domingo, 11 de janeiro de 2009

A visita
de Lionel Fischer

Personagens
Vicente
Ambrosina
Zémuna
Colorido
Homem
Mulher
Satã

Cenário
cemitério
corredor subterrâneo
quarto subterrâneo de Vicente

(Quando se inicia a ação, estamos num cemitério. Depois de um tempo, a campa de uma sepultura começa a se deslocar, realiza um movimento giratório e se imobiliza. De dentro do túmulo vemos surgir primeiro as mãos, depois a cabeça e finalmente metade de Vicente. Ele tem cerca de 40 anos e veste-se com elegante sobriedade. Olha para os lados, consulta o relógio)

VICENTE - Novamente atrasada...mas que coisa!? Entra ano, sai ano e mamãe não consegue se corrigir. É incrível! (Tempo) Ela faz isso de propósito, só pode ser. Para valorizar um pouco mais sua visita, cercá-la de um certo suspense que ela julga não só charmoso quanto indispensável em qualquer encontro. Mesmo que esse encontro seja entre uma mãe e seu filho. Ainda que se dê entre uma viva e um morto! E o diabo é que isso funciona, sabiam? Por exemplo: se ela demora mais cinco minutos eu tenho certeza de que viro um substantivo. É, me transformo na própria ansiedade! (Acende um cigarro) Viram? Já estou fumando...e olha que eu abandonei esse vício terrível oito anos antes de morrer, às custas de uma força de vontade inimaginável! Mas mamãe, graças à tenacidade com que brinca com as minhas emoções, conseguiu o prodígio de me reconduzir a essa praga depois de morto! É inacreditável...(Dá uma tragada imensa) Eu sei que alguns dos senhores devem estar pensando: “Ora bolas, mas você fuma porque quer, fica ansioso porque quer. No dia em que sua mãe chegar aí e você lhe bater com a campa na cara, ela nunca mais se atrasará!?” Não é isso que os senhores estão pensando? É sim, não precisam ficar constrangidos. Eu, no lugar dos senhores, pensaria o mesmo. Só que se eu um dia fizer isso – como hipótese, apenas – a minha angústia depois será de tal ordem que eu sou capaz de morrer de novo! Isso mesmo, morrer pela segunda vez! (Tragada imensa) Não...essa atitude, que poderia ser a solução lógica com qualquer outra pessoa, com mamãe eu tenho absoluta certeza de que não funcionaria. Por quê? Porque ela poderia simplesmente armar uma cena grotesca, como por exemplo...começar a gritar impropérios e socar minha sepultura. Ou então escrever com spray coisas ridículas a meu respeito aqui em cima...(Mostra a campa) Ou ainda poderia, num acesso de vingança e rejeição, me transferir para um cemiteriozinho desses de terceira. Ou quem sabe me doar para uma faculdade de medicina. Ou mandar me cremar! E aí, como é que eu fico? (Tragada imensa) Não...a solução, com mamãe, tem que ser cuidadosa, política, sempre renegociada. Se o problema dela fosse apenas o de ter pavio curto, tudo bem. Mas é que mamãe simplesmente não tem pavio!?
AMBROSINA (em off) - Vi-iiii-ceeennn-teeee!
VICENTE - Mamãe! (Ele deixa o túmulo num salto)
AMBROSINA (em off) - Onde é que você se meteu, criatura hedionda?
VICENTE - Estou aqui, mamãe. No lugar de sempre.
AMBROSINA (em off) - A pilha da lanterna acabou, desnaturado. Minhas canelas já estão roxas de tanta topada!
VICENTE - Venha devagar, mamãe. Não há pressa. Onde é que a senhora está?
AMBROSINA (em off) - No palácio de Buckingham, pérfido, tomando chá com sua majestade!
VICENTE - O que eu posso fazer para ajudá-la, mamãe?
AMBROSINA (em off) - Você pode deixar de ser comodista e vir guiar sua velha mãe, que faz tudo por você, demônio!
VICENTE - Eu não posso sair daqui, mamãe. É contra o regulamento!
AMBROSINA (em off) - Então pelo menos cante uma canção para que eu possa me guiar nas trevas, cão danado!
VICENTE - Mas eu sou ridículo cantando, mamãe, a senhora sabe!
AMBROSINA (em off) - Você é ridículo de qualquer jeito, monstro! Canta!
VICENTE (Após breve hesitação) - Eu...eu fui no tororó, beber água e não...
AMBROSINA (em off) - Mais alto! (Vicente canta “Eu fui no tororó”. No meio da letra, vemos surgir Ambrosina. Ela se veste de negro e tem os cabelos ajeitados na forma de um gigantesco coque. Usa uma bengala. Traz uma cadeirinha de armar e uma grande saca. Começa a se aproximar de Vicente sem que ele a veja. Quando isso acontece...)
VICENTE - Mamãe!
AMBROSINA - Infame.
VICENTE - Que bom que a senhora veio.
AMBROSINA - Mentiroso.
VICENTE - Já estava ficando preocupado.
AMBROSINA - Cínico.
VICENTE - A minha ânsia em revê-la...
AMBROSINA - Ser medonho.
VICENTE - Cheguei até a...
AMBROSINA - Zumbi patético.
VICENTE - Tudo bem, mamãe. Eu lhe peço desculpas. (Se ajoelha diante dela) De joelhos eu imploro que aceite a condoída súplica de um filho que roga o seu perdão por uma falta imperdoável, que ele desconhece qual tenha sido, mas que sem dúvida ele cometeu!
AMBROSINA - Desconhece qual tenha sido? Mas você já reparou bem na figura postada à sua frente, que atende pela alcunha de sua velha mãe? (Vicente se ergue) Não responda! Não é mais preciso...essa longa pausa fala por si só. (Tempo) Não, você não reparou...porque se você tivesse se detido com um mínimo de interesse, por um fugaz segundo, no meu todo, imediatamente perceberia que minhas canelas sangram de forma aterradora!
VICENTE (Olhando as canelas dela) – Mamãe! Mas o que foi isso? (E volta a se ajoelhar aos pés da mãe, estende as mãos para a ferida como o faria uma abnegada enfermeira da Cruz Vermelha. Mas Ambrosina o imobiliza com a ponta da bengala)
AMBROSINA - E tem mais uma coisa, Vicentinho: se você gritar comigo de novo, como fez há pouco, eu quebro todos os seus dentes.
VICENTE - Não tornará a acontecer.
AMBROSINA - Com essa bengala aqui, que foi do seu avô.
VICENTE - Não se repetirá. Eu prometo.
AMBROSINA - E depois...me suicido na sua frente.
VICENTE - Mamãe!?
AMBROSINA - Tomo cicuta.
VICENTE - Que bobagem.
AMBROSINA - E agonizo nos seus braços...
VICENTE - Pára, mamãe! A senhora quer me deixar doente? Que coisa!? (Pega a cadeirinha) Senta aqui, mamãe, que eu já dou um jeito nesses arranhões.
AMBROSINA - Nessas chagas...
VICENTE - Nessas chagas, claro...(Ela se senta) Vem cá: a senhora tem iodo, mertiolate, alguma coisa assim?
AMBROSINA – Vicente, você imagina que constasse dos meus planos me esfolar dessa maneira?
VICENTE - Claro que não, mamãe. Mas de qualquer maneira é preciso limpar isso aí. Pode infeccionar!?
AMBROSINA - Pouco importa...mesmo porque não se muda o destino. E o meu talvez seja o de perder ambas as pernas por devoção a um filho que só nutre a meu respeito a mais cruel indiferença...(Chora)
VICENTE - Mas o que é que a senhora está dizendo, mamãe? A senhora sempre foi o raio de sol que iluminava o meu dia, o raio de lua que iluminava a minha noite!? O começo, o miolo e o fim de todas as coisas. Toda a minha existência eu dediquei a zelar pela senhora e agradecer a Deus a suprema dádiva de ter sido expelido de seu ventre e não de um outro. Não me torture assim, mamãe, que eu tenho asma! (Vicente se abraça às ensangüentadas canelas de Ambrosina e ambos soluçam por um certo tempo. Depois se olham. Vicente tem o rosto melado de sangue)
AMBROSINA - Que horas são, meu filho?
VICENTE (Consultando o relógio) - Vinte para a meia-noite.
AMBROSINA (Animadíssima) - Meu Deus, como o tempo passa! (Desvencilha-se de Vicente) Vem cá, meu filho, traz a cadeirinha pra perto da campa. (Ela pega a saca e vai para a campa)
VICENTE - E as suas pernas, mamãe?
AMBROSINA - Mais tarde, meu filho. O tempo urge!
VICENTE - Mas a senhora não acha melhor...
AMBROSINA - Não, não acho melhor. E quando sua mãe não acha melhor, é porque não é melhor...(E começa a tirar da saca e a colocar sobre a campa os seguintes apetrechos: escova de dente, pasta, creme de barbear, lâminas, desodorante, sabonete, talco Dr. Scholl, cotonetes etc...) Bem: você reconhece esses objetos, Vicente?
VICENTE - Claro, mamãe. Como não haveria de...
AMBROSINA - E qual a utilidade desses objetos, Vicente?
VICENTE - São objetos de uso pessoal, mamãe.
AMBROSINA - Seja mais preciso em sua resposta.
VICENTE - Eles possibilitam uma perfeita higiene corporal.
AMBROSINA - Que é a base de qualquer convivência...
VICENTE - Que é a base de qualquer convivência.
AMBROSINA - Você tem se limpado regularmente, Vicente?
VICENTE - Mamãe! Assim a senhora me constrange.
AMBROSINA - Não divague: sim ou não?
VICENTE - Sim.
AMBROSINA - Resposta ambígua. Abra a boca.
VICENTE - O quê?
AMBROSINA - Quero dar uma olhadinha nos seus dentes.
VICENTE - Mas mamãe...
AMBROSINA - Não discuta comigo! Abra já essa boca! (Vicente obedece e ela começa a inspeção) Verdes...cheios de limo...que tristeza, meu Deus. Agora sopra!
VICENTE (Ainda de boca aberta) - Ahnn?
AMBROSINA - Bafa! (Vicente bafa, ela recua um pouco, mareada) Hálito de múmia...Levante os braços! (Ele obedece) Cecê podre...(Olha as orelhas) Puro cascão...(Rodeia o filho) Meu Jesus Cristo...meu Espírito Santo...(Vicente, boca aberta, braços erguidos, começa a se inquietar. De repente, Ambrosina irrompe em doloroso pranto e caminha na direção da platéia) Quando a gente não pode fazer tudo pessoalmente, não é mesmo? Mas por que será, minhas amigas, que os homens são sempre assim, instintivamente porcos e desleixados? E todas nós ali, dia após dia, explicando, mostrando, fazendo, para depois...(Ela pára, como se uma súbita lembrança lhe ocorresse. Vira-se então para o filho, imperiosa) Mostre o pinto!
VICENTE (Voltando à postura normal) - O quê?
AMBROSINA - Isso mesmo que você ouviu. Ou você acha que sua velha mãe ia se esquecer do principal?
VICENTE (Recuando, horrorizado) - Não, mamãe!
AMBROSINA - Sim senhor! Pode colocar a sua tripinha pra fora!
VICENTE - Eu não quero.
AMBROSINA - E tem mais: se eu puxar a pelinha e encontrar de novo aqueles anéis de sebo cor de neve ornamentando a proa do teu pinto, mamãe corta fora elezinho e dá pro gato. Entendeu?
VICENTE (Atirando-se aos pés da mãe) - Mamãe, pelo amor de Deus! Acredite em mim! Acredite no seu Vicentinho! Eu lhe juro que o meu pitoco está um brinco!? Nesse último ano eu o lavei, escovei e lustrei no mínimo três vezes ao dia. Confie em mim! Não me submeta a essa humilhação, eu lhe imploro!
AMBROSINA - Que horas são?
VICENTE (Às lágrimas) - Dez para a meia-noite...
AMBROSINA (Animadíssima) - Meu Deus, como o tempo passa! (Corre para a saca) Como não há tempo a perder, meu filho, as partes cultural, alimentícia e de lazer sua mãezinha vai mostrar de roldão! (E fala à medida que tira os objetos da saca) Um Spinoza e um Nietzsche para alimentar seu desespero inato; um tratado de Economia para você continuar desenvolvendo sua capacidade de abstração e fantasia; um joguinho eletrônico - sim senhor, não me faça essa cara, você precisa acompanhar o mundo, não pode se alienar; capas da revista “Caras” para você forrar a gaiola do seu periquito; biscoitos, pão, queijo, salaminho, azeitonas pretas, geléia de mocotó Embasa; uma praianinha para você se embebedar quando sentir angústia; e a sua indefectível coalhada. Que tal, gostou?
VICENTE - Adorei, mamãe! Mas a senhora não precisava se preocupar tanto. Eu tenho aqui o indispensável.
AMBROSINA - Pois sim...você, palerma do jeito que é, não abre a boca para reclamar de nada, acaba sendo tratado a pão e água, como nas galés!
VICENTE - Que exagero, mamãe...
AMBROSINA (Continuando a retirar coisas da saca) - Três pares de meia soquete; um tênis para você fazer seu cooperzinho - você precisa perder um pouco dessa barriga horrorosa; camisetas que só você, os portugueses e os seminaristas usam; e finalmente...(Ela pára com a mão dentro da saca) Adivinha!
VICENTE - Uma surpresa?
AMBROSINA - Uma surpresa!
VICENTE - De comer?
AMBROSINA - Não.
VICENTE - De beber?
AMBROSINA - Também não.
VICENTE - De...ah, mamãe, não sei. Pode ser tanta coisa!?
AMBROSINA - Mas que merda, Vicente. Como a tua imaginação é parca! De vestir, pateta, de vestir! (Ela tira da saca uma longa e colorida bata indiana)
VICENTE - Uma saia, mamãe?
AMBROSINA - Uma bata, seu ignorante. Indiana. Igualzinha à que Gandhi usava.
VICENTE - Gandhi só se vestia de branco, mamãe. Todo mundo sabe.
AMBROSINA - Bobagem, meu filho. Então você acha que um homem com toda aquela fantasia ia se vestir só de branco, o tempo todo? Ah Vicente, você até parece que não é filho de sua mãe. Acredita em tudo que lhe dizem...
VICENTE - Não se esqueça, mamãe, de que eu sou um profundo conhecedor da Índia. Morei lá, inclusive, como a senhora está cansada de saber.
AMBROSINA - Morou lá...Você passou no máximo umas duas semanas naquelas bandas com aquele teu amigo sinistro, deu uma voltinha de elefante e voltou pra casa.
VICENTE (Aprumando-se, com voz empostada) - “Abra matra surudedra putra!”
AMBROSINA - O que foi que você disse, Vicente? O que foi que você teve a coragem de dizer?
VICENTE - Mamãe, eu disse apenas: “Quando um elefante abandona a caravana, o caravaneiro volta a pé”. Palavras de Gandhi.
AMBROSINA - Essa eu vou anotar no meu diário, Vicente. E por causa disso talvez eu nunca mais apareça por aqui! Entendeu?
VICENTE - Mas mamãe, o que foi que fiz de mal?
AMBROSINA - Você não fez nada, Vicente. Você nunca faz nada.
VICENTE - Mamãe, eu quis apenas...
AMBROSINA - Vista essa bata, Vicente! Já, neste segundo! E talvez ainda haja tempo de você me resgatar como relação...
VICENTE - Mamãe...
AMBROSINA - Silêncio sepulcral! Obedeça! Ou eu me evaporo...(Apalermado e submisso, Vicente pega a bata)
VICENTE - A senhora quer que eu me dispa?
AMBROSINA - Não é preciso. Coloque por cima. Por ora me é suficiente...(Ele obedece) Meu filho...que lindo! Ah, se não fosse a sua habitual cara de cretino e eu juraria que você é um novo profeta! Meu Deus, como você ficou espiritual!?
VICENTE - Imagino...
AMBROSINA - Bem que a minha intuição me dizia: “Ponha uma bata no seu filho que essa besta assumirá uma outra dimensão!” E não é que você assumiu, Vicentinho? Você alongou por fora e cresceu por dentro. Como dizia o velho Nelson - muito mais inteligente do que Gandhi, diga-se de passagem - “Teu olhar já vasa luz, como um santo de vitral!”
