quarta-feira, 13 de julho de 2011

CLUBE DA CENA UNPLUGGED ESTREIA DIA 15 DE JULHO, NA GÁVEA

A cada sexta-feira, o Teatro Maria Clara Machado abre suas cortinas para um novo espetáculo, inspirado nas músicas de grandes compositores da música popular brasileira. 

O Clube da Cena, coletivo de atores, autores e diretores se reúne novamente para criar um novo espetáculo a cada semana, desta vez, a partir das letras de alguns dos principais compositores da música brasileira, é o Clube da Cena Unplugged. 

A cada sete dias será produzida uma nova peça, homenageando toda noite um grande nome da música popular brasileira. O Clube da Cena Unplugged começa dia 15 de julho, às 21h no Teatro Municipal Maria Clara Machado, onde fica em cartaz até 02 de setembro, sempre às sextas-feiras.

Compositores Homenageados:

Dia 15 de julho – Roberto Carlos
Dia 22 de julho – Caetano Veloso
Dia 29 de julho – Raul Seixas
Dia 05 de agosto – Rita Lee
Dia 12 de agosto – Cazuza
Dia 19 de agosto – Noel Rosa
Dia 26 de agosto – Chico Buarque
Dia 02 de setembro – Tim Maia

O projeto reunirá oito autores + dez diretores + 26 atores, um músico e convidados especiais para escrever, dirigir e encenar uma peça inteiramente nova a cada semana, inspiradas em músicas.

Tudo funcionará através de sorteio. Seis músicas emblemáticas de um grande compositor serão selecionadas e distribuídas, a cada semana, por meio de sorteio, a seis autores.

Cada dramaturgo terá apenas uma semana para criar uma cena a partir da música recebida. Depois disso, um novo sorteio definirá dois atores e um diretor para encenar os seis textos escritos, também em apenas uma semana.  Passados sete dias, as equipes se reúnem para um ensaio técnico de som e de luz e o espetáculo começa.  

O público vota nas 2 melhores cenas da noite e elas são postadas no youtube e no blog do projeto clubedacena.blogspot.com na mesma semana.

O Clube da Cena foi idealizado pela autora e atriz Cristina Fagundes e envolve profissionais de diversos grupos e trabalhos ligados à comédia, como o Teatro do Nada, Surto, Poutpourrir, Zorra Total, Inanimados, Tablado, entre outros. 


FICHA TÉCNICA CLUBE DA CENA

Direção Geral do Projeto
Cristina Fagundes

Dramaturgia
Ivan Fernandes
Cristina Fagundes
Regiana Antonini
Carla Faour
Leandro Muniz
Renata Mizrahi
Diego Molina
Cesar Amorim

Diretores
Wendell Bendelack
Márcio Libar
Paulo Mathias Junior
Fernando Melvim
Luis Carlos Nem
Breno Sanches
Susanna Kruger
Luiz Otávio Talu
Alexandre Bordalo
Lincoln Vargas
Miguel Thiré
Cico Caseira


Elenco
Cristina Fagundes
Pia Manfroni
Priscila Assum
Thaís Lopes
Mariana Santos
Mariana Costa Pinto
Maíra Kestenberg
Bianca Guedes
Fernanda Baronne
Cecília Hoeltz
Flávia Espírito Santo
Rita Fischer
Renata Tobelem
Mariana Consoli
Luis Lobianco
Alex Nader
Cacau Berredo
Marcelo Dias
Cláudio Amado
Zé Guilherme Guimarães
João Rodrigo Ostrower
Alexandre Barros
Jorge Neves
Renato Albuquerque
Marino Rocha
José Auro Travassos

Músico
Aldo Medeiros

Produção
Cris Pimentel

Assessoria de Imprensa
Marx Comunicação!

