sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Prêmio APTR de Teatro/2016
INDICADOS

Autor

Claudia Mauro - A vida passou por aqui
Felipe Vidal - Cabeça (Um documentário cênico)
Fernando Marques - Se eu fosse Iracema
Grace Passô - Vaga carne

Direção

Aderbal Freire-Filho - A paz perpétua
Duda Maia - Auê
Artur Luanda Ribeiro e André Curti - Gritos
Márcio Abreu - Nós

Cenografia

Fernando Mello da Costa e Radiográfico - Céus
José Dias - Dorotéia
Marcio Medina - Galileu Galilei
André Cortez - O camareiro
Daniela Thomas e Camila Schmidt - Os realistas

Figurino

Kika Lopes - Auê
Carol Lobato - Cinderela
Lulu Areal - Dorotéia
Bedth Filipecki e Renaldo Machado - O camareiro
Luiza Fradin - Se eu fosse Iracema

Iluminação

Jorge Farjalla, Patrícia Ferraz e José Dias - Dorotéia
Artur Luanda Ribeiro e Hugo Mercier - Gritos
Maneco Quinderé - O como e o porquê
Beto Bruel - Os realistas

Ator Protagonista

Kiko Mascarenhas - O camareiro
Marcos Caruso - O escândalo Philippe Dussaert
Otto Jr - Amor em dois atos
Zécarlos Machado - Gata em teto de zinco quente

Ator Coadjuvante

Ary França - Galileu Galilei
Gustavo Damasceno - Os cadernos de Kindzu
Pedroca Monteiro - Sucesso
Stephane Brodt - Os cadernos de Kindzu

Atriz Protagonista

Cláudia Mauro - A vida passou por aqui
Debora Bloch - Os realistas
Julia Lund - Amor em dois atos
Laila Garin - Gota d'água (a seco)
Suzana Faini - O como e o porquê
Adassa Martins - Se eu fosse Iracema

Atriz Coadjuvante

Clara Carvalho - Anti-Nelson Rodrigues
Juliana Guimarães - Sucesso
Luciana Lopes - Os cadernos de Kindzu
Lydia Del Picchia - Nós

Espetáculo

A paz perpétua
Auê
Gritos
Nós

Música

Alfredo Del-Penho e Beto Lemos - Auê
Luciano Moreira e Felipe Vidal - Cabeça (um documentário cênico)
Nando Duarte - Gilberto Gil, aquele abraço - o musical
Stephane Brodt - Os cadernos de Kindzu
Beto Lemos e Marcelo H - Gritos

Especial

Wolf Maya - construção do Teatro Nathalia Timberg
Eduardo Rieche - lançamento do livro Yara Amaral, a Operária do Teatro
Flávio Marinho - lançamento do livro Teatro é o melhor programa
Rio Diversidade
César Augusto - multiplicidade de ações artísticas

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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Teatro/CRÍTICA

"Mata teu pai"

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Poderoso libelo contra a discriminação e a intolerância



Lionel Fischer




Antes de entrar no mérito do presente espetáculo, e pensando nos leitores que desconhecem tanto o Mito de Medéia como a tragédia grega "Medéia", escrita por Eurípedes em 431 a.C., vou tentar contextualizar, da forma mais sucinta possível, a realidade da mulher na Grécia naquela época.

Ao nascer, uma menina era muito menos bem-vinda do que um menino. Não tinha acesso a nenhum tipo de educação mais refinada. Mais adiante, não escolhia o marido, função que cabia ao pai. No casamento, era pouco mais do que uma serva do marido. Caso o traísse, e o adultério fosse comprovado, o marido poderia até matá-la. Em contrapartida, o esposo poderia ter quantas amantes desejasse. Em função deste amargo contexto, a terrível discriminação contra as mulheres ganha impressionante dimensão em uma fala (aqui um pouco reduzida) de Medéia dirigindo-se ao Coro das Mulheres na tragédia de Eurípedes: 

De todos os seres que respiram e pensam, nós outras, as mulheres, somos as mais miseráveis. Precisamos primeiro comprar muito caro um marido, para depois termos nele um senhor absoluto da nossa pessoa, segundo flagelo ainda pior que o primeiro. Para uma mulher abandonar o marido é escandaloso, repudiá-lo impossível. O homem, dono do lar, sai para distrair-se de seu tédio junto de algum amigo ou de pessoas de sua idade; mas nós, é preciso não termos olhos a não ser para eles.

