quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Quando me amei 

Carlos Drummond de Andrade


Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exato. E, então, pude relaxar. Hoje sei que isso tem nome… auto-estima.

Quando me amei de verdade, pude perceber que a minha angústia, meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou indo contra as minhas verdades. Hoje sei que isso é… autenticidade.

Quando me amei de verdade, parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento. Hoje chamo isso de… amadurecimento.

Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo. Hoje sei que o nome disso é… respeito.

Quando me amei de verdade, comecei a me livrar de tudo que não fosse saudável… pessoas, tarefas, crenças, tudo e qualquer coisa que me deixasse para baixo. De início, minha razão chamou essa atitude de egoísmo. Hoje sei que se chama… amor -próprio.

Quando me amei de verdade, deixei de temer meu tempo livre e desisti de fazer grandes planos, abandonei os projetos megalômanos de futuro. Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio ritmo. Hoje sei que isso é… simplicidade.

Quando me amei de verdade, desisti de querer ter sempre razão e, com isso, errei muito menos vezes. Hoje descobri a… humildade.

Quando me amei de verdade, desisti de ficar revivendo o passado e de me preocupar muito com o futuro. Agora, me mantenho no presente, que é onde a vida acontece. Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é… plenitude.

Quando me amei de verdade, percebi que a minha mente pode me atormentar e me decepcionar. Mas quando eu a coloco a serviço do meu coração, ela se torna uma grande e valiosa aliada. Tudo isso é…. saber viver!

A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.”

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

(UNIRIO/PROEXC – ESCOLA DE TEATRO) &
SOCIEDADE PSICANALÍTICA DO RIO DE JANEIRO (SPRJ)
Caríssimos,
O filme escolhido para abrir nosso segundo semestre, no dia 26 de agosto, O QUARTO DE JACK (The Room,2015, 118 min.), dirigido pelo irlandês Lenny Abrahamson,  foi uma das gratas surpresas do Oscar desse ano. Baseado no romance homônimo, escrito pela também irlandesa Emma Danoghue, demonstra uma experiência traumática e tensa de cativeiro e de liberdade, evidencia, através da imaginação infantil, um retrato profundo de laços maternos fortificados a partir de situações extremas, fato que reforça o vínculo mãe-filho.
Sinopse: Joy e seu filho Jack vivem isolados em um quarto. O único contato que ambos têm com o mundo exterior é a visita periódica do Velho Nick, que os mantém em cativeiro. A mãe faz o possível para tornar suportável a vida no local, mas não vê a hora de deixá-lo. Para tanto, elabora um plano em que, com a ajuda do filho, poderá enganar o carcereiro e retornar à realidade.
Contando, como sempre, com a divulgação aos amigos e interessados no viés cultural e psicanalítico, aguardamos todos vocês para mais um debate instigante.
Ana Lúcia de Castro e Neilton Silva.
SERVIÇO:
DATA: 26 DE AGOSTO DE 2016.
HORÁRIO: FILME: 18h; ANÁLISE E DEBATE: 20h às 22h.
LOCAL: SALA VERA JANACÓPULOS – UNIRIO
ENDEREÇO: AV. PASTEUR, 296.
ANÁLISE CULTURAL: PROF. DRA. ANA LÚCIA DE CASTRO
ANÁLISES PSICANALÍTCAS: DR. NEILTON SILVA
ENTRADA FRANCA


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

“MOSTRA ACESSÍVEL RIO DAS OLIMPÍADAS” OCUPA O TEATRO CACILDA BECKER, DIALOGANDO COM A PARAOLIMPÍADA RIO 2016

Unindo os universos das artes cênicas e da acessibilidade, a "Mostra Acessível Rio das Olimpíadas" ocupa o Teatro Cacilda Becker, de 23 a 28 de agosto (terça a domingo), com espetáculos de dança, teatro e circo, além de workshop, visita tátil, tradução em libras, audiodescrição, mesa redonda e conversa com o público. Os trabalhos são interpretados por artistas com deficiências físicas e cerebrais (cadeirantes, anões, cego, usuário de muletas, com lesão cerebral, membros atrofiados) atuando de igual para igual com artistas sem deficiências. Desta forma a Mostra Acessível dialoga com a Paraolimpíada Rio 2016. Toda programação é gratuita.

