quinta-feira, 18 de agosto de 2011

"O que eu devo ler?"

Lionel Fischer


          Essa pergunta me é feita com agradável constância por jovens estudantes de teatro. E minha resposta é sempre a mesma: "Lê tudo! Tem letra, você lê!" - ninguém jamais esboçou sequer um sorrizinho com esta gracinha, e com toda a razão, porque ela não tem nenhuma graça.

           Em seguida, vem a segunda pergunta: "Mas eu começo por onde?" E aí eu me abstenho, naturalmente, de responder "pela primeira página", pois correria sério risco de vida. Mas é claro que logo em seguida dou um monte de sugestões, sem necessariamente priorizar qualquer ordem cronológica.

           Então, atendendo a tantos pedidos, aí segue uma brevíssima relação de livros que certamente contribuirão para o angariar de imprescindíveis conhecimentos no tocante à arte teatral - não sei se todos ainda se encontram à venda, mas não custa tentar. E em outra ocasião sugiro outros, também importantíssimos - cumpre registrar que ficaram de fora desta relação incontáveis obras capitais, mas se fosse citar todas teria que me dedicar unicamente a esta tarefa durante meses, excluindo todas as demais que exerço.

A Arte do Ator - as primeiras seis lições - Richard Boleslavski (Perspectiva, 1992). Em seis lições, a concentração, a memória da emoção, a ação dramática, a caracterização, a observação e o ritmo.

A Construção da Personagem - Konstantin Stanislavski (Civilização Brasileira, 1996). Da caracterização à dicção, Stanislavski mostra como construir a personagem.

Dramaturgia - Construção da Personagem - Renata Pallottini (Ática, 1986). A construção da personagem, das correntes clássicas às propostas de Bertolt Brecht.

Estudos sobre Teatro - Bertolt Brecht (Nova Fronteira, 1978). O teatro e sua natureza na ótica de um dos maiores dramaturgos e teóricos do século XX.

A História do Teatro Brasileiro - Edwaldo Cafezeiro e Carmen Gadelha (UFRJ-Funarte, 1996). Um panorama do teatro no país, do teatro barroco ao moderno movimento das artes cênicas.

Introdução à Dramaturgia - Renata Pallottini (Ática, 1988). A dramaturgia, sua natureza e seus problemas na ótica de uma conhecida poeta e dramaturga.

A Linguagem da Encenação Teatral - J.J. Roubine (Zahar, 1982). A natureza da atividade teatral, como se manifesta e chega ao público.

Mestres do Teatro - John Gassner (Perspectiva, 1991). Estudo crítico sobre o drama teatral, de seus primórdios à dramaturgia contemporânea.

O que é Teatro - Fernando Peixoto (Brasiliense, 1980). Um dos mais festejados diretores brasileiros explica o que é a atividade teatral.

A Preparação do Ator - Konstantin Stanislavski (Civilização Brasileira, 1996). Ensinamentos práticos do método de interpretação do diretor e teórico russo.

Stanislavski e o Teatro de Arte de Moscou - J. Guinsburg (Perspectiva, 1985). Um estudo sobre as idéias e os métodos propostos pelo diretor e teórico russo.

TBC: Crônica de um Sonho - Alberto Guzik (Perspectiva, 1986). A história do Teatro Brasileiro de Comédia e sua contribuição para o moderno teatro brasileiro.

Teatro Brasileiro - Um Panorama do Século XX - Clóvis Levi (Funarte, 1997). História ilustrada do movimento teatral brasileiro desde o início do século XX.

O Teatro Brasileiro Moderno: 1930-1980 - Décio de Almeida Prado (Perspectiva-Edusp, 1988). As raízes e o desenvolvimento do moderno teatro brasileiro.

Teatro e Política: Arena, Oficina e Opinião - Edélcio Mostaço (Proposta Secretaria de Estado de Cultura, 1982). História e objetivos de três grupos que representam a cultura de esquerda.

Teatro Moderno - Anatol Rosenfeld (Perspectiva, 1997). Ensaios sobre o desenvolvimento do teatro a partir da fase pré-romântica, chegando à contemporaneidade.

