segunda-feira, 25 de agosto de 2014

TEXTO PARA ESTUDO

No momento não estou
de Elisa Lucinda


Olhando a cara dos dias, vejo como é sórdida tua secretária eletrônica: Ela mente pra mim na mesma tônica: doublé de seu medo...Vou te contar um segredo: Eles venceram. Venceu a mesquinharia, a pequeneza, a teoria rasa, a safadeza...No meio da luta, você preferiu ser o nêgo filho da puta da história que escreveram pra você encenar, da promessa que fizeram pra você cumprir, pra você pagar. Essa noite, sua covardia repete o açoite: aceita a mesma escravidão pra te enganar. Ai, como é mórbida tua secretária eletrônica, roubou meu batom e no mesmo tom me diz que você não está. Como uma armadilha de sonora trilha, pede um recado após o sinal...Não dou! Antes disso terá um longo curto-circuito entre as pernas, essa tua secretária calhorda, essa tua secretária moderna, tão sonsa, tão palerma. Ligada por ti pra te sacanear! Acionada por ti pra te carear os dentes da alma e depois te pede pra sorrir pra sua própria demência. Uma ridícula dona de casa chamada Ausência!

*     *     *
Sugestão para estudo:
        
Talvez seja correto afirmar que Elisa Lucinda escreve poesias para serem ouvidas, tamanha é a teatralidade nelas contida - isto não significa, bem entendido, que não possam ser apreciadas quando apenas lidas. Assim, quase todas elas oferecem excelentes oportunidades para um ótimo trabalho de interpretação. Esta focaliza com sensibilidade uma série de queixas amorosas e, de quebra, investe contra esse abominável aparelho denominado secretária eletrônica, permanente fonte de desgostos e frustrações.     
        
Vamos, portanto, fazer com que a poesia aconteça, imaginando quem seria a mulher que se lamenta e acusa; em seguida, uma circunstância que confira credibilidade ao desabafo - a personagem está sozinha, fala na secretária eletrônica, está escrevendo uma carta?. E finalmente, trabalhar as idéias e sentimentos com a maior carga possível de verdade e emoção. Quem sabe a pessoa do outro lado desliga a secretária e atende? (LF)

*     *     * 



Ana Cristina César


Nasceu no Rio de Janeiro. Viveu um ano em Londres, em 1968. Escreveu para revistas e jornais alternativos, saiu na antologia 26 Poetas Hoje, de Heloísa Buarque. publicou, pela Funarte, Mestrado em comunicação, lançou livros em edições independentes: Cenas de Abril eCorrespondência Completa. Dez anos depois, outra vez a Inglaterra, onde, às voltas com um M.A. em tradução literária, escreveu muitas cartas e editou Luvas de Pelica. Ao retornar, descobriu São Paulo e fixou residência no Rio. Trabalhou em jornalismo, televisão e escreveu A Teus Pés. Suicidou-se no dia 29 de outubro de 1983

"A poesia de Ana Cristina Cesar caracteriza-se por ser predominantemente confessional, mas o tom de intimidade, não nos deve enganar, pois é apenas um lance de sedução estética. A correspondência, realmente, como apontou Armando Freitas Filho, teve bastante influência sobre a sua dicção poética. Ela cria um verdadeiro jogo de linguagem: textos curtos, poemas fragmentados, cartas, páginas de diário. A poesia torna-se, desta forma, uma inquietante reflexão sobre o próprio fazer literário".  (p. 22)

"Assim percebemos que o texto-colagem da poeta instaura um sujeito estilhaçado, uma memória construída através da subjetividade fincada no corpo coletivo da linguagem. Seu método de composição baseia-se na apropriação incessante de versos e trechos de outros escritores que ela distorce, desloca, alude, readapta, reescreve, parafraseia e parodia. É uma obra que faz uma reflexão constante sobre a natureza do literário".  (p. 27)

"Os poemas de Ana Cristina Cesar, inserida no clima da geração 70, revelam, entre as muitas características que marcaram a produção poética daquela época,  as seguintes: atração pelo insólito do cotidiano; ênfase na experiência existencial num momento especialmente difícil da história e da política brasileira; volta à primeira pessoa, à escrita da paixão e do medo como caminho eficaz no sentido de romper o silêncio e a perplexidade que tomaram de assalto a produção cultural no início da década; o sentido de asfixia, experimentado no cotidiano, mas trabalhado com humor; valorização do coloquialismo; culto do instante, eixo fundamental da nova poesia e do binômio arte e vida. / O binômio arte e vida era a consolidação de uma visão de mundo que valorizava o aqui e o agora: a ideia do presente, eliminando a ideia de futuro." (p. 55)

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Textos extraídos da excelente obra de Arminda Silva de Serpa "Lições sobre asas e abismos; uma leitura da poesia de Ana Cristina Cesar", a partir de uma tese de doutorado.  Fortaleza> Imprece, 2009.   Metadados: Poesia da geração 70;  Poesia e comportamento; Poesia brasileira anos 1970. Crítica de Poesia.



                                     A última gravação de Krapp

de Samuel Beckett

Noite, sobre a tarde, de aqui a algum tempo. No proscênio ao centro, uma mesinha de duas gavetas que abrem para o lado da sala. Sentado à mesa, de rosto para o público, quer dizer: do lado oposto às gavetas, um velho de aspecto relaxado. Krapp.

