quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Teatro/CRÍTICA

"Hominus Brasilis"

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Sedutora e original montagem



Lionel Fischer



"Desde o Big Bang até hoje em dia, a peça pincela grandes momentos da humanidade e convida o espectador a se emocionar com o surgimento da vida, a extinção dos dinossauros, a expansão marítima da Europa, as grandes guerras e também eventos que marcaram a história brasileira, como a chegada dos portugueses, a escravidão, a ditadura militar e a repentina morte de Ayrton Senna".

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima resume o enredo de "Hominus Brasilis", em cartaz no Teatro Municipal Maria Clara Machado. Com dramaturgia, concepção e direção da Cia. de Teatro Manual, integrada por Dio Cavalcanti, Helena Marques, Matheus Lima e Patrícia Ubeda, o espetáculo conta ainda com a supervisão de cena de Julio Adrião.

Como explícito no parágrafo inicial, a montagem propõe uma jornada desde os primórdios do universo até os dias de hoje. Até aí, nada demais. No entanto, estamos diante de uma proposta sem dúvida original: toda a encenação ocorre numa plataforma de dois metros por um e, exceção feita a umas poucas palavras, a narrativa se apóia em variados sons e no trabalho corporal dos atores - não há trilha sonora e são pouquíssimas as variações de luz.

Tal desafio, ainda que salutar, poderia resultar numa catástrofe. Mas ocorre rigorosamente o inverso. Em função da imensa criatividade dos atores no que concerne à materialização de imagens e dos sons que as acompanham, da permanente alternância entre humor, poesia e dramaticidade, o resultado é absolutamente encantador, o que demonstra as infinitas possibilidades de expressão que o teatro permite. Assim, parabenizo com grande entusiasmo os integrantes da Cia de Teatro Manual e desejo longa carreira para a presente montagem.

Na equipe técnica, Gustavo Weber responde por discreta e eficiente iluminação, com Camila Nhary assinando figurinos neutros que atendem a todas as premissas do espetáculo. Quanto à identidade visual, a cargo de Thais Gallart, gostaria de comentá-la, mas não o faço por não saber exatamente o que significa.

HOMINUS BRASILIS - Dramaturgia, concepção e direção da Cia. de Teatro Manual. Supervisão de cena de Julio Adrião. Teatro Municipal Maria Clara Machado. Sexta e sábado, 21h. Domingo, 20. 


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

LANÇAMENTO
Nesta terça-feira, 2 de dezembro, às 20h, no Espaço Armazém, na Fundição Progresso – logo após a apresentação de O dia em que Sam Morreu – acontece o lançamento dos livros das peças A Marca da Água e O dia em que Sam Morreu,  que contêm o texto integral além de uma sessão com várias fotos do espetáculo e as críticas mais importantes que os trabalhos receberam. Os livros podem ser adquiridos individualmente ou numa caixa contendo os dois trabalhos. Antes do lançamento, a sessão será exclusiva para convidados.
 A Marca da Água recebeu o Prêmio Shell de Teatro 2012, na categoria de Melhor  Autor (Paulo de Moraes e Maurício Arruda Mendonça), além do Fringe First Award 2013, no Festival de Edimburgo (Escócia).
 O Dia em que Sam Morreu recebeu o Prix Coup de Coeur 2014 (dado pelo Club de  la Presse d’Avignon), no Festival de Avignon (França) e o Fringe First Award 2014, no Festival de Edimburgo (Escócia), além de estar indicado ao Prêmio Cesgranrio de Teatro 2014, na categoria Melhor Autor (Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes).
 Dentro do Projeto Memória, que a companhia desenvolve desde 2002, já foram lançados os livros Para Ver com Olhos Livres (2002) - que traz a trajetória da companhia de 1987 a 2001 em fotografias e pequenos textos - eEspirais (2008) - que traz textos analíticos sobre os 20 anos da companhia, completados em 2007. Além dos livros, foram lançados também os DVDs de Da Arte de Subir em Telhados (2002), Pessoas Invisíveis(2003), Alice Através do Espelho(2004) e Inveja dos Anjos (2009); além das dramaturgias de Inveja dos Anjos(2009) e Antes da Coisa Toda Começar(2011). Sempre com o patrocínio da Petrobras.
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Teatro/CRÍTICA

