terça-feira, 8 de agosto de 2017

Teatro/CRÍTICA

"Agosto"

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Excelente montagem de um texto belíssimo



Lionel Fischer



Tudo se passa em uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos. Poeta e alcoólatra, Beverly é casado com Violet, que tem um câncer na boca e é viciada em remédios. Na primeira cena, vemos Beverly contratando uma empregada para ajudar Violet - trata-se de uma índia cheyenne chamada Johnna, que logo passa a sofrer ataques racistas de Violet. Essa contratação, aparentemente bem intencionada, e sem deixar de sê-lo, na verdade oculta o que dispara a trama: Beverly desaparece e nunca mais retorna - acaba sendo descoberta uma carta sua revelando que vai se suicidar.

Em vista desse desaparecimento, a família se reúne. Violet e Beverly tem três filhas. Barbara está em processo de divórcio com Bill, e tem um relacionamento conturbado com a filha adolescente Jean; Karen está noiva daquele que será seu terceiro marido, Steve; Ivy, que ainda vive na casa dos pais, esconde um relacionamento com o primo Charles, que mais tarde se descobrirá que é mais do que seu primo.

Caso estivéssemos diante de uma família normal, o desaparecimento de Beverly geraria uma inevitável angústia. Mas como não existem famílias normais, o sumiço do patriarca e a posterior constatação de que se suicidara (ainda que seu corpo nunca tenha sido encontrado), faz aflorar uma série de graves conflitos, alguns previsíveis, mas outros totalmente inesperados.

Eis, em resumo, o enredo de "Agosto", peça do norte-americano Tracy Letts que ganhou os prêmios Tony (melhor texto) e Pulitzer (melhor drama) e que foi levado às telas com o título "Álbum de Família", tendo como protagonistas Meryl Streep (Violet) e Julia Roberts (Barbara).

Em cartaz no Oi Futuro Flamengo, a montagem conta com adaptação e direção de André Paes Leme, estando o elenco formado por Guida Vianna (Violet), Letícia Isnard (Barbara), Alexandre Dantas (Steve), Claudia Ventura (Karen), Claudio Mendes (Charlie), Eliane Costa (MettieFae), Guilherme Siman (Charlie Júnior), Isaac Bernat (Beverly/Bill), Julia Schaeffer (Johnna), Lorena Comparato (Jean) e Marianna Mac Niven (Ivy).

Como não conhecia o texto (e tampouco vi o filme), não tenho como avaliar a adaptação feita por André Paes Leme. Seja como for, e antes de mais nada, quero manifestar minha enorme satisfação por ter entrado em contato com uma obra contemporânea de grande densidade, plena de conflitos exasperantes e viscerais, sendo os mesmos materializados por personagens magnificamente construídos e que contracenam através de diálogos da mais alta teatralidade. 

E mais: a peça em questão, ao contrário de tantas que se inserem na chamada Moderna Dramaturgia (não tenho nada contra a dita Moderna Dramaturgia, desde que de qualidade), não impõe ao espectador hercúleos esforços de compreensão, não o coloca diante de contextos que podem ter infinitos significados, cabendo a cada um escolher o seu - esta é uma das principais características das chamadas Obras Abertas, que, muitas vezes, são tão abertas que acabam não querendo dizer nada, pelo simples fato de que o autor também não sabia exatamente o que pretendia. Isto posto, e imaginando já ter enaltecido suficientemente o texto, vamos ao espetáculo.

Como a ação se passa em vários cômodos da casa, e sendo impossível materializá-la em um palco de pequenas dimensões, André Paes Leme fez duas opções. A primeira: inicialmente a personagem Johnna atua como narradora, especificando a geografia local. A segunda: algumas cenas, que acontecem em espaços diferentes, são exibidas ao mesmo tempo, sem que isso acarrete nenhum transtorno no tocante à compreensão. Afora isso, cabe ressaltar a expressividade das marcações, a precisão dos tempos rítmicos e a capacidade do encenador de extrair ótimas atuações de todo o elenco.