Isto posto, convém também recordar que, além de sua condição de estrangeira, Medéia sacrificou tudo por Jasão, além de ter-lhe dado dois filhos. Portanto, ao descobrir que estava sendo traída e que certamente seria abandonada, empreende a terrível vingança assassinando as duas crianças, para que Jasão fosse vítima de uma dor inconcebível - para não exaurir o leitor com mais informações, me abstenho de expor a trajetória anterior de Medéia, pontuada por trágicos acontecimentos. 

Encerrado o já não tão breve preâmbulo, vamos ao motivo desta análise. "Mata teu pai" é o sexto espetáculo da Cia OmondÉ, em cartaz no Espaço Cultural Sergio Porto. De autoria de Grace Passô, a peça chega à cena com direção de Inez Viana e interpretação a cargo de Debora Lamm, que divide o palco com 13 senhoras, moradoras da região da Gamboa, todas com mais de 65 anos e que formam um coro que, de acordo com o release que me foi enviado, representa uma espécie de inconsciente de Medéia.

A personagem, na atual versão, é uma imigrante que convive com outras imigrantes, advindas da Síria, Cuba, Israel, Haiti e uma paulista - Nelson Rodrigues costumava dizer que a pior forma de solidão é a companhia de um paulista. Com elas reparte suas angústias, de algumas obtendo apoio, de outras rejeição. E que angústias são essas? Basicamente tudo se resume à questão do não pertencimento ao lugar em que se vive, ao papel destinado às mulheres numa sociedade dominada pelos homens e à intolerância.

Em meio a reflexões impregnadas de lúcida ferocidade, a Medéia contemporânea criada por Grace Passô assume uma fortíssima dimensão atemporal, pois se as mulheres de agora já conquistaram um espaço muito mais relevante do que as do passado, ainda assim continuam sendo vítimas de uma infinidade de discriminações. E há que se levar em conta também que, no presente caso, tudo gira em torno de mulheres expatriadas, ou seja, que carregam o estigma, como já foi dito, do não pertencimento, da permanente sensação de viverem em uma sociedade que dificilmente as aceitará plenamente. Finalmente, o texto aborda a decisão desta Medéia contemporânea de cometer o mesmo e terrível ato da mitológica figura, fruto das mesmas circunstâncias - nessa passagem, o ótimo texto de Grace Passô adquire uma potência trágica realmente admirável. 

Com relação ao espetáculo, Inez Viana aproveita ao máximo a excelente cenografia de Mina Quental, uma espécie de terra arrasada entulhada de lixo eletrônico - carregadores de celular, baterias, teclados de computador, monitores. Aqui me parece que a ideia da cenógrafa possa ter sido a de sugerir a inutilidade de tanta tecnologia, já que a essencial humanidade não existiria. Em meio a esses destroços, a solidão, a revolta e o desespero da protagonista ganham uma dimensão ainda mais trágica, circunstância que Debora Lamm explora de forma magnífica.

Possuidora de ótima voz, grande expressividade corporal, forte presença e uma inteligência cênica que a faz desprezar as soluções mais fáceis ou as mais óbvias, Debora Lamm exibe aqui a melhor performance de sua brilhante carreira, reafirmando uma vez mais tratar-se de uma das melhores atrizes de sua geração. Quanto ao coro das senhorinhas da Gamboa, todas executam com segurança as tarefas que lhes foram confiadas.

No complemento da ficha técnica, parabenizo com o mesmo entusiasmo as colaborações de todos os profissionais envolvidos nesta imperdível empreitada teatral - Nadja Naira e Ana Luzia de Simoni (iluminação), Sol Azulay (figurino), Josef Chasilew (caracterização), Felipe Storino (direção musical), Marcia Rubin (direção de movimento) e Felipe Braga (programação visual).