Teatro Oficina (1958-1982): Trajetória de uma Rebeldia Cultural - Fernando Peixoto (Brasiliense, 1982). História e propostas do grupo Oficina, um dos mais importantes do Brasil.

Ziembinski e o Teatro Brasileiro - Yan Michalski (Hucitec-Funarte, 1995). O trabalho do polonês Zbigniew Ziembinski, um dos responsáveis pelo surgimento do moderno teatro brasileiro.
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Os dados acima foram extraídos de Projeto Cena Aberta - Manual de capacitação do profissional de Artes Cênicas. Ministério do Trabalho. Ministério da Cultura. O livro foi editado em 1998.
Teatro/CRÍTICA

"Facínora"

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Incompreensões na Laura

Lionel Fischer


"Facínora é uma comédia de humor negro que faz uma crítica à intolerância humana. Pelos próprios predicativos que o nome título associa-se - perversa, cruel, má, desalmada - a personagem foco (Bruno Caldeira) é a própria versão desses adjetivos, e nos mostra uma realidade com críticas mordazes, expondo toda a sua ironia e sarcasmo contra a sociedade e opiniões públicas. Porfírio (Gustavo Rizzotti), seu marido, mudo, e por vezes, cáustico e patético, representa a sociedade pública"

Este trecho, extraído do release que me foi enviado, resume o enredo e principais objetivos de "Facínora", em cartaz na Sala Rogério Cardoso da Casa de Cultura Laura Alvim. Mais recente produção da Cia.2 de Teatro, fundada em 1994 e com larga experiência, tanto nacional quanto internacional, a montagem chega à cena com texto assinado por Bruno Caldeira, direção de Caldeira e Gustavo Rizzotti, e interpretação a cargo dos dois profissionais.

Como se sabe, nem sempre intenção e gesto encontram correspondência. Isto posto, cumpre registrar que não tenho a menor dúvida de que o autor realmente pretendeu fazer uma crítica séria e contundente à sociedade em que vivemos, mas lamentavelmente não me parece que seus objetivos se materializaram na cena.

Ambientada em um espaço ambígüo, com algumas conotações góticas, a peça nos mostra uma protagonista que fala sem parar, tecendo considerações sobre infinitos assuntos, mas sem jamais a eles conferir um olhar que transcenda o previsível, e, propositadamente, lançando mão - quase sempre - de uma linguagem que, ao que suponho, objetiva chocar o espectador.

Quanto ao personagem Marido, este entra em cena nu (por razões que não compreendi) e só num dado momento articula um texto, também para mim indecifrável - mais tarde o personagem se veste, masturba uma boneca, e continua repetindo alguns movimentos espasmódicos que, mais uma vez, não consegui entender.

Em rsumo: me deparei com um texto que em nada me tocou e com uma encenação estilizada cuja motivação também escapou ao meu entendimento. E no tocante à interpretação, percebe-se que os dois atores não são desprovidos de talento, mas este, infelizmente, encontra-se aqui a serviço de algo muito aquém do que poderiam realizar.

Na equipe técnica, Bruno Caldeira assina cenário, figurinos e trilha sonora em sintonia com o texto, sendo correta a iluminação de Gustavo Rizzotti.

FACÍNORA - Texto de Bruno Caldeira. Direção de Caldeira e Gustavo Rizzotti. Com Caldeira e Rizzotti. Porão da Laura Alvim.
Terças e quartas, 21h.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Das contrariedades
Sêneca saúda o amigo Lucílio


          Tu ficas indignado e te queixas! Não compreendes que todo o mal provém não do que te acontece, mas sim de tua indignação e de tuas reclamações?  Do meu ponto de vista, não existe miséria para um homem a não ser a de achar que algo que faz parte da natureza das coisas não está correto. Nem a mim mesmo suportarei quando, um dia, começar a considerar algo insuportável.

          Minha saúde não é boa; faz parte do meu destino. Meus criados estão na cama? Minhas rendas estão em baixa? Minha casa está rachando? Perdas, ferimentos, cansaços, inquietudes me assolam? São coisas que acontecem. Indo além, elas devem acontecer, pois não são obras do acaso, estavam determinadas.