SERVIÇO: CLUBE DA CENA
Local: Teatro Municipal Maria Clara Machado – Planetário
Endereço: Av Padre Leonel Franca 240 – Gávea, Rio de Janeiro
Tel: (21) 2274-7722
Temporada: de 15 de julho a 02 de setembro, toda sexta-feira Horário: 21h
Ingressos :  R$ 30,00 (inteira), R$ 15,00 (idosos e estudantes)
Classificação etária: 14 anos
Capacidade: 140 lugares
Duração do espetáculo: 1h10m

Esquecimento imperdoável
(ou será perdoável?)

Lionel Fischer


Na relação que fiz dos destaques do primeiro semestre, optei por selecionar cinco profissionais por categoria, fazendo questão de ressaltar a excelência de muitos outros trabalhos. Ocorre que, por imperdoável distração, omiti o nome de Bárbara Paz, cuja atuação em "Hell" considerei admirável. 

Isto posto, resolvi inserí-la na categoria Atriz, que passa assim a contar com seis destaques. E ao mesmo tempo faço absoluta questão de me desculpar com os queridos parceiros deste blog - e com a própria Bárbara, caso ela tenha lido a antiga relação - por esta omissão que, espero, possa ser perdoada.    

terça-feira, 12 de julho de 2011

João Caetano
(1808-1863)


A Primeira Companhia de Teatro Brasileira

1. Na noite de 2 de dezembro de 1833 estréia a primeira companhia de teatro inteiramente independente, criada por João Caetano para acabar com a dependência de atores estrangeiros para o nosso teatro. Esta companhia existirá até a morte do ator, aos 55 anos, devido a problemas cardíacos. A peça escolhida é "O príncipe amante da liberdade ou A independência da Escócia".

2. A fundação desta primeira companhia, contudo, teve apenas um sentido mais simbólico do que real - o nosso teatro na verdade não estava preparado para dispensar a colaboração de Portugal. Até 1836, todo o repertório de João Caetano vem de Portugal.


João Caetano e o Melodrama 

3. Melodrama - peças de amor, ciúme e violência. Em geral em versos, com filhos perdidos e recuperados, ameaças de morte, vinganças, traições, arrependimentos. Teatralmente, deveriam valer como pretexto para o talento melodramático do ator principal.

4. Um ator de vinte e poucos anos, num país tão jovem quanto ele, voltava-se para o passado por falta de apoio e material no presente. Na Europa já não se interpretava mais assim. Mas João Caetano, duplamente isolado, quer pela distância geográfica, quer pela distância cultural, marcava passo, refazendo os caminhos do passado.

5. As diferenças entre o drama romântico e o melodrama nunca foram muito nítidas. O Melodrama liberta-se das unidades clássicas, com a utilização dos espaços e tempos mais amplos. Está baseado no "coup de théâtre" - efeito surpresa, reviravolta sensacional dos personagens. As diferenças são mais de conteúdo do que de forma teatral. O melodrama era sentimental, moralizante, otimista. O Drama era fatal, tenebroso, revoltado contra a sociedade, tentado pelo mal. Não podemos esquecer também a qualidade de seus autores, tais como Alexandre Dumas e Victor Hugo.

6. O segredo da popularidade do melodrama estava diretamente relacionado à ingenuidade do público. O mal, no melodrama, não decorre de causas sociais, não possui raízes psicológicas complexas. Tem sempre forma concreta e personifica-se num personagem propositadamente mau: o tirano ou o vilão. Em geral, monta-se uma rede de intrigas em torno do tirano ou do vilão. A dificuldade para as vítimas consiste em descobrir a verdade, sepultada sob várias camadas de mentiras. Os maus vencem todas as batalhas, exceto a última: a morte do vilão é o exorcismo através do qual o espectador reafirma sua confiança. Esta visão maniqueísta é profundamente popular: o mal é sempre um personagem deliberado, produto de uma vontade determinada. Eliminando esse personagem teremos livrado o mundo de suas imperfeições.

7. Para João Caetano a literatura melodramática foi o esteio que o escorou nos anos da maturidade. A partir de 1845, à medida que crescem seus encargos comerciais e as suas responsabilidades como empresário, todos os seus grandes êxitos são de natureza popular. A bilheteria falava, e João Caetano, vivendo de sua profissão, não podia fechar os ouvidos.


