segunda-feira, 18 de novembro de 2019


Referência no teatro contemporâneo, Ana Kfouri lança seu primeiro livro dia 26 de novembro na Blooks, no Rio

Atriz, diretora, pesquisadora e professora registra em “Forças de um corpo  vazado” tese de doutorado na UFRJ, que promove um salto das artes cênicas para as artes visuais com o objetivo de investigar a questão corpo-palavra
Livro une editoras 7Letras e PUC-Rio


Referência no teatro contemporâneo, a atriz, diretora e pesquisadora, Ana Kfouri lança dia 26 de novembro, a partir das 19h, na Livraria Blooks, no Espaço Itaú de Cinema, em Botafogo, RJ, o livro “Forças de um corpo vazado” (parceria das editoras 7Letras e PUC-Rio; 144 págs; R$ 58.). O livro aprofunda e dá continuidade à pesquisa de linguagem que Ana vem desenvolvendo ao longo dos 42 anos de carreira: pensar o corpo e a palavra tendo a linguagem como a viga mestra dessa questão. “Forças de um corpo vazado” é fruto da tese de doutorado da autora em Artes Visuais, na linha Poéticas Interdisciplinares na EBA/UFRJ, sob a orientação de Angela Leite Lopes, tradutora e dramaturgista.

Conhecida por levar ao palco textos de literatura e filosofia – um arco que vai de Hilda Hilst a Valère Novarina, passando por Samuel Beckett – , Ana Kfouri deseja partilhar com o leitor a experiência corpo-palavra e, em seu primeiro livro, defende o ato de falar como potência da criação. Cria a noção de corpo vazado/corpo-sopro a partir daí. Como interlocutores nessa investigação da linguagem, e também da fala propriamente dita como criação, estão Gilles Deleuze, Samuel Beckett e Valère Novarina, entre outros, pensadores que vêm estimulando essas questões e inquietações na trajetória artística de Ana Kfouri.

“Meu desejo ao entrar no doutorado era pensar o performer, esse falador, não para defini-lo, mas para aprofundar seu lugar. Queria refletir sobre a palavra e sobre a relação corpo-palavra no campo do meu interesse, o da intensidade. E também realizar um salto das artes cênicas - com toda bagagem teórico-prática que ela me proporciona - para o universo das artes visuais”, destaca.

Livro, coordenação de nova pós, temporada em SP

O livro “Forças de um corpo vazado” entra em circulação num ano repleto de trabalho, que envereda por 2020. Ana Kfouri recebeu indicações de melhor atriz aos prêmios Shell, Cesgranrio e Botequim Cultural (todos no RJ) pela peça Uma frase para minha mãe, do autor Christian Prigent, que idealizou, atua e dirige. A artista foi contemplada pelo Premio QUESTÃO DE CRÍTICA por sua trajetória dedicada à criação cênica e à formação de artistas, bem como por Uma frase para minha mãe. A peça vai estrear no primeiro semestre de 2020 em São Paulo, após excelente repercussão de crítica e público no Rio de Janeiro.
Paralelamente, coordena em conjunto com a professora Ana Kiffer o inédito curso de pós-graduação lato sensu Corpo e Palavra nas Artes da Cena e da Imagem na PUC-Rio, que começa em 2020. Também dá continuidade ao trabalho de preparação de atores na Rede Globo, especificamente,  da 2ª temporada da série “Desalma”, direção de Carlos Manga Jr., além da novela “Nos tempos do imperador”, direção de Vinícius Coimbra. Em 2019, respondeu pela preparação de atores da série “Ilha de Ferro” e da novela “Órfãos da Terra”, para citar algumas produções.
  
