terça-feira, 16 de setembro de 2014

Teatro/CRÍTICA

"A estufa"

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Ótima versão de obra inédita de Pinter


Lionel Fischer



"Roote é o diretor-geral de uma instituição que, parece, abriga doentes mentais. Mas podem ser também presos políticos. Ele é massacrado pela burocracia estatal e cercado de pessoas esquisitas, como o eficiente e ambicioso Gibbs, a sedutora e ardilosa Srta. Dutts, o indecifrável e alcoólatra Lush, o inquieto Lamb e assim por diante. Na noite de Natal, acontecem dois eventos que vão balançar a instituição: um dos 'internos', - que também são chamados à vezes de 'pacientes' e são identificados por números - aparece morto e uma outra paciente dá à luz um bebê. A partir daí, os personagens são envolvidos por uma trama repleta de surpresas e revelações, com muito mistério, sexo e violência".

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o enredo e o contexto de "A estufa", de Harold Pinter, em cartaz na Casa de Cultura Laura Alvim. O texto, escrito em 1958 e inédito no Brasil, chega à cena com direção de Ary Coslov e elenco formado por Mario Borges (Roote), Isio Ghelman (Gibbs), Paula Burlamaqui (Srta. Cutts), Pedro Neschling (Lamb), Marcelo Aquino (Lush) e Thiago Justino (Tubb e Lobb).

Como ocorre em praticamente todos os textos de Pinter, este pode ser interpretado de várias maneiras. Mas me parece claro que dois temas predominam: o poder avassalador e enlouquecedor da burocracia (e aqui o autor evidencia forte influência de Kafka), e as conturbadas e caóticas relações interpessoais sob um regime ditatorial. No entanto, e ao contrário do que pode imaginar o espectador não muito familiarizado com as obras de Pinter, os temas mencionados são trabalhados de forma simultaneamente séria e muito engraçada, sendo que o humor deriva da aparente incompatibilidade entre os fatos e a forma como os personagens lidam com eles.

No presente caso, um homem aparece morto: teria sido natural a sua morte ou um crime foi cometido? Uma mulher dá à luz: mas quem seria o pai? Tais perguntas, naturalmente, jamais são respondidas com clareza, cabendo à plateia chegar às suas próprias conclusões. E no tocante aos principais temas acima mencionados, a burocracia assume aqui conotações de medonho pesadelo, mas a tal ponto que se torna impossível não rir dos indecifráveis mecanismos que a norteiam, das mesma forma que as relações pessoais entre os personagens acabam se tornando simultaneamente trágicas e cômicas, posto que centradas em artimanhas que, supostamente inteligentíssimas, no fundo revelam uma canhestra obviedade. 

Um dos primeiros textos de um dos mais brilhantes dramaturgos ingleses de todos os tempos, "A estufa" recebeu irretocável versão cênica de Ary Coslov. Especialista no autor, Coslov impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com o material dramatúrgico, conseguindo materializar uma imprescindível atmosfera de estranheza, seja através de inusitadas e imprevistas marcas, seja através da maestria com que trabalha os tempos rítmicos. Afora isto, e por ser também um excelente ator, Ary Coslov extrai do elenco atuações maravilhosas. A começar pela do protagonista, Mario Borges.

Ator de vastíssimos recursos expressivos, Borges esgota todas as possibilidades do ótimo personagem que interpreta. Estressado, histérico, chegado a rompantes operísticos e ao mesmo tempo impotente diante de um sistema que jamais chega a compreender, o Roote materializado pelo ator é uma verdadeira dádiva para todos aqueles que amam a dificílima arte de interpretar. O mesmo se aplica a Isio Ghelman, o ator mais elegante do teatro carioca - e ainda mais, como no presente caso, vestindo um impecável terno. Isio é possuidor de notável inteligência cênica, afora um refinado humor que lhe permite, através de comedidos gestos e igualmente comedidas inflexões, transmitir uma vasta gama de significados.

Na pele da Srta. Cutts, Paula Burlamaqui exibe aqui a melhor performance de sua carreira. A personagem é lúbrica e ardilosa, e tais "virtudes" são trabalhadas muito bem pela atriz. Mas é também imperioso ressaltar sua capacidade de fazer aflorar seu lado mais frágil e desprotegido, indispensável para que a personagem não se restrinja aos seus aspectos meramente epidérmicos e deixe transparecer o que os olhos não enxergam.

Pedro Neschling faz muito bem o dispneico e algo acrobático Lamb, valorizando com a mesma eficiência sua paixão e ingenuidade. Marcelo Aquino também exibe desempenho sedutor vivendo o misterioso e alcoólatra Lush, em especial da metade para o fim da montagem, quando o personagem começa a sair dos eixos. Vivendo Tubb e lobb, Thiago Justino revela presença e segurança em personagens com menores possibilidades.

Na equipe técnica, considero irretocáveis as contribuições de todos os profissionais envolvidos nesta oportuna e curiosa empreitada teatral - Biza Vianna (figurinos), Ary Coslov (cenário e trilha sonora), Aurélio de Simoni (iluminação), e Isio Ghelman e Ary Coslov, responsáveis pela magnífica tradução.

A ESTUFA - Texto de Harold Pinter. Direção de Ary Coslov. Com Mario Borges, Isio Ghelman, Paula Burlamaqui, Pedro Neschling, Marcelo Aquino e Thiago Justino. Casa de Cultura Laura Alvim. Quinta a sábado, 21h. Domingo, 20h.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Grupo da Argentina e companhias de vários estados do Brasil participam da 13ª edição do Festival de Teatro EncontrArte em Nova Iguaçu
23 espetáculos adultos e infantis serão apresentados neste que é o segundo maior festival de teatro do Estado.



