quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O amante invisível



de Teresa Frota




Personagens:


Adalgisa  a mulher perfeita, casada há 30 anos com Horácio. Cinqüentona, dona de casa, vive para o lar, o marido e a igreja.


Horácio  marido de Adalgisa, cinqüentão, escriturário. Acha que Adalgisa tem um amante e quer conhecer o fulano. É o corno por obsessão.


Caveirinha  amigo de bar de Horácio. Acredita que a mulher pura existe. Seu nome verdadeiro é Ademar.


Vendedor da loja funerária.



Cenários:


Sala da casa de Adalgisa
Bar de encontros
Funerária
Confessionário
Jardim


* * *


Cena 1 – Funerária


(É uma funerária típica. Caixões de todos os tipos encostados nas paredes. Flores em vasos colocados aqui e ali. Horácio entra, passeia um pouco, pára diante de um caixão imponente, negro, de alças douradas. O vendedor vem correndo, muito simpático, atender ao novo cliente)


Vendedor – Bom dia. O senhor deseja alguma coisa?


Horácio – Ninguém entra numa funerária à toa, meu amigo! Nem para telefonar! É claro que desejo. Um caixão.


Vendedor – Só o caixão, doutor? Posso lhe mostrar o serviço completo. Sem compromisso.


Horácio – Ué, só o caixão não chega? Morto precisa mais de que?


Vendedor – Depende. O seu morto...


Horácio – Morta.


Vendedor – Sua morta. É de consideração?


Horácio – Assim. Assim. É minha mulher.


Vendedor – Sinto muito.


Horácio – Eu é que sinto. Ter casado com ela!


Vendedor – Bem, para sua esposa o senhor deve querer um serviço de luxo... Posso lhe sugerir o plano “Paraíso Resplendoroso”. No caso de defunto do sexo feminino, além desse belíssimo e confortável caixão em ébano maciço, com tampo superior esculpido em alto relevo, alças folheadas a ouro, o “Paraíso Resplendoroso” dá direito a maquiador, cabeleireiro, manicura, pedicura, até depilador, se for necessário.... e, para os viventes, é servido Prosecco, da melhor qualidade.


Horácio – Não exagera. Estou casado há mais de 30 anos.


Vendedor – Compreendo.... Bem, nesses casos temos um plano, tão bom quanto, e com um preço mais razoável: o “Deleite Celestial”. O depilador fica de fora. Mas a defunta sua senhora ainda vai contar com um modelo, exclusivo, feito sob medida no tecido de sua escolha, pelo nosso estilista. Um belíssimo véu em tule rendada... e, para os viventes, uísque 8 anos “on the rocks”


Horácio – Sei, sei. Quanto custa essa xaropada?


Vendedor – À vista, apenas tantos mil e quinhentos reais, fora o caixão...


Horácio – Mas esse preço está pela hora da morte!


Vendedor – É a hora da morte, meu senhor! Mas...pode ser dividido em módicas prestações.


Horácio – Não, não. Vamos ver algo mais em conta.


Vendedor – Bem, temos ainda um plano mais tímido, porém eficiente! O básico “Vai Com Deus!”, que inclui um caixão de cedro com alças em latão dourado, forro de cetim, da cor da preferência da morta, e véu em organza pele de ovo adamascada. O figurino, maquiagem e cabelo ficam a cargo da defunta. São servidos copos de cerveja nacional, com pasteizinhos de carne ou queijo. Posso fazer para o senhor por....


Horácio – Meu filho, presta atenção! Me arruma logo um caixão e não enche!


Vendedor – Vejo que o senhor está transtornado com a morte da sua esposa. Mas aqui, na “Funerária Morte À Vista” o cliente sempre sai satisfeito. Temos o plano perfeito para o senhor, bem simplezinho, discreto. É o nosso carro chefe nos casos assim de morte de marido ou esposa: o plano “Já Vai Tarde”. Consiste em um caixão modesto, simples, de pinho envernizado, sem alças, mas com uma cordinha para segurar. A defunta é depositada pelos próprios familiares e ainda leva de brinde um lindo buquê de flores artesanalmente executado por nossos funcionários. Bebida e comida são à parte, claro. O preço é esse (Mostra o papel), dividido em cinco vezes sem juros. A primeira parcela o senhor só paga na missa de sétimo dia.


Horácio – Perfeito. Agora nos entendemos.


Vendedor (Pega o bloco de anotações) – O velório. Vai ser em casa ou na capela?


Horácio – Ainda não decidi.


Vendedor – O senhor pode nos dar o endereço onde a defunta se encontra?


Horácio – Não sei. Ela saiu de manhã, não sei se já voltou.


Vendedor – A morta...saiu?


Horácio – Ela ainda não está morta.


Vendedor – A morta ainda não morreu?


Horácio – Ainda não, mas vai! (Música)


Cena 2 - Casa de Adalgisa


Um sofá de vinil surrado, uma poltrona pé de palito, duas mesinhas de madeira escura ao lado do sofá. Na mesa. encostada na parede. Uma garrafa d’água, uma garrafa de uísque pela metade, quatro copos, sobre a bandeja coberta por um paninho de crochê. Ao lado da bandeja um telefone cinza. Em cima da cadeira um terno azul marinho. Horácio, sentado no sofá, revira uma caixa com papéis. Adalgisa entra, vinda da rua. Ela segura um pacote grande)


Adalgisa – Que é isso, Horácio? Tá mexendo nas minhas coisas por que? (Horácio larga a caixa de lado)


Horácio – Estou procurando, Adalgisa! Um fio de cabelo, um pedaço de unha! Como ele é? Quem ele é?


Adalgisa – Ele quem, Horácio? Ficou maluco?


Horácio – O amante! O amante!


Adalgisa – Ah, não, de novo, não! Mania. Você precisa se tratar.


Horácio – Me tratar, pílulas! Toda mulher tem um amante! Nem que seja em sonho. A mulher sonha. Sonha com o amante impossível! Ele está sempre presente! O amante! Mesmo que seja um desconhecido! Confessa, Adalgisa!


Adalgisa – Olha aqui, Horácio! Se você bebeu é melhor ir dormir! Hoje eu não tô com a menor paciência! (Horácio bebe, ávido)


Horácio – Onde é que você estava a tarde toda?


Adalgisa (Abre o pacote e tira o manto) – Eu não disse que ia na igreja, preparar o altar para a festa da Aparecida? (Estende o manto em cima do sofá) Esse ano vai ser uma beleza!


Horácio – A igreja! A igreja é a desculpa da desavergonhada! Escondem a safadeza embaixo da saia do padre!


Adalgisa – Isso é pecado, Horácio! Você sabe que eu sou devota!


Horácio – Você é devota e eu sou corno! A tua devoção tem bigode e barba!


Adalgisa – Eu não vou ficar aqui para ser insultada! (Adalgisa quer ir para dentro. Horácio a segura pelos braços e a sacode)


Horácio – Diga a verdade, mulher! Existe um homem! Quem é ele? Eu preciso saber. Com quem você me trai?


Adalgisa – Que chatice, Horácio! Todo dia é a mesma coisa!


Horácio – Trinta anos! Trinta anos engalanado com um par de chifres! Fala, Adalgisa! Quem é ele?


Adalgisa – Me larga, Horácio! Tá me machucando!


Horácio – Tudo tem um limite! Um homem não pode suportar tanta humilhação. Adalgisa, eu já disse e repito: vou te matar!


Adalgisa – Depois, meu filho. Olha. Padre Eustáquio me pediu. Só a mim. Pediu para bordar o manto. O manto da santa.


Horácio – Tu vai bordar isso tudo, sozinha?


Adalgisa – Sozinha.


Horácio – Que coisa.


Cena 3 - Bar


(É um bar de encontros. A luz vai subindo aos poucos. Horácio chora as mágoas no ombro de Caveirinha, o amigo da mesa de bar. Música)


Horácio – Me trai, Caveirinha, eu tenho certeza. Me trai com o amante. Com um não, com vários! Adalgisa tem uma turba de amantes!


Caveirinha – Eu te disse e repito. Mulheres...são todas iguais. Umas vaquinhas.


Horácio – Ela sonha, Caveirinha, sonha. E sorri quando sonha. Eu acordo de madrugada para ver Adalgisa sorrir


Caveirinha – É duro ser chifrudo...


Horácio – O sorriso mais imoral que existe é o da mulher que sonha. O sorriso do prazer inconfesso!


Caveirinha – Uma cínica...


Horácio – Se eu soubesse quem é...o diabo é que não tem um vestígio. Nada! Isso é que acaba comigo! Eu luto contra o amante invisível! Eu sou o Dom Quixote de Bangu!


Caveirinha – Nem um vestígio? Tem que ter um vestígio. O hálito, Horácio. Sentiu o hálito?


Horácio – Uma vez. Eu vi. Eu ‘tava saindo do açougue com a Adalgisa, o sujeito entrou. Eu vi. Roçou o cotovelo no peito da Adalgisa. E ela sorriu. Eu vi. Abraçada na picanha ela sorriu. E sabe o que o sujeito pediu? Maminha!


Caveirinha – Safado. Também, no açougue, inspira! Tanta carne...


Horácio – Eu quase peguei o facão do açougueiro e esquartejei a Adalgisa ali mesmo, em cima do balcão frigorífico!


Caveirinha – Por isso que eu não caso. Nenhuma! Nenhuma mulher presta. São todas infiéis!


Horácio – Mas, Caveirinha, tem que ter um jeito.


Caveirinha – Mulher assim? Só matando.


Horácio – Só matando.


Cena 4 - Casa de Adalgisa


(Adalgisa, sentada na poltrona de pé palito, borda o manto da Nossa Senhora da Aparecida. Horácio irrompe na sala, com um revólver na mão)


Horácio  Adalgisa, eu vou te matar!


Adalgisa – Esfregou bem o pé no capacho? Olha que a faxineira veio hoje!


Horácio – Com um tiro, no meio dos olhos! Tu vai morrer cega, infiel!


Adalgisa – Tem tutu com carré de porco dentro do micro ondas, é só esquentar. Vai, meu filho, que hoje eu tô muito ocupada.


Horácio – Tua alma cega vai ficar penando no inferno. Ou será que vai pro purgatório? Eu vou te matar, Adalgisa!


Adalgisa – Já ouvi, Horácio.


Horácio – Nunca mais o teu amante vai sentir o teu cheiro, encostar a cabeça nos teus peitos, enfiar o...


Adalgisa – É melhor parar por aí. (Olha para Horácio e vê o revólver) Que é isso? Onde é que tu arrumou esse revólver? Se tirou dinheiro da caderneta prá comprar essa porcaria é melhor devolver!


Horácio – Adalgisa, não muda de assunto! Eu estou dizendo que vou te matar! Você tem que se desesperar! Não vai se desesperar?


Adalgisa – Eu já disse que estou ocupada! Não tá vendo o tamanho do manto que eu tenho que bordar! Se não ficar pronto quem me mata é o Padre Eustáquio!


Horácio – O revólver é de verdade! Pode examinar. (Entrega com cuidado) Cuidado, que tá carregado.


Adalgisa (Examinando o revólver) – Quanto tu pagou por esse traste?


Horácio – Cem reais.


Adalgisa – Por isso tá sempre sem dinheiro. Gasta tudo em besteira! (Devolve o revólver) Vai devolver duma vez, Horácio, que quanto mais tempo tu ficar com ele, mais desvaloriza.


Cena 5 - Bar

(Caveirinha com uma garrafa de cerveja na mão e dois copos se dirige para a mesa. Horácio abraça Caveirinha e os dois sentam)


Horácio – Uma desmoralização. Adalgisa não deu a mínima.


Caveirinha – Não desesperou?


Horácio – Continuou costurando o manto da santa. Agora me diga, Caveirinha: como é que eu vou matar uma mulher que tá costurando o manto da santa? Não é sacrilégio?


Caveirinha – Tu falou bem claro? “Vou te matar!”


Horácio  Falei e repeti.


Caveirinha – Apontou o revolver?


Horácio – Na cara. Adalgisa tem um sangue frio...


Caveirinha – Ou tem sangue frio...ou não tem amante!