"Frida Kahlo - A Deusa Tehuana"

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Sensível e corajosa montagem

Lionel Fischer




"Alguns artistas ultrapassam a popularidade adquirida com seu trabalho e tornam-se sua melhor arte. Frida Kahlo pintou sua própria face um sem número de vezes no corpo de uma obra intensamente autoreferencial. Teatralizou sua própria existência. Foi a expressão maior de luta e superação, mesmo trazendo consigo as maiores dores - físicas e existenciais. No lugar do luto, vestiu-se de cores. Ao desconstruir o 'mito Frida' e revelar sentimentos de uma mulher que carregou em si tantas dores, a peça procura falar da importância de reinventar eternamente o espaço que ocupamos no mundo. Da necessidade de refletir sobre o amor, a arte e as escolhas que fazemos na vida".

O trecho acima, extraído do release que me foi enviado, resume as premissas essenciais que deram origem a "Frida Kahlo - A Deusa Tehuana", em cartaz no Teatro Glaucio Gill. Luiz Antonio Rocha  e Rose Germano respondem pela dramaturgia, livremente inspirada no diário e na obra da pintora. Luiz Antonio Rocha também assina a direção, cabendo a Rose Germano interpretar as personagens Dolores Olmedo Patiño (1908-2002) e Frida Kahlo (1907-1954). 

Monólogo não biográfico, o texto se inicia com Dolores Olmedo falando de sua relação com Diego Rivera (1886-1957), maior pintor e muralista mexicano, com quem teve uma relação amorosa e de quem tornou-se amiga. Graças a seu poder econômico e influência social, Dolores foi a principal responsável pela preservação de grande parte do acervo de Rivera e de Frida, com quem não mantinha relações muito amistosas.

Em seguida, é Frida quem assume o protagonismo, e então a personagem fala basicamente de suas graves mazelas físicas, tabagismo, alcoolismo e de sua relação com Rivera. E o que me parece fundamental destacar, como implícito no parágrafo inicial, é a valorização que a personagem faz da vida, sua permanente luta contra tantas e diversificadas dores. Ao invés de entregar-se ao papel de vítima, Frida inventa uma outra persona, colorida e exuberante. E através de suas reflexões sobre os temas mencionados, tudo leva a crer que a plateia deixe o teatro acreditando sempre e cada vez mais na vida. 

Com relação ao espetáculo, Luiz Antonio Rocha impõe à cena uma dinâmica essencialmente corajosa. E por coragem entenda-se uma clara disposição de valorizar todos os conteúdos, sem nenhuma preocupação em estabelecer qualquer sintonia com o acelerado ritmo de nosso tempo. Um exemplo: a cena em que a atriz se despe da personagem Dolores e encarna Frida. Essa troca de identidade e de figurino é feita de forma quase que ritualística, no mais absoluto silêncio, sem nenhuma pressa, e nem por isso testemunhei algum sinal de enfado ou impaciência em qualquer espectador.

E essa não-preocupação em imprimir ritmo à montagem, no sentido tradicional do termo, é que possibilita uma visceral aproximação com todos os sentimentos e reflexões em jogo. Afora o fato, naturalmente, do encenador criar marcas muito expressivas e explorar com grande sensibilidade todas as possibilidades da bela cenografia de Eduardo Albini, composta basicamente de três cadeiras, uma longa mesa e algumas molduras. 

No tocante à performance de Rose Germano, estamos diante de uma atriz que reúne uma série de preciosos predicados, tais como forte presença cênica, grande carisma, voz poderosa, impecável trabalho corporal e notável capacidade de entrega. Sem dúvida, uma das atuações mais significativas de 2014, e que me faz desejar que o presente espetáculo cumpra longa e mais do que merecida temporada. 