          Acredita, o que agora te digo faz parte dos meus mais íntimos sentimentos. Sempre que a vida me parece cruel ou adversa, imponho a seguinte regra a ser seguida: não obedecer aos deuses, mas segui-los. Faço isso porque quero, não por obrigação. Nada do que vier a me acontecer me abaterá e me deixará com a aparência alterada. Aceitarei de boa vontade aquilo que me cabe, pois tudo o que provoca nossos sofrimentos e nossos medos é a lei da vida. E eu, meu caro Lucílio, não espero que assim seja diferente e que possa estar livre disso.

          Tua bexiga te incomoda? Chegaram más notícias pelo correio? Há perdas incessantes? Indo mais longe, temes por tua vida? Pensa bem, não sabias que desejavas tudo isso ao querer envelhecer? Tudo isso faz parte do percurso de uma longa vida, como a poeira, a lama e a chuva durante uma viagem.

           "Mas eu gostaria de viver livre de todas essas incomodações", dizes. Afirmação tão insensata não é digna de um homem. Aceita como achares melhor esse meu conselho, se não for pelo que nele há de bom, pelo menos em razão de minha boa vontade: "Não queiram os deuses e deusas que a fortuna te prenda em seus prazeres".

          Interroga a ti mesmo, pressupondo que um deus te permita escolher se preferes viver em um mercado ou em um acampamento. Viver, Lucílio, é ser soldado. É por isso que aqueles que se arriscam em missões mais perigosas, através de penhascos e desfiladeiros, são os mais valentes, a elite da tropa. Já aqueles que se ocupam apenas com leves tarefas, enquanto os outros dão o máximo de si, esses não passam de mocinhos delicados, no abrigo, mas sem honras. Passa bem!
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Extraído de Aprendendo a viver

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Cegueta

Lionel Fischer


          Gostaria de comunicar aos queridos parceiros deste blog que, em função de duas cirurgias que farei nos olhos - uma amanhã e a outra dentro de sete dias - é possível que, neste período, poste menos artigos e críticas.

          Com relação ao teatro, não sei como tudo se dará. Na primeira semana, passados uns dias, um dos olhos estará legal, mas o outro não. E aí surge a hamletiana dúvida: será que através do "olho bom" só enxergarei qualidades e com o outro, defeitos? Tenho a alternativa de assistir ao espetáculo com um tapa-olho (estilo pirata) na vista ainda não operada, mas deve ser esquisitíssimo. 

          Enfim...vamos ver o que rola.

          Beijos em todos (agora somos 300!!!),

          Eu
Ítalo Rossi
(1931-2001)


          Certamente um dos maiores atores brasileiros de todos os tempos, Ítalo Rossi morreu ontem, aos 80 anos. Embora tenha feito 20 filmes e participado de 28 novelas na TV - afora os dez anos que integrou o elenco fixo do "Grande Teatro", na TV Tupi - foi nos palcos que Ítalo encontrou o espaço ideal para exercer seu enorme talento e versatilidade.

          Dentre seus maiores sucessos destacam-se "A casa de chá do luar de agosto", "Vestir os nus", "Panorama visto da ponte", "O Mambembe" , "A noite dos campeões", "Quatro vezes Beckett", "Encontro com Fernando Pessoa", "Encontro de Descartes e Pascal", "Comunicação a uma academia" e "O doente imagináriio".

          Ítalo Rossi ganhou todos os prêmios passíveis de serem conquistados no teatro e sempre foi - e continuará sendo - uma referência para todos aqueles (de qualquer idade) que se dedicam à complexa arte de representar.

          A seguir, e em sua homenagem, transcrevo um texto que constava do espetáculo Liberdade, Liberdade. No entanto, traído pela memória, o atribui integralmente a Louis Jouvet, quando na verdade só o primeiro trecho é de sua autoria. Quem me chamou a atenção para este equívoco foi o amigo e grande ator Jaime Leibovicht, a quem agradeço.