Atualmente, prepara seu segundo livro, “Focos Móveis”, de caráter artístico-pedagógico, que integra o Projeto de Pesquisa de Pós-Doutorado, iniciado em março de 2019, no Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena, PPGAC, na UFRJ, sob a supervisão da Profa. Dra. Eleonora Fabião. “Focos Móveis” é o nome da técnica de treinamento para atores que Ana Kfouri desenvolveu ao longo da sua experiência artística. O livro discorrerá sobre conceituações, objetivos e descrições de exercícios e dinâmicas cênicas criados pela artista, os modos do fazer e do pensar que atravessaram e atravessam a trajetória de Ana. Forças de um corpo vazado (livro onde cria a noção de corpo vazado/corpo-sopro) e Focos Móveis (em andamento) refletem o desejo de Ana de interagir cada vez mais com jovens estudantes, atrizes, atores, profissionais e professoras/es de artes cênicas, que se interessem por reflexões e estudos práticos do fazer teatral no campo intensivo. 
Atraída pela estranheza da narrativa
Por definição própria, Ana Kfouri “sempre foi atraída pela estranheza da narrativa tecida em lugares outros que o da linearidade, por textos não dramáticos, por textos que não se movessem a partir do fechamento de relações intersubjetivas, pela fala que fala à revelia de uma história propriamente dita, pela força do pensamento filosófico”.
“A imagem poética do corpo vazado/corpo-sopro foi criada, pensada e experienciada por mim nas artes cênicas a partir da prática realizada durante anos como atriz, diretora e professora. Mas foi a partir de 2007 que esta imagem, ou seria melhor dizer esta força, começou a tomar vulto, quando fazia como atriz o texto de Valère Novarina Discurso aos Animais: O animal do tempo e A inquietude, no intuito de pensar/falar/experimentar/discutir/debater quem é esse quem fala em cena”, diz.

Ao enveredar na defesa e  criação da noção de corpo vazado/o corpo-sopro,  realizou ensaios visuais em parceria com a artista visual Helena Trindade. A artista pondera: “Para a primeira incursão nesta nova fase da pesquisa, a experiência visual propriamente dita, convidei [...] a artista plástica Helena Trindade para pensar e realizar os experimentos junto comigo.  O trabalho dela foi um grande estímulo [...] para que eu pudesse vislumbrar, aos poucos, a sensação de pensar por imagem. [...] um novo horizonte se abriu à minha frente e, a partir de então, minha investigação/fundamentação sobre o corpo vazado/corpo-sopro em campos visuais tomou rumo próprio”. Os ensaios visuais podem ser assistidos nos links: Marés [https://vimeo.com/67754033], Sopros [https://vimeo.com/67764762], Passos [https://vimeo.com/121931666] e D’ÉCRITS & DES CRIS [https://vimeo.com/241782926].
Caminhos que a levaram até o vídeo “onde o verbo para?”, filmado a partir do percurso dela por variados corredores, entre eles o corredor especialíssimo do Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, templo-corredor-rua magistral de José Celso Martinez Correa, que generosamente cedeu o espaço à Ana em uma manhã de setembro em São Paulo (2015), como é possível ver em
https://vimeo.com/326586915. “O corpo corredor como espaço, físico e imaginário, enigmático, material e espiritual, um buraco visual, fez com que as experimentações práticas tomassem novos rumos. Eu precisava cavar o terreno do espaço corredor. Eu começava a intuir a minha linguagem visual”.
Angela Leite Lopes assina o prefácio do livro e diz: “A tese parte, então, da trajetória cênica da Ana e desemboca na experimentação que resultou de todo o trabalho de “Forças de um corpo vazado”, o vídeo “onde o verbo para?”. Para chegar a ele, Ana foi fazendo incursões pelo campo das artes visuais, o que se configurou como um desafio e uma modalidade a mais de reflexão: a experiência da fricção entre essas duas áreas artísticas que têm, afinal, uma mesma matriz, já que o teatro, em sua etimologia, é o lugar de onde se vê”.
Em análise de Marcelo Jacques de Moraes, tradutor e professor da Faculdade de Letras/UFRJ, “Ana se vale do processo de realização de vídeos ao longo da pesquisa, e como extensão dela, bem entendido, para investigar a relação do corpo com o espaço, especialmente dramatizada pelo trabalho de edição das imagens de onde o verbo para?, em que um corpo – e um olhar – performa intermitentemente, até uma exaustão que nunca se consuma, a travessia de múltiplos corredores”.