Na pele de Violet, Guida Vianna, que está completando 40 anos de carreira, exibe performance magnífica encarnando uma personagem dificílima, pois além do drama que a acomete (o câncer) e dos remédios que têm que tomar, Violet sugere uma mulher em vias de enlouquecer, e que portanto demanda cuidados especiais. No entanto, a partir de um certo ponto, se percebe que ela é a mais lúcida da família, e que se cuidados especiais se fazem necessários, estes dizem respeito muito mais aos outros do que a ela própria. Sob todos os aspectos, um trabalho memorável e inesquecível.

A mesma eficiência se faz presente na performance de Letícia Isnard, atriz cujo imenso talento lhe permite transitar com o mesmo brilho tanto pela comédia como pelo drama. Aqui, evidentemente, o drama predomina, e Letícia extrai tudo que é possível de uma mulher que afronta permanentemente o ex-marido, ainda que o ame, e não hesita em exercer sua liderança com uma agressividade que sugere alguém capaz de chegar a atos extremados - ainda assim, a atriz também consegue valorizar toda a fragilidade e desamparo que a personagem se empenha tanto em ocultar. 

Alexandre Dantas explora com propriedade a canalhice inerente a Steve, que mesmo diante do grave contexto não hesita em assediar a adolescente Jean. Claudia Ventura está irrepreensível como Karen, mulher que, em função de um próximo casamento, aceita toda a já mencionada canalhice de Steve, além de valorizar ao máximo a passagem em que questiona os afetos familiares. Claudio Mendes faz com total segurança o apaziguador Charlie, cabendo a Eliane Costa defender com vigor uma personagem de intolerável capacidade desagregadora. Guilherme Siman valoriza com sensibilidade o tímido Charlie. 

Como de hábito, Isaac Bernat demonstra seu grande talento, seja na breve participação como Beverly, seja vivendo Bill, personagem que passa grande parte da peça tentando sofrear a agressividade da ex-esposa Barbara e empreendendo comoventes esforços para ao menos amenizar a gravidade do contexto. Julia Schaeffer exibe impecável atuação como Johnna, materializando tanto a doçura quanto a firmeza da personagem. Lorena Comparato faz muito bem a revoltada e agressiva adolescente Jean, a mesma eficiência presente na performance de Marianna Mac Niven (Ivy) - só me permito sugerir à atriz que se empenhe ao máximo em conferir maior potência e alcance para sua voz, o que certamente lhe permitirá trabalhar seus textos com maiores nuances. 

No tocante à equipe técnica, considero irrepreensíveis as colaborações de todos os profissionais envolvidos nesta mais do que oportuna empreitada teatral - Carlos Alberto Nunes (cenografia), Patrícia Muniz (figurino), Renato Machado (iluminação), Ricco Vianna (música) e Guilherme Siman (tradução). 

AGOSTO - Texto de Tracy Letts. Direção e adaptação de André Paes Leme. Com Guida Vianna, Letícia Isnard, Alexandre Dantas, Claudia Ventura, Claudio Mendes, Eliane Costa, Guilherme Siman, Isaac Bernat, Julia Schaeffer, Lorena Comparato e Marianna Mac Niven. Oi Futuro Flamengo. Quinta a domingo, 20h. 
















domingo, 6 de agosto de 2017

FÓRUM CARIOCA DE CULTURA - 2017 Ciclo "Mulheres na Literatura" 
"Transparências de uma escritora universal" Adélia Prado 
"Adélia Prado (1935) é uma escritora e poetisa brasileira. Recebeu da Câmara Brasileira do Livro, o Prêmio Jabuti de Literatura, com o livro "Coração Disparado", escrito em 1978. Mineira de Divinópolis, sua obra recria numa linguagem despojada e direta, a vida e as preocupações dos personagens do interior mineiro."
Palestra a cargo do escritor Rogério Tavares, da Academia Mineira de Letras. Leitura de poemas pela atriz Rosamaria Murtinho.
 Ambos serão apresentados, respectivamente, pelos Acadêmicos Antônio Carlos Secchin e Sergio Fonta

Segunda, dia 07 de agosto, às 17:30h 
Convite em anexo
Rua Teixeira de Freitas nº 5, sala 306 - Prédio do IHGB
Secretaria 
www.academiacariocadeletras.org.br
facebook.com/academiacariocadeletras/