No complemento da ficha técnica, o já citado Eduardo Albini também responde por impecável direção de arte e deslumbrantes figurinos, a mesma excelência presente nas contribuições de Aurélio de Simoni (iluminação), Marcio Tinoco (trilha sonora), Norberto Presta (direção de movimento) e Ton Hyll (visagismo). Cabe também destacar a ótima participação do violonista Pedro Silveira.

FRIDA KAHLO, A DEUSA TEHUANA - Dramaturgia de Luiz Antonio Rocha e Rose Germano. Direção de Luiz Antonio Rocha. Com Rose Germano. Teatro Glaucio Gill. Sábado, domingo e segunda às 20h.   








Teatro/CRÍTICA

"Carta ao Pai"

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Kafka em sóbria versão



Lionel Fischer



Um dos maiores escritores do século XX, Franz Kafka (1883-1924) deixou uma obra não muito vasta, mas ainda assim capaz de influenciar autores como Jean-Paul Sartre, Albert Camus e Gabriel García Márquez, dentre muitos outros. E tal influência se deve, fundamentalmente, às suas poderosas reflexões sobre o absurdo da condição humana, expressas em narrativas impregnadas de uma atmosfera quase sempre asfixiante e que acabou ganhando a alcunha de kafkiana.

Mas Kafka também escreveu obras não-ficcionais, como "Carta ao Pai", endereçada e jamais entregue a seu progenitor, em resposta a uma pergunta que ele lhe teria feito: "Por que você tem medo de mim?". Escrito cinco anos antes da morte do escritor, o texto ganha agora uma versão cênica (Sala Multiuso do Espaço Sesc) assinada por Antonio Gilberto e protagonizada por Rodrigo Abreu.

Fosse Kafka um autor apenas mediano e certamente estaríamos diante de uma obra restrita à relação entre duas pessoas. Mas, sendo um gênio, o autor transcende o particular e empreende uma dolorosa, irônica e universal reflexão sobre relações de poder, esmiuçando com extraordinária perspicácia as inúmeras sutilezas que a compõem. 

Como toda obra literária transposta para o palco, aqui corria-se o risco de minimizá-la. Mas não é o que acontece. Em parte pela sóbria dinâmica cênica criada por Antonio Gilberto, que sabiamente renuncia a inócuas mirabolâncias formais e prioriza a palavra. E também graças à sua atuação junto ao intérprete.

Rodrigo Abreu encontrou uma chave interpretativa muito interessante, mesclando absoluta clareza expositiva com controladas doses de emoção, o que permite à plateia apreender todos os conteúdos propostos pelo autor e ao mesmo tempo se envolver emotivamente com a narrativa.

Com relação à equipe técnica, Modesto Carone responde por impecável tradução, o mesmo aplicando-se às contribuições de Rose Gonçalves (preparação vocal), Joana Ribeiro (preparação corporal), Mariana Bley (vídeo/projeções), Tomás Ribas (iluminação) e Marcos Ribas de Faria (trilha sonora). Quanto à direção de arte de Rui Cortez, o espaço da representação está em perfeita sintonia com o contexto, mas o figurino me pareceu visualmente pouco atraente e sobretudo inadequado.

CARTA AO PAI - Texto de Franz Kafka. Direção de Antonio Gilberto. Com Rodrigo Abreu. Sala Multiuso do Espaço Sesc. Sexta e sábado, 19h. Domingo, 18h.




terça-feira, 18 de novembro de 2014

Teatro/CRÍTICA

"Não vamos pagar!"

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Humor farsesco minimiza comédia




Lionel Fischer



"Antônia e Margarida são duas donas de casa que estão tendo dificuldade para pagar as contas em dia. Antônia acaba de perder o emprego, e seu marido, João, trabalha em uma fábrica ameaçada de ser fechada. Em protesto pelo aumento dos preços, um grupo de mulheres (dentre elas Antônia) decide invadir e saquear um supermercado. Informado do episódio, mas sem saber que Antônia estivera envolvida, João afirma que prefere morrer de fome a fazer alguma coisa ilegal, já que não admite abrir mão de seus princípios éticos". 