VICENTE - Obrigado, mamãe...
AMBROSINA (Cantarolando) - E agora...
VICENTE - Tem mais alguma coisa aí na saca?
AMBROSINA - Não, seu rufião empedernido. Sua mãe já se endividou até a raiz dos cabelos para te proporcionar todas essas alegrias!
VICENTE - Mas então, o quê?
AMBROSINA - O quê o quê, frango confuso?
VICENTE - Mas a senhora não disse “E agora...”?
AMBROSINA - Ah sim, claro. Agora nós vamos descer...(E começa a jogar todos os presentes na saca)
VICENTE - Descer...
AMBROSINA - Sim.
VICENTE - Mas descer...para onde?
AMBROSINA - Pra cima, Vicentinho! Ah, meu Deus, esse menino é um verdadeiro karma! (E continua guardando as coisas)
VICENTE - Eu não estou entendendo, mamãe!?
AMBROSINA - Novidade espantosa!? (E continua guardando. Vicente, após terrível esforço de raciocínio, julga compreender as intenções da mãe)
VICENTE (Horrorizado) - Não!
AMBROSINA - Viu como essa bata já lhe fez bem? O seu raciocínio dedutivo já começa a aflorar...
VICENTE - Eu não acredito, mamãe. Eu não posso crer que a senhora pretenda mesmo...
AMBROSINA - Pois pretendo. E quando sua mãe pretende alguma coisa, Vicentinho...
VICENTE - Mas não é permitido! O regulamento...
AMBROSINA - Meu filho: os regulamentos só existem para serem burlados. E quando se trata de uma causa nobre, a possível falta passa a ser virtude. (Nesse momento ela já deverá ter acabado de guardar tudo) Vamos?
VICENTE - Mamãe!?
AMBROSINA - Bem, se você não vem, eu vou sozinha...(E se dirige para a abertura do túmulo)
VICENTE - Mamãe...
AMBROSINA (Já com a metade do corpo dentro da cripta) - Até já, meu fetinho triste... (E some)
VICENTE - Mamãe!!! (E desaparece atrás dela. BO. Entra uma música suspeita. Depois de um tempo, vemos Vicente e Ambrosina caminhando por um longo e sinuoso corredor. De vez em quando passam por uma zona mais ou menos iluminada. Portanto, o diálogo que se segue é feito na luz e na sombra, de forma que algumas vezes só percebemos os seus vultos catacúmbicos)
AMBROSINA - Vicentinho...que lugar escuro. Será que não há perigo de assalto?
VICENTE - Fala baixo, mamãe, por favor! Alguém pode ouvi-la!?
AMBROSINA - E é bom mesmo que me ouçam. Assim, se formos atacados, a nossa chance de sermos socorridos aumenta consideravelmente.
VICENTE - Mas quem nos assaltaria aqui, mamãe? Que absurdo!?
AMBROSINA - Nunca se sabe, meu filho. Essas vielas e becos, plenos de umidade e desprovidos de luz, só podem conduzir à fornicação ou ao crime. (Subitamente, Ambrosina estaqueia e dá um grito. Vicente a olha, apavorado. Ao mesmo tempo se acende um foco mais adiante. Ambrosina, hirta, aponta na direção desse foco. Nele vemos um casal que se beija com ardor. Vicente fica um momento apalermado, mas depois abandona a mãe e penetra neste segundo foco. Tenta se explicar, mas a voz não lhe sai. Então recorre a gestos e aponta a mãe)
HOMEM - Quem é aquela senhora, Vicente?
MULHER (Acenando) - Alô! (Nesse momento Ambrosina, já refeita, avança impávida na direção do trio. Some o foco de luz em que estava. Assim que ela entra no novo foco...)
AMBROSINA - Aquela senhora é a mãe dele. (Aponta Vicente)
HOMEM - Encantado.
MULHER - Encantada. (E ambos voltam a se beijar, só que agora com um ardor ainda maior. Ambrosina, algo despeitada, pega Vicente pelo braço e o carrega dali. Passados alguns instantes, surgem num outro foco. Vemos ainda o casal que se beija)
AMBROSINA - Quem são essas criaturas suspeitas, Vicente, que ameaçam entrar num processo de cópula a qualquer momento?
VICENTE - São um casal, mamãe.
AMBROSINA - Isso eu também pude ver, beduíno! Refiro-me à identidade de ambos e ao grau de relacionamento que mantêm com você.
VICENTE - São atores. E...são amigos.
AMBROSINA - Atores...Só podiam ser. Sempre exagerados, sempre representando. Olha lá, Vicente. (Aponta) Agora você me diz: para se atingir o ápice é necessário todo esse contorcionismo seqüencial de piruetas? Ahnn? Essa multiplicidade de ações simultâneas, que só contribuem para caotizar a beleza e conduzir à dispersão? Palhaços...exibicionistas de catacumba...impotentes do gozo pleno...(Ao filho) Mas pára de olhar para esse rocambole incandescente, criatura lúbrica! Depois você não dorme e mancha as fronhas! Vamos indo...(Pega Vicente pelo braço)
ZÉMUNA (No escuro) - Viceeennnteee! (Vicente e Ambrosina se imobilizam)
AMBROSINA - Mas o que é isso?
VICENTE - Uma voz...
AMBROSINA - Será mesmo, Vicente? (Acende-se um novo foco. Nele está Zémuna, belo e faceiro rapaz, contemporâneo de Shakespeare. Quando a luz se acende em Zémuna, apaga-se o foco dos amantes, que somem)
ZÉMUNA – Vicente...aonde quer que estejas, eu te suplico...O meu corpo, exausto da busca do teu, ameaça sucumbir a qualquer momento! (Chora, trágico)
AMBROSINA - Meu filho: esse “Vicente” por acaso é você?
ZÉMUNA - Logo hoje, no dia do teu aniversário, quando para ti uma ceia digna dos deuses preparei, tu te comportas como um apóstolo que visse em mim o teu centurião!
AMBROSINA - Meu filho: o comportamento dessa aparição não te parece estranho?
ZÉMUNA - Nem que seja pela última vez deixa que meus olhos, já turvados pelo véu da angústia, sobre os teus recaiam, para que nossas pupilas se dilatem como outrora e retenham as imagens pungentes deste desterro abominável ao qual tu agora me relegas!
VICENTE (Emocionado, sem conseguir conter-se) - Zémuna!
ZÉMUNA (Vendo-o) - Vicente! (E corre trôpego na direção do amado. Em seguida, atira-se a seus pés, enlaçando suas pernas) Aonde estavas, ser adorado? Pétula sublime do meu jardim de sonhos? (Puxa Vicente para si e Vicente também se ajoelha) Por que me maltrataste com tua ausência inconcebível? Que pretendias ao confundir-te com as sombras que neste vale de lágrimas pululam? De saudade e rejeição matar-me? Ou pôr à prova a consistência e a constância dessa minha paixão insucumbível? Anda, fala! Ou faze de mim o que quiseres! (Não conseguindo mais conter-se, Ambrosina desfere em Zémuna, sem que ele a veja, uma tremenda bengalada) Aaaahhh! Mas por que me golpeias com tamanho ímpeto? Pretendes, acaso, dilacerar minha coluna? Transformar-me num inválido? Ou talvez canalizar em fúria um gesto que no fundo encobre o teu amor? Se verdadeira for a última premissa então me surra, coração, que eu agüento a barra! (Nova e ainda mais terrível bengalada) Aaaaahhhh, paixão da minha vida! Embora te agradeça a exemplar clareza, devo confessar-te que o vigor da mesma a mim, neste momento, faz cismar...
AMBROSINA - Cisma, fantasma pervertido. Que teu fim, na verdade, já está perto.
Pois a mãe de Vicente, em tua coluna, já deixou um rombo bem aberto. (Só agora Zémuna se dá conta da presença de Ambrosina. Ouve-se “Tristão e Isolda”)
ZÉMUNA - Quem és tu, criatura espúria e nebulosa?
AMBROSINA - A mãe deste menino, que ao te ver ficou nervosa.
ZÉMUNA - E esse descontrole, ao que imagino, será minha ruína.
AMBROSINA - Problema teu. Questão de sina.
ZÉMUNA - Adeus, então. O destino se cumpriu.
AMBROSINA - Perfeitamente. Vá pra puta que o pariu! (As luzes se apagam abruptamente. Depois de um tempo, escutamos o choro de Vicente. Quando as luzes se acendem, estamos em seu quarto subterrâneo. Nele há uma cama, uma estante, a gaiola com o periquito e uma cadeira de balanço, na qual Vicente se balança coberto por um edredom, cuja cor oscila entre o azul e o lilás. Tudo neste quarto tem esse tom diáfano. Ambrosina está colocando na estante os presentes que trouxe)
AMBROSINA - Foi melhor assim, meu filho. (Vicente solta um pequeno uivo) Vicentinho: esse ganido histérico significa que você discorda de minha opinião? (Vicente gane de novo) Então você acha que eu deveria ter feito o quê? (Nova ganidinha) Olha aqui, Vicente: eu só não te dou uma surra de cinto nesse segundo apenas porque você já está chorando e ela não teria a menor graça. Agora, presta atenção: mais uma afronta dessa natureza e eu te reduzo a cinzas, pederasta subterrâneo!
VICENTE - Poupe seu tempo, mamãe: eu já sou um monte de cinzas!
AMBROSINA - Você é um monte de pouca vergonha, isso sim! Tal qual uma mariposa obscena, você abandona o casulo da formação que eu lhe dei e se transforma na sua própria antítese!?
VICENTE - Engano seu, mamãe. Eu sempre fui o que sou.
AMBROSINA - O quê?
VICENTE - Isso mesmo. Eu apenas não sabia.
AMBROSINA - Mentira! Você diz isso na esperança de que os poucos cabelos que me restam se arrepiem e eu perca de vez a lucidez que sempre me caracterizou!
VICENTE - Eu estou dizendo a verdade, mamãe. Zémuna apenas me mostrou aquilo que no fundo eu...
AMBROSINA - Não torne a pronunciar este nome na minha presença, Vicente. Ou eu tenho uma convulsão!.
VICENTE - Mas por quê, se ele é – ou foi, já nem sei mais – tudo de bom que eu tenho ou tive aqui? Entre outras coisas eu devo a ele...
AMBROSINA - Devia, Vicentinho. Pois esse fauno empedernido que te levou à perdição já se diluiu na memória dos tempos. Trata-se, a partir de agora, de sacudir a poeira da sordidez e construir um futuro de redenção!
VICENTE - Na morte não há tempo, mamãe.
AMBROSINA (Pegando a bengala) - Mas há a bengala do teu avô que vai te partir o crânio se você não calar a boca nesse instante! (Assustado, Vicente se tapa com o edredon) Era só o que me faltava: uma bicha intraterrena com pretensões filosóficas!? Meu Deus do céu, aonde é que nós estamos!? (Surge um sujeito alegre, vestido com roupas coloridas)
COLORIDO - No inferno, cara senhora. (Ambrosina se vira para Colorido e o mede de alto a baixo. Vicente põe a carinha de fora e leva um susto)
AMBROSINA - Vicente: quem é esse havaiano?
VICENTE - Mamãe, por favor, tenha um pouco de...de...
AMBROSINA - “De” o quê, criatura dúbia?
COLORIDO - De cuidado. É isso o que ele quer dizer.
AMBROSINA - Cuidado, eu? E com o quê, pode-se saber?
COLORIDO - Comigo.
AMBROSINA - Contigo?
VICENTE - Mamãe...
AMBROSINA (A Colorido) - Escuta aqui, meu filho: no dia em que Ambrosina Sarmento tremer diante de uma arara é porque realmente atingimos o apocalipse!
VICENTE - Mamãe!
AMBROSINA - Isso mesmo. E tem mais uma coisa, minha vereda tropical: meu filho e eu temos vários assuntos a resolver que dispensam a sua carnavalesca figura. Portanto, trate de retirar-se. (E ela retoma a arrumação da estante. Vicente, constrangido e algo apavorado, mediante gestos inexpressivos tenta justificar para Colorido o comportamento da mãe. Depois de um tempo...)
COLORIDO - Minha senhora...
AMBROSINA (Virando-se) - Ué...mas o senhor ainda está aí?
COLORIDO - Eu pediria que a senhora me acompanhasse.
AMBROSINA - Acompanhá-lo? E por quê?
COLORIDO - Porque é preciso.
AMBROSINA - É preciso por quê?
COLORIDO - Há alguém que deseja vê-la.
AMBROSINA - Pois diga a esse “alguém” que nossos desejos não coincidem. Como acabo de lhe dizer, meu filho e eu temos sérias contas a ajustar.
COLORIDO - Nós também temos sérias contas a ajustar.
AMBROSINA (Gritando) - “Nós” quem?
COLORIDO - Por favor, minha senhora, não é preciso tanta irritação comigo. Eu sou apenas um porta-voz!?
AMBROSINA - Não adianta se fazer de coitadinho porque você não me comove. E eu só estou irritada com a sua relutância em se evadir deste quarto. O senhor é um pentelho!
VICENTE - Mamãe!
AMBROSINA - O senhor é um tiro no saco com espingarda de rolha!
VICENTE (Levantando) - Mamãe, pelo amor de Deus!
COLORIDO - Vicente! Certas expressões, como você está cansado de saber, não são bem-vindas aqui!
VICENTE - Desculpe. É que eu ainda não estou totalmente adaptado e...
AMBROSINA - Mas que história é essa de “expressões bem-vindas”? Existe, por acaso, alguma patrulha semântica nesta galeria de metrô?
COLORIDO (A Vicente) - É melhor você convencer sua mãe. Nós aguardamos no salão de recepção. (A Ambrosina) Para o bem do seu filho e, porque não dizer, para o seu próprio bem, não será conveniente faltar a esse encontro...(E sai)
AMBROSINA (Após um momento de reflexão) - Vicentinho...se o meu instinto materno não me falha, algo me diz que este não é um lugar apropriado para você. Senão, vejamos: de cara eu me deparo com uma cena circense, inserida num contexto aparentemente sexual, de irritante incompetência. Logo em seguida, tenho o desprazer de conhecer um fauno elisabetano que me força a aleijá-lo a bengaladas. Dez minutos depois, e não mais que isso, invade seus aposentos um turista havaiano com pinta de traficante. Ou seja: se sua mãe não tomar agora uma atitude enérgica, fatos ainda mais cabulosos atropelarão tua vida numa progressão tão fulminante quanto a das catástrofes. Assim sendo, não me resta outra opção. (Vira-se enérgica para a estante e começa a recolocar na saca todos os presentes. Vicente a olha, aparvalhado. Depois de um tempo...)
VICENTE - Mas o que é isso, mamãe? Vai carregar de volta todos os meus presentes?
AMBROSINA - Isso mesmo.
VICENTE - Mas por que? Eu gostei tanto deles!
AMBROSINA - Justamente por isso. Eu não quero que fique nada aqui.
VICENTE - Eu não estou entendendo, mamãe. A senhora dá com uma mão e depois tira com a outra!?
AMBROSINA - Que frase profunda, Vicentinho.
VICENTE - O meu tênis! Os meus livros! Por favor, mamãe, me deixe ao menos a geléia de mocotó embasa!? (Indiferente aos apelos do filho, Ambrosina continua guardando tudo. Vicente fala com a platéia) Que destino, o meu. Perco o tênis, o mocotó, o amor e mamãe, que ameaça partir e nunca mais voltar. Por quê? Que mal eu fiz para merecer castigo tão insuportável? Será que a solidão, a fome e os calos serão meus únicos companheiros doravante?
AMBROSINA (Já pronta) - Que bonito, meu filho...mas que coisa mais linda...se eu não estivesse carregada como um estivador eu aplaudiria de pé e pediria bis, como na ópera...
VICENTE - Aonde é que a senhora vai?
