segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Teatro/CRÍTICA

"Diário do farol - Uma peça sobre a maldade"

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Montagem imperdível no Sesc




Lionel Fischer




"O público entra na sala e já encontra o ator em cena. Após pedir a um espectador que abra a garrafa d'água que beberá ao longo da narrativa, o personagem inicia seu relato dizendo: O que vou contar agora é honesto e verdadeiro. Sou capaz de matar. Já matei. A partir daí, a plateia conhece a relação dele com o pai, pautada pela total falta de afeto, sua passagem pelo seminário, onde presta favores sexuais em troca de privilégios, culminando no trabalho de informante e torturador do Dops, a temida polícia do governo militar. E uma única vez foi capaz de amar, mas tempos depois Maria Helena haveria de pagar um preço muito caro por tê-lo rejeitado".

Extraído (e levemente editado) do excelente release que me foi enviado pelo assessor de imprensa Christovam Chevalier, o trecho acima sintetiza a narrativa de "Diário do farol - Uma peça sobre a maldade", inspirada no romance "O diário do farol", de João Ubaldo Ribeiro. O projeto chega à cena graças ao estímulo de Domingos Oliveira, que considerava Fernando Philbert capaz de materializá-lo com a imprescindível potência. Philbert e Thelmo Fernandes respondem pela adaptação, cabendo a este último dar vida ao famigerado personagem. A montagem está em cartaz no Mezanino do Espaço Sesc. 

No parágrafo inicial, estão explicitados alguns fatos protagonizados pelo personagem, mas certamente omiti muitos outros para não privar os leitores de algumas aterrorizantes surpresas. Mas o que me parece essencial ressaltar é a genialidade de João Ubaldo na construção do personagem. Se este fosse meramente um psicopata 
(ainda que o personagem possa sê-lo) e portanto capaz de cometer atrocidades sem nenhuma piedade ou posterior remorso, a obra não teria a transcendência que exibe. E esta ocorre na medida em que o protagonista consegue enxergar beleza na maldade, sendo totalmente sincero ao defender este abjeto ponto de vista. 

Ou seja: o que o difere de um serial killer ou de um torturador que apenas cumpre ordens é que estes podem até sentir prazer com as  ações que praticam, mas certamente não atribuem a elas nenhum valor estético, como ocorre com o protagonista de João Ubaldo. Ele age como se fosse um artista no processo de elaboração de uma obra e tal postura lhe confere uma dimensão ainda mais aterrorizante. 

Sob todos os aspectos, estamos diante de uma obra que tenho certeza que Dostoiévski adoraria, tamanha a profundidade com que João Ubaldo mergulha nos aspectos mais sombrios de uma personalidade execrável. E a ótima adaptação da mesma resultou em um espetáculo que deve ser prestigiado de forma incondicional pelo público. Vejamos por que. 

Em primeiro lugar, porque Fernando Philbert contou com as preciosas contribuições de Natália Lama (cenografia e figurino) e Vilmar Olos (iluminação), determinantes para a valorização dos múltiplos climas emocionais em jogo. E depois porque foi capaz de, mais uma vez, extrair o máximo de um ator que dirige em um monólogo - vou citar apenas a arrebatadora atuação de Marcos Caruso em "O escândalo Philippe Dussaert". No presente caso, tem como parceiro Thelmo Fernandes, um dos melhores atores não apenas de sua geração, mas do país. Vejamos por que - agora me dei conta de que termino este parágrafo da mesma forma que o anterior, o que talvez constitua um defeito ou um discreto charme estilístico, dependendo do ponto de vista.  

Por que Thelmo Fernandes é um ator de primeiríssima linha? É óbvio que possui grandes predicados técnicos, mas não são eles que constituem o essencial. Em meu entendimento, três virtudes o singularizam: enorme versatilidade, visceral capacidade de entrega a todos os personagens que interpreta e uma inteligência cênica que o leva a fazer opões jamais atreladas ao previsível. E aqui, salvo monumental engano de minha parte, o ator exibe a melhor performance de sua carreira, um verdadeiro presente para todos aqueles que amam a arte de interpretar. Assim, só me resta desejar que os sempre caprichosos deuses do teatro continuem abençoando sua trajetória artística. E que ele permaneça o que sempre foi: um homem extremamente doce e com o senso de humor que caracteriza as pessoas do bem.