Calças estreitas, demasiado curtas, de um negro duvidoso. Colete sem mangas de um negro não menos duvidoso e com quatro grandes bolsos. Relógio de prata, pesado e de corrente. Camisa branca sebenta, desabotoada no pescoço, sem colarinho. Surpreendente par de botas, de um branco encardido, remontando pelo menos a 48, muito estreitas e bicudas.

Rosto branco. Nariz violáceo. Cabeleira cinzenta em desordem. Mal barbeado. Muito míope (mas sem óculos). Duro de ouvido. Voz de cana rachada muito particular. Andar laborioso.

Em cima da mesa, um magneto fone mais o respectivo microfone e numerosas caixas de cartão com bobinas de fita impressionada dentro.
A mesa e as imediações banhadas em luz crua. O resto da cena na obscuridade. Krapp permanece um momento imóvel, solta um enorme suspiro, olha para o relógio, vasculha os bolsos, tira um sobrescrito de um deles. Torna a escondê-lo, vasculha de novo, tira um minúsculo molho de chaves, ergue-o a altura dos olhos, escolhe uma chave, levanta- se e caminha para a frente da mesa. Baixa- se, abre a fechadura da primeira gaveta, espreita para dentro, mete- a na mão, tira uma bobina, examina- a de perto, torna a escondê-la, volta a fechar a gaveta. A chave, abre e fecha na segunda gaveta, espreita pra dentro, mete a mão, tira de lá uma grande banana. Examina- a de perto, torna a fechar a gaveta a chave e volta a por as chaves no bolso. Volta, avança até a beira da cena, detém- se, acaricia a banana, descasca- a, deixa cair as casas ao seus pés, mete a ponta da banana na boca e permanece imóvel, os olhos fixos no vazio. Por fim morde a extremidade da banana volta- se e põe- se a andar de cá para lá à beira da cena, isto é: à razão de quatro ou cinco passos no Maximo em cada sentido, mastigando ao mesmo tempo meditativamente a banana. Pisa a casca, tropeça, por pouco não cai, equilibra- se, inclina- se, contempla a casca e por fim, sempre curvado, empurra-a com a ponts do pé para o fosso da orquestra. Retoma o seu vaivém, acaba de comer a banana, volta para a esa, senta- se, fica um momento imóvel, solta um enorme suspiro, tira as chaves do bolso, levanta- se a altura dos olhos, escolhe uma chave, levanta- se e caminha para a frente da mesa, abre a fechadura da segunda gaveta, tira dela uma segunda grande banana, examina- a de perto, torna a fechar a gaveta à chave, torna a por as chaves no bolso, volta- se, avança até a beira da cena, detém- se, acaricia a banana, descasca- a, atira a casca para o fosso da orquestra, mete a ponta da banana na boca e fica imóvel, os olhos fixos no vazio. Por fim, tem uma idéia, Põe a banana num dos bolsos do colete onde fica com a ponta de fora e com toda a velocidade de que é capaz corre para o fundo da cena, que esta na obscuridade. Dez segundos. Ruído de um tirar de tampo. Quinze segundos. Volta para a luz, carregando um registro velho, e senta- se à mesa. Pousa o registro em cima da mesa, enxuga os lábios, limpa as mãos ao colete, bate palmas e esfrega- as.

KRAPP- (com vivacidade) Ah! (inclina- se sobre os registros, vira as páginas, encontra a ficha que procura, lê). Caixa...três...bobina..(levanta a cabeça e olha fixamente diante de si, com prazer).Bobiña! (Pausa) Bobiña. (Debruça- se sonre a mesa feliz, ecomeçaa vasculhar as caixas examinando- as de perto) Caixa...três...três...quarto...dois... (Surpresa)... Nove! Santo nome de Deus!.. Sete...ah! Magana! (Agarra uma caixa, examina-a de muito perto) Caixa- três. (Pousa- a sobre a mesa, abre-a e inclina- a sobre as bobinas que tem dentro). Bobina... (curva- se sobre o registro) Cinco...cinco..ah! Sua farroupilha! (Tira uma bobina, examina- a de perto) Bobina cinco. (Poe- na em cima da mesa, fecha a caixa três, arruma- a junto das outras, torna a pegar a bobina). Caixa três, bobina cinco. (Inclina- se sobre o aparelho, levanta a cabeça. Com prazer). Bobina!! (Sorriso feliz. Inclina- se, coloca a bobina no aparelho, esfrega as mãos). Ah! (Debruça- se sobre o arquivo, lê a nota em baixo da página). Mamã finalmente em paz...hm... A bola negra..(Ergue a cabeça, olhos fitos no vazio diante de si) Bola negra?.. (Inclina- se de novo sobre o arquivo, lê) A sopeira trigueira.. (Levanta a cabeça, devaneia, inclina- se outra vez sobre o arquivo, lê). Ligeiras melhoras do estado intestinal...hm... Memorável ...o que? (Olha mais de perto, lê). Equinócio, memorável equinócio. (Ergue a cabeça, os olhos fitos no vazio. Intrigado) memorável equinócio? (Pausa. Encolhe os ombros, inclina- se de novo sobre o arquivo, lê). Adeus ao a... (volta a página) mor.