Biografia breve

Paulistana radicada no Rio desde 1988, Ana Kfouri  começou a dirigir assinando também o roteiro dramatúrgico de A Lua que me instrua,  que marcou a estreia da sua companhia de teatro, a Companhia Teatral do Movimento, CTM, em 1991. A peça mesclava vários textos, mas principalmente Clarice Lispector e Elisa Lucinda (esta levada à cena como autora pela primeira vez), entremeados por citações do filósofo Emil Cioran.

Toda a investigação da pesquisadora parte da relação corpo-palavra, como atesta “Forças de um corpo vazado”. E esta relação é constantemente motivo de pesquisa nas duas companhias que dirigiu entre 1991 e 2006 (Cia Teatral do Movimento e Grupo Alice 118), na criação do Centro de Estudo Artístico Experimental, que funcionou no Sesc Tijuca, com dezenas de processos de trabalho e montagens, entre 2001 e 2009, e o atual Centro de Estudos Ana Kfouri, CEAK, inaugurado em 2017 no Cosme Velho, criado por Ana como um espaço de potencialização da experimentação artística.

Em julho de 2006 dirigiu a ópera I Capuleti e I Montecchi, de Vicenzo Bellini, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Em 2007, Ana Kfouri voltou aos palcos como atriz, com o texto O Animal do Tempo, primeira parte do texto Discurso aos Animais, de Valère Novarina, dirigida por Antonio Guedes. Em julho de 2009, Ana estreou A Inquietude, segunda parte desse texto, dirigida por Thierry Trémouroux, dentro do projeto Novarina em Cena, que integrou a programação oficial do Ano da França no Brasil, o ano de 2009. Em 2010/2011,  encenou Senhora dos Afogados, de Nelson Rodrigues, no restaurante Albamar. Em 2012, foi premiada com essa montagem pelo premio Arte Qualidade Brasil, nas categorias de melhor direção e melhor espetáculo. Ana realizou (como atriz) o projeto Beckett, de 2012 a 2015 –  Primeiro Amor, dirigido por Antonio Guedes, e Moi Lui, dirigido por Isabel Cavalcanti. Com este projeto foi indicada como melhor atriz por sua atuação em Primeiro amor, pelo premio Questão de crítica 2013 e melhor atriz por sua atuação em Moi Lui, pelo premio Cesgranrio 2013.

Ana Integrou de 1992 a 2013 o corpo docente da Oficina de Interpretação e da Usina de atores da TV Globo e fez a preparação dos atores das novelas Novo Mundo (2016/2017), Tempo de amar (2017), Orfãos da Terra (2019), da minissérie Ilha de ferro (2018), e da série Desalma (2019), todas produções da emissora.

Serviço:

Lançamento do livro ‘Forças de um corpo vazado’, de Ana Kfouri. Editora 7Letras e PUC-Rio. 144 págs. R$ 58.

Imagem da capa: Helena Trindade

Dia 26 de novembro de 2019, a partir das 19h.
Local: Livraria Blooks – Espaço Itaú de Cinema - Praia de Botafogo, 316. Estacionamento: Praia de Botafogo, 330 [NOVOTEL]



Assessoria de Imprensa:
Mônica Riani 21 9 9698-5575 monica.riani@uol.com.br
Claudia Miranda 21 99605-4706 chagasmiranda@uol.com.br

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

UNIRIO – PROEXC/ESCOLA DE TEATRO & SOCIEDADE PSICANALÍTICA DO RIO DE JANEIRO
APRESENTAM: FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA

Encerrando esse semestre, no dia 29 de novembro, às 18 h,  será analisado o envolvente filme:  NASCE UMA ESTRELA ( A Star Is Born, 2017, 146 min.) dirigido pelo ator Bradley Cooper, tendo como intérprete a cantora Lady Gaga. O tema, em sua quarta versão para o cinema, gira em torno de Jackson Maine (Bradley Cooper) um cantor no auge da fama. Um dia, após uma apresentação, conhece Ally (Lady Gaga), uma insegura cantora que ganha a vida trabalhando em um restaurante. Jackson se encanta pela jovem e seu talento, decidindo apoiá-la na carreira. Ally ascende ao estrelato e Jackson vive uma crise pessoal e profissional devido aos problemas com o álcool.
Assim, na última sexta-feira do mês, na Sala Vera Janacópulos da UNIRIO, analisaremos e discutiremos a película, em seus múltiplos aspectos e prismas diversos. Como sempre, aguardamos todos vocês para mais um debate e contamos com a divulgação aos amigos e aos interessados no viés cultural e psicanalítico. Um grande abraço de Ana Lúcia de Castro e Neilton Silva.
SERVIÇO:
DATA: 29 DE NOVEMBRO DE 2019.
HORÁRIO: FILME: 18 h; ANÁLISE E DEBATE: 20 h às 22 h.
LOCAL: SALA VERA JANACÓPULOS – UNIRIO
ENDEREÇO: AV. PASTEUR, 296. URCA.
ANÁLISE CULTURAL: PROF. DRA. ANA LÚCIA DE CASTRO
ANÁLISE PSICANALÍTICA: DR. NEILTON SILVA
ENTRADA FRANCA - INFORMAÇÕES: forumpsicinema@gmail.com
NOTA: Quem se interessar em adquirir o livro: Fórum de Psicanálise e Cinema: 20 filmes analisados, de autoria de Ana Lúcia de Castro e Neilton Dias da Silva, ele se encontra à venda nos dias do FÓRUM.
HISTÓRICO: O FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA FOI CRIADO EM 1997, COMO UM PROJETO CIENTÍFICO DA ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA RIO 3, PELO ENTÃO PRESIDENTE, DR. WALDEMAR ZUSMAN, E PELO DIRETOR DO INSTITUTO, DR. NEILTON DIAS DA SILVA. DESDE 2004 PASSOU A CONTAR COM A PARTICIPAÇÃO DA MUSEÓLOGA E PROFESSORA DA UNIRIO, DRA ANA LÚCIA DE CASTRO, RESPONSÁVEL PELAS ANÁLISES CULTURAIS DOS FILMES. CELEBRAMOS OS 14 ANOS DO FÓRUM E A PARCERIA DA SPRJ COM A UNIRIO PARA SEDIAR O PROJETO MENSALMENTE, SEMPRE CONCORRIDO.


quarta-feira, 13 de novembro de 2019


Segunda que vem, dia 18 de novembro, acontece no Teatro OI Casagrande, Leblon/RJ, uma maratona de “A Alma Imoral" - exibição do filme e da peça, seguidos de debate com Nilton Bonder (autor do livro), Amir Haddad (supervisor da peça), Silvio Tendler (diretor do filme) e Clarice Niskier (atriz e adaptadora da peça).
 
A programação:
 
18h15 - o filme de Silvio Tendler;
20h30 - a peça de Clarice Niskier;
21h45 - o debate com Nilton Bonder, Amir Haddad, Silvio Tendler e Clarice Niskier.
Ingressos: R$80 e R$40 (meia entrada)

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Teatro/CRÍTICA

"Os impostores"

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Bela metáfora de um mundo em decomposição



Lionel Fischer




"Num futuro próximo, o Brasil é devastado por uma hecatombe ecológica. Movimentos de placas tectônicas parecem formar uma nova Pangéia. A força das águas inunda, destrói, arrasa tudo. Uma tradicional e rica família brasileira sobrevive ao caos, confinada num suntuoso bunker debaixo da terra há anos (ou seriam décadas, quem sabe séculos?). Os membros dessa família estão tocando a vida - ou o que sobrou dela, entre taças de champanhe Cristal e latas de caviar Beluga - salvos do caos externo, até que recebem uma visita inesperada, que, a exemplo do que acontece lá fora, irá mexer com as estruturas dessa família e colocar em xeque a aparente harmonia em que viviam até então".