MATA TEU PAI - Texto de Grace Passô. Direção de Inez Viana. Com Debora Lamm e senhorinhas da Gamboa. Espaço Cultural Sergio Porto. Sábado e segunda, 21h. Domingo, 20h.







sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Teatro/CRÍTICA

"O escândalo Philippe Dussaert"


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Inesquecível encontro com Marcos Caruso



Lionel Fischer



"Reconhecido por seu talento de exímio copista, Philippe Dussaert reproduz quadros famosos de pintores como Da Vinci, Manet, Cézane e Vermeer, porém exclui da imagem quaisquer personagens humanos ou animais, e preserva fielmente o cenário ao fundo. Causando surpresa e inquietude no mundo das artes, ele segue radicalizando sua proposta e aos poucos suas obras se tornam cada vez mais valiosas e são disputadas por grandes museus e colecionadores. A trajetória de Dussaert chega ao ápice quando ele expõe e vende, ao custo de 8 milhões de francos, sua obra maior. O episódio deflagra uma reviravolta, que ficou conhecida como O Escândalo Philippe Dussaer".

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o contexto de "O escândalo Philippe Dussaert", de autoria de Jacques Mougenot, em cartaz na França há quase uma década com o autor interpretando o monólogo. Em exibição no Teatro Maison de France, a peça tem direção assinada por Fernando Philbert e interpretação a cargo de Marcos Caruso. 

Recebidos na entrada pelo ator de forma extremamente educada e carinhosa, ao se instalarem em suas poltronas os espectadores constatam que irão assistir a uma palestra, cujo tema titula o espetáculo. E durante o transcorrer da mesma, o palestrante vai aos poucos saciando a curiosidade que impera desde o início, ao mesmo tempo em que empreende divertidas e pertinentes reflexões sobre arte contemporânea. Quanto à mencionada curiosidade que vai sendo saciada, me abstenho de tecer qualquer consideração sobre ela, posto que isso privaria o espectador de inenarráveis surpresas. Mas certamente posso falar um pouco, ainda que com modéstia, a respeito do que é dito sobre arte contemporânea.

Sempre se relacionando com a plateia de forma direta e amorosa, em dado momento o palestrante propõe que se tente chegar a uma definição de arte contemporânea. Existiria essa tal arte? E caso exista, quais seriam os critérios que a definem? E se critérios existem, quem os teria criado e com que autoridade? Essas e outras questões são formuladas, e a impressão que tenho é de que o autor, sem negar a existência de obras contemporâneas que merecem ser consideradas Arte, acredita que grande parte delas não passa de subprodutos criados por oportunistas e que, não raro, têm sua validade respaldada por supostos especialistas temerosos de serem considerados presos ao passado e à tradição.  Talvez esta seja a opinião de Jacques Mougenot. Mas caso não seja, em todo caso é a minha.

Com relação ao espetáculo, Fernando Philbert impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com o material dramatúrgico. Se por um lado o diretor investe em marcações que aproximam o personagem da plateia, convertendo-a em cúmplice, por outro não se descuida de enfatizar momentos em que ocorrem súbitos afastamentos, durante os quais o palestrante sugere estar totalmente tomado pela realidade da cena. Afora esta sábia e bem articulada alternância, cabe ainda ressaltar a precisão dos tempos rítmicos e a sensibilidade de Philbert no sentido de proporcionar a Marcos Caruso todas as condições para que ele pudesse explorar ao máximo seu imenso talento.  

Diante de um ator deste porte e com a trajetória artística que possui, me parece totalmente desnecessário tecer considerações sobre suas mais do que reconhecidas virtudes, tais como excelente voz e não menos excelente expressividade corporal, seu carisma, sua fortíssima presença cênica etc. Mas então, já que estou optando por não me ater a considerações de ordem técnica, como faço para traduzir em palavras o encantamento que senti, sem dúvida o mesmo que todos sentem ao vê-lo em cena no presente espetáculo? 