"O poeta e a Inquisição" - a primeira peça brasileira (1838)

8. "Antônio José ou O poeta e a Inquisição" - mais do que criação poética espontânea, é o produto de um propósito estético bem definido: de dar início ao teatro brasileiro um programa literário nacionalista de inspiração romântica. O público aplaudiu o espetáculo com entusiasmo - pela escolha do tema nacional, ou pela novidade da declamação e da reforma da arte dramática - substituindo a monótona cantilena com que os atores recitavam seus papéis, pelo novo método natural e expressivo, até então desconhecido entre nós.

9. Rubircas de Antônio José - o tiritar nervoso do homem que sofre / as mudanças de voz de uma alma aflita / essas desentoações, ora agudas, ora graves e cavernosas, produzidas pela fraqueza física / esses êxtases, pronunciados apressadamente, com o medo de que se não esgotem, e sejam entrecortados subitamente / estas ânsias, esse agonizar.

10. Araújo Porto Alegre, um crítico da época, escreve:

"Esta mímica particular à Gonçalves de Magalhães e por ele emprestada aos gestos de Antônio José, é ainda a mesma que se vê no senhor João Caetano, em todos os momentos difíceis e em todas as situações em que as paixões concêntricas se debatem com as excêntricas".


Grandes Sucessos

11. "Othelo" foi uma de suas interpretações de maior prestígio artístico. As primeiras representações causaram espanto "pela exageração dos impulsos apaixonados, pelos gritos e rugidos selvagens e desentoados" - a inspiração estava no próprio texto, aos "leões do deserto" com os quais Othelo se compara.

12. De "Othelo", João Caetano passa para "Zaira", de Voltaire. Os traços essenciais de Orosman são os mesmo de Othelo - alguma coisa de felino, de agrestemente africano, que atraía e repelia as platéias civilizadas da Europa, fazendo passar-lhes pela espinha um arrepio de admiração e horror.

13. Quando João Caetano encenou este repertório já estava atrasado em relação à Europa uma ou duas gerações. O que o atraiu deve ter sido a possibilidade de levar "o furor trágico" às últimas conseqüências, ao delírio, principalmente devido à facilidade do ator em relação ao drama e aos exageros interpretativos. Dono de uma voz poderosíssima, nunca conseguiu êxito na comédia.

14. O autor romântico preferido de João Caetano foi Alexandre Dumas (1803-1870), autor dos livros "Os três mosqueteiros", "O conde de Monte Cristo", "O máscara de ferro" etc. O teatro de Dumas não perde tempo com reflexões morais, divagações filosóficas, desenvolvimentos psicológicos. É puro enredo, ação, puro efeito melodramático.

15. João Caetano se preocupa com a renovação da cena brasileira e sabe que isso só poderá ocorrer a partir do estudo. É um dos poucos atores que se preocuparam com o ensino do teatro.

16. Em 1857 João Caetano apresenta ao governo um plano para uma escola de teatro. Professores de reta pronúncia (dicção), História, declamação de tragédia e comédia, e esgrima. Não recebe nenhuma resposta do governo. Começa a dar aulas no salão do Teatro São Pedro, que são publicadas posteriormente com o título de "Lições dramáticas". Foi o único ator brasileiro que escreveu longamente sobre a arte de representar.
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Extraído (e um pouco reduzido) de História e Dramaturgia do Teatro Brasileiro I / professora Elza de Andrade/ CAL, 2001.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Teatro/CRÍTICA

"Era uma vez...cartas em cena"

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Fábula e realidade


Lionel Fischer


Ficção ou realidade? Aqui ambas se mesclam. Se por um lado temos uma espécie de narradora que conduz o espetáculo e três atrizes que levantam uma série de questões sobre aspectos do universo feminino no mundo atual, ao mesmo tempo essas mesmas três atrizes encarnam personagens de contos de fadas - Branca de Neve, Tália e Anette. Ou seja: a contemporaneidade é discutida através da fabulação.