“Sou apenas um homem de teatro. Sempre fui e sempre serei um homem de teatro. Quem é capaz de dedicar toda a sua vida à humanidade e à paixão existentes nesses metros de tablado, esse é um homem de teatro".


Paulo Autran dizia essas palavras e seguia...


Nós achamos que é preciso cantar. Por isso,
 
‘Operário do canto, me apresento
 sem marca ou cicatriz, limpas as mãos,
 minha alma limpa, a face descoberta,
 aberto o peito, e – expresso documento -
 a palavra conforme o pensamento.
 Fui chamado a cantar e para tanto
 há um mar de som no búzio de meu canto.
 Trabalho à noite e sem revezamentos.
 Se há mais quem cante cantaremos juntos;
 sem se tornar com isso menos pura,
 a voz sobe uma oitava na mistura.
 Não canto onde não seja a boca livre,
 onde não haja ouvidos limpos e almas
 afeitas a escutar sem preconceito.
 Para enganar o tempo – ou distrair
 criaturas já de si tão mal atentas,
 não canto…
 Canto apenas quando dança,
 nos olhos dos que me ouvem, a esperança.”  
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Os versos são um enxerto de Profissão do Poeta, poema de Geir Campos 


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A lua vem da Ásia

Sucesso de público e crítica A Lua vem da Ásia, monólogo estrelado e adaptado por Chico Diaz, de obra homônima de Campos de Carvalho, volta em curta temporada no Teatro Sesi, de 12 de agosto a 25 de setembro, com nova montagem. O espetáculo, com casa cheia nas temporadas do Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, e elogiado pela presidente Dilma Roussef, tem a loucura como tema central.
 Um homem incomum em busca da compreensão da vida e da morte, conta, em forma de diário, momentos de sua vida desafiando, com muita ironia, a lógica do mundo em que vive, tornando-se o narrador de um mundo governado pela lei do absurdo. Astrogildo, o protagonista, inicia o insano relato de sua trajetória confessando que matou seu professor de lógica quando tinha 16 anos e, candidamente, se assume falsário, ladrão, assassino e também vítima da opressão.
 Este é o primeiro monologo estrelada por Chico Diaz. Com o cuidado de preservar o caráter surrealista do texto. A atuação do ator a direção elogiada de Moacir Chaves levaram à montagem de um espetáculo carregado de humor ácido, em uma verdadeira ode à liberdade.
            Publicado em 1956, o livro A Lua vem da Ásia marca o nascimento da narrativa surrealista de Campos de Carvalho, como bem mostra o seguinte trecho do texto: "Quando em 1934 atravessei sozinho o deserto de Iguidi, tendo por única companhia um casal de borboletas, ocorreu-me a aventura mais surpreendente que pode ocorrer a um homem vivo ou morto, e que procurarei resumir em três linhas - Foi o caso que um dia despertei transformado em mulher e, nessa qualidade, fui pouco depois recrutado para o harém do sultão de Marrocos, onde servi, como pude, durante um ano e 14 dias".
Serviço
Local: Teatro Sesi (Rua Graça Aranha,1- Centro)
Tel: (21) 2563-4168           
Horário: de sexta a domingo às 19h
Bilheteria: Terça a sexta, das 12h às 20h e sábado, domingo e feriado, duas horas antes do espetáculo
Ingressos: R$ R$ 40,00 (inteira)
Classificação: 14 anos
Duração:  80 minutos
Temporada: de 12 e agosto a 25 de setembro
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terça-feira, 2 de agosto de 2011

Fiódor Dostoiévski
(1821-1881)

Harold Bloom


É bastante questionável o fato de Sigmund Freud ter conferido a Os Irmãos Karamazov o primeiro lugar entre os romances de todos os tempos, declarando ser a referida obra próxima a Shakespeare, em grandeza estética. A avaliação é exagerada, mas o livro, decerto, é o mais incisivo escrito por Dostoiésvki, sendo, portanto, o trabalho onde o gênio do autor deve ser pesquisado.

