrega. Trata-se, sem dúvida, de uma das mais talentosas atrizes de sua geração.

Na equipe técnica, destaco com o mesmo entusiasmo as colaborações de Ciro Sales, Fernanda Bond e Julia Lund (dramaturgia), Luiz Felipe Reis (tradução e adaptação dos originais), Lucas van Hombeeck (tradução adicional), Julio Parente e Reis (cenografia), Corja (projeções e iluminação), Pedro Sodré (direção musical), Sodré, Rogério da Costa Jr. e Rudah (composição, produção musical e banda), Luiza Mitidieri (figurinos), Bruno Drolshagen (design gráfico) e Gabriela Gaia Meirelles e Frederico Santiago (colaboração em vídeo). 

GALÁXIAS I: Todo esse céu é um deserto de corações pulverizados". Dramaturgia e direção de Luiz Felipe Reis. Com Leo Wainer, Ciro Sales e Julia Lund. Mezanino do Sesc Copacabana. Quinta a domingo, 20h.