Com base em Recife, o Janeiro de Grandes Espetáculos - FIAC/PE traz para a Mostra Funarte de Festivais 2016, no período de 23 a 28 de agosto (terça a domingo), no Teatro Cacilda Becker, no rio de Janeiro, a "Mostra Acessível Rio das Olimpíadas" com uma programação nacional abrangente e diversificada, uma vez que inclui companhias provenientes do Ceará, Rio Grande do Norte, São Paulo, além do Rio de Janeiro, com espetáculos interpretados por artistas com diferentes tipos de deficiências (cadeirantes, anões, cego, usuário de muletas, com lesão cerebral, membros atrofiados) junto a artistas sem deficiências, unindo os universos das artes cênicas e da acessibilidade.

Do Rio Grande do Norte, a Cia Gira Dança traz dois trabalhos: “Sem conservantes” de Ângelo Madureira e Ana Catarina Vieira; e “Proibido elefantes” de Clébio Oliveira, coreógrafo de Natal que ganhou o mundo. De São Paulo, o ator-palhaço Nando Bolognesi traz “Se fosse fácil, não teria graça”, uma tragicomédia que pode ser considerada a primeira sitdowntragedy, pois faz rir e chorar e convida o público a repensar o modo de estar no mundo e a enxergar a vida. Este trabalho, que contará com recurso de tradução em libras, é baseado na história de vida de Nando, que ao descobrir ser portador de esclerose múltipla, decidiu superar as dificuldades da doença degenerativa e incurável, usando sua experiência como clown para contar, de maneira emocionante e divertida, como tem enfrentado as situações mais corriqueiras. Do Ceará, o Grupo Ninho de Teatro traz “Avental todo sujo de ovo”, com audiodescrição e com uma visita tátil, ou seja, o momento anterior a apresentação acessível, quando o público formado por pessoas cegas ou de baixa visão, visita o cenário, antes da apresentação, e assim, terá uma vivência espacial a ser incorporada antes que este público se sente para ouvir os diálogos, os sons e a audiodescrição. Do Rio de Janeiro, a Pulsar Cia de Dança apresenta “Indefinidamente indivisível”, peça coreográfica que abre caminhos para uma entrada poética e plástica no pensamento bergsoniano. O espetáculo da Pulsar conta com voz em off de Angel Vianna.

– Queremos com a Mostra Acessível Rio das Olimpíadas promover artistas com deficiência, que realizam trabalhos dentro dos parâmetros profissionais de máxima qualidade artística, e promover também a reflexão: sobre a criação estética que envolve os recursos de acessibilidade; a acessibilidade dos espaços culturais; e sobre como aproximar artistas com e sem deficiência para que trabalhem juntos e explorem novos formatos e novas visões de mundo, partindo de suas diferenças –, comenta Paula de Renor, coordenadora de produção da Mostra.

Durante a programação também acontecerá: o workshop “Dança contemporânea e consciência através do movimento” com Teresa Taquechel (Pulsar Cia de Dança), no dia 26 das 10h às 13h e no dia  28 das 12h às 15h; a mesa redonda "Curadoria Inclusiva: como identificar, programar e produzir o trabalho do artista com deficiência”, com tradução em libras e audiodescrição, no dia 28, às 16h; e uma conversa com o público depois do espetáculo “Avental todo Sujo de Ovo”, no dia 27.

O Janeiro de Grandes Espetáculos - Festival Internacional de Artes Cênicas de Pernambuco (FIAC/PE), acontece ininterruptamente há 23 anos, sendo considerado o maior festival de artes cênicas de Pernambuco, movimentando durante todo mês de janeiro a cidade de Recife e mais outras 3 cidades do interior do estado, com programção local, nacional e internacional.

