quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Cenas de sangue num bar da Av. São João

de Ricardo Hofstetter


Personagens:
                                   Waldemar
                                   Amélia

(Ao fundo ouve-se “Ronda”, de Paulo Vanzolini. Waldemar está sentado numa mesa de bar. À sua frente um copo de chope pela metade. Ele tem um olhar desanimado. Bebe pequenos goles, pensativo)

W – Garçom, mais um chope! A vida é uma merda. O casamento é uma merda. Esse bar é uma merda! Garçom, cadê meu chope? Esse garçom é uma merda. Os filósofos perderam tanto tempo tentando descobrir o sentido da vida. Heidegger, Sartre, Hegel, Kant. Um bando de idiotas. É tudo muito simples: a vida é uma merda. Só isso. Eu vou lançar a filosofia do materialismo fecal: o homem  veio da merda, vive na merda e à merda reverterá. Revertere ad bostum tum. Esse é o verdadeiro sentido da vida. E as mulheres? As mulheres principalmente. São todas umas merdas! Sabe de uma coisa? Dá pra ser feliz com uma mulher, dá sim. Desde que você more no Rio e ela no Acre. Aí dá pra ser feliz. Ô garçom, esse chope vem ou não vem? (Entra Amélia, uma fera)
A – Waldemar, seu cachorro! Só podia estar enchendo a cara no bar.
W – Mas Amélia...
A – Cala a boca, seu canalha. (Examinando as mulheres da platéia) Com qual dessas peruas você está arrumando um cacho?
W – Meu amor, eu só estava aqui...
A – Cala a boca, Waldemar! Eu te conheço, você não pode ver um rabo de saia que já se assanha todo.
W – Amélia, eu só vim tomar um chopinho. Tava muito calor lá em casa...
A – E por que não me chamou?
W – Você não estava em casa!? Eu até te esperei, mas como você demorou eu...
A – Como eu demorei você aproveitou para vir galinhar, não é? Ah, meu Deus, o que é que eu fiz para merecer um homem como esse? Por que eu, meu Deus? Por que eu? Olha aqui, Waldemar, eu sei que você está me traindo. Eu tenho certeza. Mas eu ainda vou te dar um flagra. E nesse dia, nesse dia...(Amélia congela na posição, dedo em riste para Waldemar. Toca “Ronda” de novo, exatamente no trecho que diz “e nesse dia então, vai dar na primeira edição...”. Waldemar se levanta da mesa e fala para a platéia)
W – Amélia dos Santos Pereira, 26 anos, minha esposa. Eu tinha 29 anos quando a gente se conheceu. Eu era o garanhão da rua. Comia todas, me chamavam de Wal, o animal. Tendo um par de coxas e alguma coisa no meio das pernas, eu traçava. Eu era uma lenda viva lá no Méier. Durante um ano, namorei cinco mulheres ao mesmo tempo e ainda arranjava tempo pra comer a mulher do açougueiro, que era a maior vadia lá do bairro. Depois dessa me elegeram o rei do Méier. Mas quando eu conheci a Amélia, tudo perdeu a graça. Amélia era um doce. Meiga, delicada, falava baixinho e sorria pra tudo que eu dizia. Desde a primeira noite que saímos, não quis mais nada com outra. Eu tive a certeza absoluta de que era com essa mulher que eu queria passar o resto dos meus dias. Mal sabia eu...Naquela noite, depois de deixar a Amélia em casa, eu deitei na cama e fiquei imaginando o futuro: eu em casa, tranqüilo, lendo o meu jornal, meus filhos brincando no chão da sala, e a Amélia deitada no meu colo. Meus amigos acharam que estava armando alguma, mas quando eu troquei a despedida de solteiro por um jantar com os pais da Amélia, eles viram que o caso era sério. (Para Amélia) Depois que eu te conheci, Amélia, eu nunca mais quis saber de mulher alguma. Tudo que eu queria era viver feliz com você. Uma vida tranqüila, era só isso que eu queria. (Para a platéia) Mas depois de um ano de casamento parece que a Amélia ficou maluca. Deu pra andar atrás de mim o tempo todo, me acusava de estar transando com as suas amigas, dava incertas no meu escritório. Chegou a dizer que eu estava comendo a mãe dela! E eu já tinha largado aquela vida, era um santo, não comia nem coxinha de galinha no boteco da esquina. Mas ela acreditava? Minha vida virou um inferno e aquela Amélia doce e meiga se transformou nessa onça selvagem. (Waldemar senta na mesa e Amélia descongela)
