Teatro/CRÍTICA
"Volta Seca"
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Surpreendente e sensível relato
Lionel Fischer
"O Brasil inteiro conhece os versos de Olê, mulher rendeira, assim como os de Acorda, Maria Bonita. O que pouca gente sabe é que o autor desses clássicos é um ex-cangaceiro. Mais exatamente, um remanescente do lendário bando de Lampião, o mais temido líder do Cangaço. O autor em questão é Antonio dos Santos, mais conhecido como Volta Seca, alcunha que ganhou aos 11 anos, quando foi raptado pelo bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Preso aos 14 anos, Volta Seca ficou detido em Salvador durante 20 anos. E a história será encenada pela primeira vez no Rio de Janeiro."
Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o contexto em que se dá "Volta Seca", em cartaz na Galeria Marcantônio Villaça (Espaço Cultural Sergio Porto). Alan Pellegrino responde pela idealização do projeto, dramaturgia e atuação. Joelson Gusson assina a direção do espetáculo.
Reportando-me ao parágrafo inicial, realmente não tinha a menor ideia de que canções tão lindas haviam sido compostas por um cangaceiro. E menos ainda que este cangaceiro tenha passado a integrar o bando de Lampião aos 11 anos. É realmente curioso o fato de alguém que viveu, ainda que por pouco tempo, uma experiência em que a violência era a tônica, tenha sido capaz de produzir obras musicais tão sensíveis e definitivamente incorporadas ao cancioneiro popular nacional. Mas passemos ao espetáculo.
Este se dá na cela em que Volta Seca Seca cumpriu sua pena, no dia de sua libertação. O personagem conta sua história, faz reflexões sobre a mesma e encarna várias personalidades que integraram o bando de Lampião. Isto possibilita ao público conhecer não apenas a trajetória pessoal do protagonista, mas também a de um grupo de homens e mulheres que optaram por viver à margem da lei, em permanente embate com a Volante, força policial cujos membros eram chamados de Macacos por Lampião e seus seguidores.
Bem escrito, mesclando com a mesma eficiência passagens poéticas com outras de extrema dureza, "Volta Seca" recebeu segura e sensível direção de Joelson Gusson, que explora com grande propriedade a cenografia de sua autoria, que conta com as colaborações de Analu Prestes (o chão é coberto por máscaras rendadas), Pedro Grapiúna e Mario Coutinho (ossadas de vacas) e Benjamim Abraão (projeções nas paredes de imagens reais do cangaço).
Outro mérito suplementar de Gusson diz respeito à sua atuação junto ao ator, dramaturgo e idealizador do projeto Alan Pellegrino. Tanto nos momentos em que se dirige ao público como em outros em que vive diversos personagens, Pellegrino evidencia forte presença cênica e inegável capacidade de manter a plateia em permanente estado de atenção e interesse.
No complemento da ficha técnica, Bernardo Lorga responde
por uma iluminação em total sintonia com os climas emocionais em jogo, cabendo igualmente destacar a preparação vocal a cargo de Jorge Maia.
VOLTA SECA - Idealização, dramaturgia e atuação de Alan Pelegrino. Direção de Joelson Gusson. Galeria Marcantônio Villaça (Espaço Cultural Sergio Porto). Sábado a segunda, 20h30.
quarta-feira, 25 de julho de 2018
terça-feira, 24 de julho de 2018
Teatro/CRÍTICA
"As mil e uma noites"
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O contundente e mágico poder das palavras
Lionel Fischer
Pensando nos leitores que desconhecem a origem e o contexto de "As mil e uma noites", passo a uma breve exposição. Trata-se de uma coleção de histórias e contos populares originárias do Médio Oriente e do sul da Ásia e compiladas em língua árabe a partir do século IX. No mundo moderno ocidental, a obra passou a ser amplamente conhecida a partir de uma tradução para o francês realizada em 1704 pelo orientalista Antoine Galland, transformando-se num clássico da literatura mundial.
As histórias que compõem "As mil e uma noites" têm várias origens, incluindo o folclore indiano, persa e árabe. Não existe uma versão definida da obra, uma vez que os antigos manuscritos árabes diferem no número e no conjunto dos contos. O que é invariável nas distintas versões é que os contos estão organizados como uma série de histórias narradas por Xerazade, esposa do rei Xariar.
Este rei, louco por haver sido traído por sua primeira esposa, desposa uma noiva diferente todas as noites, mandando matá-las na manhã seguinte. Xerazade consegue escapar a esse destino contando maravilhosas histórias sobre diversos temas que captam a curiosidade do rei. Ao amanhecer, Xerazade interrompe cada conto para continuá-lo na noite seguinte, o que a mentém viva ao longo de várias noites - as mil e uma do título - ao fim das quais o rei já se arrependeu de seu comportamento e desistiu de executá-la.
Uma pequena parte do acima exposto é comunicada ao público no início do espetáculo, mas este revela muitas surpresas, sendo a principal o entrelaçamento de uma das histórias do livro original - ao longo da temporada, 33 histórias serão contadas - com relatos atuais de refugiados árabes que vivem no Rio de Janeiro. A cada noite uma das atrizes interpreta Xerazade, conduzindo a narrativa e também atuando como uma espécie de diretora de cena, dando o texto (que está em suas mãos) em voz baixa para os demais intérpretes e orientando suas entradas e saídas de cena, assim como sua disposição no palco.
Eis, em resumo, o contexto em que se dá a mais recente produção da Cia. Teatro Voador Não Identificado, em cartaz no Oi Futuro Flamengo. Leandro Romano responde pela concepção e direção do espetáculo, estando a dramaturgia e adaptação a cargo de Gabriela Giffoni e Luiz Antonio Ribeiro. No elenco, Adassa Martins, Bernardo Marinho, Clarice Zarvos, Elsa Romero, Gabriel Vaz, João Rodrigo Ostrower, Julia Bernat, Larissa Siqueira, Pedro Henrique Müller e Romulo Galvão.
Partindo da premissa de que todas as histórias que compõem "As mil e uma noite" são fascinantes, não vou me deter na que foi apresentada na noite em que assisti o espetáculo, priorizando duas questões: a dupla função da atriz que interpreta Xerazade e o já mencionado entrelaçamento das histórias com relatos atuais de refugiados árabes.
A primeira ideia é excelente, dentre outras razões porque coloca o espectador em um estado de permanente escuta, fato raríssimo hoje em dia graças às redes sociais e suas múltiplas variantes, que têm como principal virtude a patética volúpia de quem fala e seu total desinteresse pela fala do outro - neste sentido, e mesmo arriscando-me a ser apedrejado como a adúltera da Bíblia, ouso afirmar que a internet deu voz a incontáveis legiões de imbecis.
A segunda questão, referente à inserção dos depoimentos de refugiados árabes, pode ser interpretada de várias maneiras. Opto pela que se segue. O que é um refugiado? É alguém que, por variadas razões, foi forçado a deixar sua pátria e tentar seguir sua vida em outro país. Mas para que isso seja viável, antes de mais nada ele tem que aprender a falar o idioma local, posto que do contrário não será entendido e jamais conseguirá trabalho.
Tudo, portanto, está basicamente atrelado à palavra. E foram as palavras que prolongaram a vida de Xerazade e, mais do que isso, demoveram o rei de seus propósitos homicidas. Assim, julgo totalmente pertinente o entrelaçamento das palavras ficcionais com as verdadeiras, afora o fato de que as últimas possibilitam ao espectador entrar em contato com realidades não raro impregnadas de amargura e de uma profunda dor.
Quanto ao espetáculo, Leandro Romano impõe à cena uma dinâmica encantadora, quando a ficção predomina, e extremamente contundente quando o foco recai sobre os relatos, posto que nesses momentos os intérpretes não incorporam nenhum personagem, apenas dão seus depoimentos, olhando os espectadores nos olhos. E esta permanente alternância, que em princípio poderia gerar alguma dispersão, só contribui para enfatizar o poder das palavras, e sua inegável capacidade de se fazer fecunda no coração daqueles que ainda acreditam que ninguém detém o monopólio de verdade alguma.
E se é verdade que pelo fato de pensar eu existo, tenho que considerar que o outro também pensa, e que também existe. Então, será que não é possível pensarmos e existirmos juntos, mesmo que nossos pensamentos nem sempre coincidam e nossas existências sejam diversificadas? Eu, particularmente, acredito que sim. E, salvo monumental engano de minha parte, acredito que a equipe do presente espetáculo comunga da mesma crença.
Com relação ao elenco, na noite em que assisti o espetáculo Adassa Martins encarnava Xerazade. E mais uma vez me vi totalmente fascinado por sua forte presença, enorme carisma e uma segurança que a fez contornar, com absoluta serenidade, um pequeno problema com um dos microfones. Trata-se, sem a menor dúvida, de uma das mais brilhantes atrizes de sua geração. Quanto aos demais intérpretes, todos contribuem de forma decisiva para o êxito de um dos melhores espetáculos da atual temporada.
