terça-feira, 23 de novembro de 2010

Teatro/CRÍTICA

"Neura!"

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Entre tapas e beijos


Lionel Fischer


Antes de começar esta crítica, faço questão de declarar que Rita Fischer e Bruno Linhares são meus filhos.

Tudo começou no ano passado, no Festival Internacional de Humor Oi Futuro. Com "Isso expõe as pessoas", Rita Fischer levou o prêmio de Melhor Esquete. A partir daí, foi criando novas cenas para os dois personagens, recém casados, e cuja relação é pautada pelo comportamento totalmente histérico, paranóico e instável de Matilde, que aos poucos vai levando à loucura seu marido Carlos Alberto. Mas como ambos, ao menos em alguns momentos, conseguem rir do caos cotidiano, continuam juntos, ainda que alternando tapas e beijos. Eis, em resumo, o contexto de "Neura!", em cartaz no Teatro II do Sesc Tijuca. Beto Brown assina a direção do espetáculo, que tem elenco formado por Rita Fischer e Fabio Florentino.

Abordando diversificados temas, dentre eles o medo de envelhecer, a suposta monotonia do casamento, o perigo iminente de contrair todas as doenças possíveis e imaginárias, a necessidade de buscar alternativas para apimentar a relação sexual (tudo isso, naturalmente, fruto da mente desvairada de Matilde), a peça exibe cenas muito engraçadas, mas que em alguns casos poderiam ser ainda mais eficazes se um pouco reduzidas. Mesmo assim, a platéia embarca alegremente nesta tresloucada jornada, identificando-se tanto com a protagonista como com seu parceiro, um homem cuja aparentemente inesgotável paciência só é encerrada perto do final, quando ele dá um verdadeiro ataque ao fazer uma irrepreensível "radiografia" do caráter neurótico e operístico de sua mulher.

Com relação ao espetáculo, Beto Brown teve a sagacidade de perceber que o fundamental não repousaria na criação de marcas mirabolantes (ainda que muitas sejam hilárias), mas sim em permitir o máximo de liberdade aos intérpretes, incluindo a possibilidade de improvisar e se relacionar com os espectadores. E esta é a principal razão para a empatia que se estabelece entre palco e platéia, sem a qual a presente montagem não funcionaria.

Na pele de Matilde, Rita Fischer exibe presença, carisma e um ótimo tempo de comédia, cabendo também ressaltar seu excelente trabalho corporal. E o mesmo se aplica a Fabio Florentino, que mesmo fazendo um personagem que serve de "escada" para a protagonista, com ela estabelece uma contracena de igual para igual, também evidenciando grande naturalidade e delicioso senso de humor.

Na equipe técnica, Ana Machado assina uma cenografia simples e despojada, mas que atende a todas as necessidades da montagem, com Patrícia Muniz respondendo por figurinos em total sintonia com o caráter e condição social dos personagens. Luis Carlos Nem ilumina a cena de forma correta, cabendo a Bruno Linhares uma trilha sonora que contribui para reforçar os múltiplos climas emocionais em jogo.

NEURA! - Texto de Rita Fischer. Com Rita Fischer e Fabio Florentino. Direção de Beto Brown. Teatro II do Sesc Tijuca. Sexta, sábado e domingo, 19h.


sábado, 20 de novembro de 2010

Teatro/CRÍTICA

"O teatro da grande marionete"

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Paixões e impossibilidades


Lionel Fischer


Com 15 anos de atividade, esta me parece ser a primeira incursão da premiada Cia. de Teatro Artesanal no gênero adulto - caso esta informação esteja incorreta, espero que me perdoem. E a escolha do grupo recaiu numa trama centrada a partir do desejo do vampiro Ulpir de "tentar resgatar sua dimensão humana ao se apaixonar pela jovem Aurora". Ocorre, porém, que o jovem Louis, pretenso candidato à mão da referida moça, acaba tendo que confrontar-se com o dito vampiro, o que acaba conduzindo a um trágico desfecho.

Eis, em resumo, o enredo de "O teatro da grande marionete", em cartaz no Teatro Municipal do Jockey. Gustavo Bicalho assina o texto e a direção, estando o elenco formado por Diogo Fujimura (vampiro Ulpir), Virgínia Martins (Aurora), André Millions (Louis), Marise Nogueira (Violeta, esposa de Oscar), André Pimentel (Oscar, dono do teatro em que se desenrola parte da trama), Marcos Guilhon (Max, sócio de Oscar) e Oscar Fabião (Pierre, um adolescente).

Como todos sabemos, o mito do vampiro já gerou inúmeras obras - literárias, teatrais e cinematográficas - e seu fascínio permanece inalterado. No presente caso, estamos diante de uma peça que mescla um duplo desejo: o do amor e o da imortalidade, mas em função da trama esta conjunção de interesses torna-se inviável.

Estruturado na forma de recordações do jovem Louis, o texto exibe algumas qualidades, sendo a principal as reflexões que o autor faz a respeito das paixões. Em contrapartida, algumas cenas se estendem em demasia, retardando a ação e, de uma certa maneira, conferindo à obra um caráter excessivamente literário. Acredito que, se bastante enxugado, o texto teria um alcance muito maior.

Com relação ao espetáculo, Gustavo Bicalho impõe à cena uma dinâmica em sintonia com seu texto, e isso equivale a dizer que, de uma maneira geral, não consegue driblar o já mencionado caráter literário da obra. Curiosamente, a melhor cena da montagem é justamente aquela que dispensa as palavras, quando dois pares realizam uma espécie de dança feita de entregas e recusas.

Quanto ao elenco, o trabalho dos jovens intérpretes pode ser considerado correto, mas acredito que todos poderiam render bem mais se o texto desse mais prioridade à ação, ao invés de apoiar-se tanto em embates verbais, mais adequados ao gênero literário.

