sexta-feira, 3 de julho de 2015

GRUPO MOITARÁ APRESENTA PALESTRA-ESPETÁCULO “A MÁSCARA NA ENERGIA DO ATOR”
No dia 10 de julho, o Grupo Moitará realiza a palestra-espetáculo “A Máscara na Energia do Ator”. No encontro, são apresentados alguns dos percursos desenvolvidos pelo Grupo sobre a dramaturgia do ator, com demonstrações de cena, de músicas trabalhadas pelos atores e exercícios físicos e vocais utilizados pelo Moitará na construção de seu trabalho.
O evento é uma oportunidade do público se aproximar e desvendar um pouco mais do ofício do ator por trás da máscara teatral, aprendendo, de forma lúdica e espetacular, sobre as várias formas de utilização desta na cena.
Um dos compromissos do Grupo Moitará com a cidade é a acessibilidade da comunidade surda. Além do projeto “Palavras Visíveis”, focado na capacitação de atores surdos, a palestra-espetáculo também contará com a presença de um intérprete de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais). A atividade é gratuita e as senhas serão distribuídas a partir das 19 horas.
Esta atividade faz parte do projeto de manutenção “Grupo Moitará, 26 anos de contribuição à cena Carioca”, patrocinado pela Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, através do II Programa de Fomento à Cultura Carioca.

Sobre o Grupo Moitará
 Com uma efetiva participação na cena teatral brasileira através da participação em festivais nacionais e internacionais, e também pela atuação pedagógica, o Grupo Moitará desenvolve há 27 anos  ininterruptos o trabalho de pesquisa sobre a dramaturgia do ator com a linguagem da máscara teatral.
 Aliado ao trabalho diário de pesquisa dos atores, o grupo ainda democratiza os conhecimentos sobre a Linguagem da Máscara a estudantes, pesquisadores, artistas e ao público em geral, através de oficinas, palestras-espetáculo, seminários e intercâmbios, oferecendo rica contribuição ao desenvolvimento cultural do país.
 Moitará é um termo kamaiurá que significa troca, escambo, comércio e é também a única ocasião em que diferentes tribos indígenas do Alto Xingú acampam no mesmo local para realizar trocas de artefatos. O Moitará subsiste como forma estimuladora de contatos e é também uma oportunidade para que haja o confronto e a autoafirmação dos grupos como entidades distintas. 
 É esta a dimensão que o nome dá ao Grupo Teatral Moitará, um espaço de trocas, de valorização das diferenças culturais.
 Serviço:
 Palestra-espetáculo “A Máscara na Energia do Ator”
10 de julho
Às 20hs.
Entrada gratuita e classificação livre
Senhas distribuídas uma hora antes do início do evento.
Espaço Moitará – Rua Joaquim Silva, 56/2º andar
 Informação para a imprensa:
 Ana Pinto
21 98171-3739 / 21 3852-0403

Ana Pinto
21 8171-3
739

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Teatro/CRÍTICA

"Laio & Crísipo"

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Belo texto ganha impecável montagem



Lionel Fischer



"O jovem Laio fugiu de Tebas - sua cidade natal, onde uma sangrenta disputa pelo trono torna sua vida perigosa - e foi acolhido pelo rei Pélops da Frígia, que o nomeou preceptor de seu herdeiro, o adolescente Crísipo. Mas a relação entre mestre e pupilo se transmuta em paixão. Perseguidos pelo rei - que amaldiçoa Laio - e pela sociedade, forjam um sequestro e se dirigem a Tebas, onde a situação política se tornara favorável a Laio, que ali reencontra a jovem Jocasta, prometida a ele como esposa. Sagrado rei, casa-se com Jocasta e mantêm a relação com Crísipo - e os três se envolvem em um ardente triângulo amoroso."

Extraído do ótimo release que me foi enviado pelas assessoras de imprensa Luciana Medeiros e Leila Grimming, o trecho acima explicita uma livre interpretação do mito de Laio, aqui materializada no espetáculo "Laio & Crísipo", que, juntamente com "Caranguejo Overdrive", comemora os dez anos de existência do grupo Aquela Cia. - o segundo espetáculo será analisado na crítica seguinte. Pedro Kosovski assina o texto e Marcos André Nunes a direção da montagem, em cartaz no Mezanino do Espaço Sesc. No elenco, Eron Cordeiro (Laio), Ravel Andrade (Crísipo) e Carolina Ferman (Jocasta). 