A "Mostra Acessível Rio das Olimpíadas" acontece de 23 a 28 de agosto de terça a sábado às 20h e domingo às 16h, no Teatro Cacilda Becker, localizado a Rua do Catete, 338, Catete, Rio de Janeiro. próximo a Estação Largo do Machado do Metrô. O teatro possui acesso facilitado para deficientes físico. A programação é gratuita, com distribuição dos ingressos 1h antes de cada espetáculo. A programação completa consta no site www.janeirodegrandesespetaculos.com

23 de agosto, terça-feira, às 20h
Espetáculo: SE FOSSE FÁCIL, NÃO TERIA GRAÇA
Nando  Bolognesi / SP

Autor, diretor e intérprete: Nando Bolognesi
SINOPSE: Baseado na autobiografia “Um palhaço na boca do vulcão” (Editora Grua), do ator-palhaço Nando Bolognesi, que ao descobrir ser portador de esclerose múltipla, Nando Bolognesi decidiu superar as dificuldades da doença degenerativa e incurável, usando sua experiência como clown para contar, de maneira emocionante e divertida, como tem enfrentado as situações mais corriqueiras. O espetáculo é uma tragicomédia que pode ser considerada a primeira sitdowntragedy, pois faz rir e chorar e convida o público a repensar o modo de estar no mundo e a enxergar a vida.
Teaser: https://www.youtube.com/watch?v=L0f7uDHgAto 
Duração: 80 minutos
Censura: 14 anos
*Recurso de tradução em libras

24 de agosto, quarta-feira, às 20h
Espetáculo: SEM CONSERVANTES
Cia Gira Dança / RN

Direção artística, coreografia e pesquisa de linguagem: Ângelo Madureira e Ana Catarina Vieira
Direção geral e artística: Anderson Leão
Elenco: Álvaro Dantas, Jânia Santos, Marconi Araújo, Rozeane Oliveira e Wilson Macário
SINOPSE: Trabalhar com o desapego e o abandono faz parte de uma obra intitulada de “Sem Conservantes”. Perguntas como: Onde? Porque? Para que? e Como?, foram norteando as escolhas desta metamorfose que transforma a ideia, muitas vezes, bastante diferenciada de dois coreógrafos que dividem a criação. As negociações se transformam em dramaturgias. Os conflitos se baseiam em seus percursos e criam suas intenções. Trata-se de fragmentos da memória presente em fotografias tiradas dos vídeos de processos anteriores de Ângelo e Ana Catarina: "Somtir" (2003), "Outras Formas”(2004) e “Clandestino" (2006). Fotos em posições especificas e escolhidas para se tornarem marcas da linguagem da dupla. Essas fotografias geram os materiais a partir dos corpos que também possuem uma memória e nesta mistura de “memórias" geram-se os resultados coreográficos.
Teaser: https://www.youtube.com/watch?v=rGNL26b4TkU 
Classificação: LIVRE
Duração: 60 minutos

25 de agosto, quinta-feira, às 20h
Espetáculo: PROIBIDO ELEFANTES
Cia Gira Dança / RN

Concepção, coreografia e direção: Clébio Oliveira
Bailarinos: Álvaro Dantas, Jania Santos, Joselma Soares, Marconi Araújo, Rodrigo Minotti e Rozeane Oliveira
SINOPSE: O espetáculo trata do olhar como via de acesso, porta de entrada e saída de significados. O modo como percebemos a “realidade” é resultante do diálogo que estabelecemos com esta: nosso olhar é constituído pela realidade assim como a realidade é constituída pelo nosso olhar - a construção do sentido transita em via de mão-dupla. O olhar enquanto apreensão subjetiva do mundo é, neste trabalho, apontado como elemento potencializador do sujeito diante dele mesmo. Proibir elefantes é restringir o acesso, impedir o livre trânsito do animal que serve como meio de transporte na Índia, mas que causaria enormes transtornos em outras localidades. Proibir elefantes, neste espetáculo, é proibir o olhar que ressalta as limitações, os impedimentos; que duvida da capacidade do sujeito frente à adversidade. Proibir elefantes, aqui, é apostar no olhar do sujeito sobre si e sobre o mundo em que vive como elemento ressignificador e instaurador de realidade.
Teaser: https://www.youtube.com/watch?v=vQEmO92zLG8 
Classificação: 12 anos
Duração: 55 minutos