A 13ª edição do Festival de Teatro EncontrArte, que acontecerá de 18 a 27 de setembro em Nova Iguaçu, é um marco na história do evento, pois trará pela primeira vez um grupo internacional, da Argentina. Além da Compañia La Caravana, vão participar grupos da Bahia, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo, companhias cariocas e da Baixada. Todos os 23 espetáculos adultos e infantis serão gratuitos e apresentados em praças de bairros, no teatro SESC Nova Iguaçu e no teatro Sylvio Monteiro, do Complexo Cultural de Nova Iguaçu.

A arte que se faz nas ruas, que quebra barreiras e propõe uma aproximação entre público e artistas é a tônica desta edição do festival, através da homenagem aos diretores Augusto Boal e Amir Haddad. Boal criou o Teatro do Oprimido e Amir fundou o grupo Tá na Rua. O ator Marco Nanini, internacionalmente conhecido por seu trabalho no teatro, no cinema e na televisão, e a atriz Eve Penha, que é ligada à região, completam a lista dos que receberão o troféu do festival.

Com patrocínio da Petrobras desde 2006, o festival administrado por Claudina Oliveira, Fábio Mateus e Tiago Costa sempre realiza uma maratona teatral. Este ano o EncontrArte, um dos eventos mais importantes do Estado na área, recebeu o prêmio Funarte para Festivais, o que possibilitou as apresentações nos bairros e conta com o apoio da TV Globo.

Mostrando que a arte derruba todos os limites, inclusive os geográficos, o EncontrArte receberá grupos da Bahia - Grupo Território Sírius Teatro e Grupo Salto Alto Investigações Cênicas-; Minas Gerais - Grupo Maria Cutia -; do Paraná - Cia Miiller de Teatro de Bonecos -; Rio Grande do Sul - Grupo Trompim Teatro-; São Paulo - Grupo Lamini CAC, Cia Teatral Amado Amado e Palhaço Bisgoio; da Argentina - Compañia La Caravana.

Os realizadores vão convidar o público para escolher o nome da mascote do festival. No ano passado os espectadores votaram pela internet e presencialmente decidindo a figura que representa o festival. E para comemorar os 13 anos ininterruptos do evento, acontecerá também a exposição fotográfica “Retratos do EncontrArte”, com curadoria da empresa EncontrArte, realização do SESC RJ e parceria da Funarte.

Alziro Xavier, Marcele Pontes, Mazé Mixo, Getúlio Ribeiro e Paulo César Rega, profissionais que cobriram o evento ao longo de mais de uma década, escolheram fotografias que mostram a visão particular de cada um sobre alguns dos mais de 200 espetáculos que passaram pelo EncontrArte. A exposição fotográfica "Retratos do EncontrArte” será aberta dia 17 de setembro, às 13h, na galeria do SESC Nova Iguaçu, e continuará até 26 de outubro, de terça a sábado, 9h às 20h, e domingos e feriados,  9h às 18h.
E do dia, 27 de setembro a 27 de outubro, na galeria do Complexo Cultural de Nova Iguaçu, sempre de segunda a sexta-feira,  de 9h às 17h. O endereço é Rua Getúlio Vargas, 51, centro.

Os realizadores comemoram o interesse crescente das companhias em participar do evento em uma região ainda carente de iniciativas culturais de peso. Houve 113 inscrições, inclusive do Rio Grande do Norte e de Mato Grosso, além dos outros estados citados.

Em parceria com o SESC RJ serão oferecidas oficinas de Cenografia, direção teatral e Treinamento Acrobático para atores, e um seminário sobre Arte Pública.
O projeto visa movimentar o mercado dos espetáculos e produções, pois proporciona trabalho e renda para artistas, técnicos e profissionais prestadores de serviço diretamente ligados ao setor. Os espetáculos selecionados passaram pelo crivo de um júri altamente qualificado e conhecido no meio artístico. Os grupos apresentam peças que vão do drama ao imaginativo, da comédia ao circo, tudo para encantar a plateia.

OFICINAS:

Cenografia:
O iguaçuano Anderson Dias, um dos cenógrafos da novela Meu Pedacinho de Chão, na TV Globo, é o professor. Ele abordará desde a história da cenografia no teatro, a busca pelo conceito, pesquisas, até croqui com rascunho da ideia e mapa com disposição dos elementos no espaço cênico. Dias 19, 20 e 21 de setembro na sala multiuso do SESC Nova Iguaçu.

Direção teatral:
Ator e diretor, Renato Neves vai ministrar a oficina. Ela tem como objetivo principal proporcionar ao participante a oportunidade de observar que seu corpo é um instrumento de trabalho em função da arte. Que a consciência de seus gestos e atos cênicos trarão verdade e formas mais claras na construção de suas personagens. Dias 23, 24 e 25 de setembro, à tarde, na sala multiuso do SESC Nova Iguaçu.

Exercícios Acrobáticos para atores:
A atriz argentina Cora Alfiz vai realizar com os estudos treinamentos físicos específicos para o trabalho acrobático com atores : exercícios para estimular a força, resistência e flexibilidade; exercícios de postura; trabalho técnico pontual em parada de mão, rolamentos, pontes, e outros movimentos. Dias 23, 24 e 25 de setembro, durante a manhã, na sala multiuso do SESC Nova Iguaçu.