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Caríssimos,
Seguem os títulos escolhidos para compor nosso painel do segundo semestre do FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA, cuja estreia ocorrerá no dia 25 de agosto, para o qual esperamos todos vocês para analisarmos e debatermos os temas propostos.
Contando, como sempre, com a divulgação aos amigos e aos interessados no viés cultural e psicanalítico, um grande abraço e até lá, Ana Lúcia e Neilton.
UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (UNIRIO/PROEXC/ESCOLA DE TEATRO) &
 SOCIEDADE PSICANALÍTICA DO RIO DE JANEIRO (SPRJ)
APRESENTAM:
FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA
PROGRAMAÇÃO DE 2017-2
SEMPRE ÀS ÚLTIMAS SEXTAS-FEIRAS DO MÊS, DAS 18 h ÀS 22 h.
LOCAL: SALA VERA JANACÓPULOS – UNIRIO.
FILMES ANALISADOS PELO PSICANALISTA: DR. NEILTON SILVA
E PELA MUSEÓLOGA E PROFESSORA DA UNIRIO: DRA. ANA LÚCIA DE CASTRO
25/08 – CORTINA DE FUMAÇA (Smoke)
DIREÇÃO: WAYNE WANG, 1995, 122 min.
Com roteiro de Paul Auster, o cotidiano de uma tabacaria cujo dono, há 13 anos, tira fotos de sua loja, diariamente, às oito da manhã, pelo lado de fora e por onde circulam tipos bem diferentes, como Paul Benjamin, um escritor, ao olhar as fotos se emociona, ao ver sua falecida esposa, que estava grávida de cinco meses e morreu em um tiroteio.

29/09 – A FAMÍLIA BÉLIER (La famille Bélier)

DIREÇÃO: ERIC LARTIGAU2014, 104 min. 
Na família Bélier todos são surdos - exceto Paula, de 16 anos. Ela é uma intérprete indispensável de seus pais, ajudando no funcionamento da fazenda da família. Um dia, seu professor de música descobre seu dom para cantar e ela decide se preparar para o concurso da Radio France. Uma escolha que representa ficar longe da família e entrar na vida adulta.
27/10 – ONDAS DO DESTINO (Breaking the Waves)
DIREÇÃO: LARS VON TRIER, 1997, 158 min.
No norte da Escócia, uma jovem mulher se apaixona e se casa com um dinamarquês que trabalha em uma plataforma de petróleo. Quando ele retorna ao seu serviço e sofre um acidente ao quebrar seu pescoço, torna-se incapacitado para o resto da vida. Nesta situação, ele pressiona a mulher a procurar amantes e lhe contar detalhes de suas relações.
24/11 – TRUMAN (Truman)
DIREÇÃO: CESC GAY, 2015, 108 min.
Dois amigos de infância, separados por um oceano, se encontram depois de muitos anos. Um ator argentino muito doente, radicado em Madrid, e um professor universitário fixado no Canada. Eles passam uns dias juntos, lembrando os velhos tempos e a grande amizade que se manteve por anos. Esse reencontro pode ser também o último adeus.
SERVIÇO: SEMPRE ÀS ÚLTIMAS SEXTAS-FEIRAS DO MÊS, DAS 18H ÀS 22H.
LOCAL – SALA VERA JANACOPOLUS / REITORIA DA UNIRIO
ENDEREÇO: AVENIDA PASTEUR, 296 – URCA.
ENTRADA FRANCA E ESTACIONAMENTO. FILME: 18H; DEBATE: 20H
PEQUENO HISTÓRICO DO FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA
FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA FOI CRIADO PELOS PSICANALISTAS DR. WALDEMAR ZUSMAN E DR. NEILTON SILVA. A PARTIR DE 2004, PASSA A CONTAR COM A PARTICIPAÇÃO DA MUSEÓLOGA E PROFESSORA DRA. ANA LÚCIA DE CASTRO, RESPONSÁVEL PELA PESQUISA, DIVULGAÇÃO E ANÁLISE CULTURAL DOS FILMES.  COM A PARCERIA: UNIRIO – PROEXC - ESCOLA DE TEATRO E SPRJ, O PROJETO DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA MANTÉM UMA REGULARIDADE HÁ MAIS DE ONZE ANOS, TORNANDO-SE UM EVENTO MUITO CONCORRIDO, COM UM PÚBLICO FIEL E PARTICIPATIVO.
INFORMAÇÕES: forumpsicinema@gmail.com