Na equipe técnica, parabenizo com o mesmo entusiasmo as preciosas colaborações de Elsa Romero (cenografia), Gaia Catta (iluminação), Lia Maia (figurinos) e Felipe Ventura e Gabriel Vaz (trilha sonora original).
AS MIL E UMA NOITES - Concepção e direção de Leandro Romano. Dramaturgia e adaptação de Gabriela Giffoni e Luiz Antonio Ribeiro. Com Adassa Martins, Bernardo Marinho, Clarice Zarvos, Elsa Romero, Gabriel Vaz, João Rodrigo Ostrower, Julia Bernat, Larissa Siqueira, Pedro Henrique Müller e Romulo Galvão. Oi Futuro Flamengo. Sexta a domingo, 20h.
"As mil e uma noites"
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O contundente e mágico poder das palavras
Lionel Fischer
Pensando nos leitores que desconhecem a origem e o contexto de "As mil e uma noites", passo a uma breve exposição. Trata-se de uma coleção de histórias e contos populares originárias do Médio Oriente e do sul da Ásia e compiladas em língua árabe a partir do século IX. No mundo moderno ocidental, a obra passou a ser amplamente conhecida a partir de uma tradução para o francês realizada em 1704 pelo orientalista Antoine Galland, transformando-se num clássico da literatura mundial.
As histórias que compõem "As mil e uma noites" têm várias origens, incluindo o folclore indiano, persa e árabe. Não existe uma versão definida da obra, uma vez que os antigos manuscritos árabes diferem no número e no conjunto dos contos. O que é invariável nas distintas versões é que os contos estão organizados como uma série de histórias narradas por Xerazade, esposa do rei Xariar.
Este rei, louco por haver sido traído por sua primeira esposa, desposa uma noiva diferente todas as noites, mandando matá-las na manhã seguinte. Xerazade consegue escapar a esse destino contando maravilhosas histórias sobre diversos temas que captam a curiosidade do rei. Ao amanhecer, Xerazade interrompe cada conto para continuá-lo na noite seguinte, o que a mentém viva ao longo de várias noites - as mil e uma do título - ao fim das quais o rei já se arrependeu de seu comportamento e desistiu de executá-la.
Uma pequena parte do acima exposto é comunicada ao público no início do espetáculo, mas este revela muitas surpresas, sendo a principal o entrelaçamento de uma das histórias do livro original - ao longo da temporada, 33 histórias serão contadas - com relatos atuais de refugiados árabes que vivem no Rio de Janeiro. A cada noite uma das atrizes interpreta Xerazade, conduzindo a narrativa e também atuando como uma espécie de diretora de cena, dando o texto (que está em suas mãos) em voz baixa para os demais intérpretes e orientando suas entradas e saídas de cena, assim como sua disposição no palco.
Eis, em resumo, o contexto em que se dá a mais recente produção da Cia. Teatro Voador Não Identificado, em cartaz no Oi Futuro Flamengo. Leandro Romano responde pela concepção e direção do espetáculo, estando a dramaturgia e adaptação a cargo de Gabriela Giffoni e Luiz Antonio Ribeiro. No elenco, Adassa Martins, Bernardo Marinho, Clarice Zarvos, Elsa Romero, Gabriel Vaz, João Rodrigo Ostrower, Julia Bernat, Larissa Siqueira, Pedro Henrique Müller e Romulo Galvão.
Partindo da premissa de que todas as histórias que compõem "As mil e uma noite" são fascinantes, não vou me deter na que foi apresentada na noite em que assisti o espetáculo, priorizando duas questões: a dupla função da atriz que interpreta Xerazade e o já mencionado entrelaçamento das histórias com relatos atuais de refugiados árabes.
A primeira ideia é excelente, dentre outras razões porque coloca o espectador em um estado de permanente escuta, fato raríssimo hoje em dia graças às redes sociais e suas múltiplas variantes, que têm como principal virtude a patética volúpia de quem fala e seu total desinteresse pela fala do outro - neste sentido, e mesmo arriscando-me a ser apedrejado como a adúltera da Bíblia, ouso afirmar que a internet deu voz a incontáveis legiões de imbecis.
A segunda questão, referente à inserção dos depoimentos de refugiados árabes, pode ser interpretada de várias maneiras. Opto pela que se segue. O que é um refugiado? É alguém que, por variadas razões, foi forçado a deixar sua pátria e tentar seguir sua vida em outro país. Mas para que isso seja viável, antes de mais nada ele tem que aprender a falar o idioma local, posto que do contrário não será entendido e jamais conseguirá trabalho.
Tudo, portanto, está basicamente atrelado à palavra. E foram as palavras que prolongaram a vida de Xerazade e, mais do que isso, demoveram o rei de seus propósitos homicidas. Assim, julgo totalmente pertinente o entrelaçamento das palavras ficcionais com as verdadeiras, afora o fato de que as últimas possibilitam ao espectador entrar em contato com realidades não raro impregnadas de amargura e de uma profunda dor.
Quanto ao espetáculo, Leandro Romano impõe à cena uma dinâmica encantadora, quando a ficção predomina, e extremamente contundente quando o foco recai sobre os relatos, posto que nesses momentos os intérpretes não incorporam nenhum personagem, apenas dão seus depoimentos, olhando os espectadores nos olhos. E esta permanente alternância, que em princípio poderia gerar alguma dispersão, só contribui para enfatizar o poder das palavras, e sua inegável capacidade de se fazer fecunda no coração daqueles que ainda acreditam que ninguém detém o monopólio de verdade alguma.
E se é verdade que pelo fato de pensar eu existo, tenho que considerar que o outro também pensa, e que também existe. Então, será que não é possível pensarmos e existirmos juntos, mesmo que nossos pensamentos nem sempre coincidam e nossas existências sejam diversificadas? Eu, particularmente, acredito que sim. E, salvo monumental engano de minha parte, acredito que a equipe do presente espetáculo comunga da mesma crença.
Com relação ao elenco, na noite em que assisti o espetáculo Adassa Martins encarnava Xerazade. E mais uma vez me vi totalmente fascinado por sua forte presença, enorme carisma e uma segurança que a fez contornar, com absoluta serenidade, um pequeno problema com um dos microfones. Trata-se, sem a menor dúvida, de uma das mais brilhantes atrizes de sua geração. Quanto aos demais intérpretes, todos contribuem de forma decisiva para o êxito de um dos melhores espetáculos da atual temporada.
Na equipe técnica, parabenizo com o mesmo entusiasmo as preciosas colaborações de Elsa Romero (cenografia), Gaia Catta (iluminação), Lia Maia (figurinos) e Felipe Ventura e Gabriel Vaz (trilha sonora original).
AS MIL E UMA NOITES - Concepção e direção de Leandro Romano. Dramaturgia e adaptação de Gabriela Giffoni e Luiz Antonio Ribeiro. Com Adassa Martins, Bernardo Marinho, Clarice Zarvos, Elsa Romero, Gabriel Vaz, João Rodrigo Ostrower, Julia Bernat, Larissa Siqueira, Pedro Henrique Müller e Romulo Galvão. Oi Futuro Flamengo. Sexta a domingo, 20h.
sexta-feira, 20 de julho de 2018
Teatro/CRÍTICA
"A peste"
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Obra-prima em belíssima versão
Lionel Fischer
Ambientado em Oran, pequena cidade da Argélia, o romance "A peste" retrata inicialmente o cotidiano monótono dos habitantes, sua meticulosa rotina. Inesperadamente, toda a normalidade sofre inexplicável abalo: ratos agonizam por toda a parte e depois de um tempo a morte também atinge os moradores. E à medida que cresce o número de vítimas, o que de início resumia-se a mera preocupação converte-se em horror generalizado.
Eis, em resumo, o enredo do romance de autoria do escritor, dramaturgo e filósofo franco-argelino Albert Camus (1913-1960). Em cartaz no Teatro II do CCBB, a presente montagem tem adaptação assinada por Pedro Osório, que sintetizou a obra em cima da narrativa do médico Bernard Rieux. O personagem também é interpretado por Osório, estando a direção a cargo de Vera Holtz e Guilherme Leme Garcia, com a colaboração de Gustavo Rodrigues.
Como a presente obra já mereceu verdadeiros tratados de filósofos, ensaístas e críticos literários infinitamente mais capazes do que eu, julgo pueril ter a pretensão de acrescentar algo ao que já foi dito. Ainda assim, e apenas visando o espectador que não tenha lido "A peste", informo que o romance costuma ser interpretado ora como uma alegoria ao nazismo - e, por extensão, a todos os regimes totalitários -, ora sob um viés filosófico-existencial.
