terça-feira, 18 de setembro de 2018

Teatro/CRÍTICA

"Revisitando Tebas"

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Surpreendente analogia entre mitologia e realidade



Lionel Fischer



"O monólogo narra a história de um militar tebano que, depois de ser transferido para a reserva, passa a dedicar seu tempo ao estudo das artes visuais, se isolando em seu ateliê. No entanto, é justamente nesse ateliê que, anos mais tarde, ele recebe uma comissão formada pelo novo governo de Tebas, com o intuito de revisitar as circunstâncias que envolveram a morte da rainha Jocasta e o exílio do rei Édipo, mais de duas décadas antes. A peça busca refletir sobre os limites do Estado e o poder das mídias".

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o contexto em que se dá "Revisitando Tebas", em cartaz no Teatro Municipal Maria Clara Machado. Fávish assina o texto, compartilhando a direção do espetáculo com Xando Graça, cabendo a este último a atuação.

A primeira ideia interessante do presente evento diz respeito a uma suposta contradição exposta no release. Se a peça é um monólogo, quantos personagens constituem a mencionada comissão? Na realidade, nenhum. Ou por outra: depende do número de espectadores, pois são estes que o texto converte naqueles a quem o protagonista presta seu depoimento. 

Outra questão que, a princípio, poderia gerar um certo estranhamento, diz respeito ao fato de que o protagonista está vestido com roupas atuais, assim como a ambientação é contemporânea. Mas logo fica claro que a proposta essencial do texto é a de estabelecer uma analogia entre os mecanismos que possibilitam a ascensão ao poder expressos na mitologia grega e os que norteiam a conduta de regimes autoritários que, em nome da segurança e da ordem pública, tentam impor seu arbítrio às democracias contemporâneas.  

No presente caso, estamos diante de um militar da reserva que teve destacada atuação na repressão ocorrida no Brasil durante a  ditadura militar, ainda que nenhum nome daquele período seja mencionado e sim os da mitologia. E este homem, ainda que refute possíveis excessos a ele atribuídos e ao regime a que serviu, em nenhum momento nega que sua principal função era a de extrair informações de supostos ou reais terroristas. Se essas informações eram obtidas rapidamente, o caso estava encerrado. Do contrário, todas as formas de tortura eram empregadas. Mas seria o personagem necessariamente um monstro ou alguém que acreditava piamente que, em dadas circunstâncias, todos os meios, ainda que pautados por extrema violência, poderiam justificar meritórios fins? 

Essa questão é trabalhada de forma extremamente pertinente pelo autor, na medida em que não condena ou absolve o personagem, deixando essa tarefa ao público. Se pretendesse apenas condená-lo, bastaria ter criado um personagem completamente alienado e cuja patologia o impediria de refletir sobre o contexto em que estava inserido, afora destitui-lo do mínimo resquício de humanidade. Mas não é o que ocorre: o protagonista sabe exatamente qual foi o seu papel naquela engrenagem, se autodefine como um patriota e revela seu incondicional amor por sua filha. Assim, mais do que condená-lo ou absolvê-lo apressadamente, resta à plateia refletir. Quanto ao veredicto, cada espectador terá o seu.

Com relação à direção, Fávish e Xando Graça impõem à cena uma dinâmica em total sintonia com o contexto e os temas abordados, cabendo destacar a expressividade das marcações (ainda que simples) e sobretudo a dramaticidade que advém de eventuais silêncios, que enfatizam o turbilhão de emoções que assolam o protagonista. Este é interpretado com potência e sensibilidade por Xando Graça, que consegue materializar todos os conteúdos emocionais em jogo. 

No tocante à equipe técnica, considero de excelente nível as contribuições de todos os profissionais envolvidos nesta oportuna empreitada teatral - Adriano Ferreira (direção de arte), Ravi Tubenchlak (pintura da tela final), Rubens Tubenchlak (trilha original), Rogério Wiltgen (iluminação), Antonia Ratto (designer gráfico), Fávish (arte visual, com a colaboração de Antonia Ratto),  e Luan Lopes (edição e efeito sonoro do filme de abertura). Este último, que conta com supervisão geral de Fávish e Xando Graça, nos mostra jornais da época detalhando a ascensão ao poder do general Creonte e as desgraças que se abateram sobre Édipo e Jocasta. 

REVISITANDO TEBAS - Texto de Fávish. Direção de Fávish e Xando Graça. Com Xando Graça. Teatro Municipal Maria Clara Machado. Sexta ás 21hs, sábado às 19hs e 21hs, domingo às 19hs e 21hs.





3 comentários:

  1. Parabens a toda a equipe!estou orgulhosa como mãe e espectadora!!!👏👏👏

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  3. Espetáculo Maraavilhoso!!!Texto direção atuação,artes visuais , tela final, vídeos ,jornais de época ,sons de efeitos,trilha sonora,exímia riqueza nos detalhes, impecáveis na construção e na condução,espetáculo para ser apreciado e muito ,premiado !!!Parabéns !!!! Sucesso a todos da equipe!!Vida longa!!

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