Na equipe técnica, Jorginho de Carvalho assina uma iluminação muito expressiva, contribuindo decisivamente para enfatizar os múltiplos climas emocionais em jogo. Karlla de Luca responde por cenário e adereços em perfeita consonância com o contexto, sendo de excelente nível a direção sonora (o que vem a ser isto, exatamente?) de Daniel Belquer e a música original de Alexandre Bräutigan.

O TEATRO DA GRANDE MARIONETE - Texto e direção de Gustavo Bicalho. Com a Cia de Teatro Artesanal. Teatro do Jockey. Sexta, sábado e domingo, 21h.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Flores de Chumbo

Lionel Fischer
(1984)

CAPÍTULO XXII


Durante três dias, desde a partida de minha amada até a noite de domingo, monsenhor não me deixou sozinho um só instante, temeroso de que minha ansiedade me levasse a tomar uma atitude tresloucada. E embora muitas vezes me transtornassem, seus cuidados de enfermeira se revelaram úteis, pois em várias ocasiões estive a ponto de rumar para o convento. Quando me batia essa compulsão, ele adotava uma postura trágica e se colocava diante da porta, declarando que por ela eu só passaria se o arrancasse dali à força. Se estávamos no pátio, repetia o mesmo procedimento, só que diante da porteira. É óbvio que se eu decidisse mesmo assaltar o convento não haveria de ser o diminuto prelado que me impediria. Em todo caso, seu arrebatamento arrefecia o meu e a razão me voltava.

Mas na maior parte do tempo me comportei de forma a não lhe causar grandes transtornos. Passeávamos pela granja, sentávamo-nos na varanda para conversar e cuidávamos da casa. No entanto, os dias pareciam não ter fim. Por mais que monsenhor procurasse esticar nossos passeios, as conversas ou a faxina, por volta das cinco da tarde nada mais nos restava a não ser esperar que o sono nos levasse ao leito. E era justamente durante este período de ociosidade forçada que minha ansiedade atingia seu mais alto grau.

A noite também contribuía para abalar ainda mais meu precário equilíbrio, pois não há problema que não se acentue com a sua chegada. Consciente disso, tão logo o dia começava a declinar, monsenhor iniciava uma longa peregrinação pela casa, acendendo uma a uma todas as luzes. Por último, acendia as do pátio. Da primeira vez que ele fez isso, pensei que pudesse estar havendo algum problema no sistema elétrico. Mas logo fui informado de que o artifício visava atenuar os efeitos da noite num organismo debilitado - no caso, o meu.

A partir de sábado, outro fator veio se juntar à ausência de irmã Geovana para abalar ainda mais meu estado de espírito: a falta de comida. Como o amigo leitor há de estar lembrado, as provisões haviam sido calculadas para durar uma semana, ou seja, até segunda-feira - desde que consumidas por uma única pessoa. Com a presença de monsenhor Flávio, o consumo aumentara, gerando prematura escassez. Assim, urgia traçar um plano que nos permitisse escapar aos tormentos da fome. Disse isso ao prelado, que prontamente se dispôs a colocar todos os seus neurônios a serviço desta nobilíssima causa.

Nossa primeira idéia foi arrombar novamente uma residência ou o famoso botequim de vidro. Mas desistimos dela, não tanto por uma questão ética, mas por pura precaução, pois a essa altura os alimentos já deveriam estar estragados. Descartada essa primeira hipótese, partimos para uma segunda, uma terceira e assim fomos indo. No entanto, à medida que íam se sucedendo, elas se tornavam cada vez mais delirantes, a ponto de monsenhor sugerir, com a cara mais lavada deste mundo, que ralássemos um pedaço da casca de uma determinada árvore a fim de produzir uma sopa que, segundo ele, constava do cardápio de uma tribo indígena - cujo nome não foi capaz de lembrar - que se tornara célebre justamente por sua incrível capacidade de converter a natureza em alimento...

Ao meio-dia interrompemos nossas especulações, visto que nossa fome aumentava na mesma proporção em que nos revelávamos incapazes de satisfazê-la. Completamente órfãos, passamos a concentrar todas as nossas esperanças em irmã Geovana, que a par de seus graves problemas haveria de encontrar uma forma de fazer chegar até nós, segunda-feira, uma nova remessa de alimentos. Até lá, tentaríamos suportar esse jejum forçado da melhor maneira possível, evitando sobretudo qualquer assunto que pudesse, ainda que vagamente, ter alguma relação com comida.

Foi um fim-de-semana insuportável, sobretudo para mim, que precisava combater duas carências. Mas, ao mesmo tempo, ele não deixou de ter alguns momentos engraçados, como aquele em que monsenhor Flávio me pediu que o ouvisse em confissão. À meia-noite de domingo, o resoluto prelado, que até então se comportara de maneira exemplar, foi acometido de uma inesperada crise de fraqueza e cismou que morreria antes do amanhecer. Ainda tentei convencê-lo do contrário, mas meus argumentos se revelaram impotentes e acabei acatando seu pedido. Seguindo suas recomendações, sentei-me na poltrona e me comprometi a não me virar para ele enquanto durasse sua confissão. Monsenhor então se ajoelhou à minha esquerda e apoiou suas mãozinhas no braço da poltrona. Cenário armado, atores em seus lugares, iniciou-se o espetáculo.

Se tivéssemos à nossa frente uma platéia, certamente teríamos sido vaiados em cena aberta. Primeiro, pela fragilidade do protagonista; e depois pela peça em si. Se assistir a um monólogo já não é tarefa a que todos se dispõem com facilidade, escutar um canastrão falar 45 minutos sobre um mesmo assunto se torna um martírio só comparável ao de Jó. E foi exatamente isso que monsenhor fez: masturbou-se todo esse tempo com aquela história do cemitério, sem conseguir em nenhum momento estabelecer um mínimo de empatia e cumplicidade, pois optando por analisar a situação ao invés de sofrer seus efeitos, parecia muito mais empenhado em se defender do que propriamente em pedir perdão. Aparentava força, quando deveria parecer desesperado. Falava alto, quando sussurrar se impunha. Em suma, faltava-lhe direção e um texto melhor. Conseqüentemente, nossa representação foi um fiasco - se Deus se dispôs a escutá-lo, das duas uma: ou dormiu durante a performance de monsenhor ou condenou-o a ir para o inferno.