Como dito no parágrafo anterior, estamos aqui diante de uma livre interpretação do mito de Laio. Sendo assim, ao invés de discorrer sobre o que de fato se sabe sobre os personagens e em seguida tentar perceber em que medida foram recriados, contestados ou subvertidos, opto por também valer-me de total liberdade para falar sobre o que assisti, ou seja, como se estivesse diante de personagens sem qualquer referência anterior. 

Laio e Crísipo vivem uma relação vertiginosa que inclui ensinamentos (éticos, filosóficos e marciais), trocas, cumplicidade, desentendimentos, reconciliações e visceral atração física. Ou seja: existe entre ambos uma verdadeira paixão, com todos os ingredientes de lucidez e loucura a ela inerentes. E após se encontrarem com a jovem Jocasta - prostituta que faz strip-tease em um inferninho à beira de uma estrada - estabelece-se um virulento triângulo amoroso. 

Diante do exposto, cabe a pergunta: qual terá sido o real objetivo de Pedro Kosovski ao escrever "Laio & Crísipo"? Que diferença haveria se o presente texto não tivesse mitos como referência? Em minha opinião, nenhuma. Sim, pois com ou sem referências, o fundamental é que Kosovski escreveu um belo, instigante, libertário e contundente texto sobre a paixão, aqui materializada como irresistível pulsão de vida e essencial no que diz respeito à descoberta sobre si mesmo e sobre o outro. 

Com relação ao espetáculo, Marcos André Nunes impõe à cena a dinâmica característica da Aquela Cia.: marcas expressivas e diversificadas, invariavelmente surpreendentes, impecável domínio dos tempos rítmicos e uma visceral relação com a música, que praticamente se converte em um personagem. E no tocante ao elenco, Eron Cordeiro, Ravel Andrade e Carolina Ferman têm desempenhos irrepreensíveis, tanto do ponto de vista vocal como corporal. Além disso,  exibem uma contracena que só existe quando a confiança mútua é total, assim como no projeto em que estão engajados. A todos, portanto, parabenizo com o mesmo entusiasmo e agradeço a instigante noite que me proporcionaram.

Na equipe técnica, Felipe Storino responde por maravilhosa (como de hábito) direção musical, sendo igualmente irretocável sua contribuição como músico, ao lado de João Paulo. Marcia Rubin, com sua notável direção de movimento, é uma peça-chave no sucesso da presente empreitada teatral, o mesmo aplicando-se a Marcelo Marques (figurino), Aurora dos Campos (cenografia) e Renato Machado (iluminação) - este último, por sinal, cada vez mais se firma como um iluminador de ponta.

LAIO & CRÍSIPO - Texto de Pedro Kosovski. Direção de Marcos André Nunes. Com Eron Cordeiro, Ravel Andrade e Carolina Ferman. Sala Multiuso do Espaço Sesc. Quinta a sábado, 21h. Domingo, 20h.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Prêmio Cesgranrio de Teatro - 2015
Indicados Primeiro Semestre

MELHOR DIREÇÃO

Marcio Abreu ("Krum")
Daniel Herz ("Meu saba")
Ana Teixeira e Stephane Brodt ("Salina - a última vértebra")


MELHOR ATOR

Danilo Grangheia ("Krum")
Ranieri Gonzales ("Krum")
Rogério Fróes ("Família Lyons")


MELHOR ATRIZ

Susana Faíni ("Família Lyons")
Ana Beatriz Nogueira ("Um pai")
Grace Passô (""Krum")


MELHOR ESPETÁCULO

"Krum"
"Salina - a última vértebra"
"Meu saba"


MELHOR CENOGRAFIA

Bia Junqueira ("Meu saba")
Lorena Lima ("Consertam-se imóveis")
José Dias ("Eugênia")


MELHOR ILUMINAÇÃO

Aurélio de Simoni ("Meu saba")
Renato machado ("Madame Bovary")
Nadja Naira ("Krum")


MELHOR FIGURINO

Carol Lobato ("Bilac vê estrelas")
Patrícia Lambert ("Madame Bovary")
Ana Teixeira e Stephane Brodt (Salina - a última vértebra")


