segunda-feira, 15 de março de 2010

Teatro/CRÍTICA

"A gaiola das loucas"
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Deliciosa crítica à hipocrisia
Lionel Fischer
Sucesso absoluto nos palcos do mundo inteiro, sucesso absoluto quando transposta para o cinema, sucesso absoluto quando convertida em musical, "A gaiola das loucas " constitui um verdadeiro fenômeno, desses que só acontecem muito raramente. E embora imagine que quase todos conheçam seu enredo, pensando nos espectadores/leitores mais jovens reproduzo abaixo a sinopse do texto, ainda que um pouco reduzida, extraída do ótimo release que nos foi enviado:
"Georges (Mihuel Falabella) é proprietário do cabaré A gaiola das loucas, a jóia e o orgulho de St. Tropez. O cabaré, famoso pelos seus shows de transformistas, tem sua vedete: Zazá, o transformista mais famoso de toda a Riviera que, ao tirar a maquiagem, transforma-se em Albin (Diogo Vilela), com quem Georges mantém uma relação estável há mais de 20 anos. Ambos tem um filho, Jean Michel, fruto de uma aventura de Georges nos bastidores do Lido com uma corista, que não quis criar o filho. Então, Georges e Albin assumem a tarefa. Mas logo no início da peça Jean Michel chega em casa com uma notícia avassaladora: vai se casar com Anne. Até aí a coisa não seria tão grave, não fosse Anne filha única de Édouard Dindon, prsidente do PFTM, Partido da Família, Tradição e Moralidade, que prometeu varrer do mapa os homossexuais da Rviera, no caso de ser eleito".
De autoria de Jean Poiret, "A gaiola das locas" está aqui apresentada na forma de um musical, com músicas e letras de Jerry Herman e texto de Harvey Fierstein. Miguel Falabella assina a versão brasileira e a direção do espetáculo e Cininha de Paula a co-direção do mesmo. No elenco, Falabella, Diogo Vilela (Albin e Zazá) Carla Martelli (Anne Dindon), Davi Guilherme (Jean Michel), Gustavo Klein (Francis), Jorge Maya (Jacó), Maurício Moço (Sr. Dindon), Mirna Rubin (Sra. Renauld e Sra. Dindon) e Sylvia Massari (Jacqueline), que dividem o palco com "As loucas da gaiola", os cantores/bailarinos Alberto Goya (Dherma), Allison Klein (Clo Clo), Brenda Nadler (Monique), Bruno Khimura (Lo Singh), Carlos Leça (Nicole e Sr. Renauld), Clara Camargo (Bitelle), Felippe Moraes (Antoniette)), Fernando Rocha (Mercedes), Leonardo Sandoval (Josefine), Marcelo Freire (Swing), Marcelo Vasquez (Hanna), Maysa Mundim (Angelique), Olivia Teixeira (Paulette), Paulo de Mello (Phedra), Renato Bellinni (Chantal) e Thaty Abra (Odette).
Em cartaz no Teatro Oi Casa Grande, o espetáculo conta ainda com Carlos Bauzys (Diretor musical e maestro responsável), Daniel Rocha (Diretor musical assistente e regente) e os músicos Alex Freitas (Palheta 1), Bernardo Ramos (Guitarra), Elias Borges (Palheta 3), Everson Moraes (Trombone), Helena Imasato (Violino), Levi Chaves (Palheta 2), Lucas Vargas (Teclado 3), Maico Veigas Lopes (Trompete), Marcos Rocha (Bateria), Priscila Azevedo (Teclado 2), Raul Oliveira (Baixo), Rodrigo Hyppolito (Teclado 1), Waleska Beltrami (Trompa) e Watson Clis (Cello).
Exibindo um total de 16 números musicais, todos determinantes para a compreensão e desenvolvimento da narrativa, "A gaiola das loucas" poderia ser encarada apenas como uma deliciosa comédia, repleta de quiprocós dignos dos melhores vaudevilles. No entanto, e sem deixar de ser engraçadíssima, a peça tem também aspectos sérios e absolutamente relevantes, dentre eles a denúncia que faz da hipocrisia e da discriminação e, acima de tudo, a valorização que propõe do amor, seja qual for a sua natureza. Assim, o texto permanece atualíssimo, pois ainda que os gays venham conquistando cada vez o espaço que sempre deveriam ter tido, não podemos ser cínicos a ponto de negar que ainda sofrem múltiplas perseguições, mesmo que mais sutis que as de tempos passados.
Contendo ótimos personagens, diálogos hilariantes e uma trama que seduz a platéia desde o início, este brilhante e crítico texto recebeu ótima versão cênica de Miguel Falabella, que através de marcas sempre criativas e divertidas consegue materializar todos os conteúdos propostos pelo autor, valorizando tanto as passagens mais engraçadas quanto aquelas em que uma certa melancolia predomina. E também deve ser creditado ao encenador as ótimas atuações que extrai de todo elenco. A começar pela própria e a de Diogo Vilela.
Ne pele de Georges, Falabella exibe seu habitual carisma, inteligência cênica e estupenda vocação de comediante, mostrando segurança nas partes cantadas. Quanto a Diogo Vilella, o ator está impecável nos dois personagens que interpreta, evitando habilmente a caricatura e investindo na comovente humanidade dos papéis, além de cantar maravilhosamente. Miguel e Diogo, por sinal, formam uma dupla entrosadíssima, cuja contracena deve servir de exemplo a todos os atores - iniciantes ou não - que julgam que contracenar é apenas estabelecer um diálogo, quando na verdade implica em total capacidade de entrega e absoluta cumplicidade. Na pele do mordomo Jacó, Jorge Maya também exibe atuação irretocável, o mesmo aplicando-se ao restante do elenco, todo ele perfeitamente integrado às propostas da direção. E cabe também destacar a irrepeensível e bem-humorada participação dos cantores/bailarinos.
Com elação à equipe técnica, destacamos com o mesmo entusiasmo o trabalho de todos os profissionais envolvidos nesta mais do que oportuna empreitada teatral, cabendo ressaltar as determinantes participações dos músicos, dos diretores musicais e do regente, assim como a coreografia de Chet Walker, os figurinos de Claudio Tovar, a cenografia de Clivia Cohen e a iluminação de Maneco Quinderé.
A GAIOLA DAS LOUCAS - Texto de Harvey Fierstein, baseado na peça de Jean Poiret. Direção de Miguel Falabella. Com Falabella, Diogo Vilela e grande elenco. Teatro Oi Casa Grande. Quinta e sexta, 21h. Sábado às 18 e 21h30. Domingo, 19h.

