quarta-feira, 4 de julho de 2018

Teatro/CRÍTICA

"NAITSU - noites com Murakami"

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O real e o imaginário em belíssima versão




Lionel Fischer



"A montagem recria em cena a atmosfera fantástica de Haruki Murakami, considerado o maior autor japonês da atualidade. Sem transpor diretamente qualquer de seus livros, NAITSU atravessa a obra de Murakami, faz convergir situações recorrentes em sua literatura e aglutina várias personagens em apenas uma, que percorre paisagens estranhas e, às vezes, pertencentes a um outro mundo. O entrelaçamento de textos de obras diversas de Murakami com o texto corpo-verbal de Regina Miranda mantém a noite viva e a pulsação emocional da personagem vibrante, enquanto ela atravessa insone as horas entre a meia-noite e o alvorecer".

Extraído (e levemente editado) do ótimo release que me foi enviado, o trecho acima contextualiza o essencial de "NAITSU - noites com Murakami", mais recente produção da Cia. Regina Miranda & Atores Bailarinos. Em cartaz no Espaço Rogério Cardoso da Casa de Cultura Laura Alvim, a montagem leva a assinatura de Regina Miranda e tem como única intérprete Marina Salomon.

Assim que entram na Sala Rogério Cardoso, os espectadores recebem uma varinha e são informados de que podem "manipular a cenografia". Esta consiste em negros véus, com algumas frestas, que envolvem o espaço de representação; e no centro do mesmo, vemos uma espécie de passarela com uma mescla de cores, sendo o vermelho a cor predominante. A mencionada manipulação, obviamente, ficaria restrita aos véus - no meu caso específico, nada fiz com a dita varinha.

Tão logo constatei o essencial da ambientação, meu olhar se concentrou na mulher que, vestida de forma atemporal, realiza movimentos que mesclam contração e expansão, como se desejasse se libertar de algo que a atormenta e ao mesmo tempo sentisse  grande temor de consumar seu desejo. Essa mulher também direciona seu olhar, seus braços e todo o seu corpo em direção aos véus, como que pedindo ajuda àqueles que a observam. Mas logo o mesmo e desesperador ritual volta a se repetir. E talvez se perpetuasse, a menos que ela tomasse alguma atitude. E é o que ela faz ao confessar que havia passado as últimas 17 noites sem dormir.  

Padeceria ela de singular insônia? Ou será que optou por ficar acordada por acreditar que, nas horas noturnas, poderia refletir melhor sobre seus anseios e receios, ainda que arriscando-se a transpor as fronteiras entre o real e o imaginário? Em minha opinião, creio ser a segunda hipótese a mais correta, ainda que possam existir outras. 

Acredito que todo aquele que se recusa a refletir sobre o próprio passado está condenado a repeti-lo. E a mesma reflexão se aplica ao presente: se não estou satisfeito com o que sou, mas me nego a pensar sobre isso, eu serei sempre o mesmo, não darei um mísero passo que me possibilite qualquer transformação. Aqui, estamos diante de uma mulher que pensa no que foi e pensa no que é, o que talvez lhe faça transcender seu estado atual. E que estado é esse?

Como explicitado no parágrafo inicial, não estamos diante de uma mulher específica, mas da aglutinação de várias. Assim, me parece que a opção dramatúrgica de Regina Miranda foi a de concentrar em um único corpo e em uma única voz toda a complexidade do feminino, que abarca tanto a fragilidade quanto a potência. E entre esses dois extremos, uma infinidade de dúvidas, que a personagem explicita com tanto destemor que, a partir de um dado momento,  tive a sensação de que ela renunciaria à própria lucidez e abraçaria a loucura, como se esta derradeira opção pudesse lhe trazer a paz tão almejada.     

Sem a menor dúvida, estamos diante de um texto que levanta questões da maior pertinência e das quais não podemos fugir, a menos que decidamos nos tornar uma espécie de náufragos de nós mesmos. O texto nos propõe urgentes e inadiáveis reflexões. Cabe a nós decidir se as faremos de dia ou em madrugadas insones. No meu caso específico, sempre preferi a noite, dentre outras razões porque acredito que o silêncio seja um excelente parceiro.

Com relação ao espetáculo, este traz a assinatura de uma artista, na acepção máxima do termo. Regina Miranda possui a notável capacidade de mesclar palavras e gestos, a ponto de torná-los indissociáveis. E a coreografia jamais objetiva reiterar o conhecimento daquela que a concebeu e o virtuosismo daquela que a executa. Isto seria pueril, levando-se em conta as brilhantes trajetórias de Regina Miranda e Marina Salomon. Posso estar enganado, naturalmente, mas creio que toda a dinâmica cênica, irrepreensível em todos os momentos, talvez seja fruto mais da alma do que da razão. 

No tocante a Marina Salomon, esta é sem dúvida uma das melhores intérpretes do país. E aqui me abstenho de enumerar seus predicados técnicos, já por demais conhecidos. O que me parece inadiável ressaltar é sua impressionante capacidade de entrega e sua notável inteligência cênica. E também sua coragem. E por coragem entenda-se, por exemplo, a forma como lida com momentos em que nada é dito ou feito, e no entanto, graças a seu poderoso estado de presença, muito está acontecendo. Isto só ocorre com intérpretes de exceção. E Marina Salomon se inclui nesta raríssima categoria.

Com relação à equipe técnica, Luiza Marcier, como já dito, assina um figurino atemporal, como a sugerir que o mesmo estaria em sintonia com todas as mulheres, de todas as épocas. Regina Miranda responde por expressiva trilha sonora, a mesma expressividade presente na ambientação. Gostaria também de ressaltar a beleza do cartaz, creio que a partir de uma foto de Luís Cancel.

NAITSU - NOITES COM MURAKAMI - Texto de Regina Miranda a partir de obras de H. Murakami. Direção de Miranda, interpretação a cargo de Marina Salomon. Casa de Cultura Laura Alvim (Espaço Rogério Cardoso). Sexta e sábado às 20h30. Domingo, 19h30.