MELHOR TEXTO NACIONAL INÉDITO

Leonardo Neto ("Para os que estão em casa")
Keli Freitas ("Consertam-se imóveis")
Daniela Pereira de Carvalho ("Contra o vento - um musicaos"


CATEGORIA ESPECIAL

Nei Lopes - trilha original de "Bilac vê estrelas"
Marcia Rubin - direção de movimento de "Krum"
Bruno Lara Resende - adaptação de "Madame Bovary"


MELHOR DIREÇÃO MUSICAL

Luis Filipe de Lima ("Bilac vê estrelas")
Alexandre Elias ("S'imbora, o musical")
Marcelo Alonso Neves ("Contra o vento - um musicaos")


MELHOR ATOR EM MUSICAL

Ícaro Silva ("S'imbora, o musical")
André Dias ("Bilac vê estrelas")


MELHOR ATRIZ EM MUSICAL

Alice Borges ("Bilac vê estrelas")
Izabela Bicalho ("Bilac vê estrelas)

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terça-feira, 30 de junho de 2015

Teatro/CRÍTICA

"Beija-me como nos livros"

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Bela e original empreitada teatral



Lionel Fischer



"Beija-me como nos livros procura retratar o relacionamento amoroso e o seu desenvolvimento ao longo dos tempos, por meio de uma linguagem cênica criativa, amparada na expressividade vocal e corporal. A peça tem como premissa pensar o amor não como algo biológico e inerente à natureza humana, conforme costuma ser visto, mas como mais uma invenção do ser humano, sujeita a constantes alterações ao sabor das mudanças na política, na religião e na economia. É fato que a relação afetiva entre duas pessoas se modificou profundamente através dos séculos, até se estabelecer como a entendemos e praticamos nos dias de hoje".

Extraído do ótimo release que me foi enviado pela assessora de imprensa Daniella Cavalcanti, o trecho acima sintetiza as premissas que deram origem a "Beija-me como nos livros - um espetáculo sobre a história do amor", que acaba de entrar em cartaz no Teatro I do CCBB. Mais recente produção da companhia Os Dezequilibrados, "Beija-me..." chega à cena com direção e dramaturgia assinadas por Ivan Sugahara, estando o elenco formado por Ângela Câmara, José Karini, Claudia Mele e Julio Adrião - os dois últimos atores convidados.

A presente empreitada teatral gira em torno de quatro mitos amorosos - "Tristão e Isolda" (simbolizando o período medieval inglês), "Romeu e Julieta" (Renascimento italiano), "Dom Juan" (Iluminismo francês) e "Werter" (Romantismo alemão) - e o enredo mescla questões e traições de dois casais contemporâneos com cenas dos citados mitos. Quanto ao texto, este é proferido em uma língua inventada (gromelô), cuja apreensão decorre da sonoridade das palavras e da cadência e inflexão das falas. E cabe também registar que as palavras são, digamos assim, pronunciadas em um registro que remete ao "original" - em "Dom Juan", por exemplo, o sotaque é francês. Isto posto, vamos ao espetáculo.

Em primeiro lugar, julgo muito oportuna a possibilidade de se refletir sobre o amor, seja sobre o conceito de amor romântico, seja sobre a forma com que nos relacionamos. No presente caso, dos mitos selecionados, o de Dom Juan é o único que escapa de um contexto trágico, já que o empedernido fauno parece só ter se preocupado em copular com uma infinidade de damas - consta que se deitou com cerca de dez mil. Com relação aos outros, ainda que a carne tenha tido sua importância, os encontros amorosos a transcendiam e o fundamental era a identificação de almas. 

Quanto ao casal contemporâneo, embora os homens e as mulheres não exibam a ensandecida lubricidade do citado Dom Juan, o fato é que traem. Mas por que traem? Aliás, por que se trai? Eis uma questão que mereceria um ensaio de no mínimo oitocentas páginas. Em minha modesta opinião, os homens e mulheres traem não porque sintam imperiosa necessidade de variar de parceiro ou parceira por desgaste da relação, irresistíveis apelos externos ou meramente por enfado; para mim, tudo se resume a uma brutal insegurança, que resulta em uma permanente necessidade de afirmação que jamais se esgota - a menos que a pessoa se disponha a fazer análise...de preferência, com um bom analista. Digressão feita, voltemos ao espetáculo.