sábado, 13 de março de 2010

Teatro/CRÍTICA

"Amadeus"

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Obra-prima em versão morna

Lionel Fischer


Sucesso avassalador nos palcos do mundo inteiro (inclusive no Brasil), o texto do inglês Peter Shaffer foi levado às telas pelo diretor Milos Forman obtendo idêntico êxito. Tendo como eixo central da narrativa a rivalidade entre Salieri e Mozart, a peça propõe uma reflexão sobre a mediocridade e a genialidade. Salieri era um bom músico, com grande prestígio e muitas de suas obras estão sendo atualmente reavaliadas. Mas frente a Mozart, não era ninguém. E tinha plena consciência disso. Mas como "entregara a alma a Deus" para que Ele o tonasse um músico de exceção, Salieri não se conformava que alguém - em sua opinião e de muitos outros - tão fútil, infantil, desbocado e beberrão pudesse escrever obras que pareciam ter sidos compostas pelo próprio Criador. E por isso acaba entrando em conflito com Deus e fazendo de tudo para arruinar Mozart - muitos sustentam, inclusive, que Salieri o envenenou.

Eis, em resumo, o enredo de "Amadeus", atual cartaz do Teatro Carlos Gomes. Naum Alves de Sousa assina a direção, estando o elenco formado por Roberto Birindelli (Salieri), Gustavo Rodrigues (Mozart), Silvia Buarque (Constanze, esposa de Mozart), Marcello Picchi (Joseph), Sérgio Fonta (Barão Gottfried), Herbert Richers Jnr. (Conde Frauz), Miro Marques (Conde Johann), Sérgio Maciel (Venticelli 1) e Henrique Pinho (Venticelli 2) e mais um coro composto por Fábio Cardoso, Gabriel Azambuja, Gabriela Werneck, Gutto Daloia, Juenes Paulo, Julyane Bodini, Manoel Madeira, Marilia Misailidis, Monique Franco e Victor Mattos - com relação aos nomes dos principais personagens, coloquei-os abreviados, pois ainda que tenha me esforçado ao máximo não consegui decifrar a caligrafia com que foram impressos no programa; assim, melhor errar para menos do que para mais...