        

  










terça-feira, 26 de junho de 2018


4º Festival Midrash de Teatro
de 16 de julho a 12 de agosto de 2018

Olá,
Contamos com você na divulgação do 4º Festival Midrash de Teatro que consagra o espaço como referência de teatro na cidade. Quase 40 apresentações teatrais estarão em cena entre 16 de Julho e 12 de Agosto, um "Avignon" em pleno inverno carioca. De segunda à quinta, estarão em cartaz duas peças por noite, às 19h e às 20h30. Aos domingos, duas apresentações únicas às 18h e às 20h. O espetáculo terá o custo de R$ 40 a inteira e R$ 20 a meia e os ingressos podem ser comprados online no site ou diretamente na secretaria do Midrash.
O idealizador do evento e diretor do Midrash Centro Cultural, Rabino Nilton Bonder, que esteve no festival francês de Avignon, realizou o sonho de um dia fazer algo no estilo na Cidade do Rio: "O festival é uma resposta natural a um movimento que começou há cerca de seis anos no Midrash. Fomos escolhidos pelo teatro!
Regularmente recebemos um número muito grande de propostas e nem sempre podemos atender à demanda", explica Nilton Bonder. Hoje, toda essa procura tem um motivo maior, a oportunidade de montagens independentes, a valorização da cultura e dos espaços artísticos no Brasil. O Midrash é considerado um espaço intimista que permite uma proximidade grande entre o ator e o espectador, favorecendo uma troca intensa e muito rica entre os dois.
Mais informações no site www.midrash.org.br
CONFIRA A PROGRAMAÇÃO:
FRICÇÃO
Direção de Morena Cattoni
Dramaturgia e performance de Breno Motta
16 e 17 de julho | segunda e terça | 19h
O solo narra a trajetória de um personagem que sofreu um abuso sexual aos 9 anos de idade.
Duração: 50 minutos.
Classificação indicativa: 16 anos.

LIMA ENTRE NÓS
Estudo compartilhado
A atualidade de Lima Barreto
De Leandro Santanna e Marcia do Valle
Direção de Marcia do Valle
Com Leandro Santanna
16 e 17 de julho | segunda e terça | 20h30
Solo interpretado pelo ator Leandro Santanna, com direção de Marcia do Valle, homenageia o escritor Afonso Henriques de Lima Barreto, utilizando fragmentos de romances, crônicas, cartas e artigos do jornalista carioca.
Duração: 50 minutos.
Classificação indicativa: 12 anos

 O QUADRO
ou pequeno poema para o fim do mundo
Texto, direção e atuação de Flavia Milioni
18 e 19 de julho | quarta e quinta | 19h
O quadro narra a trajetória do quadro que acompanhou a vida da atriz nas mudanças de casa pelas quais ela passou e para onde ela se transportava em sonho como forma de não sucumbir à instabilidade.
Eleita pela VejaRio uma das cinco melhores peças em cartaz em Setembro de 2017.
Duração : 50 minutos.
Classificação indicativa: livre

 EUFORIA
De Julia Spadaccini
Direção de Victor Garcia Peralta
Com Michel Blois
18 e 19 de julho | quarta e quinta | 20h30
Indicada aos Prêmios "CESGRANRIO" e "Botequim Cultural" de melhor ator e melhor texto de 2017. Dividida em dois solos, um idoso e uma cadeirante, a peça trata do desejo. Um desabafo de personagens que socialmente são olhados como seres assexuados, invisíveis aos olhos do prazer comum.
Duração: 53 minutos.
Classificação indicativa: 14 anos.


AOS POMBOS OU À SÍNDROME DOS GATOS
Texto e direção de Oscar Calixto
Com Adriana Bandeira e Oscar Calixto
23 e 24 de julho | segunda e terça | 19h
Humor, drama e tragédia se entrelaçam sutilmente na discussão metafórica sobre o nosso momento social, político e econômico. Um casal de amigos se encontra diariamente em praça pública e acreditam que não são seres humanos, mas pombos.
Duração: 80 minutos
Classificação indicativa: 12 anos

 UTOPIA D
500 ANOS DEPOIS
De Thomas More
Direção e Dramaturgia de Moacir Chaves
Com Josie Antello e Julio Adrião
23 e 24 de julho | segunda e terça | 20h30
O espetáculo toma como mote o texto "Utopia", de Thomas More, publicado em 1516. Palavra cunhada por More, "utopia" é fruto de uma fusão do advérbio grego ou - "não" - ao substantivo tópos - "lugar" -, com uma terminação latina. No relato, Utopia é uma ilha recém descoberta, situada em alguma parte do Novo Mundo, cuja descrição é feita por um navegante português, de nome Rafael Hitlodeu.
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: 14 anos

SOBRE NÓS
Texto e Direção de Charles Kahn
Com Gabriel Zanelatto, Isabel Lamoglia, Isabelle Nassar, Priscila Belgues, Matheus Quintão e Raquel Menau
25 e 26 de julho | quarta e quinta | 19h
O espetáculo propõe ao espectador uma experiência sensorial que busca refletir sobre nossos afetos, atitudes e angústias.
Duração: 45min.
Classificação indicativa: 12 anos.
PASSARINHO
Texto de Ana Kutner
Direção de Clara Kutner
Com Ana Kutner
25 e 26 de julho | quarta e quinta | 20h30
Experiências afetivas impulsionaram a atriz, dramaturga e iluminadora Ana Kutner a criar Passarinho, solo escrito e interpretado por ela.
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: 16 anos

UM INIMIGO DO POVO
de Henrik Ibsen
Direção de Bruce Gomlevsky
Com os atores formados da CAL no primeiro semestre de 2018
Alline Angeli , Beatriz de Brito, Camila Doring, Daniel de Mello, Gabriel Traballi, Gabriel Albuquerque, Gabriella Scarton, Mikaela Kowatsch, Tercianne Melo, Ricardo Cuba, Willean Reis e Paloma Azeredo
29 de julho | domingo | 18h e 01 de agosto | quarta | 20h30
Um libelo contra a hipocrisia e a unanimidade. A ética versus a política: proteger a saúde da população ou defender a economia de uma cidade?
A ética e a política... Proteger a saúde da população ou defender a economia de uma cidade. UM INIMIGO DO POVO, de Henrik Ibsen, trata dessas questões, dos dilemas e contradições humanas, contribuindo para a reflexão sobre o conturbado mundo em que estamos vivendo.
Duração: 1h50 (110 minutos)
Classificação indicativa: 16 anos