Seminário Teatro de Rua e Arte Pública:
A relação que existe entre o teatro que feito nas ruas e os artistas que se apresentam nas ruas como malabaristas, músicos, estátua viva representam o que atualmente considera Arte Pública que será o tema de discussão do seminário Teatro de Rua e Arte Pública. O debate acontecerá dia 17 de setembro, às 14h, na sala multiuso do SESC Nova Iguaçu e será aberto ao público.
Com mediação de Licko Turle, doutor em Artes Cênicas e autor do livro Teatro de Rua no Brasil – A Primeira Década do terceiro Milênio, terá participação de representantes dos grupos Tá na Rua, Centro de Teatro do Oprimido (CTO), Boa Praça, festival EncontrArte e Sindicato dos Artistas e Técnicos do Estado(Sated/RJ)


Toda a programação, detalhes e informações através do site:
Telefones: 21 - 3066-0054 e 97343-0151

SERVIÇO
13º Festival de Teatro EncontrArte de Nova Iguaçu
Data: 18 a 27 de setembro de 2014
Locais: SESC Nova Iguaçu e no Complexo Cultural de Nova Iguaçu
SESC Nova Iguaçu - Rua Dom Adriano Hipólito, 10, Moquetá
Complexo Cultural de Nova Iguaçu - Rua Getúlio Vargas, 51, Centro, Nova Iguaçu
ENTRADA FRANCA
Sede: Tel: 021 - 3066-0054 / 021 98552-3055
Agendamento de espetáculos: Tel 021 - 97343-0151 e 021 - 3066-0054

Assessoria de imprensa
Minas de Ideias Comunicação Integrada
Carlos Gilberto e Fábio Amaral
(21) 3023-1473 / 98249 6705
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PROGRAMAÇÃO COMPLETA ENCONTRARTE 2014

18/09 – QUINTA-FEIRA
Horário: 20h
Peça: Clube dos Palhaços - Irmãos Brothers (RJ)
Local: Praça Ruy Barbosa - Telefones: 21 - 3066-0054 e 97343-0151
Sinopse: Clube dos palhaços é um espetáculo de variedades vivido pelo riquíssimo universo do clown e suas inúmeras possibilidades cênicas. Uma trupe de palhaços aproveita as férias para se divertir em um clube e aprontar poucas e boas.
Texto: Nehemias Rezende
Direção: Evandro Mesquita
Grátis. Retirada de ingressos na bilheteria uma hora antes do início do espetáculo / sujeito à lotação do espaço.
Classificação: Livre

19/09 – SEXTA-FEIRA
Horário: 15h
Peça: Como a gente gosta - Grupo Maria Cutia (MG)
Local: Praça de Austin - Telefones: 21 - 3066-0054 e 97343-0151
Sinopse: Exilados pelo novo duque, Rosalinda e Orlando são obrigados a deixar a corte. Ela foge acompanhada por sua prima Célia. Tudo acaba numa ciranda de paixões, numa peça como a gente gosta.
Texto e Direção: Eduardo Moreira
Grátis. Retirada de ingressos na bilheteria uma hora antes do início do espetáculo / sujeito à lotação do espaço.
Classificação: Livre

19/09 – SEXTA-FEIRA
Horário: 20h
Peça: Construção - Cia. Atores da Fábrica
Local: Complexo Cultural de Nova Iguaçu - Rua Getúlio Vargas, 51, Centro, Nova Iguaçu - Telefones: 21 - 3066-0054 e 97343-0151
Sinopse: É a história do cotidiano de pessoas pobres, cuja luta pela sobrevivência traz conflitos no lar. Algumas delas conseguem emprego numa construtora recém-chegada ao bairro, e daí surge a esperança de dias melhores.
Texto: Adilson Dias
Direção: Alexandre Gomes
Grátis. Retirada de ingressos na bilheteria uma hora antes do início do espetáculo / sujeito à lotação do espaço.
Classificação: Livre

20/09 - SÁBADO
Horário: 20h
Peça: Solo Almodóvar - Grupo Salto Alto Investigações Cênicas (BA)
Local: Teatro Sesc Nova Iguaçu - Rua Dom Adriano Hipólito, 10, Moquetá –Telefones: 21 - 3066-0054 e 97343-0151
Sinopse: Dolores é uma travesti. Carismática e performática, canta e conta histórias da sua vida, amores e dramas.
Texto: Vinicius Morais
Direção: Djalma Thurler
Grátis. Retirada de ingressos na bilheteria uma hora antes do início do espetáculo / sujeito à lotação do espaço.
Classificação: 16 anos

21/09 - DOMINGO
Horário: 16h
Peça: Três Marias - Crias da Casa Produções Artísticas (RJ)
Local: Teatro Sesc Nova Iguaçu - Rua Dom Adriano Hipólito, 10, Moquetá – Telefones: 21 - 3066-0054 e 97343-0151
Sinopse: Três histórias pelo mundo! Antonio Maria, Zé Maria e Maria Aparecida se encontram por acaso numa praça e decidem sair contando e vivendo histórias!
Texto: Gabriel Naegele
Direção: Gabriel Naegele e Maria Vidal
Grátis. Retirada de ingressos na bilheteria uma hora antes do início do espetáculo / sujeito à lotação do espaço.
Classificação: Livre

21/09 - DOMINGO
Horário: 20h
Peça: Seu Bomfim - Grupo Território Sírius Teatro (BA)
Local: Complexo Cultural de Nova Iguaçu - Rua Getúlio Vargas, 51, Centro, Nova Iguaçu -  Telefones: 21 - 3066-0054 e 97343-0151
Sinopse: Contador de histórias, Seu Bomfim é um velho homem do sertão. Ela narra um episódio sobre “um homem do rio”. A partir daí, ele lembra acontecimentos de seu passado e expõe opiniões e pensamentos sobre várias questões que mostram sua cultura tipicamente nordestina.
Texto: Fábio Vidal
Direção: Meran Vargens
Grátis. Retirada de ingressos na bilheteria uma hora antes do início do espetáculo / sujeito à lotação do espaço.
Classificação: 12 anos