Antes de mais nada, quero registrar minha admiração pelo enorme trabalho de pesquisa realizado e pelo texto final apresentado, perfeitamente apreensível - não em sua totalidade, naturalmente, o que seria impossível. Mas eventuais lacunas de entendimento não comprometem a compreensão do essencial. E neste particular, fica sempre em aberto a possibilidade de cada espectador construir os seus significados, que variarão de acordo com sua sensibilidade e maior ou menor acúmulo de neuroses.

Com relação à dinâmica cênica, esta está em perfeita sintonia com os conteúdos implícitos. Cenas muito engraçadas se alternam com outras, de grande tragicidade, todas invariavelmente materializadas com inventividade e rigor formal. E me permito citar apenas uma, simplesmente deslumbrante, a que encerra o espetáculo. Nela vemos Romeu e Julieta em seu desfecho trágico. Um pouco atrás, um casal contemporâneo janta em uma mesa, afastados física e emocionalmente, sem trocar uma única palavra.  Romeu e Julieta morrem por amor; o casal, provavelmente, morrerá pela ausência dele.  

Com relação ao elenco, afora a capacidade de mergulharem visceralmente em todas as questões abordadas pelo texto, os intérpretes exibem notável expressividade vocal e corporal, conseguindo conquistar a plateia desde o início e ao longo de toda a montagem. Julio Adrião, Claudia Mele, José Karini e Ângela Câmara se dispuseram corajosamente a uma empreitada repleta de riscos e o resultado obtido evidencia não apenas suas qualidades enquanto intérpretes, mas também como artistas e pensadores do fazer teatral. A todos, portanto, agradeço a maravilhosa noite que me proporcionaram.

Na equipe técnica, Ivan Sugahara assina uma trilha sonora irrepreensível, assim como são irrepreensíveis as preciosas contribuições de Duda Maia (direção de movimento e preparação corporal), Ricardo Góes (direção vocal e pesquisa fonética), André Sanches (cenografia), Renato Machado (iluminação) e Bruno Perlatto (figurinos). Gostaria também de destacar a sensibilidade de Leandro Barreto (técnico de luz) e Luciano Siqueira (desenho de som).

BEIJA-ME COMO NOS LIVROS - Direção e dramaturgia de Ivan Sugahara. Com Ângela Câmara, Claudia Mele, José Karini e Julio Adrião. Teatro I do CCBB. Quarta a domingo, 19h.

 






sábado, 27 de junho de 2015

LEITURA DRAMATIZADA DA COMÉDIA "Bombonzinho", de VIRIATO CORRÊA

ACADEMIA CARIOCA DE LETRAS
Dia 30
 de junho

Na próxima terça-feira, dia 30às 17h30, na Academia Carioca de Letras, termina o 1º Ciclo RIO DE JANEIRO - 450 ANOS DE PALCO, sob a coordenação de Sergio Fonta, com a comédiaBombonzinho, de Viriato Corrêa. Durante o mês de junho, entraram em cena importantes autores brasileiros clássicos que colocaram a cidade do Rio de Janeiro como palco de suas peças. É a Academia Carioca de Letras sintonizada com o segmento teatral nas comemorações dos 450 anos da cidade. A direção das leituras dramatizadas do 1º Ciclo foi do premiado ator e diretor Gilberto Gawronski. Entrada gratuita.

O maranhense Viriato Corrêa (1884-1967), embora nem todos saibam, foi (e é) um dos nossos maiores comediógrafos, autor de dezenas de peças. Radicado no Rio de Janeiro, foi sócio-fundador da SBAT e membro da Academia Brasileira de Letras, além de dramaturgo, contista, autor de obras para crianças, empresário, crítico e professor de História do Teatro. Um de seus textos - À sombra dos laranjais - foi adaptado para tv e exibido como novela pela Rede Globo, com sucesso, em 1977. Ao lado do produtor Nicolino Viggiani e do também excelente dramaturgo Oduvaldo Vianna, pai de Vianninha, ajudou a transformar o teatro nacional dos anos 1920, criando uma companhia de prosódia brasileira em nossos palcos, antes dominado pelo sotaque português.