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Teatro/CRÍTICA

"Estes fantasmas"

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Comédia dramática em excelente versão

Lionel Fischer


"Pasquale muda-se com sua esposa para um antigo casarão que há anos é tido como mal assombrado. Mas o que se sucede é uma série de acontecimentos que nada têm a ver com seres do outro mundo. No entanto, ele prefere acreditar que tudo o que acontece é obra do além, salva a si mesmo de sua iminente tragédia, porque se permite acreditar que o amante de sua mulher é um fantasma que assombra sua nova casa e que lhe dá dinheiro de modo benevolente".

Extraído do excelente release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o enredo de "Estes fantasmas" (Sesc Ginástico), de autoria do dramaturgo italiano Eduardo De Filippo (1900-1984). A montagem da Trupe Fabulosa leva a assinatura de Sergio Módena, estando o elenco formado por Thelmo Fernandes, Alexandre Lino, Ana Velloso, Celso André, Gustavo Wabner, Rodrigo Savadoretti e Stela Freitas - esta última participa como atriz convidada.

Escrita em 1946, logo após o término da Segunda Guerra Mundial, a peça se inicia com uma constatação: Pasquale Lojacono é um homem financeiramente arruinado, mas que acredita que poderá se reerguer se conseguir alugar as dezenas de cômodos do dito casarão, assim convertendo-o em um hotel ou pensão. Ou seja: Pasquale é um homem que ainda não se entregou e se mostra disposto a enfrentar bravamente as adversidades. Estaríamos, portanto, na iminência de assistir a um drama. 

No entanto, esta impressão é parcialmente desmentida a partir do primeiro encontro de Pasquale com Rafaele, porteiro do estabelecimento. Além de enfatizar que o castelo é realmente assombrado, Rafaele enumera uma série de bizarras tarefas que Pasquale terá que cumprir diariamente, como a de aparecer em todas as varandas, cantar a plenos pulmões e acenar das janelas para que os vizinhos acreditem que ali vivem pessoas e não fantasmas. Trata-se, evidentemente, de uma cômica circunstância.

Em vista disso, caberia ao autor - um dos maiores dramaturgos do século XX - conduzir a trama mesclando comicidade e drama, investindo na possibilidade do estabelecimento de um jogo teatral entre realidade e ficção, uma constante em sua obra. E ele certamente o faz. No entanto, e mesmo correndo o risco de ser apedrejado (como a adúltera da Bíblia) pelo elenco, produção e toda a equipe técnica do projeto, não consegui me envolver com o espetáculo - e não por culpa do espetáculo - como imaginei. E pela razão que se segue.

Embora tenha ficado perfeitamente claro para mim que um dos temas centrais da peça é o desejo humano de se reinventar, e quando a realidade se torna insuportável ainda assim tenta-se resistir apelando para forças sobrenaturais na esperança de uma hipotética salvação, creio que esta pertinência temática perde parte de sua contundência porque as passagens humorísticas e dramáticas são muitas vezes trabalhadas em blocos muito extensos. Vamos a dois exemplos.

A cena inicial entre Pasquale e Rafaele é extensa, mas nem por isso deixa de ser engraçadíssima. Na passagem em que Pasquale tenta desesperadamente convencer a esposa Maria de que a ama e que ambos podem seguir juntos, e é vigorosamente contestado, novamente uma cena extensa, mas plena de dramaticidade e maravilhosamente construída. Ou seja: acredito que a eficácia do texto seria ainda maior se a alternância entre os climas emocionais em jogo se desse com maior freqüência, o que implicaria na materialização de cenas mais curtas.