Extraído do ótimo release que me foi enviado pelo assessor de imprensa Ney Motta, o trecho acima explicita o contexto em que se dá "Os impostores", de Gustavo Pinheiro e Rodrigo Portella, que contaram com a colaboração dramatúrgica dos intérpretes e de Mariah Valeiras. Em cartaz no Teatro Sesc Ginástico, a montagem tem direção assinada por Portella, estando o elenco formado por Carolina Pismel, Guilherme Piva, Murilo Sampaio, Pri Helena, Suzana Nascimento e Tairone Vale.

Embora famílias ricas, em especial norte-americanas, já possuam seus bunkers, tais construções foram feitas - e continuam a ser feitas -  por temor de uma guerra nuclear. E evidentemente suas dimensões, até onde eu sei, atendem apenas a necessidades básicas de sobrevivência. Aqui, no entanto, estamos diante de um quadro apocalíptico - o mundo lá fora praticamente deixou de existir - e a referida família vive em um bunker faraônico, cuja dimensão equivale ao próprio refinamento. E, como explicitado no parágrafo inicial, pode estar ali há décadas ou séculos, o que evidencia o caráter metafórico do texto.  

Com a chegada do Hóspede, tudo começa a se modificar. Tal tema - um estranho que surge inesperadamente em determinado contexto e altera o que parecia fadado a se perpetuar - já foi muitas vezes explorado, tanto na literatura como no cinema e no teatro. Mas isso não constitui nenhum entrave, pois o que confere valor a uma obra não é seu ineditismo temático, mas a forma como as ações e conflitos são trabalhos.

No presente caso, a harmonia entre os membros da família era apenas aparente, o que facilita a tarefa do Hóspede de promover devastadoras transformações. Mas quem é esse homem que chega? De início não fica muito claro, mas aos poucos torna-se evidente que, além de renomado crápula, vale-se de valores religiosos para manipular a todos de acordo com suas conveniências - e aqui opto por não explicitá-las para que meus eventuais leitores possam usufruir o impacto de muitas e imprevistas surpresas. 

Seja como for, o fato é que podemos estabelecer uma espécie de paralelo entre as duas hecatombes - a do mundo real e a deste mundo subterrâneo. E se neste último não são placas tectônicas que se movem e se chocam, os movimentos e choques também se dão, posto que todas as carências, ressentimentos, ódios e desejos vem à tona, inviabilizando qualquer tentativa de se manter intacta a máscara da própria hipocrisia.

Bem escrito, contendo ótimos diálogos, personagens muito bem estruturados e uma ação que prende a atenção do espectador do início ao fim, cabe ainda ressaltar a capacidade de Gustavo Pinheiro e Rodrigo Portella (e seus colaboradores) de mesclar, com a mesma eficiência, passagens dramáticas e humorísticas. E no quesito humor, não há como não fazer menção ao hilariante texto do Hóspede ao descrever o mundo acima, que fica ainda mais engraçado pela seriedade com que é proferido.

Com relação ao espetáculo, Rodrigo Portella impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com o material dramatúrgico. Não existem marcas previsíveis e todas são muito expressivas, cabendo destacar a cena, ao mesmo tempo hilária e erótica, em que Glória é depilada por Ivani. Os tempos rítmicos extrapolam o real, o que confere grande potência a todos os conflitos. E o encenador exibe, mais uma vez, sua notável capacidade de extrair ótimas performances do elenco.

Na pele do Hóspede, Guilherme Piva exibe a melhor performance de sua carreira, explorando ao máximo todo o potencial de um personagem que, essencialmente maquiavélico, não hesita em promover sucessivas destruições para atingir seus objetivos. A mesma eficiência se faz presente na atuação de Carolina Pismel vivendo Glória, mulher despótica, arrogante e possuidora de um furor uterino capaz de superar o de Messalina. Murilo Sampaio (Amado) valoriza toda a carência, ironia e necessidade de amar do personagem. Pri Helena, que interpreta a jovem Camile, confere grande credibilidade a única pessoa da família que ainda acredita ser possível salvar o mundo. Suzana Nascimento, que encarna a criada Ivani, demonstra uma vez mais seu imenso talento, tanto nas passagens mais dramáticas quanto naquelas em que o humor predomina. Finalmente, Tairone Vale está impecável na pele de Neto Junior Filho, inicialmente o macho alfa do contexto e mais adiante um joguete nas mãos do Hóspede.