OT AZOY apresenta
VOZES FEMININAS NA LITERATURA YIDDISH
Org. de Sonia Kramer e Sara Vaisman
Com Sonia Clara Ghivelder, Risa Landau, Sheila Kaplan e Sonia Kramer
29 de julho | domingo | 18h
OT AZOY, DOS IZ YIDDISH! (ISTO É YIDDISH!) é um espaço para vivência e expressão do Yiddishkait, a cultura Yiddish, da música à gastronomia, teatro, literatura, humor e cinema.
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: livre

PQP, BRASIL!
Situação social/política do Brasil atual.
Direção e texto de Jitman Vibranovski
Com Betina Viany , Eliene Narducci, Alexandre Lambert, Cláudia Versiani, Gabriel Versiani, Lúcia Farias ou Fátima Wanderley, Marcia Curi ou Dulce Austin, Marcia Galdino e Paulo Sandins.
Produção executiva de Regina Almeida
29 de julho | domingo | 20h
D. Belinha (Betina Viany ou Eliene Narducci) pede ajuda para sua família golpeada e estressada. Ela mostra um dia de sua família (marido, filhos, irmã e cunhados). Todos estão sofrendo com a situação atual. Uns desempregados, outros com trabalho intermitente, trabalho terceirizado, etc. Estão tensos e estressados e assistem muito televisão. No final, a plateia é convidada a aconselhar D. Belinha.
Duração: 60 minutos.
Classificação indicativa: 12 anos.

 REFÚGIO DE ANNE
Direção original do primeiro estudo de Celina Sodré
Dramaturgia e atuação de Giselle Marques
30 e 31 de julho | segunda e terça | 19h
Refúgio de Anne, espetáculo solo interpretado pela atriz Giselle Marques e baseado no livro O Diário de Anne Frank, se passa no último dia de confinamento da família Frank, antes de ser descoberta pelos nazistas. O monólogo mostra que o grito silencioso e solitário de Anne Frank continua ecoando na discriminação, na violência, no racismo, na intolerância e no preconceito, tão presentes ainda nos dias atuais.
Duração: 45 minutos
Classificação indicativa: 12 anos

ENTRE QUATRO PAREDES
de Jean Paul Sartre
Direção de Walter Macedo Filho
Direção de movimento de Ana Amélia Vianna
Com Adriana Karla Rodrigues, Nanah Garcia, Nina Rosenthal e Pedro Cabizuka
30 e 31 de julho | segunda e terça | 20h30
Conhecida pela frase "o inferno são os outros", a peça, escrita em 1944 pelo filósofo, dramaturgo e critico literário Jean-Paul Sartre (1905-1980), traz três personagens que, após sua morte, são condenados a viver juntos, para sempre, em uma sala fechada.
Duração: 90 minutos
Classificação indicativa: 12 anos

MALDITO CORAÇÃO
(Me Alegra Que Tu Sofras)
Texto de Vera Karam
Direção de Isaac Bernat
Com Stela Celanuo
01 e 02 de Agosto | quarta e quinta | 19h
É um monólogo onde uma mulher fala sobre suas inquietudes e seus desejos sobre um homem que teria amado no passado.
Duração: 50 minutos
Classificação indicativa: 14 anos

INFANTIL
VENTANEIRA,
a cidade das flautas
Texto e atuação de Moira Braga
Direção de Morena Cattoni
05 de agosto | domingo | 16h
Ventaneira é uma cidade fantástica onde os ventos produzem música. Um dia, os ventos cessam e só Rudin, menino que só consegue ver o que suas mãos alcançam poderá ajudar.
Duração: 45 minutos.
Classificação indicativa: Livre.
ACEITA?
Direção de Morena Cattoni
Elenco e textos de Daniel Chagas, Gisela de Castro, Karla Dalvi, Marcéli Torquato, Natalia Balbino e Natasha Corbelino
05 de agosto | domingo | 18h | contribuição consciente
Espetáculo performance onde o público senta-se à mesa com os atores e é convidado a refletir sobre temas atuais.
Duração: 50 minutos.
Classificação indicativa: 12 anos.

 A LISTA
De Jennifer Tremblay
Tradução de Risa Landau
Direção de Amir Haddad
Com Clarice Niskier
05 de agosto | domingo | 20h30
A peça é inspirada em um fato verídico, acontecido em uma província canadense. A autora, Jennifer Tremblay, de Quebec, em um texto em forma de lista, aborda nossas responsabilidades com o Outro. Ele nos dá a possibilidade de sermos quem somos, enquanto que o isolamento nos mecaniza de tal forma, que já não sabemos quem somos.
Duração: 60 minutos.
Classificação indicativa: Livre

 UM ATO
Solo poético, com textos de seis autores
De Affonso Romano de Sant'anna, Eduardo Galeano, Paulo Leminski, Mario Quintana, Viviane Mosé e Wislawa Szymborska
Direção de Gaby Haviaras e Renato Farias
Com Marcia do Valle
06 e 07 de agosto | segunda e terça | 19h
UM ATO!, é uma peça-poema, um solo da atriz Marcia do Valle, em 30 anos de ofício. São pequenas histórias e poemas dos escritores e poetas Affonso R. de Santana, Eduardo Galeano, P. Leminski, M. Quintana, Viviane Mosé e Wislawa. Szymborska. Em diálogo com o momento delicado pelo qual o país e o mundo estão vivendo, o Teatro segue fortalecendo seu lugar de coragem, transformação, troca, afeto, liberdade, luta, paixão,...Os textos constroem um caminho de pensamento sobre as violências que temos vivido. Uma mulher é muitas mulheres! O roteiro tem na poesia sua forma de indignação. É também um brinde ao Teatro!
Duração: 55 minutos
Classificação indicativa: 12 anos