Levanta- se a cabeça, devaneia, debruça- se sobre o aparelho, liga-o e poe- se em posição de escuta, quer dizer o busto inclinado para frente, os cotovelos sobre a mesa, a mão em pose de corneta acústica na direção do aparelho, de rosto para a sala.

A FITA: (Voz forte, um tanto solene, manifestando a voz de Krapp em época muito anterior)

Trinta e nove anos hoje, sólido como uma...

(Ao querer instalou- se mais confortavelmente, faz cair uma das caixa, pragueja, desliga o aparelho, atira com um gesto violento caixas e arquivo para o chão. Torna a por a fita no ponto de partida , volta e liga o aparelho, retoma- a a posição anterior).

Trinta e nove anos hoje, sólido como uma ponte, à parte do meu velho ponto fraco, e quando a intelectualidade, tenho agora razões, para me suspeitar, no.. (Hesita) no píncaro da vaga- ou pouco falta, na verdade. Celebrada a solene ocasião, como todos esses anos, tranquilissimamente, na Taverne. Nem vivalma. Para ali me deixar estar diante do fogo, os olhos fechados, a separar o trigo do joio cá da minha vida. Rabisquei algumas notas nas costas de um sobrescrito. Feliz por estar de volta à minha mansarda, aos meus trastes. Acabo de comer, lamento dizê-lo, três bananas e abstive-me de comer a quarta sabe Deus com que custo. Autêntico veneno para um homem no meu estado. (Com veêmencia). A eliminar. (Pausa). A nova iluminação mesmo por cima da minha mesa constitui um grande melhoramento. Com toda essa obscuridade à minha volta sinto- me menos só. (Pausa) Em certo sentido. (Pausa). Adoro levantar-me para lhe dar uma volta, depois voltar aqui a.. (Hesita) mim. (Pausa) Krapp.

Pausa.

O trigo vejamos, pergunto a mim mesmo que entendo eu por tal. Entendo... (Hesita) suponho que entendo por trigo todas essas coisas que ainda hão- de valer a pena quando toda a poeira te ver - quando toa a minha poeira se tiver depositado. Fecho os olhos e faço força para (?)..

Pausa. Krapp fecha os olhos, um breve instante.

Extraordinário silencio essa noite, bem aguço os ouvidos, não se move um suspiro. A velha Miss McGlone canta sempre a esta hora. Mas esta noite não. Canções do tempo em que era rapariga, diz ela. Difícil imaginá-la rapariga. Maravilhosa velha apesar de tudo. Uma Connaught, tenho a impressão. (Pausa). Eu cantarei quando tiver a idade dela, se chegar a idade dela! Não. Cantava acaso quando era capaz? Não. Cantei alguma vez? Não.

Pausa.

Acabei agora mesmo de ouvir um ano antigo, passagens ao acaso. Não verifiquei no livro, mas a coisa deve remontar a uns dez ou doze anos atrás- pelo menos. Julgo que nessa altura vivia ainda com Blanca em Kedar Street, enfim, quando a Deus prazia. Escapei de boa, oh, se escapei! Era um caso perdido (Pausa). Nada a respeito dela, à parte uma homenagem aos meus olhos. Entusiástica. Tornei a vê-los de repente. (Pausa). Incomparáveis! (Pausa). Enfim... (Pausa). Sinistras essas exumações, mas acho-as as mais das vezes- (Krapp desliga o aparelho, devaneia, torna a ligar o aparelho) úteis antes de me lançar a um novo... (Hesita) volta atrás. Difícil acreditar que alguma vez eu tenha sido alguma vez aquele cretinóide. Aquela voz!

Jesus! E aquelas aspirações! (Risada breve a que se junta Krapp). E aquelas resoluções! (Risada breve a que se junta a Krapp). Beber menos, nomeadamente. (Risada breve de Krapp sozinho). Estatísticas. Mil e setecentas horas em oito mil e alguns precedentes volatilizados apenas em tascas rascas. Mais de 20%, digamos 40%, da sua vida acordada. (Pausa). Planos par uma vida sexual menos... (Hesita) absorvente. Ultima doença de seu pal. Procura cada vez mais frouxa da felicidade. Flasco dos laxativos. Sarcasmos sobre o que ela chama a sua juventude e ação de graça por ela ter acabado. (Pausa) Falta nota neste sítio. (Pausa) Sombra do opus..magnum. E para acabar uma - (risada breve)- casquinada em intenção da Providência. (Risada prolongada a que se junta Krapp). Que coisa resta de todas essas misérias? Uma moça de capa verde em uma estação? Ou não?

Pausa.

Quando contemplo- (Krapp desliga o aparelho, devaneia, olha para o relógio, levanta- se e vai até ao fundo da cena que está na obscuridade. Dez segundos ruído de um tirar de tampa. Dez segundos segunda tampa. Dez segundos. Terceira tampa. Súbita cantiga, “ entre- cortada” e trêmula.)

KRAPP (cantando)- À sombra desce das nossas montanhas.
                               O azul do céu vai não vai empalidece. 
                               O barulho extingue- se
Acesso de tosse. Volta a luz, senta- se, limpa a boca. Torna a ligar o aparelho, retoma a posição de escuta.