"Amadeus" é uma obra fascinante, cuja movimentada trama em nada prejudica as reflexões que o autor empreende, afora oferecer ao público leigo um perfil bastante ousado do maior gênio da música, ao lado de Bach e Beethoven. No entanto, trata-se de uma peça de difícil realização, posto que depende muito do elenco e, em especial, da performance do ator que interpreta Salieri, protagonista absoluto do texto, que é por ele narrado e ao mesmo tempo vivido. E aqui esbarramos numa delicada questão.

Tomando por base seu vasto e significativo curriculo, em princípio o ator Roberto Birindelli estaria capacitado a encarnar Salieri. No entanto, na maior parte da montagem, e sobretudo no seu início, o ator fala num tom de voz tão baixo que às vezes torna-se inaudível (e cumpre ressaltar que sentei na terceira fila), o que me levou a supor que o Carlos Gomes estaria padecendo de graves deficiências acústicas.

Entretanto, Gustavo Rodrigues, Silvia Buarque, Marcello Picchi e Sérgio Fonta (para citar apenas os intérpretes dos papéis mais importantes), quase sempre articulam o texto sem nos causar qualquer incômodo. Então, me vi forçado a deduzir que talvez Birindelli careça de maior potência vocal, exceção feita aos momentos de maior arrebatamento de seu personagem. Mas sendo ele o protagonista absoluto, como já foi dito, é inegável que tal deficiência compromete muito o espetáculo.

Este, por sinal, e talvez em função do tom baixo do protagonista, transcorre em uma atmosfera carente de maior nuances e quase sempre em um ritmo muito parecido, diria mesmo monocórdio, ainda que por justiça se deva destacar algumas belas e expressivas soluções criadas pelo diretor Naum Alves de Souza. Mas estas, infelizmente, não são capazes de conferir maior emoção à brilhante narrativa de Peter Shaffer. E com relação aos atores já mencionados, e também aos demais, todos exibem atuações seguras e convincentes, mas certamente poderiam render bem mais desde que a montagem conseguisse atingir um nível bem maior de paixão, vigor e variedade rítmica.

Na equipe técnica, destaque absoluto para a surpreendente cenografia de Celina Richers, composta basicamente de um grande trono e um piano, ambos aparentemente feitos do mesmo material básico, sendo que o piano exibe uma estrutura, digamos, "transparente". Beth Filipecki, Renaldo Machado e Thanara Schörnardie respondem por excelentes figurinos, sendo igualmente de ótimo nível a trilha sonora de Edgar Duvivier e a iluminação de Wilson Reis, que contribuem para valorizar muito esta produção impecável, ainda que sujeita a restrições em outros de seus aspectos.

AMADEUS - Texto de Peter Shaffer. Direção de Naum Alves de Souza. Com Roberto Birindelli, Gustavo Rodrigues e outros. Teatro Carlos Gomes. Sexta e sábado, 20h. Domingo, 18h.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Teatro/CRÍTICA



"O ensaio"



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Sob a aparência, a mesma essência




Lionel Fischer




Um mestre no que se convencionou chamar de peça bem feita e uma das personalidades mais brilhantes do teatro francês dos anos 30 e 40, Jean Anouilh (1910-1987) fundiu em suas comédias - na opinião de alguns teóricos - inovações da vanguarda com elementos tradicionais.
Seja como for, o que prevalece é a riqueza formal de suas peças, o jogo intelectual da "comédia de salão".

No presente caso, estamos diante de um texto inédito no Brasil (e que eu também não conhecia) cuja trama gira em torno de um grupo de aristocratas parisienses, capitaneado pelo conde e sua esposa, que recebem como herança um castelo, mas sob as seguintes condições: têm que abrigar ali 12 órfãos e passar pelo menos um mês por ano na faustosa residência. Para espantar o tédio, resolvem encenar a peça de Marivaux (1688-1763) "A dupla inconstância", que trata da paixão de um nobre por uma plebéia às vésperas da Revoção Francesa - algo semelhante acabará ocorrendo com o entediado protagonista do texto de Anouilh...