Trata-se da obra final, intencionalmente reveladora, publicada um ano antes da morte do escritor, aos 59 anos. Seu filho único, Alyosha, falecera aos três anos de idade, em 1878, servindo de prelúdio a Os Irmãos Karamazov, cujo herói se chama Alyosha, o irmão caçula. Se vivesse mais tempo, Dostoiévski teria escrito um segundo volume, centrado, quase inteiramente, em um Aliosha amadurecido.

Dispomos, portanto, de Os Irmãos Karamazov em apenas um volume, com 776 páginas. Para a maioria dos leitores, o protagonista é Dmitri, sofredor poético, ou Ivan, intelectual orgulhoso, ou ambos, mas não o simpático e realista Alyosha. A glória do livro é nos deixar fascinados pelos três irmãos (a despeito da evidente antipatia de Dostoiévski por Ivan), além de nos encantar com a figura terrível do pai, o monstro vitalista Fiódor Pavlovich, e nos alienar do irmão bastardo, Smerdyakov, o cozinheiro.

Esses cinco Karamazov são o gênio do romance; as principais figuras femininas, Grushenka e Katerina Ivanovna, a meu ver, resumen-se à satisfação de fantasias masculinas, e suas personalidades não convencem. Tolstoi sabia criar mulheres; Dostoiévski não o sabia, embora estudasse Shakespeare, na esperança de descobrir o segredo.

Invocar o gênero do romance não auxilia muito a leitura de Os Irmãos Karamazov. Embora tal designação seja por demais abrangente, "Escritura" talvez seja a classificação cabível, uma vez que Dostoiévski parece combinar o Livro de Jó com a Revelação de São João, o Divino, estando implícitos vários outros trechos da Bíblia.

Os críticos, seguindo Mikhail Bakhtin, falam do livro como polifonia, mas por que o conceito se aplica mais a esse romance e menos a Dickens ou Proust não está claro para mim. A obra conta com um estranho narrador, que parece representar o público, de modo geral, embora Dostoiévski, de quando em vez, interrompa o fluxo da narrativa.

O romance Os Irmãos Karamazov pode ser considerado, gloriosamente, instável, noção adequada ao Velho Karamazov e seus filhos voláteis, que, de modos diferentes mas paralelos, compartilham da natureza afrontosa do pai.

Freud exagerava nos elogios ao romance porque este confirmava a teoria por ele expressa em Totem e Tabu, em que o Pai Primordial se apropria de todas as mulheres, sendo finalmente morto pelos filhos. Ódio ao pai, segundo Freud, é a fonte do nosso sentimento inconsciente de culpa. Porém, à exceção de Alyosha, todos os Karamazov filhos odeiam, francamente, o pai feroz, e Alyosha só é salvo desse ódio por haver encontrado um substituto na pessoa do monge, Padre Zosima.

Mytra é o centro do romance, mas Dostoiévski cedeu o próprio nome ao Velho Karamazov (que, na verdade, tem 55 anos), e a exuberância sexual desse, que é o pior dos pais, nos faz sentir-lhe a falta, depois que ele é assassinado por Smerdyakov.

Dostoiévski, em seus Cadernos, declarou: "Somos todos, até o último homem, Fiódor Pavloviches", pois somos todos sensualistas e niilistas, por mais que tentemos ser o contrário. Dostoiévski, que impôs a si mesmo a fé religiosa, era tudo, menos místico, tendo sido também o ancestral do lema apaixonado de Kafka: "Basta de psicologia!".

Quase não há personalidades normativas entre os personagens de Dostoiévski: são aquilo que querem ser, e suas vontades são inconstantes. E o mesmo pode ser dito sobre a vontade de Dostoiévski. A injustiça do autor com Ivan é irritante, mas Dostoiévski quer mesmo nos irritar.

É certo que não se importaria com a reação dos críticos de origem judaica, uma vez que ele próprio era anti-semita ferrenho, comparável a Ezra Pound. É importante lembrar que Dostoiévski era obscurantista, e defensor da tirania czarista e da teocracia ortodoxa russa.

Parodiou, com veemência, a ocidentalização, tinha a firme convicção de que os russos eram o Povo Escolhido e que Cristo era o Cristo russo. Os admiradores de Dostoiévski deveriam ler o Diário de um Escritor, livro fascinante e detestável. Uma coisa é ser apaixonado e provocador, outra é pregar o ódio a quem não é russo, em antecipação ao Fim do Mundo.

