terça-feira, 19 de junho de 2018

Teatro/CRÍTICA

"Nuon"

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Inesquecível encontro no Ipanema



Lionel Fischer



"Nuon é um espetáculo que fala sobre a guerra do Camboja e no entanto fala sobre todas as guerras. Todas as guerras são iguais na medida em que levam as pessoas à perda dos valores simbólicos que as estruturam enquanto indivíduos, seres civilizados e enquanto sociedade. Ainda que o assunto abordado possa sugerir uma forma épica, a encenação opta por um caminho intimista e constrói cenas que evidenciam a dor das pessoas no momento em que se dão conta de sua impotência frente ao caos gerado por decisões políticas e sociais das quais elas não participam".

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza as premissas essenciais de "Nuon", que após cumprir ótimas temporadas em Curitiba e São Paulo, está em cartaz no Teatro Ipanema. Ana Rosa Tezza assina o texto e a direção do espetáculo, estando o elenco formado por Evandro Santiago (Arun, Kim, Sambath e Diretor do campo de refugiados), Helena Tezza (Bopha, Nuon e Ampeu Hengsaa), Janine de Campos (Príncipe Norodom Sihanouk, Nuon e Koylan), Marcelo Rodrigues (Tã e Mestre Viseth) e Regina Bastos (Nuon). Os atores compartilham a cena com os músicos Breno Monte Serrat e Mateus Ferrari.

Pensando nos espectadores que porventura desconheçam o terrível período vivido pelos habitantes do Camboja, explicito brevemente o trágico contexto. O que ficou conhecido como genocídio cambojano foi promovido pelo governo comunista do Khmer Vermelho, liderado por Pol Pot no Camboja, entre 1975 e 1979. Esse genocídio foi uma das conseqüências das ações tirânicas impostas no período com a aplicação de uma utopia agrária, que resultou em uma violenta repressão, marcada por trabalhos forçados, torturas e execuções. Estima-se que pelos menos 1,5 milhão de pessoas tenham morrido durante essa época nesse país asiático. 

Durante os anos em que Pol Pot esteve no poder, foi realizado o esvaziamento das cidades cambojanas a partir da migração da população para fazendas coletivas, onde era submetida a um regime de trabalho forçado. Além disso, houve o fechamento de hospitais, escolas, bibliotecas e monastérios, foram abolidos a propriedade privada e os salários, e foi iniciada um intensa perseguição contra minorias étnicas e grupos intelectualizados da sociedade.

No parágrafo inicial, como já dito extraído do release que me foi enviado, consta uma assertiva incontestável: todas as guerras são iguais. E por que são iguais, já que materializadas a partir de  diversificadas motivações? Em minha opinião, porque brutalizam o indivíduo a ponto de fazê-lo relegar a um plano secundário o que ele possui de mais essencial: sua humanidade. Em meio ao horror e ao caos que todas as guerras promovem, as pessoas quase sempre se veem obrigadas a fazer escolhas que jamais fariam em tempos de paz, posto que o essencial praticamente fica restrito à própria sobrevivência. Mas o que será que sobrevive naqueles que não são vitimados pela guerra? 

Eis uma pergunta difícil de ser respondida. É possível que muitos sucumbam à amargura e já não consigam mais encarar a vida como uma dádiva. É possível que outros encontrem forças para transcender o horror e a violência de que foram vítimas e sejam capazes de valorizar ainda mais o ato de existir. Seja como for, ninguém passa impune por uma guerra, essa execrável forma que os homens encontraram não para resolver conflitos, mas para exacerbá-los e assim inviabilizar qualquer possibilidade de entendimento. 

Já me desculpando pelas conjecturas acima, talvez um tanto longas, vamos ao que está acontecendo no Teatro Ipanema. Em primeiro lugar, o espectador é brindado com um texto belíssimo, impregnado de dor e poesia, habitado por reflexões da mais alta pertinência sobre os temas abordados. E quanto à dinâmica cênica, estruturada a partir de uma estética oriental, esta é simplesmente deslumbrante, tanto no que concerne à expressividade e originalidade das marcações como no tocante à precisão dos tempos rítmicos. Sob todos os pontos de vista, o público carioca está tendo a rara oportunidade de viver um momento teatral inesquecível. 