Segunda-feira nos levantamos com o dia e ambos animadíssimos. Nossa confiança em irmã Geovana era tamanha que até chegamos a debochar de nosso martírio. Tudo passava a ser uma questão de horas. Mais cedo ou mais tarde uma emissária de minha amada - era pouco provável que viesse ela mesma em pessoa - surgiria com o precioso carregamento, afastando, por pelo menos mais uma semana, a possibilidade de uma morte inglória. Às duas da tarde, no entanto, nossa confiança já não era a mesma. Além do receio, agora bastante fundado, o tempo também contribuía para aumentar nossa inquietação, pois o agrupamento de imensas nuvens negras sugeria a iminência de uma tempestade. Se isso ocorresse, os caminhos se tornariam impraticáveis e então, adeus comida.

Às três horas monsenhor propôs que nos ajoelhássemos no centro do pátio e rezássemos um terço completo, para ver se o Senhor se sensibilizava com a nossa causa. Retruquei que achava pouco provável que Ele se dignasse a nos ajudar, depois de seu canhestro monólogo travestido de confissão.

- Não se esqueça, Gabriel, de que é infinita a misericórdia do Senhor!

- E sua paciência...será igualmente infinita?

Nesse momento, o céu rugiu de forma aterradora, e tanto monsenhor como eu tivemos a impressão de que o Senhor respondia à pergunta que eu havia feito. Desvairado, o prelado prostou-se de joelhos, abriu os braços e bradou:

- Oh Senhor, Deus de misericórdia! Por que me falais de forma tão brutal, tão rude, logo a mim que jamais deixei de reverenciar Vosso nome e que fiz de Vossa causa a razão de minha existência? Sei que ontem Vos atormentei com meu longo solilóquio, mas seria essa falta assim tão grave para que façais desabar sobre nós essa terrível tempestade? Tempestade essa que nos privará de alimento e que talvez decrete nossa morte? Se for esse o Vosso desejo, Oh Senhor, faço-vos um último pedido: poupai ao menos este jovem, cuja natural insensatez é compensada por uma igualmente natural bondade e cujo coração está impregnado do mais puro amor! Permiti que ele e irmã Geovana possam ser felizes, pois o lugar dela, bem o sabeis, não é onde se encontra e sim ao lado deste por quem neste momento imploro. Concedei-me ao menos isso e tudo aceitarei com resignação!

Isto dizendo, monsenhor começou a carpir, com uma abundância lacrimal digna de uma profissional da Grécia antiga. Como suas palavras haviam me tocado profundamente - refíro-me às últimas - ajoelhei-me ao seu lado e a ele me abracei, procurando não apenas demonstrar meu reconhecimento, mas também suavisar os tremores que lhe agitavam a frágil ossatura. E assim permanecemos por um razoável tempo, durante o qual o Senhor, possivelmente comovido, começou a expulsar dali as tenebrosas nuvens. Quando finalmente reabrimos os olhos, para nosso total pasmo já o sol se insinuava por entre algumas brechas que o vento produzira na outrora impenetrável massa. Quinze minutos depois, ninguém poderia acreditar que, pouco antes, o céu estivera a ponto de inflingir à Terra os mais inconcebíveis castigos.

Teríamos, sem dúvida, rendido ao Senhor as mais justas homenagens, não tivesse Anacleto irrompido no pátio em desabalada carreira, como se fugisse de um açougueiro. O formidável hirco estava transtornado e por pouco não me deu uma chifrada quando me lancei ao seu pescoço para, como de hábito, manifestar afeto e arrependimento - no caso, pela injustiça que cometera com ele no episódio da dispensa. Mas Anacleto, recusando todas as carícias e todas as desculpas, foi e voltou até a porteira por três vezes. E teria ido uma quarta se eu não resolvesse finalmente verificar o que se passava. Acompanhado de monsenhor Flávio, abandonei a granja e caminhei cerca de cem passos atrás de Anacleto, que a todo momento se virava para se certificar de que o seguíamos. De repente, quase tivemos uma síncope: um grupo de irmãs cavalgava em nossa direção pela mesma trilha que ora percorríamos!

- O que significa isso? - perguntou, atônito, o prelado.

- Como é que eu vou saber, monsenhor? Certamente não se trata da nossa comida!?

Foi aí que Anacleto, pouco afeito a discussões estéreis, partiu em disparada para a granja. E se nós o acompanhamos de imediato isso se deveu ao enérgico puxão que dei em monsenhor, que parecia disposto a permanecer onde estávamos até se certificar de que a única atitude sensata era voltar para a granja e nela nos refugiarmos, tendo o cuidado de trancar todas as portas e janelas, assim como de ocultar qualquer vestígio que denunciasse nossa presença alí. E foi o que fizemos. O término da operação-disfarce, realizada em ritmo alucinante, coincidiu com a chegada das irmãs.

Assim que atingiram a porteira elas se imobilizaram, como uma tropa que avaliasse as condições da fortaleza que pretendiam assaltar. Eram em número de vinte aquelas que à distância devassavam nosso refúgio. Vigiando-as através das frestas de uma das janelas, torcia desesperadamente para que se convencessem de que não havia alí nada que pudesse lhes interessar. Infelizmente, a que parecia ser a líder ordenou que abrissem a porteira e todas invadiram o pátio. Em seguida, começaram a rodear a casa, sempre em silêncio, como um comando de elite. Nesse momento, monsenhor, que também vigiava pela janela situada no lado oposto da sala, abandonou-a e veio sorrateiramente até onde eu estava e me sussurrou algo que me deixou abismado:

- Elas estão atrás de você!?