22/09 – SEGUNDA-FEIRA
Horário: 15h
Peça: Dá licença, minha gente - Grupo Cutucurim (RJ)
Local: Praça de Cabuçu - Telefones: 21 - 3066-0054 e 97343-0151
Sinopse: Um poeta popular acaba de chegar à cidade e entra na praça principal para dizer seus versos, vender folhetos e ganhar o pão do dia. O poeta conta histórias e envolve os moradores da rua no seu jogo de ficção.
Texto: Rosyane Trotta
Direção: Christina Streva
Grátis. Retirada de ingressos na bilheteria uma hora antes do início do espetáculo / sujeito à lotação do espaço.
Classificação: Livre

22/09 – SEGUNDA-FEIRA
Horário: 20h
Peça: Édipo Rei - Grupo LaminiCAC (SP)
Local: Complexo Cultural de Nova Iguaçu - Rua Getúlio Vargas, 51, Centro, Nova Iguaçu - Telefones: 21 - 3066-0054 e 97343-0151
Sinopse: Édipo recebe antes de seu nascimento sua sina: matar seu pai e casar com a mãe. Sem conhecer sua verdadeira origem, abandona seus pais adotivos e tenta se afastar do que lhe é profetizado.
Texto: Sófocles
Adaptação: Edson Gory
Direção: Andréia Barros
Grátis. Retirada de ingressos na bilheteria uma hora antes do início do espetáculo / sujeito à lotação do espaço.
Classificação: 14 anos

23/09 – TERÇA - FEIRA
Horário: 10h
Peça: Marilu - Grupo Trompim Teatro (RS)
Local: Teatro Sesc Nova Iguaçu - Rua Dom Adriano Hipólito, 10, Moquetá - Telefones: 21 - 3066-0054 e 97343-0151
Sinopse: Marilu é uma menina que tem uma vida cinzenta. Será que o mundo é cinza ou ela o vê assim? Um dia, surge um pimpolho carregando cores que nunca viu. Deste encontro muitas brincadeiras e confusões acontecerão.
Texto: Eva Furnari
Direção: Hermes Bernardi Jr.
Grátis. Retirada de ingressos na bilheteria uma hora antes do início do espetáculo / sujeito à lotação do espaço.
Classificação: 10 anos

23/09 -  TERÇA-FEIRA
Horário: 14h
Peça: Circo de Quintal - Cia Teatral Amado Amado (SP)
Local: Praça de Tinguá – Telefones: 21 - 3066-0054 e 97343-0151
Sinopse: O palhaço Popó tenta de todas as formas garantir o espetáculo e o circo, entretanto, o que pode fazer se é o único artista? A proposta é um convite ao lúdico e a forma não convencional do palhaço ver o mundo e as coisas a sua volta.
Texto: Vagner Silva
Direção: Paulo Souza e Vagner Silva
Grátis. Retirada de ingressos na bilheteria uma hora antes do início do espetáculo / sujeito à lotação do espaço.
Classificação: Livre

23/09 – TERÇA-FEIRA
Horário: 15h
Peça: Cidade do Sorriso - Grupo Guapoz (RJ)
Local: Complexo Cultural de Nova Iguaçu - Rua Getúlio Vargas, 51, Centro, Nova Iguaçu – Telefones: 21 - 3066-0054 e 97343-0151
Sinopse: O espetáculo conta a história de Doril, um palhaço que ao acordar percebe que seu nariz desapareceu e junto com ele o seu sorriso, desesperado parte com sua parceira Flora à procura de um famoso lugar chamado Cidade do Sorriso.
Texto e Direção: Fernando Dias e Sarah Christina Carvalho
Grátis. Retirada de ingressos na bilheteria uma hora antes do início do espetáculo / sujeito à lotação do espaço.
Classificação: Livre

23/09 TERÇA-FEIRA
Horário: 20h
Peça: Deixa Clarear - Grupo Deixa Clarear (RJ)
Local: Teatro Sesc Nova Iguaçu - Rua Dom Adriano Hipólito, 10, Moquetá - Telefones: 21 - 3066-0054 e 97343-0151
Sinopse: O musical é uma grande homenagem aos 30 anos de falecimento de Clara Nunes. A montagem, protagonizada pela atriz Clara Santhana, passeia pelas várias fases da carreira e da vida de Clara Nunes.
Texto: Marcia Zanelatto
Direção: Isaac Bernat
Grátis. Retirada de ingressos na bilheteria uma hora antes do início do espetáculo / sujeito à lotação do espaço.
Classificação: Livre

24/09 – QUARTA-FEIRA
Horário: 10h
Peça: O Patinho Feio - Cia. Miiller de Teatro de Bonecos (PR)
Local: Teatro Sesc Nova Iguaçu - Rua Dom Adriano Hipólito, 10, Moquetá – Telefones: 21 - 3066-0054 e 97343-0151
Sinopse: Um dos contos clássicos da literatura universal, mostra a importância da solidariedade e do respeito às diferenças. O patinho feito vence as adversidades do destino, supera todos os obstáculos e conquista o respeito e admiração de todos.
Texto: Hans Christian Andersen
Adaptação e Direção: Claudio Miiller
Grátis. Retirada de ingressos na bilheteria uma hora antes do início do espetáculo / sujeito à lotação do espaço.
Classificação: Livre