Mas creio que ambas as interpretações não são excludentes, posto que assim como os regimes totalitários produzem dor, medo e solidão, os mesmos sentimentos estão presentes ante a iminência da morte gerada por uma doença. A única diferença entre ambas as mazelas é que a doença nos coloca diante de algo que normalmente nos aterroriza: a consciência da própria finitude. No entanto, nada me impede de acreditar que a perspectiva da morte pode modificar a postura dos homens perante si mesmos e o mundo, redefinindo valores e talvez resgatando o que de mais essencial existe nas relações humanas.
A presente adaptação, ainda que centrada em um único personagem, que no romance é também o narrador da história, sintetiza de forma admirável as questões fundamentais da obra-prima escrita por Camus. E ainda que os aspectos políticos sejam mais evidentes, nem por isso os filosóficos foram desprezados. E isto me parece evidente tanto na encenação quanto no trabalho do intérprete.
Em quase toda a montagem, o ator Pedro Osório se dirige à plateia com um misto de indignação e revolta, como se pretendesse sacudir consciências adormecidas - em alguns momentos, é claro, tal ênfase é reduzida, em especial quando o personagem permite o aflorar de seu próprio desespero e fragilidade. Por outro lado, e numa clara alusão a outra obra de Camus, "O Mito de Sísifo", o personagem passa quase todo o tempo transferindo pedaços de carvão de uma enorme pilha para criar outra no lado oposto do palco, aparentemente sem a menor finalidade.
Em "O Mito de Sísifo", o personagem da mitologia grega é condenado a repetir eternamente a tarefa de empurrar uma pedra até o topo de uma montanha. No entanto, sempre que está prestes a alcançar seu objetivo, a pedra rola novamente montanha abaixo até o ponto de partida, invalidando todo o enorme esforço despendido. E é aqui que Camus introduz sua filosofia do absurdo: o que deve fazer um homem que busca sentido, unidade e clareza em um mundo ininteligível, desprovido de Deus e de eternidade? A resposta parece óbvia: o suicídio. No entanto, Camus desconsidera a morte voluntária e propõe a Revolta.
Ou seja: a montagem cometeria um erro crasso se nos fizesse crer que Rieux havia se rendido a um destino inexorável, caso ele concluísse totalmente a segunda pilha de pedaços de carvão e iniciasse um processo de transferência da mesma para seu lugar de origem. Mas ele não o faz, não perpetua o inócuo e angustiante ciclo. E sua recusa está impregnada de lucidez e revolta. E também da consciência que possui de que valores como o amor, a solidariedade e a compaixão ainda não foram completamente banidos, e que, portanto, ainda podem ser resgatados.
Vera Holtz e Guilherme Leme Garcia (com a colaboração de Gustavo Rodrigues) criaram uma encenação áspera e angustiante, em total sintonia com os conteúdos essenciais da obra. E Pedro Osório materializa aqui uma das melhores performances de sua carreira, exibindo forte presença cênica e total consciência tanto dos aspectos políticos como dos filosóficos presentes neste que é um dos melhores romances escritos no século XX.
Na equipe técnica, cabe destacar a expressividade da cenografia criada pela equipe que compõe o espetáculo, a mesma expressividade presente na sombria e claustrofóbica iluminação de Adriana Ortiz, no figurino de Ana Roque, na direção de movimento de Toni Rodrigues e na trilha sonora de Marcello H - esta última contribui decisivamente para ressaltar, de forma admirável, as passagens mais trágicas da encenação.
A PESTE - Texto de Alberrt Camus. Adaptação de Pedro Osório. Direção de Vera Holtz e Guilherme Garcia Leme, com a colaboração de Gustavo Rodrigues. Com Pedro Osório. Teatro II do CCBB. Quinta à segunda, 19h30.
"A peste"
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Obra-prima em belíssima versão
Lionel Fischer
Ambientado em Oran, pequena cidade da Argélia, o romance "A peste" retrata inicialmente o cotidiano monótono dos habitantes, sua meticulosa rotina. Inesperadamente, toda a normalidade sofre inexplicável abalo: ratos agonizam por toda a parte e depois de um tempo a morte também atinge os moradores. E à medida que cresce o número de vítimas, o que de início resumia-se a mera preocupação converte-se em horror generalizado.
Eis, em resumo, o enredo do romance de autoria do escritor, dramaturgo e filósofo franco-argelino Albert Camus (1913-1960). Em cartaz no Teatro II do CCBB, a presente montagem tem adaptação assinada por Pedro Osório, que sintetizou a obra em cima da narrativa do médico Bernard Rieux. O personagem também é interpretado por Osório, estando a direção a cargo de Vera Holtz e Guilherme Leme Garcia, com a colaboração de Gustavo Rodrigues.
Como a presente obra já mereceu verdadeiros tratados de filósofos, ensaístas e críticos literários infinitamente mais capazes do que eu, julgo pueril ter a pretensão de acrescentar algo ao que já foi dito. Ainda assim, e apenas visando o espectador que não tenha lido "A peste", informo que o romance costuma ser interpretado ora como uma alegoria ao nazismo - e, por extensão, a todos os regimes totalitários -, ora sob um viés filosófico-existencial.
Mas creio que ambas as interpretações não são excludentes, posto que assim como os regimes totalitários produzem dor, medo e solidão, os mesmos sentimentos estão presentes ante a iminência da morte gerada por uma doença. A única diferença entre ambas as mazelas é que a doença nos coloca diante de algo que normalmente nos aterroriza: a consciência da própria finitude. No entanto, nada me impede de acreditar que a perspectiva da morte pode modificar a postura dos homens perante si mesmos e o mundo, redefinindo valores e talvez resgatando o que de mais essencial existe nas relações humanas.
A presente adaptação, ainda que centrada em um único personagem, que no romance é também o narrador da história, sintetiza de forma admirável as questões fundamentais da obra-prima escrita por Camus. E ainda que os aspectos políticos sejam mais evidentes, nem por isso os filosóficos foram desprezados. E isto me parece evidente tanto na encenação quanto no trabalho do intérprete.
Em quase toda a montagem, o ator Pedro Osório se dirige à plateia com um misto de indignação e revolta, como se pretendesse sacudir consciências adormecidas - em alguns momentos, é claro, tal ênfase é reduzida, em especial quando o personagem permite o aflorar de seu próprio desespero e fragilidade. Por outro lado, e numa clara alusão a outra obra de Camus, "O Mito de Sísifo", o personagem passa quase todo o tempo transferindo pedaços de carvão de uma enorme pilha para criar outra no lado oposto do palco, aparentemente sem a menor finalidade.
Em "O Mito de Sísifo", o personagem da mitologia grega é condenado a repetir eternamente a tarefa de empurrar uma pedra até o topo de uma montanha. No entanto, sempre que está prestes a alcançar seu objetivo, a pedra rola novamente montanha abaixo até o ponto de partida, invalidando todo o enorme esforço despendido. E é aqui que Camus introduz sua filosofia do absurdo: o que deve fazer um homem que busca sentido, unidade e clareza em um mundo ininteligível, desprovido de Deus e de eternidade? A resposta parece óbvia: o suicídio. No entanto, Camus desconsidera a morte voluntária e propõe a Revolta.
Ou seja: a montagem cometeria um erro crasso se nos fizesse crer que Rieux havia se rendido a um destino inexorável, caso ele concluísse totalmente a segunda pilha de pedaços de carvão e iniciasse um processo de transferência da mesma para seu lugar de origem. Mas ele não o faz, não perpetua o inócuo e angustiante ciclo. E sua recusa está impregnada de lucidez e revolta. E também da consciência que possui de que valores como o amor, a solidariedade e a compaixão ainda não foram completamente banidos, e que, portanto, ainda podem ser resgatados.
Vera Holtz e Guilherme Leme Garcia (com a colaboração de Gustavo Rodrigues) criaram uma encenação áspera e angustiante, em total sintonia com os conteúdos essenciais da obra. E Pedro Osório materializa aqui uma das melhores performances de sua carreira, exibindo forte presença cênica e total consciência tanto dos aspectos políticos como dos filosóficos presentes neste que é um dos melhores romances escritos no século XX.
Na equipe técnica, cabe destacar a expressividade da cenografia criada pela equipe que compõe o espetáculo, a mesma expressividade presente na sombria e claustrofóbica iluminação de Adriana Ortiz, no figurino de Ana Roque, na direção de movimento de Toni Rodrigues e na trilha sonora de Marcello H - esta última contribui decisivamente para ressaltar, de forma admirável, as passagens mais trágicas da encenação.