Na dúvida, opto inicialmente pelo mistério. Ou seja: não haveria nenhuma explicação capaz de definir o fortíssimo elo que Marcos Caruso estabelece com a plateia. Mas exercendo a crítica teatral há 27 anos, imagino que os leitores não se satisfaçam com uma explicação aparentemente tão vaga. Então, vamos à segunda hipótese, esta absolutamente palpável: Marcos Caruso jamais está sozinho em cena - mesmo que invisíveis para o público, os deuses do teatro estão sempre a rodeá-lo, protegendo-o de eventuais percalços e incentivando-o cada vez mais a promover um verdadeiro e inesquecível encontro entre quem faz e quem assiste.

Na equipe técnica, Marilu de Seixas Corrêa responde por magnífica e fluente tradução, a mesma excelência presente na cenografia e figurino de Natalia Lana (com relação a este último, devo confessar minha inveja dos lindíssimos sapatos usados pelo ator), na iluminação de Vilmar Olos, na direção musical de Maíra Freitas e nas belas e divertidas projeções de Rico e Renato Vilarouca.

O ESCÂNDALO PHILIPPE DUSSAERT - Texto de Jacques Mougenot. Direção de Fernando Philbert. Com Marcos Caruso. Teatro Maison de France. 5ª e 6ª às 20h; sábado às 21h e domingo às 18h.










quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Prêmio Cesgranrio de Teatro / 4ª Edição / 2016

A cerimônia de premiação acontece no próximo dia 24 de janeiro, no Golden Roon do Copacabana Palace. A festa será apresentada por Irene Ravache e Eriberto Leão. A homenageada é a atriz Nicette Bruno. O início da premiação ocorre às 21h e às 22h30 rola o coquetel souper de confraternização.

INDICADOS



MELHOR FIGURINO

Cassio Brasil por “5X Comédia”

Kika Lopes por “A Gota d’Água [A Seco]”

Kika Lopes por “Auê”

Luiza Fardin por “Se Eu Fosse Iracema”

Marcelo Olinto por “A Invenção do Amor”

Paula Ströher por “Tran_se”


MELHOR CENOGRAFIA

André Cortez por “A Gota d’Água [A Seco]”

André Curti e Artur Luanda Ribeiro por “Gritos”

Aurora dos Campos por “Os Sonhadores”

Bel Lobo e Bruce Gomlevsky por “Demônios”

Daniela Thomas e Camila Schmidt por “Os Realistas”

José Dias por “Boa Noite, Professor”


MELHOR ILUMINAÇÃO

Artur Luanda Ribeiro e Hugo Mercier por “Gritos”

Maneco Quinderé por “O Como e o Porquê”

Nadja Naira por “Vaga Carne”

Paulo César Medeiros por “Imagina Esse Palco que se Mexe”

Rodrigo Belay “Os Sonhadores”

Tomás Ribas por “Fatal”


MELHOR ATOR

Álamo Facó por “Mamãe”

Bruno Mazzeo por “5X Comédia”

Emílio de Mello por “Os Realistas”

Marcos Caruso por “O Escândalo Philippe Dussaert”

Matheus Nachtergaele por “Processo de Conscerto do Desejo”

Otto Jr. por “Amor em Dois Atos”


MELHOR ATOR EM TEATRO MUSICAL

Alexandre Rosa Moreno por “A Cuíca do Laurindo”

Hugo Bonemer por “OrdinaryDays”

Hugo Germano por “A Cuíca do Laurindo”


CATEGORIA ESPECIAL

Cesar Augusto pela curadoria do Galpão Gamboa

Eduardo Rieche pela autoria do livro “Yara Amaral - A Operária do Teatro”

Elenco do espetáculo “Auê”

Nós do Morro pelos 30 anos de atividades

Tato Taborda pela criação musical nos espetáculos “Céus”, “Boa Noite, Professor” e “Imagina Esse 

Palco que se Mexe”

Wolf Maya pela construção do Teatro Nathalia Timberg


MELHOR ATRIZ

Claudia Mauro por “A Vida Passou Por Aqui”

Debora Bloch por “Os Realistas”

Fabiula Nascimento por “5X Comédia”

Grace Passô por “Vaga Carne”

Helena Varvaki por “A Outra Casa”

Suzana Faini por “O Como e o Porquê”