24/09 – QUARTA-FEIRA
Horário: 14h
Peça: Gigantes Pela Própria Natureza - Grande Cia. de Mystérios e Novidades  (RJ)
Local: Praça de Miguel Couto - Telefones: 21 - 3066-0054 e 97343-0151
Sinopse: É uma orquestra de rua sobre pernas de pau. O espetáculo é inspirado nas músicas indígenas, africanas e europeias e também se referencia na obra do modernista Mario de Andrade.
Direção e Concepção: Lígia Veiga
Grátis. Retirada de ingressos na bilheteria uma hora antes do início do espetáculo / sujeito à lotação do espaço.
Classificação: Livre

24/09 – QUARTA-FEIRA
Horário: 15h
Peça: Sananab - Palhaço Bisgoio (SP)
Local: Complexo Cultural de Nova Iguaçu - Rua Getúlio Vargas, 51, Centro, Nova Iguaçu - Telefones: 21 - 3066-0054 e 97343-0151
Sinopse: Sananab retrata o universo de Bisgoio, um ser ingênuo, estúpido e humano à flor da pele. Vivenciando situações embaraçosas e surpreendentes o palhaço constrói e desconstrói tudo ao seu redor revelando sua essência.
Direção: Néto Donegá
Grátis. Retirada de ingressos na bilheteria uma hora antes do início do espetáculo / sujeito à lotação do espaço.
Classificação: Livre

24/09 – QUARTA-FEIRA
Horário: 20h
Peça: O que eu fiz para merecer isso? - Comunidade Teatral Independente (RJ)
Local: Teatro Sesc Nova Iguaçu - Rua Dom Adriano Hipólito, 10, Moquetá - Telefones: 21 - 3066-0054 e 97343-0151
Sinopse: Genilda Garcia, da família Garcia, vive em uma casa suntuosa maltratada por suas irmãs Victoria Garcia e Manoela Leticia Garcia. Mesmo sofrendo tanto ainda sonha com um amor e tudo para ela pode acontecer.
Texto e Direção: Ribamar Ribeiro
Grátis. Retirada de ingressos na bilheteria uma hora antes do início do espetáculo / sujeito à lotação do espaço.
Classificação: 12 anos

25/09 – QUINTA-FEIRA
Horário: 10h
Peça: Histórias da mãe África - Grupo Hangar Produções Artísticas (RJ)
Local: Teatro Sesc Nova Iguaçu - Rua Dom Adriano Hipólito, 10, Moquetá – Telefones: 21 - 3066-0054 e 97343-0151
Sinopse: Histórias da Mãe África apresenta contos, mitos, lendas e histórias da tradição oral africana, num trabalho de pesquisa que reúne oito histórias, de diferentes regiões da África.
Texto: Contos, lendas e histórias da tradição oral Africanas e Afro-Brasileira
Adaptação: Priscila Camargo
Direção: Cacá Mourthé
Grátis. Retirada de ingressos na bilheteria uma hora antes do início do espetáculo / sujeito à lotação do espaço.
Classificação: Livre

25/09 – QUINTA-FEIRA
Horário: 14h
Peça: Poropopó - Grupo Será o Benidito?! (RJ)
Local: Praça de Vila de Cava - Telefones: 21 - 3066-0054 e 97343-0151
Sinopse: Uma família de palhaços realiza números e reprises clássicos da palhaçaria mundial, revivendo as cenas do circo tradicional.
Texto: André Garcia Alvez
Direção: André Garcia Alvez e Ludmila Silva
Grátis. Retirada de ingressos na bilheteria uma hora antes do início do espetáculo / sujeito à lotação do espaço.
Classificação: Livre

25/09 – QUINTA-FEIRA
Horário: 15h
Peça: Sintonia Suburbana - Grupo Manguinhos em Cena (RJ)
Local: Complexo Cultural de Nova Iguaçu - Rua Getúlio Vargas, 51, Centro, Nova Iguaçu – Telefones: 21 - 3066-0054 e 97343-0151
Sinopse: É uma comédia sobre uma rádio comunitária que está fazendo aniversário. A programação dá voz a diversas histórias e personagens, valorizando a trajetória de cada um para dar graça e leveza a temas do cotidiano de quem vive na região.
Texto: Renata Mizrahi
Direção: Luis Igreja
Grátis. Retirada de ingressos na bilheteria uma hora antes do início do espetáculo / sujeito à lotação do espaço.
Classificação: 12 anos

25/09 – QUINTA-FEIRA
Horário: 20h
Peça: Acorda, Amor! - Grupo Quatro Manos (RJ)
Local: Teatro Sesc Nova Iguaçu - Rua Dom Adriano Hipólito, 10, Moquetá – Telefones: 21 - 3066-0054 e 97343-0151
Sinopse: Acorda, amor! é um espetáculo baseado no conto clássico “A bela adormecida”, porém a nossa encenação se constrói à margem da história.
Texto: Florencia Santángelo e Marcos Camelo
Direção: Marcos Camelo
Grátis. Retirada de ingressos na bilheteria uma hora antes do início do espetáculo / sujeito à lotação do espaço.
Classificação: 12 anos