Bombonzinho estreou no extinto Teatro Trianon, no Rio, em 9 de junho de 1931, por coincidência o mesmo dia em que lançamos o 1º Ciclo RIO DE JANEIRO - 450 ANOS DE PALCO, no início deste mês. Foi um dos grandes êxitos da carreira do ator Procópio Ferreira e é uma das comédias mais engraçadas do nosso teatro. Conta a aventura de Agapito, personagem vivido por Procópio, um impoluto chefe de família, nem tão impoluto assim: escondido da mulher, combina uma farra com amigos na Praia da Gávea (hoje seria a praia de São Conrado...), com alegres mulheres distribuídas num animado bangalô. Traça um plano infalível: viajará de trem  para São Paulo "a trabalho" mas, na estação seguinte, saltará e embarcará com o grupo num carro que os levará ao bangalô. Lá, já devidamente instalados com um bom champanhe, recebem a notícia que o trem para São Paulo sofreu um acidente horrível. Em pânico por ver sua farsa prestes a ser descoberta, Agapito resolve voltar para casa, cobrindo-se de ataduras e tipóias, explicando que escapou do acidente e sendo recebido com alívio pela crédula esposa. Já em pleno "tratamento" domiciliar, Agapito tem outra grande surpresa: fica sabendo que o acidente ferroviário não foi com o trem de São Paulo e, sim, com o de Minas... Aí, quem quiser saber o final de Bombonzinho, só assistindo à leitura na Academia Carioca de Letras na terça-feira... 
Academia Carioca de Letras:  Rua Teixeira de Freitas, nº 5 / 3º andar, sala 306, início da Lapa.
Dia: 30 de junho
Horário: 17h30
Ingresso: Grátis

* A Rua Teixeira de Freitas faz esquina com a Av. Augusto Severo e há muitas conduções para lá, parando no Passeio. Se a opção for o metrô, basta saltar na estação Cinelândia / saída Passeio.
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quarta-feira, 24 de junho de 2015

Teatro/CRÍTICA

"João Cabral"

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Belo tributo a um poeta maior



Lionel Fischer




Poeta e diplomata, João Cabral de Melo Neto (1920-1999) deixou uma obra vasta e poderosa, cabendo destacar "O cão sem plumas", "A educação pela pedra", "Morte e vida Severina" (sua obra mais conhecida em razão de sua versão teatral) e "Sevilha andando". E pensando em comemorar em grande estilo seus dez anos de existência, a Companhia Teatro Íntimo selecionou poemas do imortal escritor e os transpôs para o palco, daí resultando "João Cabral", em cartaz na Sede das Cias. Renato Farias assina roteiro e direção, estando o elenco formado por Raphael Vianna, Gaby Haviaras, Caetano O'Maihlan e Rafael Sieg.

Como a obra de João Cabral de Melo Neto se insere entre as mais notáveis já produzidas em língua portuguesa, não me parece relevante tecer considerações sobre a mesma e sim tentar perceber em que medida a poética do autor pernambucano ganhou ou perdeu nesta transposição para o palco, que se vale de uma estrutura que nada tem a ver com a de um recital. 

Sem nenhum receio de estar enganado, acredito que Renato Farias fez um trabalho admirável, tanto no que diz respeito ao roteiro quanto à sua materialização cênica. O primeiro permite ao público (sobretudo aos espectadores que jamais leram João Cabral) um contato visceral, ainda que breve - a montagem dura apenas uma hora - com a obra do poeta. Quanto ao espetáculo, são inúmeros os seus acertos. A começar pela renúncia de se criarem "personagens".

Os atores são porta-vozes da poesia e no máximo falam na primeira pessoa, como o faria o poeta. E o jogo cênico que estabelecem - as tensões, alegrias, perplexidades etc. - se dá através das palavras e das imagens que elas sugerem. E estas são plenas de criatividade, ainda que simples - malas que sugerem partidas ou retornos, pedaços de cana que ora delimitam o espaço, ora se transformam em objetos de percussão ou de ameaça, e assim por diante. E cabe também destacar a passagem em que o flamenco e os ciganos são homenageados (João Cabral viveu muitos anos em Sevilha), a mais expressiva do espetáculo.