Extraído (e levemente editado) do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o enredo de "Não vamos pagar!", de autoria de Dario Fo e de sua mulher, Franca Rame, falecida em 2013. Inez Viana assina a direção do espetáculo (Teatro II do CCBB), estando o elenco formado por Virginia Cavendish (Antônia), Marcelo Valle (João), Luana Martau (Margarida), Fabrício Belzoff (Luís, marido de Margarida) e Zéu Britto (sargento, capitão e pai).

Ator, palhaço, diretor e dramaturgo, Dario Fo escreveu mais de 40 peças, em sua maioria exibidas para grandes plateias e quase sempre objetivando satirizar múltiplas instituições, em especial a Igreja. Mas aqui o autor e Franca Rame investem de forma vigorosa e altamente irônica contra o sistema capitalista, que sempre privilegia os detentores do poder em detrimento da classe trabalhadora. 

Se os operários não estão conseguindo adquirir os produtos de que necessitam para viver, por que não poderiam tomá-los à força?, sugerem os autores. E é exatamente isto que as mulheres fazem, ainda que tenham que arcar com as consequências. Mas estas acabam sendo minimizadas em face da incompetência e corrupção inerentes ao órgãos repressores, aqui tratados de forma impiedosamente crítica.

Isto posto, imaginei que a diretora Inez Viana imporia à cena uma dinâmica que, sem menosprezar o fato de que o texto é uma comédia, nem por isso a tornaria tão farsesca, apelando para soluções sem dúvida muito engraçadas, mas que, em minha opinião, diminuem a contundência crítica do texto. Ainda assim, cabe ressaltar que, na noite em que assisti o espetáculo, a plateia se envolveu completamente com o mesmo, e ao final aplaudiu entusiasticamente o que acabara de assistir.

Com relação ao elenco, todos os intérpretes embarcam totalmente na linha proposta pela direção, articulando o texto em velocidade quase sempre supersônica e num tom de voz em geral altíssimo, o que inviabiliza maiores sutilezas interpretativas e alternâncias de clima. Mas como tais premissas me parece que não foram priorizadas, é forçoso admitir que todos se saem muito bem, já que o elenco é constituído por profissionais exemplares.

Na equipe técnica, José Almino responde por excelente tradução, sendo corretas as contribuições de Renato Machado (iluminação), Ricco Vianna (direção musical), Juli Videla (figurinos) e Osmar Salomão (cenografia).

NÃO VAMOS PAGAR! - Texto de Dario Fo e Franca Rame. Direção de Inez Viana. Com Virginia Cavendish, Marcelo Valle, Luana Martau, Fabrício Belzoff e Zéu Britto. Teatro II do CCBB. Quinta a segunda, 19h30.      

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Teatro/CRÍTICA

"O pequeno Zacarias - uma ópera irresponsável"

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Texto excessivo ganha ótima montagem


Lionel Fischer



""Num pequeno reino, nasce, filho de uma mulher pobre, Zacarias, anão corcunda, que seria um fardo incapaz de sobreviver. Ocorre que o pequeno recebe uma dádiva da Senhorita Rosaverde, que é, na verdade, a Fada Rosabela. Ela precisa se manter incógnita e reclusa desde que o príncipe decretou que toda a população deveria guiar seu comportamento pelos princípios do Iluminismo, e as fadas deverias ser banidas do reino. A dádiva de Rosabela transforma o pequeno monstrengo numa celebridade instantânea, cultuada pela sociedade e pela academia. Mas, inexplicavelmente, alguns personagens ficam imunes ao feitiço, continuando a vê-lo como é, e passam a investigar o porquê de todos celebrarem aquele grotesco anão".

O trecho acima, extraído do ótimo release que me foi enviado pelos assessores de imprensa João Pontes e Stella Stephany, resume o enredo de "O pequeno Zacarias - uma ópera irresponsável", ópera cômica com música de Tim Rescala e texto e letras de José Mauro Brant. Adaptação do conto de fadas homônimo para adultos de E.T.A. Hoffmann (1776-1822), o espetáculo tem direção assinada por José Mauro Brant e Sueli Guerra, estando o elenco formado por José Mauro Brant, Soraya Ravenle, Janaína Azevedo, Chiara Santoro, Sandro Christopher, Wladimir Pinheiro, Rodrigo Cirne e Marcello Sader.