DIÁRIO DO FAROL - UMA PEÇA SOBRE A MALDADE - da obra de João Ubaldo Ribeiro. Adaptação de Fernando Philbert e Thelmo Fernandes. Direção de Philbert, atuação de Fernandes. Mezanino do Espaço Sesc. Quinta a domingo, 20h.

  








  

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Teatro/CRÍTICA

"Eu, Mãe"

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Bela reflexão sobre o tempo e a maternidade



Lionel Fischer



"Criando uma espécie de peça-cápsula-do-tempo, a atriz encena e registra para suas duas filhas, por meio de uma câmera, todo seu assombro com a passagem do tempo e com a maternidade recente, para que elas assistam no futuro e compreendam como a mãe delas se sentia aos 43 anos de idade. Em diversos momentos da peça, a intérprete se dirige à câmera, como se conversasse com as filhas do outro lado da tela".

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o contexto em que se dá "Eu, Mãe", de autoria de Cristina Fagundes, também responsável pela atuação. Em cartaz na Casa Rio, o espetáculo leva a assinatura de Alexandre Barros, Cristina Fagundes e Daniel Leuback.

"Eu quero que você, Nina, que hoje está com cinco anos, e que você, Bruna, que hoje está com três anos, possam, aí no futuro, me ver como eu sou hoje, no auge da saúde, da vitalidade. No auge da minha vida. E quero que assistam a essa gravação também quanto tiverem 43 anos de idade cada uma para que possamos por pelo menos uma vez na vida, num encontro único no tempo, ter a mesma idade. Eu queria ser amiga de vocês, ir caminhando junto com vocês, mas não posso, meu tempo é outro, eu vim primeiro. Então vamos fazer esse registro, está bem? Esta cápsula do tempo".

Esta fala, que consta do espetáculo, me tocou profundamente. E por diversas razões, sendo a principal a de que sempre desejei, como a autora, que o tempo me permitisse o impossível, ou seja, me encontrar com minhas duas filhas e meu filho quando tivéssemos a mesma idade. Como seria esse encontro? Talvez eu perguntasse: "E aí, amados? Eu fui um bom pai? Eu acolhi vocês nos momentos mais duros e com vocês brindei os mais alegres?". 

Caso a resposta fosse afirmativa - e acredito que seria - então talvez enchêssemos a cara e fôssemos os quatro dançar forró na Feira de São Cristóvão, como a autora fez inúmeras vezes, evidenciando notável habilidade - e aqui, sem falsa modéstia, gostaria de dizer que meus filhos e eu também somos forrozeiros deslumbrantes. Mas voltemos à peça.

Estamos diante de um texto cujo principal mérito reside na capacidade da autora de conferir poesia a fatos inerentes à maternidade que todos conhecem - a dor do parto, as horas de sono subtraídas, a perda (ao menos circunstancial) da antiga liberdade etc. -, assim como a outros que dizem respeito à passagem do tempo e às relações que estabelecemos com aqueles que nos precederam. Neste último quesito, achei particularmente tocante a passagem em que a atriz fala de sua mãe e de sua avó, deixando claro que ambas estão nela e sempre estarão, mesmo quando tiverem partido, posto que instaladas em seu coração. 

Com relação ao espetáculo, estruturado em uma chave hiper realista - toda a ação se passa na cozinha da Casa Rio e os objetos manipulados estão atrelados ao cotidiano -, nem por isso as soluções encontradas pela direção estão circunscritas ao previsível. Neste sentido, poderia destacar inúmeras passagens, mas opto por aquela que mais me encantou - a água transborda de um copo e se converte em chuva. 

No tocante a Cristina Fagundes, trata-se de uma excelente atriz, possuidora de vastos recursos expressivos e que sempre se entrega de forma visceral às personagens que interpreta. No presente caso, não interpreta ninguém, pois está em cena vivendo a si própria e nos contando sua história. E esta merece ser prestigiada por todos aqueles que, a exemplo da autora, conseguem enxergar a vida como uma verdadeira dádiva.