IMAGINA ESSE PALCO QUE SE MEXE
Direção de Moacir Chaves
Com Elisa Pinheiro, Karen Coelho, Luísa Pitta e Monica Biel
06 e 07 de agosto | segunda e terça | 20h30
Relatos de um astrofísico sobre episódios de sua vida e conceitos físicos.
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: 12 anos

 De um Conto de Machado de Assis
A NOVA ORDEM DAS COISAS
Monólogo sobre a eterna contradição humana
Direção de Claudia Ventura
Com Alexandre Dantas
08 e 09 de agosto | quarta e quinta | 19h
No conto, o Diabo, acostumado a ver o desrespeito da humanidade às leis divinas, resolve facilitar tudo fundando sua própria Igreja onde os pecados tornar-se-iam norma de conduta. Através do livre-arbítrio o homem poderia escolher qual Igreja frequentar. O Diabo ganha muitos adeptos, mas, no final, descobre que seus fiéis passam a infringir suas leis para cometer bons atos, deparando-se com a eterna contradição humana.
Duração: 60 minutos.
Classificação indicativa: 12 anos




 MEUS DUZENTOS FILHOS
A vida de Janusz Korczak
Texto de Miriam Halfim
Direção de Ary Coslov
Com Marcelo Aquino
08 e 09 de agosto | quarta e quinta | 20h30
15, 16, 22, 23, 29 e 30 de agosto | quartas e quintas | 20h
Monólogo com Marcelo Aquino no papel de Janusz Korczak, pedagogo, médico e escritor judeu polonês, falando de sua vida e de seu trabalho como fundador e gestor do Orfanato Modelo, em Varsóvia, onde se dedicou, por 30 anos, a formar e educar órfãos, oferecendo a eles instrução e força moral para enfrentar a vida. Ele morreu, junto com seus órfãos, aos quais considerava como seus filhos, no campo de Treblinka em 1942.
Duração: 60 minutos.
Classificação indicativa: livre

 220 CARTAS DE AMOR
Dramaturgia de Renato Farias
a partir da correspondência de Maria de Lourdes Lang e Lourenço Renato Medeiros de Farias
Direção de Rafael Sieg
Com Gaby Haviaras e Renato Farias
12 de agosto | domingo | 18h
Espetáculo criado a partir das cartas trocadas pelos pais do ator Renato Farias, quando eram namorados, entre 1956 e 1962. O pai morava em Porto Alegre; a mãe, em Santa Maria. Décadas depois, ao ler as cartas, é possível perceber que o amor segue lá, vivo e turbulento como costuma ser, e traz consigo histórias de uma época em que as distâncias pareciam maiores e o tempo era realmente outro.
Duração: 85 min.
Classificação indicativa: 12 anos

 MARIA!
De Antônio Maria
Direção de Inez Viana
Dramaturgia e atuação de Claudio Mendes
12 de agosto | domingo | 20h30
A peça é uma organização das crônicas e canções de Antônio Maria, costuradas de modo a constituírem um enredo. O tempo cronológico do espetáculo é o de um dia na vida de Maria, o dia de seu aniversário, mas suas lembranças é que dão o tom biográfico que cria o enredo da peça.
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: 12 anos


SERVIÇO
4º FESTIVAL MIDRASH DE TEATRO
PERÍODO: 16 de julho a 12 de agosto de 2018.
LOCAL: Midrash Centro Cultural
END.: Rua General Venâncio Flores, 184, Leblon, Rio de Janeiro
TEL.: + 55 21 2239-1800
E-MAIL: secretaria@midrash.org.br
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)
Compra de ingressos online, pelo site: www.midrash.org.br




Teatro/CRÍTICA

"Vou deixar de ser feliz por medo de ficar triste?"

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Amor, humor e lirismo



Lionel Fischer



Tendo como fonte inspiradora a verídica história de amor de Yuri Ribeiro e Claudia Wildberger, a peça mescla referências e passagens da vida do casal. Mas tudo nos é apresentado em um universo de fábula, que contribui de forma decisiva para a valorização do enredo e dos múltiplos climas emocionais em jogo.

De autoria de Yuri Ribeiro, "Vou deixar de ser feliz por medo de ficar triste?" está em cartaz no Teatro das Artes. Yuri Ribeiro também responde pelo argumento - em parceria com Claudia Wildberger - e está em cena ao lado de Paula Burlamaqui, Vitor Thiré e Jujuba. Jorge Farjalla assina a direção do espetáculo.

O primeiro ponto que gostaria de destacar diz respeito à coragem dos responsáveis pelo argumento não tanto no sentido de abordarem sua própria história, mas de deixarem bem claro que o amor pode - e realmente deve - transcender as amarras impostas pelas convenções. No presente caso, a relação de um jovem com uma mulher mais velha.

De uma maneira geral, sempre que se deparam com uma relação como essa, o que pensam 99% das pessoas? Ela deve ser rica e ele pobre. Ou ele é bom de cama e ela uma mulher carente. Ou ambas as coisas e mais uma infinidade de variantes, que desprezam o que deveria ser encarado com naturalidade, ou seja: duas pessoas estão se amando e ponto. Se há uma razoável diferença de idade, o que temos a ver com isso? 

No entanto, no caso de o homem ser bem mais velho do que a mulher, o percentual de preconceito cai significativamente, posto que aí o lastimável machismo que ainda predomina entre nós tende a valorizar o homem, cujas supostas virtudes seriam de tal magnitude que a jovem em questão não hesitou em renunciar aos homens de sua idade. Mas, ainda assim, retrógrados de plantão haverão de pensar: "Há algo de estranho aí. Esse homem deve ser muito poderoso ou muito rico. Ou ambas as coisas..."