Eis, em resumo, o enredo de "O ensaio", na verdade uma peça dentro de outra. Após cumprir temporada em São Paulo, a montagem do Grupo Tapa está em cartaz na Caixa Cultural, chegando à cena com direção de Eduardo Tolentino de Araújo e elenco formado por Zécarlos Machado, Walter Breda, Emilia Rey, Adriana Alencar, Ana Cecília Junqueira, Douglas Simon e Luis Baccelli.

Ao escrever "O ensaio", os principais objetivos do autor parecem bastante claros: mostrar que o jogo de aparências, de poder, a hipocrisia, o tédio e a intolerância pouco mudaram ao longo do tempo, numa espécie de denúncia contra o que poderíamos, digamos, batizar de imobilismo da sociedade francesa. As aparências se modificam, certamente, mas sob elas permanece a mesma essência. E por isso o texto de Anouilh, escrito em 1950, permanece atualíssimo.

Bem escrito, contendo ótimos personagens e diálogos brilhantes, "O ensaio" recebeu uma versão precisa e austera de Tolentino, que sabiamente renuncia a marcações mais elaboradas e prioriza o que aqui há de mais essencial: o caráter dos personagens e as relações que estabelecem entre si. E neste sentido contou com a colaboração de um ótimo elenco, com destaque especial para as performances de Zécarlos Machado (Conde/Príncipe), Emilia Rey (Condessa/Lisette) e Walter Breda (Herói/Cavalheiro). Este último, responsável pelas passagens mais engraçadas do texto, exibe numa das últimas cenas, na pele de Herói, momentos de intensa dramaticidade, ao expor sem rodeios sua personalidade trágica e dilacerada.

Na equipe técnica, Lola Tolentino (figurinos), Paulo Mamede (cenografia) e André Canto (iluminação) exibem trabalhos corretos.

O ENSAIO - Texto de Jean Anouilh. Direção de Eduardo Tolentino de Araújo. Com o Grupo Tapa. Caixa Cultural. Quinta a domingo, 19h30.





Apenas uma proposta...

Em face de novo comentário postado por Martha de Albuquerque Valença, por sinal muito interessante, envolvendo algumas questões relativas ao musical "Por uma noite...", gostaria que o endereçasse ao meu e-mail (lionelfischer54@hotmail.com), pois assim poderíamos prosseguir com nosso debate, para mim muito estimulante. Mas não neste espaço, até porque muitos seguidores deste blog talvez não tenham assistido ao espetáculo. Assim, se for de sua conveniência, Martha, me envia por e-mail o que você postou aqui como comentário e eu te respondo em seguida.

Lionel Fischer

quinta-feira, 11 de março de 2010

Respondendo a um comentário


Não sei se seguidora deste blog (o que muito me honraria), o fato é que Martha de Albuquerque Valença postou um comentário contestando algumas observações que fiz sobre o musical "Por uma noite - um sonho nos bastidores da Broadway". Mas antes de contrapor alguns argumentos, gostaria de reiterar que acho maravilhosa essa possibilidade de diálogo e que consigo conviver muito bem com divergências.

Aliás, se não me falha a memória, já pedi a todos os amigos e amigas que me lêem que sempre se sintam completamente à vontade para dar suas opiniões sobre o que escrevo, concordando ou não comigo. E se escolhi responder a Martha dessa forma, isto se deve à minha quase que total ignorância no tocante a computadores - imagino que o "normal" seria responder a ela naquele espaço destinado a "postar um comentário", mas depois me parece que a pessoa tem que selecionar não sei o quê, depois enviar não sei como etc. Então, vamos ao mais simples - ao menos para mim.

Martha amiga:

Você diz que gostou da adaptação, pois leu o livro logo após o espetáculo. Mas eu fiz questão de dizer que não poderia julgar a adapatação, pois desconhecia o original.

Com relação à prolixidade, que em minha opinião existe no espetáculo, é claro que isso é uma questão algo subjetiva, depende de como cada um encara "prolixidade". Para mim, seu sentido é óbvio: prolixidade existe quando são empregadas palavras em excesso para passar um determinado conteúdo, que seria melhor apreendido desde que utilizadas menos palavras.

Você diz que alguns musicais em cartaz têm mais texto do que "Por uma noite..." e duram mais tempo. Mas aí acho que devemos conceituar "tempo". O tempo de duração de uma montagem não determina sua maior ou menor qualidade. Já assisti a montagens que levavam 40 minutos e com 15 eu já tinha vontade de me suicidar. E outras que duravam muitas horas e eu permaneci totalmente envolvido. Ou seja: o tempo que conta é o do interesse.