26/09 – SEXTA-FEIRA
Horário: 10h
Peça: No Embalo das Cores - Grupo Trupe do Experimento (RJ)
Local: Teatro Sesc Nova Iguaçu - Rua Dom Adriano Hipólito, 10, Moquetá – Telefones: 21 - 3066-0054 e 97343-0151
Sinopse: Um espetáculo musical que mostra um artista que sofre por falta de inspiração. Com pena, as cores primárias resolvem “se derramar” e se misturar para ajudar seu amigo.
Texto: Marcos dos Anjos e Tathiana Loyola
Direção: Marcos dos Anjos
Grátis. Retirada de ingressos na bilheteria uma hora antes do início do espetáculo / sujeito à lotação do espaço.
Classificação: Livre

26/09 – SEXTA-FEIRA
Horário: 15h
Peça: Ainda Aqui - Cia Cerne (RJ)
Local: Complexo Cultural de Nova Iguaçu - Rua Getúlio Vargas, 51, Centro, Nova Iguaçu - Telefones: 21 - 3066-0054 e 97343-0151
Sinopse: A peça é um drama que conta a história de uma família obrigada a conviver com dores e sacrifícios, reconstruindo afetos dia a dia.
Texto e direção: Vinícius Baião
Grátis. Retirada de ingressos na bilheteria uma hora antes do início do espetáculo / sujeito à lotação do espaço.
Classificação: 12 anos

26/09 – SEXTA-FEIRA
Horário: 20h
Peça: Vecinas (Vizinhas) - Compañía La Caravana (Argentina)
Local: Praça Jardim Tropical - R. Damas Batista - Telefones: 21 - 3066-0054 e 97343-0151
Sinopse: Vecinas é um espetáculo para toda a família, que conta os encontros e desencontros de duas vizinhas. Apenas um muro as separa dos seus sons, dos seus cheiros, dos seus costumes, dos seus gostos e dos seus desejos.
Direção: Mariano Pujal
Grátis. Retirada de ingressos na bilheteria uma hora antes do início do espetáculo / sujeito à lotação do espaço.
Classificação: Livre

27/09 – SÁBADO – Encerramento do Festival


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terça-feira, 9 de setembro de 2014

Antígona de Sófocles, 
um resumo sobre o antigo 
dilema da Justiça

Usando o resumo da Antígona, o autor faz uma rápida análise das influências dos direitos naturais no teatro grego clássico como forma de divulgação de uma ideologia embrionária sobre os direitos humanos.
Texto enviado ao JurisWay em 13/10/2010.

 “Parece preferível uma sociedade de celerados tementes à lei, como diria Kant, a uma sociedade de santos que viram a luz, pois estes só seguem a luz que descobriram” (ADEODATO, 2009, p.3).

No período clássico, as tragédias descreviam Thémis Diké[1] comoconcepções distintas de justiça, tal qual na tragédia grega de Sófocles (496–406 a.C.), a Antígona. Esta obra-prima é o marco do surgimento da idéia generalizada de direitos subjetivos independentes e acima do direito positivo, que por um longo período foi difundida e posteriormente internalizada nas constituições liberais.  Drama porque estas entidades que corporificam duas posições concebidas como legais se embatem dentro da alma humana dos personagens da narrativa e os obrigam a tomar uma posição excludente. De logo entenda-se Thémis, a partir do condensado dessa trágica história e de alguns precedentes culturais, como um conjunto de leis divinas, entendidas também como “naturais”, e Diké como um conjunto de leis humanas, e ainda, segundo aquele imaginário grego, a opção por uma poderia constituir a exclusão da outra. Atualmente, contudo, ainda que por um longo período o jusnaturalismo tenha seguido distante do legalismo, a evolução do direito proporcionou um encontro menos subvertido para ambos por meio de ponderação e tolerância, efetivando complementarmente, a dignidade humana.

Embora a essência legal observada se concentre, em sua plenitude, nas linhas da Antígona, o relato histórico, se é que se pode chamar de história a descrição de “fatos” dentro de uma obra literária escrita para o teatro grego, se inicia na narrativa de outra obra, Édipo Rei.  Este drama será vivido por Antígona, filha de Jocasta com Édipo, seu pai e irmão, sendo neta do amaldiçoado transgressor Laio, filho de Lábdaco. Vale ressaltar como curiosidade que a Antígona foi escrita em 444 a.C., logo, antes de Édipo Rei, que foi escrito em 430 a.C. (JEBBS, 2008, p. 17).

Édipo foi um típico herói trágico. Sendo ingênuo acerca de sua realidade e indefeso diante de seu destino, sobre ele pairou o justificável e legítimo argumento de ignorar a verdade sobre suas origens e nada poder fazer para fugir de seu inescapável destino, premissa cultural da obra, que foi profetizado pelo oráculo de Apolo em Delfos, qual seja, o de matar seu pai e desposar sua mãe, incorrendo numa irreversível transgressão à ordem natural e trazendo sobre si um pecado familiar e sua conseqüente maldição.

Percebe-se, portanto, que, naquela visão grega, tais transgressões infringiam leis naturalmente impostas pela divindade no coração humano. Daí, tais ações foram consideradas verdadeiras aberrações já que, uma vez desposando a própria mãe, tornar-se-ia irmão e pai de seus filhos, como veio a acontecer, fusão de posições inconcebíveis para a natureza. O desfecho de tal tragédia foi que Édipo não suportou a revelação de tamanha desgraça e diante da imensidão de seu infortúnio, estando Jocasta também morta, furou os próprios olhos e retirou-se da cidade (SOFOCLES, 2008, p. 70). Antígona o amparou em todo o seu exílio de Tebas até a sua morte, como filha passional, solidária e companheira que sempre foi.