Na equipe técnica, parabenizo a todos com o mesmo entusiasmo - Fernanda Montovani (iluminação), Alice Cruz e Tuca Benvenutti (cenário e adereços), Flavia Espírito Santo (figurino) e Cristina Fagundes e Gui Stutz (trilha sonora)

EU, MÃE - Texto e atuação de Cristina Fagundes. Direção de Alexandre Barros, Cristina Fagundes e Daniel Leuback. Casa Rio. Quartas e quintas às 20h.  















segunda-feira, 12 de agosto de 2019


UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (UNIRIO/PROEXC/ESCOLA DE TEATRO)
&
SOCIEDADE PSICANALÍTICA DO RIO DE JANEIRO (SPRJ)
APRESENTAM:
FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA
PROGRAMAÇÃO DE 2019-2
FILMES ANALISADOS PELO PSICANALISTA: DR. NEILTON DIAS DA SILVA
E PELA MUSEÓLOGA DA UNIRIO: PROF. DRA. ANA LÚCIA DE CASTRO.
30/08 – A FESTA (The Party, 2018, 71 min.)
DIREÇÃO: SALLY PORTER
    Sinopse: Janet, uma política de esquerda, convida os amigos do partido para comemorar a sua escolha para o cargo de Ministra da Saúde britânica, porém, durante a festa, a surpresa revelada pelo marido de Janet, o intelectual Bill, transforma completamente o clima da celebração.
27/09 – A CASA DOS ESPÍRITOS (La Casa De Los Espíritus, 1994, 146 min.)
DIREÇÃO: BILLY AUSGUST
    Sinopse: A partir do romance de Isabel Allende, o filme analisa a saga da família Trueba, da década de 1920 aos anos 1970, com a união de um homem simples que enriquece com uma jovem de poderes paranormais, até a família ser atingida pelo golpe que derrubou o presidente Salvador Allende.
25/10 – A GAROTA DO TREM (The Girl On The Train, 2016, 117 min.)
DIREÇÃO: TATE TAYLOR
    Sinopse: Arrasada por seu recente divórcio, Rachel vive fantasiando sobre um casal aparentemente perfeito que mora em uma casa pela qual seu trem passa todos os dias. Certo dia, ela presencia algo estranho e começa sua própria investigação.
29/11 – NASCE UMA ESTRELA (A Star Is Born, 2018, 146 min.)
DIREÇÃO: BRADLEY COOPER
    Sinopse: Jackson Maine, um cantor famoso, conhece Ally, uma cantora que trabalha em um restaurante. Encantado com seu talento, decide acolhê-la. Ally, ao ascender ao estrelato, Jackson vive uma crise pessoal e profissional devido aos problemas com o álcool.
SERVIÇO:
SEMPRE ÀS ÚLTIMAS SEXTAS-FEIRAS DO MÊS, DAS 18H ÀS 22H.
LOCAL – SALA VERA JANACOPOLUS / REITORIA DA UNIRIO
ENDEREÇO: AVENIDA PASTEUR, 296 – URCA.
ENTRADA FRANCA E ESTACIONAMENTO. FILME: 18H; DEBATE: 20H
PEQUENO HISTÓRICO DO FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA:
                CRIADO PELOS PSICANALISTAS: DR. WALDEMAR ZUSMAN E DR. NEILTON DIAS DA SILVA, A PARTIR DE 2004 PASSA A CONTAR COM A PARTICIPAÇÃO DA MUSEÓLOGA E PROFESSORA DA UNIRIO, DRA. ANA LÚCIA DE CASTRO, RESPONSÁVEL PELA PESQUISA, DIVULGAÇÃO E ANÁLISE CULTURAL DOS FILMES.
          COM A PARCERIA: UNIRIO – PROEXC - ESCOLA DE TEATRO E SPRJ, O PROJETO DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA MANTÉM UMA REGULARIDADE HÁ MAIS DE ONZE ANOS, TORNANDO-SE UM EVENTO MUITO CONCORRIDO, COM UM PÚBLICO FIEL E PARTICIPATIVO.
INFORMAÇÕES: forumpsicinema@gmail.com

domingo, 21 de julho de 2019

Teatro/CRÍTICA

"A Ponte"