Baseado no romance epistolar homônimo de autoria de Índigo, o texto chega à cena (Espaço Sesc) com direção de Adriana Maia e elenco formado por Carolina Piccolo (Branca de Neve), Dadá Maia (Gwenhyfar, a narradora), Gabriela Estevão (Tália) e Stella Brajterman (Anette).

Como já foi dito, trata-se de um romance epistolar. Ou seja: as personagens ficcionais trocam sucessivas cartas, através das quais conhecemos não apenas aspectos de suas trajetórias, mas sobretudo conseguimos estabelecer uma conexão entre a fábula e a realidade, sendo extremamente curioso o fato de não haver entre ambas diferenças assim tão significativas...

Uma ótima idéia, sem dúvida, transpor para o palco - sem tratamento dramatúrgico - o ótimo livro de Índigo. Mas acredito que o espetáculo seria ainda mais divertido e pertinente se o texto fosse um pouco reduzido, sobretudo porque grande parte da ação se prende à leitura das cartas.

Quanto à montagem, Adriana Maia impõe à cena uma dinâmica divertida e criativa, conseguindo estabelecer forte comunicação com a platéia. Mas isto também se dá em função do bom desempenho do elenco, já que as quatro atrizes exibem inegáveis recursos expressivos.

Na equipe técnica, a correção se faz presente nos trabalhos de Maria Estephania (cenário e adereços), Flávio Souza (figurinos), Anderson Ratto (iluminação) e Adriana Maia e João Maia (trilha musical.

ERA UMA VEZ...CARTAS EM CENA - Texto de Índigo. Direção de Adriana Maia. Com Carolina Piccolo, Dadá Maia, Gabriela Estevão e Stella Brajterman. Espaço Sesc. Sexta e sábado, 20h. Domingo, 19h.  
Teatro/CRÍTICA

"Dispare"

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Os muitos 'Eus' que nos habitam


Lionel Fischer


"Dispare fala de um Eu partido, esfacelado, um Eu atormentado que tenta morrer e não consegue. Um Eu que se fragmenta, que gera outros Eus, mas, que, no fundo, continua sendo o mesmo eu. Fala, portanto de um Eu ou de um ser que não é mais pensado como uno e absoluto, mas como pluralidade e multiplicidade. Na verdade, pensa um ser que é uno e múltiplo ao mesmo tempo, como afirma Nietzche. E não se trata aqui de uma apologia da loucura e da dissolução (embora a própria loucura seja apenas o 'outro' da razão), mas, sim, da percepção clara de que o ser é uma polifonia, que ele é constituído por múltiplas vozes que vivem em perpétuo embate".

O trecho acima, extraído do programa oferecido ao público, leva a assinatura de Regina Schöpke, cujo livro "Por uma filosofia da diferença: Gilles Delleuze - um pensador nômade" foi o principal ponto de partida (como consta do release) para a criação do texto Dispare", mais recente produção da Cia. Boto-Vermelho. Em cartaz na Casa de Cultura Laura Alvim, a peça tem autoria de Roger Mello, também responsável pela direção, e elenco formado por Daniel Carfa, Leonardo Arantes, Ludmila Wichansky e Marcus Pina.

Como implícito no parágrafo inicial, o presente texto objetiva empreender reflexões sobre a multiplicidade da natureza humana, seu caráter fragmentário e, conseqüentemente, a extrema dificuldade - talvez mesmo impossibilidade - de chegarmos a uma, digamos, convivência pacífica com os muitos Eus que nos habitam.

Sem dúvida, temas relevantes e mais do que pertinentes. No entanto, para convertê-los em teatro o autor Roger Mello estaria obrigado a criar uma dramaturgia menos hermética, ou seja, que sem desprezar as questões mencionadas as inserisse em um contexto em que a ação dramática pudesse ser apreendida com maior clareza. 

Um texto dessa natureza, quando lido, faculta ao leitor a possibilidade de se deter em um trecho ou até mesmo em uma única frase, visando um maior entendimento. Quando levado à cena, esta possibilidade praticamente inexiste, já que as sucessivas ações não permitem que nos detenhamos em algo que, por exemplo, tenha nos gerado qualquer tipo de inquietação, curiosidade ou o que seja.

