quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Espaço da cidade e espaço teatral

                                                                                                         
                                                                                                                         Biange Cabral
                       


                                   Esta reflexão se dirige aos diretores e atores voltados a um                                              fazer teatral em espaços urbanos alternativos, especialmente                                         àqueles que criam seus espetáculos em locais representativos                                          da memória histórica de uma comunidade.


Michel de Certeau descreve a cidade como um lugar a ser apropriado pelo uso cotidiano. As pessoas caminhando pelas ruas criam textos e constroem seus próprios significados, e estes subvertem a lógica e a justificativa dos significados oficiais que lhes são atribuídos (1984:117). A cidade, em vez de um lugar, torna-se um espaço, pela prática do caminhar. O espaço é assim por ele definido como “um lugar praticado”. Ao caminhar por certas ruas e usar seus lugares públicos, o homem cria suas próprias histórias e mitos; seus passos tornam-se a fala da língua da cidade.
Neste sentido, o espaço não é um lugar definido ou fixo, mas um não-lugar, que se torna vivo através da re-apropriação dos lugares praticados. As caminhadas e usos cotidianos dos moradores pelos espaços de sua comunidade são a origem de suas histórias, e estas cumprem um papel fundamental na formação da identidade – pessoal e social. Nós contamos a nós mesmos nossas histórias de forma a nos tornarmos conscientes, e é através delas também que se amplia nosso sentido de diferença cultural e do “outro”.
           
Significados
            O trabalho físico e mental de descobrir e criar conexões, ressonâncias e narrativas a partir da justaposição e reordenação do cruzamento espaço – texto – histórias individuais – histórias comunitárias faz emergir significados abertos a múltiplos níveis de interpretação. A textura do espetáculo contém descontinuidades de tempo, lugar, caracterização e narrativa. Este tipo de estrutura pode ser associado à noção de consangüinidade desenvolvida por Eugenio Barba: “Os vários fragmentos, imagens, idéias, vivem no contexto em que os trouxemos à vida, revelam sua própria autonomia, estabelecem novos relacionamentos, e se conectam com base em uma lógica que não obedece à lógica usada quando os imaginamos e buscamos. É como se laços de sangue ocultos ativassem possibilidades distintas daquelas que pensáramos ser úteis e justificadas” (Barba e Savarese, 1991:59).
Assim como o caminhar de um indivíduo é uma experiência que traça seu percurso, o mapa de um teatro em lugares heterogêneos (de origem tradicional ou produzidos pela imaginação), forma um quadro de conhecimento histórico-geográfico-estético. Reflete assim, os lugares que expõem apropriações e reflexões históricas com experiências reais do caminhar cotidiano de seus atores por estes mesmos lugares.
            Cenas e personagens criados em colaboração expandem os limites da subjetividade. Um sujeito coletivo não está ancorado em uma subjetividade individual pré-existente; ao depender das contribuições de muitos sujeitos ele passa a criar um novo referencial e a influenciar o desenvolvimento de ações posteriores deste coletivo.

Dimensões
            Podemos detectar quatro dimensões de travessia nesta forma de teatro em comunidade:

Travessia Histórica – percorrer cenas que ocorrem em períodos históricos distintos e estão ambientados nos espaços em que aconteceram à época, possibilitaria uma viagem ao passado? Ou a re-interpretação de fatos históricos? Ou a celebração de uma história que passa a representar uma memória coletiva? Potencialmente co-existem as três opções devido à densidade de significação no espaço e lugar.

Travessia Espacial – os espaços físicos surgem e se desenvolvem através dos movimentos coletivos daqueles que os habitam. Mudanças em seu uso se dão lentamente de geração em geração. Ao se optar por um espaço para a realização de uma determinada cena se está indicando uma possível re-significação do mesmo.

Travessia Semântica – todos os elementos incluídos no espaço cênico são significantes; estão lá para compor seu significado. Quanto maiores forem os detalhes da situação escolhida como foco para a cena, o número de objetos de cena que identifiquem estes detalhes e sua coerência com as razões e motivações dos personagens, maiores as possibilidades de leitura e densidade de significação.

Travessia Social - cenas e personagens criados em colaboração indicam a dimensão social da significação. Pode-se dizer que fica explicitada a interação insider-outsider; histórias de vida-ficção; espaço-lugar; história-lugar-espaço.
           
            Para que as várias travessias se integrem é necessário a determinação de explicitar tensões, ambigüidades e contradições. Como lembra Philip Taylor: “Inovar em teatro e educação implica enfrentar riscos, assumir diferenças e entrar no reino do desconhecido”. (1996:95)

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