domingo, 16 de setembro de 2018

2018 - FÓRUM DE SETEMBRO
 
Ontem, 21:42

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Teatro/CRÍTICA

"Gravidades"

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Apaixonada declaração de amor ao tempo



Lionel Fischer



Quando criança, Sofia participou de uma excursão à Serra do Caraça, cujo objetivo era observar o lobo Guará, que na ocasião não apareceu. Passados alguns anos, convida seus amigos Julia e André para acampar na mencionada serra, ao que parece movida pela certeza de que dessa vez o lobo se fará presente - o grupo leva, inclusive, uma posta de carne para atrair o animal.

O clima é de festa. E logo somos informados de que Sofia pretende fazer um filme registrando a viagem. No entanto, enquanto Julia e André armam a barraca e Sofia prepara seu equipamento de filmagem, sua voz em off sugere que algo de muito grave se passa com ela. O que seria?

Eis, em resumo, o contexto em que se dá "Gravidades", que estreou ontem no Teatro Eva Herz. Julia Stockler e Laura de Araujo assinam a direção e a dramaturgia, sendo que esta última contou com a colaboração do Coletivo Dupla de Três. No elenco, Isis Pessino (Sofia), Julianna Firme (Julia) e Rodrigo Trindade (André).

Em sua camada mais epidérmica, a peça em questão pode ser lida como uma história que tinha tudo para ser feliz e que subitamente sofre uma trágica reviravolta - em dado momento, Julia e André ficam sabendo que Sofia padece de uma doença incurável, daí seu desejo de filmar aquela que provavelmente é sua última viagem.

No entanto, e sem invalidar o que acaba de ser dito, creio que também podemos apreender o texto como uma apaixonada declaração de amor ao tempo, esta misteriosa entidade sobre a qual não exercemos o menor controle. E quando o tempo se afigura curto, com prazo de validade prestes a se esgotar, podemos nos entregar ao mais profundo desespero. Mas também é possível valorizar tudo que vivemos e encontrar uma forma menos dolorosa de lidar com o inevitável. 

No presente caso, Sofia pretende filmar sua última viagem com seus amigos tão queridos, o que configura uma espécie de singular testamento, pois se por um lado exclui bens materiais, por outro  prioriza de forma vigorosa e poética a importância dos afetos. E quando manifesta seu desejo de queimar todos os exames que trouxe consigo e que constituem sua sentença de morte, é como se nos dissesse que mesmo assim a vida ainda pode ser encarada como uma dádiva. 

Bem escrito, contendo ótimos personagens e impregnado de pertinentes reflexões sobre os temas abordados, "Gavidades" recebeu ótima versão cênica de Julia Stockler e Laura Araujo, não apenas no que concerne à criatividade das marcações, mas sobretudo pela forma com que preenchem de significados as passagens em que o silêncio predomina. Além disso, conseguiram extrair irrepreensíveis atuações do elenco, o que me leva a afirmar que Isis Pessino, Julianna Firme e Rodrigo Trindade - todos na faixa dos 20 anos - reúnem todas as condições para materializar uma bela trajetória profissional.

Com relação à equipe técnica, considero de excelente nível as contribuições de todos os profissionais envolvidos nesta mais do que oportuna empreitada teatral - Aline Portugal (consultoria de dramaturgia), Pedro Nêgo (direção musical) e Rodrigo Belay (iluminação). Os figurinos, cuja autoria não consta do programa, também estão em perfeita sintonia com as personalidades retratadas. 

GRAVIDADES - Texto e direção de Julia Stockler e Laura Araujo. Com Isis Pessino, Julianna Firme e Rodrigo Trindade. Teatro Eva Herz. Terça e quarta, 19h.







segunda-feira, 10 de setembro de 2018


Olá!

domingo, 9 de setembro de 2018

TRIBO DO TEATRO / SERGIO FONTA - 94 FM / Roquette-Pinto , de segunda a sábado, ao meio-dia e meia.
 
Hoje, 01:00

domingo, 2 de setembro de 2018

Teatro/CRÍTICA

"O frenético Dancin' Days"

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Visceral pulsão de vida



Lionel Fischer



"Idealizada pelos amigos Nelson Motta, Scarlet Moon, Leonardo Netto, Dom Pepe e Djalma Limongi, a boate Dancin'Days foi inaugurada em 05 de agosto de 1976, no recém criado Shopping da Gávea. Mas funcionou por apenas quatro meses, pois o contrato era limitado ao período que antecedia a abertura do Teatro dos Quatro. A casa reunia famosos e anônimos, hippies e comunistas, todas as tribos com o único objetivo de celebrar a vida. E o sucesso foi tamanho que a casa foi reaberta no Morro da Urca e inspirou a novela Dancin' Days, de Gilberto Braga, que tinha a música homônima das Frenéticas como tema de abertura". 