MELHOR ATRIZ EM TEATRO MUSICAL

Laila Garin por “A Gota d’Água [A Seco]”

Vilma Melo por “Chica da Silva - O Musical”


MELHOR DIREÇÃO

Ana Teixeira e Stephane Brodt por “Os Cadernos de Kindzu”

André Curti e Artur Luanda Ribeiro por “Gritos”

Duda Maia por “Auê”

Guilherme Weber por “Os Realistas”

Luiz Felipe Reis por “Amor em Dois Atos”

Marcio Abreu por “Nós”


MELHOR DIREÇÃO MUSICAL

Alexandre Elias por “Chica da Silva - O Musical”

Alfredo Del-Penho e Beto Lemos por “Auê”

Luciano Moreira e Felipe Vidal por “Cabeça (Um Documentário Cênico)”

Luis Barcelos por “A Cuíca do Laurindo”

Pedro Luís por “A Gota d’Água [A Seco]”


MELHOR TEXTO NACIONAL INÉDITO

Álamo Facó por “Mamãe”

Claudia Mauro por “A Vida Passou por Aqui”

Diogo Liberano e Dominique Arantes por “Os Sonhadores”

Felipe Vidal por “Cabeça (Um Documentário Cênico)”

Grace Passô por “Vaga Carne”

Rodrigo Portella por “Alice Mandou um Beijo”


MELHOR ESPETÁCULO

Auê

Gritos

Mamãe

Nós

Os Cadernos de Kindzu


Vaga Carne
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Teatro/CRÍTICA

"Se eu fosse Sylvia P."

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A frágil relevância das coincidências



Lionel Fischer



"A ruptura real de um casamento foi a motivação para a criação do espetáculo, idealizado pela atriz e dramaturga Alessandra Gelio. Há quatro anos, depois de assistir ao filme Sylvia - paixão além das palavras, Gelio começou a pesquisar o universo da poeta Sylvia Plath (1932-1963) e descobriu várias semelhanças entre momentos marcantes de sua vida pessoal e da escritora norte-americana. A montagem é uma experiência cênica poética que transita entre a realidade e a ficção. O tom confessional que marca a obra literária de Plath conduz a dramaturgia criando uma atmosfera intimista. Temas como amor, solidão, relações familiares, vida e morte perpassam a apresentação". 

Extraído (e levemente editado) do release que me foi enviado, o trecho acima define as premissas essenciais que deram origem a "Se eu fosse Sylvia P.", em cartaz no Teatro Cândido Mendes. Alessandra Gelio responde pela idealização do projeto e pela dramaturgia, também assinando a direção com Cyntia Reis. No elenco, Alessandra Gelio, Léo Rosa e Téia Kane.

Antes de entrar no mérito do presente espetáculo, e pensando basicamente nos espectadores que não leram Plath, gostaria de salientar que a poeta, contista e romancista norte-americana é reconhecida principalmente por sua obra poética, com destaque para "Ariel" (obra póstuma) e "Poemas". A autora também escreveu o romance "A redoma de vidro", de cunho autobiográfico, no qual aborda, dentre outros temas, sua luta contra a depressão. Plath suicidou-se em Londres - tomou uma grande quantidade de narcóticos e enfiou a cabeça dentro do forno.

Com relação a Sylvia Plath, imagino que ela pudesse padecer de algo que defino como a dor de existir, um estado imune a todos os tratamentos, posto que nada tem a ver com angústias definidas ou mazelas advindas dos clássicos conflitos que todos temos que enfrentar. É algo ligado a um permanente desconforto, a uma sensação de que nada pode ser suficiente, que coisa alguma é capaz de preencher o vazio que o tempo só faz esgarçar. Na peça "Caligula", de Albert Camus, o imperador enlouquece porque não pode ter a lua, ou seja, o impossível. Não sei que luas Sylvia Plath desejaria possuir, mas certamente não lhe foram acessíveis.