Dostoiévski detinha o gênio da dramatização de personagem e da personalidade, e, no meu entendimento, a relação do escritor russo com Shakespeare é mais profunda do que a crítica tem apontado até o presente. Seus niilistas são shakespearianos: Svidrigailov, Stavrogin, Ivan Karamazov; e, em Fiódor Karamazov, verificam-se elementos de uma paródia falstaffiana, o que me incomoda.

A tradição ocidental não foi para Dostoiévski o pesadelo que foi para Tolstoi, mas não estou certo de que Dostoiévski fosse capaz de perceber as diferenças existentes entre Shakespeare e os romances de Victor Hugo, cuja visão dos miseráveis da Terra não ficava distante da de Dostoiévski.

O gênio de Dostoiévski cambaleava, em se tratando da representação da religião, o que vem a ser a falha de Os Irmãos Karamazov, pois o cristianismo russo de Dostoiévski era, estritamente, uma enfermidade do intelecto, um vírus nacionalista, destituído de percepção espiritual.

Devemos nos comover com a afirmação de Zosima: "Quem não crê em Deus não há de crer no povo de Deus?". O aforismo é tão desconcertante quanto a convicção dos batistas do Sul dos Estados Unidos, de que Cristo simpatiza com o Partido Republicano. Pode ser um escândalo que, nos Estados Unidos, um agnóstico ou ateu não consiga se eleger nem para a função de laçador de cães, mas trata-se de um fato deprimente que somos obrigados a aceitar.

A religiosidade obscurantista de Dostoiévski é, simplesmente, enfadonha, embora, na maioria das vezes, os críticos não o digam. Na conclusão de Os irmãos Karamazov, Alyosha, em um momento de júbilo, beija o solo russo, e Dostoiévski sente-se profundamente comovido com esse ato heróico. O romance encerra com o jovem profeta pregando para um grupo de meninos, em memória de um dos companheiros, recentemente falecido:

- Falo do pior dos casos, se nos tornarmos maus - Alyosha prosseguiu -, mas por que nos tornaríamos maus, rapazes, não é verdade? Sejamos, antes de tudo, bons, então honesto e, então...jamais esqueçamos uns dos outros. Repito. Dou-lhes a minha palavra, rapazes: da minha parte, jamais os esquecerei; cada rosto que agora me encara, nesse momento, será lembrado, mesmo daqui a 30 anos. Kolya acaba de dizer a Kartshov que, supostamente, "não nos importamos com a existência dele". Mas como posso me esquecer que Kartashov existe, e que já não está enrubescido, mas olha para mim com seu olhar amável, bondoso, alegre? Rapazes, meus caros rapazes, sejamos tão generosos e valentes quanto Ilyushechka, tão inteligentes, valentes e generosos como Kolya (que será ainda mais inteligente quando crescer um pouco), e sejamos tão reservados, mas espertos e amáveis, quanto Kartashov. Mas por que falo desses dois? Vocês são todos caros a mim, rapazes; de agora em diante guardarei todos no meu coração, e peço-lhes que me guardem em seus corações, também! E quem nos uniu, nessa vida de afeto, generosidade, quem, se não Ilyushechka, esse menino tão amável, tão generoso, esse menino que nos será caro para todo o sempre! Jamais nos esqueçamos dele, e que a sua memória seja eterna e positiva em nossos corações, agora e para sempre!

- Sim, sim, eternamente - gritavam os meninos, com suas vozes estridentes, estampando em seus rostos um sentimento profundo.

- Lembremo-nos do seu rosto, e das suas roupas, e das suas pobres botas, e do seu pequeno caixão, e do seu pai infeliz, pecador, e de como Ilyushechka enfrentou toda a classe por causa dele!

- Nos lembraremos, nos lembraremos! - gritavam os meninos. - Ele era valente, ele era generoso!

- Ah, como eu o amava! - exclamou Kolya.