Horácio – Como assim, Caveirinha! Já te disse que tem amante! Nenhuma mulher é como Adalgisa! Adalgisa é perfeita. Fala pouco no telefone, não vai ao cabeleireiro, nem ao dentista! Roupa? Só compra quando precisa. Não põe o pé na rua sem me dizer aonde vai... Caveirinha, meu amigo, nenhuma mulher é assim! Nenhuma! Nem a Mãe! A Mãe tem defeito! Por isso te digo: Adalgisa tem a imperfeição moral! O amante!


Caveirinha – E se não tem? Vai que a tua mulher é pura. Cristo em Paz! Meu Deus! A mulher virtuosa existe. Horácio! A mulher virtuosa é a tua mulher!


Horácio – Não se iluda, Caveirinha. A mulher virtuosa é uma quimera. Uma utopia.


Caveirinha – Não, Horácio! É a tua mulher!. Você é o marido da santa! Meu Deus! Que profanação! Você tem que me prometer. Jurar! Que nunca mais vai ficar de pé na frente da santa! Prá falar com Adalgisa qualquer homem tem que se ajoelhar!


Horácio – Eu, heim, Caveirinha! Que foi que tu bebeu? Adalgisa é Adalgisa. E tem amante! Eu sou o marido. Eu sou o corno. O corno sempre sabe que é corno!


Caveirinha – Mas a Adalgisa não tremeu. Tremeu? Quando tu disse que ia matar por causa do amante?


Horácio – Não tremeu. Nem piscou.


Caveirinha – Horácio! Eu sei. A tua mulher não tem amante.


Horácio – Não tem?


Caveirinha – Não. É a santa! Esquece essa história.


Horácio – Uma ova! E o plano funeral? Vou perder um dinheirão! (Música)


Cena 6 - Funerária


Vendedor – Eu não posso fazer isso, seu Horácio. Comprou, tá comprado.


Horácio – Mas a minha mulher não vai mais morrer!


Vendedor – Sinto muito. No nosso negócio não aceitamos devolução. O senhor há de convir que é um caso inédito. Ninguém, até hoje, voltou prá devolver o caixão.


Horácio – Há sempre uma primeira vez....


Vendedor – Impossível. O plano já foi para a financeira, a financeira aprovou o crédito. E o senhor levante as mãos para o céu porque, mais difícil do que a sua mulher morrer, é aprovar o crédito na financeira.


Horácio  E o que é que eu vou fazer com o caixão?


Vendedor – Ora, seu Horácio, quem tá vivo tá no risco. Hoje em dia caixão é artigo de primeira necessidade. Por isso funerária é um bom negócio. Loja de roupa fecha, loja de sapato fecha, até farmácia fecha. Agora, o senhor já viu funerária falir? Nós aqui temos uma tradição de vinte e cinco anos no mercado. Sabe quantos já enterramos?


Horácio – Isso não tem cabimento! Eu comprei o caixão ontem...


Vendedor – Ontem o senhor achava que a falecida tinha um amante. Hoje não acha mais. O senhor está sendo ingênuo. Muito ingênuo. Quer saber? Todas as mulheres que eu enterrei tinham um amante. O marido era sempre o último a saber. O amante chega e chora a morta. Uma vergonha.


Horácio – Todas?


Vendedor – Todas. Sem exceção. O chifrudo só sabe que é chifrudo no velório. No velório.


Horácio – Espeto.


Cena 7 - Casa de Adalgisa


(Adalgisa borda o manto)


Adalgisa – ...a Margarida que me disse. Eu nem desconfiava. Agora imagina que é que a Leonor vai dizer prá Dulce quando a Adelina souber. Uma mulher que não saía da igreja, rezava dia e noite...


Horácio – As beatas...são as piores...


Adalgisa – ...e Zulmira diz que viu as duas, saindo da padaria. Agora veja lá se isso é hora de comprar pão. Eu bem disse: Otília, tu não devia abrir aquela porta. Taí no que deu. Agora, tu sabe que a Dirce nem ligou e foi pro cabelereiro...(Horácio olha fixo para ela)


Que foi? Perdeu alguma coisa?


Horácio  Eu? Não, benzinho. Eu, não.


Adalgisa – Não tira o olho de mim.


Horácio – Imagina. Tô prestando atenção no assunto. Que é que a Leocadia disse?


Adalgisa – Que Leocádia? A Leocádia não tá nessa história. Você tá muito esquisito, Horácio....


Horácio – Então foi a Maria Dalva.... Ah, Adalgisa, uma dessas aí!


Adalgisa – Não vai trabalhar? Já passou da hora.


Horácio – Não. Hoje eu vou ficar aqui. O dia todo. Te olhando.


Adalgisa – Tá constipado?


Horácio – Não.


Adalgisa – Então larga de ficar aí à toa. Arruma o que fazer. Aproveita prá limpar o lustre que tá cheio de cocô de mosca! (A campainha toca)


Horácio – A campainha! A campainha tocou!


Adalgisa – Eu ouvi. (Horácio corre para a porta e abre. Vendedor entra)


Vendedor – Bom dia, seu Horácio! Ah, essa deve ser a defunta!


Adalgisa – Horácio, quem é esse homem?


Horácio  O que é que o senhor tá fazendo aqui?


Vendedor – Vim tirar as medidas da morta. (O vendedor puxa uma fita métrica, deita Adalgisa no sofá e começa a medir) Como a morta ainda não morreu, facilita. Afinal o senhor tem direito a um caixão sob medida. Está no plano!


Adalgisa – Que plano, Horácio? Que caixão? É melhor você me explicar direitinho o que é que está acontecendo!


Vendedor – O senhor devia ter feito o plano completo. A sua defunta bem tá precisando de maquiador e cabeleireiro...A senhora quer fazer um upgrade no seu plano?


Horácio – O senhor quer fazer o favor de ir embora!


Vendedor – Como a senhora já é cliente posso até fazer um abatimento....


Adalgisa – Horácio tira esse maluco daqui!


Vendedor – Descontinho bom. Ainda leva de brinde uma magnífica coroa de flores! Com faixa em gorgurão dourado!


Horácio – Ela não quer nada! Chega! Deixa a minha mulher em paz!


Vendedor – Ora, doutor, prá que pressa? Paz ela vai ter de sobra....Já que eu estou aqui a defunta pode me dizer quais são as flores da sua preferência?


Adalgisa – Defunta é a sua mãe! E olha. Eu tenho muito que fazer! Horácio, assim eu não consigo acabar o manto da santa!


Horácio – Calma, Gizinha. O homem errou de endereço. Ele já está de saída. (Empurra o vendedor)


Vendedor – ...palmas, camélias, rosas, lírios do campo...pode escolher, tá incluído no plano... (Horácio empurra o vendedor para fora e volta)


Adalgisa – O que é que o senhor está aprontando, senhor Horácio Marcolino?


Horácio  Eu? Nada. Nada. O homem é maluco.


Adalgisa – Vai, vai limpar o lustre duma vez! (Toca o telefone. Horácio corre para atender. Adalgisa volta a costurar)


Horácio  Alô? Quem é? É o amante?


Adalgisa – Pronto. Lá vem a obsessão!


Horácio – Ah! Vou chamar. Adalgisa! É a jararaca da tua mãe!


Adalgisa – Diz prá mamãe que eu tô assoberbada. Ligo depois que acabar o manto da santa.


Horácio – Ela liga depois. (Escuta) Vai-te à...! (Horácio desliga o telefone. A campainha toca. Ele corre para atender) Eu sabia! Eu sabia! Agora é o amante! O teu amante!


Adalgisa – Ô, homem chato! (Horácio volta)


Horácio – O tintureiro quer o terno azul marinho prá lavar.


Adalgisa – T’áli. Em cima da cadeira. (Horácio sai com o terno e volta)


Horácio – Adalgisa! Afinal! Quem é o teu amante?


Adalgisa – Meu filho, que impertinência! Quer saber? Um dia eu arrumo um amante! Um dia eu arrumo! Um amante de coxa grossa. De peru enooooorme!


Horácio – Eu sabia! Você é como todas as outras! Tem tara no adultério!


Adalgisa – Eu vou arrumar um amante! Negro! Eu quero um amante Negro!


Horácio  Calma, filhinha! Calma!


Adalgisa –Negro! Lindo! Negro como a santa!


Horácio – Os vizinhos, Gizinha...


Adalgisa – Eu quero um amante! (Horácio pega o revólver e aponta para Adalgisa)


Horácio – Cala a boca, Adalgisa!


Adalgisa – Horácio, tu ainda não devolveu esse revólver?


Horácio – E se eu te matasse, Adalgisa? O teu amante ia chorar? Ia?


Adalgisa – Você, meu filho, me tira do sério.


Horácio – Ia chorar no velório?? Ia?


Adalgisa – Agora vou ter que me confessar...Ó, leva esse revólver lá na delegacia que eles tão pagando um dinheirão por um treco desse. Eu li no jornal.


Horácio – Um dia, Adalgisa, eu vou conhecer o teu amante. (Horácio larga o revólver em cima da mesa e sai. Adalgisa volta a bordar o manto da santa)


Adalgisa – Esse homem faz de tudo prá não limpar aquele lustre....


Cena 8 - Bar


(Horácio e Caveirinha jogam sinuca)


Caveirinha – Uma santa. Quem devia usar o manto era ela.


Horácio – Nenhuma mulher é santa, Caveirinha. Sabe o que o Vendedor da Funerária disse? Que o amante sempre aparece. No velório. Vai chorar a mulher do outro. Pouca vergonha.


Caveirinha – No velório? O amante aparece no velório?


Horácio – “O” amante? Um regimento completo! O velório da Adalgisa vai ser uma romaria. Amantes por todo lado! E eu, o corno, recebendo, servindo canapé com guaraná....


Caveirinha – Guaraná, Horácio? Nem uma cervejinha?


Horácio – Não tá incluído no plano, Caveirinha. Os amantes que levem. Eu já tive muita despesa.


Caveirinha – No velório? O amante aparece no velório?


Horácio – No velório.


Cena 9 - Confessionário


(Música de igreja. Adalgisa ajoelhada se confessa)


Adalgisa – Pois é, Padre Eustáquio. Pecado que eu não cometo é o da luxúria. Nunca. A luxúria é o pecado mortal. Eu, que respeito os sagrados votos do matrimônio. Eu, que respeito meu marido. Que fecho os olhos para não ver o meu marido nu. Eu, que nunca. Nunca. Nunca. Nunca. Eu que nunca. Eu nunca! (Ouve) Sim, Padre Eustáquio. Desculpe, Padre Eustáquio. Sim, eu rezo. Rezo e me purifico. Amém. (Vai levantar e volta a ajoelhar) Ah, só mais uma coisinha, Padre Eustáquio....sonhar com o pecado? É pecado?


Cena 10 - Casa de Adalgisa

(Caveirinha, ansioso, mexe nas coisas de Adalgisa, sente o cheiro da almofada, do manto, se enrola no manto da santa, se ajoelha ao lado do sofá e acaricia a almofada onde Adalgisa estava sentada. Adalgisa entra e leva um susto)


Adalgisa – Você?


Caveirinha – A mulher pura. Imaculada. Você é a santa, Adalgisa.


Adalgisa – O Horácio não está! É melhor você ir embora.


Caveirinha – Confessa, Adalgisa. Fala prá mim. Ele não existe, não é? O amante não existe.


Adalgisa – Era o que me faltava. Outro.


Caveirinha – Porque eu sei. Agora eu sei que você não trai. Nunca. Você é a única mulher que não trai!


Adalgisa – Quem te disse isso? E se eu traísse? Todos os dias. Com um homem. Um único homem. É pior trair com um único homem do que com vários. Não é? Quem sabe o meu amante não é o desconhecido...


Caveirinha – Não é verdade. Eu não acredito.


Adalgisa – Quem sabe o meu amante é o jornaleiro? Ou o porteiro do prédio ao lado? Escolhe um, Ademar! Um só. E se eu me entregasse todos os dias a um só homem?


(Caveirinha se arrasta aos pés de Adalgisa)


Caveirinha – Você não entende? Toda mulher é vagabunda. Todas. Só você não tremeu diante da morte. Só você não implorou. Não gritou o nome do amante! Só você tem a virtude imemorial, Adalgisa!


Adalgisa – Me larga, Ademar! Suas mãos são indecentes!


Caveirinha – Eu passei toda a minha vida com a certeza de que toda mulher é uma meretriz. E deitei com elas convicto de que nenhuma mulher merece o dia seguinte. Adalgisa, só você merece o dia seguinte!