Como implícito no parágrafo inicial, estamos diante de um enredo que, a exemplo de tantos outros escritos por Hoffmann, evidencia a extraordinária imaginação do gênio alemão. E no presente caso, como muito bem explicitado no release, trata-se de "...um conto de fadas que, centrado em uma história de amor narrada com humor e ironia, nem por isso deixa de exibir uma divertida e refinada sátira social e política da Prússia do século XIX".

No entanto, apesar de todas as maravilhosas premissas que lhe deram origem, o texto de Brant é por demais extenso e um tanto confuso, dificultando sua compreensão por aqueles que não conhecem o original. Um exemplo: após uma excelente cena inicial, quando tomamos conhecimento do fato que irá impulsionar a trama, Zacarias só reaparece (ou é mencionado) quase uma hora depois, após longas passagens envolvendo a Fada e a Academia.  E no segundo ato, como a confirmar o que acaba de ser expresso, é dito algumas vezes que "a trama precisa avançar". 

Assim, acredito que, se no total, o espetáculo não durasse três horas (incluindo o intervalo), o público certamente haveria de se envolver bem mais com esta oportuna empreitada teatral, posto que a mesma não deixa de exibir incontestáveis méritos, a começar pela música original e direção musical de Tim Rescala. 

Um dos melhores, senão o melhor, compositor de obras para o teatro deste país, Rescala criou canções belíssimas que, aliadas a arranjos impecáveis, contribuem de forma decisiva para valorizar as (em geral) ótimas letras de Brant. Cabe também destacar as preciosas colaborações dos músicos Marcelo Jardim (regente), Ana de Oliveira (1º violino), Nichola Viggiano, (2º violino), Dhyan Toffolo (viola), Marcus Ribeiro (violoncelo), Batista Jr. (clarinete), Alessandro Jeremias (trompa) e Cosme Silveira (fagote).

Com relação ao espetáculo, Brant e Sueli Guerra impõem à cena uma dinâmica em total sintonia com a magia inerente ao contexto, cabendo salientar as ótimas coreografias de Sueli Guerra. E a ambos também deve ser creditada uma significativa parcela no que concerne às impecáveis performances exibidas pelo elenco, que se divide em muitos personagens e canta de forma esplêndida - neste quesito, torna-se imperioso destacar as contribuições de Agnes Moço e Janaína Azevedo na preparação vocal. Igualmente deslumbrantes a cenografia de Miguel Pinto Guimarães, os figurinos de Carol Lobato, os vídeos de Ricardo e Renato Villarouca, o visagismo de Mona Magalhães e a iluminação de Paulo Cesar Medeiros.

O PEQUENO ZACARIAS - UMA ÓPERA IRRESPONSÁVEL - Texto e letras de José Mauro Brant. Música original e direção musical de Tim Rescala. Direção de Brant e Sueli Guerra. Com José Mauro Brant, Soraya Ravenle, Janaína Azevedo, Chiara Santoro, Sandro Christopher, Wladimir Pinheiro, Rodrigo Cirne e Marcello Sader. Teatro Sesc Ginástico. Sexta a domingo às 19h (matinês às 16h nos dias 06, 13 e 20 de dezembro).

     


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Teatro/CRÍTICA

"Lapinha"

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Belo e oportuno musical



Lionel Fischer



"Filha de uma negra liberta e mais conhecida como Lapinha, Joaquina Maria Conceição da Lapa foi uma cantora lírica e atriz dramática de grande sucesso no final do século XVIII e início do século XIX. Graças à sua bela voz e enorme carisma, Lapinha foi a primeira cantora negra a se destacar na arte cênica brasileira e internacional - recebeu autorização da Rainha D. Maria e do Príncipe Regente para apresentar-se em Portugal, onde morou durante 14 anos".