A PESTE - Texto de Alberrt Camus. Adaptação de Pedro Osório. Direção de Vera Holtz e Guilherme Garcia Leme, com a colaboração de Gustavo Rodrigues. Com Pedro Osório. Teatro II do CCBB. Quinta à segunda, 19h30.
quinta-feira, 19 de julho de 2018
Prêmio Cesgranrio de Teatro 2018
Indicados do 1º Semestre
FIGURINO
Ney Madeira e Dani Vidal - Bibi, uma vida em musical
João Pimenta - Romeu e Julieta
Eduardo Giacomini - Nuon
CENOGRAFIA
Dina Salem Levy - Cérebrocoração
Natalia Lana - Bibi, uma vida em musical
Daniella Thomas - Romeu e Julieta
ILUMINAÇÃO
Paulo Cesar Medeiros - Maria
Monique Gardenberg e Adriana Ortiz - Romeu e Julieta
Beto Bruel - Cérebrocoração
ATOR
João Velho - A ordem natural das coisas
Claudio Mendes - Maria
Marcelo Olinto - Insetos
ATOR EM TEATRO MUSICAL
Claudio Galvan - Romeu e Julieta
Chris Penna - Bibi, uma vida em musical
Leo Bahia - Bibi, uma vida em musical
ESPECIAL
Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche - adaptação e roteiro musical de Romeu e Julieta
Cia. Bandrés - pelos dez anos de atividade em pesquisa de máscaras balinesas
Andrea Jabor - preparação corporal de Insetos
ATRIZ
Gisele Fróes - O Imortal
Mariana Lima - Cérebrocoração
Beatriz Bertu - A ordem natural das coisas
ATRIZ EM TEATRO MUSICAL
Amanda Acosta - Bibi, uma vida em musical
Stella Maria Rodrigues - Romeu e Julieta
Daniela Fontan - A vida não é um musical - o musical
DIREÇÃO
Enrique Diaz e Renato Linhares - Cérebrocoração
Leonardo Netto - A ordem natural das coisas
Tadeu Aguiar - Bibi, uma vida em musical
DIREÇÃO EM MUSICAL
Tony Luchesi - Bibi, uma vida em musical
Apollo Nove - Romeu e Julieta
Jules Vandys tadt - O homem no espelho
TEXTO NACIONAL INÉDITO
A ordem natural das coisas - Leonardo Netto
A vida não é um musical - o musical - Leandro Muniz
A vida ao lado - Cristina Fagundes
ESPETÁCULO
Bibi, uma vida em musical
Romeu e Julieta
A ordem natural das coisas
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Indicados do 1º Semestre
FIGURINO
Ney Madeira e Dani Vidal - Bibi, uma vida em musical
João Pimenta - Romeu e Julieta
Eduardo Giacomini - Nuon
CENOGRAFIA
Dina Salem Levy - Cérebrocoração
Natalia Lana - Bibi, uma vida em musical
Daniella Thomas - Romeu e Julieta
ILUMINAÇÃO
Paulo Cesar Medeiros - Maria
Monique Gardenberg e Adriana Ortiz - Romeu e Julieta
Beto Bruel - Cérebrocoração
ATOR
João Velho - A ordem natural das coisas
Claudio Mendes - Maria
Marcelo Olinto - Insetos
ATOR EM TEATRO MUSICAL
Claudio Galvan - Romeu e Julieta
Chris Penna - Bibi, uma vida em musical
Leo Bahia - Bibi, uma vida em musical
ESPECIAL
Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche - adaptação e roteiro musical de Romeu e Julieta
Cia. Bandrés - pelos dez anos de atividade em pesquisa de máscaras balinesas
Andrea Jabor - preparação corporal de Insetos
ATRIZ
Gisele Fróes - O Imortal
Mariana Lima - Cérebrocoração
Beatriz Bertu - A ordem natural das coisas
ATRIZ EM TEATRO MUSICAL
Amanda Acosta - Bibi, uma vida em musical
Stella Maria Rodrigues - Romeu e Julieta
Daniela Fontan - A vida não é um musical - o musical
DIREÇÃO
Enrique Diaz e Renato Linhares - Cérebrocoração
Leonardo Netto - A ordem natural das coisas
Tadeu Aguiar - Bibi, uma vida em musical
DIREÇÃO EM MUSICAL
Tony Luchesi - Bibi, uma vida em musical
Apollo Nove - Romeu e Julieta
Jules Vandys tadt - O homem no espelho
TEXTO NACIONAL INÉDITO
A ordem natural das coisas - Leonardo Netto
A vida não é um musical - o musical - Leandro Muniz
A vida ao lado - Cristina Fagundes
ESPETÁCULO
Bibi, uma vida em musical
Romeu e Julieta
A ordem natural das coisas
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quarta-feira, 4 de julho de 2018
Teatro/CRÍTICA
"NAITSU - noites com Murakami"
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O real e o imaginário em belíssima versão
Lionel Fischer
"A montagem recria em cena a atmosfera fantástica de Haruki Murakami, considerado o maior autor japonês da atualidade. Sem transpor diretamente qualquer de seus livros, NAITSU atravessa a obra de Murakami, faz convergir situações recorrentes em sua literatura e aglutina várias personagens em apenas uma, que percorre paisagens estranhas e, às vezes, pertencentes a um outro mundo. O entrelaçamento de textos de obras diversas de Murakami com o texto corpo-verbal de Regina Miranda mantém a noite viva e a pulsação emocional da personagem vibrante, enquanto ela atravessa insone as horas entre a meia-noite e o alvorecer".
Extraído (e levemente editado) do ótimo release que me foi enviado, o trecho acima contextualiza o essencial de "NAITSU - noites com Murakami", mais recente produção da Cia. Regina Miranda & Atores Bailarinos. Em cartaz no Espaço Rogério Cardoso da Casa de Cultura Laura Alvim, a montagem leva a assinatura de Regina Miranda e tem como única intérprete Marina Salomon.
Assim que entram na Sala Rogério Cardoso, os espectadores recebem uma varinha e são informados de que podem "manipular a cenografia". Esta consiste em negros véus, com algumas frestas, que envolvem o espaço de representação; e no centro do mesmo, vemos uma espécie de passarela com uma mescla de cores, sendo o vermelho a cor predominante. A mencionada manipulação, obviamente, ficaria restrita aos véus - no meu caso específico, nada fiz com a dita varinha.
Tão logo constatei o essencial da ambientação, meu olhar se concentrou na mulher que, vestida de forma atemporal, realiza movimentos que mesclam contração e expansão, como se desejasse se libertar de algo que a atormenta e ao mesmo tempo sentisse grande temor de consumar seu desejo. Essa mulher também direciona seu olhar, seus braços e todo o seu corpo em direção aos véus, como que pedindo ajuda àqueles que a observam. Mas logo o mesmo e desesperador ritual volta a se repetir. E talvez se perpetuasse, a menos que ela tomasse alguma atitude. E é o que ela faz ao confessar que havia passado as últimas 17 noites sem dormir.
Padeceria ela de singular insônia? Ou será que optou por ficar acordada por acreditar que, nas horas noturnas, poderia refletir melhor sobre seus anseios e receios, ainda que arriscando-se a transpor as fronteiras entre o real e o imaginário? Em minha opinião, creio ser a segunda hipótese a mais correta, ainda que possam existir outras.
Acredito que todo aquele que se recusa a refletir sobre o próprio passado está condenado a repeti-lo. E a mesma reflexão se aplica ao presente: se não estou satisfeito com o que sou, mas me nego a pensar sobre isso, eu serei sempre o mesmo, não darei um mísero passo que me possibilite qualquer transformação. Aqui, estamos diante de uma mulher que pensa no que foi e pensa no que é, o que talvez lhe faça transcender seu estado atual. E que estado é esse?
Como explicitado no parágrafo inicial, não estamos diante de uma mulher específica, mas da aglutinação de várias. Assim, me parece que a opção dramatúrgica de Regina Miranda foi a de concentrar em um único corpo e em uma única voz toda a complexidade do feminino, que abarca tanto a fragilidade quanto a potência. E entre esses dois extremos, uma infinidade de dúvidas, que a personagem explicita com tanto destemor que, a partir de um dado momento, tive a sensação de que ela renunciaria à própria lucidez e abraçaria a loucura, como se esta derradeira opção pudesse lhe trazer a paz tão almejada.
Sem a menor dúvida, estamos diante de um texto que levanta questões da maior pertinência e das quais não podemos fugir, a menos que decidamos nos tornar uma espécie de náufragos de nós mesmos. O texto nos propõe urgentes e inadiáveis reflexões. Cabe a nós decidir se as faremos de dia ou em madrugadas insones. No meu caso específico, sempre preferi a noite, dentre outras razões porque acredito que o silêncio seja um excelente parceiro.
Com relação ao espetáculo, este traz a assinatura de uma artista, na acepção máxima do termo. Regina Miranda possui a notável capacidade de mesclar palavras e gestos, a ponto de torná-los indissociáveis. E a coreografia jamais objetiva reiterar o conhecimento daquela que a concebeu e o virtuosismo daquela que a executa. Isto seria pueril, levando-se em conta as brilhantes trajetórias de Regina Miranda e Marina Salomon. Posso estar enganado, naturalmente, mas creio que toda a dinâmica cênica, irrepreensível em todos os momentos, talvez seja fruto mais da alma do que da razão.