Adalgisa – Você não tem vergonha, Ademar? De se ajoelhar aos pés de uma mulher?


Caveirinha – De uma mulher, não? De uma santa! Adalgisa, meu amor, você devia ser canonizada!


Adalgisa – Não fala assim. É pecado.


Caveirinha – Nenhuma santa é casta como tu. Entende, Adalgisa, o que eu fiz da minha vida?


Adalgisa – Me deixa, Ademar.


Caveirinha – Você nunca me perdoou, Adalgisa...


Adalgisa – Eu nunca te quis, Ademar! Eu amo meu marido. Eu amo a minha casa. Meus móveis. Tá vendo essa poltrona pé de palito? Eu amo essa poltrona, Ademar!


Caveirinha – Você nunca me perdoou. A culpa, Adalgisa, foi da minha mãe. Foi ela. Ela disse que a mulher casta não existia. Ela mentiu. Minha mãe mentiu. E eu acreditei. Foi por isso.


Adalgisa – A tua mãe. A tua mãe era uma cínica.


Caveirinha – A minha mãe era uma cínica. Morreu. Ontem. Anteontem. Não sei quando minha mãe morreu.


Adalgisa – Ela nasceu morta, Ademar. Tinha a honra de fachada. Depois se esfregava embaixo do caminhão com o mulato.


Caveirinha – Me perdoa, Adalgisa. Eu acreditei na minha mãe. Me salva, Adalgisa. Da infelicidade eterna!


Adalgisa – A eternidade é o paraíso. Devia ser feliz aquele que acredita na vida eterna. Você devia rezar, Ademar. Por você.


Caveirinha – O teu marido não te merece. É uma besta!


Adalgisa – É uma besta mas é meu marido. Vai embora, Ademar.


Caveirinha – Eu sou um canalha. Tô aqui pedindo à santa para trair. O canalha pede à santa para trair!


Adalgisa – Você se arrasta, Ademar. O homem que se arrasta ao pés de uma mulher não merece respeito. Homem tem que ter pudor!


Caveirinha – Você tem razão, Adalgisa. O homem que insulta uma mulher como você deveria viver o resto da vida atormentado. Em vigília pela humilhação causada. Eternamente.


Adalgisa – Vai prá igreja rezar, vai, Ademar!


Caveirinha – Posso te pedir uma última coisa, Adalgisa.


Adalgisa – Eu sou feliz, Ademar.


Caveirinha – Posso tomar um uisquinho? Esse falatório me deu uma sede danada.


Cena 11 - Jardim


(Horácio desfolha uma flor – bem me quer / mal me quer)


Horácio - Corno. Não corno. Corno. Não corno....


Vendedor (Em off) – Todas as mulheres que eu enterrei tinham um amante. O marido era sempre o último a saber. O amante chega e chora a morta. Uma vergonha.


Cena 12 - Casa de Adalgisa


(Caveirinha bebe o último gole do uísque. Coloca o copo em cima da mesinha. Adalgisa parada, hirta, olha para o chão. Caveirinha se aproxima, segura os ombros de Adalgisa e dá um beijo no rosto. Música. A luz desce. Imaginação de Adalgisa. Ela abraça Caveirinha com ardor, transforma o beijo inocente em beijo lascivo)


Cena 13 - Jardim


Horácio – Corno... Não corno... Corno... Não corno...


Vendedor (Em off)  Todas. Sem exceção. O chifrudo só sabe que é chifrudo no velório. No velório.


Horácio – Corno... Não corno...Corno...Não corno...(A última pétala) Corno!!!


Vendedor (Em off)  No velório. No velório. No velório.


Cena 14 - Casa de Adalgisa

(Caveirinha segura os ombros de Adalgisa e dá um beijo no rosto. Ela se desvencilha do beijo)


Caveirinha – Adeus, Adalgisa. Perdão.


Adalgisa – Eu sou uma mulher honesta, Ademar. (Caveirinha sai. Adalgisa dá dois passos na direção da porta e pára)Adeus, Ademar


Cena 15 - Jardim


(Horácio sentado com a cabeça entre as mãos. Quilos de pétalas espalhados em torno dele. Caveirinha chega e senta ao lado de Horácio)


Horácio (Mostrando o cabinho nu da flor)  Sabe o que é isso?


Caveirinha – Um cabo de flor.


Horácio – Um cabo de flor! O último! O último cabo de flor! A prova definitiva. Imoral. Indecente.


Caveirinha – Um homem quando fica assim, é de dar pena.


Horácio – Eu sou cabrão, Caveirinha! Entendeu! A flor! Eu despetalei milhares de flores! E milhares de vezes o mesmo vaticínio! Horácio É corno! Que é que eu faço agora, Caveirinha?


Caveirinha – Horácio. Eu lhe digo. Adalgisa é a casta inflexível. Nunca traiu.


Horácio – Trai. Na vida e em sonho! Eu sou o duplamente traído, Caveirinha!


Caveirinha – O sonho é involuntário. Não vale.


Horácio – Pior. No sonho os desejos mais íntimos vem à tona, sem nenhum compromisso moral. A mulher casada devia ser proibida de sonhar.


Caveirinha – Calma, Horácio, calma, pelo amor de Deus. Onde é que tu vai?


Horácio – Ao banheiro, Caveirinha...


Cena 16 - Casa de Adalgisa


(Adalgisa ao telefone)


Adalgisa – Uma pecadora, mamãe. Seus olhos ardiam de desejo, mamãe. Seu corpo tremia. E quando ele segurou os ombros dela para dar um beijo no rosto. Sabe um beijo no rosto? De irmão. Sem pecado, mamãe. O beijo no rosto não é pecado. É o carinho fraternal. Sabe o que ela fez? Deu um beijo na boca. E depois, sabe o que ela me disse? Que deseja todos os homens. Os que passam pela rua, os descalços, os inocentes, os que se ajoelham na igreja, os que choram nos enterros, todos, mamãe, todos! Isso é normal, mamãe? Não é normal! A senhora já se sentiu assim? (Ouve) Desculpe, mamãe, desculpe. Eu sei, ela vai arder no fogo do inferno! No fogo do inferno! (Hrácio entra)


Horácio  Quem vai arder no fogo do inferno?


Adalgisa – Desculpe, mamãe. Preciso desligar. Horácio chegou. Sei, mamãe. Ele vai limpar o lustre...(Desliga) Era mamãe.


Horácio – Quem vai arder no fogo do inferno, Adalgisa?


Adalgisa – Ninguém. Uma mulher. Você não conhece. Nunca viu. Não conhece, Horácio.


Horácio – Amiga sua? Olha lá com quem você tá se metendo, Adalgisa!


Adalgisa – Amiga? Não, não é minha amiga.


Horácio – Amiga do seu amante?


Adalgisa – Lá vem. Sabe de uma coisa. Nem sei porque eu perco meu tempo respondendo essas besteiras. Com tanto o que fazer...(Vai até o manto e recomeça a costurar) Já está quase pronto! Padre Eustáquio vai adorar!


Horácio – Padre Eustáquio...sei lá se isso é codinome...


Adalgisa – É o que, Horácio? Vai desconfiar de Padre Eustáquio também?


Horácio – Cheia de não me toques com esse padre! É só falar no nome dele que você fica toda alvoroçada! Confessa, Adalgisa! Padre Eustáquio é a identidade secreta do teu amante!


Adalgisa – Se tu fosse na igreja não ia falar tanta heresia! Melhor que limpasse o lustre, isso sim! (Horácio dá uma volta em torno de Adalgisa e se prepara para ir para dentro quando vê o copo sujo em cima da mesinha)


Horácio – O que é isso?


Adalgisa – Isso o que, Horácio?


Horácio – Esse copo, Adalgisa. O copo tá sujo! De uísque! (Ela larga o manto)


Adalgisa – Eu bebi, Horácio. O uísque.


Horácio – Desde quando você bebe, Adalgisa?


Adalgisa – Prá provar. Curiosidade.


Horácio – Você não bebeu, Adalgisa. Não bebeu. Eu sei. Olha, Adalgisa. (Mostra o copo) Não tem marca de batom. Você não sai sem batom. A sua única vaidade é o batom.


Adalgisa – Hoje eu não usei batom.


Horácio – E o cheiro?


Adalgisa – Cheiro?


Horácio – De suor.


Adalgisa – Não tem cheiro nenhum.


Horácio – Suor de homem, Adalgisa. Você não sente o cheiro de suor de homem? A sala está impregnada. O teu amante exala, Adalgisa!


Adalgisa – Não sinto nada.


Horácio – Engraçado...eu conheço esse cheiro...de algum lugar...


Adalgisa – Cheiro nenhum. Teimosia.


Horácio – Caveirinha! Esse cheiro é do Caveirinha! Ué, que é que o Caveirinha veio fazer aqui?


Adalgisa – Quem é Caveirinha? Sei lá quem é Caveirinha.


Horácio – Aquele. Assim. Assim. Tu conhece. Da quermesse. Lembra? O que ganhou a rifa da escova de dente! Essa tua igreja, heim, Adalgisa. Fazer rifa de escova de dente! Aposto que faturou um dinheirão naquela quermesse.


Adalgisa – Foi o dinheiro prá comprar o veludo do manto da santa!


Horácio – Ora, o Caveirinha...veio me visitar e eu não tava em casa...Falou o quê?


Adalgisa – Nada.


Horácio – Caveirinha é assim. Quase não fala. Um discreto. Por que tu não disse que foi o Caveirinha que bebeu o uísque? Ele gostou? Olha que Caveirinha entende da coisa.


Adalgisa – Não disse.


Horácio – Não gostou. Também, presente dos colegas da repartição. Doze prá fazer uma vaquinha e compram esse uísque vagabundo...


Adalgisa – Pois é, meu filho. Me faz um obséquio? Deixa eu terminar o manto da santa!


Horácio – Ora...o Caveirinha...na minha casa...que coisa...(Horácio vai para dentro)


Adalgisa – Horácio é de uma estupidez comovente! (A campainha toca. Horácio vem aos pulos abotoando a calça)


Horácio – O amante! O amante!


Adalgisa –...de uma burrice enternecedora...(O vendedor vai entrando, sem cerimônia)


Vendedor – Bom dia, seu Horácio! A senhora ainda não morreu? Olha, seu Horácio, é melhor tomar uma providência. O seu plano dá direito ao pagamento na missa de sétimo dia. Se não tem defunta, não tem missa de dia nenhum. Como é que fica? Tá tudo assinado. Não posso fazer nada. (PARA Adalgisa) Olha aqui, minha senhora, se a senhora não desencarnar logo o nome do seu marido vai pro SPC. (E sai)


Adalgisa – Horácio....


Horácio  Pode deixar, Gizinha, já tô indo, já tô indo!


Adalgisa – Indo aonde?


Horácio – Ué, limpar o lustre! (E sai. Adalgisa costura o manto da santa. Horácio entra, com um pote de creme na mão)Adalgisa...


Adalgisa – Vou me queixar com o síndico. Esse porteiro deixa qualquer um subir.


Horácio (Mostrando o pote) – O que é isso, Adalgisa?


Adalgisa – Um creme. Um pote de creme.


Horácio – Prá que é esse creme, Adalgisa?


Adalgisa – Coisa minha. Ora, bolas. Um desconhecido. Quem tem segurança hoje em dia?


Horácio (Lendo)  “Seiiobel – Creme para os seios”. É um creme para os seios.


Adalgisa – O síndico não toma providência. Se a gente reclama ele diz que a gente tá cacarejando.


Horácio (Lendo) – “Enrijece e deixa a pele dos seus seios como seda. Volte a ter seios de adolescente com Seiobel”. Seios de adolescente...


Adalgisa – E você não faz nada. O homem diz que eu cacarejo e você não faz nada! Eu devia. Ah, eu devia.


Horácio – Prá que você quer ter seios de adolescente, Adalgisa?


Adalgisa – O quê?


Horácio – Peitinhos de adolescente. Prá que? Prá quem? Sabe há quanto tempo você não me mostra os seios?


Adalgisa – Ué, de onde veio isso, agora?


Horácio – Desde o dia que eu beijei você na boca.


Adalgisa – Pronto. Já mudou de assunto.


Horácio – A única vez. Nunca mais você me deixou beijar sua boca.


Adalgisa – Você tem sapinho, Horácio!


Horácio – E os seios? Por que eu não posso ver os seus seios?