Seja como for, não há dúvida de que Eduardo De Filippo exibe aqui muitos de seus mais do que reconhecidos méritos, dentre eles o de unir teatro popular com uma visão socialmente engajada do mundo, como destaca o diretor Sergio Módena no programa. E aproveitando que acabo de citar o encenador, quero deixar clara minha admiração por este trabalho. Impondo à cena uma dinâmica em total sintonia com o material dramatúrgico, Módena consegue valorizar, em igual medida e com o mesmo êxito, tanto as passagens mais engraçadas quanto aquelas em que a dramaticidade predomina, valendo-se invariavelmente de marcações imprevistas e criativas. Além disso, o encenador consegue, como de hábito, extrair ótimas atuações do elenco.

Na pele de Pasquale, Thelmo Fernandes demonstra, uma vez mais, sua notável capacidade de transitar com a mesma eficiência pela comédia e pelo drama. Possuidor de ótima voz, grande carisma e forte presença cênica, Fernandes exibe aqui uma das melhores performances da atual temporada. Gustavo Wabner convence plenamente como Alfredo, amante de Maria, sendo esta interpretada com grande emotividade por Ana Velloso. Comediante por excelência, Alexandre Lino está impagável vivendo o ladino Porteiro, com Celso Andre (outro excelente comediante) materializando com extrema firmeza um personagem marcado por total seriedade. Rodrigo Salvadoretti se mostra eficiente em suas breves participações. Com relação a Stela Freitas, é maravilhoso revê-la em cena, ainda que em breve participação como Armida, esposa de Alfredo. E faço absoluta questão de ressaltar meu assombro ante sua relativa ausência de nossos palcos, já que se trata de uma das melhores atrizes do país.  

No tocante à equipe técnica, considero irrepreensíveis as colaborações de todos os profissionais envolvidos nesta oportuna empreitada teatral - Doris Rollemberg (cenografia), Mauro Leite (figurinos), Tomás Ribas (iluminação), Marcelo Alonso Neves (direção musical), Derô Martin (adereços), Guilherme Camilo (visagismo) e Sergio Módena (tradução e adaptação)

ESTES FANTASMAS - Texto de Eduardo de Filippo. Direção de Sergio Módena. Com Thelmo Fernandes, Gustavo Wabner, Alexandre Lino, Ana Velloso, Celso Andre, Rodrigo Salvadoretti e Stela Freitas. Sesc Ginástico. Quinta a sábado, 19h. Domingo, 18h.   








quarta-feira, 26 de julho de 2017

 

Esta mensagem foi enviada com prioridade alta.
Teatro/CRÍTICA

"Dois amores e um bicho"

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Dilacerado brado contra a intolerância

Lionel Fischer


"São três os personagens: pai, mãe e filha. Uma visita ao zoológico, onde a filha do casal trabalha, desencadeia uma história enterrada há quinze anos, quando o pai matou seu cachorro a pontapés por considerá-lo homossexual. Ao passarem pela jaula do orangotango, isolado dos outros animais por ter molestado outro macaco, a família relembra esse episódio traumático do passado. A lembrança desencadeia uma série de conflitos familiares, deixando manifestar o ódio cotidiano, intolerância generalizada, o fascismo e a animalidade que fazem parte do homem contemporâneo, transformando o zoológico cênico proposto pelo autor em uma metáfora de nossa própria sociedade". 

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o enredo de "Dois amores e um bicho", do dramaturgo venezuelano Gustavo Ott. Em cartaz na Sala Multiuso do Sesc Copacabana, a montagem da Notória Companhia de Teatro leva a assinatura de Danielle Martins de Farias, estando o elenco composto por Adriana Seiffert (Mãe), Lucas Gouvêa (Pai) e Julie Wein (Filha) - José Karini está no elenco como stand in de Gouvêa, e foi com ele que assisti o espetáculo.

Como explicitado no parágrafo inicial, uma prosaica visita ao zoológico onde Julie trabalha como veterinária desenterra conflitos supostamente sepultados no passado. De acordo com as normas do zoológico, se um animal molesta outros deve ser isolado. No presente caso, o Pai não chegou a molestar ninguém, mas sentiu-se ultrajado com a possível homossexualidade de seu cachorro e então matou-o a pontapés, ficando detido por 45 dias. 