Com relação ao elenco, todos os atores se apropriam do texto com grande autoridade e o proferem de forma clara e sóbria, dispensando maiores e desnecessárias ênfases. E no que concerne ao universo gestual, a mesma clareza e sobriedade se fazem presentes, o que confere grande unidade às performances de Raphael Vianna, Gaby Haviaras, Caetano O'Maihlan e Rafael Sieg.

No tocante à equipe técnica, considero irrepreensíveis as contribuições de todos os profissionais envolvidos nesta mais do que oportuna empreitada teatral - Thiago Mendonça (direção de arte e figurino), Rafael Sieg (iluminação), Melissa Paro (cenografia), Eliane Carvalho (flamenco), Alejandro Alejo (consultoria cajón), Luciano Camara (consultoria guitarra flamenca), Edu Viola (liutaio da guitarra) e Ezequiel Blanc (visagismo). Cabe também destacar a belíssima participação de Diego Zarcon (intérprete do cante a palo seco).

JOÃO CABRAL - Poesias de João Cabral de Melo Neto. Roteiro e direção de Renato Farias. Com a Companhia de Teatro Íntimo. Sede das Cias. Sábado a segunda, 20h. 




domingo, 21 de junho de 2015

LEITURA DRAMATIZADA DA PEÇA "A bela Madame Vargas", de JOÃO DO RIO

ACADEMIA CARIOCA DE LETRAS
Dia 23
 de junho

Na próxima terça-feira, dia 23às 17h30, na Academia Carioca de Letras, o Ciclo "RIO DE JANEIRO - 450 ANOS DE PALCO", sob a coordenação de Sergio Fonta, continua trazendo os célebres autores brasileiros clássicos que colocaram a cidade do Rio de Janeiro como palco de suas peças. A direção das leituras dramatizadas, que acontece durante todas as terças de junho, é de Gilberto Gawronski e a entrada é gratuita.

João do Rio (Paulo Barreto), fazendo jus ao nome que escolheu para assinar seus trabalhos, foi, talvez, o mais carioca de todos os escritores nascidos no Rio de Janeiro. Através de artigos, reportagens, crônicas, contos e peças soube investigar os meandros de sua cidade com enorme amplitude, precisão, amor e, também, sensualidade. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1910, sendo o primeiro a tomar posse de fardão. É um dos fundadores da SBAT (Sociedade Brasileira de Autores) e foi seu primeiro presidente. Nunca escondeu sua opção sexual e, se vivo fosse hoje, certamente estaria apoiando os movimentos LGBT. O enterro de João do Rio, em 1921, parou a cidade: a ele compareceram mais de cem mil pessoas.

João do Rio escreveu "A bela Madame Vargas" em 1912, mesmo ano em que estreou no Teatro Municipal, dentro de uma programação especial com peças brasileiras. Passado em uma luxuosa, porém, decadente mansão do alto da Tijuca, é um drama muito bem engendrado, com um clima de trama policial. Conta as agruras de uma jovem e sedutora viúva que, com enormes dificuldades financeiras, rompe o romance com um também jovem amante para casar-se com um milionário, pelo qual acaba se apaixonando. O que ela não imaginava é que o preterido, louco de ciúmes, fosse armar um terrível plano de vingança
O desfecho é inesperado e surpreendenteEm "A bela Madame Vargas", João do Rio traça um irônico e primoroso painel dos salões cariocas do início do século XX. Assistir à esta leitura na Academia Carioca de Letras é uma rara oportunidade de mergulhar no universo fascinante deste grande autor. No elenco da leitura dramatizada desta semana participam, entre outros, os atores Sônia Clara, Henri Pagnoccelli e Daniel Barcellos. O evento também contará com a presença de João Carlos Rodrigues, biógrafo de João do Rio.
A Academia Carioca de Letras fica na Rua Teixeira de Freitas, nº 5 / 3º andar, sala 306, no início da Lapa. A Rua Teixeira de Freitas faz esquina com a Av. Augusto Severo e há muitas conduções para lá, parando no Passeio. Se a opção for o metrô, basta saltar na estação Cinelândia / saída Passeio.
CICLO DE LEITURAS  DRAMATIZADAS na ACL.jpg