Adalgisa – Eu vou falar com o síndico! Vou dizer: “O senhor é síndico mas é um crápula”


Horácio – Há quanto tempo você usa esse creme?


Adalgisa – Sabia que ele obriga a mulher a ter relações sexuais? A faxineira me contou. Ele fica bêbado e tampa a boca da mulher. Assim. (Aperta a mão na boca) Sufoca. Um monstro! O síndico é um sórdido! Por isso ele diz que eu cacarejo.


Horácio –Ele diz porque você é galinha!


Adalgisa –O que? Eu sou o que?


Horácio – Galinha. Vagabunda. Meretriz.


Adalgisa – Não fala assim comigo!


Horácio – Só as galinhas usam Seiobel!


Adalgisa – Me dá o meu creme! (Adalgisa parte para cima de Horácio. Eles lutam, se agarram. Horácio não dá o creme) Você, Horácio, é igual ao síndico!


Horácio – E se é ele o teu amante?


Adalgisa – O síndico? Ficou maluco, Horácio! Isso já é caso de internação!


Horácio – Você não pára de falar nele. Todo dia. Quanto mais ele te ofende mais você fala nele. É prá ele que você sorri no sonho, não é? Confessa!


Adalgisa – Olha aqui, Horácio! Quer saber? Eu podia ter traído! Traído! Hoje! No seu sofá! Com um homem! Deitada, bem aqui, nua. Podia? Podia. Mas não quis! Não traio porque não quero! Eu não quero trair! Eu sou a única mulher que não deseja trair! Ouviu? A única!


Horácio – Adalgisa, olha os vizinhos...


Adalgisa – Hoje, depois de 30 anos, eu podia realizar o seu maior desejo, Horácio. Mas sabe. Eu não quero. Eu não deixo. Você nunca vai ser corno! Você não é corno porque eu não quero! Meu marido nunca vai ser chifrudo!


Horácio – Vou, Adalgisa! No velório! O teu amante vai chorar no velório!


Adalgisa – Que velório, infeliz?


Horácio – O seu, Adalgisa. Morta você nunca mais vai sonhar. Nunca mais vai sorrir. A morte é o sepulcro do sonho.


Adalgisa – Quem te disse que morto não sonha?


Horácio – Sonha?


Adalgisa – Ué, quem sabe?


Horácio – Maçada.


Cena 17 - Funerária


(Música. O vendedor espana os caixões enquanto acompanha cantando o sambinha de breque. Adalgisa entra, desconfiada, e cutuca o Vendedor pelas costas)


Vendedor – Ah, a defunta. Desculpe, minha senhora, eu estava distraído.


Adalgisa – Por favor, o senhor poderia parar de me chamar de defunta? O meu nome é Adalgisa.


Vendedor – Claro, dona Adalgisa. É uma honra recebê-la no meu humilde estabelecimento. Não é sempre que recebemos a visita do falecido. Se bem que no seu caso a desencarnação tá difícil!


Adalgisa – Eu vim porque preciso. É um assunto sério. Eu preciso de um amante.


Vendedor – Vivo ou morto?


Adalgisa – Vivo. Não é bem um amante. Alguém que o meu marido pense que é meu amante. Só por umas horas. Prá ver se Horácio sossega. O senhor me faria esse obséquio?


Vendedor – A senhora quer que eu seja seu amante por algumas horas? Bem, preciso ver se o gerente autoriza. Sabe como é, eu preciso bater o ponto.


Adalgisa – O senhor aparece lá em casa às tantas horas.


Vendedor – Nu ou vestido...


Adalgisa – Meu senhor!


Vendedor – Brincadeirinha...


Adalgisa – Vestido. E saiba que eu estou fazendo isso pela santa. Pelo manto da santa. Adeus. (E sai)


Vendedor – Cada maluco nesse mundo...


Cena 18 - Casa de Adalgisa


(Horácio entra abraçado com Caveirinha)


Horácio – Entra, Caveirinha, entra. Tu já conhece o caminho.


Caveirinha – Fico meio assim. Sem jeito. A tua mulher? Tá em casa?


Horácio – Claro! Adalgisa não sai sem me dizer onde vai. Adalgisa! Adalgisa, vem ver quem chegou! (Para Caveirinha) Já, já, tá aí.


Caveirinha – Uma santa. A tua mulher. A gente tem que se purificar prá chegar perto dela.


Horácio – Santa do pau oco. Quer saber? Eu tenho a prova. Um creme.


Caveirinha – Creme. Toda mulher usa creme. Vivem empapuçadas dessa gororoba.


Horácio – Prá levantar os peitinhos.


Caveirinha – Adalgisa quer levantar os peitinhos?


Horácio – Então.


Caveirinha – Por que?


Horácio – O tal creme é uma balela. Mulher joga dinheiro fora à toa. Ora, se Adalgisa, nessa idade vai ter peitinhos de adolescente. O amante que se contente.


Caveirinha – Ela não tem amante.


Horácio – Pois é. Caveirinha, me diga uma coisa. Tu entende de religião?


Caveirinha – Fiz primeira comunhão. Tava bonito. Todo de branco. Como é bonito. As crianças de branco, imaculadas. Sem pecado. O pecado vem depois.


Horácio – Pois, quando a gente morre...morre, né mesmo? Ou fica assim...disponível.


Caveirinha – Disponível prá que?


Horácio – Morre só por fora, entende. Morto sonha?


Caveirinha – Como é que eu vou saber. Ainda não morri.


Horácio – Pois é. Adalgisa! Vai ver ela não ouviu. Vou lá dentro chamar a Adalgisa.


(Horácio sai. Caveirinha fica sozinho, abre os braços e inspira todo o ar da sala. Se aproxima do manto em cima do sofá, abraça com força. Horácio entra e surpreende Caveirinha mas não se dá conta porque está completamente fora de si)Adalgisa não está!


Caveirinha (Largando o manto) – Saiu?


Horácio – Você não entende? Adalgisa saiu. Saiu sem me falar. Sabe por que? Por causa do creme. Maldito “Seiobel”. Ela não tem mais recato! Eu sabia! A castidade de Adalgisa é frágil como uma hóstia!


Caveirinha – Não fala assim da Adalgisa! Eu não permito!


Horácio – Que intimidade é essa? “Não fala assim da Adalgisa”! Desde quando tu defende mulher? Não eram todas umas vacas?


Caveirinha – Menos a tua. A tua mulher não. Você devia ter vergonha de ver Adalgisa nua. É como ver uma santa nua.


Horácio – Caveirinha. Tu é o amante?


Caveirinha – Não. Não sou o amante. Porque Adalgisa não quis! Eu implorei! Implorei. Pus minha dignidade de quatro pela tua mulher! Ela não quis! Entende, Horácio! A tua mulher não quer um amante!


Horácio – Estou pasmo. Caveirinha, tu é o maior cara de pau que eu conheço! Larga de ser burro. Adalgisa é devassa mas tem bom gosto. Ia lá querer um amante feio como tu! Um bucho! Ora, onde já se viu.


Caveirinha – Não quis. Eu implorei. Implorei!


Horácio – Que vexame, heim, Caveirinha! Que vexame! E olha. Se tu não fosse meu amigo era capaz até de te dar um tiro. Com esse revólver. (Mostra) É com ele que eu vou matar a Adalgisa. (Caveirinha pega o revólver. Horácio se vira para encher o copo de uísque. Caveirinha aponta o revólver para Horácio) Vou esperar a traidora. Aqui. Quando Adalgisa chegar eu vou dar um beijo. Beijo na boca. O último. Eu dei o primeiro e vou dar o último beijo. Quero sentir o gosto do amante! Depois eu mato. (Horácio se vira para caveirinha) Toma um uisquinho? (Caveirinha atira. Horácio cai com os copos) Tu és uma besta, Caveirinha. (Horácio morre. O vendedor entra, vê Caveirinha parado com o revólver na mão, vê Horácio caído)


Vendedor – Morreu?


Caveirinha – Morreu.


Vendedor – Bem, isso não estava no plano. Deixa eu ver...vamos ter que trocar o forro do caixão, o véu, passar os encargos para a viúva. A viúva, já sabe que é viúva?


Caveirinha – Acho que não.


Vendedor – Pois é. Uma complicação. O senhor também foi convocado?


Caveirinha – Convocado prá que?


Vendedor – Prá ser o amante.


Caveirinha – Que amante?


Vendedor – Veja bem. Eu sou o amante, por tantas horas. Agora não sei como é que fica.... Se o marido bateu as botas a dona...dona...é capaz até de não querer me pagar. E o senhor sabe como é... a gente conta com esse dinheirinho extra...


Caveirinha – O senhor está me dizendo que é o amante de Adalgisa?


Vendedor – Isso. Dona Adalgisa! Que cabeça a minha! Ela não está? Eu cumpro horário. Não foi esse o combinado.


Caveirinha – Ela combinou aqui com o senhor?


Vendedor – Impressionante. As mulheres tão sempre atrasadas.


Caveirinha – Na casa dela? Nas barbas do marido!


Vendedor – É... ex-marido se me permite.


Caveirinha – Eu não acredito! Adalgisa tem um amante! Um amante! Insignificante! Mais insignificante do que eu! É nos seus braços que Adalgisa suspira? É a sua boca que ela beija? É? É?


Vendedor – Veja, meu senhor. O marido que é o marido não reclama. Não sei porque o senhor está tão transtornado!


Caveirinha – Porque Adalgisa era a única! A única, entendeu? E você vem aqui com a maior cara de pau dizer que Adalgisa é uma galinha! Você acabou com o sonho do amor eterno! Você, seu pulha!


Vendedor – O senhor também é amante? Afinal, quantos essa fulana contratou? Eu quero receber a minha parte integral! (Caveirinha chora) O senhor se acalma. Já, já ela deve estar chegando. Não é melhor a gente compor o morto? Sabe o que é, na minha profissão a gente fica agoniado vendo um defunto descomposto. É uma coisa meio indecorosa. O senhor me ajuda?


Caveirinha (Para Horácio) – Você é que é feliz, meu amigo. Morreu sem saber. Tinha a desconfiança. Mas nunca a certeza. Eu tenho a certeza. (Vendedor e Caveirinha levantam Horácio e deitam em cima do sofá. Caveirinha não para de fungar. Horácio parece estar dormindo)Matei o amigo. Pela infiel. Sou indigno até de receber pena. Mereço a morte. Eu quero morrer!


Vendedor – Olha, se o senhor se decidir nós temos vários planos, de acordo com a sua necessidade. Se quiser eu dou um pulinho ali na loja e trago o mostruário. É coisa rápida.


Caveirinha (Examinando o revólver)  Mereço morrer ao lado do meu melhor amigo. Os dois, lado a lado. O corno e o apaixonado. Dois homens, dois Romeus de subúrbio dando a vida por uma Julieta de puteiro! (Aponta para o vendedor) E Adalgisa escolhe esse calhorda desprezível!


Vendedor – O senhor veja lá! Eu fui eleito funcionário do mês! Tenho prestígio! Afinal, quer que traga o mostruário ou prefere escolher no local? (Caveirinha se deita ao lado de Horácio)


Caveirinha – Vou morrer. Ao lado do amigo. (Caveirinha aponta o revólver para a própria cabeça. Vai atirar, hesita. Estende o revólver para o Vendedor) Será que o senhor se incomoda? É que me dá nervoso ver esse cano apontado na cabeça...(O vendedor não pega o revólver)


Vendedor – Desculpe, doutor. Não faz parte de nenhum dos nossos planos! O morto tem que morrer por conta própria.


Caveirinha – Afinal, o senhor vende o quê?


Vendedor – Caixões, da melhor qualidade. Pro senhor então que está nas vias de fato seria uma imprudência morrer sem fazer um plano. O senhor se previne da ganância dos seus familiares. Tem família que enterra o infeliz em caixote de feira. Só prá não gastar. Um homem tão distinto como o senhor não vai querer ser enterrado como um carregamento de batata baroa!


Caveirinha – Tá certo. Eu topo. A minha família suga até sangue de canudinho. Como é que eu pago?


Vendedor – No seu caso...só à vista. O senhor entende, não é? (O vendedor tira um contrato da pasta e passa para Caveirinha. Caveirinha procura uma caneta no bolso. O Vendedor estende a caneta para ele)


Caveirinha – Aqui. Pode usar a minha. O senhor assina aqui, aqui e aqui. Pronto! O cheque é de tanto, por favor! (Caveirinha preenche o cheque. Vendedor acompanha com os olhos) Precisa ser nominal?