Mas o amor, se verdadeiro for, acaba se materializando, sobrepondo-se a todos os questionamentos advindos de mentes medievais, aos quais se agregam diversos sentimentos, sendo o mais execrável o da inveja - ou será que ninguém já reparou o quanto se ressente, por exemplo, um casal que não se ama ante um outro que esbanja felicidade? Este ressentimento é sobretudo constatável em restaurantes, quando alguns casais não conseguem trocar meia dúzia de palavras, tendo à sua frente um outro de cujo cardápio constam risos e delicadas carícias. Enfim...passemos ao texto, após as divagações acima - se  excessivas, por elas me desculpo. 

Yuri Ribeiro escreveu uma belíssima peça, cujo maior mérito é a extrema sensibilidade e delicioso humor com que aborda variados temas - dentre muitos outros, a relação entre mãe e filho, a dificuldade dele em aceitar que sua mãe se relacione com um homem "que poderia ser meu irmão", o desejo da mulher, ainda que inicialmente hesitante, de se deixar levar por um sentimento que não consegue negar. Contendo ótimos personagens e uma ação que cativa o espectador do início ao fim, a peça é sem dúvida uma das melhores da atual temporada.

Com relação à montagem, a opção do diretor Jorge Farjalla de priorizar a fábula contribui decisivamente para o estabelecimento de uma atmosfera impregnada de humor, delicadeza e lirismo, demonstrando com inequívoca clareza que o universo cotidiano pode conter inestimáveis doses de poesia. E cabe também destacar seu precioso trabalho junto ao elenco.

Paula Burlamaqui exibe aqui uma das melhores performances de sua carreira, extraindo todo o potencial de sua excelente personagem, tanto nas passagens mais dramáticas quanto naquelas em que o humor predomina - afora isso, é inegável que está cada vez mais linda. Yuri Ribeiro também está irrepreensível na pele do jovem cheio de aspirações e sonhos, de início um tanto imaturo e finalmente sabendo exatamente o que deseja. Vitor Thiré encarna diversos personagens, exibindo grande carisma e notável versatilidade. Quanto a Jujuba, o ator, ainda que pouco fale, é uma presença fortíssima, trabalhando com igual maestria o humor e o patético inerentes ao personagem, cabendo também destacar sua sensibilidade quando toca acordeão, o que acontece praticamente ao longo de toda a montagem. 

Na equipe técnica, José Dias responde por irrepreensíveis direção de arte e cenografia, sendo esta última, cuja atmosfera contém algo de circense, uma das mais belas e poéticas já executadas por um dos melhores profissionais do país em sua especialidade. O mesmo brilho se faz presente nos maravilhosos figurinos criados por Jorge Farjalla (também responsável pela impecável preparação corporal), na excelente preparação vocal de Patrícia Maia, na lindíssima trilha sonora de João Paulo Mendonça e na expressividade do visagismo a cargo de Rosa Bandeira.

VOU DEIXAR DE SER FELIZ POR MEDO DE FICAR TRISTE? - Texto de Yuri Ribeiro. Argumento de Yuri e Claudia Wildberger. Direção de Jorge Farjalla. Com Paula Burlamaqui, Yuri Ribeiro, Vitor Thiré e Jujuba. Teatro das Artes. Sexta e sábado, 21h. Domingo, 20h.         



  


terça-feira, 19 de junho de 2018

Teatro/CRÍTICA

"Nuon"

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Inesquecível encontro no Ipanema



Lionel Fischer



"Nuon é um espetáculo que fala sobre a guerra do Camboja e no entanto fala sobre todas as guerras. Todas as guerras são iguais na medida em que levam as pessoas à perda dos valores simbólicos que as estruturam enquanto indivíduos, seres civilizados e enquanto sociedade. Ainda que o assunto abordado possa sugerir uma forma épica, a encenação opta por um caminho intimista e constrói cenas que evidenciam a dor das pessoas no momento em que se dão conta de sua impotência frente ao caos gerado por decisões políticas e sociais das quais elas não participam".

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza as premissas essenciais de "Nuon", que após cumprir ótimas temporadas em Curitiba e São Paulo, está em cartaz no Teatro Ipanema. Ana Rosa Tezza assina o texto e a direção do espetáculo, estando o elenco formado por Evandro Santiago (Arun, Kim, Sambath e Diretor do campo de refugiados), Helena Tezza (Bopha, Nuon e Ampeu Hengsaa), Janine de Campos (Príncipe Norodom Sihanouk, Nuon e Koylan), Marcelo Rodrigues (Tã e Mestre Viseth) e Regina Bastos (Nuon). Os atores compartilham a cena com os músicos Breno Monte Serrat e Mateus Ferrari.

Pensando nos espectadores que porventura desconheçam o terrível período vivido pelos habitantes do Camboja, explicito brevemente o trágico contexto. O que ficou conhecido como genocídio cambojano foi promovido pelo governo comunista do Khmer Vermelho, liderado por Pol Pot no Camboja, entre 1975 e 1979. Esse genocídio foi uma das conseqüências das ações tirânicas impostas no período com a aplicação de uma utopia agrária, que resultou em uma violenta repressão, marcada por trabalhos forçados, torturas e execuções. Estima-se que pelos menos 1,5 milhão de pessoas tenham morrido durante essa época nesse país asiático. 

Durante os anos em que Pol Pot esteve no poder, foi realizado o esvaziamento das cidades cambojanas a partir da migração da população para fazendas coletivas, onde era submetida a um regime de trabalho forçado. Além disso, houve o fechamento de hospitais, escolas, bibliotecas e monastérios, foram abolidos a propriedade privada e os salários, e foi iniciada um intensa perseguição contra minorias étnicas e grupos intelectualizados da sociedade.

No parágrafo inicial, como já dito extraído do release que me foi enviado, consta uma assertiva incontestável: todas as guerras são iguais. E por que são iguais, já que materializadas a partir de  diversificadas motivações? Em minha opinião, porque brutalizam o indivíduo a ponto de fazê-lo relegar a um plano secundário o que ele possui de mais essencial: sua humanidade. Em meio ao horror e ao caos que todas as guerras promovem, as pessoas quase sempre se veem obrigadas a fazer escolhas que jamais fariam em tempos de paz, posto que o essencial praticamente fica restrito à própria sobrevivência. Mas o que será que sobrevive naqueles que não são vitimados pela guerra? 