A FITA-  volta- atrás ao ano do passado, com possivelmente- espero- alguma cois do meu velho olhar por vir, existe naturalmente a casa do canal onde a mamã se extinguia. No outono moribundo, após uma longa viuvez (Krapp estremece). E o- (Krapp desliga o aparelho, poe a fita um pouco mais atrás, aproxima o ouido do aparelho, torna a ligá-lo)- se extinguia, no Outono moribundo, após uma longa viuvez, e o- (Krapp desliga o aparelho, põe a fita um pouco mais atrás, aproxima o ouvido do aparelho, torna a liga-lo) se extinguia, no Outono moribundo, após uma longa viuvez, e o -

 (Krapp desliga o aparelho, levanta a cabeça, olhos fixos no vazio. Mexe os lábios sem ruídos formando as sílabas de viuvez. Levanta- se, vai para o fundo da cena que está na obscuridade. Volta, com um dicionário enorme, senta- se, pousa- o sobre a mesa, e procura as palavras.)

KRAPP- (Lendo o dicionário) Estado- ou condição- de quem é- ou permanece - viúvo- ou viúva. (Levanta a cabeça indignado) Quem é- ou permanece?- (Pausa. Inclina- se de novo sobre o dicionário. Volta as páginas) Viúvo... Viúvo... Viuvez (Lendo) Os véus espessos da viuvez... Diz- se de um animal, particularmente de um pássaro... Viuvinha ou viúva... A plumagem negra dos machos... (Levanta a cabeça. Com deleite) A viuvinha.

Pausa. Fecha o dicionário, liga outra vez o aparelho, retoma a posição de escuta.

A FITA-   Banco perto da levada de onde podia ver os vidros da janela dela. Ali ficava eu, sentado ao vento desabrido, desejando que ela acabasse. (Pausa). Quase ninguém, alguns crônicos apenas, sopeiras, garotos, velhos, cães. Acabei por conhecê-los bem- oh, quero dizer de vista, bem entendido! Lembro- me sobretudo de uma tenra beldade morena, muito branca do pó de arroz, com um peito incomparável, que empurrava um carrinho de capota negra, de um fúnebre, só visto! Todas as vezes que olhava na direção dela, tinha os olhos em cima de mim. Pois quando tive a coragem de lhe dirigir a palavra - sem lhe ter sido apresentado- ameaçou-me de chamar a policia. Como se eu tramasse contra a sua virtude! (Riso) A carinha que ela tinha! Que olhos! Tal qual... (Hesita)  crisólitos! (Pausa) Enfim... (Pausa). Eu estava lá quando - (Krapp desliga o aparelho, devaneia...torna a ligar o aparelho) Levantei a cabeça, e já estava... Um caso, finalmente. Fiquei onde estava ainda alguns instantes, sentado no banco, com uma bola na mão e um cão a latir atrás dela e a mendiga- la com a pata. (Pausa) Instantes... (Pausa) os seus, dela, instantes, os meus, muito meus, instantes. (Pausa) Os instantes do cão. (Pausa) Por fim, ele a abocanhou com o focinho, meigamente, meigamente. Uma bola de borracha pequena, velha, negra, plena, dura. (Pausa) Sentirei na mão, até o dia da minha morte. (Pausa). Podia tão bem tê- la guardado. (Pausa). Mas dei-a ao cão.

Pausa.

Enfim..

Pausa.

- Espiritualmente um ano não se pode conceber mais negro e mais pobre até essa memorável noite de Março, na extremidade do pontão, à ventania, nunca me esquecerei, em que tudo se me  tornou claro. A visão, finalmente. Eis, suponho, o que tenho sobretudo que registrar esta noite, na previsão do dia em que os meus trabalhos estiveram... (Hesita) acabados e em que eu não terei, quem sabe, mais nenhuma recordação, nem boa nem má, do milagre que... (Hesita) do fogo que a abrasara. O que de súbito vi então, era que a criança que tinha guiado toda a minha vida, a saber- (Krapp desliga o aparelho com impaciência, faz avançar a fita, ...torna a ligar o aparelho)- grandes rochedos de granito e a espuma que jorrava sob a luz do farol e o anemômetro que turbilhonava como uma hélice, claro para mim, enfim, que a obscuridade que me encarniçara sempre por reclacar em mim e na realidade o meu melhor- (Krapp desliga o aparelho com impaciência, faz avançar a foto. Torna a ligar o aparelho)- indestrutível associação até o último suspiro da tempestade e da noite mais a luz do entendimento e o fogo- (Krapp pragueja, desliga o aparelho, faz avançar a fita, torna a desligar o aparelho) - o rosto entre os seus seios e a mão por cima dela. Ali ficamos, deitados, sem nos mexermos. Mas debaixo de nós, tudo estremecia, e nos fazia estremecer, docemente, de alto a baixo, e de lá pra cá.

Pausa.

- Passa da meia- noite. Jamais ouvi tamanho silêncio. A terra podia ser desabitada.

Pausa.