Vendedor – É melhor. (O vendedor pega o cheque e o contrato. Verifica. Vai até o telefone. Caveirinha aponta o revólver para a cabeça. Vai atirar. O vendedor impede)


O senhor espera um instantinho que eu tenho que consultar o Tele Cheque. Ele disca) Tá ocupado...


Caveirinha – Se tiver problema eu posso pagar com cartão. (O vendedor disca novamente)


Vendedor – Ah, agora sim! Boa tarde, eu gostaria de fazer uma consulta...(Mostra o cheque para Caveirinha) O CPF é esse aqui? (Caveirinha faz que sim. Aponta o revolver para a cabeça. O Vendedor segura a mão de Caveirinha)231334556/54... Obrigado. Pronto. Agora o senhor pode morrer à vontade!


Caveirinha – Obrigado. (Caveirinha respira fundo, aponta o revólver para a própria cabeça. O vendedor espera) Ah, diga a Adalgisa que morro porque tenho pudor.


(Caveirinha dá um tiro na cabeça. O vendedor olha para ele, examina os olhos, o pulso. Confirma a morte. Começa a guardar os papéis na pasta. Adalgisa entra e vê os dois homens deitados. Ela corre para o sofá)


Adalgisa – O que é isso? O que é que aconteceu aqui?


Vendedor – Uma excelente venda, dona! E a senhora não precisa se preocupar com nada! Eu mesmo vou tomar todas as providências. Se a senhora fizer um upgrade no plano do seu marido eu posso dar um desconto para o maquiador e cabelereiro.


Adalgisa – Eles estão mortos?


Vendedor – Pois é. E o plano do seu amigo é mais caro do que o do seu marido. No enterro, sabe como é, podem falar. É melhor a senhora fazer logo o upgrade.


Adalgisa – O senhor disse ao meu marido que era o amante? Foi por isso que ele se matou?


Vendedor – Não deu tempo. Quando eu cheguei o falecido já tinha falecido.


Adalgisa – E o Ademar?


Vendedor – Esse eu não entendi. Mandou dizer prá senhora que morreu porque tinha pudor... Olha aqui, eu não tenho nada com isso. Fiz o meu papel. Se o seu marido tava morto é problema dele. E já que prá senhora não tenho mais serventia como amante vou voltar prá loja. Depois a senhora acerta. Agora eu tenho que correr!


Adalgisa – Horácio e Ademar...mortos. No mesmo sofá, em cima do manto...que coisa. (O vendedor acaba de arrumar a papelada na pasta)


Vendedor – A senhora não vai chorar o marido? A senhora sabe que aquelas, aquelas que traem aos borbotões, choram porque odeiam o marido? Quanto mais elas tem horror ao marido, mais se descabelam. Depois, passam rouge e batom e vão tomar choppinho na Avenida Atlântica.


Adalgisa – Horácio já estava morto há muito tempo...


Vendedor – E o outro? O outro morreu por amor. A senhora sabe que os que morrem por amor tem sempre um cínico de plantão rindo no enterro. O defunto que morre por amor é motivo de chacota. Coitado.


Adalgisa – Ademar não conta. Homem prá valer a pena sonhar tem que ter ser cafajeste. Senão o sonho fica água com açúcar. Sem graça.


Vendedor – É, dona...dona....


Adalgisa – Adalgisa.


Vendedor – Adalgisa! Memória a minha! A senhora tem...um sangue frio!


Adalgisa – O senhor me dá licença agora. Eu preciso ficar sozinha.


Vendedor – Claro, claro! Olha. Se a senhora tiver mais algum defunto pode indicar! A cada quatro defuntos a senhora ganha um enterro grátis! O patrão é generoso com freguês assim tão bom! (O vendedor sai. Adalgisa fica só com Caveirinha e Horácio. Ela passa a mão no rosto dos dois homens, faz um carinho. Pega o manto da santa, vai até a poltrona pé de palito, senta e começa a bordar. O manto está manchado de sangue.Música)




F I M





Antes de dormir



de Cláudia Mele



Personagens:


Ana
Antônio
Mãe
Laura
Jorge




(Uma sala de apartamento. Os espectadores se misturam ao ambiente, como se espiassem o que vai acontecer. Eles sentam em sofás e cadeiras que fazem parte da sala. A porta principal da sala, que dá para a rua, é a mesma pela qual os espectadores entram. Há duas outras entradas que dão para dentro do apartamento e uma grande janela na parede oposta à porta de entrada)




Cena 1


(Ana, uma mulher de aproximadamente 25 anos se arruma quando toca a campainha. Ela nervosa acaba de se arrumar. Penteia os cabelos ansiosamente. A campainha toca novamente e ela atende a porta. Os dois se olham e se beijam sem jeito. O homem muito bem vestido, aparentando 50 anos, entra no apartamento)


Ana - Sente-se. Quer beber alguma coisa?


Antônio - Uma cerveja. (A mulher, visivelmente nervosa, vai pegar uma cerveja. O homem observa cada detalhe da sala. Ela volta. Serve-o e senta-se ao seu lado) Que apartamento simpático. Você mora aqui há muito tempo?


Ana - Não muito...desde que a minha mãe morreu. Eu morava com ela. Não quis mais ficar lá. Você sabe...é difícil...


Antônio - Sei...


Ana - Então me mudei pra cá. Eu gosto deste bairro. Tem muito verde. Gosto de passear no parque sozinha. Às vezes, fico dias inteiros trancada em casa, em frente ao computador. É bom sair um pouco pra relaxar. (Silêncio) E você? Me fale um pouco. Praticamente não falou nada nos e-mails. Chegou hoje de São Paulo?


Antônio - Pela manhã.


Ana - Fico feliz de você ter vindo até aqui. Estava curiosa pra vê-lo. Você aparenta bem menos. (silêncio) Mora em São Paulo há muito tempo?


Antônio - Muito.


Ana - Hã. (silêncio). Sozinho?


Antônio - Agora sim. Acabei de me separar. (A mulher levanta nervosa e vai até a cozinha. Volta com uma garrafa de vodca)


Ana - Acho que prefiro vodca. Quer ouvir uma música?


Antônio - Fico feliz de vê-la também. Você é muito bonita. Quantos anos? Vinte e quatro? Vinte e cinco?


Ana - Quase vinte e cinco. (Ela coloca uma música)


Antônio - Esse vestido fica lindo em você. (silêncio) Quer dançar?


Ana - Não sei...melhor não...não sei dançar. (O homem segura a mão da mulher)


Antônio - É tão simples. Vem. Segura no meu ombro. (A mulher, no primeiro momento, aceita. Em seguida se afasta)


Ana - Não, eu não quero. (Silêncio. O homem senta)


Antônio - Além de ficar horas na internet, o que você faz?


Ana - Me formei em jornalismo. (Pausa)


Antônio - Tem namorado?


Ana - Não.


Homem: Você deveria arrumar um. Mulheres não nasceram para serem solitárias. Você não acha?


Ana - Acho que gosto de ficar sozinha. Gosto do silêncio.


Antônio - Não quer casar? Ter filhos...Toda mulher quer.


Ana - Acho que está enganado. Por que vocês acham que sempre precisamos de vocês? Minha mãe não precisou.


Antônio - Será? (Ela novamente levanta sem saber o que fazer. Desliga a música)


Ana - Come alguma coisa?


Antônio - (Rindo) Você não preparou um jantar para mim?


Ana - Sim, mas...antes do jantar.


Antônio - Vem cá. Senta aqui do meu lado. (Silêncio. Ele ajeita os cabelos dela) Você me achou como?


Ana - Eu vi o seu nome nos endereços de e-mail de uma amiga. Eu não acreditei... Depois de tantos anos...e você me aparece assim...em um e-mail de uma amiga.


Antônio - Que amiga?


Ana - Eu liguei pra ela. Queria saber como ela conhecia você. Ela disse que foi num bar, em São Paulo. Vocês saíram umas duas ou três vezes. Depois não se viram mais. Laura, o nome dela.


Antônio - Laura...Laura ...Acho que me lembro...E por que não pegou o meu telefone com ela?


Ana - Peguei. Mas não tive coragem de ligar. Não sabia como ia me receber.


Antônio - Querida...É claro que ia ficar muito feliz. Como fiquei, quando recebi o seu e-mail.


Ana - Se você não respondesse, eu jamais saberia se você havia recebido ou me ignorado. (Silêncio) Por que não me procurou antes?


Antônio - Não tinha o seu endereço...


Ana - Não é tão difícil conseguir...


Antônio - Você não demorou a me achar? (Ela levanta. Começa a arrumar a mesa)


Ana - Quer jantar agora?


Antônio - Daqui a pouco. (Silêncio. Ele segura as mãos dela). Ficou com raiva?


Ana - Eu não sei. O que você queria que eu sentisse? Foi embora...Nem uma palavra... nem uma carta...nada, durante anos, nada. Achei que nunca mais ia ver você.


Antônio - Eu não pude mais ficar...Tudo chegou a um ponto que...(Silêncio) Sua mãe...


morreu de quê?


Ana - Eu cheguei em casa, encontrei ela na banheira, desmaiada. Chamei a ambulância...eu estava desesperada...mas ela não resistiu. Se encheu de remédio. Sabia que ia morrer e nem uma carta...As pessoas vão embora da minha vida e...acho que elas não gostam de despedidas. (Ela vai até a cozinha. Ele pega um retrato que está em cima da cômoda)


Antônio - Sua mãe era uma mulher tão bonita...com tantos projetos...uma poeta. Com o tempo foi ficando melancólica. Não sorria mais. Mas ainda escrevia e muito. Seus poemas tinham uma paixão triste.


Ana - Depois que você foi embora, ela nunca mais escreveu nem uma linha...queimou tudo. Um dia colocou todos os poemas dentro de um latão e meteu fogo. As fotos também...Tudo que lembrava você. No dia que você foi embora aquela mulher morreu. Depois disso ela não comia mais, não dormia. Eu passava as noites ouvindo ela chorar. Como eu tive raiva de você...(Silêncio)


Antônio - Não fui eu que fui embora. Ela mandou que eu fosse.


Ana - Por quê?


Antônio - Um dia você vai saber.


Ana - Mas por quê? Me fala...


Antônio - E esse jantar? Vamos comer?


Ana - Perdi a fome. Coma sozinho. Vou me deitar.


Antônio - Espera...Não fica mais com raiva de mim. Estou aqui...com você...novamente. (Ele abraça Ana. Ela fica imóvel) Vamos beber para comemorar. Vou querer vodca também. Deixa eu escolher uma música. (Ele procura entre os CDs e coloca uma música. Ela ouve e começa a rir. Os dois bebem)


Ana - Como você foi descobrir essa música aí? Eu não a ouvia há anos. Comprei esse CD por sua causa. Me fazia lembrar você. Sabe...como a mamãe queimou todas as suas fotos, eu tinha dificuldade de lembrar do seu rosto. Comecei a navegar na internet só para descobrir alguma coisa a seu respeito. E, só depois de anos, acabei descobrindo você.


Antônio - Que bom que você me achou.


Ana - Eu tenho algum irmão?


Antônio - Três.


Ana - Eles moram com você?


Antônio - Não, nenhuma mora comigo. São de casamentos diferentes. Eu só vejo a mais nova. Tem sete anos. As outras eu nunca mais vi.


Ana - Vai abandonando assim suas filhas?


Antônio - Acontece.


Ana - Quero conhecê-las.


Antônio - Talvez um dia. (Silêncio) Vem cá. Senta aqui comigo. Quero abraçar você. Muitos anos de saudade. (Ele a abraça. Ela levanta-se. Ele a segura, olha nos seus olhos e a beija no rosto)


Antônio - Vamos jantar?


Ana - Está no forno.


Antônio - Fique aí. Eu vou pegar. Quero cuidar de você. (Ele vai para a cozinha.


Ela desliga a música)


Ana - Agora me lembro. Quando você chegava em casa vinha assobiando pelo corredor. (Ela assobia a mesma melodia). Eu ficava esperando você entrar no quarto. Algumas vezes minha mãe chegava antes e cantava uma música doce para eu dormir. Mas os olhos da minha mãe à noite eram diferentes. Eu me enroscava em suas pernas. Mamãe...Mamãe...Você não vai me deixar nunca, não é? (Aparece a mãe que vem cantarolando uma música de dormir)


Mãe - Minha filha, eu não vou deixar nada ruim acontecer a você. Estarei sempre aqui, sempre.