Porém, Antígona possuía mais uma irmã, a ponderada e razoável Ismênia, e ainda dois outros irmãos: Polinice e Eteócles. Estes últimos foram amaldiçoados pelo próprio pai que rejeitaram, Édipo, e destinados a morrer um pelas mãos do outro, o que não deixou de ocorrer, já que se rivalizavam pela posse do trono vazio: Etéocles, a favor do tio Creonte, e Polínice, pleiteando reaver para si o trono que fora de seu pai, colocou-se contra Tebas. O fratricídio foi sangrento e não outro o resultado, extinguiram-se reciprocamente.

Com o trono vazio e sem os sucessores naturais para pleiteá-lo, Creonte se impôs como déspota de Tebas, e personificando a tirania, se apropriou, em benefício próprio, da Diké, as leis escritas, para se manter no poder.  Por elas, prestou honras fúnebres a Etéocles, seu aliado, mas proibiu, sob pena de morte, que o corpo de Polínice fosse sepultado, obrigando os restos daquele que selou aliança com os argivos para conquistar o poder em sua terra a ficarem expostos às aves carniceiras, justificando e legitimando seus atos, repita-se, pelo apego férreo à "manipulável" lei dos homens (SÓFOCLES, 2008, p. 89).

Antígona, com seu comovente amor fraternal, considerou injusta tal proibição e decidiu prestar a seu irmão o piedoso serviço de enterrá-lo, uma vez que, de acordo com os preceitos olímpicos, muito mais importantes que a morte em si, era a honra da sepultura, o justo merecimento de, tendo sido benquisto neste mundo, obter a glória de ser bem recebido no outro. O direito à sepultura consistia na certeza de poder ter um enterro condigno, pagar a moeda ao barqueiro Aqueronte, fazer a travessia pelo Léthe, o rio do esquecimento, e poder chegar ao insondável reino dos mortos, onde Plutão e Perséfone imperavam, o misterioso Hades. Esse foi o heroísmo funesto de Antígona, pois, uma vez tendo sido descoberta sua desobediência, o rei Creonte a condenou a ser emparedada viva em uma caverna.  As outras implicações da teimosia e apego do soberano à sua lei também foram trágicas.  Mesmo cedendo ao fim, foi tarde demais, a heroína se enforcou. Seu filho Hêmon, apaixonado por ela, também se suicidou, e até Eurídice, mãe de Hêmon e sua esposa, inconformada com a morte do filho, igualmente deu cabo de sua vida (SÓFOCLES, 2008, p. 120).

Instaurou-se o conflito quando se relevou o telos (propósito, finalidade) da lei em prol da letra que beneficiava quem a aplicou. Confronto entre Thémis Diké, a lei dos deuses e a lei dos homens, que só ocorreria quando esta última se impusesse desconsiderando a primeira, quando os preceitos humanos desconsiderassem os divinos, porquanto Thémis, imperativa, não violaria nem comprometeria a natureza do homem. Portanto foi Antígona mesma, passional e abstraída do torporoso poder, que ao refutar, em vão, a acusação de desobediência, selou seu destino:

CREONTE – [...] tiveste a ousadia de desobedecer a essa determinação?
ANTÍGONA – Sim, pois não foi decisão de Zeus; e a Justiça [Diké], a deusa que habita com as divindades subterrâneas, jamais estabeleceu tal decreto entre os humanos; tampouco acredito que tua proclamação tenha legitimidade para conferir a um mortal o poder de infringir as leis divinas [Thémis], nunca escritas, porém irrevogáveis; não existem a partir de ontem, ou de hoje; são eternas, sim! E ninguém pode dizer desde quando vigoram! Decretos como os que proclamaste, eu, que não temo o poder de homem algum, posso violar sem merecer a punição dos deuses! (SÓFOCLES, 2008, p. 96).


Certamente foi uma posição particular e com fundamento num argumento abolido pela maioria das leis dos Estados modernos, a auto-tutela.  Sobre as conseqüências dessa postura é que, houve e sempre haverá questionamentos. Aqui, o dilema estava dissociado entre duas personagens, mas nos indivíduos, e em determinados sistemas legais, eles se embatem numa mesma entidade.  Portanto, questões sobre os limites da autoridade do Estado, do direito positivo, sobre as leis do direito natural, as leis não escritas, não são um mero posicionamento sobre o que é certo ou errado, justo ou injusto. Ou seja, perguntar se Polínice deveria lutar pelo trono deixado por seu pai, na sucessão natural, algo seu por direito divino (Thémis) como acreditava, ou Creonte que agora rei, julgasse que devia aplicar suas leis (Diké) a qualquer inimigo de Tebas. No caso, os parâmetros retóricos são distintos e não fazem parte do mesmo silogismo, daí os resultados conflitantes e inconciliáveis. Contudo, aí surgiu claramente a idéia generalizada de direitos subjetivos independentes e acima do direito positivo que perdurou por eras. Aceitando-se esse conceito, de fato, qualquer lado que se escolhesse geraria a exclusão do outro. Daí a importância histórica da superação do binômio universalidade-relatividade tão crucial para entender que, neste dilema, poderia haver alternativas não excludentes, não desenvolvidas aqui.