Eis uma pergunta difícil de ser respondida. É possível que muitos sucumbam à amargura e já não consigam mais encarar a vida como uma dádiva. É possível que outros encontrem forças para transcender o horror e a violência de que foram vítimas e sejam capazes de valorizar ainda mais o ato de existir. Seja como for, ninguém passa impune por uma guerra, essa execrável forma que os homens encontraram não para resolver conflitos, mas para exacerbá-los e assim inviabilizar qualquer possibilidade de entendimento. 

Já me desculpando pelas conjecturas acima, talvez um tanto longas, vamos ao que está acontecendo no Teatro Ipanema. Em primeiro lugar, o espectador é brindado com um texto belíssimo, impregnado de dor e poesia, habitado por reflexões da mais alta pertinência sobre os temas abordados. E quanto à dinâmica cênica, estruturada a partir de uma estética oriental, esta é simplesmente deslumbrante, tanto no que concerne à expressividade e originalidade das marcações como no tocante à precisão dos tempos rítmicos. Sob todos os pontos de vista, o público carioca está tendo a rara oportunidade de viver um momento teatral inesquecível. 

Com relação ao elenco, constitui realmente uma dádiva assistir a performance de intérpretes tão talentosos, que não merecem qualquer reparo, seja em termos vocais ou corporais. E mais: que evidenciam uma inteligência cênica e uma contracena só passíveis de existir quando todos confiam inteiramente uns nos outros e no projeto em que estão inseridos. A todos, portanto, parabenizo com o mesmo entusiasmo e a todos agradeço o maravilhoso encontro que me proporcionaram. 

O mesmo agradecimento estendo aos músicos Breno Monte Serrat e a Mateus Ferrari, pela perícia e sensibilidade com que tocam vários instrumentos - Ferrari é também responsável pela belíssima composição musical, fundamental para o fortalecimento dos diversificados climas emocionais em jogo. Quanto a Eduardo Giacomini (figurino), Fernando Marés (cenografia), Beto Bruel e Rodrigo Ziolkowski (iluminação) e Maria Adélia (plástica do personagem e máscaras), todos assinam trabalhos de altíssima qualidade. Finalmente, gostaria de destacar a precisão e sensibilidade de Jean Carlos Sanchez na operação de luz.

NUON - Texto e direção de Ana Rosa Tezza. Com Evandro Santiago, Helena Tezza, Janine de Campos, Marcelo Rodrigues e Regina Bastos. Teatro Ipanema. Sábado, domingo e segunda às 20h30.    








sábado, 9 de junho de 2018

UNIRIO – PROEXC &
SOCIEDADE PSICANALÍTICA DO RIO DE JANEIRO
APRESENTAM: FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA
Será exibido e debatido o premiado filme: UM HERÓI DO NOSSO TEMPO (Va, vis et deviens, 2005, 140 min.), dirigido e roteirizado pelo franco-romeno  RADU MIHĂILEANU, autor de obras como O CONCERTO (2009) e A FONTE DAS MULHERES (2011), ambas reconhecidas como vigorosas e instigantes.  Os temas abordados por esse diretor discutem assuntos humanistas, como repressão feminina, relação de poder, política de estado e, sobretudo, questão da identidade e sua ruptura. Em particular, nesse trabalho, o autor reflete sobre sua própria história como imigrante, que, aos 22 anos, deixa, além de sua cidade natal, Bucareste, sua família e seus amigos, exilando-se na França, evadido da opressiva ditadura de Nicolae Ceausescu (1965 a 1989).
A trama aborda a Operação Moisés - uma ação americano-israelense de 1984 - que levou judeus refugiados da Etiópia (os Falashas), para Israel, focalizando a jornada epopeica  de Salomão, um cristão negro que vive em um campo de refugiados no Sudão, que,  com apenas 9 anos e incentivado pela própria mãe, finge ser judeu e órfão para poder ter melhores chances de vida. Lá, é adotado por uma família sefardita, de origem francesa. Todavia, a adaptação à nova realidade não é fácil, obrigando-o a usar os mais variados recursos para justificar a mentira, inclusive, rompendo com sua identidade africana.
Filme reconhecido em festivais internacionais, obteve diversas premiações: Melhor filme: Grande Prêmio do Júri, Grande Prêmio do Público e Prêmio do Júri Ecumênico.  No Festival de Copenhague recebeu os troféus de melhor filme e melhor roteiro, além das indicações ao César: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Trilha Sonora.
Assim, na última sexta-feira do mês, dia 29 de junho, às 18 h, na Sala Vera Janacópulos da UNIRIO, analisaremos e discutiremos a película em seus múltiplos aspectos e prismas diversos. Como sempre, aguardamos todos vocês para mais um debate e contamos com a divulgação aos amigos e aos interessados no viés cultural e psicanalítico.
Um grande abraço de Ana Lúcia de Castro e Neilton Silva.
SERVIÇO:
DATA: 29 DE JUNHO DE 2018.
HORÁRIO: FILME: 18 h; ANÁLISE E DEBATE: 20 h às 22 h.
LOCAL: SALA VERA JANACÓPULOS – UNIRIO
ENDEREÇO: AV. PASTEUR, 296.
ANÁLISE CULTURAL: PROF. DRA. ANA LÚCIA DE CASTRO
ANÁLISE PSICANALÍTICA: DR. NEILTON SILVA
ENTRADA FRANCA - INFORMAÇÕES: forumpsicinema@gmail.com
NOTA: Quem se interessar em adquirir o livro: Fórum de Psicanálise e Cinema: 20 filmes analisados, de autoria de Ana Lúcia de Castro e Neilton Dias da Silva, ele se encontra à venda nos dias do FÓRUM ou através da editora Letra Capital:www.letracapital.com.br.
HISTÓRICO: O FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA FOI CRIADO EM 1997, COMO UM PROJETO CIENTÍFICO DA ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA RIO 3, PELO ENTÃO PRESIDENTE, DR. WALDEMAR ZUSMAN, E PELO DIRETOR DO INSTITUTO, DR. NEILTON DIAS DA SILVA. DESDE 2004 PASSOU A CONTAR COM A PARTICIPAÇÃO DA MUSEÓLOGA E PROFESSORA DA UNIRIO, DRA ANA LÚCIA DE CASTRO, RESPONSÁVEL PELAS ANÁLISES CULTURAIS DOS FILMES. CELEBRAMOS OS 12 ANOS DO FÓRUM E A PARCERIA DA SPRJ COM A UNIRIO PARA SEDIAR O PROJETO MENSALMENTE, SEMPRE MUITO CONCORRIDO.