Pois bem: e se, ao invés de seu cachorro, o pai descobrisse, por exemplo, que sua filha era homossexual? Será que também a mataria a pontapés? Isso jamais poderemos saber, mas certamente a bárbara violência cometida contra o animal traz embutida uma das mais terríveis mazelas que assolam a humanidade desde sempre, e mais ainda nos tempos atuais: a intolerância.

Diante do ocorrido, alguém poderia ser levado a crer que, ao matar seu cachorro homossexual, o pai poderia ter sido movido por um impulso inconsciente cujo objetivo seria o de matar sua própria e latente homossexualidade. Mas, não sendo este o caso, a que atribuir uma atitude tão descabida, perpetrada por um homem até então considerado normal? E aqui reside, em minha opinião, o cerne da questão.

Exceção feita a casos evidentemente patológicos, todos nós acreditamos piamente em nossa própria normalidade, e portanto não nos julgamos capazes de cometer ações que entrem em frontal desacordo com as normas que regem a sociedade em que estamos inseridos. Mas será que isso constitui realmente uma verdade? Ou será que, dependendo de uma ou mais circunstâncias específicas, todos nós também sejamos capazes de explicitar uma intolerância até então insuspeitada?

Particularmente, acredito que sim. E nisto reside o alcance da peça, pois do contrário tudo se limitaria à exposição de um caso específico, inerente a um homem subitamente tomado por um bizarro e injustificado furor homicida. Neste sentido, suponho que o objetivo do autor tenha sido o de, por um lado, manifestar seu repúdio contra qualquer forma de intolerância, e, por outro, lançar uma espécie de alerta a todos nós, posto que somos constituídos de tudo que é inerente ao humano, seja para o bem ou para o mal. E se nossas escolhas nos parecem corretas, isso não significa que outras também não o sejam, e aprender a lidar com as diferenças é essencial para o estabelecimento de uma fraterna convivência entre os homens. 

Com relação ao espetáculo, Danielle Martins de Farias impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com o material dramatúrgico. Desde o início, e ao longo de toda a montagem, as marcações traduzem de forma altamente expressiva as tensões entre os personagens, aí incluindo-se as passagens em que eles se dirigem diretamente ao público. Outro ponto extremamente positivo a destacar é o vigor com que o texto é proferido, assim como a intensidade rítmica, fatores que contribuem decisivamente para manter a plateia em um estado de tensão semelhante ao dos personagens. Tais virtudes, naturalmente, têm que ser compartilhadas com o elenco, cuja atuação irretocável está à altura deste espetáculo que, sem a menor dúvida, se insere entre os melhores da atual temporada.

Na pele do Pai, José Karini exibe a melhor atuação de sua carreira, conseguindo valorizar ao máximo todas as nuances de uma personalidade dilacerada por suas próprias contradições. O mesmo se aplica a Adriana Seiffert, impecável tanto nas passagens mais agressivas quanto naquela em que sofre brutal agressão do marido. Quanto a Julie Wein, suas virtudes enquanto instrumentista (toca piano e violoncelo, além de cantar) se equivalem à sua performance, impregnada de dor, perplexidade e ferrenha determinação em esclarecer o sombrio episódio do passado. Aos três, portanto, agradeço o maravilhoso encontro que tivemos. 

Na equipe técnica, Felipe Habib responde por ótima direção musical, essencial para o fortalecimentos dos múltiplos climas emocionais em jogo, o mesmo aplicando-se à soturna iluminação de Renato Machado, estruturada a partir de contrastes de claro/escuro. Outra contribuição notável diz respeito à cenografia de André Sanches, que, basicamente composta de cubos cinzas e gaiolas vazias, estabelece sensível paralelo entre uma jaula e o apartamento da família. Cabe também destacar os excelentes figurinos de Raquel Theo e a magnífica direção de movimento de Toni Rodrigues.

DOIS AMORES E UM BICHO - Texto de Gustavo Ott. Direção de Danielle Martins de Farias. Com Adriana Seiffert, José Karini e Julie Wein. Sala Multiuso do Sesc Copacabana. Sexta e sábado, 19h. Domingo, 18h.

    








domingo, 23 de julho de 2017

Última Semana do III Festival de Teatro Midrash
 
Hoje, 20:42