AMBROSINA - Para casa.
VICENTE - E eu, mamãe? Como é que fico?
AMBROSINA - Você não fica. Você vai.
VICENTE - Para onde, mamãe?
AMBROSINA - Ah, Vicentinho...o teu QI às vezes me dá uma tristeza...
VICENTE - Eu não estou compreendendo!?
AMBROSINA - Faz mal não, filhinho...vem...(E começa a se afastar) Mesmo porque você raramente compreende alguma coisa...(E some na escuridão. Vicente, após um rápido e doloroso esforço de raciocínio, julga haver compreendido os planos de sua mãe)
VICENTE - Não é possível! (E vai atrás dela. BO. Entra a música suspeita. Quando as luzes se acendem, estamos de novo no corredor da primeira trajetória subterrânea. Dois focos principais: no primeiro deles - já que o caminho agora será percorrido em sentido inverso - vemos Zémuna, que ainda agoniza; no segundo foco, o casal se beijando. A mesma atmosfera de luz e sombra)
VICENTE - Mas isso é um absurdo, mamãe!
AMBROSINA - Absurdo é eu ter que carregar sozinha esse monte de tralhas enquanto você fala pelos cotovelos!
VICENTE - Eu ajudo.
AMBROSINA - Agora é tarde. Ou as coisas são espontâneas ou não são. Sigamos!
(Ambos entram numa zona de penumbra)
VICENTE - Mas é contra o regulamento, mamãe!?
AMBROSINA - Vicentinho: será que além de viado você se tornou definitivamente um burocrata?
VICENTE - Eu não sou nem uma coisa nem outra, mamãe. Eu simplesmente descobri o amor, em toda a sua plenitude!
AMBROSINA - Vicentinho: mais uma frase profunda dessas e eu te mergulho no sal assim que chegarmos em casa. (Entram no foco de Zémuna. Vicente dá um grito) Você está vendo? A tua plenitude ainda estrebucha...(Vicente uiva e se crispa nas costas da mãe. Eles passam por Zémuna e voltam à penumbra)
VICENTE - Fique sabendo, mamãe, que uma parte importantíssima de mim fica sepultada nesta tumba!
AMBROSINA - Faz mal não, meu filho. Com a outra você compõe uma canção que preste.
VICENTE - A minha aptidão para a música é zero, a senhora está cansada de saber.
AMBROSINA - Mamãe te ajuda. (Entram no foco dos amantes. Ambrosina dá uma pancadinha nas espáduas do homem. O casal interrompe sua função) Meu filho: desse jeito ela não goza nunca! (E entram novamente na penumbra. BO. Fica por um momento a música suspeita. Quando as luzes tornam a se acender, estamos de novo no cemitério. Sentado sobre a campa do túmulo de Vicente, um personagem algo estranho fuma placidamente um charuto. Depois de um tempo, começamos a ouvir as vozes um tanto abafadas de Vicente e Ambrosina)
Voz VICENTE - Calma, mamãe. Está muito pesada, eu não consigo abrir!?
Voz AMBROSINA - Sem boa vontade, Vicente, não se chupa nem um picolé!
Voz VICENTE - Devem ter colocado um peso em cima.
Voz AMBROSINA - Mas por que alguém faria isso, pamonha?
Voz VICENTE - Sei lá, mamãe.
Voz AMBROSINA - Então se esforça, Vicentinho. Mas que criatura lerda, meu Deus!? (O estranho cavalheiro sorri, sai de cima da campa e ajuda a abri-la)
Voz VICENTE - Parece que está cedendo, mamãe.
Voz AMBROSINA - Parece não, Vicente: metade já foi! (Vemos surgir primeiro as mãos, depois a cabeça e por fim metade de Vicente. Quando ele vê o estranho cavalheiro dá um grito pavoroso e recua para dentro do túmulo, deixando de fora apenas parte da cabeça e uma das mãos)
Voz AMBROSINA - Ai, Vicente! Seu palerma! Quer me fazer o favor de tirar o calcanhar de dentro do meu olho? (Petrificado, Vicente não responde) Você está me ouvindo, condenado? (Vicente permanece mudo) Então, tudo bem: eu vou arrebentar o teu tendão de Aquiles! (Vicente solta um grito pavoroso. Ato contínuo aparece a cabeça de Ambrosina) Pronto: de hoje em diante você puxa de uma perna.
VICENTE (Emergindo, às lágrimas) – Mas por que a senhora fez isso, mamãe?
AMBROSINA - Porque você queria me cegar, múmia desalmada! E agora nem mais um pio, se não eu te trucido. (E começa a sair do túmulo. Vicente, ainda que lacerado pela dor, tenta segurar a mãe e avisá-la da presença do estranho cavalheiro. Ela, no entanto, ao sentir-se presa...) Mas o que é isso? Será que agora você pretende me estrangular?
VICENTE - Não, mamãe, eu estou apenas tentando te mostrar!
AMBROSINA - Mostrar o quê, verme matricida?
VICENTE - Ele!!!
AMBROSINA (Vê o estranho cavalheiro, que lhe sorri) - E o que é que tem demais, Vicente? Será que você soltou esse uivo pavoroso apenas porque essa criatura suspeita, que não faz outra coisa além de exibir sua dentadura nova, apareceu na tua frente? (O estranho cavalheiro, que poderia ofender-se, parece encantado com o caráter intempestivo de Ambrosina)
VICENTE - Mamãe, ele é...
SATÃ - Permita que eu me apresente, Vicente.
AMBROSINA - Antes de fazê-lo, não seria mais gentil de sua parte socorrer uma velha mãe exausta e entalada numa tumba?
SATÃ (Aproximando-se) - Certamente. Espero que me perdoe...(Ele estende a mão, que Ambrosina utiliza como apoio para deixar o túmulo)
AMBROSINA - Agora o senhor está perdoado.
SATÃ - Já que é assim, passemos às apresentações. Querida Ambrosina, eu sou...
AMBROSINA (Virando-se para Vicente) - Vicente: será que aquele teu coice histérico, além do olho, me afetou também os tímpanos?
VICENTE - Por que, mamãe?
AMBROSINA - Porque eu creio ter ouvido sair, da boca murcha desse sujeitinho, a expressão “querida Ambrosina”...
VICENTE - Saiu sim, mamãe. Eu também ouvi.
AMBROSINA - E isso, na tua opinião, é signo do quê, Vicente?
VICENTE - Como é, mamãe?
AMBROSINA - Nada, Vicente...nada. Sabe, filhinho, às vezes a tua parvoice é de tal magnitude que eu...
SATÃ - De fato, querida Ambrosina, Vicente é realmente muito parvo.
AMBROSINA - Escuta aqui, meu senhor: pra início de conversa, a sua opinião não foi requisitada. E depois o meu nome, já precedido duas vezes de um adjetivo dessa natureza, pressupõe uma intimidade que eu absolutamente não lhe dei. Portanto, considere-se um sério candidato a umas boas bengaladas! (E brande a bengala no ar. Ainda que fascinado, o cavalheiro recua dois passinhos)
SATÃ - Rogo que me desculpe, encantadora dama. Deixei-me levar pela ênfase, mas meu único intuito era o de agradá-la.
AMBROSINA - O senhor não imagina que galanteios surrados, proferidos de madrugada, num cemitério, possam ser levados a sério...
SATÃ - Mas o que é que eu posso fazer, bela senhora, se é aqui que eu vivo?
AMBROSINA - O senhor é coveiro...
VICENTE - Mamãe!
SATÃ - Eu diria que sou...uma espécie de anfitrião.
AMBROSINA - Meu senhor: as frases iniciadas no condicional me exasperam profundamente, pois conduzem sempre à incerteza. Ou o senhor é anfitrião ou não é. Concorda?
SATÃ - Pois muito bem: em respeito ao seu amor pela objetividade, nada mais me resta a não ser confessar que sou Satã!
AMBROSINA (Após uma pausa) - Satã de quê?
SATÃ - Como assim?
AMBROSINA - Eu gosto de saber o nome completo. É um hábito que trago do berço.
SATÃ - Perdão, talvez eu não tenha sido suficientemente claro...
AMBROSINA - E não foi mesmo. O nome próprio não significa nada. O da família é que é essencial.
VICENTE - Mamãe!
AMBROSINA - Vicente, você quer parar de se interromper? Por acaso você está com ciúmes? Será que sua mãe não pode conversar com outro homem que você fica se coçando o tempo todo?
VICENTE - Mas será possível que a senhora ainda não percebeu?
AMBROSINA - Percebeu o quê, edipiano inveterado?
VICENTE - E ele é Satã, mamãe! S-A-T-Ã!
AMBROSINA - Mas isso eu já sei, cretino! Que inferno!
VICENTE - Pois é isso, mamãe! Satã, inferno! (Sonopalstia de trovão. Raios recortam a cena. Desaba um temporal bíblico. Ambrosina, indiferente às intempéries da natureza, olha fixamente para Satã, que por sua vez também a olha e um tanto orgulhoso, já que tem como certo que a borrasca desabou pelo fato de seu nome ter sido mencionado. Quanto a Vicente, que inicialmente procurara refúgio aconchegando-se a Ambrosina, começa aos poucos a se recompor. Vendo, porém, o olhar que trocam Ambrosina e Satã, fica ansioso e sente-se como que obrigado a dizer algo capaz de desanuviar o clima, em sua opinião carregado. Então, depois de rápida, porém intensa reflexão...)
VICENTE - Chove...
AMBROSINA - Será, Vicente? Pois eu tive a nítida impressão que alguém mijava na cabeça da gente, só de sacanagem...(Para o cavalheiro) Com que então...o senhor é o famigerado príncipe das trevas!
SATÃ - Príncipe, certamente. Mas famigerado...
AMBROSINA - O que teve a petulância de querer se igualar a Deus.
SATÃ - Perdão, mas essa história foi sempre mal contada. Na realidade...
AMBROSINA (Enfurecida, bengala em punho, acua o cavalheiro) - Capiroto! Bode preto! Anhangá! Mofino! Tição! Rabudo! Pé-de-pato!
SATÃ - Querida Ambrosina...
AMBROSINA - Anjo decaído que arrastou meu filho para as trevas abissais.
SATÃ - Não é verdade, eu lhe juro. A opção foi dele.
AMBROSINA - Mais uma acusação contra meu filho e eu o desintegro a bastonadas! (E dá violenta bengalada num túmulo)
VICENTE - Ele não está mentindo, mamãe! Eu escolhi a porta errada!
AMBROSINA - Que porta, Vicente?
VICENTE - Escuta, mamãe. A coisa se passa assim: tão logo baixamos à sepultura, recobramos a consciência. Então o fundo do caixão se abre e caímos numa sala hermética, com apenas duas portas.
AMBROSINA - Se ela tem duas portas não é hermética, Vicente.
VICENTE - Mas eu tive a sensação que era.
AMBROSINA - E o que acontece depois, criatura hermética?
VICENTE - Eu fiquei achando que alguém viria me buscar. Como isso não aconteceu, depois de um tempão eu...resolvi agir.
AMBROSINA - E se dirigiu a uma das portas...
VICENTE - A da direita.
AMBROSINA - E quando a abriu, deu com esse aí...
VICENTE - Correto.
AMBROSINA - Se fosse a da esquerda, cairia nos braços de Jesus.
VICENTE - Tudo leva a crer que sim.
AMBROSINA (Depois de um tempo) - Teria a velhice deformado minhas feições a ponto de ser tomada como a mais perfeita idiota? Recobra-se a consciência...cai-se num alçapão...e abre-se uma porta. Todo o mistério da morte estaria então atrelado ao mero acaso, invalidando o balanço de toda uma vida. O justo, se sua intuição for equivocada, arderá por toda a eternidade. Podendo ocorrer o inverso com aquele que sempre praticou o mal...(Pausa ameaçadora) Como ousam supor, criaturas entrevadas, que vá dar crédito a semelhante patuscada? (E parte em perseguição a Satã. Entra uma música frenética, de natureza operística. Vicente e Satã proferem frases suplicantes, que não chegam a ser apreendidas com clareza. Finalmente, Ambrosina agarra Satã e com surpreendente agilidade o atira ao solo. Em seguida, ela ergue a bengala como prestes a desferir um golpe mortal. Nesse momento, surgem no túmulo de Vicente o Homem, a Mulher, Zémuna e Colorido)
MULHER - Senhora!
AMBROSINA (Virando-se) - Ah, mas que surpresa agradável. Chegaram a tempo de me ver esfacelar o crânio de vosso abjeto amo!
MULHER - A mim pouco importa o destino que a senhora dará à cabeça desse sujeitinho. Vim apenas em busca de um conselho.
AMBROSINA - Pois não.
MULHER - Senhora...eu preciso gozar. Mas o orgasmo não me vem!?
AMBROSINA - Troque de parceiro, minha filha. Esse magricela aí não tá com nada.
MULHER - Obrigado. (Ela esbofeteia o Homem e some na tumba. Ele vai atrás)
AMBROSINA - E você, havaiano? O que te trouxe aqui?
COLORIDO - Ouvi gritos. Pensei que a matavam.
AMBROSINA - E então você veio saborear a minha morte...
COLORIDO - Sim, e repleto de motivos. Afinal, fui muito maltratado pela senhora.
AMBROSINA - Admiro tua coragem. Mas vamos ver se você a manterá. Aguarde só um instante, enquanto eu dou cabo deste aqui...(E aponta Satã. Colorido some. Ambrosina sorri e vira-se para Zémuna). E quanto a vós, fauno empedernido? Causa-me espécie terdes conseguido vos arrastar até aqui...
ZÉMUNA - O amor tudo supera, mesmo o mais terrível abalo.
AMBROSINA - Pois então esperai, que já irei arrematá-lo.
ZÉMUNA - Engano vosso, pois dessa vez Vicente tomará minha defesa.
AMBROSINA - Se o fizer, tadinho, demonstrará pouca esperteza.
ZÉMUNA - Massacraríeis, então, vosso próprio filho?
AMBROSINA - Sim, como a galinha que faminta bica o milho.
ZÉMUNA - Não sois humana, sois a maldade personificada.
AMBROSINA - Poupai o verbo e ajustai o lombo, pois logo tomareis muita porrada.
ZÉMUNA - Vicente!
VICENTE - Zémuna! (Vicente corre até o amante e o enlaça)
AMBROSINA - Vicente! (Estupefata, Ambrosina liberta involuntariamente Satã, que some no túmulo de Vicente. Enfurecida, ela corre até Zémuna e o filho)
AMBROSINA - Soltai meu filho, viaça catacúmbica!
ZÉMUNA - Sucumbiremos juntos, desvairada dama!
VICENTE - E na mesma cama, totalmente enlaçados!
AMBROSINA - Na mesma o quê, Vicente?
VICENTE - Como Romeu e Julieta, Zémuna e eu atravessaremos toda a eternidade lado a lado!
ZÉMUNA - Meu lírio do campo! Rápido, pega-me em teus musculosos braços. E fujamos antes que seja tarde! (Vicente obedece e some com ele no túmulo)
AMBROSINA (Indo até o túmulo) - Volte aqui, Vicente! Não se atreva a escafeder-se! Obedeça já a sua mãe! Ou eu nunca mais venho te ver! Você está me ouvindo, pederasta infernal? (Ela pára, exausta. Tempo) Meu Deus...isso não pode estar me acontecendo...que pesadelo horroroso...o meu Vicentinho amasiado com um elisabetano invertido!? E, no entanto, o que lhe custaria ter se apaixonado por aquela mocinha? Tão bonitinha, tão carente, tão ávida...(Tempo) Lírio do campo...Ah, Zémuna, um dia você ainda me paga. (Para a platéia) Sim, porque não pensem os senhores que eu tenha aceito, como fato consumado, essa momentânea derrota. Em absoluto. Assim que recuperar o fôlego, parto no encalço de meu filho e sua esposa. Ou vice-versa... E os encontrarei, nem que para tanto tenha que vasculhar de ponta a ponta o abjeto Hades. Não se costuma dizer que ser mãe é padecer no paraíso? Pois bem: eu estou disposta a triunfar no inferno!!! (Entra uma música capaz de sublinhar toda a cólera de Ambrosina. Ela permanece em quadro vivo, enquanto as luzes caem em resistência)