- Ah, crianças, ah, caros amigos, não tenham medo da vida! Como a vida é boa quando fazemos algo bom e certo!

- Sim, sim - repetiam os meninos, extáticos.

- Karamazov, nós te amamos! - uma voz, parecendo ser a de Kartashov, exclamou, incontida.

- Nós te amamos, nós te amamos! - todos gritavam. Muitos tinham lágrimas brilhando nos olhos.

- Viva Karamazov! - Kolya proclamou, extático.

- E lembrança eterna para o menino morto! - Alyosha acrescentou, com sinceridade.

- Lembrança eterna! - repetiram os meninos.

- Karamazov! - gritou Kolya -, será verdade, como nos diz a religião, que todos ressurgiremos dos mortos, e reviveremos, e que vamos nos ver novamente, inclusive Ilyushechka?

- Decerto, vamos ressurgir, decerto, vamos nos rever e, felizes, contar uns aos outros o que se passou - Alyosha respondeu, meio sorrindo, meio extático.

- Ah, que bom será isso! - interrompeu Kolya.

- Bem, agora vamos concluir nossos discursos e seguir para a ceia em memória do amigo. Não se perturbem com o fato de comermos panquecas. É prática antiga, eterna, e nisso também existe algo de bom - riu-se Alyosha. - Bem, vamos! E vamos assim, de mãos dadas.

- Eternamente assim, toda a vida de mãos dadas! Viva Karamazov! - gritou Kolya, novamente extático, e, novamente, os meninos repetiram a exclamação.

Um leitor que não gosta desse trecho sugeriu, maldosamente, que o mesmo tem a aura de uma concentração de escoteiros, evento sobre o qual nada sei. Seja lá com o que a cena se pareça, ela divide os leitores. A meu ver, a cena é de um mau gosto inacreditável, fazendo-me lembrar que Tolstoi, a contragosto, aprovava Dostoiévski apenas à medida que o profeta rival pudesse ser chamado Harriet Beecher Stowe russo.

Mas tudo o que me dispus a demonstrar é que Dostoiévski não foi um gênio religioso, nem gênio da religião. Em questões espirituais, era nada além de um fanático ignorante, cujo anti-semitismo, por sinal autêntico, constituía a única prova de sua condição de profeta russo. Os Irmãos Karamazov não são o Diário de um Escritor; e o gênio de Dostoiévski é mais forte quando coloca o Velho Karamazov e Mytra frente à frente:

- Dmitri Fiodorovich! - gritou, subitamente, Fiódor Pavlovich, com uma voz que não era a sua. - Se não fosses meu filho, eu te desafiaria para um duelo, neste momento...com pistola, três passos...através de um lenço! Através de um lenço! - ele concluiu, batendo com os dois pés no chão.

Velhos mentirosos, que passam a vida inteira encenando papéis, têm momentos em que se deixam levar por suas posturas, ao ponto de tremerem e chorarem, de tanta emoção, ainda que, ao mesmo tempo (ou um segundo mais tarde) possam dizer consigo mesmos: "Estás mentindo, seu velho sem-vergonha; estás encenando um papel, apesar da tua ira 'sagrada' e do teu momento 'sagrado' de ira".

Dmitri Fiodorovich fez uma careta medonha, e olhou para o pai, com um desprezo inexprimível:

- Eu pensei...pensei - ele disse, a meia voz e um tanto sob controle - que viria ao lugar onde nasci, acompanhado do anjo da minha alma, a minha noiva, para acariciar-te na velhice, e o que encontro é um sensualista depravado, um comediante desprezível!

- Ao duelo! - o velho tolo gritou, mais uma vez, ofegante e espargindo saliva com cada palavra. - E tu, Pyotor Alexandrovich Miusov, fica sabendo, senhor, que em todas as gerações da tua família não há, e talvez nunca tenha havido, mulher mais virtuosa e mais honrada, mais honrada, ouviste?, do que essa criatura, conforme ousaste chamá-la! E tu, Dmitri Fiodorovich, trocaste essa "criatura" pela tua noiva, portanto, tu mesmo julgaste que a tua noiva não é digna de lamber os pés dela, eis o tipo de criatura que ela é!