No tocante a Marina Salomon, esta é sem dúvida uma das melhores intérpretes do país. E aqui me abstenho de enumerar seus predicados técnicos, já por demais conhecidos. O que me parece inadiável ressaltar é sua impressionante capacidade de entrega e sua notável inteligência cênica. E também sua coragem. E por coragem entenda-se, por exemplo, a forma como lida com momentos em que nada é dito ou feito, e no entanto, graças a seu poderoso estado de presença, muito está acontecendo. Isto só ocorre com intérpretes de exceção. E Marina Salomon se inclui nesta raríssima categoria.
Com relação à equipe técnica, Luiza Marcier, como já dito, assina um figurino atemporal, como a sugerir que o mesmo estaria em sintonia com todas as mulheres, de todas as épocas. Regina Miranda responde por expressiva trilha sonora, a mesma expressividade presente na ambientação. Gostaria também de ressaltar a beleza do cartaz, creio que a partir de uma foto de Luís Cancel.
NAITSU - NOITES COM MURAKAMI - Texto de Regina Miranda a partir de obras de H. Murakami. Direção de Miranda, interpretação a cargo de Marina Salomon. Casa de Cultura Laura Alvim (Espaço Rogério Cardoso). Sexta e sábado às 20h30. Domingo, 19h30.
"NAITSU - noites com Murakami"
............................................................................
O real e o imaginário em belíssima versão
Lionel Fischer
"A montagem recria em cena a atmosfera fantástica de Haruki Murakami, considerado o maior autor japonês da atualidade. Sem transpor diretamente qualquer de seus livros, NAITSU atravessa a obra de Murakami, faz convergir situações recorrentes em sua literatura e aglutina várias personagens em apenas uma, que percorre paisagens estranhas e, às vezes, pertencentes a um outro mundo. O entrelaçamento de textos de obras diversas de Murakami com o texto corpo-verbal de Regina Miranda mantém a noite viva e a pulsação emocional da personagem vibrante, enquanto ela atravessa insone as horas entre a meia-noite e o alvorecer".
Extraído (e levemente editado) do ótimo release que me foi enviado, o trecho acima contextualiza o essencial de "NAITSU - noites com Murakami", mais recente produção da Cia. Regina Miranda & Atores Bailarinos. Em cartaz no Espaço Rogério Cardoso da Casa de Cultura Laura Alvim, a montagem leva a assinatura de Regina Miranda e tem como única intérprete Marina Salomon.
Assim que entram na Sala Rogério Cardoso, os espectadores recebem uma varinha e são informados de que podem "manipular a cenografia". Esta consiste em negros véus, com algumas frestas, que envolvem o espaço de representação; e no centro do mesmo, vemos uma espécie de passarela com uma mescla de cores, sendo o vermelho a cor predominante. A mencionada manipulação, obviamente, ficaria restrita aos véus - no meu caso específico, nada fiz com a dita varinha.
Tão logo constatei o essencial da ambientação, meu olhar se concentrou na mulher que, vestida de forma atemporal, realiza movimentos que mesclam contração e expansão, como se desejasse se libertar de algo que a atormenta e ao mesmo tempo sentisse grande temor de consumar seu desejo. Essa mulher também direciona seu olhar, seus braços e todo o seu corpo em direção aos véus, como que pedindo ajuda àqueles que a observam. Mas logo o mesmo e desesperador ritual volta a se repetir. E talvez se perpetuasse, a menos que ela tomasse alguma atitude. E é o que ela faz ao confessar que havia passado as últimas 17 noites sem dormir.
Padeceria ela de singular insônia? Ou será que optou por ficar acordada por acreditar que, nas horas noturnas, poderia refletir melhor sobre seus anseios e receios, ainda que arriscando-se a transpor as fronteiras entre o real e o imaginário? Em minha opinião, creio ser a segunda hipótese a mais correta, ainda que possam existir outras.
Acredito que todo aquele que se recusa a refletir sobre o próprio passado está condenado a repeti-lo. E a mesma reflexão se aplica ao presente: se não estou satisfeito com o que sou, mas me nego a pensar sobre isso, eu serei sempre o mesmo, não darei um mísero passo que me possibilite qualquer transformação. Aqui, estamos diante de uma mulher que pensa no que foi e pensa no que é, o que talvez lhe faça transcender seu estado atual. E que estado é esse?
Como explicitado no parágrafo inicial, não estamos diante de uma mulher específica, mas da aglutinação de várias. Assim, me parece que a opção dramatúrgica de Regina Miranda foi a de concentrar em um único corpo e em uma única voz toda a complexidade do feminino, que abarca tanto a fragilidade quanto a potência. E entre esses dois extremos, uma infinidade de dúvidas, que a personagem explicita com tanto destemor que, a partir de um dado momento, tive a sensação de que ela renunciaria à própria lucidez e abraçaria a loucura, como se esta derradeira opção pudesse lhe trazer a paz tão almejada.
Sem a menor dúvida, estamos diante de um texto que levanta questões da maior pertinência e das quais não podemos fugir, a menos que decidamos nos tornar uma espécie de náufragos de nós mesmos. O texto nos propõe urgentes e inadiáveis reflexões. Cabe a nós decidir se as faremos de dia ou em madrugadas insones. No meu caso específico, sempre preferi a noite, dentre outras razões porque acredito que o silêncio seja um excelente parceiro.
Com relação ao espetáculo, este traz a assinatura de uma artista, na acepção máxima do termo. Regina Miranda possui a notável capacidade de mesclar palavras e gestos, a ponto de torná-los indissociáveis. E a coreografia jamais objetiva reiterar o conhecimento daquela que a concebeu e o virtuosismo daquela que a executa. Isto seria pueril, levando-se em conta as brilhantes trajetórias de Regina Miranda e Marina Salomon. Posso estar enganado, naturalmente, mas creio que toda a dinâmica cênica, irrepreensível em todos os momentos, talvez seja fruto mais da alma do que da razão.
No tocante a Marina Salomon, esta é sem dúvida uma das melhores intérpretes do país. E aqui me abstenho de enumerar seus predicados técnicos, já por demais conhecidos. O que me parece inadiável ressaltar é sua impressionante capacidade de entrega e sua notável inteligência cênica. E também sua coragem. E por coragem entenda-se, por exemplo, a forma como lida com momentos em que nada é dito ou feito, e no entanto, graças a seu poderoso estado de presença, muito está acontecendo. Isto só ocorre com intérpretes de exceção. E Marina Salomon se inclui nesta raríssima categoria.
Com relação à equipe técnica, Luiza Marcier, como já dito, assina um figurino atemporal, como a sugerir que o mesmo estaria em sintonia com todas as mulheres, de todas as épocas. Regina Miranda responde por expressiva trilha sonora, a mesma expressividade presente na ambientação. Gostaria também de ressaltar a beleza do cartaz, creio que a partir de uma foto de Luís Cancel.
NAITSU - NOITES COM MURAKAMI - Texto de Regina Miranda a partir de obras de H. Murakami. Direção de Miranda, interpretação a cargo de Marina Salomon. Casa de Cultura Laura Alvim (Espaço Rogério Cardoso). Sexta e sábado às 20h30. Domingo, 19h30.
terça-feira, 26 de junho de 2018
4º Festival Midrash de Teatro
de 16 de julho a 12 de agosto de 2018
de 16 de julho a 12 de agosto de 2018
Olá,
Contamos com você na divulgação do 4º Festival Midrash de Teatro
que consagra o espaço como referência de teatro na cidade. Quase 40
apresentações teatrais estarão em cena entre 16 de Julho e 12 de Agosto, um
"Avignon" em pleno inverno carioca. De segunda à quinta, estarão em
cartaz duas peças por noite, às 19h e às 20h30. Aos domingos, duas
apresentações únicas às 18h e às 20h. O espetáculo terá o custo de R$ 40 a
inteira e R$ 20 a meia e os ingressos podem ser comprados online no site ou
diretamente na secretaria do Midrash.
O idealizador do evento e diretor do Midrash Centro Cultural,
Rabino Nilton Bonder, que esteve no festival francês de Avignon, realizou o
sonho de um dia fazer algo no estilo na Cidade do Rio: "O festival é uma
resposta natural a um movimento que começou há cerca de seis anos no Midrash.
Fomos escolhidos pelo teatro!
Regularmente recebemos um número muito grande de propostas e nem
sempre podemos atender à demanda", explica Nilton Bonder. Hoje, toda essa
procura tem um motivo maior, a oportunidade de montagens independentes, a
valorização da cultura e dos espaços artísticos no Brasil. O Midrash é
considerado um espaço intimista que permite uma proximidade grande entre o ator
e o espectador, favorecendo uma troca intensa e muito rica entre os dois.