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Pequeno ensaio sobre um homem só
de Lionel Fischer

Há dez anos que tudo aqui é silêncio, que nada mais se indaga. Existe ordem. Não que seja necessário a um homem, na iminência de cometer uma ação que mereça a forca, ter consciência de que a forca o aguarda. Não. Reina, aqui, uma outra espécie de ordem. As ações deixaram de ser cometidas e por isso se extinguiram as possibilidades de castigo. Seja como for, daria tudo na mesma, porque nós somos sós, terrivelmente sós. As nossas mãos nasceram cansadas. O nosso gesto, preguiçoso. A nossa ajuda, tardia. Mas por que me olham assim, como se estivessem diante de um louco ou de um ator que ensaiasse um trecho de uma peça? É realmente curioso o julgamento humano. Não permite a uma pessoa travar diálogos consigo mesma: ou é louca ou está representando. Mas pode ser que um dia passem a achar que a loucura também seja uma forma de representação. Aí, talvez, nós possamos monologar em voz alta, livremente, em paz com a nossa solidão, num mundo repleto de atores. É o que nós somos. Fantoches de um espetáculo violento e absurdo, no qual nos envolvemos e que nunca chegamos a compreender. A vida assim o exige e para viver é necessário não pensar, não tentar compreender e, sobretudo, não sonhar. Quem estiver disposto a pagar esse preço, muito bem, será feliz. Aos outros, aos que se fazem perguntas, aos que contemplam esse desfile de mãos crispadas, esses mergulharão em infernos que imaginação alguma, até hoje, foi capaz de descrever. Nós buscamos tudo, menos explicações. Elas não nos interessam. Quanto mais complexa for nossa existência, mais nos sentiremos felizes, com mais convicção ainda rastejaremos de quatro e com maior ânsia lamberemos as botinas dos deuses e profetas. O vagabundo tinha razão. A paz só virá para os que se fartaram das pesadas condições impostas. Para os que mergulharam as mãos no lodo. Para aqueles que se jogaram no fundo do poço. Para aqueles cuja vida não foi mais que uma procura. Para os pequenos homens indefesos e humilhados. Para os rostos de vidro que se debruçaram sobre as folhas. Para os que tentaram ser otimistas num mundo amargo.
Para os que tentaram o sorriso e encontraram o silêncio. Para os que estenderam as mãos e agarraram o vazio. Para os que fecharam os olhos e sentiram medo. Para os que choraram de pena e embaçaram seus óculos. As cartas marcadas foram feitas para os jogadores desonestos. Quem quiser que embaralhe e distribua a sorte. Eu cansei.

