sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Teatro/CRÍTICA

"Hortence, a velha"

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Bela e divertida reflexão sobre o universo feminino


Lionel Fischer


"A peça conta a história de uma mulher que acumulou ao longo de sua vida um amontoado de lembranças dentro de um cabaré. Dentro das paredes de um cabaré está o mundo de Hortance. Além da companhia da irmã Aliquianni e de um gambá, vive ali uma mulher de todos os tempos, de grandes amores e fortes laços de amizade, que já recebeu em sua casa todo tipo de gente. E histórias não faltam! Shakespeare, Nero, Getúlio Vargas, Stalin, Sartre, Simone de Beauvoir e Che Guevara são apenas alguns dos notáveis nomes que frequentaram aquele lugar".

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o contexto em que se dá "Hortence, a velha", em cartaz no Teatro dos Quatro. Gabriel Chalita responde pelo texto (com colaboração dramatúrgica de Fred Mayrink, Grace Gianoukas e Michelle Ferreira), Fred Mayrink assina a direção do espetáculo e Grace Gianoukas interpreta a única personagem.

Sendo óbvio que ninguém poderia ter estabelecido qualquer tipo de convivência com personalidades que viveram em épocas tão diversas, tudo leva a crer que Hortence não passa de uma louca e suas evocações resumem-se a delírios. Talvez tenha sido esta a intenção do autor. No entanto, desconfio que ele pretendeu algo diverso e, em minha opinião, muito mais interessante.

Se Hortence fosse simplesmente uma louca, as reflexões que faz sobre sua relação com as personalidades evocadas não poderiam ser tão bem articuladas e muito menos tão coerentes. Ou seja: em alguns momentos ela teria que se confundir e assim deixar clara a doença de que padece. No entanto, ocorre rigorosamente o inverso, pois todas as observações que faz, por mais engraçadas que sejam, revelam vasta cultura e evidente teor crítico. 

Além disso, o que me parece estar em causa não é o universo masculino, e sim o feminino. Gabriel Chalita, com extremo humor e sensibilidade, produziu uma obra que, contrariamente ao que aparenta em uma abordagem apressada e superficial, na realidade é um poderoso libelo contra o papel às mulheres destinado desde sempre. E é até possível que o dito bordel sequer tenha existido e tudo se resuma às fantasias de uma mulher marcada por profunda solidão, o que conferiria à personagem uma dimensão poética e artística de altíssimo nível - posso estar completamente enganado, naturalmente, e se assim for desde já me desculpo.

Com relação ao espetáculo, Fred Mayrink impõe à cena uma dinâmica impregnada de humor, delicadeza e fantasia, afora exibir o mérito suplementar de haver extraído magnífica atuação de Grace Gianoukas. Atriz completa na acepção máxima da palavra, Grace seduz a plateia ao longo de todo o espetáculo, tanto nas passagens mais engraçadas quanto naquelas em que a dramaticidade predomina. Sob todos os aspectos, uma performance que sem dúvida estará entre as mais brilhantes da atual temporada.

Na equipe técnica, Juliana Carneiro (cenografia), Alessandra Barrios (figurino) e Paulo Brakarz (iluminação) realizam trabalhos belíssimos, cuja unidade valoriza de forma notável o texto de Chalita e a interpretação de Gianoukos. Cabe também destacar a irrepreensível trilha sonora de Iuri Sant'Anna. 

HORTANCE, A VELHA - Texto de Gabriel Chalita. Direção de Fred Mayrink. Com Grace Gianoukos. Teatro dos Quatro. Quinta a sábado, 21h. Domingo, 20h. 

2 comentários:

  1. Eu fui à estreia. Amei!
    Conferi a crítica e compartilho das mesmas opiniões.

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  2. Cristiana amiga,

    que bom que concordamos.
    sempre que quiser fazer algum comentário, ficarei muito feliz.
    Beijos,
    Eu

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