- O que? - perguntei, elevando sem querer a voz.

- Fale baixo, seu cretino! - sibilou monsenhor. - Quer que nos descubram?

- Eu não entendi, monsenhor. Será que dá para repetir?

- Eu disse que elas estão atrás de você.

- Mas como? Só irmã Geovana e umas poucas de sua inteira confiança sabem que eu estou aqui!?

- Existe mais alguém que sabe.

- O senhor!?

- Eu...e a velha Ecúria!

Antes que eu tivesse tempo de considerar aquela revelação, a líder, dando um grito estridente, ordenou que arrombassem a porta. Monsenhor levou as mãos à cabeça, como se estivesse com enxaqueca e desmaiou no sofá. Anacleto, dando mostras de inusitada coragem, colocou-se diante da porta e para ela apontou seu pontudo chifre, parecendo disposto a repelir o assalto. Quando a mim, tranquei-me no banheiro e tive uma bruta diarréia. Como se vê, nossas defesas ficaram restritas à estóica figura de Anacleto, que mesmo não tendo nada a perder com a invasão da casa, se manteve firme em seu posto, enquanto monsenhor dormia e eu me limitava a responder aos golpes assestados contra a nossa porta ou com sonoros peidos ou com a emissão de esguichos de matéria putrefata. De repente, uma voz que não era da líder se fez ouvir:

- Irmã Filomena, estamos perdendo tempo. É evidente que ele não está aqui. Ninguém conseguiria viver nessa pocilga. Além disso, convém não esquecer que esta propriedade pertence, de uma certa maneira, a irmã Geovana. Acho que já fizemos muito em vir até aqui. Pôr a porta abaixo pode nos trazer complicações desnecessárias.

Jamais cheguei a saber o nome desta santa criatura ou conhecer-lhe os traços, mas em compensação a ela fiquei grato pelo resto de meus dias. Influenciada por suas palavras, a comandante Filomena ordenou rispidamente que parassem de golpear a porta e em seguida levantou o cerco. Meus esfíncteres, que o pavor afrouxara, tornaram-se novamente ríjos e abandonei o vaso com a mesma presteza que um condenado abanbdonaria o patíbulo se seu crime, no último segundo, fosse perdoado.

Uma vez na sala, atirei-me ao pescoço de Anacleto e lhe dei, exatamente, 39 beijos no focinho, ao mesmo tempo em que lhe jurava amor eterno. Mas o bode, demonstrando exemplar coerência, manteve-se impassível, os olhos semi-cerrados, mastigando um pequeno tufo de sua asquerosa barba. Como já o conhecia e aos seus mecanismos de defesa, não esperei que ele retribuísse minhas carícias ou demonstrasse ter ficado feliz com elas, e fui acordar monsenhor Flávio, que me pareceu ter encolhido com o susto. Já conhecendo a dificuldade do prelado de libertar-se dos braços de Morfeu e não desejando perder tempo, pois tínhamos muito o que conversar, tapei-lhe a boca e as narinas, como se pretendesse assassiná-lo. Em poucos segundos monsenhor começou a requebrar como uma passista e quando permiti que de novo respirasse, ele se pôs de pé num salto.

- Estamos salvos, monsenhor! Filomena se retirou com suas asseclas!

- Quem se retirou? E de onde?

- As freiras! Desistiram de arrombar a porta e foram embora! Não está lembrado?

Monsenhor levou quase um minuto para recolocar as idéias em ordem. O medo, além de lhe ter paralisado o físico, obstruíra também sua memória. Durante esse minuto, que minha ansiedade converteu em horas, ajudei-o como pude:

- Estávamos ali, na janela, quando foi ordenado o assalto.

- E depois?

- Depois o senhor saiu cambaleando pela sala e desmaiou no sofá, deixando a mim e a Anacleto a incumbência de defender a casa.

- Eu desmaiei no sofá?

- É incrível, mas é verdade.

- E você, o que fez? - perguntou, após breve reflexão.

- Eu me mantive ali, diante da porta, pronto a sacrificar a própria vida se alguma daquelas loucas resolvesse arrastá-lo daqui como um condenado.

Monsenhor fez uma cara de quem não estava acreditando nem um pouco em minha versão dos fatos. Mas como não se lembrava de nada resolveu não polemizar. Em todo caso, não se furtou à seguinte observação:

- Admirável atitude, a sua. Jamais a esquecerei. São raras as pessoas que se dispõem a arriscar a própria vida em defesa de uma outra que não está ameaçada...

Simulando não ter percebido o duplo sentido de suas palavras, emendei:

- Já que o senhor tocou neste ponto, monsenhor...me perdôe se mudo de assunto...gostaria que me explicasse melhor essa história da velha Ecúria. O senhor se lembra de tê-la mencionado, não?

- Sim, agora me lembro.

- Mas ela não sabe que estamos aqui. E mesmo que soubesse, de que forma poderia ter se comunicado com o convento? E para quê?

- Calma, vamos por partes. Em primeiro lugar, ela deve saber que estamos aqui. No dia em que raptamos sua réplica é possível que tenha nos seguido. Como essa granja é a única das redondezas, ela deve ter deduzido que nela nos refugiamos.

- Até aí, tudo bem. Mas por que avisar as freiras?

- Ela e a antiga superiora são muito amigas. Com certeza quis prestar-lhe um favor.

- Mas isso implica que ela esteja a par da situação no convento!?

- E você tem alguma dúvida quanto a isso?

Fiquei apalermado, sem saber o que responder. Jamais me ocorrera suspeitar de uma tal aliança. Monsenhor, no entanto, esclareceu-me em poucas palavras que ela sempre existira; que Ecúria, durante toda a sua vida, funcionara como uma espécie de espiã da entrevada criatura, passando-lhe informações sobre tudo que acontecia na cidade.