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Balcão
de Lionel Fischer


Personagens
Um homem

Cenário
Um balcão

(O Homem se acha diante de um balcão. Carrega uma pasta e um guarda-chuva. Dirige-se a alguém que jamais é visto)

Homem - Bom dia. Eu pensei que o senhor não estivesse aqui, hoje. Cheguei mesmo a me assustar. Afinal de contas, eu já me habituei ao senhor. Não saberia lidar com outro funcionário. Eu sou uma pessoa que se habitua e depois sente muito qualquer alteração em seus hábitos. É claro que eu não estou querendo dizer que não poderia ser atendido por outro funcionário, pois isso equivaleria a duvidar da competência dos elementos selecionados para prestar serviço aqui, não é mesmo? Ao contrário. Longe de mim tal idéia. Sei que numa repartição de tal porte só são encaixados os indivíduos de maior inteligência e capacidade de trabalho. E só poderia ser assim mesmo. Imagine o senhor se de repente colocassem junto a si um sujeito que não tivesse a menor...Trouxe! Está tudo aqui! Hoje é o último dia, não é mesmo? Felizmente não falta nada. O senhor quer ver? É claro que o senhor quer ver...que pergunta mais desnecessária...bem...(Abre a pasta e espalha seu conteúdo sobre o balcão) Não, o guarda-chuva não tem relação alguma com os papéis. É que ele prendeu aqui, nesta pequena alça, e parece que se nega a... Carimbo? Que carimbo? Precisa carimbar? Todos? Mas eu não sabia que...17 carimbos? Cada folha leva 17 carimbos? Sei...sei...compreendo...Todos eles? Quer dizer que, sem deixar as dependências deste prédio, eu consigo carimbar todos os meus papéis? Oh, meu Deus, que bom! E como devo proceder? Sei...sei... compreendo...Eu carimbo, volto aqui e entrego ao senhor. Torno a sair, vou a outra repartição, carimbo, volto aqui e entrego ao senhor. Claro, não resta dúvida! Mas será que eu...o senhor me permitiria uma sugestão? Será que eu não poderia carimbar todos os meus papéis e depois voltar aqui e entregá-los todos de uma vez ao senhor? Perdoe...foi apenas uma sugestão...Pela expressão de seu rosto parece até que fui grosseiro consigo. Não era essa absolutamente a minha intenção, longe de mim tal...(Soam nove badaladas. Percebe-se pela expressão do Homem que o funcionário a quem se dirigia se retirou) Meus Deus! Já são nove horas! Quer dizer que só me restam oito horas para carimbar todos os meus papéis!? (Ele sai. A cada nova entrada surge com um número cada vez maior de folhas grudadas no corpo. E a cada nova entrada o balcão assume posições diferentes. Por fim, o Homem é engolido pelo balcão)

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Fragmento de um discurso insano
de Lionel Fischer