No tocante à equipe técnica, considero irrepreensíveis as colaborações de todos os profissionais envolvidos nesta surpreendente empreitada teatral - Julia Deccache (cenografia), Marcelo Alonso Neves (direção musical), Tiago Ribeiro (figurinos), Vítor Martinez (visagismo) e Toni Rodrigues (preparação corporal). Como se vê, deixei por último a responsável pela belíssima e expressiva iluminação, sempre decisiva para o fortalecimento dos múltiplos climas emocionais em jogo. Estou falando de Ana Luzia Molinari de Simoni, que aqui assina um trabalho do qual seu pai, o maravilhoso Aurélio de Simoni, certamente está muito orgulhoso.

OS IMPOSTORES - Texto de Gustavo Pinheiro e Rodrigo Portella, com a colaboração do elenco e de Mariah Valeiras. Direção de Rodrigo Portella. Com Carolina Pismel, Guilherme Piva, Murilo Sampaio, Pri Helena, Suzana Nascimento e Tairone Vale. Teatro Sesc Ginástico. Quinta a sábado, 19h. Domingo, 18h.











sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Teatro/CRÍTICA

"Nastácia"

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Excelente recorte de obra-prima de Dostoiévski


Lionel Fischer


"Primeiro ela é vítima de um grão-senhor e gentleman pedófilo, que se vale do repentino estado de miséria dela e do muito dinheiro que possui e a transforma em concubina aos 12 anos de idade, sem sofrer qualquer censura da sociedade: é o poder do dinheiro falando mais alto. Depois, já adulta, é vítima de um amante paranoico, que, por não conseguir conquistar seu amor, simplesmente a mata. Portanto, duas formas de crime contra a mulher: o crime alicerçado no dinheiro e o crime derivado da impossibilidade de conquistar o coração e a mente da mulher. Ou seja, o crime motivado pelo sentimento de posse, pela tentativa de coisificação da mulher".

O trecho acima, que consta do release que me foi enviado, é de autoria de Paulo Bezerra, um dos principais tradutores da obra de Dostoiévski no Brasil e consultor da presente montagem. Esta, em cartaz no Teatro III do CCBB, faz um recorte do romance "O idiota", centrando a ação na festa de aniversário de Nastassia Filíppovna (aqui rebatizada de Nastácia), sobre quem Bezerra tece as considerações expostas no parágrafo inicial, afora a breve e precisa avaliação que faz da condição da mulher. Após cumprir temporada em Belo Horizonte, o espetáculo chega ao Rio de Janeiro com elenco formado por Flávia Pyramo (Nastácia), Julio Adrião (Totski) e Odilon Esteves (Gánia), estando a direção a cargo de Miwa Yanagizawa. 

Como já dito, toda a ação gira em torno da festa de aniversário de Nastácia, em sua casa, quando é promovido uma espécie de leilão cujo objetivo é saber com quem ela se casará. Mas dois dos principais personagens do romance não estão presentes: o Príncipe Michkin (por quem Nastácia nutre uma mescla de admiração e piedade) e o famigerado Rogójin (por quem se sente carnalmente atraída e termina por assassiná-la). Os dois últimos personagens são muitas vezes citados, e até mesmo dão a sensação de estarem ali - mas trata-se de uma opção dramatúrgica que permite cortes no tempo e torna plenamente crível que a protagonista a eles se dirija, a mesma credibilidade presente com a conversão da plateia em convidados da festa, dela até mesmo participando ativamente em alguns momentos. 