Extraído (e levemente editado) do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza a importância da Dancin' Days como um lugar essencialmente libertário, que abrigou a chegada da discoteca no país. Ali se apresentaram, dentre muitos outros, Lady Zu, a Banda Black in Rio, Tim Maia, Rita Lee, Raul Seixas e Gilberto Gil. E, como é sabido, foi no Dancin' Days que surgiram As Frenéticas. Em vista disso, me parece extremamente oportuna a proposta de relembrar o tempo em que, apesar da ditadura militar, o país inteiro caiu na gandaia e entrou na festa.

Com texto assinado por Nelson Motta e Patrícia Andrade, o musical "O frenético Dancin' Days" (Teatro Bradesco) chega à cena com direção geral de Deborah Colker - cabe assinalar que esta é a primeira encenação teatral de uma das maiores coreógrafas do mundo. No elenco, Stella Miranda (Dona Dayse), Ariane Souza (Madalena), Bruno Fraga (Nelson Motta), Cadu Fávero (Djalma), Franco Kuster (Léo Netto), André Ramiro (Dom Pepe), Gabriel Manita (Tony Manero/Inácio/Catarino), Karine Barros (coro), Larissa Venturini (Scarlet), Natasha Jascalevich (Bárbara) e as Frenéticas Carol Rangel (Edyr de Castro), Ester Freitas (Dhu Moraes), Ingrid Gaigher (Lidoca), Julia Gorman (Regina Chaves), Larissa Carneiro (Leiloca) e Ludmila Brandão (Sandra Pêra). Completam a equipe os bailarinos Romulo Vlad, Andrey Fellipy, Isadora Amorim, Elio Barbe, Eddy Soares, Julia Strauss e Rogger Castro.

Dividido em dois atos, no primeiro o espetáculo prioriza as premissas que levaram à criação da célebre boate. E aqui cabe salientar a tenacidade de Nelson Motta e seus parceiros no sentido de viabilizar a criação de um espaço destinado à música e à dança, e cujo permanente combustível seria a alegria. Já no segundo, com a casa em pleno funcionamento, a festa irrompe irresistível, tornando-se literalmente impossível não se deixar contagiar pela visceral pulsão de vida que emana do palco. 

Bem escrito, contendo ótimos personagens e uma ação que diverte e emociona a plateia, "O frenético Dancin' Days" recebeu ótima versão cênica de Deborah Colker, não apenas no tocante à criatividade das marcações, mas também no que diz respeito à precisão dos tempos rítmicos. Quanto às coreografias, que Deborah assina em parceria com Jacqueline Motta, haveria de ser surpreendente se não fossem, como são, deslumbrantes, magnificamente executadas pelos ótimos bailarinos. E o mesmo deslumbre se faz presente nas preciosas colaborações de Alexandre Elias (direção musical), Gringo Cardia (cenografia e direção de arte), Maneco Quinderé (iluminação), Fernando Cozendey (figurinos) e Max Weber (visagismo).

Com relação ao elenco, todos os profissionais extraem o máximo de seus personagens. Mas é impossível não conferir um destaque especial a Stella Miranda, arrebatadora no breve momento que divide os dois atos e daí em diante, sempre exibindo sua fortíssima presença cênica, imenso carisma, delicioso humor e voz maravilhosa. 

Finalmente, uma breve consideração sobre Nelson Motta, com quem jamais tive o privilégio de ter qualquer contato. Dentre seus muitos predicados - poeta, jornalista, repórter, colunista etc. - um deles me parece essencial: sua aparentemente inesgotável capacidade de gerar felicidade e alegria. Que Deus (caso exista) o conserve sempre assim. E que sua alma otimista e generosa nos ajude a acreditar que o tempo sombrio em que vivemos haverá de passar, como passou o da infame ditadura que muitos acreditavam que haveria de se perpetuar.     

O FRENÉTICO DANCIN' DAYS - Texto de Nelson Motta e Patrícia Andrade. Direção de Deborah Colker. Com Stella Miranda, Bruno Fraga, Cadu Fávero, Franco Kuster, André Ramiro e grande elenco. Teatro Bradesco. Sexta 21h, sábado 17h e 21h, domingo 18h.