O trecho acima, extraído (e levemente editado) do release que me foi enviado, resume as principais informações sobre a protagonista do presente musical, que exibe praticamente toda a trajetória artística desta personalidade tão singular e ao mesmo tempo tão pouco conhecida.

Com texto assinado por João Batista, "Lapinha" (Teatro Clara Nunes) chega à cena com direção de Edio Nunes e Vilma Melo, estando o elenco formado por Isabel Fillardis, Zezeh Barbosa, Helga Nemeczyk, Ivan Vellame, Naná Nascimento e Ruben Gabira.

Em termos de estrutura narrativa, o texto mescla o presente (um grupo tenta decifrar o mistério de uma tela pintada de negro, tendo a auxiliá-lo um funcionário do museu) e o passado (a trajetória da cantora desde muito jovem). E entre idas e vindas, o referido mistério acaba sendo elucidado, pois fica-se sabendo que, em algumas ocasiões, a cantora maquiou de branco seu rosto, braços e mãos, única forma de ser aceita pela sociedade hipócrita e preconceituosa da época - que, diga-se de passagem, continua hipócrita e preconceituosa nos dias de hoje.

Mas o texto não se resume, evidentemente, à elucidação de um mistério. Ele nos mostra, de forma contundente e poética, a determinação de uma mulher que, dada a sua beleza, poderia ter se tornado mera cortesã. No entanto, e mesmo que eventualmente tenha feito algumas concessões para dar prosseguimento à sua carreira - fato sempre contestado por sua mãe -, o que importa ressaltar é que acabou se impondo como uma grande artista. E é óbvio que a rainha e o regente sabiam que ela era negra, assim como o público português, que a acolheu sem reservas. 

Bem escrito, contendo bons personagens e uma trama que prende a atenção da plateia ao longo de todo o espetáculo, o texto de João Batista recebeu excelente versão cênica de Edio Nunes e Vilma Melo. Valendo-se de marcas diversificadas e expressivas, e impondo à montagem uma atmosfera que ora prioriza o drama, ora o humor e muitas vezes sugere um Conto de Fadas, os encenadores exibem o mérito suplementar de haverem extraído ótimas atuações do elenco.

Na pele de Lapinha, Isabel Fillardis valoriza em igual medida tanto as passagens mais dramáticas quanto aquelas em que o humor predomina, além de cantar de forma afinada e sempre expressiva. A mesma eficiência se faz presente na performance de Zezeh Barbosa, que impõe à mãe da protagonista doses equivalentes e justas de ternura e retidão moral.

Dividindo-se entre personagens de época e atuais, Ruben Gabira, Naná Nascimento, Ivan Vellame e Helga Nemeczyk exibem ótimas interpretações e cantam de forma esplêndida as belíssimas canções compostas por Wladimir Pinheiro, também responsável por irretocáveis letras, arranjos e direção musical - e aqui torna-se imperioso ressaltar a maestria do conjunto formado por Felipe Tauil, Gabriel Gravina, Isabelle Albuquerque, Luiz Felipe Ferreira e Whatson Cardozo.   

Na equipe técnica, Aurélio de Simoni responde por uma iluminação primorosa, certamente a maior responsável pela já mencionada atmosfera de Conto de Fadas que a montagem exibe em alguns momentos. Um trabalho que reitera, uma vez mais, que Aurélio de Simoni não é apenas um profissional exemplar: Aurélio é um poeta. Cabe também destacar os irrepreensíveis cenário e figurinos da Espetacular! Produções e Artes (Ney Madeira, Dani Vidal e Pati Faebo), assim como as preciosas colaborações de Mona Magalhães (visagismo) e Ester Elias e Marcelo Sader (preparação vocal).

LAPINHA - Texto de João Batista. Direção de Edio Nunes e Vilma Melo. Com Isabel Fillardis, Zezeh Barbosa, Helga Nemeczy, Ivan Vellame, Naná Nascimento e Ruben Gabira. Teatro Clara Nunes. Quarta, 21h. Quinta e sexta, 18h30.