- O senhor pode provar o que está dizendo?

- Não. Mas creio que isso não muda nada. O que importa é que a casa foi cercada. E se foi cercada é porque houve uma denúncia. E se houve uma denúncia ela só pode ter partido da velha Ecúria.

O raciocínio parecia inquestionável. Contudo, para mim ainda restava uma dúvida.

- E como foi que a velha Ecúria fez chegar até aquela medonha a informação de que estávamos ou poderíamos estar aqui?

- Como sempre fez: sem sair de casa. Você acha que alguma vez ela foi até o convento?

A situação ganhava um novo perfil, de razoável complexidade. O fato da bruxa e da Quasímoda se comunicarem telepaticamente não me impressionou tanto quanto a trama propriamente dita. Jamais assistira a um filme ou uma peça em que forças terroríficas se conjuminassem com fins políticos. E era isso que estava acontecendo. Se conseguisse demonstrar que irmã Geovana me alojara na granja, Semibreve ganharia a eleição. Carente de méritos, ocuparia novamente o cargo às custas de um novo e ainda mais retumbante escândalo.

- Semibreve deve estar desesperada...- murmurei para mim mesmo.

- Quem?

- A antiga superiora. É assim que a chamo, por razões que por ora não vale a pena detalhar. Provavelmente ela está perdendo a eleição e tentou a última cartada. A vida é realmente extraordinária, não acha, monsenhor?

- Acho. Mas não sei o que você quer dizer com isso.

- Refiro-me a esta porta: quem haveria de supor que sua resistência poderia definir um pleito?

- É verdade...- assentiu monsenhor, sorrindo. - Ninguém...

E se aproximou da mesma, embevecido, dando a impressão de que proferiria algumas palavras em sua homenagem, como o personagem de Tchecov que exaltava a própria estante. Mas monsenhor se limitou a acariciá-la e em seguida a avaliar os danos que ela sofrera durante o assalto.

- As dobradiças ficaram um pouco danificadas, mas creio que ainda consigam suportar um outro assédio.

- Nós a consertaremos, monsenhor. Assim que tivermos nos alimentado.

Ainda tentei refazer a frase, mas o olhar alucinado de monsenhor embotou minha criatividade. Eu tocara sem querer no ponto nevrálgico e justamente quando deveria mencionar tudo, menos comida. Afinal, o dia declinava e nossas chances de que irmã Geovana nos enviasse provisaões eram praticamente nulas. É claro que poderíamos suportar essa situação de total abstinência por mais um dia ou dois, mas o problema é que nossas defesas haviam se enfraquecido, pois acreditáramos que comeríamos de qualquer maneira nessa segunda-feira. Impunha-se, portanto, um novo e sobre-humano esforço, já que agora não havia mais nenhum prazo, um limite em função do qual pudéssemos armar algum esquema psicológico para combater o pânico.

Procurando escapar do semblante esgazeado de monsenhor, que começava a me incomodar seriamente, assumi um ar descontraído e comecei a reabrir a casa, a fim de pelo menos arejar um pouco o ambiente, já que não poderia fazer o mesmo com nossas cabeças. Enquanto executava essa tarefa, que procurei render ao máximo, fui me conscientizando de que seria forçado a desempenhar o papel de líder, pois o estado do caríssimo prelado era bem pior do que o meu. Isso sem dúvida me assustava, visto que por temperamento sempre me fora muito mais fácil discutir a idéia de alguém do que levar adiante uma própria. No entantro, nossa situação era crítica: ou eu a conduzia com habilidade e firmeza ou então a qualquer momento monsenhor se desestruturaria, me desestruturando junto. Como eu não queria me entregar antes de atingir o limite de minhas forças, passei da teoria à prática e bradei, num tom de voz em tudo semelhante ao de alguém acostumado a dar ordens, e fundamentalmente, em vê-las obedecidas:

- Vamos, monsenhor! - e dando-lhe as costas, parti resoluto.

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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Teatro/CRÍTICA

"Hair"

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Oportuna remontagem de um clássico


Lionel Fischer


"Em plena Guerra do Vietnã, o mundo experimentava as dores e as delícias da época: o amor livre, o rock psicodélico, a filosofia oriental, a descoberta de drogas como o LSD e o estilo de vida dos hippies. Por outro lado, assistia ao primeiro conflito internacional televisionado e se indignava com os horrores da segregação racial e sexual. Neste verdadeiro caldeirão de acontecimentos, 'Hair' estreava em um pequeno teatro off-Broadway, em 1967. Não precisou de muito tempo para se tornar um fenômeno, migrar para o circuito principal e se propagar em dezenas de montagens ao redor do planeta".

Extraído do release que me foi enviado, este fragmento contextualiza o momento histórico que produziu um marco no gênero musical, já exibido aqui no início dos anos 70. Tendo como foco os integrantes de uma "tribo de hippies" de Nova York, a peça nos mostra não apenas um estilo de vida, mas também um grave conflito, a partir do momento em que um dos integrantes do grupo, Claude (Hugo Bonemer) é convocado para a Guerra do Vietnã, sendo tal convocação contestada principalmente por seu amigo Berger (Igor Rickli), líder da tribo. Completando o quarteto de protagonistas, temos a grávida Jeanie (Letícia Colin) e a idealista Sheila (Carol Puntel).

Contando com libreto e letras de Gerome Ragni e James Rado e música de Galt MacDermot, "Hair" volta aos palcos cariocas com versão de Claudio Botelho, direção de Charles Möeller e elenco formado (além dos já citados) por Marcelo Octavio (Woof), Reynaldo Machado (Hud), Tatih Köhler (Crissy), Karin Hils (Dionne), Danilo Timm (Margareth Mead/Tribo), Fernando Rocha (Pai de Claude/Tribo), Conrado Helt (Hubert/Tribo) e Bruna Guerin (Mãe de Claude/Tribo). No complemento do elenco, Aline Wirley, César Mello, Cássia Raquel, Ditto Leite, Emerson Espindola, Esdras de Lucia, Felipe Magga, Jana Amorim, Janaína Lince, Julia Gorman, Kotoe Karasawa, Luana Zenun, Lu Bollina, Marcelo Pies, Mariana Gallindo, Pedro Caetano, Renan Mattos e Sergio Dalcin.