Com relação ao elenco, constitui realmente uma dádiva assistir a performance de intérpretes tão talentosos, que não merecem qualquer reparo, seja em termos vocais ou corporais. E mais: que evidenciam uma inteligência cênica e uma contracena só passíveis de existir quando todos confiam inteiramente uns nos outros e no projeto em que estão inseridos. A todos, portanto, parabenizo com o mesmo entusiasmo e a todos agradeço o maravilhoso encontro que me proporcionaram. 

O mesmo agradecimento estendo aos músicos Breno Monte Serrat e a Mateus Ferrari, pela perícia e sensibilidade com que tocam vários instrumentos - Ferrari é também responsável peça belíssima composição musical, fundamental para o fortalecimento dos diversificados climas emocionais em jogo. Quanto a Eduardo Giacomini (figurino), Fernando Marés (cenografia), Beto Bruel e Rodrigo Ziolkowski (iluminação) e Maria Adélia (plástica do personagem e máscaras), todos assinam trabalhos de altíssima qualidade. Finalmente, gostaria de destacar a precisão e sensibilidade de Jean Carlos Sanchez na operação de luz.

NUON - Texto e direção de Ana Rosa Tezza. Com Evandro Santiago, Helena Tezza, Janine de Campos, Marcelo Rodrigues e Regina Bastos. Teatro Ipanema. Sábado, domingo e segunda às 20h30.    








sábado, 9 de junho de 2018

UNIRIO – PROEXC &
SOCIEDADE PSICANALÍTICA DO RIO DE JANEIRO
APRESENTAM: FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA
Será exibido e debatido o premiado filme: UM HERÓI DO NOSSO TEMPO (Va, vis et deviens, 2005, 140 min.), dirigido e roteirizado pelo franco-romeno  RADU MIHĂILEANU, autor de obras como O CONCERTO (2009) e A FONTE DAS MULHERES (2011), ambas reconhecidas como vigorosas e instigantes.  Os temas abordados por esse diretor discutem assuntos humanistas, como repressão feminina, relação de poder, política de estado e, sobretudo, questão da identidade e sua ruptura. Em particular, nesse trabalho, o autor reflete sobre sua própria história como imigrante, que, aos 22 anos, deixa, além de sua cidade natal, Bucareste, sua família e seus amigos, exilando-se na França, evadido da opressiva ditadura de Nicolae Ceausescu (1965 a 1989).
A trama aborda a Operação Moisés - uma ação americano-israelense de 1984 - que levou judeus refugiados da Etiópia (os Falashas), para Israel, focalizando a jornada epopeica  de Salomão, um cristão negro que vive em um campo de refugiados no Sudão, que,  com apenas 9 anos e incentivado pela própria mãe, finge ser judeu e órfão para poder ter melhores chances de vida. Lá, é adotado por uma família sefardita, de origem francesa. Todavia, a adaptação à nova realidade não é fácil, obrigando-o a usar os mais variados recursos para justificar a mentira, inclusive, rompendo com sua identidade africana.
Filme reconhecido em festivais internacionais, obteve diversas premiações: Melhor filme: Grande Prêmio do Júri, Grande Prêmio do Público e Prêmio do Júri Ecumênico.  No Festival de Copenhague recebeu os troféus de melhor filme e melhor roteiro, além das indicações ao César: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Trilha Sonora.
Assim, na última sexta-feira do mês, dia 29 de junho, às 18 h, na Sala Vera Janacópulos da UNIRIO, analisaremos e discutiremos a película em seus múltiplos aspectos e prismas diversos. Como sempre, aguardamos todos vocês para mais um debate e contamos com a divulgação aos amigos e aos interessados no viés cultural e psicanalítico.
Um grande abraço de Ana Lúcia de Castro e Neilton Silva.
SERVIÇO:
DATA: 29 DE JUNHO DE 2018.
HORÁRIO: FILME: 18 h; ANÁLISE E DEBATE: 20 h às 22 h.
LOCAL: SALA VERA JANACÓPULOS – UNIRIO
ENDEREÇO: AV. PASTEUR, 296.
ANÁLISE CULTURAL: PROF. DRA. ANA LÚCIA DE CASTRO
ANÁLISE PSICANALÍTICA: DR. NEILTON SILVA
ENTRADA FRANCA - INFORMAÇÕES: forumpsicinema@gmail.com
NOTA: Quem se interessar em adquirir o livro: Fórum de Psicanálise e Cinema: 20 filmes analisados, de autoria de Ana Lúcia de Castro e Neilton Dias da Silva, ele se encontra à venda nos dias do FÓRUM ou através da editora Letra Capital:www.letracapital.com.br.
HISTÓRICO: O FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA FOI CRIADO EM 1997, COMO UM PROJETO CIENTÍFICO DA ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA RIO 3, PELO ENTÃO PRESIDENTE, DR. WALDEMAR ZUSMAN, E PELO DIRETOR DO INSTITUTO, DR. NEILTON DIAS DA SILVA. DESDE 2004 PASSOU A CONTAR COM A PARTICIPAÇÃO DA MUSEÓLOGA E PROFESSORA DA UNIRIO, DRA ANA LÚCIA DE CASTRO, RESPONSÁVEL PELAS ANÁLISES CULTURAIS DOS FILMES. CELEBRAMOS OS 12 ANOS DO FÓRUM E A PARCERIA DA SPRJ COM A UNIRIO PARA SEDIAR O PROJETO MENSALMENTE, SEMPRE MUITO CONCORRIDO.