Antônio (Em off, da cozinha): Você ainda está acordada? Eu já estou indo. (A mãe faz um carinho na filha e faz menção de sair)


Ana - Não mamãe. Fica aqui comigo, fica aqui comigo até eu dormir. (Mãe sai)


Ana - O meu quarto está escuro...Ele abre a porta em silêncio. Só dá para ouvir a sua respiração. Eu finjo que estou dormindo. A mão dele quente no meu corpo...É gostoso... Tenho medo...Tenho medo que a minha mãe ouça...Ele sussurra no meu ouvido...Fique quietinha...(Silêncio) Como eu não me lembrava disso? Sempre...antes de dormir. Eu prendo a respiração pra não gritar. Dói. Quantos anos? Quantos anos? Cinco? Quatro? Ele aperta a minha boca e me ameaça...diz que se eu contar alguma coisa, não sou mais sua filha querida. Se eu contar alguma coisa, ele vai machucar a minha mãe...As sombras no teto me dão medo...Eu deixo...Seja uma boa menina, fique quietinha, ele diz. Ele coloca a mão dentro da minha calcinha...me beija. Tira a minha calcinha...me beija. É gostoso. É como ele me ama. Quando dói, eu choro e ele coloca um travesseiro no meu rosto para minha mãe não ouvir. (Antônio volta da cozinha)


Antônio - Está tudo pronto. Onde estão os pratos?


Ana - Na cômoda.


Antônio - Pelo aspecto e pelo cheiro vejo que você é uma cozinheira de mão cheia. Vou servir você. Não faça nada. Fique quietinha. Deixa que eu faço tudo. Talheres?


Ana - Na cômoda. (Ele serve a mulher. Ela está imóvel sentada na cadeira)


Antônio - Devemos cuidar muito bem das nossas mulheres. Está boa essa quantidade?


Ana - Está.


Antônio - Mais vodca?


Ana - Por favor. (Eles comem em silêncio durante um tempo)


Antônio - Você devia arrumar um homem pra você. Não é bom ser cuidada por alguém?


Ana - É.


Antônio - Quando foi a última vez que namorou?


Ana - Eu tive apenas um namorado...Ele foi pra Londres.


Antônio - E você? Por que não foi?


Ana - Minha mãe disse que eu tinha que abrir mão do meu amor, assim como ela fez.


Antônio - E depois?


Ana - Nunca mais namorei.


Antônio - Como? Você nunca mais teve um namorado?


Ana - Não. Acho que estou esperando o homem certo. Se é que ele existe. Nós mulheres estamos sempre esperando o homem certo, que nos proteja e que nos dê prazer. Eu estou esperando ainda. Será que você pode me ajudar?


Antônio - Conheço alguns rapazes. Posso apresentá-los a você. Você fica muito sozinha aqui dentro. Precisa conhecer pessoas.


Ana - Por que você foi embora?


Antônio - Como?


Ana - Por que você deixou a gente?


Antônio - Minha filha, isso não importa agora.


Ana - Eu acho que sei. A mamãe entrou no quarto, não foi? Ela viu a gente. Por isso que eu sempre me senti culpada pela sua partida.


Antônio - Do que você está falando?


Ana - (Com raiva) Mãe! Você tinha razão. A culpa é minha sim. Você abriu mão do seu amor por minha causa.


Antônio - Não estou entendendo.


Ana - Me beija.


Antônio - O quê?


Ana - Isso, me beija. Eu vou ficar quietinha. Ninguém vai ouvir. Ninguém vai saber. Põe a mão na minha calcinha. (Antônio fica sem saber o que fazer. Ela tira a blusa) Ficaram bonitos os meus seios, papai? Eles cresceram, não é? Pode pegar. São seus.


(Antônio fica imobilizado, sem saber o que fazer e então avança para Ana. Beija seus seios. Ela bate nele, tenta empurrá-lo. Ele tira a sua calcinha. Ela grita e ele enfia a almofada no seu rosto. Ela se debate. Ele tira as calças e come ela. Ela continua se debatendo. Ele goza. Ela vai parando de se mexer. Fica imóvel em cima do sofá. Ele levanta e coloca as calças. Pega as suas coisas e abre a porta para ir embora. Ana, sem se mexer) Pai. (Antônio para. Olha para ela) Quando você volta? (Ele sai. Silêncio. Depois de um tempo Ana, sozinha deitada no sofá, cantarola. Vai diminuindo o canto que vai sendo substituído pela própria música. Black out)


Cena 2


(A música se mistura com som da campainha. Ana está deitada no sofá. Atende à porta sonolenta)


Laura - O que houve? Eu vim o mais rápido que pude.


Ana - Eu não estou bem. Preciso de companhia.


Laura - O que você está sentindo?


Ana - Acho que tomei remédio demais.


Laura - Por que Ana? Fiquei preocupada. No telefone quase não dava para entender o que você falava. Estava enrolando a língua. Por que tomou esses remédios todos?


Ana - Laura, você já sentiu vontade de morrer?


Laura - Não fale assim. Você é tão bonita...Tanta coisa boa na sua vida...Não queira repetir o que a sua mãe fez. Eu vou ajudar você. Vamos sair essa noite. A lua está tão linda.


Ana - Não, eu não vou sair. Fica aqui comigo. Dorme aqui comigo.


Laura - Está bem. Mas o que aconteceu?


Ana - Você lembra que eu perguntei a você sobre um Antônio que estava no seu endereço de e-mail?


Laura - Lembro. O que tem?


Ana - Você chegou a vê-lo novamente?


Laura - Coincidência...ele me ligou há um mês mais ou menos.


Ana - O que ele queria?


Laura - Saber como eu estava. Queria sair para conversar. Eu disse que não podia. Meu tempo de homem casado acabou.


Ana - Ele não falou nada de mim?


Laura - Ele disse que conhecia uma amiga minha. Eu perguntei quem era e então lembrei de você. Ele disse que sim, que conhecia e queria saber como você estava.


Ana - Ele esteve aqui nessa época.


Laura - Veio aqui? Quando eu disse que não via você há um tempo, ele desligou.


Ana - Como foi o seu encontro com ele?


Laura - Em São Paulo? Já disse. Saímos umas duas ou três vezes e nada mais. Não queria mais nada com homens não disponíveis. Quando a gente se enrola com homem casado é porque na verdade tem medo de se envolver. Não serve, Ana.


Ana - Ele está separado.


Laura - Ele falou!? Você está interessada nele!?


Ana - Ele é meu pai, Laura. Ele abandonou a minha mãe quando eu era muito pequena. Quase não tinha recordações dele. Mês passado nos reencontramos. (Silêncio)


Laura - Que bom, Ana. Isso é pra você ficar feliz. Tira essa carinha triste. Vai ficar tudo bem. Eu vou ligar para ele. Vamos combinar de vocês se verem de novo.


Ana - Não. Obrigada. Eu ligo. (Silêncio) Depois eu ligo. Eu já estou melhor.


Laura - Que bom.


Ana - Você não precisa dormir aqui. Vou ficar bem. Pode deixar. Desculpa. Preciso ficar sozinha.


Laura - Ana, olhe para isso com alegria. Você reencontrou o seu pai! Quantas vezes você sonhou com isso? (Silêncio) Eu vou te contar uma coisa. Eu também não via o meu pai há muito tempo. Só que agora, já é tarde. Eu soube há pouco tempo que ele teve uma doença e não resistiu. Aproveite essa oportunidade. O que eu mais queria era encontrar ele agora. Você pode. (Silêncio) Você vai ficar bem? (Ana olha para Laura. Black out)


Cena 3


(Ouvimos o telefone tocar. Ana entra em cena para atender)


Ana - Alô. Quem? Como? Não acredito! É você! Sim...Venha...Estou esperando. Hoje à noite. Aqui em casa. (A mulher arruma a casa. Cumpre o mesmo ritual da primeira cena. A campainha toca. Ela abre a porta. Aparece um homem bonito aparentando 28 anos. Os dois se olham e se beijam)


Ana - Sente-se. Quer beber alguma coisa?


Jorge - Uma cerveja. (A mulher vai pegar uma cerveja. O homem observa cada detalhe da sala. Ela volta. Serve-o e senta-se ao seu lado)


Jorge - Que apartamento simpático. Você mora aqui há muito tempo?


Ana - Não muito...desde que a minha mãe morreu. Não quis mais ficar lá. Você sabe... é difícil...


Jorge - Sei...


Ana - Então me mudei pra cá. Eu gosto deste bairro. Tem muito verde...Gosto de passear no parque sozinha. Às vezes fico dias inteiros trancada em casa em frente ao computador. É bom sair um pouco pra relaxar. (Silêncio) E você? Me fale um pouco...Não tenho notícias suas há anos....Quando você chegou?


Jorge - Pela manhã.


Ana - Fico feliz de você ter vindo me ver. Estava curiosa para vê-lo. Você está tão bonito! (Silêncio).


Jorge - Eu precisava vir. Em todos esses anos...


Ana - Vou colocar uma música.


Jorge - Você também está bonita. Quase vinte e cinco...


Ana - Quase vinte e cinco. (Ela coloca uma música)


Jorge - Esse vestido fica lindo em você. (Silêncio) Quer dançar?


Ana - Talvez. (Jorge segura a mulher pela cintura)


Jorge - Você não gosta mais de dançar? (A mulher no primeiro momento dança. Em seguida se afasta. Silêncio. O homem senta)


Jorge - O que você tem feito?


Ana - Me formei em jornalismo...


Jorge - Tem namorado?


Ana - Não.


Jorge - Eu vim porque senti saudades.


Ana - E a sua bolsa em Londres?


Jorge - Terminou. Eu já estava empregado. Minha vida estava estabilizada lá, mas eu precisei voltar. Demorei muito para procurar você...pensei muito...Quero ficar com você, Ana.


Ana - Agora?


Jorge - É ...Eu voltei pra isso. Não agüentava mais ficar naquele país gelado. Só pensava em voltar. Quando soube que sua mãe havia morrido entendi que era a hora.


Ana - Mas assim... de repente? Não sei... Temos que ver se é isso mesmo.


Jorge - Mas você está sozinha. Por que não? (Nesse momento toca a campainha. A mulher abre a porta. O pai entra)


Ana - Oi.


Antônio - Oi.


Ana - Esse é o meu pai.


Jorge - Muito prazer.


Antônio - Prazer.


Ana - Vou pegar a vodca.


Antônio - Você, quem é?


Jorge - Meu nome é Jorge. Sou um amigo da sua filha.


Antônio - Sei.


Ana - Vocês querem comer alguma coisa?


Antônio - Pode ser. (Ana entra na cozinha)


Jorge - Não sabia que vocês estavam se vendo.


Antônio - Resolvi procurar a minha filha.


Jorge - E eu voltei de Londres pra ficar com a sua filha.


Antônio - Que bom. (Os dois ficam um tempo sem falar. O pai troca o CD. Coloca a música que cantava para a filha)


Jorge - Quando foi que vocês se reencontraram?


Antônio - Há dois meses estive aqui. (Ana volta da cozinha com alguns pães e pastas. Os três comem. Só se ouve a música. Jorge levanta-se)


Jorge - Onde é o banheiro?


Ana - Primeira porta. (A mulher olha para o pai)


Antônio - Não sabia que ia te encontrar acompanhada.


Ana - E eu pensei que você não tivesse coragem de voltar.


Antônio - Você não pediu?


Ana - Vai embora, por favor. (Jorge volta. Senta-se à mesa. O pai e Jorge comem. A mulher levanta, desliga a música e fala sozinha em devaneio) Quando eu tinha cinco anos meu pai foi embora. Não escreveu nem uma carta. Sonhava que um dia ele ia voltar e viveríamos juntos para sempre. Me abraça papai. Diz pra mim. Eu sou sua filhinha e você gosta de me abraçar. Minhas pernas estão quentes e a noite é longa. Eu abro minha boca e você derrama o seu leite. Estarei bem amanhã. Mamãe não saberá de nada. É um segredo, só nosso.


Jorge (Para Ana) – Está uma delícia. Foi você quem fez?


Ana (Ainda em devaneio) - Foi.