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sexta-feira, 8 de junho de 2018

Teatro/CRÍTICA

"Ouvi dizer que a vida é boa"

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Belíssima reflexão sobre a passagem do tempo



Lionel Fischer



"Há alguns anos atrás, num  jornal de domingo, uma das entrevistadas numa matéria sobre terceira idade era uma senhora, moradora do Rio de Janeiro, que afirmava que um grande sonho que nunca havia realizado era ver o mar. Indagada sobre as razões de nunca ter visto o mar tendo morado tão perto dele durante praticamente toda a vida, ela respondeu: "Ah, uma hora é uma coisa, outra hora é outra, o tempo vai passando".

Extraído do programa oferecido ao público, o trecho acima motivou a criação de "Ouvi dizer que a vida é boa", em cartaz no Espaço SESC - Arena. João Batista Leite assina o texto e a direção do espetáculo, que marca os 24 anos de existência da Cia. Dramática de Comédia. No elenco, Ana Moura, Carol Machado, Cleiton Rasga, Giselda Mauler, Lucas Miranda, Luciano Moreira e Sonia Praça. 

Não são poucos aqueles que sustentam, não raro com grande veemência, que uma peça de teatro importante tem que necessariamente partir de uma boa ideia. Embora não despreze essa premissa, penso de forma radicalmente oposta e sempre que instado a explicitar o porquê de tal pensamento, cito como exemplo aquela que é considerada uma das melhores peças já escritas:  "Hamlet", de Shakespeare.

Como se origina a citada obra-prima? Um jovem príncipe é informado pelo fantasma de seu pai que foi assassinado pelo irmão, amante da rainha, e pede ao filho que o vingue. Pois bem: o que há de extraordinário nesta premissa? Absolutamente nada. O que confere deslumbrante grandeza ao texto é a forma como Shakespeare, ao longo de cinco atos, mergulha profundamente em aspectos essenciais da natureza humana, para tanto valendo-se de uma ação avassaladora e de personagens magnificamente construídos. 

No presente caso, estamos diante de uma mulher que se ressente de nunca ter visto o mar, apesar de morar não muito distante dele. Ora, isto em si não constitui nada de extraordinário. No entanto, me parece que tal fato não deva ser encarado em seu sentido literal e sim metafórico. Posso estar enganado, naturalmente, mas penso que o autor objetivou demonstrar que não ver o mar é muito menos relevante do que não ver a vida, ou seja, limitar-se a uma postura passiva e conformada, sempre adiando sonhos e renunciando aos próprios desejos.  

Neste sentido, e ainda que estruturando sua obra em um contexto habitado por personagens cuja simplicidade é a tônica, não hesito em afirmar que João Batista Leite nos brinda com um texto maravilhoso, posto que aborda com extrema sensibilidade temas da maior relevância, tais como a renúncia do indivíduo em ser agente de sua própria história e, em especial, a passagem do tempo.

Todos nós sabemos que o tempo passa. Mas como passa o tempo de cada um de nós? Será que lutamos bravamente pela materialização de nossos sonhos? Será que só desistimos deles, ou ao menos de alguns, quando atingimos o limite de nossas forças? Ou será que, como faz a protagonista da peça, aos poucos nos acomodamos e passamos a cumprir exigências de um contexto que jamais ambicionamos? 

Outro ponto de extrema relevância diz respeito à estrutura da escrita. De uma maneira geral, o autor trabalha com formulações que, embora simples, jamais são respondidas. Todos os desejos são inevitavelmente protelados, sem que se saiba exatamente por que. Tudo está atrelado a possibilidades futuras, que jamais se concretizam, esvaziando por completo o tempo presente. Assim, a passagem do tempo adquire contornos cada vez mais amargos, ainda que o autor minimize tal amargura com passagens impregnadas de irresistível humor. Ou seja: o trágico e o risível convivem irmanados, o que certamente contribui para o total envolvimento da plateia com a trama que lhe é apresentada.

Bem escrito, contendo ótimos personagens e uma ação que nos toca profundamente, o texto recebeu excelente versão do autor. Valendo-se de marcações imprevistas e criativas, e trabalhando os tempos rítmicos de forma irrepreensível, afora isso João Batista Leite extraiu ótimas atuações de todo o elenco, a começar pela da protagonista, Carol Machado.

Vivendo Ela, a atriz exibe uma vez mais alguns de seus reconhecidos predicados, tais como ótima voz, expressividade corporal, inteligência cênica e inegável carisma, cabendo também ressaltar a impecável forma como a intérprete desenha toda a trajetória da personagem, da infância à maturidade. Sob todos os aspectos, estamos diante de um dos melhores desempenhos da atual temporada. Quanto ao restante do elenco, a todos parabenizo com o mesmo entusiasmo, posto que defendem com a mesma competência os muitos personagens que interpretam - cabe também registrar que todos cantam muito bem e tocam vários instrumentos de forma irrepreensível.  