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sexta-feira, 8 de junho de 2018

Teatro/CRÍTICA

"Ouvi dizer que a vida é boa"

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Belíssima reflexão sobre a passagem do tempo



Lionel Fischer



"Há alguns anos atrás, num  jornal de domingo, uma das entrevistadas numa matéria sobre terceira idade era uma senhora, moradora do Rio de Janeiro, que afirmava que um grande sonho que nunca havia realizado era ver o mar. Indagada sobre as razões de nunca ter visto o mar tendo morado tão perto dele durante praticamente toda a vida, ela respondeu: "Ah, uma hora é uma coisa, outra hora é outra, o tempo vai passando".

Extraído do programa oferecido ao público, o trecho acima motivou a criação de "Ouvi dizer que a vida é boa", em cartaz no Espaço SESC - Arena. João Batista Leite assina o texto e a direção do espetáculo, que marca os 24 anos de existência da Cia. Dramática de Comédia. No elenco, Ana Moura, Carol Machado, Cleiton Rasga, Giselda Mauler, Lucas Miranda, Luciano Moreira e Sonia Praça. 

Não são poucos aqueles que sustentam, não raro com grande veemência, que uma peça de teatro importante tem que necessariamente partir de uma boa ideia. Embora não despreze essa premissa, penso de forma radicalmente oposta e sempre que instado a explicitar o porquê de tal pensamento, cito como exemplo aquela que é considerada uma das melhores peças já escritas:  "Hamlet", de Shakespeare.

Como se origina a citada obra-prima? Um jovem príncipe é informado pelo fantasma de seu pai que foi assassinado pelo irmão, amante da rainha, e pede ao filho que o vingue. Pois bem: o que há de extraordinário nesta premissa? Absolutamente nada. O que confere deslumbrante grandeza ao texto é a forma como Shakespeare, ao longo de cinco atos, mergulha profundamente em aspectos essenciais da natureza humana, para tanto valendo-se de uma ação avassaladora e de personagens magnificamente construídos. 

No presente caso, estamos diante de uma mulher que se ressente de nunca ter visto o mar, apesar de morar não muito distante dele. Ora, isto em si não constitui nada de extraordinário. No entanto, me parece que tal fato não deva ser encarado em seu sentido literal e sim metafórico. Posso estar enganado, naturalmente, mas penso que o autor objetivou demonstrar que não ver o mar é muito menos relevante do que não ver a vida, ou seja, limitar-se a uma postura passiva e conformada, sempre adiando sonhos e renunciando aos próprios desejos.  

Neste sentido, e ainda que estruturando sua obra em um contexto habitado por personagens cuja simplicidade é a tônica, não hesito em afirmar que João Batista Leite nos brinda com um texto maravilhoso, posto que aborda com extrema sensibilidade temas da maior relevância, tais como a renúncia do indivíduo em ser agente de sua própria história e, em especial, a passagem do tempo.