Jorge (Para a mulher) – Senta aqui. (Os dois homens continuam a comer)


Ana - Espera. Não faz barulho! (Para si) Minha mãe pode ouvir. Me beija devagar...Se ela vier entra debaixo da cama. Não faz barulho. Segura nas minhas pernas...elas estão tremendo. Eu tenho medo. Às vezes parece que eu vou explodir de prazer. Enfia o dedo devagar, me beija...isso...me lambe...passeia com os seus dedos devagar...devagar... Você é tão bonito. Tenho medo...


Jorge (Para Ana) – Você não vai comer?


Ana - Escuta! É a minha mãe. Ela está chegando. Mãe, me deixa sozinha...Eu preciso ficar sozinha. (Mãe aparece)


Mãe - Deixa de safadeza menina. Não se tranque no quarto. Eu não gosto.


Ana - Mas mãe eu preciso ficar sozinha.


Mãe - Se guarde para o homem certo, minha filha. Boas meninas fazem tudo para contentar suas mães.


Ana - E se eu não for uma boa menina?


Mãe - Vai acabar como eu...(A mãe sai)


Ana - Pode vir, ela já foi. Me beija mais. Me abraça... Não vai pra Londres... Fica... Eu não posso ir. Não posso deixar ela sozinha.


Jorge (Para Antônio) – A comida de Londres é terrível. Acabei tendo que aprender a cozinhar.


Antônio - Só como o trivial. Então é fácil. Você quer mais cerveja?


Jorge - Aceito


Ana (Saindo do devaneio) – Vocês já acabaram? Preciso dormir. Estou cansada. Vocês se incomodam de ir embora?


Jorge - Queria conversar mais com você.


Ana - Amanhã eu ligo. Desculpa. Boa noite. (Os homens saem)


Cena 4


(Jorge está na janela)


Jorge - Aqui é tão alto. Dá uma sensação estranha. Vontade de se jogar para criar asas. É assim que estou me sentindo...livre. Depois de tanto tempo querendo você e agora, nós aqui juntos, meu amor...Quero ficar aqui pra sempre. (Ele abraça e beija Ana)


Ana - Me beija, me abraça...até que eu pare de respirar e esse momento dure para sempre...


Jorge - Sempre...


Ana - Pra sempre...(Silêncio) Agora meus sonhos são pra sempre seus. (A campainha toca. Jorge atende)


Laura - A Ana está? Eu tenho uma surpresa.


Ana - Oi Laura, entra. (Atrás da Laura, entra Antônio)


Antônio - Vim ao Rio para resolver umas questões de trabalho. Encontrei a Laura. Viemos fazer uma visita.


Laura - Antônio se separou no papel. Estamos namorando. Olha que legal...sua amiga namorando o seu pai. Não é engraçado?


Ana - É muito engraçado. Parabéns. Vocês devem estar muito felizes. Eu e Jorge também estamos muito felizes.


Laura - Vamos então fazer um brinde aos casais!


Jorge - Vou pegar as bebidas.


Laura - Coloque uma música, Ana, para comemorar o momento. (Ana coloca a música que o pai cantava. Olha então para Antônio, que disfarça) Adoro essa música. Lembra a minha infância. (Jorge volta com os copos)


Jorge e Laura - À felicidade dos casais. (Todos brindam)


Jorge - Bem, desculpe, eu vou ter que ir agora. Tenho que terminar um projeto lá em casa. (A Ana) Te vejo amanhã, tá?


Antônio - Você vai ficar de vez no Rio?


Jorge - Vou. Vou me casar com a sua filha.


Antônio - Parabéns.


Laura - Isso merece um novo brinde. (Eles brindam novamente. Ana sorri discretamente. Antônio tenta disfarçar o seu incômodo. Jorge se despede. Antônio vai mudar o CD) E você, amiga? Pelo jeito está bem melhor! Eu estou tão feliz. Acho que agora finalmente vou ficar bem com uma pessoa. Eu e seu pai temos tudo em comum.


Ana - Mas vocês acabaram de ficar! Você nem conhece ele!


Laura - Como não, Ana? Conheci seu pai há mais de um ano.


Ana - Deixa de ser boba, Laura. Dê tempo ao tempo.


Laura - Achei que você fosse ficar feliz.


Ana (Séria) – Eu estou feliz. (Antônio se aproxima)


Antônio - Laura, é melhor nós irmos. Não estou me sentindo bem.


Laura - O que houve?


Antônio - Dor de cabeça...


Laura (Para Ana) – A gente volta, tá? Tenho certeza que você vai ficar feliz de eu ser sua madrasta. (Os dois saem. Ana coloca uma música e começa a tirar a roupa. Deita no chão e se cobre com um lençol. A mãe entra)


Ana - Mãe, quando estou sozinha tenho sempre a mesma fantasia. Eu ouço você no quarto ao lado. Sei que pode entrar a qualquer momento. Me cubro...assim não tenho culpa. As mãos dele deslizam por baixo do lençol com cuidado para não doer. Fique quietinha. Seja uma boa menina. Não faça nada. Meu coração dispara. Ouço seus passos no corredor. Mamãe. Eu não faço nada. Ele prende os meus braços e amarra a minha boca. (Alguém bate na porta) Está aberta. Entra. (A música pára.O pai entra. Devagar ele tira a roupa. Ela aperta os olhos. Ele desliza a mão por baixo do lençol. Ela coloca os braços para trás. Ele enfia a cabeça por baixo do lençol. Eles não emitem qualquer som. Por baixo do lençol eles transam devagar e silenciosamente. Durante todo o tempo a mãe observa)


Cena 5

(Ana arruma a casa. Está grávida. Jorge chega. Beija Ana na testa)


Jorge - Como você está?


Ana - Um pouco cansada.


Jorge - Você trabalhou hoje?


Ana - Em casa.


Jorge - O que houve?


Ana - Sonhei com a criança.


Jorge - E isso não é bom?


Ana - Não sei.


Jorge - Quer que eu prepare a banheira pra você?


Ana - Eu estava sozinha...ela chegava, mas não me via. Os seus olhos eram vazados. Eu dizia...não vem ainda...Era uma menina...


Jorge - Uma menina? Que bom!


Ana - Não sei.


Jorge - Você deve estar impressionada. Isso é normal. Eu ouvi dizer que todas as grávidas têm esses sonhos.


Ana - Eu não quero uma menina.


Jorge - Por quê?


Ana - Não quero. (Toca a campainha. Entra o pai com um bebê conforto)


Antônio - Que trânsito está na rua! Aconteceu um acidente. Uma menina caiu de um prédio. A rua está um caos. Os pais deviam cuidar melhor de seus filhos. Que imprudência!


Jorge - Quantos anos?


Ana (Chorando) – O que importa?


Antônio - O que houve com ela?


Jorge - Sonhou com a criança. Parece que é uma menina.


Antônio - Uma menina? Em breve teremos mais uma menina em casa? Que maravilha!!! (Ana sai)


Antônio - Jorge, preciso conversar com você.


Jorge - Sim.


Antônio - Estou transferindo os meus negócios para o Rio. Eu venho definitivamente morar aqui. Já arrumei um comprador para o meu apartamento em São Paulo, mas ainda não deu para procurar nada no Rio. Você sabe...Não vai dar para ficar em apart hotel agora. Muito caro. Pensei em ficar aqui até encontrar um apartamento.


Jorge - Mas aqui é muito pequeno.


Antônio - Mas minha filha está precisando de alguém que fique com ela. Final de gravidez...É sempre mais arriscado ficar sozinha.


Jorge - Eu vou contratar uma empregada para ficar com ela.


Antônio - De jeito nenhum! O espaço não é pequeno para uma empregada, mas é para mim!? Eu faço questão de vir ajudar. E como meus negócios ainda não estão muito organizados, vou tirar umas férias até a criança nascer. Vai ser bom para mim e para ela. Quero recuperar o tempo perdido.


Jorge - E a Laura? Por que você não vai para a casa dela?


Antônio - Não quero precipitar as coisas. Acho que não está na hora de irmos morar juntos. Talvez essa hora não chegue nunca.


Jorge - De qualquer forma temos que perguntar à Ana.


Antônio - Ela vai gostar.


Cena 6


(A mulher dobra roupinhas de bebê. O pai entra)


Ana - Engraçado. Estou me lembrando da mamãe dobrando roupinhas de bebê. Mas não eram as minhas....eu devia ter uns três anos...e eram roupinhas de recém nascido. A mamãe ficou grávida depois de mim?


Antônio - Sua mãe perdeu um bebê.


Ana - Por que ela nunca mais falou sobre isso? Eu não me lembrava. Por que ela perdeu?


Antônio - Acontece.


Ana - Vocês brigavam muito, não é papai? Me lembro da mamãe dobrando as roupinhas, mas ela chorava...chorava muito. O que aconteceu?


Antônio - Não é hora de se falar dessas coisas. (Colocando a mão na barriga da filha) Como vai a menina do papai?


Ana - Eu já falei para você não falar assim. Eu não gosto.


Antônio - Então vem você, filhinha do papai. Vem, deita no meu colo. Vou fazer você dormir.


Ana - Pára. Eu não quero. Você prometeu.


Antônio - Promessa às vezes a gente não consegue cumprir.


Ana - Eu já disse que não quero mais.


Antônio - Só me abraça.


Ana - Pai. Eu estou com quase oito meses. Eu vou ter uma filha. O que você quer?


Antônio - Eu quero minha filhinha de volta.


Ana - Me solta. Eu não quero. Pára! Está doendo. Pára!!! (Antônio a segura com mais força e tenta dar um beijo. Ana começa a gritar) Pára! Está doendo. Não estou agüentando. Minha barriga...


Antônio – Calma, calma...


Ana - Me leva para o hospital.


Cena 7


(Os quatro entram no apartamento. Nos braços da mulher, a criança)


Jorge - Que susto a gente passou. Finalmente está tudo bem. E a nossa menina já está em casa. Estranho...a gravidez estava ótima. O bebê não parecia que ia nascer prematuro.


Ana - Comecei a sentir as dores assim, de uma hora para a outra.


Antônio - Que bom que está tudo bem!


Jorge - Vou preparar as coisas no quarto da Anita.


Antônio - Vou para o meu quarto. (Laura segue Antônio.Ana fica sozinha e canta uma cantiga de ninar para o bebê)


Ana - Seja bem vinda, minha filha. Eu vou proteger você como a minha mãe não fez. (Mãe entra)


Mãe - Para de falar besteira. Não seja mal agradecida. Tudo que eu fiz foi para proteger você. Eu perdi um filho por sua causa.


Ana - O que você está dizendo mãe?


Mãe - Eu perdi o meu menino.


Ana - Que menino?


Mãe - Eu perdi tudo para te proteger. Você é uma ingrata. Agora quer ir embora. Vai! Vai pra Londres. Me deixa aqui sozinha. Eu vou morrer. Você vai ver.


Ana (Para a mãe) – Não fale assim. Anita, eu vou ser uma mãe muito diferente do que ela foi. Eu prometo.


Mãe - Você vai ser igualzinha a mim.


Cena 8


(Jorge está sentado no sofá. A mulher prende os cabelos)


Jorge - Senta aqui. Fica aqui comigo. Tenho sentido saudade. (Ana não se mexe. Ele desfaz os cabelos dela carinhosamente. Beija a nuca da mulher)


Jorge - Há quanto tempo a gente não fica assim. Você não gosta?


Ana - Gosto.


Jorge - Então, o que há?


Ana - É a criança...Não me deixa tempo.


Jorge - Quero ficar sozinho com você.


Ana - Com uma criança pequena é difícil ficar sozinha.


Jorge - Estou falando do seu pai. Ele está sempre por perto espreitando a gente. Está na hora de ele ir embora.


Ana - Me beija. (O homem beija a mulher. Segura nos seios dela) Aqui não. Meu pai pode ver.


Jorge - E daí? Você é minha mulher.


Ana - Não fica bem.


Jorge - Então vamos para o quarto.


Ana - Tenho que dar de mamá para a Anita. (Jorge sai irritado. Ana pega o bebê conforto. Anita está dentro. Canta a música que sua mãe cantava) Minha filha, os seus olhos...eles não me vêem. Onde está você? Minha filha, chore! Eu nunca ouço o seu choro. Que silêncio é esse? Olhe pra mim. Mamãe está cantando uma música. Por que você não reage? Os seus olhos...me dão medo. Não pode ser. Eu não quero. Você não pode ser filha dele. (Black out)


Cena 9


Laura - Por que você não vai lá pra casa? Eu não entendo. Aqui está apertado. Você vai ter muito mais conforto.