Mais informações no site www.midrash.org.br
CONFIRA A PROGRAMAÇÃO:
FRICÇÃO
Direção de Morena Cattoni
Dramaturgia e performance de Breno Motta
16 e 17 de julho | segunda e terça | 19h
O solo narra a trajetória de um personagem que sofreu um abuso
sexual aos 9 anos de idade.
Duração: 50 minutos.
Classificação indicativa: 16 anos.
Classificação indicativa: 16 anos.
LIMA ENTRE NÓS
Estudo compartilhado
A atualidade de Lima Barreto
Estudo compartilhado
A atualidade de Lima Barreto
De Leandro Santanna e Marcia do Valle
Direção de Marcia do Valle
Direção de Marcia do Valle
Com Leandro Santanna
16 e 17 de julho | segunda e terça | 20h30
Solo interpretado pelo ator Leandro Santanna, com direção de
Marcia do Valle, homenageia o escritor Afonso Henriques de Lima Barreto,
utilizando fragmentos de romances, crônicas, cartas e artigos do jornalista
carioca.
Duração: 50 minutos.
Classificação indicativa: 12 anos
Classificação indicativa: 12 anos
O QUADRO
ou pequeno poema para o fim do mundo
ou pequeno poema para o fim do mundo
Texto, direção e atuação de Flavia Milioni
18 e 19 de julho | quarta e quinta | 19h
O quadro narra a trajetória do quadro que acompanhou a vida da
atriz nas mudanças de casa pelas quais ela passou e para onde ela se
transportava em sonho como forma de não sucumbir à instabilidade.
Eleita pela VejaRio uma das cinco melhores peças em cartaz em
Setembro de 2017.
Duração : 50 minutos.
Classificação indicativa: livre
Classificação indicativa: livre
EUFORIA
De Julia Spadaccini
Direção de Victor Garcia Peralta
Direção de Victor Garcia Peralta
Com Michel Blois
18 e 19 de julho | quarta e quinta | 20h30
Indicada aos Prêmios "CESGRANRIO" e "Botequim
Cultural" de melhor ator e melhor texto de 2017. Dividida em dois solos,
um idoso e uma cadeirante, a peça trata do desejo. Um desabafo de personagens
que socialmente são olhados como seres assexuados, invisíveis aos olhos do
prazer comum.
Duração: 53 minutos.
Classificação indicativa: 14 anos.
Classificação indicativa: 14 anos.
AOS POMBOS OU À SÍNDROME DOS GATOS
Texto e direção de Oscar Calixto
Com Adriana Bandeira e Oscar Calixto
23 e 24 de julho | segunda e terça | 19h
Humor, drama e tragédia se entrelaçam sutilmente na discussão
metafórica sobre o nosso momento social, político e econômico. Um casal de
amigos se encontra diariamente em praça pública e acreditam que não são seres
humanos, mas pombos.
Duração: 80 minutos
Classificação indicativa: 12 anos
Classificação indicativa: 12 anos
UTOPIA D
500 ANOS DEPOIS
500 ANOS DEPOIS
De Thomas More
Direção e Dramaturgia de Moacir Chaves
Direção e Dramaturgia de Moacir Chaves
Com Josie Antello e Julio Adrião
23 e 24 de julho | segunda e terça | 20h30
O espetáculo toma como mote o texto "Utopia", de Thomas
More, publicado em 1516. Palavra cunhada por More, "utopia" é fruto
de uma fusão do advérbio grego ou - "não" - ao substantivo tópos -
"lugar" -, com uma terminação latina. No relato, Utopia é uma ilha
recém descoberta, situada em alguma parte do Novo Mundo, cuja descrição é feita
por um navegante português, de nome Rafael Hitlodeu.
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Classificação indicativa: 14 anos
SOBRE NÓS
Texto e Direção de Charles Kahn
Com Gabriel Zanelatto, Isabel Lamoglia, Isabelle Nassar, Priscila
Belgues, Matheus Quintão e Raquel Menau
25 e 26 de julho | quarta e quinta | 19h
O espetáculo propõe ao espectador uma experiência sensorial que
busca refletir sobre nossos afetos, atitudes e angústias.
Duração: 45min.
Classificação indicativa: 12 anos.
Classificação indicativa: 12 anos.
PASSARINHO
Texto de Ana Kutner
Direção de Clara Kutner
Direção de Clara Kutner
Com Ana Kutner
25 e 26 de julho | quarta e quinta | 20h30
Experiências afetivas impulsionaram a atriz, dramaturga e
iluminadora Ana Kutner a criar Passarinho, solo escrito e interpretado por ela.
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: 16 anos
Classificação indicativa: 16 anos
UM INIMIGO DO POVO
de Henrik Ibsen
Direção de Bruce Gomlevsky
Direção de Bruce Gomlevsky
Com os atores formados da CAL no primeiro semestre de 2018
Alline Angeli , Beatriz de Brito, Camila Doring, Daniel de Mello,
Gabriel Traballi, Gabriel Albuquerque, Gabriella Scarton, Mikaela Kowatsch,
Tercianne Melo, Ricardo Cuba, Willean Reis e Paloma Azeredo
29 de julho | domingo | 18h e 01 de agosto | quarta | 20h30
Um libelo contra a hipocrisia e a unanimidade. A ética versus a
política: proteger a saúde da população ou defender a economia de uma cidade?
A ética e a política... Proteger a saúde da população ou defender
a economia de uma cidade. UM INIMIGO DO POVO, de Henrik Ibsen, trata dessas
questões, dos dilemas e contradições humanas, contribuindo para a reflexão
sobre o conturbado mundo em que estamos vivendo.
Duração: 1h50 (110 minutos)
Classificação indicativa: 16 anos
Classificação indicativa: 16 anos
OT AZOY apresenta
VOZES FEMININAS NA LITERATURA YIDDISH
Org. de Sonia Kramer e Sara Vaisman
Com Sonia Clara Ghivelder, Risa Landau, Sheila Kaplan e Sonia
Kramer
29 de julho | domingo | 18h
OT AZOY, DOS IZ YIDDISH! (ISTO É YIDDISH!) é um espaço para
vivência e expressão do Yiddishkait, a cultura Yiddish, da música à
gastronomia, teatro, literatura, humor e cinema.
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: livre
Classificação indicativa: livre
PQP, BRASIL!
Situação social/política do Brasil atual.
Situação social/política do Brasil atual.
Direção e texto de Jitman Vibranovski
Com Betina Viany , Eliene Narducci, Alexandre Lambert, Cláudia
Versiani, Gabriel Versiani, Lúcia Farias ou Fátima Wanderley, Marcia Curi ou
Dulce Austin, Marcia Galdino e Paulo Sandins.
Produção executiva de Regina Almeida
29 de julho | domingo | 20h
D. Belinha (Betina Viany ou Eliene Narducci) pede ajuda para sua
família golpeada e estressada. Ela mostra um dia de sua família (marido,
filhos, irmã e cunhados). Todos estão sofrendo com a situação atual. Uns
desempregados, outros com trabalho intermitente, trabalho terceirizado, etc.
Estão tensos e estressados e assistem muito televisão. No final, a plateia é
convidada a aconselhar D. Belinha.
Duração: 60 minutos.
Classificação indicativa: 12 anos.
Classificação indicativa: 12 anos.
REFÚGIO DE ANNE
Direção original do primeiro estudo de Celina Sodré
Dramaturgia e atuação de Giselle Marques
30 e 31 de julho | segunda e terça | 19h
Refúgio de Anne, espetáculo solo interpretado pela atriz Giselle
Marques e baseado no livro O Diário de Anne Frank, se passa no último dia de
confinamento da família Frank, antes de ser descoberta pelos nazistas. O
monólogo mostra que o grito silencioso e solitário de Anne Frank continua
ecoando na discriminação, na violência, no racismo, na intolerância e no
preconceito, tão presentes ainda nos dias atuais.
Duração: 45 minutos
Classificação indicativa: 12 anos
Classificação indicativa: 12 anos
ENTRE QUATRO PAREDES
de Jean Paul Sartre
Direção de Walter Macedo Filho
Direção de movimento de Ana Amélia Vianna
Direção de Walter Macedo Filho
Direção de movimento de Ana Amélia Vianna
Com Adriana Karla Rodrigues, Nanah Garcia, Nina Rosenthal e Pedro
Cabizuka
30 e 31 de julho | segunda e terça | 20h30
Conhecida pela frase "o inferno são os outros", a peça,
escrita em 1944 pelo filósofo, dramaturgo e critico literário Jean-Paul Sartre
(1905-1980), traz três personagens que, após sua morte, são condenados a viver
juntos, para sempre, em uma sala fechada.
Duração: 90 minutos
Classificação indicativa: 12 anos
Classificação indicativa: 12 anos
MALDITO CORAÇÃO
(Me Alegra Que Tu Sofras)
(Me Alegra Que Tu Sofras)
Texto de Vera Karam
Direção de Isaac Bernat
Direção de Isaac Bernat
Com Stela Celanuo
01 e 02 de Agosto | quarta e quinta | 19h
É um monólogo onde uma mulher fala sobre suas inquietudes e seus
desejos sobre um homem que teria amado no passado.
