sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Teatro/CRÍTICA

"Orgulhosa demais, frágil demais"

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Quando as máscaras caem



Lionel Fischer


No dia 19 de maio de 1962, o Madison Square Garden, em Nova York, estava superlotado. E por uma razão muito simples: ali o presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, resolvera comemorar seu 45º aniversário. Muitas celebridades estavam presentes, dentre elas a cantora lírica Maria Callas (casada com o armados grego Aristoteles Onassis) e a atriz Marilyn Monroe (maior símbolo sexual da época e amante do presidente). Callas cantou "Habanera" e Monroe "Parabéns pra você".

A partir deste fato concreto, o autor Fernando Duarte, tomando por inspiração o romance homônimo do escritor italiano Alfonso Signorini, escreveu "Orgulhosa demais, frágil demais", que retrata um suposto encontro entre Callas e Monroe no camarim desta última. Em cartaz no Centro Cultural Correios, a peça chega à cena com direção de Sandra Pêra e elenco formado por Samara Felippo (Monroe) e Rita Elmor (Callas).

Aos 38 anos, Maria Callas já dava sinais de que sua carreira começava a declinar e ainda não se recuperara da morte do filho Omero. Marilyn, ao contrário, ainda se mantinha no topo, mas provavelmente tinha consciência de que ali não permaneceria por muito tempo. E talvez por isso desejava ser levada a sério, almejava desempenhar papéis que não explorassem apenas sua exuberante sensualidade. Mas seus sonhos jamais se materializaram, pois morreria três meses depois, ao que tudo indica tirando a própria vida.

Como todos sabemos, a límpida superfície de um lago não exclui a possibilidade de haver lodo em sua profundeza. E o mesmo se aplica aos nossos ídolos, mas neste quesito priorizamos a idealização e dificilmente conseguimos imaginá-los como pessoas com carências parecidas às nossas. Mas no contexto da peça, na ausência de holofotes, pouco a pouco as máscaras das artistas começam a descolar e então temos acesso às suas verdadeiras faces. E ainda que possuidoras de personalidades diametralmente opostas, ambas padeciam do mesmo e brutal sentimento de solidão. 

Bem escrito, exibindo diálogos fluentes e personagens otimamente estruturados, o texto de Fernando Duarte recebeu sólida versão cênica de Sandra Pêra. Consciente de que um texto desta natureza não comporta inúteis mirabolâncias formais, a encenadora investiu todas as suas fichas no trabalho das intérpretes. E, neste sentido, foi extremamente bem sucedida.

Na pele de Marilyn, Samara Fellipo exibe atuação irrepreensível. E isto se deve não ao fato de estar parecida fisicamente com a atriz que encarna, mas em sua capacidade de materializar toda a sua fragilidade e carência. Não estamos, portanto, diante de uma cópia, mas de sensível recriação. O mesmo se aplica a Rita Elmôr. Possuidora de ótima voz, impecável trabalho corporal e notável inteligência cênica - que pode ser avaliada por suas escolhas -, a atriz também consegue valorizar as principais características da personagem, tanto sua arrogância inicial quanto sua posterior renúncia a tal postura. Sob todos os pontos de vista, as duas atrizes conseguem estabelecer forte contracena e suas performances se inserem entre as mais destacadas da atual temporada.

Com relação à equipe técnica, confiro um destaque especial aos maravilhosos figurinos de Desirée Bastos (também responsável pela correta cenografia), à trilha sonora de Paula Leal e ao visagismo de Luiz Bellini, com Renato Machado assinando uma luz simples e eficiente.

ORGULHOSA DEMAIS, FRÁGIL DEMAIS - Texto de Fernando Duarte. Direção de Sandra Pêra. Com Samara Felippo e Rita Elmor. Centro Cultural Correios. Quinta a domingo, 19h.        











3 comentários:

  1. Ouvir a conversa das duas divas, como se estivéssemos dentro do camarim, traz uma deliciosa sensação de pertencer ao mundo delas, ao conhecer e fazer parte de curiosas intimidades jamais imaginadas.
    Parabéns a elas, e a sensibilidade de Sandra Pêra ao conduzir com delicadeza eequilibrio, personalidades tão distintas.
    Gostei muito e recomendo.
    Um adendo: Há outros meios, sem ser necessariamente o conflito, para entreter uma platéia.

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  2. Lidoka amiga,

    concordo inteiramente com tuas palavras. E agradeço o comentário postado.

    Beijos,

    Eu

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