Os assassinos vasculham os becos. Colam-se às paredes das esquinas à espera de possíveis vítimas. Os policiais sentem cheiro de sangue, que os desperta de seu tédio e os lança à ronda. E nada mais importa. Todos cedem seus lugares para que o estranho espetáculo se consume. Do outro lado do muro, gêmeos vitelinos se olham cheios de medo e ódio. E se ameaçam com alfinetes de prata. As senhoras dormem abraçadas a seus maridos à espera de que sonhos as libertem. E as mocinhas se masturbam com seus cães de caça. E meus olhos brilham e enchem de luz essa cidade morta. Esses caminhos gastos que desconhecidos percorrem arrastando suas próprias vidas. E que conduzem a nada. Um vagabundo demente, bêbado e miserável conta sua história. Se confessa inocente dos crimes imputados e faz escárnio dos homens. Nesse momento, as almas sujeitas à humilhação constante, os pequenos homens indefesos, dançam uma dança lenta e irreal. E cantam músicas que pouca gente conhece. É a hora em que os murmúrios se insinuam pelos cantos. Pelas escadarias de cobre. Pelas consciências adormecidas. Intactas. Na noite ainda e por um breve instante, ele sorriu de frio e se encolheu de nojo. Rodou as quadras e quebrou as lâmpadas. Promoveu tumultos e insultou os donos. E já de manhãzinha ele caiu de quatro. E se sentiu só. Para que a platéia risse e cuspisse de prazer na nuca dos vizinhos. Para que gengivas se arreganhassem e descobrissem dentes verdes, cheios de limo. E no final de tudo, nada além de um rosto de vidro que se debruça sobre as folhas. E se estende, exausto, em seu leito de improviso. E chora de raiva diante de todo esse engano. Mas um dia, o animal feroz, encurralado, se libertará. Não para uma caminhada tranqüila, mas rumo à autodestruição. Numa revolta breve e inconseqüente, que não servirá de modelo ou ganhará adeptos. Mas que nos dará paz. Ao menos isso...Paz.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Bebês irados
de Lionel Fischer


Personagens
B1
B2
B3
B4
B5

(Os cinco bebês estão sentados, em semicírculo, cada um instalado em seu bebê-conforto. Quatro bebês estão inquietos com a expressão irada do quinto)

B1 – Mas afinal, Antônia Eugênia: a que se deve essa expressão tão carregada?
B2 – Sim, por que essa cólera, que chega mesmo a deformar teus delicados traços?
B3 – Quando de bom humor, em tudo te assemelhas a uma princesa. Mas agora...
B4 – Partilha conosco aquilo que te inquieta. Afinal, somos amigas há onze meses!?
B5 – É verdade, desde que nascemos. Uma amizade que já dura toda uma vida.
B1 – Mais uma razão para te abrires conosco.
B2 – Além do quê, somos irmãs.
B3 – As únicas quíntuplas do planeta.
B4 – Todas saídas da mesma buceta!?
B5 – É verdade. Da mesma vulva emergimos. Mas tal prodígio em nada aplaca a ira que ora me invade. E ela se deve a muitas causas...
B1 – Terão a ver com as insossas papinhas que mamãe nos impinge glote abaixo?
B2 – Ou com os lencinhos ridículos que ornamentam nossas cabecinhas?
B3 – Ou com as roupinhas que usamos, sempre exibindo variações de um mesmo tom?
B4 – Ou quem sabe com a exasperante curiosidade que despertamos quando ao ar livre?
B5 – A tais martírios já me acostumei e com eles lido com a sábia resignação dos que compreendem a inutilidade de contrariar os desígnios traçados pelo destino.
B1, B2, B3 e B4 – Mas então, irmã querida e irmã mais velha: se contra o destino não te insurges, a que atribuir tal carranca?
B5 – Se no momento minhas feições estão evidentemente deformadas, isto se deve a dois fatores, sendo um deles a ausência de papai. Eu ainda não me conformei totalmente...
B1, B2, B3 e B4 – Pobre homem...ao saber que mamãe dera à luz a cinco meninas, atirou-se da janela da maternidade, se esborrachando contra o solo e tendo morte imediata.
B5 – Era miolo pra tudo quanto é lado...
B1 – Papai estava endividado.
B2 – E não vislumbrava qualquer possibilidade imediata de quitar as dívidas.
B3 – Muito menos de achar um emprego que lhe permitisse sustentar a imprevista prole.
B4 – Então, optou por dar cabo de sua malograda existência.
B5 – E no arborizado pátio permaneceu estendido por muitas horas...
B1, B2, B3 e B4 – Despertando a mórbida curiosidade dos visitantes e de todo o corpo médico.
B5 – Sobretudo dos enfermeiros e enfermeiras, que são sempre muito abelhudos. (Tempo)
B1 – Mas, por favor, irmã!
B2 – Isso já aconteceu há muito tempo!
B3 – Nós temos que aprender a lidar com o inexorável!
B4 – Ficar remoendo o passado torna nebulosa qualquer perspectiva de um luminoso futuro.
B5 – Que seja... falemos então do tempo presente!
B1 – Isso, voltemos à tua carranca.
B2 – Ela certamente não se deve apenas a uma súbita...
B3 – ...e imprevista lufada de saudade do papai...
B4 – ...que, por sinal, nenhuma de nós chegou efetivamente a conhecer.
B5 – É claro que não. Minha carranca tem muito mais a ver com a iminente visita de nosso “tio Flávio!”
B1, B2, B3 e B4 – Tio Flávio? Como assim? Ele está pra chegar?
B5 – Exatamente. E justo hoje, quando completamos onze meses de vida e papai onze meses de morto!
B1, B2, B3 e B4 – Mas estás certa do que dizes?
B5 – Certíssima!
B1, B2, B3 e B4 – Por Deus!? Teria ele a petulância de em nossa residência aparecer justamente num dia em que nos vemos acossadas por emoções tão conflitantes?
B1 – Não só teria como terá! Ouvi quando mamãe falava com ele no celular, ao mesmo tempo em que martirizava minhas orelhas com aquela porra daquele cotonete!
B1, B2, B3 e B4 – Às nossas orelhinhas também impõe o mesmo e cotidiano martírio!
B5 – Mas por que será, irmãs queridas, que todos os nossos orifícios têm que ser diariamente vasculhados?
B1, B2, B3 e B4 – Tanto os de cima como os de baixo!
B5 – De onde vem essa obsessão de remover o menor resquício de um mísero prurido?
B1, B2, B3 e B4 – Temor de variadas infecções, é o que mamãe diz!
B5 – Mas será que ela tem, com relação aos seus próprios orifícios, o mesmo zelo que dedica aos nossos?
B1, B2, B3 e B4 – Não sabemos, Antônia Eugênia. Mas é possível que sim.
B5 – Que seja. Mas voltemos ao tio Flávio.
B1 – Que nem nosso tio de verdade é.
B2 – Ele apenas copula com mamãe.
B3 – Simulando que a namora.
B4 – E por isso tenta angariar nossa simpatia.
B5 – Ele é um cínico e se aproveita da proverbial ingenuidade de mamãe, assim como de seu furor uterino, para manuseá-la a seu bel-prazer. E mamãe parece gostar muito de tal manuseio.
B1 – É o que deduzimos em função de seus gritos.
B2 – Gemidos.
B3 – Arfares.
B4 – E expressões indecorosas.
B1 e B2 – Que atravessam as paredes e chegam até nosso quartinho.
B3 e B4 – Molestando nossos ouvidos e gerando sonhos obscuros.
B5 – Pois é justamente isso o que mais me intriga. Como pode alguém reagir tão favoravelmente a algo que, visto com imparcialidade e distanciamento, só pode ser descrito como a perfeita materialização do ridículo?
B1,B2, B3 e B4 – Como assim, Antônia Eugênia? Por acaso estás insinuando que viste mamãe e tio Flávio...
B5 – Nada insinuo: eu realmente os vi em seu grotesco processo de cópula!
B1, B2, B3 e B4 – Não!!!
B5 – Sim!!!
B1, B2, B3 e B4 – E quando foi isso?
B5 – Há três dias. Todas vocês já haviam se entregado aos delicados braços de Morfeu. Menos eu, atormentada por gases que insistiam em permanecer alojados em meu ventre, gerando insuportável desconforto. Então mamãe me tirou da caminha e começou a gingar comigo na sala, dando-me porradas alternadas nas costas e na barriga, ao mesmo tempo em que me infernizava os ouvidos com aquela merda daquela musiquinha de sempre.
B1, B2, B3 e B4 – “Boi da Cara Preta”!
B5 – Exatamente.
B1, B2, B3 e B4 – É a única cuja letra completa ela sabe.
B5 – Mas ainda que soubesse várias, o objetivo permaneceria inalterado: induzir-me ao sono através do terror!
B1, B2, B3 e B4 – É verdade! Todas as cantigas de ninar, ou pelo menos a maioria, têm como premissa básica a de nos gerar o mais indescritível pânico!
B5 – E então o interfone toca. Mamãe me reboca até a cozinha e eu fico sabendo que tio Flávio está prestes a subir. Atônita e arfante, mamãe fica indecisa quanto ao que fazer, porque até então eu não soltara um mísero arroto ou escasso peido, e obviamente que continuava gemendo e choramingando.
B1, B2, B3 e B4 – E então? Por Deus, irmã, renuncia aos detalhes e faz progredir a narrativa!
B5 – Pois bem: a campainha toca. Ela abre a porta, comigo em seus braços, tio Flávio entra e inteiramente indiferente ao meu óbvio sofrimento, começa a beijar mamãe na boca e em seguida lambe seu pescoço com sua língua estranhamente comprida e pontuda.
B1, B2, B3 e B4 – Ele tem a língua comprida e pontuda?
B5– Tem. E ao mesmo tempo em que beija e lambe mamãe, ele a apalpa em todos os seus quadrantes e profere frases obscenas.
B1, B2, B3 e B4 – Na tua frente!?
B5 – E só depois de saciado em seu ímpeto inicial é que ele se dá conta de que o bizarro amasso tivera por testemunha uma pessoa que sequer completara onze meses.
B1, B2, B3 e B4 – E então? Ele fez o quê?
B5 – O que todos os adultos fazem, estejam ou não arrebatados pelo tesão, sempre que se deparam com uma criança: falou não sei quantas vezes “bilubilú” e toda uma série de variantes debilóides!
B1, B2, B3 e B4 – Beliscou tuas bochechas?
B5 – Beliscou.
B1, B2, B3 e B4 – Te pegou no colo?
B5 – Pegou.
B1, B2, B3 e B4 – Te atirou várias vezes para o alto?
B5 – Atirou, sendo que numa dessas decolagens quase atinjo o lustre principal da sala, o que certamente causaria irreversíveis danos à minha ainda frágil ossatura craniana!
B1, B2, B3 e B4 – E depois?
B5 – Depois me devolveu pra mamãe, ao mesmo tempo em que a obrigou a apalpar sua mais do que visível ereção, dando a entender que a mesma só seria aplacada desde que iniciassem imediatamente o coito.
B1, B2, B3 e B4 – Mas como haveriam de coitar na tua frente? E ainda mais com você gemendo e choramingando?
B5 – Foi o que pensei. Mas então resolvi reprimir o mais possível qualquer exteriorização dos males que internamente me afligiam, pois tive certeza de que, assim agindo, poderia testemunhar o que logo lhes relatarei.
B1, B2, B3 e B4 – Relata logo, irmã!
B5 – Como eu me aquietasse um pouco, mas não totalmente, mamãe me levou para o seu quarto, juntamente com esse bebê-conforto em que ora me vejo instalada. E nele ela me instalou, na esperança de que viesse a adormecer. Sim, pois de nada adiantaria ela me colocar junto de vocês, já que a qualquer momento eu poderia iniciar um berreiro que haveria de interromper o que se avizinhava.
B1, B2, B3 e B4 – Ela deve ter pensado: “É possível que Antônia Eugênia, tendo consciência de que mamãe está pertinho, se comporte como convém, ou seja, ferre no sono para que mamãe possa trepar”.
B5 – Exatamente. Eu percebi tal ardil com absoluta clareza e então comecei a fingir que dormitava. Pois bem: foi o bastante para que mamãe e tio Flávio dessem início a algo impossível de ser descrito em palavras!
B1, B2, B3 e B4 – Mas se assim é, como nos contarás o que ocorreu?
B5 – Talvez me valendo de gestos ou explorando meu potencial mímico!
B1 – Não, irmã!
B2 – Nada de gestos!
B3 – Muito menos de mímica!
B4 – Tens ótimo vocabulário para a tua idade!
B1, B2 e B3 – Utiliza o verbo!
B5 – Pois bem. Desprezando detalhes dispensáveis, o que presenciei resume-se ao seguinte: visando o ápice, mamãe e tio Flávio empreenderam um espantoso contorcionismo seqüencial de piruetas, uma multiplicidade de ações simultâneas que só contribuíam para inviabilizar a beleza que, presumo eu, deveria ser inerente ao ato de amar. Impotentes do gozo pleno, faziam absoluta questão de se converter em algo que poderia definir como um “rocambole incandescente”!
B1, B2, B3 e B4 – Rocambole incandescente?
B5 – Uma espécie de bololô chispante!
B1, B2, B3 e B4 – E chegou a bom termo essa refrega lúbrica?
B5 – Isso eu ignoro. Tudo que sei é que, lá pelas tantas, e depois de proferirem palavras cujo pudor me impede de reproduzir, mamãe e tio Flávio urraram em uníssono, como se integrassem um coral razoavelmente ensaiado. E depois se calaram.
B1, B2, B3 e B4 – E em nenhum momento atentaram para o fato de que este lamentável espetáculo poderia estar sendo assistido por alguém que, além de pequenina, precisava urgentemente se livrar dos gases que a atormentavam?
B5 – Em momento algum levaram em consideração que eu efetivamente precisava arrotar ou peidar.
B1, B2, B3 e B4 – E você? Finalmente conseguiu liberar o que urgia ser liberado?
B5 – Sim. E poderia tê-lo feito antes, mas optei por esperar o término daquele bizarro festival acrobático. Uma vez saciado seu furor uterino, mamãe pousou seu saciado olhar na minha pessoa, que a contemplava com expressão enigmática. Então, depois de um tempo que julguei conveniente, liberei meus tormentos através das vias disponíveis. Mamãe sorriu, Tio Flávio também, sendo que este último ainda teve o descaramento de dizer: “Antônia Eugênia é realmente um encanto de menina”.
B1, B2, B3 e B4 – Filho bastardo, de meretriz oriundo!
B5 – Então mamãe pegou o bebê-conforto, ao qual eu estava acoplada, me levou para nosso quarto, me botou na caminha e ainda me brindou com um trechinho do famigerado “Boi da cara Preta”. Eu simulei que adormecia. E logo ela se escafedeu...(Tempo)
B1 – Que experiência dolorosa, irmã.
B2 – Que experiência dolorosa e marcante, irmã.
B3 – Que experiência dolorosa, marcante e determinante, irmã.
B4 – No que depender de mim, jamais consentirei em me transformar num rocambole incandescente.
B5 – Que nenhuma de nós empreenda contorcionismos seqüenciais de piruetas quando no leito estiver com a pessoa amada.
B1, B2, B3 e B4 – Jamais!
B5 – E se palavras forem indispensáveis, que brotem em delicadas rimas!
B1, B2, B3 e B4 – Rimando foderemos!
B5 – E nunca haveremos de fazê-lo com um homem de língua comprida e pontuda!
B1, B2, B3 e B4 – Nunca! Porque eles não respeitam as crianças! (Toca o interfone)
B5 – É ele!!!
B1, B2, B3 e B4 – É o tio Flávio!!! O que faremos, Antonia Eugênia?
B5 – É muito simples: como ele só vem aqui para foder, é bem provável que já esteja com o membro encrespado, pleno de urgência. Então nós vamos ficar quietinhas, como se adormecidas estivéssemos. Mamãe virá até aqui para conferir se de fato Morfeu já nos arrebatou e uma vez convencida de que tal se deu, em seu quarto se enfurnará na companhia deste abominável fauno, já com suas partes baixas gotejando.
B1, B2, B3 e B4 – Mamãe adora gotejar!
B5 – Então, após alguns minutos de silêncio absoluto e pétrea imobilidade, começaremos a resmungar, inicialmente bem baixinho, mas logo empreenderemos um crescendo que, ao atingir sua plenitude, haverá de acordar toda a vizinhança. E não contentes, simularemos espasmos em tudo semelhantes aos portadores de malária. Em meio a todo este caos, duvido que mamãe reúna condições psicológicas para usufruir o prazer que tanto almeja!
B1, B2, B3 e B4 – Mas...e se tio Flávio não revelar idêntica sensibilidade e ainda assim quiser...(Toca a campainha)
B5 – Se ainda assim ele insistir em consumar o ato e tentar convencer mamãe de que é perfeitamente possível ter prazer com quíntuplas urrando, então só nos restará uma alternativa: abandonaremos nossas caminhas e tal qual uma tropa bem treinada, assaltaremos a alcova e privaremos tio Flávio do asqueroso pedúnculo que ostenta!
B1, B2, B3 e B4 – Mas como nos deslocaremos, se ainda não aprendemos a andar?
B5 – É possível que na hora o consigamos, já que nobilíssima é a causa que nos move!
B1, B2, B3 e B4 – Silêncio, então, posto que em nossa casa o fauno já está!
B5 – E que Deus permita que nossas mãozinhas não tremam, se necessário for colocar em prática a estratégia prevista! (As quíntuplas fecham os olhos. Escutam-se as vozes da Mãe e do tio Flávio, que trocam obscenidades à meia voz. Ele quer ir logo pro quarto, mas a Mãe diz que primeiro precisa conferir se as filhinhas estão dormindo. Ouvem-se passos, ela diz baixinho pra ele que está tudo em paz etc., sempre transmitindo a sensação de que está sendo sarrada. Os passos do casal revelam que ambos se afastam da porta do quarto das quíntuplas. Neste momento, elas abrem seus olhos esgazeados e sorriem malévolas)