Aqui termino- (Krapp desliga o aparelho, volta com a fita, atrás torna a ligar o aparelho).- no alto do lago, mais o barco, nadei perto da margem, depois levei o barco até o lago e deixei-o andar sem governo. Ela estava deitada sobre as tábuas do fundo, as mãos debaixo da cabeça, e os olhos fechados. Sol, fulgurante, uma bisca de brisa, a água um tudo nada marulhante- como eu gosto dela. Notei-lhe um arranhão nas coxas e perguntei-lhe como o tinha feito. À  colher groselhas verdes, respondeu-me ela. Disse-lhe ainda que tudo aquilo parecia sem esperança e não valia a pena continuar e ela fez que sim sem abrir os olhos. (Pausa). Pedi-lhe que olhasse para mim e após alguns instantes - pausa- após alguns instantes, ela olhou. Os olhos porém como fendas por causa do sol. Inclinei-me sobre ela para os pôs à sombra e eles abriram- se. (Pausa). Deixaram- me entrar. (Pausa) Derivávamos por entre os caniços e o barco encalhou. Como eles se dobravam, suspirando diante da proa. (Pausa) Vim-me sobre ela, o rosto entre os seus seios e a mão por cima dela. Ali ficamos deitados, sem nos mexermos. Mas debaixo de nós, tudo estremecia, e nos fazia estremecer, docemente, de alto a baixo e de lá para cá.

Pausa.

- Passa da meia noite. Jamais ouvi-

Krapp desliga o aparelho. Devaneia. Por fim, vasculha os bolsos, encontra a banana, tira-a, examina- a de perto, e torna a meter no bolso, vasculha outra vez, tira o sobrescrito, vasculha outra vez, torna a meter o sobrescrito no bolso, levanta- se e vai para o fundo da cena, que está na obscuridade. Dez segundos. Ruído de garrafa contra o vidro. Depois breve ruído de sifão. Dez segundo. De novo a garrafa contra o vídeo, mais nada. dez segundos. Volta com o passo mal seguro para a luz, dirige- se para a frente da mesa, tira do bolso as suas chaves, levanta- as à altura dos olhos, escolhe uma, abre a fechadura da primeira gaveta, olha pra dentro, mete a mão, tira uma bobina, examina- a de perto, torna a fechar a gaveta à chave, volta a por as chaves no bolso, vai sentar- se, tira a bobina do aparelho, coloca-a sobre o dicionário, coloca a bobina virgem no aparelho, tira o sobrescrito do bolso, consulta o anverso, pousa-o sobre a mesa, devaneia, liga o aparelho, aclara a voz e começa a gravar.

KRAPP- Acabei de ouvir esse cretinóide por quem me tomava há trinta anos, custa a acreditar que eu já tenha sido...Ao menos, isso acabou, graças a Deus. (Pausa). Os olhos que ela tinha! (Divaga, se percebe, que está gravando o silencio, desliga o aparelho, divaga. Por fim). Tudo ali estava, toda a- (Percebe que o aparelho não está ligado, torna a ligá-lo) Tudo ali estava, toda a velha carcaça do planeta, toda a luz e a obscuridade, a fome e as comezainas dos séculos! (Pausa. Em um grito) Sim, senhor! (Pausa. Amargo). Deixar fugir uma coisa daquelas!Jesus! Uma coisa que podia, Tê-lo distraído dos seus quadris! Jesus! (Com cansaço) Enfim, talvez ele tivesse razão. (Divaga, apercebe- se . Desliga o aparelho. Consulta o sobrescrito) Bah! (Torna a lidar o aparelho) Nada a dizer, que chatice! Que raio vem a ser isso hoje, outro ano? Merda mastigada e rolha no cu. (Pausa) Saboreei a palavra bobina. (Com deleite) Bobiina! O instante mais feliz dos últimos quinhentos mil. Dezessete exemplares vendidos, dos quais onze a preço de grossista às bibliotecas municipais do ultramar. Em riscos de me tornar alguém. Uma libra, seis xelins e alguns dinheiros, oito provavelmente. Arrastei-me lá por fora uma vez ou duas antes de o Verão gelar. Fiquei sentado a tiritar no parque, mergulhado em sonhos e ardendo por acabar. Ninguém. Derradeiras quimeras. (Com veemência). A recalcar! Queimei os olhos a ler Effie mais uma vez, uma página por dia, de lágrimas nos olhos ainda, Effie...(Pausa) Teria podido ser feliz com ela no mar Báltico, entre pinheiros e dunas. (Pausa) Não? (Pausa) E ela? (Pausa) Bah! (Pausa) Fanny veio uma ou duas vezes. Velha sombra de prostituta esquelética. Não consegui fazer grande coisa, mas sem dúvida melhor do que um pontapé entre as pernas. A última vez, não foi tão mal quanto isso. Como consegues a tua conta, disse-me ela, com essa idade? Respondi-lhe que me reservara para a ela toda a vida. (Pausa) Lá fui às Vésperas uma vez como quando usavam calções. (Pausa, canta).

Cantando- A sombra desce das nossas montanhas
                 O azul do céu vai não vai empalidece,
                 O barulho extingue- se (Acesso de tosse quase inaudível)
                 Em breve tudo vai dormir em paz.