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Lionel Fischer



"Três irmãs, separadas pela vida, são obrigadas a se reunir para enfrentar a morte iminente da mãe. Theresa, a mais velha, é uma freira que se isolou da família em um retiro religioso. Agnes, a irmã do meio, vive uma atriz falida, que foi tentar a sorte longe de sua cidade natal. Louise, a mais jovem, é obcecada por séries de TV e desinteressada pelo mundo além do virtual. Neste reencontro, ambientado na cozinha da casa onde foram criadas, as três revelam os seus valores, crenças e diferenças em busca da possível reconstrução de uma célula familiar há muito fragmentada".

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima resume o enredo de "A Ponte", do dramaturgo canadense Daniel MacIvor. Em cartaz no Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil, a montagem leva a assinatura de Adriano Guimarães, estando o elenco formado por Bel Kowarick (Theresa), Debora Lamm (Agnes) e Maria Flor (Louise).

Autor de vários textos já encenados no Brasil - "In on It", "À primeira vista", "Aqui jaz Henry" e "Cine-Monstro" -, Daniel MacIvor possui, dentre seus muitos méritos, dois que me parecem essenciais: tem sempre o que dizer e dá enorme importância ao trabalho dos atores - esta última assertiva, na verdade uma suposição, me parece válida à medida que suas peças jamais podem ser plenamente usufruídas se em cena não estiverem excelentes intérpretes, como no presente caso, como se verá mais adiante.

A primeira curiosidade com relação à peça diz respeito à sua ambientação. Por razões óbvias, a ação não poderia se passar no quarto da mãe agonizante, a menos que a intenção fosse a de conferir um caráter mórbido à narrativa. Se esta acontecesse no quarto de uma das irmãs, isto poderia sinalizar algum tipo de ascendência, o que não é o caso. Então chegamos ao ambiente escolhido: a cozinha. Ainda que possa estar enganado, penso que o autor objetivou conferir ao espaço um caráter que transcende o prosaico, pois ali os alimentos consumidos não buscam saciar necessidades físicas, mas aquelas de há muito represadas no coração das três irmãs. 

Bem escrito, contendo personagens maravilhosamente estruturados e uma ação que prende por completo a atenção do espectador - isto se dá à medida que a trama foge por completo ao previsível, sendo literalmente impossível se prever o que virá em seguida -, creio que o maior mérito de "A ponte" tenha total relação com seu título. Vejamos: as três irmãs possuem histórias de vida e personalidades diametralmente opostas, o que em princípio inviabilizaria qualquer  possibilidade de entendimento. 

No entanto, as circunstâncias as levam a explicitar mágoas e carências jamais reveladas, e quando  renunciam a todas as defesas e decidem abrir seus corações sem reservas, o que antes se afigurava como um abismo aparentemente intransponível converte-se em uma ponte capaz de aproximá-las, o que me permite supor que o autor acredita na possibilidade de que possamos e devamos conviver com as diferenças - nos sombrios tempos que correm, tal crença é não apenas necessária, mas inadiável.

Com relação ao espetáculo, e ainda que este exiba marcas diversificadas e expressivas, torna-se evidente que o diretor Adriano Guimarães deu especial atenção ao elenco, encarregado de materializar personagens de altíssima complexidade. E o resultado não poderia ser melhor: Bel Kowarick, Debora Lamm e Maria Flor extraem o máximo de suas personagens, cabendo ressaltar a coletiva capacidade de entrega, a ótima contracena e a inegável inteligência cênica das intérpretes, que nos brindam com atuações inesquecíveis. Sem sombra de dúvida, um raro presente para aqueles que, como eu, acreditam que o teatro pertence essencialmente aos que estão em cena. 