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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Amor
de Lionel Fischer

Personagens
Um homem
Uma mulher

Cenário
Palco vazio


(O Homem e a Mulher estão sempre entrelaçados, como se estivessem fazendo amor. Mudam constantemente de posição. Eventualmente, se imobilizam)

Mulher - As minhas mãos tocam o teu corpo. Sei que elas estão frias. Mas o teu corpo também está gelado. Sei que você sabe disso. Sei que você nota. E no entanto eu continuo a te acariciar. E você continua a fingir que não percebe. Por quê?
Homem - A minha boca está crispada. E há nela mais ódio do que amor. Sempre brinquei dizendo que teus seios eram dois magníficos peixes que saltavam e que eu amava capturá-los com doçura. Agora, tão perto deles, tendo-os ao meu alcance, fugiu de mim a antiga ternura. E eu me preparo, como uma fera, para capturá-los com violência. Por quê?
Mulher - Eu me volto apenas por não suportar a visão do teu rosto de vidro que se debruça sobre mim. Os teus olhos, que se transformaram em duas luzes ocas. Que não refletem mais os meus. Que não são mais os teus. Se ao menos os teus dentes se convertessem em punhais de prata e fossem corajosos para ir até o fim. Sim, acabar de uma vez com essa estranha dança que não precede o orgasmo, mas a morte.
Homem - Os nossos corpos são duas cidades mortas. São caminhos gastos que percorremos arrastando nossas próprias vidas e que conduzem a nada. Eu me sinto demente. Bêbado. Miserável. E a minha loucura e embriaguez são cada vez mais intensas e incontornáveis. Eu já sinto o abismo sob os pés e eles tremem de pavor. E no entanto...
Mulher - Eu olho à nossa volta e me apavora que sejamos a regra e não a exceção. Se fosse o contrário, não seria difícil te dizer adeus ou você a mim. E recomeçar tudo. Mas todos se arrastam como manequins, impregnados de cera e encharcados de morte. Como se todos fossem portadores de um tumor cerebral.
Homem - Há em nós sinais de uma grave doença. Talvez incurável. Fabricada com a nossa aquiescência. E somos todos portadores dessa peste. Nós geramos nossa própria ruína...assistindo a esse desfile de mãos crispadas, é possível...mas permitindo que o cortejo desfilasse.
Mulher - Nós permitimos que o nosso destino nos escapasse. Tudo o que nós criamos nos fugiu, adquiriu vida própria e hoje caminha sem sentir a nossa falta. Acima da minha vontade ou da tua, existe uma outra, superior a todas as demais: a vontade do mundo. Do mundo organizado. Civilizado. Que nos massacra impiedosamente dando a entender, no entanto, que só nutre, a nosso respeito, uma terna indiferença.
Homem - Estamos juntos, aqui, há tão pouco tempo e eu já me sinto esgotado. Aguardando com ansiedade o teu grito angustiante, que nos autorizará o silêncio e o esquecimento. Nós tombaremos, cada um para um lado. Ficaremos calados. E daremos a impressão, um ao outro, de que procuramos manter, com a imobilidade de nossos corpos, o imenso prazer pouco antes obtido. Mas estaremos mentindo. Que importa? Silêncio é sabedoria.
Mulher - Já é hora. Sinto pela milésima vez esse grito que me sobe. E que não me significa mais nada. Um dia, talvez, ele tenha sido de prazer. Hoje é de angústia. Não, não acredito que despreze esse amigo exausto que suaviza com seu corpo o peso do meu. Não. Eu apenas não sei mais o que significa essa palavra: amor. O que é?
(O casal tomba, exausto. Podem ter chegado ao orgasmo. Ou podem estar mortos)
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quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Academia
de Lionel Fischer


Personagens
Carlão
Marcão

Cenário
Uma academia de musculação.

(Carlão e Marcão estão malhando sofregamente, ao som de uma música típica. Ambos são musculosos e têm aquele ar boçal dos malhadores. Os aparelhos podem ser sugeridos por mímica. Num dado momento...)