Sempre respeitando seu ponto de vista, continuo achando o texto fraco, ingênuo e além disso com personagens por demais previsíveis e esquemáticos. No entanto, escrevi que os atores têm atuações corretas na parte textual, o que já considerei muito positivo, dada a fragilidade dos ditos personagens. E fiz questão de salientar que todos se saem muito bem nas partes cantadas e dançadas, ainda que, presumivelmente, não sejam bailarinos profissionais.

Com relação ao gênero musical, como aliás você salienta, este se caracteriza por uma narrativa que, mesmo tendo texto, se desenvolve basicamente através das canções - e naturalmente que das passagens dançadas. Nos musicais, as músicas conduzem a ação, são determinantes para a expressão das idéias e sentimentos do autor. Esta é a diferença fundamental para uma montagem que eventualmente lance mão de uma trilha sonora, em momentos específicos. Um excelente texto pode ter uma excelente trilha sonora, e nem por isso será um musical, ainda que eventualmente algum personagem cante.

No mais, fiz questão de salientar que a platéia se envolve com o espetáculo desde o primeiro momento, assim como elogiei a participação dos atores (como já disse), dos bailarinos e de toda a equipe técnica. Ou seja: minha única ressalva se prendeu ao texto que, repito, achei fraco e prolixo. Mas é claro que você tem todo o direito de achar o contrário.

Enfim...agradeço a você ter postado um comentário e espero que poste outros, sempre que quiser. Para mim foi um prazer conhecer tuas opiniões.

Beijos,

Lionel Fischer

quarta-feira, 10 de março de 2010

GEORG BÜCHNER

Erwin Theodor


Büchner nasceu em Godelau, aldeia próxima a Darmstadt (Hesse), a 17 de outubro de 1813, filho do médico Ernt Karl Büchner e de Caroline Reuss Büchner, primogênito de seis irmãos, quatro dos quais viriam a notabilizar-se nas letras e na ciência. Entre 1825 e 1831 cursou o ginásio Ludwig-Georg de Darmstadt. Ainda nos bancos escolares manifestou algumas idéias políticas que, mais tarde, o levariam ao exílio. Apreciava a solidão, falava pouco e, quando envolvido em discussões, mostrava-se agressivo. "Para dizer a verdade", declarou seu colega Karl Vogt (mais tarde professor na Universidade de Genebra), "este tal de Georg Büchner não nos era simpático...Seu isolamento era considerado altivez e, como estivesse ligado a atividades políticas, tendo mesmo deixado escapar uma que outra opiniões revolucionárias, não raro, à noite, nós estudantes parávamos diante de sua casa ao voltar da cervejaria, dedicando-lhe irônica saudação: Viva Georg Büchner, conservador do equilíbrio europeu, abolidor da escravidão!".

E embora esta recordação de Vogt se referisse aos anos de 1833 e 1834, quando tanto ele como Büchner eram estudantes em Giessen, deixa transparecer a índole do jovem Georg. Após concluído o curso ginasial, e antes de matricular-se na Universidade de Giessen, Büchner passou mais de um ano em Estrasburgo, ali iniciando os estudos de medicina e vindo a tomar conhecimento das doutrinas de Saint-Simon e de Fourrier, que agitavam o ambiente estudantil. Morava como pensionista na casa do pastor Johann Jakob Jaeglé, e, ainda antes de voltar à terra natal, ficou noivo da filha deste, Louise Wilhelmine Jaeglé (1810-1880), a sua Minna, a quem dirigiria algumas das suas mais celebradas cartas.

Teve de retornar no segundo semestre de 1833 para Hesse, a fim de, de acordo com as leis em vigor, cursar a universidade do seu estado de origem. Esta localizava-se em Giessen, cidadezinha pobre e atrasada, que não podia medir-se com a progressista Estrasburgo dos seus dias. Entrou em contato com o povo simples das cercanias, mostrando-se revoltado com a miséria e as privações da imensa maioria. Conheceu o pedagogo Firedrich Ludwig Weidig, e os dois tiveram a idéia de escrever o "Mensageiro Hesse", panfleto de espírito revolucionário, subordinado ao lema "Paz às choças, guerra aos palácios" (nome de uma seção parisiense da "Sociedade dos Direitos do Homem").