Entrando agora - e finalmente - no projeto que é alvo desta análise, devo confessar que uma dúvida me assaltou. E ela diz respeito ao explicitado no parágrafo inicial: "Gelio descobriu várias semelhanças entre momentos marcantes de sua vida pessoal e da escritora norte-americana". Pois bem: seriam de fato relevantes tais descobertas? Ou elas deveriam ser encaradas no máximo como curiosas coincidências? Ao que tudo indica, Alessandra Gelio levou a sério as ditas coincidências, posto que escreveu o texto baseando-se nelas. E aqui reside o principal problema da peça.

Se tivesse optado por escrever uma obra baseada unicamente na vida de Sylvia Plath, a autora talvez chegasse a um ótimo resultado. O mesmo poderia ter ocorrido se sua opção fosse a de escrever sobre si mesma, já que sua história não carece de dramaticidade - tentativa de suicídio, a morte precoce do pai etc. No entanto, ao alternar permanentemente a narrativa entre a história de Plath e a sua, o indispensável aprofundamento sobre as trajetórias das duas personalidades acaba não se materializando. Ainda assim, seria injusto não mencionar a força de alguns diálogos e sua carga poética, cabendo também registrar a coragem de Alessandra Gelio de expor sem rodeios momentos marcantes de sua história pessoal. 

Com relação ao espetáculo, este alterna passagens interessantes e outras bem menos. As interessantes ocorrem, quase sempre, quando o elenco encarna personagens envolvidos em viscerais embates; mas sempre que o foco recai para o tom confessional, com os atores se relacionando diretamente com a plateia, aí se dá um grande esvaziamento, uma espécie de conforto que, a meu ver, um espetáculo desta natureza não deveria proporcionar. E essa alternância de interesse também marca a performance do elenco, bem mais eficaz quando Alessandra Gelio, Léo Rosa e Téia Kane não estão falando de si mesmos e sim representando.   

Na equipe técnica, Elsa Romero assina uma cenografia um tanto misteriosa. De gavetões que sugerem arquivos de abandonadas repartições públicas são retirados arbitrariamente alguns objetos; no teto, potinhos com líquidos de variadas cores estão pendurados, sem que se saiba por que; finalmente, temos um aquário colocado em cima dos ditos gavetões, sendo tal objeto efetivamente importante para o espetáculo. Rosa Ebee e Tiago Ribeiro respondem por figurinos em sintonia com as personalidades retratadas. Renato Machado ilumina a cena com a competência habitual, ainda que lançando mão de um número excessivo de efeitos. Quanto ao vídeo de Sandro Arieta, me parece que o mesmo não foi utilizado. E no que se refere à colaboração artística de Helena Varvaqui, não sei em que medida ela se deu, posto que não especificada. Finalmente, o guitarrista Fellipe Mesquita exibe competência e sensibilidade.

SE EU FOSSE SYLVIA P. - dramaturgia de Alessandra Gelio. Direção de Gelio e Cyntia Reis. Com Alessandra Gelio, Léo Rosa e Téia Kane. Teatro Cândido Mendes. Terça a quinta, 20h.


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

2016 - Delicioso retorno e gratíssima surpresa

Lionel Fischer



Quase que invariavelmente, ao longo dos últimos 26 anos escrevi retrospectivas sobre as temporadas teatrais - fiz isso nas revistas Manchete, Visão e Cadernos de Teatro (O Tablado), e nos jornais O Globo, Última Hora e Tribuna da Imprensa. Nessas retrospectivas assinalava os trabalhos que mais me impressionaram, em todas as categorias, especificando as razões de minhas escolhas. 

Agora, no entanto, resolvi abordar a temporada teatral de 2016 sob uma perspectiva muito pessoal, mencionando apenas dois momentos que muito me emocionaram: meu retorno efetivo ao teatro (sem prejuízo da crítica teatral e do meu trabalho como jurado nos prêmios CESGRANRIO e APTR) e a gratíssima revelação de Claudia Mauro como autora e atriz dramática.



Boa noite, professor

Escrevi esse texto em parceria com minha filha mais jovem, Julia Stockler, e juntos também respondemos pela direção do espetáculo, que esteve em cartaz no Tablado em agosto e setembro. E para os que não sabem, há dez anos Julia passou a dar aulas comigo no espaço criado por Maria Clara Machado há 65 anos. 