Todos nós sabemos que o tempo passa. Mas como passa o tempo de cada um de nós? Será que lutamos bravamente pela materialização de nossos sonhos? Será que só desistimos deles, ou ao menos de alguns, quando atingimos o limite de nossas forças? Ou será que, como faz a protagonista da peça, aos poucos nos acomodamos e passamos a cumprir exigências de um contexto que jamais ambicionamos? 

Outro ponto de extrema relevância diz respeito à estrutura da escrita. De uma maneira geral, o autor trabalha com formulações que, embora simples, jamais são respondidas. Todos os desejos são inevitavelmente protelados, sem que se saiba exatamente por que. Tudo está atrelado a possibilidades futuras, que jamais se concretizam, esvaziando por completo o tempo presente. Assim, a passagem do tempo adquire contornos cada vez mais amargos, ainda que o autor minimize tal amargura com passagens impregnadas de irresistível humor. Ou seja: o trágico e o risível convivem irmanados, o que certamente contribui para o total envolvimento da plateia com a trama que lhe é apresentada.

Bem escrito, contendo ótimos personagens e uma ação que nos toca profundamente, o texto recebeu excelente versão do autor. Valendo-se de marcações imprevistas e criativas, e trabalhando os tempos rítmicos de forma irrepreensível, afora isso João Batista Leite extraiu ótimas atuações de todo o elenco, a começar pela da protagonista, Carol Machado.

Vivendo Ela, a atriz exibe uma vez mais alguns de seus reconhecidos predicados, tais como ótima voz, expressividade corporal, inteligência cênica e inegável carisma, cabendo também ressaltar a impecável forma como a intérprete desenha toda a trajetória da personagem, da infância à maturidade. Sob todos os aspectos, estamos diante de um dos melhores desempenhos da atual temporada. Quanto ao restante do elenco, a todos parabenizo com o mesmo entusiasmo, posto que defendem com a mesma competência os muitos personagens que interpretam - cabe também registrar que todos cantam muito bem e tocam vários instrumentos de forma irrepreensível.  

No tocante à equipe técnica, Renato Machado ilumina a cena com grande sensibilidade, contribuindo de forma decisiva para realçar os múltiplos climas emocionais em jogo, cabendo destacar alguns momentos em que focos são acionados em sequência, no sentido contrário ao do relógio, como a sugerir que o tempo da realização dos desejos está passando e nada acontece. Mauro Leite Teixeira responde por figurinos altamente sugestivos, posto que remetem, em alguma medida, à ingenuidade de festas juninas. Também de excelente nível são a preparação vocal de Paula Bentes Leal, a despojada e funcional cenografia de Dóris Rollemberg Cruz, e a trilha sonora original e direção musical de Marcelo Alonso Neves - com relação às canções, gostaria de confessar que algumas me geraram uma tal angústia que chego a supor que, se estivesse sozinho no teatro, provavelmente haveria de carpir como uma lavadeira grega.

OUVI DIZER QUE A VIDA É BOA - Texto e direção de João Batista Leite. Uma realização da Cia. Dramática de Comédia. Com Ana Moura, Carol Machado, Cleiton Rasga, Giselda Mauler, Lucas Miranda, Luciano Moreira e Sonia Praça. Espaço SESC - Arena. Quinta a sábado, 20h30. Domingo, 19h.  


sábado, 26 de maio de 2018

Teatro/CRÍTICA

"Catarse (uma para-ópera)"

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Oportuna e vigorosa montagem



Lionel Fischer


Há pequenas variações no que concerne ao conceito de epidemia. Mas o que se segue me parece o mais apropriado: "Epidemia é a propagação de uma doença infecciosa, que surge rapidamente em determinada localidade ou em grandes regiões e ataca ao mesmo tempo um grande número de pessoas". No caso da presente montagem, esta teve como ponto de partida o que ficou conhecido como "Epidemia da dança". 

O fato ocorreu em 1518, em Estrasburgo, França. Uma mulher começou a dançar sozinha e sem música no meio da rua. Inicialmente, foi encorajada por palmas e gritos, mas ela não parava de dançar. E assim continuou, durante seis dias, até que o estranho comportamento começou a se espalhar e, em uma semana, 34 pessoas estavam dançando também. Em um mês, já eram 400 pessoas, e nada fazia com que elas parassem, nem mesmo a morte de alguns deles por exaustão ou ataque cardíaco - essa informação consta do release que me foi enviado.