Não existia em Hesse nenhuma indústria digna deste nome, e não havia, por isso, um proletariado no sentido atual da palavra. Todos que não pertenciam à casta aristocrática ou à reduzidíssima classe média eram campônios pobres e explorados. Entre os aproximadamente 800 mil habitantes do país, apenas os mil cidadãos mais bem situados tinham o direito de candidatar-se à deputação. Para combater esta situação, fundou em Giesse uma sociedade secreta, a "Sociedade dos Direitos do Homem" a exemplo daquela que conhecera em Estrasburgo, e em 1834 tratou de abrir uma sub-seção desta sociedade em Darmstadt.

Nesse mesmo ano escreveu em colaboração com Weidig, o acima referido "Mensageiro de Hesse", folheto decididamente subversivo, no sentido social, redigido em linguagem violentíssima. Já o início da bem idéia de sua força dialética: "A vida dos nobres é um longo domingo. Moram em belas casas, usam roupas finas, têm rostos gordos e falam idioma próprio. O povo, para eles, é como adubo sobre a terra. O camponês anda atrás do arado, mas o nobre atrás dele e do arado e o impele, juntamente com o boi e o arado; tira-lhe o grão e deixa-lhe o restolho. A vida do camponês é um longo dia de trabalho. Estranhos consomem, diante do seu olhar, a produção de suas terras; seu corpo não apresenta senão calosidades, e seu suor é o sal da mesa do nobre".

Como arma revolucionária, o manifesto produziu pouco efeito. A maioria dos camponeses entregou os folhetos à polícia, a qual passou a vigiar Büchner, denunciado por Konrad Kuhl, um estranho que se infiltrara na organização. Em março de 1835, quando começou a circular uma segunda edição do "Mensageiro", Georg Büchner, que então já havia redigido A morte de Danton, e o remetera ao escritor Karl Gutskow, pedindo-lhe recomendar o drama para publicação ao editor Sauerländer, teve de fugir precipitadamente, para escapar ao cárcere. Dirigiu-se a Estrasburgo, onde, em contato com a noiva e os amigos, iniciou nova existência, embora durante muitos meses fosse perseguido pelo temor de extradição à polícia de Hesse, que havia publicado edital de captura contra ele.

Em Estrasburgo recebeu a confirmação de Gutzkow de que A morte de Danton havia sido aceita para publicação. Mantém-se afastado de quaisquer atividades políticas, para dedicar-se ao estudo da filosofia. Traduziu dois dramas de Victor Hugo (Lucrécia Borgia e Maria Tudor) e procurou uma base para candidatar-se a uma colocação universitária. A respeito desse período da vida de Büchner, as cartas publicadas proporcinam fartas informações. Após alguma hesitação, reiniciou o estudo da medicina, escrevendo sob a orientação dos professores Lauth e Duvernoy a sua tese Sur le système nerveux du barbeau, a respeito da qual, graças ainda ao auxílio dos seus professores, realizou conferências na Sociedade de Ciências Naturais de Estrasburgo, em abril e maio de 1836. Valeram-lhe a nomeação para membro correspondente da Sociedade, assim como a impressão da tese por conta da mesma, ficando solucionado um dos problemas materiais que mais lhe pesava.

Entretanto, prosseguuia em seus trabalhos literários, realizados em horas roubadas ao sono e aos estudos. Obtivera, a respeito do famoso Jacob M. R. Lenz, alguns dados em primeira mão, de que se utilizou em sua única novela, Lenz, descrevendo a evolução do processo de insanidade mental desse autor do Strun und Drang. O verdadeiro campo literário de Büchner era, porém, o teatro, e a ele voltou quando a editora Cotta abriu um concurso para a "melhor comédia alemã". Assim motivado, criou Leonce e Lena. Suas múltiplas ocupações não lhe permitiram, contudo, concluir a obra a tempo, e ela foi devolvida pela editora, sem que o envelope em que a remetera sequer tivesse sido aberto pela comissão de julgamento.

Em Estrasburgo realiza também o esboço de Woyzeck, talvez o mais significativo dos seus dramas, embora não o concluísse de forma definitiva. Baseado em fatos reais, e fundamentado nas suas experiências humanas, é talvez o produto literário mais tocante de sua pena, sendo ao mesmo tempo o derradeiro, se descontarmos o Aretino, perdido por motivos ainda não definitivamente esclarecidos, ou por ventura nunca realizado, existindo apenas nos planos do autor.