26 de agosto, sexta-feira, às 20h
Espetáculo: INDEFINIDAMENTE INDIVISÍVEL
Pulsar Cia de Dança / RJ

Criação e direção: Teresa Taquechel
Intérpretes: Andrea Chiesorin,  Beth Caetano, Bruno Alsiv, Laura Canabrava, Marianne Panazio, Moira Braga, Raphael Arah e Rogério Andreolli 
Voz em Off: Angel Vianna
SINOPSE: O espetáculo traça um roteiro de possibilidades e variantes. O risco permanece, pois o erro é a parte viva do acerto: abre para o que pode vir a ser. O uso das bolas infláveis neste processo investigativo permite que os corpos vivenciem de forma intensa a transformação e a imprevisibilidade do movimento. Abre caminhos para uma entrada poética e plástica no pensamento do filósofo Henri Bergson. A mudança é indivisível, o tempo – duração – é indefinidamente indivisível.
Classificação etária: LIVRE
Duração: 55 minutos

27 de agosto, sábado, às 20h
Espetáculo: AVENTAL TODO SUJO DE OVO
Grupo Ninho de Teatro / CE

Texto: Marcos Barbosa
Direção: Jânio Tavares
Elenco: Edceu Barboza, Joaquina Carlos, Rita Cidade e Zizi Telécio
SINOPSE: Trata da relação familiar, com seus sentimentos, limitações e suas in/verdades. O espetáculo convida os espectadores a visitarem a casa de Alzira e Antero, o casal que há dezenove anos, junto à comadre Noélia vive a angustiante espera do filho Moacir. Este cotidiano só se modificará apartir da inesperada visita de Indienne Du Bois. Na trama um jovem interpreta sem risco de esteriótipos alguém muito mais velho que o ator, uma mulher uma transsexual e um deficiente físico um papel que não dá ênfase para esta deficiência.
Teaser: https://www.youtube.com/watch?v=ooIYO7JTqMo 
Classificação: 14 anos
Duração: 70 minutos
*Recurso de Audiodescrição

Ficha Técnica da Mostra

Realização: Janeiro de Grandes Espetáculos - FIAC/PE
Produção e coordenação geral: Remo Produções Artísticas
Coordenação de produção: Paula de Renor
Produção executiva: Mônica Biel
Curadoria e mediação da mesa redonda: Paula Lopez
Audiodescrição: Nara Medeiros
Tradução em Libras: Milonga Digital Web Mídia
Workshop: Teresa Taquechel (Pulsar Cia de Dança)
Educativo e sensibilização de plateia: Carla Strachmann
Coordenação técnica: Marcos Siqueira
Assessoria de imprensa: Ney Motta | contemporânea comunicação
Assistência de assessoria de imprensa: Ana Andréa

Serviço
 
Mostra Acessível Rio das Olimpíadas
Local: Teatro Cacilda Becker. Rua do Catete, 338, Catete, Rio de Janeiro. Tel. 21 2265-9933 (próximo a Estação Largo do Machado do Metrô)
Dias: 23 a 28 de agosto, terça a sábado às 20h e domingo às 16h
Capacidade de público: 186 pessoas, com acesso facilitado para deficientes físicos
Programação completa no site www.janeirodegrandesespetaculos.com   
Classificação indicativa: vide programação
Ingressos GRÁTIS
Distribuição dos ingressos 1h antes de cada espetáculo

Atendimento à imprensa

Ney Motta | contemporânea comunicação
assessoria de imprensa
21 98718-1965 e 2539-2873

 

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Teatro/CRÍTICA

"Decadência"

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Paralelo entre classes com humor cáustico



Lionel Fischer



"Esta montagem é um novo desafio, não tem nada a ver com a anterior. Depois de 17 anos, eu sou outro, e o Brasil é outro. E como este trabalho é muito em cima do ator, mudaram os atores, mudou tudo. Além disso, o fato de encenar numa arena afasta qualquer lembrança da outra montagem. Para mim é um processo muito rico - uma peça física, como o trabalho de Berkoff, mas também com muita ênfase no texto".