E, ainda baseando-me no material de divulgação, Felipe Vidal e os atores enxergaram naquele episódio uma metáfora potente para a necessidade extrema por parte daquelas pessoas de expressar uma insatisfação represada, em tempos de transição entre a era medieval e o renascimento. Uma insatisfação represada como a de hoje, no Brasil e no mundo, diante da assustadora onda de retrocesso e obscurantismo. O reconhecimento desse sentimento despertou no grupo o desejo de também usar a dança para se manifestar contra as variadas formas de opressão que tomam conta da sociedade em pleno século 21 - racismo, sexismo, homofobia, xenofobia e intolerância religiosa, entre tantas outras.

Eis, em resumo - um tanto longo, admito - a premissa e o contexto em que se dá "Catarse - (uma para-ópera"), que faz hoje e amanhã suas últimas apresentações no Teatro Sesc Ginástico. Felipe Vidal, Clarisse Zarvos e Leonardo Corajo respondem pela dramaturgia, que contou com a colaboração de todo o elenco e também com a interlocução dramatúrgica de Daniele Avila Small. Em cena,  Clarisse Zarvos, Francisco Thiago Cavalcanti, Jefferson Almeida, Maurício Lima/ Rômulo Galvão, Leonardo Corajo, Sérgio Medeiros, Noêmia Oliveira, Tainah Longras e Tainá Nogueira. Luciano Moreira (guitarra) e Felipe Vidal (baixo) também estão em cena, cabendo a este último a direção da montagem. 

Estamos diante de um espetáculo que decorre de uma dramaturgia extremamente instigante, posto que fruto de evocações históricas, depoimentos pessoais e sobretudo da dança, seja a mesma executada no mais absoluto silêncio ou com acompanhamento musical. E é justamente a dança o elemento mais potente da montagem. E por dança, ao menos no presente caso, entenda-se não coreografias convencionais, mas orgânicos e viscerais movimentos que traduzem uma infinidade de sentimentos que precisam vir à tona, que não podem mais ser represados, como provavelmente ocorreu no citado episódio medieval.

Neste sentido, gostaria de destacar a belíssima passagem em que dois homens iniciam uma movimentação que sugere um processo de sedução, que pouco a pouco se torna cada vez mais frenético e virulento, impregnado de sorrisos e ameaças, avanços e recuos, até que finalmente ambos se abraçam e se beijam, unindo seus corpos e suas almas, materializando algo que não poderia mais permanecer represado. 

E a mesma urgência de se colocar para fora o que permanecia oculto se faz presente nos depoimentos pessoais dos atores e nas reflexões feitas sobre os temas já mencionados, tudo orquestrado pelo diretor Felipe Vidal através de uma dinâmica cênica plena de vigor e expressividade, materializada com extrema sensibilidade por todo o elenco, não apenas nas passagens faladas, mas também naquelas em que a dança e o canto predominam - no que se refere às canções, todas estão em plena sintonia com os múltiplos conteúdos emocionais em jogo.

Na equipe técnica, destaco com o mesmo entusiasmo as preciosas colaborações de Felipe Vidal e Luciano Moreira (direção musical e, ao que me parece, autores das músicas), Francisco Thiago Cavalcanti e Rômulo Galvão (responsáveis por impecável direção de movimento), Flávio Souza (figurinos), Felipe Antello e Felipe Vidal (iluminação) e Eduardo Souza (videografismo e programação visual).