Duração: 50 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Classificação indicativa: 14 anos
INFANTIL
VENTANEIRA,
a cidade das flautas
VENTANEIRA,
a cidade das flautas
Texto e atuação de Moira Braga
Direção de Morena Cattoni
05 de agosto | domingo | 16h
Ventaneira é uma cidade fantástica onde os ventos produzem música.
Um dia, os ventos cessam e só Rudin, menino que só consegue ver o que suas mãos
alcançam poderá ajudar.
Duração: 45 minutos.
Classificação indicativa: Livre.
Classificação indicativa: Livre.
ACEITA?
Direção de Morena Cattoni
Elenco e textos de Daniel Chagas, Gisela de Castro, Karla Dalvi,
Marcéli Torquato, Natalia Balbino e Natasha Corbelino
05 de agosto | domingo | 18h | contribuição consciente
Espetáculo performance onde o público senta-se à mesa com os
atores e é convidado a refletir sobre temas atuais.
Duração: 50 minutos.
Classificação indicativa: 12 anos.
Classificação indicativa: 12 anos.
A LISTA
De Jennifer Tremblay
Tradução de Risa Landau
Direção de Amir Haddad
Tradução de Risa Landau
Direção de Amir Haddad
Com Clarice Niskier
05 de agosto | domingo | 20h30
A peça é inspirada em um fato verídico, acontecido em uma
província canadense. A autora, Jennifer Tremblay, de Quebec, em um texto em
forma de lista, aborda nossas responsabilidades com o Outro. Ele nos dá a
possibilidade de sermos quem somos, enquanto que o isolamento nos mecaniza de
tal forma, que já não sabemos quem somos.
Duração: 60 minutos.
Classificação indicativa: Livre
Classificação indicativa: Livre
UM ATO
Solo poético, com textos de seis autores
Solo poético, com textos de seis autores
De Affonso Romano de Sant'anna, Eduardo Galeano, Paulo Leminski,
Mario Quintana, Viviane Mosé e Wislawa Szymborska
Direção de Gaby Haviaras e Renato Farias
Com Marcia do Valle
06 e 07 de agosto | segunda e terça | 19h
UM ATO!, é uma peça-poema, um solo da atriz Marcia do Valle, em 30
anos de ofício. São pequenas histórias e poemas dos escritores e poetas Affonso
R. de Santana, Eduardo Galeano, P. Leminski, M. Quintana, Viviane Mosé e
Wislawa. Szymborska. Em diálogo com o momento delicado pelo qual o país e o
mundo estão vivendo, o Teatro segue fortalecendo seu lugar de coragem,
transformação, troca, afeto, liberdade, luta, paixão,...Os textos constroem um
caminho de pensamento sobre as violências que temos vivido. Uma mulher é muitas
mulheres! O roteiro tem na poesia sua forma de indignação. É também um brinde ao
Teatro!
Duração: 55 minutos
Classificação indicativa: 12 anos
Classificação indicativa: 12 anos
IMAGINA ESSE PALCO QUE SE MEXE
Direção de Moacir Chaves
Com Elisa Pinheiro, Karen Coelho, Luísa Pitta e Monica Biel
06 e 07 de agosto | segunda e terça | 20h30
Relatos de um astrofísico sobre episódios de sua vida e conceitos
físicos.
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: 12 anos
Classificação indicativa: 12 anos
De um Conto de Machado
de Assis
A NOVA ORDEM DAS COISAS
Monólogo sobre a eterna contradição humana
Monólogo sobre a eterna contradição humana
Direção de Claudia Ventura
Com Alexandre Dantas
08 e 09 de agosto | quarta e quinta | 19h
No conto, o Diabo, acostumado a ver o desrespeito da humanidade às
leis divinas, resolve facilitar tudo fundando sua própria Igreja onde os
pecados tornar-se-iam norma de conduta. Através do livre-arbítrio o homem
poderia escolher qual Igreja frequentar. O Diabo ganha muitos adeptos, mas, no
final, descobre que seus fiéis passam a infringir suas leis para cometer bons
atos, deparando-se com a eterna contradição humana.
Duração: 60 minutos.
Classificação indicativa: 12 anos
Classificação indicativa: 12 anos
MEUS DUZENTOS FILHOS
A vida de Janusz Korczak
A vida de Janusz Korczak
Texto de Miriam Halfim
Direção de Ary Coslov
Direção de Ary Coslov
Com Marcelo Aquino
08 e 09 de agosto | quarta e quinta | 20h30
15, 16, 22, 23, 29 e 30 de agosto | quartas e quintas | 20h
Monólogo com Marcelo Aquino no papel de Janusz Korczak, pedagogo,
médico e escritor judeu polonês, falando de sua vida e de seu trabalho como
fundador e gestor do Orfanato Modelo, em Varsóvia, onde se dedicou, por 30
anos, a formar e educar órfãos, oferecendo a eles instrução e força moral para
enfrentar a vida. Ele morreu, junto com seus órfãos, aos quais considerava como
seus filhos, no campo de Treblinka em 1942.
Duração: 60 minutos.
Classificação indicativa: livre
Classificação indicativa: livre
220 CARTAS DE AMOR
Dramaturgia de Renato Farias
a partir da correspondência de Maria de Lourdes Lang e Lourenço Renato Medeiros de Farias
a partir da correspondência de Maria de Lourdes Lang e Lourenço Renato Medeiros de Farias
Direção de Rafael Sieg
Com Gaby Haviaras e Renato Farias
12 de agosto | domingo | 18h
Espetáculo criado a partir das cartas trocadas pelos pais do ator
Renato Farias, quando eram namorados, entre 1956 e 1962. O pai morava em Porto
Alegre; a mãe, em Santa Maria. Décadas depois, ao ler as cartas, é possível
perceber que o amor segue lá, vivo e turbulento como costuma ser, e traz
consigo histórias de uma época em que as distâncias pareciam maiores e o tempo
era realmente outro.
Duração: 85 min.
Classificação indicativa: 12 anos
Classificação indicativa: 12 anos
MARIA!
De Antônio Maria
Direção de Inez Viana
Direção de Inez Viana
Dramaturgia e atuação de Claudio Mendes
12 de agosto | domingo | 20h30
A peça é uma organização das crônicas e canções de Antônio Maria,
costuradas de modo a constituírem um enredo. O tempo cronológico do espetáculo
é o de um dia na vida de Maria, o dia de seu aniversário, mas suas lembranças é
que dão o tom biográfico que cria o enredo da peça.
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: 12 anos
Classificação indicativa: 12 anos
SERVIÇO
4º FESTIVAL
MIDRASH DE TEATRO
PERÍODO: 16
de julho a 12 de agosto de 2018.
LOCAL:
Midrash Centro Cultural
END.: Rua
General Venâncio Flores, 184, Leblon, Rio de Janeiro
TEL.: + 55
21 2239-1800
E-MAIL:
secretaria@midrash.org.br
Ingressos:
R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)
Compra de
ingressos online, pelo site: www.midrash.org.br
Teatro/CRÍTICA
"Vou deixar de ser feliz por medo de ficar triste?"
...............................................
Amor, humor e lirismo
Lionel Fischer
Tendo como fonte inspiradora a verídica história de amor de Yuri Ribeiro e Claudia Wildberger, a peça mescla referências e passagens da vida do casal. Mas tudo nos é apresentado em um universo de fábula, que contribui de forma decisiva para a valorização do enredo e dos múltiplos climas emocionais em jogo.
De autoria de Yuri Ribeiro, "Vou deixar de ser feliz por medo de ficar triste?" está em cartaz no Teatro das Artes. Yuri Ribeiro também responde pelo argumento - em parceria com Claudia Wildberger - e está em cena ao lado de Paula Burlamaqui, Vitor Thiré e Jujuba. Jorge Farjalla assina a direção do espetáculo.
O primeiro ponto que gostaria de destacar diz respeito à coragem dos responsáveis pelo argumento não tanto no sentido de abordarem sua própria história, mas de deixarem bem claro que o amor pode - e realmente deve - transcender as amarras impostas pelas convenções. No presente caso, a relação de um jovem com uma mulher mais velha.
De uma maneira geral, sempre que se deparam com uma relação como essa, o que pensam 99% das pessoas? Ela deve ser rica e ele pobre. Ou ele é bom de cama e ela uma mulher carente. Ou ambas as coisas e mais uma infinidade de variantes, que desprezam o que deveria ser encarado com naturalidade, ou seja: duas pessoas estão se amando e ponto. Se há uma razoável diferença de idade, o que temos a ver com isso?