O trecho acima, que consta do release que me foi enviado e é de autoria do diretor Victor Garcia Peralta, faz um oportuno alerta com relação a qualquer tentativa de se estabelecer comparações com a montagem anterior, que muito apreciei e cuja crítica publiquei no jornal Tribuna da Imprensa em janeiro de 2000. 

De fato, comparações desta natureza são sempre perigosas, posto que pressupõem um inadequado imobilismo tanto de quem faz como de quem assiste. Assim, o que virá mais adiante refere-se apenas ao que senti ontem, e não às impressões que tive 17 anos atrás. Em cartaz na Arena do Espaço Sesc, "Decadência" é agora interpretada por Eron Cordeiro e Aline Fanju - a montagem anterior era protagonizada por Beth Goulart e Guilherme Leme.

"George e Martha formam um casal de amantes da classe alta. Em contraponto, há outro casal de amantes: a mulher de George, rica e retraída, e um detetive. Ambos os casais nutrem ressentimentos recíprocos e frustrações pessoais. O primeiro casal, retrato de uma aristocracia enfastiada, se dedica a gastar todo o seu tempo e dinheiro em noitadas regadas a sexo, bebidas caras, jantares e óperas, alienados de tudo ao redor. O segundo casal, rancoroso e invejoso, vive a maldizer a vida fácil e abastada do outro. Traída, a mulher de George tenta, na cama, convencer o detetive a matar seu marido". Esta é a sinopse do texto, também extraída do ótimo release que me foi enviado. 

Como em todo texto, este permite diversificadas interpretações. Em meu entendimento, Berkoff objetivou empreender uma ácida e não raro hilariante crítica tanto à aristocracia como aos, digamos, menos favorecidos pela origem e fortuna. Se é verdade (ao menos na visão do autor) que a alta burguesia consome seu tempo com desregramentos e futilidades, era de se esperar que aqueles que não pertencem a esta classe cultivassem valores mais positivos. No entanto, ocorre justamente o oposto: privilegiam a inveja e o rancor, como a sugerir que adorariam estar em uma posição que jamais atingirão. Isto posto, caberia a pergunta: segundo Berkoff, seriam todos, em última instância, muito parecidos, tendo a diferenciá-los apenas a origem e conta bancária? 

Com relação à montagem, Victor Garcia Peralta impõe à cena uma dinâmica em que palavra e gesto são indissociáveis - ao que consta, Berkoff sempre foi um fervoroso adepto do chamado teatro físico.
E mesmo, como já dito, sem estabelecer qualquer comparação com a montagem anterior, nesta nova versão a profusão de gestos me pareceu excessiva, ainda que os mesmos sejam executados com precisão pelos atores. Após um certo tempo, senti necessidade de uma menor sofreguidão física, de ao menos alguns momentos que privilegiassem mais a palavra e menos o gestual (ainda que elaborado). 

Seja como for, é inegável a beleza e sofisticação de muitas soluções cênicas, da mesma forma que incontestável o virtuosismo de Eron Cordeiro e Aline Fanju, tanto no que diz respeito à forma como articulam as palavras quanto aos gestos que executam. Cabe também ressaltar a grande capacidade de entrega de ambos e a óbvia cumplicidade que exibem, indispensável em um contexto que exige tanta precisão física e permanente sintonia mútua.  

Na equipe técnica, Marcia Rubin reafirma (uma vez mais e sempre) seu enorme talento no que concerne à direção de movimento. Maria Adelaide Amaral e Leo Gilson Ribeiro respondem por impecável e fluente tradução. Dina Salen assina uma cenografia despojada que atende a todas as necessidades da montagem, sendo perfeitamente adequados os figurinos de Carol Lobato. Finalmente, Felipe Lourenço ilumina a cena com austera secura, certamente contribuindo para enfatizar os múltiplos conteúdos implícitos.