A Universidade de Zurique aprovou, em setembro de 1836, sua tese de doutoramento, enviando-lhe o diploma correspondente. Conseguiu ser admitido pela mesma Universidade para um "curso experimental", após o qual teria de obter a docência-livre e organizar suas preleções universitárias, que nunca passariam da primeira aula. Em 18 de outubro, partiu de Estrasburgo para Zurique, e em princípios de novembro realizou ali a sua preleção sobre nervos cranianos. Mereceu o título de docente-livre e o curso, do qual viria a dar apenas a primeira aula, tratou de demonstrações zootécnicas. Cartas da época faziam prever nova contribuição para o teatro, quando a morte interrompeu seu trabalho. Faleceu em 19 de fevereiro de 1937, arrebatado aos 23 anos de idade pelo tifo, que grassava em Zurique.
Teatro/CRÍTICA



"Por uma noite..."





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Simpática empreitada na Gávea






Lionel Fischer





Exibido com sucesso no ano passado em horário alternativo, o musical "Por uma noite - Um sonho nos bastidores da Broadway" está agora em cartaz no horário nobre do Teatro das Artes, com direito a matiné às quintas, às 17h. Adaptação para o teatro do livro homônimo de Luiz Fernando Filgueiras, a peça gira em torno de um grupo de jovens músicos que, atuando na orquestra do musical "Fantasma da ópera", em Nova York, em 2005, decide ir à luta para produzir um musical, em princípio destinado a uma única exibição. No entanto...



Eis, em resumo, o enredo do presente espetáculo, que chega à cena com adaptação de Victoria Dannemann, direção de Ligia Ferreira e elenco formado por Jules Vandystadt (John), Jéssica Dannemann (Jennifer), Leandro Camacho (Leonard), Thati Lopes (Olga), Roberta Spindel (Julie), Rosana Chayn (Elisabeth) e Sérgio Dalcin (Philip), que dividem a cena com os bailarinos Amanda Miranda, Laís Hartmann, Juliana Nascimento, Mônica Loppi, Leandro Marbali, Cauan Vieira, Caio Vieira e Bruno Galtier.

Como não li o original, não tenho condições de avaliar a adaptação. Seja como for, o texto apresentado carece de maior interesse e é por demais prolixo - caso tivesse sido bastante enxugado, a montagem se tornaria bem mais atraente, posto que o prioritário, num musical, são as canções e as coreografias. Seja como for, o presente espetáculo não deixa de exibir muitos méritos. A começar pelas ótimas canções escolhidas, extraídas de musicais consagrados como "O mágico de Oz", "Rent", A chorus line", "Fantasma da ópera", "Mamma mia", "Dreamgirls", "Chicago", "Hairspray", "Jersey boys", "Grease", "Hair" e "A pequena sereia".

Com relação ao espetáculo, a diretora Ligia Ferreira impõe à cena uma dinâmica correta, valendo-se de marcações que atendem às premissas básicas da narrativa. E a mesma correção extrai do trabalho dos atores, cujas oportunidades são realmente muito pequenas em função da fragilidade do material dramatúrgico. Entretanto, nas partes cantadas, todo o elenco se sai muito bem, assim como nos números de dança, ainda que não sejam bailarinos - os que realmente o são exibem boa técnica e contagiante energia. Cabe ainda registrar a alegria e o prazer de estar em cena de todos os jovens profissionais envolvidos nesta simpática empreitada, com a qual o público se envolve desde o primeiro momento.

Na ficha técnica, destacamos a eficiência dos trabalhos de todos os integrantes desta numerosa equipe - Renato Tribuzy (direção musical), José Dias (cenografia), Marcelo Marques (figurinos), Ursula Mandina (coreografias), Rogério Wiltgen (iluminação), Maíra Lautert (preparação vocal) e Jules Vansdystadt (arranjos vocais).

POR UMA NOITE - UM SONHO NOS BASTIDORES DA BROADWAY - Texto de Luiz Fernando Filgueiras. Direção de Ligia Ferreira. Com Jules Vandystadt, Jéssica Dannemann e outros. Teatro das Artes. Quinta às 17h. Sexta e sábado, 21h. Domingo, 20h.