Ainda assim, há que se reconhecer a sintonia entre o material dramatúrgico e o espetáculo, cuja dinâmica cênica foge por completo ao realismo e coloca o espectador em um estado de permanente perplexidade. Valendo-se de marcas expressivas e criativas, o diretor Roger Mello consegue o que me parece que possa ter pretendido: priorizar uma sensação de estranhamento, talvez semelhante àquela que sentimos quando não conseguimos lidar com o caos nosso de cada dia.

Com relação ao elenco, os quatro intérpretes exibem total capacidade de entrega, além de inegáveis recursos expressivos, tanto vocais como corporais. Cabe também registrar a forte contracena que estabelecem, sempre plena de energia e variadas emoções.

Na equipe técnica, Roger Mello assina uma cenografia que atende a todas as necessidades do espetáculo, a mesma eficiência presente nos sombrios e algo futuristas figurinos de Ney Madeira, Pati Faedo e Dani Vidal, sendo excelente a luz de Ricardo Schöpke e ótima a direção de movimento de Roberta Repetto.

DISPARE - Texto e direção de Roger Mello. Com Daniel Carfa, Leonardo Arantes, Ludmila Wichansky e Marcus Pina. Casa de Cultura Laura Alvim. Quinta a sábado, 21h. Domingo, 19h.  

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Afetos

Lionel Fischer


"Deus, Oh Deus! Aonde estás que não respondes?
Em que mundo, em que estrela Tu te escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito..." (Castro Alves)


O divino poeta, falecido aos 24 anos, procurava por Deus, como fica evidente neste fragmento acima reproduzido. Não sei se O encontrou. Mas imagino que, se vivesse hoje em dia, talvez endereçasse suas dúvidas à questão dos Afetos. 

Posso estar enganado - e aqui cumpre registrar que tenho a singular propriedade de me enganar com desconfortável freqüência, ao menos sobre determinados assuntos -, mas me parece que cada vez mais as pessoas estão tendo enorme dificuldade de lidar com algo que, ao menos teoricamente, não deveria gerar tantas controvérsias. Estou me referindo aos Afetos.

Como não sou psicanalista, sociólogo, antropólogo etc., não me considero capaz de formular teorias a respeito do tema. Mas posso tentar reproduzir, na forma que se segue, o pensamento masculino médio atual, já advertindo que não se trata de um esquete ou um esboço de uma peça. Dois Personagens, amigos de longa data, estão conversando. O personagem EU sou eu mesmo. O outro, ELE, sintetiza a forma de pensar da maioria dos muitos e queridos amigos que possuo, que nada têm de debilóides. 

A cena se passa num bar ou em qualquer lugar afeito a conversas e confissões. E acontece, digamos, no dia seguinte àquele em que, hipoteticamente, conheci um mulher interessante.

ELE - E aí?

EU - Trocamos telefones.

ELE - Os aparelhos?

EU - Você está cada vez mais engraçado...

ELE - Desculpa. É que eu não resisto a uma piada.

EU - Maravilhosa, por sinal...

ELE - Continua.

EU - Já esqueci o que estava falando...

ELE - Deixa de bancar a criança ofendida. Você deu pra ela o número do seu celular e ela deu pra você o número do celular dela.

EU - Estou espantado com a tua perspicácia...

ELE - E aí? Qual foi o passo seguinte?

EU - Me deu vontade de ligar pra ela cinco minutos depois de nos despedirmos.

ELE - Mas você não fez isso...

EU - Não, não fiz.

ELE - Ainda bem.

EU - Por quê?

ELE - Porque seria ridículo.

EU - Ridículo? Por que, se foi esse o meu desejo?

ELE - Tem que dar um tempo.

EU - Quanto tempo?

ELE - No mínimo, três dias.

EU - Por que três dias e não dois ou quatro?

ELE - Três dias é um tempo legal. Se ela também se interessou por você, vai sentir tua falta.

EU - Ou vai achar que eu não vou ligar nunca.