DECADÊNCIA - Texto de Steven Berkoff. Direção de Victor Garcia Peralta. Com Eron Cordeiro e Aline Fanju. Arena do Espaço Sesc. Quarta a sábado, 20h30. Domingo, 19h.









quarta-feira, 10 de agosto de 2016

UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (UNIRIO/PROEXC /ESCOLA DE TEATRO) & SOCIEDADE PSICANALÍTICA DO RIO DE JANEIRO (SPRJ)
APRESENTAM:
FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA
PROGRAMAÇÃO DE 2016-2
SEMPRE ÀS ÚLTIMAS SEXTAS-FEIRAS DO MÊS, DAS 18 h ÀS 22 h,
LOCAL: SALA VERA JANACÓPULOS – UNIRIO.
FILMES ANALISADOS PELO PSICANALISTA: NEILTON SILVA
E PELA PROFESSORA DA UNIRIO: ANA LÚCIA DE CASTRO
26/08 – O QUARTO DO JACK (Ther Room)
DIREÇÃO:  Lenny Abrahamson. 2015. 118 min.
Joy e seu filho Jack vivem isolados em um quarto. O único contato que ambos têm com o mundo exterior é a visita periódica do Velho Nick, que os mantém em cativeiro. A mãe faz o possível para tornar suportável a vida no local, mas não vê a hora de deixá-lo. Para tanto, elabora um plano em que, com a ajuda do filho, poderá enganar Nick e retornar à realidade.
30/09 –  TUDO VAI FICAR BEM ( Every Thing Will Be Fine)
DIREÇÃO: Win Wenders. 2014. 118 min.
Certo dia, o escritor Tomas briga com a sua namorada e decide dirigir sem rumo. Nervoso, perde o controle do carro, atropela e mata uma criança. Afetado pelo trágico acidente, ele não consegue mais ter uma vida tranquila.

28/10 – INCÊNDIOS (Incendies)

DIREÇÃO: Denis Villeneuve. 2010123 min.
Jeanne e Simon são irmãos gêmeos e acabaram de perder a mãe, Nawal Marwan. Eles vão ao escritório do notário Jean Lebel para saber do testamento deixado por ela. No documento, Nawal pede que seja enterrada sem caixão, nua e de costas, sem que haja qualquer lápide em seu túmulo. Ela deixa também dois envelopes, um a ser entregue ao pai dos gêmeos e outro para o irmão deles. Apenas após a entrega de ambos é que Jeanne e Simon receberão um envelope endereçado a eles e será possível colocar uma lápide. Só que Jeanne e Simon nada sabem sobre a existência de um irmão e acreditavam que seu pai estava morto. É o início de uma jornada em busca do passado da mãe, que os leva até a Palestina.
25/11 – O VISITANTE  (The Visitor)
DIREÇÃO: Thomas McCarthy. 2007. 105 min.
Walter Vale é um professor universitário de 62 anos, sem objetivos na vida. Solitário desde o falecimento de sua esposa, permanece na universidade em que trabalha e finge ser coautor de livros os quais nem lê. Um dia é enviado para uma conferência em Nova York, já que a autora está impossibilitada de comparecer. Sem escapatória, viaja e resolve ficar em seu apartamento na cidade, o qual não visita há tempos. Porém, ao chegar, descobre que o local agora abriga um casal de imigrantes ilegais.
SERVIÇO:
SEMPRE ÀS ÚLTIMAS SEXTAS-FEIRAS DO MÊS, DAS 18H ÀS 22H.
LOCAL – SALA VERA JANACOPOLUS / REITORIA DA UNIRIO
ENDEREÇO: AVENIDA PASTEUR, 296 – URCA.
ENTRADA FRANCA E ESTACIONAMENTO.
FILME: 18H; DEBATE: 20H

PEQUENO HISTÓRICO DO FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA
FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA FOI CRIADO PELOS PSICANALISTAS DR. WALDEMAR ZUSMAN E DR. NEILTON SILVA. A PARTIR DE 2004, PASSA A CONTAR COM A PARTICIPAÇÃO DA MUSEÓLOGA E PROFESSORA DRA ANA LÚCIA DE CASTRO, RESPONSÁVEL PELA PESQUISA, DIVULGAÇÃO E PELA ANÁLISE CULTURAL DOS FILMES. COM A PARCERIA: UNIRIO – PROEXC - ESCOLA DE TEATRO E SPRJ, O PROJETO DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA MANTÉM UMA REGULARIDADE HÁ DEZ ANOS, TORNANDO-SE UM EVENTO SEMPRE MUITO CONCORRIDO, COM UM PÚBLICO FIEL E PARTICIPATIVO.
INFORMAÇÕES: forumpsicinema@gmail.com