Na equipe técnica, destaco com o mesmo entusiasmo as belíssimas contribuições de todos os profissionais envolvidos nesta mais do que oportuna empreitada teatral - Emanuel Aragão (dramaturgia), Adriano Guimarães e Ismael Monticelli (cenografia), Bárbara Duvivier (tradução), Ticiana Passos (figurino), Wagner Pinto (iluminação) e Denise Stutz (direção de movimento).

A PONTE - Texto original de Daniel MacIvor. Dramaturgia de Emanuel Aragão. Direção de Adriano Guimarães. Com Bel Kowarick, Debora Lamm e Maria Flor. Teatro II do CCBB. Quinta a segunda, 19h30.    






  








sexta-feira, 19 de julho de 2019

Teatro/CRÍTICA

"Estado de Sítio"

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Obra-prima em versão deslumbrante



Lionel Fischer




"Após os maus presságios pela passagem de um cometa, os habitantes de Cádiz, na Espanha, passam a ser governados pela Peste, que depõe um governo reacionário e institui um poder arbitrário por meio da ameaça de morte. Ela instaura o Estado de Sítio e cria um regime burocrático, esvaziado de sentido e dominado pelo medo. Uma cidade sitiada e uma população dividida. A vida dos cidadãos é submetida ao império da Peste e de sua Secretária, a Morte, de modo que o sofrimento e o desespero se tornam banais. No meio desse cenário desolador e aterrador haveria espaço para uma revolta estimulada pelo amor aos seres humanos e pela liberdade? Para se libertar da Peste será preciso resistir ao medo que se tem dela acreditando que, assim como a aparição do cometa, a situação instaurada é uma força histórica e passageira, e que o povo sempre detém o poder eterno".

O trecho acima, extraído do ótimo release que me foi enviado, contextualiza o essencial de "Estado de Sítio", de Albert Camus. Após cumprir ótima temporada em São Paulo, a montagem está em cartaz no Teatro Sesc Ginástico. Gabriel Villela responde pela direção do espetáculo, estando o elenco formado por Elias Andreato (Peste), Claudio Fontana ( Morte), Chico Carvalho 
( Nada), Rosana Stavis (Mulher do Juiz e Benzedeira), Nábia Vilela (Vitória), Leonardo Ventura (Juiz, Alcaide e Pescador), Pedro Inoue (Diego), Arthur Faustino (Governador e Velha), André Hendges (Padre), Rogério Romera (Homem do Povo e Cérbero), Jonatan Harold (Músico), Nathan MilléoGualda (Astrólogo, Cometa e Cérbero) e Zé Gui Bueno (Alcaide e Cérbero).

Não foram poucos os escritores, filósofos e críticos, infinitamente mais capazes do que eu, que se debruçaram sobre esta obra-prima.  Portanto, não tenho a pretensão de acrescentar algo de significativo ao que já foi dito. Ainda assim, gostaria de salientar algo que julgo procedente: ao contrário do que muitos supõem, Albert Camus não objetivou investir apenas contra a barbárie dos regimes totalitários de direita, mas também contra os de esquerda. Ou seja: para o genial escritor e dramaturgo franco-argelino, a ideologia importa pouco se o que predomina é a opressão. Neste sentido, a cidade espanhola de Cádiz (assolada pelo franquismo) poderia perfeitamente ter sido substituída por qualquer cidade da União Soviética vilipendiada por Josef Stalin. 

Isto posto, gostaria de frisar o que me parece mais essencial neste texto belíssimo e de surpreendente atualidade: a convicção do autor de que, por mais opressivo que seja um regime, por mais dolorosas que sejam as condições impostas, basta que um homem, um único homem diga Não e tudo pode mudar. Se o medo é contagioso, a Revolta também pode ser. E, no presente caso, é a partir da revolta que a Peste e a Morte começam a se tornar menos ameaçadoras e terminam por abandonar a cidade. Há também que se ressaltar a importância vital do Amor, não apenas no que concerne a relações pessoais, mas o amor que todos os seres humanos devem e podem partilhar, premissa essencial para a conquista da tão almejada Liberdade.   