ELE - É uma hipótese.

EU - É mais do que uma hipótese: é praticamente um risco idiota que eu estaria correndo, sem a menor necessidade.

ELE - Se você ligar antes de três dias, ela vai te considerar invasivo.

EU - Palavra linda, essa...invasivo...

ELE - Ela vai ter certeza de que você é do tipo que "gruda".

EU - Mas eu não sou, nem nunca fui assim!

ELE - Mas ela vai achar.

EU - Problema dela.

ELE - Problema teu. Vai por mim.

EU - Tudo bem: eu vou por você. Espero os tais três dias, me corroendo de saudades dela. Daí eu ligo e...

ELE - Fala qualquer coisa, menos que teve saudades dela, que gostaria muito de revê-la etc.

EU - Mas foi isso que eu senti!

ELE - Tudo bem, mas não precisa declarar.

EU - E falo o quê? Do tempo, da Bolsa de Valores, que o mico leão dourado está em vias de extinção...

ELE - Não precisa ser tão evasivo, né?

EU - Linda essa palavra: evasivo...

ELE - Você pode, por exemplo, perguntar o que ela vai fazer na próxima sexta-feira.

EU - E se estivermos na sexta? Pergunto o que ela vai fazer na seguinte?

ELE - Não, aí você pode perguntar se ela tem algum programa pro dia seguinte, sábado.

EU - E se ela já tiver?

ELE - Você se mantém impassível e deixa a entender que, sendo o Rio de Janeiro praticamente uma aldeia, mais cedo ou mais tarde vocês se esbarrarão por aí...meio que por acaso, pecebe?

EU - Não, não percebo. Eu não quero ficar esperando que o acaso me contemple com suas bênçãos. Quero que ela saiba que adorei nosso primeiro encontro e que, se ela também sentiu o mesmo, seria ótimo que nos reencontrássemos. Há algum crime em ser claro?

ELE - Há. Mulher tem horror à clareza. Elas sempre priorizam o mistério. Em se tratando de sentimento, se você for logo muito objetivo com uma mulher ela vai achar que você é um homem fácil, que está disponível e...

EU - Mas eu estou disponível!

ELE - Mas ela não pode ter essa certeza! Se tiver, some!

EU - Então que suma! Estaria, por sinal, me fazendo um grande favor, já que não seria quem eu pensei que era!

ELE - Você só esteve com ela uma vez. Não pode ter pensado nada de tão especial. Não deu tempo.

EU - Escuta aqui, amigo queridíssimo: eu posso perfeitamente ter um encontro de 15 minutos com uma mulher e ter absoluta certeza de que gostaria de escrever uma história com ela! 

ELE - Uma história de 15 minutos...

EU - Talvez, mas que pode ser mais intensa do que outra que dure 15 anos!?

ELE - Você é realmente uma cara do século dezenove...

EU - E você é realmente um cara do século vinte e um!

ELE - Você tá zangado comigo?

EU - Não, muito pelo contrário. Nossa conversa está sendo  ótima.

ELE - Fico aliviado.

EU - E está sendo ótima porque resolvi ligar agora mesmo pra ela!

ELE - E se cair na secretária?

EU - Deixo um recado.

ELE - Que tipo de recado?

EU - Que não posso mais viver cinco minutos sem ela!!! Que tive a certeza de que ela não é deste planeta, que provavelmente nasceu em Vênus, a primeira estrela!

ELE (Após gargalhar de forma quase obescena) - Você nunca vai ter essa mulher...

EU - E talvez acrescente que tive a impressão de que seu coração - o dela, não o teu - é como um jardim de fadas, onde até o vento caminha de mansinho!

ELE - Aí ela vai achar que você é gay...

EU (Após expressiva pausa) - Vamos pedir a conta?

ELE - Mas ainda é cedo!?

EU - Não, é tardíssmo!

ELE - Você está com sono? Acorda cedo amanhã?

EU - Não...não estou com sono, nem acordo cedo amanhã. É que estou louco pra chegar em casa e escrever um poema de amor.

ELE - E vai mandar pra ela?