Em função do já exposto, torna-se evidente que a prioridade dramatúrgica de Pedro Brício é a de refletir sobre o papel da mulher, e não apenas no século XIX na sociedade russa. E ainda que atualmente as mulheres estejam cada vez mais se insurgindo contra as barbaridades de que são vítimas desde sempre, continua estarrecedor o número espantoso de crimes contra elas perpetrado, em todas as camadas sociais. Como não sou sociólogo, não sei a que atribuir a perpetuação desse comportamento masculino, que talvez remonte às cavernas. No entanto, ouso uma hipótese, ainda que sob o risco de provocar escárnio das mentes eruditas: acho que os homens têm medo das mulheres - e fico por aqui, já que o que importa não é o que eu penso sobre o tema, mas o que o espetáculo nos propõe.

E este, ancorado na ótima dramaturgia de Pedro Brício, é de altíssimo nível. E por diversas razões, a começar pela forma como a diretora Miwa Yanagizawa explora a belíssima direção de arte (instalação artística) de Ronaldo Fraga, cujo principal destaque são as dezenas de molduras vazadas, como a sugerir que o passado torna-se inócuo ante a urgência do presente - posso estar enganado, naturalmente, mas foi essa a sensação que tive. Além disso, a encenadora consegue algo extraordinário, que consiste em conferir tamanha relevância aos lindos objetos manipulados pelos atores que os mesmos dão a sensação de efetivamente integrarem o elenco. Finalmente, cumpre destacar a expressividade das marcações, o domínio dos tempos rítmicos e a capacidade de Miwa Yanagizawa de extrair maravilhosas performances do elenco.

Na pele de Nastácia, Flávia Pyramo - cujo trabalho creio que jamais analisei - exibe atuação deslumbrante, esbanjando carisma, presença, inteligência cênica e visceral capacidade de entrega, extraindo o máximo que a personagem permite. Sem dúvida, uma das mais expressivas performances da atual temporada. A mesma eficiência se faz presente no trabalho de Julio Adrião, impecável na construção de um caráter despótico e abjeto, predicados quase sempre presentes nos que possuem dinheiro e poder. Odilon Esteves também exibe atuação plenamente convincente, valorizando com grande sensibilidade o perigo que representam homens como Gánia, cuja fraqueza de caráter os tornam capazes de  fazer qualquer concessão, desde que suas ambições sejam atendidas.

Com relação ao restante da ficha técnica, parabenizo com o mesmo entusiasmo as preciosas colaborações de todos os profissionais envolvidos nesta mais do que oportuna empreitada teatral - Ronaldo Fraga (figurinos), Cao Guimarães (videoarte), Chico Pelúcio e Rodrigo Marçal (iluminação), Gabriel Lisboa (trilha sonora e composição), Tuca Pinheiro (direção de movimento), Paulo Bezerra (tradução), Bezerra e Flávio Ricardo Vassoler (consultoria teórica), Paola Menezes (programação visual) e Sophia Clementino (visagismo).

NASTÁCIA - Dramaturgia de Pedro Brício a partir do romance "O idiota", de Dostoiévski. Direção de Miwa Yanagizawa. Com Flávia Pyramo, Julio Adrião e Odilon Esteves. Teatro III do CCBB. Quarta a domingo, 19h30.









segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Teatro/CRÍTICA

"3 maneiras de tocar no assunto"

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Montagem imperdível no Poeirinha



Lionel Fischer


"Um tema, três solos curtos. No primeiro, O homem de uniforme escolar, o público assiste a uma aula de bulling homofóbico: o que é, como praticar e quais as suas consequências físicas e emocionais. São histórias reais de crianças e jovens que sofreram com o preconceito e a intolerância na escola. Na sequência, O homem com a pedra na mão parte do depoimento ficcional de um dos participantes da Revolta de Stonewall, ocorrida em junho de 1969 em Nova York, marco fundamental da luta pelos direitos da comunidade LGBT, que completou 50 anos em 2019. Desenvolve-se, então, uma descrição minuciosa da noite em que os frequentadores (gays, lésbicas, travestis, dragqueens) do bar Stonewall Inn reagiram, pela primeira vez, a uma batida policial no local. O último solo, O homem no Congresso Nacional, foi construído a partir de falas do ex-deputado federal Jean Wyllys, proferidas entre janeiro de 2011 e dezembro de 2018. Para criar o texto, Leonardo Netto assistiu e transcreveu discursos, pronunciamentos, entrevistas e declarações de Jean e criou o depoimento de um deputado gay e ativista na tribuna da Câmara".