A – Olha aqui, Waldemar...(Ela puxa de dentro da bolsa um rolo de amassar pastel) Você não mente pra mim que eu te conheço. Eu sei muito bem que você estava galinhando. Quem é a vagabunda? (Ela examina a platéia) Ah, deve ser aquela loura ali. Você é chegado numa loura.
W – Amélia, deixa de bobagem...
A – Bobagem? Você vai ver a bobagem. (Amélia avança para a loura com o rolo na mão, ameaçadora)
W – Amélia! (Quando Amélia chega na loura assume um ar amistoso)
A – Amiga, quer um conselho? Sai dessa que o Waldemar é a maior furada. Ele tem essa pinta toda, faz uma onda, mas na hora do vamo ver não é de nada. É uma merda na cama. É o tempo todo papai-mamãe, papai-mamãe. E isso quando rola!
W – Amélia, não incomoda a moça.
A – Você devia ter visto a última vez. Aquilo já não era nem papai-mamãe, era vovô e vovó. Sabe como é vovô e vovó? A dentadura cai, dá cãibra na hora, tem que parar tudo pra fazer massagem. É uma merda. E depois tu ainda vai ter que passar pomadinha nas costas dele, senão o desgraçado não consegue dormir. Vale a pena não, filha. Waldemar é perda de tempo. Melhor ficar com teu amigo aí, que parece que ainda dá pro gasto.
W – Amélia, quer parar de incomodar a moça? (Amélia avança ameaçadora para Waldemar com o rolo na mão)
A – Eu incomodo quanto eu quiser, tá legal? Incomodo, atrapalho tua azaração, e ainda te racho a cabeça no meio, seu cachorro! (Levanta o rolo para bater em Waldemar, que se encolhe todo e congela) Waldemar Olinto Pereira. Eu tinha 21 anos quando conheci o Waldemar. Ele era o cara mais falado lá da rua, o maior galinha do Méier, não livrava a cara de ninguém. Uma amiga me contou que ele chegou a atacar a mãe dela. Não dispensava ninguém, o safado. E eu, na inocência dos 20 anos, achei que o Waldemar era o homem perfeito pra mim. Uma vez eu fui assistir a uma peça, aliás foi a única vez que eu fui ao teatro na minha vida, era uma peça esquisita, de um tal de Nelson Rodrigues. O cara devia ser meio maluco, só escrevia sacanagem. Mas no meio da peça, eu fui fulminada pela maior certeza da minha vida: pra ser feliz no casamento, a mulher precisa sofrer. Era isso: casar era sofrer, era ser traída, era pegar o marido na cama com sua melhor amiga e ainda tomar umas porradas pra aprender. Só assim uma mulher podia ser feliz. E eu queria ser muito feliz no meu casamento. Por isso escolhi o Waldemar pra marido. O rei do Méier não ia me decepcionar. No altar, logo depois do sim, eu já me imaginava passando pela rua, triste, cabisbaixa, e as amigas comentando: “Coitada...lá vai a Amélia, mulher do Waldemar, aquele safado. Como sofre a pobrezinha. Também, com o marido que tem!? Coitadinha...só Deus sabe o que ela passa  não mão daquele homem.” Ah, aquilo sim é que era felicidade, um verdadeiro casamento feliz, pensei, enquanto a chuva de arroz caía na minha cabeça. Mas depois da lua de mel, o canalha do Waldemar se transformou num santo. Nem olhar pra outra mulher o desgraçado olhava. Fiel até os fundilhos. E olha que eu vigiava. Foi um ano de fidelidade total e um casamento mais modorrento do que programa de Tv aos domingos. Mas isso não vai ficar assim não, Waldemar. De hoje não passa. (Waldemar descongela) Olha aqui, Waldemar: eu te aturei esse tempo todo, fui infeliz que nem uma porca de chiqueiro. Mas agora eu cansei. Ou você me trai ou eu te racho a cabeça.
W – Amélia, você ficou louca?
A – Não, não fiquei louca, eu quero ser traída, corneada, sacaneada. Eu quero ser feliz, Waldemar! Eu quero que todo mundo tenha pena de mim, que lembrem a mulher de verdade que eu fui pra aturar um safado como você. Até nome de mulher de verdade eu já tenho. Só falta tu entrar com a atua parte, Waldemar!