Com relação ao espetáculo, mais uma vez Gabriel Villela nos brinda com uma encenação deslumbrante, plena de imagens poderosas e impregnada de refinada poesia. Desde que assisti (e escrevi sobre) "A rua da amargura", não tive a menor dúvida de que estava diante de um artista, na acepção máxima do termo. Assim, só me resta agradecer o privilégio de poder entrar em contato, mais uma vez, com uma montagem capitaneada por este que é, sem sombra de dúvida, um dos maiores encenadores da história do teatro brasileiro.

Quanto ao elenco, este atende a todas as solicitações da direção, seja nas passagens cantadas quanto naquelas em que o texto predomina, cabendo também destacar a notável expressividade corporal do conjunto. E embora todos os que estão em cena mereçam os mais entusiásticos aplausos, em função da dramaturgia não há como não conferir um destaque especial às magníficas performances de Elias Andreato (Peste), Claudio Fontana (Morte) e Chico Carvalho (Nada).

Na equipe técnica, considero irrepreensíveis e inesquecíveis as colaborações de Gabriel Villela (figurinos), J.C. Serroni (cenografia), Domingos Quintiliano (iluminação), Babaya Morais e Marco França (direção musical), Babaya Morais (preparação vocal), Marco França (arranjos),  Claudinei Hidalgo (maquiagem) e Alcione Araújo e Pedro Hussak (tradução).

ESTADO DE SÍTIO - Texto de Albert Camus. Direção de Gabriel Villela. Com Elias Andreato, Claudio Fontana, Chico Carvalho e grande elenco. Teatro Sesc Ginástico. Quinta a sábado, 19h. Domingo, 18h.








quinta-feira, 18 de julho de 2019

Teatro/CRÍTICA

"Meninas e Meninos"


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Bela e dolorosa jornada




Lionel Fischer



"A protagonista do texto é uma mulher de idade não especificada, que conta ao público a história de sua vida. Abordando corajosamente (e com muito humor) questões delicadas como sexo, maternidade e machismo, a personagem vai desenhando um novo perfil feminino que, ao longo de séculos, tem lutado para se libertar das amarras patriarcais e experimentar um jeito completamente original de tornar-se mulher no mundo atual".

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima resume o enredo de "Meninas e Meninos", do dramaturgo inglês Dennis Kelly, em cartaz no Teatro Poeirinha. Kiko Mascarenhas e Daniel Chagas assinam a direção do espetáculo, que tem como única intérprete Maria Eduarda de Carvalho.

Como já disse algumas vezes, para mim um espetáculo começa quando entro no teatro e existe alguém em cena, mesmo que esteja imóvel ou não fazendo nada de especial, ainda que as luzes sejam as da plateia - tal postura, que considero essencial, contraria a de 99% dos espectadores, que em geral conversam ou permanecem grudados aos seus celulares até que seja dado o terceiro sinal.

No presente caso, quando os espectadores entram no espaço de representação do Poeirinha, Maria Eduarda de Carvalho já está em cena, totalmente visível, e sua personagem parece indecisa quanto à localização de vários caixotes e brinquedos infantis. Ela ignora a plateia enquanto organiza e reorganiza os objetos. Finalmente, começa a contar sua história, estabelecendo uma relação direta com os espectadores.

O enredo aborda, de forma não linear, a relação da personagem com seus filhos pequenos, a tentativa de obter um emprego, suas muitas e diversificadas experiências sexuais, seu envolvimento com o pai das crianças e sua ascensão profissional, afora outros momentos, cabendo destacar a hilária passagem da fila de embarque em um aeroporto. 

Mas ao mesmo tempo em que conta sua história, a personagem quase sempre se relaciona com outros, como se estes estivessem em cena, e só raramente interrompe sua relação com os objetos, como no início do espetáculo, só que a partir de um certo ponto os brinquedos vão sendo colocados nos caixotes e estes depositados em um canto do espaço, que no final se mostra inteiramente desocupado daquilo que antes o preenchia. Ou seja: estamos diante de uma belíssima metáfora, pois o que a personagem faz é progressiva e dolorosamente livrar-se do seu passado e assim criar a possibilidade de um novo presente. 