Mas que ninguém imagine que sairei tecendo elogios ao que fizemos, pois isto seria por demais cabotino. O que me faz mencionar este trabalho tem a ver, em primeiro lugar, com a confiança de Cacá Mourthé (diretora artística da casa) no projeto e na ajuda que prestou em todas as suas etapas - a ela, portanto, minha eterna gratidão. E depois pela possibilidade que tive de trabalhar com dois excelentes intérpretes (Ricardo Kosovski e Nina Reis) e a honra de contar com a colaboração de dois amigos da vida inteira, os excepcionais artistas José Dias (Cenografia) e Aurélio de Simoni (Iluminação). 

Tive também o privilégio de ter como parceiro alguém que sempre admirei muitíssimo, mas a quem não conhecia pessoalmente: o maravilhoso músico Tato Taborda. Outro encontro marcante foi com a figurinista Ana Carolina Lopes e com o diretor de movimento Renato Linhares. A todos agradeço do fundo do coração as inestimáveis colaborações, às quais se somam as de Victor Hugo Cecatto (Programação Visual) Guga Melgar (Fotografia), João Sant'Anna (Produção Executiva), Fernando do Val (Direção de Produção) e Daniella Cavalcanti (Assessoria de Imprensa). E se os sempre caprichosos Deuses do Teatro assim o permitirem, Boa noite, professor haverá de voltar ao cartaz, quem sabe ainda em 2017.


A vida passou por aqui

Uma das características mais curiosas de nossa espécie diz respeito à mania que temos de aprisionar os outros em perfis que julgamos serem os corretos, sem jamais levarmos em conta a possibilidade desses perfis serem apenas parciais. E aqui chego a Claudia Mauro.

Como todos sabemos, a atriz possui longa e sólida carreira, mas grande parte dela voltada para o humor (no teatro e na televisão) e para os musicais. Assim, uma questão se impunha: seria ela capaz de realizar um trabalho essencialmente dramático, ainda que não dispensando pitadas de humor?

E quanto à escrita? Até meados do segundo semestre, será que alguém a imaginava capaz de produzir um texto com tamanha densidade, lirismo e percepção de nossa infinita capacidade de amar e se reconhecer no outro? 

A ambas as questões, A vida passou por aqui nos ofertou respostas que, numa escala de zero a dez, mereceriam onze!

Como atriz, Claudia Mauro simplesmente me arrebatou. Não que a imaginasse incapaz de realizar uma performance dramática, apenas desconhecia esse potencial, daí minha gratíssima surpresa. Tanto em termos vocais como corporais, a atriz exibiu um patamar de excelência que me causou assombro, assim como me assombrou sua capacidade de passar da velhice da personagem à sua juventude numa fração de segundos, sempre de forma absolutamente convincente. Sem dúvida, e sob todos os aspectos, uma das mais brilhantes interpretações de 2016.

Com relação ao texto, aí minha comoção foi total. Não em termos formais, não em termos de estrutura, mas na maneira como Claudia Mauro, partindo de sua história pessoal, conseguiu criar uma peça que mexe profundamente com nossas emoções, já que em sua essência repousa algo que todos possuímos: nossas recordações familiares e, em especial, aquelas que dizem respeito aos nossos pais. Sem dúvida, e sob todos os aspectos, um dos textos mais relevantes da temporada de 2016. E também desejo que A vida passou por aqui retorne aos nossos palcos ainda em 2017.

No mais, a todos desejo que este réveillon que se avizinha seja o mais feliz de suas vidas!!!

Um beijo em todos,

Eu







terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Teatro/CRÍTICA

"As palavras e as coisas"

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Afetos e descontroles



Lionel Fischer



Duas mulheres se reencontram na sala de espera de uma UTI. Dentro desta, um homem (Matéi) agoniza, vítima de um acidente de carro logo após a noite de autógrafos de seu último romance, "Macau". Ao longo da narrativa, realidade e fantasia se alternam, e somos levados a crer que as duas mulheres são personagens do romance e a relação de ambas com o homem constitui a matéria essencial do livro. Finalmente, um curioso detalhe: sempre que vivenciam algo de grande intensidade emocional, as mulheres vomitam objetos.