CATARSE (UMA PARA-ÓPERA ) - Dramaturgia de Felipe Vidal, Clarisse Zarvos e Leonardo Corajo, com a colaboração do elenco e interlocução dramatúrgica de Daniele Avila Small. Direção de Felipe Vidal. Com Clarisse Zarvos, Francisco Thiago Cavalcanti, Jefferson Almeida, Maurício Lima/Rômulo Galvão, Leonardo Corajo, Sérgio Medeiros, Noêmia Oliveira, Thainah Longras e Tainá Nogueira. Teatro Sesc Ginástico. Sábado às 19h,. Domingo, 18h.  













sexta-feira, 25 de maio de 2018

Teatro/CRÍTICA

"A vida ao lado"

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Inesquecível encontro no Serrador



Lionel Fischer




"A peça mostra o dia a dia dos moradores de um edifício que está prestes a ser desapropriado pelo governo. Eles estão levando suas vidas normalmente, quando recebem a notícia de que terão que se mudar, pois a prefeitura vai implodir o edifício para a construção de um enorme e exótico aquário. Cada morador receberá uma indenização e deverá mudar-se o quanto antes para outro lugar".

Extraído do programa oferecido ao público, o trecho acima resume o contexto em que se dá "A vida ao lado", de autoria de Cristina Fagundes, que também assina a direção do espetáculo. Em cartaz no Teatro Serrador, a montagem tem elenco formado por Alexandre Barros Alexandre Varella, Ana Paula Novellino, Bia Guedes, Cristina Fagundes, Flávia Espírito Santo e Marcelo Gonçalves.

O primeiro e grande mérito do presente texto diz respeito à premissa que lhe deu origem. Se o prédio em questão fosse implodido para dar lugar a um hospital, uma universidade, um centro cultural ou uma escola para crianças carentes, dentre outras possibilidades, a iniciativa teria validez. Mas não: ali será construído um enorme e exótico aquário. Com que finalidade? Certamente a de enriquecer empreiteiros que haverão de superfaturar a obra, que mais adiante será relegada ao mais completo abandono, como ocorreu com a maior parte das construções erguidas durante as olimpíadas. 

Outro ponto de suma importância refere-se à capacidade da autora de extrair comovente  humanidade e irresistível humor de situações absolutamente comuns, vividas não por heróis imbuídos de propósitos grandiosos ou acossados por dilemas metafísicos, e sim por personagens que reconhecemos e com os quais nos identificamos.

E os ditos personagens, que são muitos e diversificados, são estruturados de forma simultaneamente amorosa e crítica, cabendo também ressaltar a agilidade e imprevisibilidade dos diálogos, sempre em perfeita sintonia com o contexto e os múltiplos conteúdos emocionais em jogo. Sob todos os aspectos, estamos diante de uma comédia dramática de excelente nível, cuja temporada se encerra amanhã, mas que desejamos que volte ao cartaz o mais rapidamente possível.

Com relação ao espetáculo, Cristina Fagundes impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com o material dramatúrgico. Este possui uma estrutura fragmentada, mas esta fragmentação é trabalhada de tal forma que o interesse pelas situações eventualmente interrompidas não desaparece, mas sim adquire renovado vigor quando retomadas. Valendo-se de marcações imprevistas e criativas, Cristina Fagundes exibe aqui um maravilhoso trabalho de direção, que certamente se insere entre os melhores da atual temporada.   

Com relação ao elenco, é realmente notável a constatação de que todos contracenam conscientes de que o êxito de cada um está atrelado ao do outro, que nada pode se materializar mediante um brilho solitário. E justamente por isso, por esse belo e visceral encontro entre os intérpretes, é que o espetáculo propicia um inesquecível encontro entre palco e plateia. Assim, a todos parabenizo com o mesmo entusiasmo, e a todos agradeço a  emocionante e divertida noite que me proporcionaram. 

Na equipe técnica, considero irrepreensíveis as contribuições de Daniel Leuback (direção de movimento), Aurélio de Simoni (iluminação), Alice Cruz e Tuca Benvenutti (cenografia), Sol Azulay (figurinos), Vini Kilesse (visagismo) e Isadora Medella (trilha sonora).

A VIDA AO LADO - Texto e direção de Cristina Fagundes. Com Alexandre Barros, Alexandre Varella, Ana Paula Novellino, Bia Guedes, Cristina Fagundes, Flávia Espírito Santo e Marcello Gonçalves. Teatro Serrador. Hoje e amanhã às 19h30. 