Em face do que já foi dito, é evidente que o impacto causado por "Hair" na época de seu lançamento é muito maior que o de hoje, posto que a peça retratava e questionava um momento específico por todos vivido. No entanto, há paralelos possíveis que legitimam a montagem: as guerras estão por toda a parte, as questões sexuais ganharam nova dimensão, a intolerância no lidar com divergências parece acirrar-se cada vez mais e assim por diante - e não nos esqueçamos do problema relativo à discriminalização das drogas, essencial para que a sociedade deixe de considerar criminosos aqueles que as consomem.

Isto posto, cabe ressaltar que, embora simples enquanto escrita, "Hair" mantém sua potência criativa e renovadora sobretudo através das belíssimas canções de Galt MacDermot, que em muito valorizam as letras de Gerome Ragni e James Rado. E no presente caso, cumpre destacar a versão feita por Claudio Botelho, que, num certo sentido, praticamente deu uma nova roupagem ao texto. A mesma eficiência se faz presente na direção de Charles Möeller, que imprimiu à cena um vigor e uma alegria verdadeiramente contagiantes, assim como conseguiu valorizar ao máximo as passagens em que o drama predomina.

Com relação ao numeroso elenco, e em que pese o fato de que alguns intérpretes têm maiores oportunidades, o que me parece mais justo ressaltar é a força do conjunto, a apaixonada capacidade de entrega de todos os integrantes desta "tribo" e sua competência nas partes cantadas e dançadas, que contagiam totalmente a platéia durante todo o espetáculo.

Na equipe técnica, Marcelo Castro assina impecável direção musical, o mesmo aplicando-se à coreografia de Alonso Barros, à cenografia de Rogério Falcão, aos figurinos de Marcelo Pies e à iluminação de Paulo César Medeiros, que contribuem de forma decisiva para o sucesso desta mais do que oportuna remontagem de uma obra tão marcante quanto "Hair".

HAIR - Libreto e Letras de Gerome Ragni e James Rado. Música de Galt MacDermot. Versão brasileira de Claudio Botelho. Direção de Charles Möeller. Com grande elenco. Teatro Oi Casa Grande. Quinta e sexta, 21h; sábado, 18 e 21h30; domingo, 19h.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Teatro/CRÍTICA

"A história do homem que ouve Mozart e da moça do lado que escuta o homem"

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Inquietação e desconforto


Lionel Fischer


Assim que a platéia entra no espaço cênico da sede da Cia. dos Atores, depara-se com um quadro desolador: bolsões de água se acumulam sobre um chão de tábuas em péssimo estado de conservação; uma antiga cama de molas, desprovida de colchão; bonecas com e sem cabeça espalhadas, algumas delas sobre uma pequena mesa, junto à qual se encontra uma mulher cuja função parece ser a de consertá-las; um homem, de aspecto um tanto andrajoso, vaga perdido murmurando frases desconexas, agarrado a uma vitrola; penduradas por fios, garrafas de plástico, contendo um líquido que sugere ser água.

Como não tinha a menor idéia do que se seguiria, minha imaginação me remeteu à atmosfera de alguns romances russos, em especial "Crime e castigo", de Dostoievski, em parte pela ambientação (mesmo levando-se em conta as diferenças entre o quarto de Raskolnikov e o do personagem em questão), em parte pela figura do homem, em visível processo de deteriorização mental. E também acho que fiz essa associação pelo fato, já mencionado, das muitas bonecas desprovidas de cabeça, sendo que no romance o protagonista mata a machadadas sua senhoria, sendo o primeiro golpe desferido na fronte da mesma.

Enfim...foram essas as minhas primeiras impressões sobre "A história do homem que ouve Mozart e da moça do lado que escuta o homem", de autoria de Francis Ivanovich - teria o autor ascendência russa?. Dirigida por Luiz Antônio Rocha, a montagem chega à cena com elenco formado por Adriana Zattar e Roberto Birindelli.

"Embalados por uma tempestade que cresce sobre a cidade, um professor de literatura, perseguido pelo passado, chega a uma hospedaria e não se dá conta que no quarto vizinho habita a 'Moça do Lado'. Vizinhos invisíveis. Ela, mergulhada num universo próprio, conserta bonecas para concretizar um desejo de reparação e aliviar uma dor sentenciada, concentrando todos os esforços para conter as inúmeras goteiras e infiltrações que assolam sua vida. Ambos solitários, à beira do abismo, esquecidos de si, não percebem que o imprevisível faz-se necessário e quando tudo parece infindável, eis que surge uma fresta de luz".

Extraída do release que me foi enviado, esta sinopse certamente traduz as intenções do autor. No entanto, me vejo na obrigação de confessar que não identifiquei muitas delas, ao menos de forma tão detalhada. O que o texto me permitiu foi entrar em contato não como uma narrativa que deveria apreender literalmente, mas muito mais com, digamos, a desoladora imagem de dois seres que, ao que suponho, da vida só conheceram seu lado mais amargo. O professor de literatura vem perdendo alunos, encontra-se praticamente na miséria e sua paixão por Mozart o leva a se relacionar com um maestro imaginário. Quanto à mulher, esta se relaciona com as bonecas não como uma profissional que exercesse o ofício de consertá-las, mas como se as mesmas fossem metáforas de uma mente também em nítido processo de esfacelamento.