EU - Certamente.

ELE - Mensagem ou e-mail?

EU - Carta! Sou um homem do século dezenove...

ELE - Você sabe o endereço dela?

EU - Não. Mas descubro.

ELE - Ela vai contar pras amigas. Você vai virar motivo de piada...

EU - Que ótimo. É sempre bom quando conseguimos fazer com que as pessoas riam...

ELE - Há risos e risos...

EU - De fato. E há homens e homens...

ELE - Você não existe, cara...

EU - Graças a Deus!

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quarta-feira, 6 de julho de 2011

TEMPORADA TEATRAL 2011

Destaques do 1º Semestre

OBS 1: selecionei cinco nomes por categoria, embora muitos outros profissionais tenham apresentado ótimos trabalhos, como pode ser constatado nas críticas publicadas neste blog.

OBS 2: por um desses esquecimentos inexplicáveis, omiti Bárbara Paz na relação dos melhores trabalhos na categoria ATRIZ. Então, seu nome passa a constar agora, sem que nenhum outro seja retirado, obviamente. E aproveito para me desculpar por esta inaceitável falha, já que julguei admirável o trabalho da atriz.

Lionel Fischer


AUTOR:

Eduardo Wotzik - "Estilhaços"

Felipe Rocha - "Ninguém falou que seria fácil"

Doc Comparato - "Lição nº 18 - Romeu & Julieta"

Cristovão Tezza - "O filho eterno"

Pedro Kosovski - "Outside"


DIRETOR 

Eduardo Wotzik - "Estilhaços"

João Fonseca - "R & J de Shakespeare: juventude interrompida"

Moacir Chaves - "Labirinto"

Marco André Nunes - "Outside"

Alex Cassal - "Ninguém falou que seria fácil"


ATOR

Gilberto Gawronski - "Ato de comunhão"

José Mayer - "Um violinista no telhado"

Thierry Trémouroux - "Lição nº 18: Romeu & Julieta"

Charles Fricks - "O filho eterno"

Chico Diaz - "A lua vem da Ásia"


ATRIZ

Françoise Forton - "Chopin & Sand: romance sem palavras"

Betty Faria - "Shirley Valentine"

Bianca Byington - "Um dia como os outros"

Luciana Fróes - "A esposa e a noiva"

Mônica Biel - "Retorno ao deserto"

Bárbara Paz - "Hell"


CENOGRAFIA

José Dias - "Estilhaços"

Fernando Mello da Costa - "Labirinto"

Lia Renha - "A escola do escândalo"

Rogério Falcão - "Um violinista no telhado"

Flávio Graff - "Outside"


FIGURINOS

Inês Salgado - "Labirinto"

Emilia Duncan - "A escola do escândalo"

Ruy Cortez - "A estupidez"

Marcelo Pies - "Um violinista no telhado"

Flávio Graff - "Outside"


ILUMINAÇÃO

Luiz Paulo Nenem - "R & J de Shakespeare: juventude interrompida"

Aurélio de Simoni - "Labirinto"

Tomás Ribas - "Ninguém falou que seria fácil"

Renato Machado - "Outside"

Paulo César Medeiros - "Um violinista no telhado"


TRILHA SONORA/MÚSICA ORIGINAL

Marcelo Alonso Neves - música original de "Bartleby, o escriturário"

Marcos Ribas de Farias - trilha sonora de "A esposa e a noiva"

Tato Taborda - música original de "Retorno ao deserto"

Roberto Bomtempo - trilha sonora de "Besame mucho"

João Bittencourt e André Aquino - trilha sonora de "R & J de Shakespeare: juventude interrompida"


CATEGORIA ESPECIAL

Eder Santos - vídeos de "A lua vem da Ásia"

Paulo Reis - revitalização do Parque Lage como espaço teatral e formação de platéia com o evento "Shakesparque"

Marieta Severo e Andréa Beltrão - criação do Teatro Poeirinha

Angela Leite Lopes - tradução de "Retorno ao deserto"

Márcia Rubin - direção de movimento de "Outside"

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