- Vergonha! - o Padre Iosif deixou escapar.

- Vergonha e desgraça! - Kalganov, que estivera calado o tempo todo, de repente, gritou, com sua voz adolescente, tremendo de excitação e com as faces rubras.

- Como pode um homem desses estar vivo? - Dmitri Fiodorovich rosnou, com a voz abafada, quase enlouquecido de ódio, erguendo os ombros de modo estranho, assumindo a postura de um corcunda. - Não! Digam-me, ele pode continuar desonrando a Terra com a sua presença? - e olhou em torno de si, apontando o dedo para o velho. Falava lenta e objetivamente.

- Ouçam, monges, ouçam o parricida! - Fiodor Pavlovich voltou-se contra o Padre Iosif. - Eis a resposta para o seu "vergonha!". Que vergonha? Essa "criatura", essa "mulher de má conduta" talvez seja mais santa do que todos vocês, monges sagrados! Talvez ela tenha se perdido na juventude, sob a influência do ambiente, mas "muito amou", e até Cristo perdoou aquela que muito amou...

- Cristo não perdoou esse tipo de amor... - o manso Padre Iosif deixou escapar, com impaciência.

- Não! Esse tipo, monges, exatamente, esse tipo, esse tipo! Vocês estão salvando as suas almas aqui, à base de repolho, e pensam que são honrados! Comem iscas de peixe, isca de peixe todo dia, e pensam que podem comprar Deus com iscas de peixe!

- Impossível! Impossível! - ouviu-se, de todos os cantos da sala.

Mas a cena, que se tornara tão feia, foi interrompida, da maneira mais inesperada. O superior, de súbito, levantou-se do seu lugar. Alyosha, que quase perdera a cabeça, temendo por si e por todos os demais, só teve tempo para apoiar-lhe o braço. O superir dirigiu-se a Dmitri Fiodorovich e, chegando perto dele, ajoelhou-se. Por um instante, Alyosha pensou que ele tombara de fraqueza, mas era algo mais. Ajoelhado diante de Dmitri Fiodorovich, o superior prostrou-se aos seus pés, em uma mesura plena, digna, consciente, chegando a tocar a fronte ao solo. Alyosha ficou tão impressionado que se esqueceu de apoiá-lo, quando este se lavantou. Um pálido sorriso mal lhe iluminava os lábios.

- Perdoai-me! Perdoai-me, todos! - ele disse, curvando-se em todas as direções, esquecendo-se, em meio à confusão, de reverenciar ou de se despedir do anfitrião. Apenas os monges sagrados buscaram-lhe a bênção.

- O que era aquilo...prostrado a seus pés? Seria alguma espécie de sinal? - Fiódor Pavlovich, que, por alguma razão, havia se calado, tentou iniciar um diálogo, a propósito, sem se atrever a se dirigir a alguém em particular. Naquele momento, deixavam os muros do mosteiro.

Esse trecho maravilhoso é o epítone de Os Irmãos Karamazov, e redime, plenamente, a obra de toda a espiritualidade espúria de Dostoiévski. Ficamos livres para interpretar como quisermos a mesura aterrorizante do superior diante de Mytra, mas, do ponto de vista dramático, trata-se da professia do martírio que ele há de padecer, ao ser condenado, injustamente, pelo assassinato do pai.

Tudo nesse trecho demonstra maravilhosa adequação estética, inclusive a denúncia feita pelo Velho Karamazov, quanto à dieta dos monges: repolho e isca de peixe, por ele considerada mais um indício de hipocrisia. Sendo um gourmet, o Velho Karamazov é capaz de devorar qualquer mulher: "Não existe mulher feia".

A intensidade própria à bufonaria do velho, com o absurdo desafio ao duelo, leva, inevitavelmente, o ardente Mytra à pecaminosa ameaça de parricídio. Pai e filho, monstro fascinante e poeta sensível, compartilham da mesma natureza, de vilão e herói. Eis o gênio de Dostoiévski com toda a sua força, quase shakespeariano em seu esplendor.
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Extraído de Gênio, Editora Objetiva