Teatro/CRÍTICA

"Os insones"

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Versão interessante de ótimo romance



Lionel Fischer



"Suspense e violência são os ingredientes usados para retratar uma juventude que se sente perdida e os rumos de uma classe média iludida com velhos dogmas e valores. É nesse cenário que se encontram as histórias de Samora, um adolescente negro e rico, morador do Leblon, que quer se tornar guerrilheiro e mudar o mundo; da branca Sofia, moradora de Ipanema e dada como desaparecida, ou da mulata Mara Maluca, chefe de quadrilha, uma adolescente abrutalhada que mata com uma indiferença dilaceradora. Eles são parte dos mais diversos extratos sociais que vivem num constante clima de tensão. Todos têm a mesma vontade de agir para mudar o mundo e o próprio destino".

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima contextualiza o enredo de "Os insones", adaptação do livro homônimo de Tony Bellotto, em cartaz no Teatro do Leblon (Sala Fernanda Montenegro). Erika Mader responde pela adaptação e direção do espetáculo, que tem elenco formado por Amanda Grimaldi, André Frazzi, Guilherme Ferraz, Izak Dahora, José Karini, Leonardo Bianchi, Liliane Rovaris, Marcos Ácher, Polly Marinho, Sol Menezzes e Yuri Ribeiro.

Como se sabe, adaptar um romance (qualquer romance) para o palco não é tarefa fácil. Isto se deve, antes de mais nada, à óbvia necessidade de condensar a narrativa, reduzi-la ao essencial. E neste processo de redução não importa tanto a omissão de alguns fatos, mas de possíveis reflexões em torno ou a partir dos mesmos. No presente caso, a adaptação de Erika Mader consegue contar bem a ótima história criada por Bellotto, mas a crítica empreendida pelo autor à juventude contemporânea chega com menos potência ao espectador do que ao leitor da obra original.

Com relação ao espetáculo, Erika Mader impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com o material dramatúrgico - marcas ágeis, diversificadas e não raro muito expressivas, quase todas explorando com sucesso o clima soturno e angustiante inerente à obra. Ainda assim, há algo que me parece mal resolvido: algumas transições entre as cenas. O fato de novos personagens entrarem no espaço enquanto a cena anterior ainda não terminou nada tem de equivocado, mas a forma com que os personagens deixam o palco às vezes é um tanto atabalhoada. 

Talvez fosse o caso, como esboçado de vez em quando, de fazer com que os personagens que vão sair permaneçam sempre um tempo maior em cena, relacionando-se de alguma forma com o que vem a seguir. Isso talvez pudesse criar um breve momento de suspensão, um estranhamento que poderia conferir uma tensão ainda maior à narrativa - mas trata-se, naturalmente, de uma ideia e, como tal, sujeita a todos os enganos. 

Com relação ao elenco, Guilherme Ferraz revela força e presença na pele de Samora. Mas acredito que o resultado possa ser ainda melhor se o ator compreender que todo o idealismo do personagem não exclui o fato dele ser também um assassino e priorizar sempre a violência como veículo para atingir seus objetivos. Amanda Grimaldi nos apresenta uma Sofia bem definida enquanto personalidade apaixonada e plena de ingenuidade. Sol Menezzes é uma jovem lindíssima e sua figura se encaixa perfeitamente na moradora do morro que deseja ser atriz, mas acredito que sua boa performance possa ganhar mais potência se a intérprete falar o texto com maior volume vocal. 