(Ofegante) - Adormeci e cai do banco abaixo. (Pausa) Muitas vezes me perguntei a meio da noite se um ultimo esforço me não seria talvez...(Pausa) Basta! Emborca a garrafa e deita- te a dormir. Continua as bandalheiras amanhã. Ou fica por aí. (Pausa) Fica por aí, pois. (Pausa) Instala- te no escuro, agarrado aos travesseiros- e vadia. Vai outra vez até ao vale em vésperas de Natal colher azevinho, azevinho de bagas vermelho. (Pausa) Vai mais uma vez até à beira do Croghan um domingo de manhã, entre a bruma, e leva a cadela, pára e escuta os sinos. (Pausa) E assim sucessivamente. (Pausa). Toda essa velha miséria. (Pausa). Uma vez não te bastou. (Pausa) Vem- te sobre ela.

Longa pausa. Inclina- se bruscamente sobre o aparelho, desliga-o, arranca a fita, atira-a para longe, coloca a outra no aparelho, fá- la avançar até a passagem que procura, torna a ligar o aparelho, escuta de olhos fitos.

A FITA- Groselhas verdes, respondeu-me ela. Disse-lhe ainda que tudo aquilo me parecia sem esperança e não valia a pena continuar e ela fez que sim sem abrir os olhos. (Pausa) Pedi-lhe que olhasse para mim e após alguns instantes- (pausa)- após alguns instantes ela olhou, os olhos porém como fendas por causa do sol. Inclinei-me sobre ela para os pôs à sombra e eles abriram- se. (Pausa) Deixaram- me entrar. (Pausa) Derivávamos por entre os caniços e o barco encalhou. Como eles se dobravam, suspirando, diante de .. (Pausa) Vim- me sobre ela, o rosto entre os seus seios e a mão por cima dela. Ali ficamos, deitados, sem nos mexermos. Mas, debaixo de nós, tudo estremecia, e nos fazia estremecer, docemente de alto a baixo, e de lá pra cá.

Pausa. (Os lábios de Krapp murmuram sem ruído)

- Passa da meia- noite. Jamais ouvi tamanho silencio. A Terra podia ser desabitada,

Pausa.

Aqui termino esta fita. Caixa- (pausa)- três bobinas- (pausa). Possivelmente os meus melhores anos já passaram. Quando havia ainda uma oportunidade de felicidade! Mas agora já não quero. Agora que tenho esse fogo dentro de mim. Não, agora já não quero.

Krapp fica imóvel, olhos fitos no vazio. A fita continua a desenrolar- se em silêncio.

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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

FÓRUM PSICANÁLISE E CINEMA

Retomamonossas atividades, nesse segundo semestre, no dia 29 de agosto, às 18h, com o instigante filme: QUANDO NIETZSCHE CHOROU, baseado na obra homônima de Irvin Yalon, psicanalista americano que, através de um encontro fictício, reúne o famoso Dr. Josef Breuer, o filósofo Friedrich Nietzsche e a escritora Lou Andreas Salomé. Com situações que explicitam os primórdios do tratamento psicanalítico, por certo, as análises ensejarão um estimulante debate e muita curiosidade.
UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
(UNIRIO/PROEXC - PROJETO CULTURAL) E
SOCIEDADE PSICANALÍTICA DO RIO DE JANEIRO (SPRJ)
convidam para assistir: QUANDO NIETZSCHE CHOROU
DIREÇÃO: PERRY PICHAS/ Debatedor: Dr. NEILTON SILVA
SINOPSEO filme é uma adaptação do romance Quando Nietzsche Choroumontado em uma abordagem ficcional de um encontro que nunca aconteceu, mas poderia ter acontecido: Breuer (Ben Cross), Nietzsche (Armand Assante) e Freud (Jamie Elman). A ação situa-se na Viena do século XIX, na primavera de 1882, com bela reconstituição de época e excertos de óperas.
DATA: 29 DE AGOSTO DE 2014
HORÁRIO: FILME: 18h; ANÁLISE E DEBATE: 20h às 22h.
LOCAL: SALA VERA JANACÓPULOS – UNIRIO
ENDEREÇO: AV. PASTEUR, 296.
ENTRADA FRANCA
Contando sempre com a divulgação e com os nossos agradecimentos pela presença, recebam um grande abraço.
Ana Lúcia, Neilton e Zusman.
NOTA: Quem se interessar em adquirir o livro: Fórum de Psicanálise e Cinema: análises culturais e psicanalíticas, de Ana Lúcia de Castro e Neilton Silva, ele se encontra à venda pelo site - www.travessa.com.br/ - e nas diversas filiais da Livraria da Travessa, assim como nos dias do FÓRUM. 
Igualmente, o livro do Dr. Waldemar Zusman: Poemas & Textos de um Psicanalista: rimas, risos & reflexões,poderá ser adquirido no Fórum.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Teatro/CRÍTICA

"Jazz do coração"

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Comovente e emocionante tributo



Lionel Fischer



Muito já se escreveu sobre a obra de Ana Cristina César (1952-1983), em minha opinião não apenas uma das maiores poetas de sua geração, mas de todas as gerações. E como sou um admirador apaixonado de suas poesias, tive a tentação de falar um pouco sobre elas. No entanto, achei mais sensato recorrer a um especialista (no caso, uma especialista), que certamente reúne muito mais condições do que eu para resumir o que de mais essencial está contido nos escritos desta poeta de exceção. O trecho abaixo, de autoria de Arminda Silva de Serpa, foi extraído de "Lições sobre asas e abismos; uma leitura da poesia de Ana Cristina César":