Eis, em resumo, o contexto em que se dá "As palavras e as coisas", em cartaz no Espaço Cultural Sergio Porto. Pedro Brício responde pelo texto e pela direção do espetáculo, estando o elenco formado por Branca Messina, Lúcia Bronstein, Gabriel Pardal e Daniela Kupek.

Não sei se Pedro Brício titulou sua peça reportando-a a "As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas", de Michel Foucault. Mas suponhamos que sim. Então, o que teriam a ver uma com a outra? Vamos a um resumo sumaríssimo, quase constrangedor, do ensaio do filósofo francês.

No ano em que o publicou (1966), Foucault estava numa fase dita arqueológica, na qual empreendia uma espécie de arqueologia das ciências humanas, com o objetivo de refutar uma visão linear e progressiva da História. Se aplicada ao teatro, tal refutação pode ser entendida como uma rejeição a narrativas que se estabelecem através da cronologia dos fatos, sem qualquer espécie de ruptura temporal, e cuja linearidade excluiria a possibilidade de existirem múltiplas camadas de apreensão. Mas em se tratando da dramaturgia contemporânea, isto não constitui nenhuma novidade. 

Assim sendo, restaria a possibilidade de Brício ter priorizado a constatação feita por Foucault - e não apenas por ele, evidentemente - de que na Idade Média as palavras e as coisas eram equivalentes, não havia distinção entre elas. A palavra "cavalo" designava um cavalo, e nada além disso. E se um quadro exibia um vaso de flores, seu título seria "Flores". Ou seja: esse tipo de relação com o objeto excluía o sujeito e sua singularidade, impedindo-o, por exemplo, de se ver tomado por profunda angústia diante de uma tela que reproduzisse um objeto ou uma cena cotidiana perfeitamente reconhecíveis.

Já me desculpando por esta divagação um tanto extensa e nem sei se pertinente, voltemos ao texto de Brício. Aqui, como já dito, as personagens eventualmente vomitam objetos. É claro que isto não pode ser entendido como uma manifestação real. Mas em que sentido deve ser entendida? Trata-se apenas de um efeito visando curioso e hilário estranhamento? Isso seria gratuito. Mas será que as coisas vomitadas possuem um significado inerente às personalidades em questão? Ou estaria o autor sugerindo que todos nós, ainda que de forma inconsciente, vivemos vomitando coisas sempre que as palavras se revelam impotentes perante a vida? Na dúvida, fico com esta última hipótese. 

Mas ainda que o texto em questão tenha me suscitado mais dúvidas do que certezas - o que não é mau, evidentemente - acredito que "As palavras e as coisas" talvez possa ser entendida como uma peça que fala basicamente de afetos e descontroles, sendo ambos indissociáveis. E este conteúdo essencial vem expresso através de uma narrativa que prende a atenção do espectador ao longo de todo o espetáculo, tanto através de suas surpreendentes peripécias como pelo permanente embate entre as personalidades retratadas.

Com relação ao espetáculo, Pedro Brício impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com o material dramatúrgico, apostando visceralmente tanto no estranhamento como no humor, sem se descuidar das passagens em que os múltiplos e contraditórios afetos são trabalhados com a seriedade que merecem. E se a isto somarmos o bom desempenho de todo o elenco, não resta dúvida de que aos espectadores está sendo oferecido um produto capaz de divertir e gerar reflexões.

Na equipe técnica, Tomás Ribas ilumina a cena com a habitual sensibilidade, sendo muito expressiva a cenografia de Tuca. Cabe também destacar a instigante trilha sonora de Joana Guimarães e Pedro Brício. Com relação aos ótimos figurinos, estes foram supervisionados pelo sempre competente Antônio Guedes.

AS PALAVRAS E AS COISAS - Texto e direção de Pedro Brício. Com Branca Messina, Lúcia Bronstein, Gabriel Pardal e Daniela Kupek. Espaço Cultural Sergio Porto. Sábado e segunda, 21h. Domingo, 20h.