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Teatro/CRÍTICA

"LTDA"

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Oportuna reflexão sobre o nosso tempo 



Lionel Fischer



Em busca de seu primeiro emprego, um jovem recém formado em jornalismo consegue uma entrevista em uma aparentemente ilibada agência de jornalismo. Mas logo os sócios da empresa explicitam o que esperam dele: "Você será bem pago para inventar e divulgar notícias com o objetivo de expandir o mercado das empresas que contratam nossos serviços". Ainda que surpreso, posto que a proposta contraria frontalmente seus ideais, o rapaz aceita o emprego, mas logo percebe que a mentira também é inerente ao funcionamento interno da empresa, o que contribui para seu progressivo esfacelamento.

Eis, em resumo, o enredo de "LTDA", de autoria de Diogo Liberano. No elenco, integrantes do Coletivo Ponto Zero (Brisa Rodrigues, Bruna Scavuzzi e Lucas Lacerda) e os atores convidados Leandro Soares e Orlando Caldeira. Debora Lamm assina a direção do espetáculo, em cartaz no Teatro Eva Herz.

Como todos sabemos, a mentira tornou-se, nos tempos atuais, uma espécie de instituição, cujo poder parece não ter limites, graças aos recursos tecnológicos à disposição. E o ato de mentir está cada vez mais acoplado a um cínico descaramento, como se fosse absolutamente natural esquecer a ética desde que a mesma constitua um entrave aos objetivos a serem alcançados. 

Posso estar enganado, e espero estar enganado, mas tenho a impressão de que estamos vivendo em um mundo que parece destinado a chafurdar na própria imundície, que estamos todos com lama até o pescoço e que em breve o ar nos faltará, e valores éticos talvez se vejam reduzidos a vagas lembranças do que poderíamos ter sido e não fomos. Mas haverá ainda alguma esperança de reverter esse macabro destino? 

O texto de Diogo Liberano nos aponta uma remota possibilidade, na medida em que, como dito no parágrafo inicial, as poderosas instituições que fabricam mentiras podem se desestruturar quando internamente a mentira for inerente à própria engrenagem. Mas será isso suficiente? Ou também se torna imperioso que todos nós, que não pertencemos a poderosas instituições, iniciemos um processo de conscientização que nos leve a banir de nossas vidas a compulsão de fabricar falsos perfis nas redes sociais, de fingir o que não somos, de simular emoções que não sentimos e assim por diante? Enfim, o tempo dirá. Mas o problema é que o tempo passa muito rápido...

Bem escrito, contendo ótimos personagens e extremamente oportuno graças às reflexões que Liberano faz a respeito do  sinistro tempo em que vivemos, "LTDA" recebeu ótima versão cênica de Debora Lamm. Valendo-se de marcações imprevistas e criativas, a dinâmica cênica criada pela diretora contribui  decisivamente para o fortalecimento dos múltiplos e diversificados climas emocionais em jogo. Além disso, estabelece com a plateia uma relação de permanente incômodo, deixando claro que todos somos responsáveis, ainda que em graus diferentes, pela tragédia que nos assola.  

Com relação ao elenco, Orlando Caldeira exibe performance irretocável na pele do Narrador que conduz a história e se relaciona tanto com a plateia como interage com os personagens. Leandro Soares compõe muito bem o jovem jornalista, trabalhando com a mesma eficiência tanto os aspectos humorísticos do personagem como sua progressiva perplexidade. Na pele da funcionária que almeja ser demitida para abrir seu próprio negócio com o dinheiro da indenização, Brisa Rodrigues exibe forte presença e uma indignação que emociona. Bruna Scavuzzi e Lucas Lacerda, os sócios da empresa, materializam com extremo vigor o cinismo, descaramento e total ausência de ética daqueles que acreditam cegamente na eficácia do poder de manipulação.

Na equipe técnica, considero irrepreensíveis as contribuições de Denise Stutz (direção de movimento), Marcelo H (criação sonora), Ticiana Passos (figurino), Josef Chasilew (visagismo), Debora Lamm (cenário) e Ana Luzia de Simoni (iluminação), cabendo também destacar a criativa programação visual de Daniel de Jesus.

LTDA - Texto de Diogo Liberano. Direção de Debora Lamm. Com Brisa Rodrigues, Bruna Scavuzzi, Leandro Soares, Lucas Lacerda e Orlando Caldeira. Teatro Eva Herz. Quinta a sábado, 19h.







quarta-feira, 16 de maio de 2018

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