"Os poemas de Ana Cristina César, inseridos no clima da geração 70, revelam, entre as muitas características que marcaram a produção poética daquela época, as seguintes: atração pelo insólito do cotidiano; ênfase na experiência existencial num momento especialmente difícil da história e da política brasileira; volta à primeira pessoa, à escrita da paixão e do medo como caminho eficaz no sentido de romper o silêncio e a perplexidade que tomaram de assalto a produção cultural no início da década; o sentido de asfixia, experimentado no cotidiano, mas trabalhado com humor; valorização do coloquialismo; culto do instante, eixo fundamental da nova poesia e do binômio arte e vida. O binômio Arte e Vida era a consolidação de uma visão de mundo que valorizava o aqui e o agora: a ideia do presente, eliminando a ideia de futuro".

Isto posto, estamos aqui diante de um espetáculo que presta emocionante, divertido e comovente tributo a Ana Cristina César. Estruturado a partir de poemas e cartas da autora, "Jazz do coração" (Casa de Cultura Laura Alvim, Sala Rogério Cardoso) chega à cena com dramaturgia e direção assinadas por Delson Antunes, estando o elenco formado por Françoise Forton e Aline Peixoto, que dão vida a Ana Cristina, também conhecida como Ana C.

Talvez a mais importante e singular característica do presente espetáculo resida no fato de que não se procurou biografar a autora, mesclando aos poemas selecionados dados de sua vida e trajetória artística. Não, pelo contrário: aqui a poesia reina soberana e é através dela que podemos usufruir as dores e alegrias (assim como uma infinidade de outros sentimentos) de uma alma atormentada e lúdica, irônica e frágil, potente e inconformada, sempre em busca de algo que talvez nem ela mesma soubesse definir com clareza. Será que, a exemplo do Caligula, de Albert Camus, Ana Cristina César também desejava possuir a lua, ou seja, o impossível?

Para tal pergunta, evidentemente, não tenho resposta. Mas talvez a poeta padecesse de algo que defino como "dor de existir", uma espécie de buraco existencial, uma ferida que jamais cicatriza e cuja origem, não raro, não se consegue detectar com clareza. Seja como for, o que importa agora ressaltar é o magnífico trabalho dramatúrgico feito por Delson Antunes, que costura as poesias de tal forma que mesmo aqueles que jamais leram a poeta terão uma visão mais do que pertinente de sua obra e, consequentemente, de sua vida.

Com relação ao espetáculo, Delson Antunes impõe à cena uma dinâmica que, sem jamais cair em armadilhas recitativas, nos permite viajar por uma mente brilhante, viagem esta ressaltada pelas malas contendo roupas, objetos, lembranças e desejos. Cabe também enfatizar a teatralidade das cenas, muitas delas engrandecidas pelas maravilhosas composições criadas por Pedro Luís e cantadas de forma esplêndida pelas atrizes. Em resumo: um espetáculo impregnado de humanidade e poesia, e que merece ser prestigiado de forma incondicional pelo público carioca.

No tocante às atrizes, há muito tempo não vejo uma tal cumplicidade cênica como a exibida por Françoise Forton e Aline Peixoto. Ambas exibem notável capacidade de entrega, total apropriação das palavras que proferem e, como já dito, cantam de forma esplêndida - e aqui me parece importante mencionar o fato de que cantam não com vozes empostadas, como se pretendessem impressionar incautos com a extensão ou afinação das mesmas: Françoise e Aline cantam como talvez cantasse Ana Cristina César. 

Gostaria também de frisar que, se por um lado, o talento de Françoise não constitui novidade para mim, em contrapartida o de Aline me era desconhecido - como se não bastasse sua irretocável atuação, a jovem atriz de 22 anos ainda toca violão e clarinete. As duas performances, em minha opinião, estão entre as mais significativas da atual temporada.

Na equipe técnica, considero irrepreensíveis as contribuições de todos os profissionais envolvidos nesta imperdível empreitada teatral - Suely Mesquita (direção musical e preparação vocal), Jeane Terra (cenografia), Carol Lobato (figurinos), Luis Paulo Nenén (iluminação) e Adriana Bonfatti (direção de movimento).

JAZ DO CORAÇÃO - Texto de Ana Cristina César. Dramaturgia e direção de Delson Antunes. Com Françoise Forton e Aline Peixoto. Casa de Cultura Laura Alvim (Sala Rogério Cardoso). Terças e quartas, 21h.    








quinta-feira, 14 de agosto de 2014

4º FESTU Rio

De 21 a 31 de Agosto


O 4º FESTU Rio chegou e estamos esperando por um convidado especial: VOCÊ!

O Espaço Tom Jobim recebe mais uma vez o Festival de Teatro Universitário mais aguardado do Rio de Janeiro que ocorrerá do dia 21 ao dia 31 de agosto


O FESTU Rio, como de costume, trouxe novidades e essa é imperdível. A boa desse ano é a MOSTRA DE ESPETÁCULOS: Pela primeira vez resolvemos reunir talentos universitários, alguns deles já passaram pelo festival, e criamos uma Mostra com espetáculos imperdíveis, a preço popular, que é para não haver desculpas de não comparecer.