Com o acima exposto, pretendo apenas enfatizar que tudo se resume a conjecturas, e imagino que, assim como eu, os espectadores farão as suas, não necessariamente sequer parecidas com as minhas. Seja como for, o que importa ressaltar é que o presente texto, mesmo que de difícil apreensão, me colocou em um estado de permanente inquietação e desconforto. E para mim foi o suficiente para deixar o teatro com a certeza de ter assistido a algo de inquestionável seriedade.

Quanto ao espetáculo, o diretor Luiz Antônio Rocha impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com o contexto proposto pelo autor. Suas marcações são imprevisíveis e sempre muito expressivas, cabendo também ressaltar sua coragem de tentar extrair significados através de longos silêncios e passagens totalmente desprovidas de luz.

No que diz respeito ao elenco, tanto Adriana Zattar como Roberto Birindelli exibem performances irrfetocáveis, afora notável capacidade de entrega a personagens que vivem no limiar da loucura mas que, ainda assim, lutam desesperadamente para escapar a um destino que parece irremediavelmente traçado.

Na equipe técnica, Luiz Antônio Rocha assina cenário e figurinos totalmente condizentes com a dilacerante realidade proposta pelo autor, cabendo ainda destacar a sombria e claustrofóbica iluminação de Antonio Mendel e o trabalho de preparação corporal realizado por Roberto Birindelli.

A HISTÓRIA DO HOMEM ... - Texto de Francis Ivanovich. Direção de Luiz Antônio Rocha. Com Adriana Zattar e Roberto Birindelli. Uma realização da Espaço Cênico e Cia. Panapaná de Teatro. Sede da Cia. dos Atores. Sábado e domingo, 20h. Segunda, 20h30.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Teatro/CRÍTICA

"Mente Mentira"

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Virulentos embates familiares



Lionel Fischer


"A peça conta, com humor ácido e força trágica, a história de duas famílias afetadas pela drástica separação de seus filhos Jake (Malvino Salvador) e Beth (Fernanda Machado). Beth, jovem e bonita atriz iniciante, desperta no marido uma crescente suspeita de infidelidade e os dois, depois de sucessivas e violentas brigas, chegam a uma situação limite quando Jake, cego de ciúmes, bate na esposa deixando-a desacordada e chegando a acreditar que está morta. Marcados pela traumática separação, cada um volta à 'proteção da casa paterna', o que só contribui para afastá-los cada vez mais da realidade. Beth volta a viver sob os cuidados de um pai egocêntrico e autoritário, Baylor (Zécarlos Machado), uma mãe submissa, Meg (Roza Grobman) e um irmão temperamental, Mike (Marcos Martins). Jake, por sua vez, regressa aos braços de sua mãe Lorraine (Malu valle), que vive presa às lembranças do passado; Sally (Keli Freitas), uma irmã infantilizada e excluída; e Frankie (Augusto Zacchi), o irmão sensato mas que, no fundo, parece guardar um desejo velado pela cunhada Beth".

O trecho acima, extraído do release que me foi enviado pela assessoria de imprensa do espetáculo, apresenta um resumo do enredo de "Mente mentira", por muitos considerada a melhor peça do consagrado dramaturgo norte-americano Sam Shepard. Em cartaz na Casa de Cultura Laura Alvim, o texto chega à cena com tradução de Maurício Arruda de Mendonça e direção de Paulo de Moraes.

Como não li toda a obra de Shepard, não posso assegurar ser esta sua melhor peça. No entanto, não resta dúvida de que se trata de um texto de grande qualidade, que aborda temas inerentes a todos nós, tais como ciúme, inveja, autoritarismo, desejos proibidos ou não, mágoas e frustrações etc., expressos através de personagens bem construídos e de uma trama cuja virulência, humor corrosivo e alternância de foco - os conflitos das duas famílias - prendem a atenção do espectador durante todo o espetáculo.

No que concerne à montagem, Paulo de Moraes impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com os conteúdos propostos pelo autor. Ainda assim, acredito que tanto a virulência do texto, como seu corrosivo humor, não precisariam necessariamente ser expressos num registro quase sempre tão exacerbado, o que inviabiliza maiores contrastes. Não estou sugerindo, evidentemente, que o encenador deveria "suavizar" os múltiplos embates, apenas que os mesmos não perderiam sua contundência se trabalhados numa escala expressiva mais ampla.

Com relação ao elenco, os excelentes profissionais que estão em cena conseguem valorizar, com vigor e sensibilidade, os difíceis personagens que interpretam. Mas ainda assim torna-se impossível não destacar as irrepreensíveis participações de Zécarlos Machado, Roza Grobman, Malu Valle e Augusto Zacchi, que, em minha opinião, extraem o máximo dos papéis que encarnam.

Na equipe técnica, a mesma eficiência se faz presente nas contribuições de todos os envolvidos no projeto - Maneco Quinderé (iluminação), Rita Murtinho (figurinos), Ricco Viana (música original), Paulo de Moraes e Carla Berri (cenografia), Maurício Arruda de Mendonça (tradução e dramaturgia), Patrícia Selonk (preparação corporal) e Simone Mazzer (preparação vocal).

MENTE MENTIRA - Texto de Sam Shepard. Direção de Paulo de Moraes. Com Malvino Salvador, Fernanda Machado, Zécarlos Machado, Malu Valle, Roza Gorbman, Keli Freitas, Marcos Martins e Augusto Sacchi. Casa de Cultura Laura Alvim. Sexta, 21h30; sábado, 21h; domingo, 19h.
Teatro/CRÍTICA

"Senhora dos afogados"

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Tensão e perplexidade no cais


Lionel Fischer


Tratados já foram escritos sobre a obra de Nelson Rodrigues, atacando-a ou defendendo-a. Mas talvez não sejam muitos os leitores/espectadores que tenham tido a oportunidade de saber o que pensava nosso maior dramaturgo a respeito de seus admiradores ou detratores - em especial, dos últimos. Então, julguei oportuno reproduzir aqui o fragmento de um artigo ("Teatro Desagradável") escrito por Nelson Rodrigues, em 1949, publicado na primeira edição da revista Dionysos. Vamos a ele:

"Peçam tudo, menos que eu renuncie às atrocidades habituais dos meus dramas. Considero legítimo unir elementos atrozes, fétidos, hediondos ou o que seja, numa composição estética. Qualquer um pode, traqüilamente, extrair poesia de coisas aparentemente contra-indicadas. Isso é tão óbvio, que me envergonho de repeti-lo. E continuarei trabalhando com monstros. Digo monstros, no sentido de que superam ou violam a moral prática e cotidiana. Quando escrevo para teatro, as coisas atrozes e não atrozes não me assustam. Escolho meus personagens com a maior calma e jamais os condeno. Quando se trata de operar dramaticamente, não vejo em que o bom seja melhor que o mau. Passo a sentir os tarados como seres maravilhosamente teatrais. E no mesmo plano de validade dramática, os loucos varridos, os bêbados, os criminosos de todos os matizes, os epiléticos, os santos, os futuros suicidas. A loucura daria imagens plásticas e inesquecíveis, visões sombrias e deslumbrantes para uma transposição teatral! Certa vez, o sr. Carlos Drummond de Andrade falou em 'obras-primas fulgurantes...e podres'. Infelizmente, minhas peças não são obras-primas. Se o fossem, teriam direito de ser podres".

Isto posto, passemos à avaliação de uma das peças de Nelson mais contestadas, "Senhora dos afogados", ora em cartaz no Restaurante Albamar. Produzida pela Cia. Teatral do Movimento, a obra chega à cena com direção de Ana Kfouri e elenco formado por Anna Abbott (Moema), Cris Larin (D. Eduarda), Fabiano Fernandes (Paulo), Renato Carrera (Misael), Renato Livera (Noivo), Suzana Saldanha (Avó e Dona), André Frazzi (Sabiá), André Marinho (Vendedor de Pentes), Aline Bernardi, Flavia dos Prazeres, Julia Bernat, Paula Alexander e Vanessa Soares (Mulheres do Cais), João Pedro Orban, Letícia Braga e Maurício Lima (Vizinhos), Camila Maia, Christiane Ayune, Gleice Uchoa, Lian Tai, Luciana Veloso, Mayara Travassos, Nina Adlin, Paula Loffler, Rebeca Dourado, Sitha Coulibaly, Thaísa Violante e Thalita Vaz (Coro Mulheres do Cais), que dividem a cena com os músicos Raquel Coutinho, Samantha Rennó e Joana Bergman - Raquel Karro faz participação especial em vídeo, na pele da Prostituta Morta.

Como dito no parágrafo incial, muitos tratados já foram escritos sobre a obra de Nelson Rodrigues, e por profissionais de incontestável gabarito, como Helio Pellegrino, Sábato Magaldi, Décio de Almeida Prado, Yan Michalski etc. Portanto, ao menos em termos teóricos, julgo pouco provável que tenha algo acrescentar às conjecturas e especulações feitas pelos referidos mestres e por outros tantos que deixei de citar. Assim, tomei a decisão de, ao escrever esta crítica, tentar esquecer tudo que já li sobre esta peça, numa tentativa de com ela me relacionar como se a estivesse conhecendo agora.

Abstendo-me de resumir seu enredo, posto que o mesmo me parece por demais conhecido, deparei-me com um contexto sombrio e trágico, estruturado em torno de uma família que os "idiotas da objetividade", como dizia Nelson, considerarão implausível. Não compartilho, evidentemente, desta opinião. Mas ainda que compartilhasse, teria que possuir um QI de ameba para não levar em conta que a família em questão poderia não estar inserida num contexto "real". Ou seja: mais do que personagens, estes se materializam na cena como símbolos de toda uma série de neuroses, obsessões, repulsas, impulsos reprimidos e raramente materializados, enfim, de múltiplas e diversificadas manifestações de nosso inconsciente. E como todos pertencemos à espécie humana, tudo que é relativo ao humano nos é inerente. Para o bem ou para o mal. Negar esta premissa básica equivale a condenar o mar pela inconstância de suas marés. E se porventura os personagens às vezes se assemelham a espectros que realizam orgias sobre a campa das próprias sepulturas, cabe a cada espectador não rejeitá-los como se fossem aberrações de uma mente doentia, mas tentar perceber seu próprio espectro e, conseqüentemente, suas próprias aberrações - ou será que alguém cultiva a ilusão de deter o monopólio de todas as virtudes?

Quanto ao espetáculo, este é sem dúvida o melhor já realizado por Ana Kfouri. Impondo à cena uma dinâmica austera e hierática, mas ao mesmo tempo passional e arrebatada, a encenadora consegue transmitir todos os conteúdos propostos pelo autor, obrigando o espectador a permanecer em um estado de permanente tensão e perplexidade. Valendo-se de marcas imprevistas e criativas, explorando com total propriedade os dois espaços em que se desenrola a ação, Ana Kfouri exibe ainda o mérito suplementar de haver extraído ótimas atuações de todo o elenco, tanto no que diz respeito ao texto articulado quanto ao universo gestual. E por ter obtido um resultado final em que a unidade impera, julgo inoportuno destacar qualquer desempenho individual, mas a todos parabenizo com o mesmo entusiasmo.

Na equipe técnica, são igualmente irretocáveis a cenografia de André Sanches, os figurinos de Luiza Carneiro da Cunha, a iluminação de Renato Machado, a direção musical, composição e arranjos de Raquel Coutinho, a preparação vocal de Sonia Dumont e o vídeo de Eduardo Chamon, cabendo ainda citar a criação audiovisual de Renato Liverta e Yuri Fortuny e a programação visual de Buenavila.

SENHORA DOS AFOGADOS - Texto de Nelson Rodrigues. Com a Cia. Teatral do Movimento. Restaurante Albamar. Domingo a terça, 19h30.