No tocante à equipe técnica, Renato Machado ilumina a cena com grande sensibilidade, contribuindo de forma decisiva para realçar os múltiplos climas emocionais em jogo, cabendo destacar alguns momentos em que focos são acionados em sequência, no sentido contrário ao do relógio, como a sugerir que o tempo da realização dos desejos está passando e nada acontece. Mauro Leite Teixeira responde por figurinos altamente sugestivos, posto que remetem, em alguma medida, à ingenuidade de festas juninas. Também de excelente nível são a preparação vocal de Paula Bentes Leal, a despojada e funcional cenografia de Dóris Rollemberg Cruz, e a trilha sonora original e direção musical de Marcelo Alonso Neves - com relação às canções, gostaria de confessar que algumas me geraram uma tal angústia que chego a supor que, se estivesse sozinho no teatro, provavelmente haveria de carpir como uma lavadeira grega.

OUVI DIZER QUE A VIDA É BOA - Texto e direção de João Batista Leite. Uma realização da Cia. Dramática de Comédia. Com Ana Moura, Carol Machado, Cleiton Rasga, Giselda Mauler, Lucas Miranda, Luciano Moreira e Sonia Praça. Espaço SESC - Arena. Quinta a sábado, 20h30. Domingo, 19h.  


sábado, 26 de maio de 2018

Teatro/CRÍTICA

"Catarse (uma para-ópera)"

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Oportuna e vigorosa montagem



Lionel Fischer


Há pequenas variações no que concerne ao conceito de epidemia. Mas o que se segue me parece o mais apropriado: "Epidemia é a propagação de uma doença infecciosa, que surge rapidamente em determinada localidade ou em grandes regiões e ataca ao mesmo tempo um grande número de pessoas". No caso da presente montagem, esta teve como ponto de partida o que ficou conhecido como "Epidemia da dança". 

O fato ocorreu em 1518, em Estrasburgo, França. Uma mulher começou a dançar sozinha e sem música no meio da rua. Inicialmente, foi encorajada por palmas e gritos, mas ela não parava de dançar. E assim continuou, durante seis dias, até que o estranho comportamento começou a se espalhar e, em uma semana, 34 pessoas estavam dançando também. Em um mês, já eram 400 pessoas, e nada fazia com que elas parassem, nem mesmo a morte de alguns deles por exaustão ou ataque cardíaco - essa informação consta do release que me foi enviado.

E, ainda baseando-me no material de divulgação, Felipe Vidal e os atores enxergaram naquele episódio uma metáfora potente para a necessidade extrema por parte daquelas pessoas de expressar uma insatisfação represada, em tempos de transição entre a era medieval e o renascimento. Uma insatisfação represada como a de hoje, no Brasil e no mundo, diante da assustadora onda de retrocesso e obscurantismo. O reconhecimento desse sentimento despertou no grupo o desejo de também usar a dança para se manifestar contra as variadas formas de opressão que tomam conta da sociedade em pleno século 21 - racismo, sexismo, homofobia, xenofobia e intolerância religiosa, entre tantas outras.

Eis, em resumo - um tanto longo, admito - a premissa e o contexto em que se dá "Catarse - (uma para-ópera"), que faz hoje e amanhã suas últimas apresentações no Teatro Sesc Ginástico. Felipe Vidal, Clarisse Zarvos e Leonardo Corajo respondem pela dramaturgia, que contou com a colaboração de todo o elenco e também com a interlocução dramatúrgica de Daniele Avila Small. Em cena,  Clarisse Zarvos, Francisco Thiago Cavalcanti, Jefferson Almeida, Maurício Lima/ Rômulo Galvão, Leonardo Corajo, Sérgio Medeiros, Noêmia Oliveira, Tainah Longras e Tainá Nogueira. Luciano Moreira (guitarra) e Felipe Vidal (baixo) também estão em cena, cabendo a este último a direção da montagem. 

Estamos diante de um espetáculo que decorre de uma dramaturgia extremamente instigante, posto que fruto de evocações históricas, depoimentos pessoais e sobretudo da dança, seja a mesma executada no mais absoluto silêncio ou com acompanhamento musical. E é justamente a dança o elemento mais potente da montagem. E por dança, ao menos no presente caso, entenda-se não coreografias convencionais, mas orgânicos e viscerais movimentos que traduzem uma infinidade de sentimentos que precisam vir à tona, que não podem mais ser represados, como provavelmente ocorreu no citado episódio medieval.

Neste sentido, gostaria de destacar a belíssima passagem em que dois homens iniciam uma movimentação que sugere um processo de sedução, que pouco a pouco se torna cada vez mais frenético e virulento, impregnado de sorrisos e ameaças, avanços e recuos, até que finalmente ambos se abraçam e se beijam, unindo seus corpos e suas almas, materializando algo que não poderia mais permanecer represado. 

E a mesma urgência de se colocar para fora o que permanecia oculto se faz presente nos depoimentos pessoais dos atores e nas reflexões feitas sobre os temas já mencionados, tudo orquestrado pelo diretor Felipe Vidal através de uma dinâmica cênica plena de vigor e expressividade, materializada com extrema sensibilidade por todo o elenco, não apenas nas passagens faladas, mas também naquelas em que a dança e o canto predominam - no que se refere às canções, todas estão em plena sintonia com os múltiplos conteúdos emocionais em jogo.

Na equipe técnica, destaco com o mesmo entusiasmo as preciosas colaborações de Felipe Vidal e Luciano Moreira (direção musical e, ao que me parece, autores das músicas), Francisco Thiago Cavalcanti e Rômulo Galvão (responsáveis por impecável direção de movimento), Flávio Souza (figurinos), Felipe Antello e Felipe Vidal (iluminação) e Eduardo Souza (videografismo e programação visual).

CATARSE (UMA PARA-ÓPERA ) - Dramaturgia de Felipe Vidal, Clarisse Zarvos e Leonardo Corajo, com a colaboração do elenco e interlocução dramatúrgica de Daniele Avila Small. Direção de Felipe Vidal. Com Clarisse Zarvos, Francisco Thiago Cavalcanti, Jefferson Almeida, Maurício Lima/Rômulo Galvão, Leonardo Corajo, Sérgio Medeiros, Noêmia Oliveira, Thainah Longras e Tainá Nogueira. Teatro Sesc Ginástico. Sábado às 19h,. Domingo, 18h.