Mais de 250 inscrições, 5 estados envolvidos, 7 espetáculos, workshops e muita arte é o que impulsiona esta 4º edição.


Os 27 esquetes selecionados se apresentarão na Mostra Nacional nos dias 28, 29 e 30 de agosto a partir das 20:00h e no dia 31 a partir das 19:00h. Nove grupos serão escolhidos para a grande final no dia 31.

Do dia  21 ao dia 24, acontecerá a Mostra de Espetáculos composta por 7 peças. São elas:

“The Book of Mormom” 
“O que Acontece Quando a Coisa Acaba” 
“Isto não é uma guerra” 
“Memória inventada no sonho de alguém” 
“Jubaia, O Recanto das Cores” 
“Tempo Real” 
“Peça Ruim” 

Haverá, também, workshops entre os dias 25 e 31.
- 25 a 28 das 9h às 14h - “Oficina para o ator: A escuta” com a atriz e diretora Miwa Yanagizawa. 
- 30 e 31 das 10h às 16h - “O ator em ação: Encontrar – Perder” com a atriz Helena Varvaki.

Para mais informações, acesse o site: http://www.festurio.com.br

O Espaço Tom Jobim fica na Rua Jardim Botânico, nº1008.


Você não tem motivos para ficar de fora desta! Estamos te esperando!

Teatro/CRÍTICA

"Meu Deus!"

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Deus deprime, mas se trata



Lionel Fischer



Se Deus existe ou não, isso depende da crença pessoal de cada um. Mas supondo que exista e que, tendo feito o homem à sua imagem e semelhança, nada mais natural que eventualmente padeça de algumas agruras inerentes à espécie que criou, dentre elas a depressão. E estando deprimido, a quem Deus poderia recorrer? Trata-se de intrincada questão, não resta dúvida, mas aqui o Todo Poderoso encontra uma solução, digamos, prosaica e caseira: desce à Terra e marca uma consulta com uma psicóloga.

Eis, em resumo, o enredo de "Meu Deus!", da dramaturga israelense Anat Gov. Após cumprir bem-sucedida temporada de quatro meses em São Paulo, a peça acaba de entrar em cartaz no Teatro dos Quatro. Contando com adaptação de Jorge Schussheim, tradução de Eloísa Canton, versão de Célia Regina Forte e direção de Elias Andreato, a montagem traz no elenco Irene Ravache (Ana), Dan Stulbach (Deus) e Pedro Carvalho (Paulo) - este último filho de Ana e portador, ao que me pareceu, de autismo.

Muitos sustentam que uma boa ideia é determinante para o sucesso de qualquer empreendimento artístico. Particularmente, não acredito nisso, pois o que determina o êxito de qualquer projeto depende muito mais da forma como é desenvolvido do que da ideia que lhe deu origem. 

No presente caso, estamos diante de uma ótima ideia, que a autora desenvolve de forma brilhante e com irresistível humor até a metade do texto - há toda uma série de observações impagáveis, sendo a melhor delas o momento em que a psicóloga, após ser informada por Deus de que ele não tivera nem pai nem mãe, o informa que não poderá tê-lo como paciente, já que alguém que não tenha tido mãe "não pode fazer análise" (a frase talvez não seja exatamente essa, mas o sentido, sim).  

No entanto, em sua segunda metade, o texto assume conotações sérias, e os saborosos, divertidos e críticos diálogos são substituídos por graves considerações e questionamentos, a tal ponto que, em dado momento, Deus chega às lágrimas. Esta mudança de rumo, que a autora talvez tenha acreditado que conferiria maior consistência ao texto, me parece sua maior falha, pois fica realmente muito difícil embarcar nas emoções pretendidas da forma como foram materializadas.

Com relação ao espetáculo, Elias Andreato impõe à cena uma dinâmica simples, basicamente atrelada ao desempenho dos atores - postura sábia, sem dúvida, pois uma peça dessa natureza dispensa inócuas mirabolâncias formais. E sua atuação junto ao elenco pode ser considerada irrepreensível. Atores deslumbrantes, Irene Ravache (que a cada dia que passa consegue o prodígio de ficar ainda mais linda) e Dan Stulbach exibem ótima contracena e irretocável tempo de comédia, valorizando ao máximo o potencial dos personagens que interpretam, com Pedro Carvalho compondo de forma sensível o jovem autista Paulo.

Na equipe técnica, não posso avaliar a adaptação de Jorge Schussheim e a versão de Célia Regina Forte, pois não conheço o original. Mas é excelente a tradução de Eloísa Canton, sendo corretas as contribuições de Antonio Junior (cenário), Fause Haten (figurino), Wagner Freire (iluminação) e Jonatan Harold (trilha sonora).

MEU DEUS! - Texto de Anat Gov. Direção de Elias Andreato. Com Dan Stulbach e Irene Ravache. Teatro dos Quatro. Quinta e sexta, 21h30. Sábado às 19h e 21h30. Domingo às 18h30.