Extraído do ótimo release que me foi enviado pela assessora de imprensa Paula Catunda, o parágrafo acima não resume, como costumo fazer, o contexto de um espetáculo, mas o explicita integralmente - achei importante fazer esta opção porque assim o leitor terá uma visão clara e detalhada de algo que recomendo com o maior entusiasmo, como se verá a seguir. Em cartaz no Teatro Poeirinha, "3 maneiras de tocar no assunto" tem texto e atuação de Leonardo Netto, estando a direção a cargo de Fabiano de Freitas.

No primeiro solo, Leonardo Netto encarna, digamos assim, uma espécie de conferencista, que expõe para a plateia praticamente todas as variantes possíveis da abjeta prática do bulling homofóbico escolar. No entanto, não estamos diante de uma conferência em seu sentido óbvio e convencional, já que o ator, quase sempre atuando numa chave que prioriza a ironia, dá a entender que todos nós, os espectadores, sabemos exatamente do que se trata, deixando em aberto a possibilidade de sermos coniventes - ao menos em alguma medida. 

Em O homem com a pedra na mão, o espetáculo atinge seu ponto máximo, e por diversas razões. A primeira delas diz respeito ao caráter lúdico da narrativa, mesmo nas passagens que evocam a violenta batalha travada entre os frequentadores do local e as forças de segurança. De um lado, a violência bruta e injustificada; de outro, a poesia libertária dos que acreditam no amor e em seu legítimo direito de vivê-lo e expressá-lo. Afora isso, Leonardo Netto vivencia, com visceral e comovente capacidade de entrega,  tantas camadas emocionais que torna-se literalmente impossível acompanhar a narrativa sem torcer para que seu desfecho seja favorável àqueles que ousaram, pela primeira vez, dizer Não ao obscurantismo - e aqui não hesito em afirmar que Leonardo Netto exibe a melhor performance de sua carreira.

Já no último solo, o ator incorpora o corajoso e lúcido ativista a ponto de acreditarmos que o mesmo está em cena - e mais uma vez somos tratados não como meros espectadores, mas como os congressistas que o repudiavam e agrediam sempre que ele ocupava a tribuna para se insurgir contra o preconceito e a violência que vitimam gays, negros e demais categorias que o Estado e o fanatismo religioso encaram com inaceitáveis desprezo e rejeição. 

Com relação ao espetáculo, Fabiano Freitas impõe à cena uma dinâmica de grande expressividade, para tanto valendo-se de marcas que valorizam ao extremo todos os conteúdos emocionais em jogo. Afora isto, cabe ao encenador o crédito suplementar de haver extraído do ator, como já foi dito, a melhor performance de sua carreira, e sem dúvida uma das mais potentes da atual temporada.

No tocante à equipe técnica, destaco com o mesmo entusiasmo as preciosas colaborações de todos os profissionais envolvidos nesta imperdível empreitada teatral - Renato Machado (iluminação), Luiza Fardin (figurino), Elza Romero (cenário), Marcio Mello (visagismo), Marcia Rubin (direção de movimento) e Rodrigo Marçal e Leonardo Netto (trilha sonora). 

3 MANEIRAS DE TOCAR NO ASSUNTO - Texto e atuação de Leonardo Netto. Direção de Fabiano Freitas. Teatro Poeirinha. Quinta a sábado, 21h. Domingo, 19h.






quinta-feira, 26 de setembro de 2019



A Terceira Semana do Núcleo de Dramaturgia Firjan SESI ocupará o Oi Futuro Flamengo de 7 a 12 de outubro