Porém, Antígona não tinha dúvidas sobre qual lei seguir. Como qualquer herói do teatro grego, ela dominou o phobos, o medo. Destemida, ousada e indomável, atreveu-se a desafiar a tirania de seu tio Creonte e, mesmo ciente da pena de morte que seu ato implicaria, recusou-se em obedecer a leis civis, por achá-las inferiores aos desígnios divinos. Note-se que ela descreveu as primeiras obras de Creonte do início do drama como advindas de Thémis, embora, parciais: “[Creonte] sepultou a Etéocles, com todos os ritos que a justiça [Thémis] recomenda, garantindo-lhe assim um lugar condigno no Hades”, ação, que ela considerou, sagrada, pois “nenhum dos dois [Creonte e seu decreto] é mais forte do que o respeito a um costume sagrado” (SÓFOCLES, 2008, p. 84-85). Isso lhe deu mais força. Os interesses pessoais e sentimentos egoístas de Creonte que pensaram limitar o que era superior e mais amplo, não a afetaram.  Pelo contrário, a trama demonstraria quão acertada foi a convicção que tomou. O convencimento de Creonte foi temporário, pois, embora inicialmente nem mesmo as palavras de seu filho, Hêmon, com insistentes tentativas, o tivessem dissuadido, ao final, ele mudou:

CREONTE – Miserável! O que te leva a divergir tanto do teu pai?
HÊMON – É que te vejo violar os ditames da Justiça!
CREONTE – E o que há de injusto em sustentar minha autoridade?
HÊMON – Não é vilipendiando os preceitos divinos que se sustenta a autoridade! (SÓFOCLES, 2008, p. 106).

Em adição a isso, ao sentimento de injustiça sobre aquele decreto humano, outros personagens se manifestaram na tentativa de convencer o rei; o Corifeu afirmou: “Eu, como muitos, sinto grande revolta contra esse decreto”, Antígona agonizou: “Vede como, ignoradas as súplicas dos meus amigos, iníquas leis me levam a um covil de pedra, a um túmulo de nova espécie!” (SÓFOCLES, 2008, p. 108-109). Mas, tudo continuou o mesmo até que o Destino, como representante da natureza, resolveu intervir. O velho adivinho cego Tirésias, usando de seus sortilégios, conseguiu impingir um pouco de bom senso, não sem ameaças místicas, ao rei tirano: “Errar é coisa comum entre os humanos, mas se o homem sensato comete uma falta, é feliz quando pode reparar o mal feito sem enrijecer em sua teimosia, pois esta gera a imprudência” (SÓFOCLES, 2008, p. 113).

Os interesses de Creonte mudaram e o custo de sua decisão e decreto agora o atingiram pessoal e subjetivamente.  O destino foi implacável e como característica de uma tragédia de cujo desfecho nenhum bem se pode esperar, pois nela não existem escritas certas por linhas tortas, “um erro traz sempre um erro. Desafiado o destino, tudo será destino.” (SÓFOCLES, 2008, p. 121). Porém Antígona, que se posicionou sobre o que considerou superior, apesar do alto preço pago, despertou em todas as platéias, pelo menos, a ponderação sobre a legitimidade das leis dos homens.

Assim, a partir de Sófocles, o mito de Antígona ganhou em várias expressões culturais, o simbolismo de uma heroína, uma mulher capaz de assumir os valores éticos mais elevados, mesmo com o risco de sua própria vida.  Posteriormente, também, a narrativa tornou-se um símbolo de resistência às tiranias por representar a contradição que condenava a sociedade grega à morte mediante a tensão entre os valores morais da cidade-estado e os valores morais “naturais”. Contudo, foi no século XIX que ela ganhou uma interpretação abertamente política, no conflito entre leis escritas e não escritas, ou entre o indivíduo e o poder absoluto (JEBBS, 2008, p. 127).

Porém, como nenhum poder é absoluto permanentemente e o indivíduo condicionou-se a uma medida de submissão ao Estado, tanto um como o outro, para a plena eficácia da coexistência de ambos, tiveram que tomar como imperativo um alto grau de ponderação e tolerância, a fim de que não se cresse cegamente que qualquer conceito de fundamento ético, seja envolvendo direitos subjetivos, direitos humanos ou a dignidade da pessoa humana e que estivessem fora do direito positivo, por um lado, fossem considerados ilusórios e disfuncionais.  Por outro, apesar daquilo que se percebe atualmente da leitura da Antígona e seus resultados, não se deveria lastrear qualquer intolerância no também ambíguo conceito de que o direito natural é o direito do “bem”, pois insurgido contra o direito positivo, enquanto este é o direito submisso ao “mal”, aos poderosos de plantão (ADEODATO, 2009, p.3). 

Logo, coube ao direito positivado, absorver os conceitos subjetivos, ditos naturais, para dirimir qualquer conflito intelectual emanado da sociedade e estabelecer a base justa de sua legitimidade, pois as particularidades que porventura existam entre os diversos direitos não devem ser concebidas como antagônicas e excludentes, mas complementares à efetivação da dignidade humana. A Antígona não é base para um sistema jurídico paralelo, embora estes existam, mas exemplo de que, dilemas milenarmente resistidos podem se incorporar no universo do direito positivo.

REFERÊNCIAS
ADEODATO, João Maurício. A retórica constitucional (sobre tolerância, direitos humanos e outros fundamentos éticos do direito positivo). São Paulo: Saraiva, 2009.
JEBBS, Sir Richard. Perfil Biográfico, Comentários e Apêndice. In: SÓFOCLES, Édipo Rei/Antígona. Coleção obra prima de cada autor. Tradução de Jean Melville. v. 99. Martin Claret: São Paulo, 2008.
 SÓFOCLES, Édipo Rei/Antígona. Coleção obra prima de cada autor. Tradução de Jean Melville. v. 99. Martin Claret: São Paulo, 2008.


[1] Texto compilado por José Lourenço Torres Neto, advogado, bacharel em Direito, a partir da Antígona de Sófocles, como parte integrante do artigo Retórica Clássica e Direitos Humanos publicado no II Ciclo de Estudos sobre a Efetividade do Processo e Realismo Jurídico em 2009 na FMN em Recife/PE.