No entanto, no caso de o homem ser bem mais velho do que a mulher, o percentual de preconceito cai significativamente, posto que aí o lastimável machismo que ainda predomina entre nós tende a valorizar o homem, cujas supostas virtudes seriam de tal magnitude que a jovem em questão não hesitou em renunciar aos homens de sua idade. Mas, ainda assim, retrógrados de plantão haverão de pensar: "Há algo de estranho aí. Esse homem deve ser muito poderoso ou muito rico. Ou ambas as coisas..."
Mas o amor, se verdadeiro for, acaba se materializando, sobrepondo-se a todos os questionamentos advindos de mentes medievais, aos quais se agregam diversos sentimentos, sendo o mais execrável o da inveja - ou será que ninguém já reparou o quanto se ressente, por exemplo, um casal que não se ama ante um outro que esbanja felicidade? Este ressentimento é sobretudo constatável em restaurantes, quando alguns casais não conseguem trocar meia dúzia de palavras, tendo à sua frente um outro de cujo cardápio constam risos e delicadas carícias. Enfim...passemos ao texto, após as divagações acima - se excessivas, por elas me desculpo.
Yuri Ribeiro escreveu uma belíssima peça, cujo maior mérito é a extrema sensibilidade e delicioso humor com que aborda variados temas - dentre muitos outros, a relação entre mãe e filho, a dificuldade dele em aceitar que sua mãe se relacione com um homem "que poderia ser meu irmão", o desejo da mulher, ainda que inicialmente hesitante, de se deixar levar por um sentimento que não consegue negar. Contendo ótimos personagens e uma ação que cativa o espectador do início ao fim, a peça é sem dúvida uma das melhores da atual temporada.
Com relação à montagem, a opção do diretor Jorge Farjalla de priorizar a fábula contribui decisivamente para o estabelecimento de uma atmosfera impregnada de humor, delicadeza e lirismo, demonstrando com inequívoca clareza que o universo cotidiano pode conter inestimáveis doses de poesia. E cabe também destacar seu precioso trabalho junto ao elenco.
Paula Burlamaqui exibe aqui uma das melhores performances de sua carreira, extraindo todo o potencial de sua excelente personagem, tanto nas passagens mais dramáticas quanto naquelas em que o humor predomina - afora isso, é inegável que está cada vez mais linda. Yuri Ribeiro também está irrepreensível na pele do jovem cheio de aspirações e sonhos, de início um tanto imaturo e finalmente sabendo exatamente o que deseja. Vitor Thiré encarna diversos personagens, exibindo grande carisma e notável versatilidade. Quanto a Jujuba, o ator, ainda que pouco fale, é uma presença fortíssima, trabalhando com igual maestria o humor e o patético inerentes ao personagem, cabendo também destacar sua sensibilidade quando toca acordeão, o que acontece praticamente ao longo de toda a montagem.
Na equipe técnica, José Dias responde por irrepreensíveis direção de arte e cenografia, sendo esta última, cuja atmosfera contém algo de circense, uma das mais belas e poéticas já executadas por um dos melhores profissionais do país em sua especialidade. O mesmo brilho se faz presente nos maravilhosos figurinos criados por Jorge Farjalla (também responsável pela impecável preparação corporal), na excelente preparação vocal de Patrícia Maia, na lindíssima trilha sonora de João Paulo Mendonça e na expressividade do visagismo a cargo de Rosa Bandeira.
VOU DEIXAR DE SER FELIZ POR MEDO DE FICAR TRISTE? - Texto de Yuri Ribeiro. Argumento de Yuri e Claudia Wildberger. Direção de Jorge Farjalla. Com Paula Burlamaqui, Yuri Ribeiro, Vitor Thiré e Jujuba. Teatro das Artes. Sexta e sábado, 21h. Domingo, 20h.
"Vou deixar de ser feliz por medo de ficar triste?"
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Amor, humor e lirismo
Lionel Fischer
Tendo como fonte inspiradora a verídica história de amor de Yuri Ribeiro e Claudia Wildberger, a peça mescla referências e passagens da vida do casal. Mas tudo nos é apresentado em um universo de fábula, que contribui de forma decisiva para a valorização do enredo e dos múltiplos climas emocionais em jogo.
De autoria de Yuri Ribeiro, "Vou deixar de ser feliz por medo de ficar triste?" está em cartaz no Teatro das Artes. Yuri Ribeiro também responde pelo argumento - em parceria com Claudia Wildberger - e está em cena ao lado de Paula Burlamaqui, Vitor Thiré e Jujuba. Jorge Farjalla assina a direção do espetáculo.
O primeiro ponto que gostaria de destacar diz respeito à coragem dos responsáveis pelo argumento não tanto no sentido de abordarem sua própria história, mas de deixarem bem claro que o amor pode - e realmente deve - transcender as amarras impostas pelas convenções. No presente caso, a relação de um jovem com uma mulher mais velha.
De uma maneira geral, sempre que se deparam com uma relação como essa, o que pensam 99% das pessoas? Ela deve ser rica e ele pobre. Ou ele é bom de cama e ela uma mulher carente. Ou ambas as coisas e mais uma infinidade de variantes, que desprezam o que deveria ser encarado com naturalidade, ou seja: duas pessoas estão se amando e ponto. Se há uma razoável diferença de idade, o que temos a ver com isso?
No entanto, no caso de o homem ser bem mais velho do que a mulher, o percentual de preconceito cai significativamente, posto que aí o lastimável machismo que ainda predomina entre nós tende a valorizar o homem, cujas supostas virtudes seriam de tal magnitude que a jovem em questão não hesitou em renunciar aos homens de sua idade. Mas, ainda assim, retrógrados de plantão haverão de pensar: "Há algo de estranho aí. Esse homem deve ser muito poderoso ou muito rico. Ou ambas as coisas..."
Mas o amor, se verdadeiro for, acaba se materializando, sobrepondo-se a todos os questionamentos advindos de mentes medievais, aos quais se agregam diversos sentimentos, sendo o mais execrável o da inveja - ou será que ninguém já reparou o quanto se ressente, por exemplo, um casal que não se ama ante um outro que esbanja felicidade? Este ressentimento é sobretudo constatável em restaurantes, quando alguns casais não conseguem trocar meia dúzia de palavras, tendo à sua frente um outro de cujo cardápio constam risos e delicadas carícias. Enfim...passemos ao texto, após as divagações acima - se excessivas, por elas me desculpo.
Yuri Ribeiro escreveu uma belíssima peça, cujo maior mérito é a extrema sensibilidade e delicioso humor com que aborda variados temas - dentre muitos outros, a relação entre mãe e filho, a dificuldade dele em aceitar que sua mãe se relacione com um homem "que poderia ser meu irmão", o desejo da mulher, ainda que inicialmente hesitante, de se deixar levar por um sentimento que não consegue negar. Contendo ótimos personagens e uma ação que cativa o espectador do início ao fim, a peça é sem dúvida uma das melhores da atual temporada.
Com relação à montagem, a opção do diretor Jorge Farjalla de priorizar a fábula contribui decisivamente para o estabelecimento de uma atmosfera impregnada de humor, delicadeza e lirismo, demonstrando com inequívoca clareza que o universo cotidiano pode conter inestimáveis doses de poesia. E cabe também destacar seu precioso trabalho junto ao elenco.
Paula Burlamaqui exibe aqui uma das melhores performances de sua carreira, extraindo todo o potencial de sua excelente personagem, tanto nas passagens mais dramáticas quanto naquelas em que o humor predomina - afora isso, é inegável que está cada vez mais linda. Yuri Ribeiro também está irrepreensível na pele do jovem cheio de aspirações e sonhos, de início um tanto imaturo e finalmente sabendo exatamente o que deseja. Vitor Thiré encarna diversos personagens, exibindo grande carisma e notável versatilidade. Quanto a Jujuba, o ator, ainda que pouco fale, é uma presença fortíssima, trabalhando com igual maestria o humor e o patético inerentes ao personagem, cabendo também destacar sua sensibilidade quando toca acordeão, o que acontece praticamente ao longo de toda a montagem.
Na equipe técnica, José Dias responde por irrepreensíveis direção de arte e cenografia, sendo esta última, cuja atmosfera contém algo de circense, uma das mais belas e poéticas já executadas por um dos melhores profissionais do país em sua especialidade. O mesmo brilho se faz presente nos maravilhosos figurinos criados por Jorge Farjalla (também responsável pela impecável preparação corporal), na excelente preparação vocal de Patrícia Maia, na lindíssima trilha sonora de João Paulo Mendonça e na expressividade do visagismo a cargo de Rosa Bandeira.
VOU DEIXAR DE SER FELIZ POR MEDO DE FICAR TRISTE? - Texto de Yuri Ribeiro. Argumento de Yuri e Claudia Wildberger. Direção de Jorge Farjalla. Com Paula Burlamaqui, Yuri Ribeiro, Vitor Thiré e Jujuba. Teatro das Artes. Sexta e sábado, 21h. Domingo, 20h.
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