Marcos Ácher e André Frazzi dão vida aos policiais empenhados em resgatar Sofia do morro. Suas atuações são seguras e convincentes, em papéis de menores possibilidades. Izak Dahora encarna o policial infiltrado no morro que simula ser professor de teatro. O ator faz bem o papel, mas acredito que, em algum momento, e ainda que de maneira sutil, poderia sugerir que não é exatamente o que parece ser. Yuri Ribeiro vive com competência o traficante Anjo, personagem um tanto ingrato posto que despido de maiores nuances. Leonardo Bianchi interpreta o adolescente Felipe, irmão de Sofia. Sua composição é interessante, já que a proposital suavidade do personagem torna ainda mais aterrorizante sua paixão por colecionar armas de fogo - acredito que são pessoas assim, acima de qualquer suspeita, que inesperadamente revelam sua obscura e violenta face. 

Vivendo os pais de Sofia, Liliane Rovaris e José Karini extraem o máximo de seus ótimos personagens, valorizando com extrema sensibilidade tanto seus conflitos pessoais quanto sua angústia referente ao desaparecimento da filha. Finalmente, Polly Marinho. Na pele de Mara Maluca, a atriz consegue o notável feito de materializar tanto a inaudita violência da personagem quanto sua desproteção e fragilidade, afora exibir grandes méritos de comediante quando algumas situações permitem o humor. Sem dúvida, uma das performances mais vigorosas da atual temporada.  

Na equipe técnica, é excelente a trilha sonora assinada por João Mader Bellotto, Pedro Richaid e Tony Bellotto, que muito contribui para reforçar a tensão da narrativa. Também de excelente nível a iluminação de Rodrigo Belay, que sublinha e enfatiza com sensibilidade todos os climas emocionais em jogo. Quanto aos figurinos de Bruno Perlatto, não entendi sua proposta de, quem sabe para fugir ao realismo, criar algumas vestimentas um tanto histriônicas que em nada contribuem para definir o contexto e as personalidades nele envolvidas. E menos ainda entendi por que os personagens exibem olheiras nitidamente marcadas: seria para reforçar a suposta insônia a eles inerente? Se foi essa a intenção, sugiro apaixonadamente que todas as olheiras sejam removidas, posto que a insônia em questão é muito mais existencial do que física.  No que se refere à cenografia de Lorena Lima, teria sido sua intenção, através de vários montes de papel branco, sugerir a presença (ainda que simbólica) de cocaína? Se foi, ainda assim o resultado é não apenas confuso, como plasticamente pouco expressivo.

OS INSONES - Texto original de Tony Bellotto. Adaptação e direção de Erika Mader. Com Amanda Grimaldi, André Frazzi, Guilherme Ferraz, Izak Dahora, José Karini, Leonardo Bianchi, Liliane Rovaris, Marcos Ácher, Polly Marinho, Sol Menezzes e Yuri Ribeiro. Teatro do Leblon (Sala Fernanda Montenegro). Terças e quartas, 21hs.




terça-feira, 2 de agosto de 2016

Proust e as artes
Com Roberto Machado

O curso é uma interpretação filosófica de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, no que diz respeito à obra de arte – principalmente a literatura. Mais precisamente, analisando o que Proust sente em alguns momentos intensos em que se rememora e imagina, mas também o que diz da música e da pintura, o curso pretende mostrar como esta sensação e este tipo de criação artística lhe aparecem como modelo de uma literatura capaz de revelar profundamente a realidade.
         Pretendo, assim, mostrar que Em busca do tempo perdido é um romance de formação no sentido de que Marcel, o personagem central, só descobre sua vocação literária – que ele pensava que não tinha – no final do livro. Mas pretendo mostrar principalmente que para ele realizar essa formação – esse aprendizado – são necessárias três condições:
1)    As impressões sensíveis, pela intensidade com que, segundo Proust, elas permitem sentir o espaço e o tempo.
2)    A música, que, inspirado em Wagner e Schopenhauer, ele pensa como conhecimento perfeito da realidade.
3)    A pintura, que ele considera, desta vez inspirado no impressionismo, como criação de metamorfoses.

DATAS: Quintas às 17h30, nos dias 08, 15, 22 e 29 de setembro e 06 de outubro
INVESTIMENTO: R$200,00 / *R$100,00 (alunos d’O Tablado)

AS INSCRIÇÕES DEVEM SER FEITAS NA SECRETARIA DO TEATRO O TABLADO,

DE SEGUNDA A SEXTA, DE 14H30 ÀS 18H