W – Amélia, o que aconteceu com você, meu amor?
A – Não me chama de meu amor. Está vendo aquela loura ali?
W – O que é que tem a loura, Amélia?
A – Tu vai lá azarar aquela loura.
W – Você está brincando...
A – Brincando? Eu te racho a cabeça, Waldemar! Tu está vendo ou não está vendo a loura?
W – Estou vendo, Amélia.
A – Pois tu vai até a mesa dela e vai dizer que ela é a nora que tua mãe pediu a Deus. Que ela é o tijolinho que falta na tua construção, sei lá qual é conversa que você usa. Mas tu vai até lá dizer umas bobagens pra ela. E não me volta aqui sem arrancar pelo menos um amasso dela.
W – Amélia, eu não quero saber de mulher nenhuma. Você me basta, minha flor.
A – Não me chama de flor: tu não é jardineiro!? Anda, Wal, o animal! Não era assim que te chamavam lá no Méier? Vamo que eu quero ver o animal em ação.
W – Amélia, eu que não quero saber de mulher nenhuma...
A – Vai me dizer que a loura não faz teu tipo?
W – Meu tipo é você, Amélia! Será que você ainda não entendeu?
A – Eu te conheço, Waldemar...sendo mulher pra você está bom. Não era assim lá no Méier? Waldemar, o rei do Méier, namorava cinco ao mesmo tempo e ainda comia a mulher do açougueiro, aquele santo homem. Ele é que era feliz. Anda, traste, vai logo.
W – Amélia, vai pra casa. Você está nervosa.
A – Nervosa? (Guarda o rolo e saca um revolver) Você ainda não viu nada. Agora é que eu vou começar a ficar nervosa.Se você não for até aquela loura, eu te mato.
W – Vira esse revolver pra lá, Amélia. Alguém pode se machucar com essa brincadeira.
A – Isso não é brincadeira, Waldemar. Eu nunca falei tão sério na minha vida. (Amélia engatilha o revolver e mira)
W – Amélia, eu não estou te reconhecendo. Calma, calma!
A – A loura, Waldemar, a loura!
W – Tudo bem, tudo bem, eu vou. Mas abaixa essa arma.
A – Eu só vou abaixar essa arma quando você sair agarradinho desse bar com a loura.
W – Está bom, eu estou meio fora de forma, mas eu vou lá. Mas fica calma, Amélia. (Waldemar vai até a loura completamente sem jeito. Amélia abaixa a arma)A moça é nova no bairro? Como é seu nome? (Tempo) Não está dando certo, Amélia. A moça fica o tempo todo rindo da minha cara. (Amélia volta a apontar o revolver) Tudo bem, eu azaro!  (Amélia abaixa o revolver. Waldemar para a loura, nervosíssimo) Sabe que quando eu te vi entrar, eu senti uma coisa estranha? Era como se a gente já se conhecesse há muito tempo.  A gente não se conhece de algum lugar? Já sei, são seus olhos. Eles são igualzinhos aos olhos da minha mãe. É isso. Você gosta do Wando? Eu tenho a coleção completa dos discos do Wando. Você não quer ir lá em casa pra gente ouvir? Não tem perigo, a minha mulher vai junto. (Amélia aponta o revolver de novo, Waldemar se desespera) Pelo amor de Deus, vamos ouvir Wando lá em casa, é um caso de vida ou morte. Por favor! (Amélia vem caminhando lentamente na direção de Waldemar, a arma apontada pra ele) Por favor, diz que está a fim de mim, diz que me acha um tesão, diz qualquer coisa, pelo amor de Deus! A gente sai de mão dada do bar, depois você volta e eu saio correndo! Pode deixar, eu não vou encostar um dedo em você! Pelo amor de Deus!
A – Tu é um merda mesmo, Waldemar. Nem uma loura no bar você consegue ganhar.
W – Calma, Amélia, calma!
A – Canalha! (Amélia atira. Waldemar cai fulminado) Os homens são todos iguais...(Amélia vai saindo ao som de “Ronda” na parte que diz: “E nesse dia então, vai dar na primeira edição, cena de sangue num bar da Av. São João”)

FIM



2 comentários:

  1. Oi apresentamos esta peça na minha cidade foi um sucesso. Todos riram.

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  2. Temos esta peça em um dvd. somos da Companhia Independente de Atores C.I.A. meu e-mail : sissaydy@yahoo.com.br

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