Com relação ao texto, este alterna momentos de grande humor com outros essencialmente trágicos, que opto por não explicitar pois isto privaria o espectador de usufruir impactantes e imprevistas revelações. Seja como for, há que se destacar a maestria do autor em sua abordagem de vários temas, em especial o do machismo, que nem sempre, como no presente caso, fica restrito ao predomínio da vontade masculina. 

Novamente sem entrar em maiores detalhes, aqui a inveja é a mola propulsora da tragédia que se materializa. Mas como detectá-la se a outra pessoa consegue camuflar este sentimento? E mais: como imaginar que este sentimento possa crescer a ponto de transformar alguém em sua própria antítese?    

Com relação ao espetáculo, cuja mais brilhante solução já mencionei, cabe destacar a expressiva, pulsante e diversificada dinâmica cênica, afora a contribuição de Kiko Mascarenhas e Daniel Chagas para que Maria Eduarda de Carvalho exiba uma das performances mais marcantes da presente temporada. 

Atriz de vastos recursos técnicos, grande carisma, fortíssima presença e inegável inteligência cênica, Maria Eduarda de Carvalho também nos brinda com comovente capacidade de entrega, o que lhe permite viver com total intensidade os múltiplos conflitos emocionais em jogo.  

Na equipe técnica, considero irrepreensíveis as preciosas colaborações de Vilmar Olos (iluminação/ambientação), Marcelo H (trilha sonora), Luciene Nicolino (direção de arte), Mauro Vicente Ferreira (cenografia) e Tereza Nabuco (figurino).

MENINAS E MENINOS - Texto de Dennis Kelly. Direção de Kiko Mascarenhas e Daniel Chagas. Com Maria Eduarda de Carvalho. Teatro Poeirinha.  Terças, quartas e quintas às 21h.




















quinta-feira, 4 de julho de 2019

Prêmio Cesgranrio de Teatro 2019
Indicados do 1º semestre

FIGURINO

Marcelo Marques - "Cole Porter, ele nunca disse que me amava"
João Pimenta - "Merlin e Artur - Um sonho de liberdade"
Tiago Ribeiro - "Interior"

CENOGRAFIA

Bia Junqueira - "Eu, Mobi Dick"
Rodrigo Portella e Julia Decache - "As crianças"
Ana Teixeira e Stephane Brodt - "Jogo de damas"

ILUMINAÇÃO

Paulo Cesar Medeiros - "As crianças"
Renato Machado - "Jogo de damas" e "Eu, Mobi Dick"

ATOR

Mario Borges - "As crianças"
Kiko Mascarenhas - "Todas as coisas maravilhosas"
Caio Scot - "Como se um trem passasse"

ATOR EM TEATRO MUSICAL

Patrick Amstalden - "Merlin e Artur"
Saulo Segreto - "Merlin e Artur"

ESPECIAL

Diego Teza - traduções de "As crianças", "Todas as coisas maravilhosas" e "Meninas e meninos"

Ana Turra, Camila Schimidt e Rogério Velloso - set designs, vídeo designs, cenografia e iluminação de "Merlin e Artur"

Celina Sodré - 10 anos de atividades do Instituto do Ator

ATRIZ

Jessica Menkel - "Cálculo ilógico"
Analu Prestes - "As crianças"
Claudia Ventura - "A verdade"

ATRIZ EM MUSICAL

Evelyn Castro - "Quebrando regras"
Kacau Gomes - "Merlin e Artur"
Bel Lima - "Cole Porter"

DIREÇÃO

Rodrigo Portella - "As crianças"
Felipe Hirsh - "Antes que a definitiva noite se espalhe por lationoamerica"
Daniel Herz - "Cálculo ilógico"

DIREÇÃO MUSICAL

Fabio Cardia e Jules Vandistadt - "Merlin e Artur"
Claudio Botelho - "Cole Porter"
Tony Lucchesi - "Quebrando regras"

TEXTO NACIONAL INÉDITO

Jessica Menkel - "Cálculo ilógico"
Luciana Pessanha - "Os desajustados"
Marcia Zanelatto - "Merlin e Artur"

ESPETÁCULO

"As crianças"
"Cálculo ilógico"
"Todas as coisas maravilhosas"

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