Antônio - Não insista Laura. Não está na hora.


Laura - Minha menstruação está atrasada duas semanas.


Antônio - E as pílulas?


Laura - Parei.


Antônio - Eu disse para você não parar! Não era a hora!


Laura - Mas acho que agora já foi. Não é um bom motivo para você ir?


Antônio - Você vai tirar essa criança.


Laura - Não vou! Eu vou ter mesmo que você não queira.


Antônio - Você vai tirar e pronto. (Laura começa a chorar) Desculpa. (Silêncio) Laura, querida. Eu tenho que voltar a trabalhar. As coisas têm que se estabilizar. Não pode ser assim.


Laura - A minha vida toda eu sonhei em ter um filho. Eu queria saber como é mãe e filho.


Antônio - Laura, não é hora de brincar de mamãe e filhinho.


Laura - Minha mãe foi embora eu era muito criança. Meu pai cuidou de mim. Ele era meu pai e minha mãe. Uma vez ela ligou pra falar comigo. Disse que viria me ver. Coloquei numa caixa tudo o que precisava quando ela viesse me buscar...Deixava debaixo da cama para meu pai não ver. Mas ela nunca veio. Tive raiva dele por ter deixado ela ir embora. Quando saí da cidade para estudar, nunca mais voltei. Nunca mais revi meu pai. Eu quero que meus filhos tenham uma família. Quero muito que você seja o pai dessa criança.


Antônio - Eu não posso Laura. Desculpe, mas eu não posso.


Cena 10


(Jorge lê o jornal. A mulher vem da rua segurando a criança. Coloca-a no bebê conforto)


Jorge - O que houve? Está com a cara abatida.


Ana - Conheci uma mulher no parque. Foi a menina dela, um bebê que caiu do prédio, lembra?


Jorge - Como foi isso?


Ana - Ela estava na varanda com a criança no colo. Ela escapuliu... A criança escapuliu da mão dela.


Jorge - Que horror!


Ana - Será que foi ela que deixou cair?


Jorge - Não estou entendendo!


Ana - Eu acho que ela matou o filho.


Jorge - Mas quem faria isso?


Ana - Muitas mães podem fazer.


Jorge - Do que você está falando? Está maluca?


Ana - Eu já senti vontade de arremessar a minha filha na parede.


Jorge - Você está me assustando!


Ana - Eu acho que a minha mãe matou um filho dela, antes de nascer.


Jorge - Por que você acha isso?


Ana - Eu sinto. (Mãe aparece)


Mãe (Ouvida só por Ana) – Eu não podia ter outra criança. Eu deixaria você ainda mais sozinha. Não poderia proteger você. E eu não queria botar outra criança no mundo e deixar ela passar por tudo o que você estava passando. Eu não poderia deixar o seu pai...


(O pai entra vindo da rua)


Antônio - Eu vou dormir um pouco. Não me chamem para nada.


Ana - Pai, lembra da menina que caiu da janela?


Antônio - Lembro, por quê?


Ana - Eu conheci a mãe dela hoje...(pausa) Pai, como a mamãe perdeu o bebê? (A mãe continua em cena)


Antônio - Esquece isso Ana. Não vale a pena. Passado a gente enterra.


Ana - Ela matou a criança, não foi?


Antônio - Não vale a pena. Eu não quero conversar agora.


Ana - Fala. Eu preciso saber.


Antônio - Você quer saber? Então vai saber! Ela enfiou um cabo de vassoura.


Ana - Como?


Jorge - Eu não estou acreditando nisso tudo que eu estou ouvindo!


Ana - Vocês tinham brigado, não foi?


Antônio - A gente tinha passado a noite discutindo. Ela começou a gritar como uma louca, foi até a cozinha e pegou a vassoura. Ela estava tão transtornada...foi tudo tão rápido...


Mãe (Ouvida apenas pela mulher) – Ele estava no seu quarto com você. E eu ouvia os seus gritos sufocados pelo travesseiro. Eu não ousava entrar. Tinha muito medo. Eu matei o filho dele. Me vinguei dele matando o meu filho.


Ana - E você? O que fez?


Mãe - Ele foi embora.


Antônio - Fiquei atordoado, não sabia o que fazer...


Mãe - Eu lá sozinha... você no quarto.


Antônio - Tive que ir.


Jorge - Eu não quero ouvir mais nada. Vou botar a Anita na cama. (Jorge sai)


Antônio - Voltei vinte dias depois.


Ana - Voltou a morar com a gente? E quando você foi de verdade? O que aconteceu?


Antônio - Pela primeira vez a sua mãe teve coragem de abrir a porta. Até então ela só ouvia. Naquele dia ela entrou.


Mãe (Ouvida apenas por Ana) – Quando eu entrei, ele estava deitado nu em cima de você. A mão dele segurava a sua boca. Você, minha filha, apertava os olhos e agarrava com força o lençol. Parecia que ia se enterrar na cama. Eu não agüentei. Saí gritando, joguei a mala e as roupas dele pela janela e disse que ele não passava nem mais aquela noite ali.


Ana - Sai daqui pai, vai embora...


Antônio - Eu vou ficar, com você e com a Anita. Eu preciso de vocês. Vocês são os amores da minha vida.


Ana - Você não ama ninguém pai.


Antônio - Eu te amo, minha filha. Eu te amo...eu te amo. (O pai segura a filha com força. Começa a beijá-la. Ela começa a chorar)


Ana - Vai embora pai, por favor. Vai antes que as coisas piorem. (O pai segura a filha e coloca a mão entre suas pernas)


Antônio - Eu sei que você me quer. Você acha que eu não sei que você nem transa com o Jorge? Você casou com ele pra fugir de mim, mas é comigo que você vai ficar. (Ele aperta a mão contra a boca da filha e arranca sua calcinha. Ela cai no chão. Ele por cima dela. Jorge entra na sala. Ele fica totalmente estarrecido, fica imóvel durante alguns segundos e sai da sala. Os dois continuam a lutar. Ela já sem forças. Ele a beija. Jorge volta segurando uma arma. Ele atira. Black out. Silêncio)


Cena 11


(Quando a luz volta, Jorge e Ana estão abraçados)


Jorge - Por que você nunca me contou?


Ana - Eu tinha medo...


Jorge - Medo de quê?


Ana - De tanta coisa...(Silêncio) Preciso acertar minha vida...


Jorge - Jamais podia imaginar! Tudo acontecendo aqui do meu lado...


Ana - Fazer alguma coisa...


Jorge - E você nunca...


Ana - Me ajuda...


Jorge - Vai ficar tudo bem. Eu vou cuidar de você. Ele não vai mais aparecer.


Ana - Como você sabe?


Jorge - Disse a ele que o segundo tiro vai ser pra valer.


Ana - Me abraça. Estou com medo.


Jorge - Estou aqui. Estarei sempre. O meu amor vai curar todas essas feridas. (Eles ficam um tempo abraçados)


Jorge - Cadê Anita?


Ana - Não sei.


Jorge - Como? Você não sabe onde está a nossa filha? (Ana olha para ele e não responde. Silêncio) Ela é nossa, não é? (Silêncio) Responde. (Jorge sacode a mulher. Ela está imóvel e sem expressão) É por isso que ela não chora nunca! (Silêncio) Onde ela está? Onde? (A mulher continua sem se mexer) O que você fez com ela?


Ana - Ela está tomando banho.


Jorge - Como assim, tomando banho? Ela é um bebê!!! (Jorge corre para o banheiro. Ana continua imóvel no meio da sala. Ele volta com a criança enrolada em uma toalha) Você afogou. (Silêncio) Você afogou a menina.


Ana - Ela não era sua filha.


Jorge - Era uma criança...um bebê...


Ana - Quero recomeçar a minha vida. (Os dois ficam em silêncio. Jorge coloca a criança no bebê conforto) Será que existe um amor que apague todas as feridas? Eu amava a minha filha, mas a minha ferida era maior do que o meu amor. Estou em carne viva. Meu corpo queima, mas por dentro estou morta. Estou morta.


Jorge - Ana, vamos embora...Vamos para outra cidade, no sul, sei lá...Recomeçar tudo.


Ana - E se eu for presa?


Jorge - Nós vamos enterrar a criança. Ninguém precisa saber. Saímos com ela no bebê conforto. Vai dar tudo certo. ( Os dois se abraçam. Black out)


Cena 12


(Ana está guardando todos os objetos dentro de caixas. Toca a campainha. Ela abre a porta. O pai entra. Ele olha em volta)


Antônio - Está de mudança? (Ana fica totalmente imóvel)


Antônio - Por que você não foi me visitar no hospital?


Ana - Eu não sabia onde você estava.


Antônio - Cadê a minha menina? Eu vou levar vocês duas embora. Vamos voltar para São Paulo. Você vai ganhar uma nova irmã. A Laura está grávida.Vamos morar todos juntos. Ela ficou todo tempo comigo no hospital.


Ana - Ela não avisou nada pra mim.


Antônio - Eu pedi que não. Disse que queria ficar sozinho com ela e que não queria preocupá-los. Ela chegou a ligar para o seu maridinho dizendo que eu tinha voltado para São Paulo e que estava tudo bem. Eu disse que foi bala perdida. Ninguém sabe o que aconteceu. Vamos começar vida nova.


Ana - Eu não posso pai.


Antônio - Eu preciso ficar perto das minhas meninas.


Ana - Anita morreu papai.


Antônio - Como?


Ana - Sufocada.


Antônio - Então iremos eu e você.


Ana - Pai, você está me ouvindo? A Anita morreu.


Antônio - Era um bebê estranho. Vai ver foi melhor assim. Vou poder cuidar melhor de você. Vai fazer suas malas. Elas já devem estar prontas, não é? Para onde você estava indo?


Ana - Não sei.


Antônio - E onde está seu marido?


Ana - Não sei.


Antônio - Ana, estou em um apart hotel. Aqui está o telefone. Estarei lá até amanhã. A Laura já foi para São Paulo. Ela não sabe que você vai também. Vamos dizer que você se separou do Jorge. (silêncio) Vou te esperar...(Ana pega o papel. Fica imóvel olhando para ele. Ele lhe dá um beijo e sai. Ana continua arrumando as caixas. Coloca a música de infância. Jorge chega)


Jorge - Que cara é essa? Por que você botou essa música?


Ana - Ele veio aqui.


Jorge - Como? Eu sabia! Eu senti que ele voltaria. Vamos, Ana...vamos arrumar tudo o mais rápido possível. Precisamos sair daqui hoje. (Ele desliga a música)


Ana - Ele não contou para ninguém o que aconteceu.


Jorge - De qualquer maneira, vamos embora o mais rápido possível. Não fico aqui nem mais um dia. Mudei de idéia. Nós não vamos para o sul. Vamos para Londres. Recomeçar tudo lá. Como se estivéssemos indo há sete anos atrás. Ele nunca mais vai saber da gente. Eu tenho muitos amigos, posso conseguir trabalho...Comprei as passagens ontem.


Ana - Como assim? Mas você nem me perguntou.


Jorge - Acho que tanto faz fugir para Florianópolis ou para Londres. Vamos recomeçar tudo. Vida nova finalmente!


Ana - Eu não quero ir pra Londres.


Jorge - Lá é ótimo. Você vai ver. Seremos muito felizes. (Jorge entra para o quarto. Ana começa a desarrumar as caixas. Vai colocando tudo pelo chão. Está confusa. Coloca roupas dentro de uma mala e fecha-a. Pega o telefone e começa a ligar. Desliga. Liga novamente)


Ana - Oi pai. Quero dizer que apesar de tudo eu o amo e estarei sempre perto. Sentirei saudades. Dê um beijo na Laura. Preciso desligar agora. Mãe, Você está aí? Preciso de seus abraços calorosos de novo. Não briga comigo, mãe. Onde você está? (A mãe entra cantando a música de ninar)Me abraça...Me abraça forte até eu entrar novamente em você. Me deixa aí dentro. Deixa eu sentir seu calor, seu hálito doce. Canta pra mim mamãe. (A mãe abraça Ana e cantando tira peça por peça da roupa da filha carinhosamente. Conduz Ana até a janela)


Ana - Estou pronta. (Ana se joga)


FIM