Carlão - Marcão...me ajuda aqui no supino. (Marcão se aproxima. Carlão se deita. Marcão fica de pé, junto à cabeça do primeiro)
Marcão - Três séries, Carlão?
Carlão - Só uma, Marcão. Tô morto.
Marcão - Então vamos lá. E um...dois...três...e quatro...(A contagem continua, até chegar num ponto em que Carlão começa a dar sinais de cansaço)
Carlão - Tá bom, Marcão.
Marcão - Ainda faltam cinco, Carlão!
Carlão - Vai dar não.
Marcão - Vamos lá, garoto! Você consegue! (Carlão se esforça. Seus braços tremem. Marcão o apóia. Após a última levantada, Carlão praticamente desmaia. Marcão coloca a barra no chão e contempla o parceiro ofegante)
Carlão - Valeu, Marcão.
Marcão - Agora tu me ajuda, Carlão?
Carlão - Claro, Marcão...(Marcão e Carlão se dão as mãos. Quando Carlão começa a erguer o corpo, há uma brusca mudança na luz. Entra “Only you”)
Marcão - A tua mão...todo o teu braço...estão pelando!
Carlão - Eu todo...estou pegando fogo!
Marcão - Mas que incêndio é esse que te abrasa?
Carlão - E as tuas labaredas...o que foi que as atiçou?
Marcão - Quando eu te vi, de cima, no supino...
Carlão - Quando eu te olhei, de baixo, no supino...
Marcão - Ao te apoiar segurando a grossa e pesada barra...
Carlão - E eu, ao erguê-la, recebendo em meu rosto gotículas do teu suor...
Marcão - Eu te respinguei sem querer!?
Carlão - Foi como uma chuvinha delicada...
Marcão - Uma espécie de orvalho...
Carlão - Numa manhã de primavera.
Marcão - Gostoso!
Carlão - Tesão!
Marcão - Te mordo todo!
Carlão - Te chupo inteiro!
Marcão - Te dou na cara!
Carlão - Te puxo o cabelo! (A partir daí, eles continuam falando, mas o texto não é mais ouvido. Eles saem, ainda ao som de “Only you”, sempre trocando carícias verbais, cada vez mais obscenas)
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Ciúme

de Lionel Fischer


Personagens

4 mulheres e quatro homens


Cenário

Palco nu


(Os quatro casais estão se encarando. A cena deve ser feita o maisl velozmente possível, para que se tenha a sensação de que é apenas um casal que briga. Os personagens das mulheres serão designados como M1, M2, M3 e M4, sendo os homens H1, H2, H3 e H4. É claro que os casais são H1/M1 e assim por diante)


M1 - E então?

M2 - Tô esperando.

M3 - Ficou mudo?

M4 - Perdeu a língua?

H1 - Ana...

H2 - Paula...

H3 - Roberta...

H4 - Ctarina...

M1 - Assume!

M2 - Confessa!

M3 - Admite!

M4 - Fala!

H1 - Assumir o que?

H2 - Confessar o que?

H3 - Admitir o que?

H4 - Falar o que?

M1 - Que você me trai!

M2 - Que você me traiu!

M3 - Que você está me traindo!

M4 - Que você vai me trair!

H1 - Eu?

H2 - Quando?

H3 - Com quem?

H4 - Por quê?

M1 - Você sim!

M2 - Ontem!

M3 - Com a tua secretária!

M4 - Só Deus Sabe!

H1 - Mas eu te amo.

H2 - Ontem eu nem saí de casa.

H3 - Ela tá de férias.

H4 - Você tá delirando.

M1 - Se você me amasse...

M2 - Falou que ia na farmácia...

M3 - Mas tem outra no lugar dela...

M4 - Derirando eu estava quando me casei com você.

H1 - Ana...

H2 - Paula...

H3 - Roberta...

H4 - Catarina...

M1 - Não me toque!

M2 - Não se aproxime!

M3 - Fica longe!

M4 - Senão eu grito!

H1 - Eu adoro te tocar...

H2 - É o que eu mais quero...

H3 - Ficar pertinho...

H4 - Você fica linda gritando...

M1 - Eu quero a verdade!

M2 - Somente a verdade!

M3 - Nada mais que a verdade!

M4 - E quem fica linda gritando é a histérica da tua mãe!

H1 - Você é única...

H2 - É tudo pra mim...

H3 - Minha referência...

H4 - Minha bússula...

M1 - Se eu fosse a única...

M2 - Tudo pra você...

M3 - Tua referência...

M4 - Tua bússula...

H1/H2/H3/H4 - Mas você é!?

M1/M2/M3/M4 - Na minha tsta não estariam brotando calombos!

H1/H2/H3/H4 - Calombos?

M1 - Protuberâncias!

M2 - Pequenas lombadas!

M3 - Deformações pontudas!

M4 - Chifres, desgraçado!

H1 - Paixão, a tua testa...

H2 - Tá como sempre foi...

H3 - Super lisinha...

H4 - Como uma estrada européia!

M1 - A minha testa...

M2 - Mudou completamente...

M3 - Tá toda ondulada...

M4 - Como a antiga Niterói-Manilha!

H1 - Isso me lembra Cabo Frio!

H2 - Aquele balneário esplêndido!

H3 - Onde você se entregou pela primeira vez!

H4 - Na nossa lua-de-mel, lembra?

M1 - Claro que me lembro!

M2 - Como poderia esquecer?

M3 - Você já começou mentindo!

M4 - Jurou que a gente ia pra Búzios!

H1/H2/H3/H4 - Eu jurei isso?

M1 - E a gente acabou acampando em Cabo Frio!

M2 - No meio daquela ventania infernal!

M3 - Cercados de mineiros por todos os lados!

M4 - E aquelas caravanas do Espírito Santo!

H1 - Escuta, amor...

H2 - Presta atenção...

H3 - Me ouve...

H4 - Pelo amor de Deus!

M1 - Não!

M2 - Não!

M3 - Não!

M4 - E vê se deixa Deus de fora das tuas bandalheiras!

H1 - No próximo final de semana...

H2 - Faça chuva ou faça sol...

H3 - A gente pega um frescão...

H4 - E vai pra Búzios!

M1/M2/M3/M4 - De frescão???

H1/H2/H3/H4 - Alugado! Só pra nós dois...

M1/M2/M3/M4 - Fazer o que lá?

H1 - Comer um peixinho frito...

H2 - Um camarãozinho no espeto...

H3 - Mandar umas caipirinhas...

H4 - E depois, direto pro quarto!

M!/M2/M3/M4 - Fazer o que lá? (Eles riem, se aproximam das mulheres sem perceber que não são as suas)

M1 - Ei!

M2 - Uai!

M3 - Que é isso?

M4 - Você não é meu marido!?

H1/H2/H3/H4 - Mas posso vir a ser...quem sabe?


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Balões

de Lionel Fischer


Personagens

Ele - um menino

Ela - uma menina


Cenário

palco nu


(Eles entram correndo e rindo. Trazem balões de gás. Os dele azuis, os dela vermelhos)


Ela - Mentiroso.

Ele - Mentiroso? Eu?

Ela - Pior que mentiroso. Um verdadeiro patife, é o que você é.

Ele - Você nem sabe o que é um patife...

Ela - Deve ser alguém assim feito você. Um cara que engana a gente.

Ele - Mas eu te enganei em que?

Ela - Você me fez acreditar que ia conseguir subir esse morro de um fôlego só. E ainda falta mais da metade.

Ele - Que nada. Agora é só mais um pouquinho.

Ela - Meia-hora, no mínimo.

Ele - Dois minutos, no máximo. Depois daquela curva ali, tá vendo? Tem um riacho rasinho, que a gente atravessa num salto. Aí a gente encontra umas pedras, escala elas e pronto.

Ela - Você continua me fazendo de boba.

Ele - Confia em mim. Eu conheço o caminho de cor. Já fiz esse passeio um montão de vezes.

Ela - Pra início de conversa, essa curva que você fala que tá ali, não tá ali, tá láaaaa.....

Ele - É impressão tua. É que o ar da montanha confunde um pouco a vista. Alonga as coisas.

Ela - Você não alongou nada...

Ele - É que eu tô muito perto de você, não dá pra notar. Agora, se eu correr até lá você...

Ela - Então corre! Eu quero te ver cumprido. Talvez você fique muito mais bonito.

Ele - Só se você vier comigo.

Ela - Esse riacho pode ter caranguejo.

Ele - Só tem peixinho lá.

Ela - Eu não sei subir em pedra.

Ele - Eu te dou a mão.

Ela - É melhor você continuar sozinho. Eu te espero aqui.

Ele - Deixa de ser medrosa. Você vai achar lindo.

Ela - Eu vou é acabar escorregando e perdendo os meus balões.

Ele - Escuta: a genta já tá parado aqui há um tempão. Daqui a pouco anoitece.

Ela - É mesmo...eu nem tinha reparado. Como o tempo passa depressa...Vamos descer.

Ele - E o nosso plano?

Ela - Fica pra amanhã, tá? Eu te prometo. A gente acorda bem cedinho e...

Ele - Eu pensei que você queria...

Ela - Mas eu quero.

Ele - Quer, mas não vai. Que coisa esquisita...

Ela - Eu tô com medo, ora!? Tem alguma coisa demais nisso?

Ele - Você é a primeira namorada que eu convido pra conhecer a montanha.

Ela - Eu não sou tua namorada!?

Ele - Mas ia ficar sendo! Lá em cima eu ia fazer a proposta...

Ela - E quem te garante que eu ia aceitar?

Ele - Duvido que você recusasse.

Ela - Você é muito convencido, sabia?

Ele - Qualquer um percebe que você já tá...completamente por mim.

Ela - Completamente o que?

Ele - Você pensa que me engana? Essa história de caranguejo, tropeção, cansaço, tudo isso você só inventou pra não ter que chegar lá em cima e dar o braço a torcer.

Ela - Escuta aqui, seu bobão...

Ele - Até tua mãe já descobriu.

Ela - Você falou o que com a mamãe?

Ele - Eu? Nada...Ela é que me procurou! E disse que você mal come, passa as noites inteiras segredando coisas pro meu retrato...

Ela - Eu nunca tive nenhum retrato teu!?

Ele - Que vai acabar levando bomba...

Ela - Mentira!

Ele - E tudo isso por que? Por que vocês, meninas, têm mania de fazer cu doce!

Ela - Fazer o que?

Ele - É...eu quero dizer...vocês, meninas...pôxa, vocês...

Ela - Eu quero ir embora.

Ele - Mas você vai ficar zangada comigo só porque eu...

Ela - Eu nunca podia imaginar que você falasse comigo desse jeito.

Ele - Saiu sem querer.

Ela - Só pra eu ficar sem graça.

Ele - Uma palavrinha atôa!?

Ela - É assim que começa.

Ele - Eu te peço desculpa, tá?

Ela - Me leva embora.

Ele - Eu nunca mais falo cu na tua frente!

Ela - Outra vez!?

Ele - Prometo!

Ela - Eu imaginei que você fosse diferente dos outros...

Ele - Mas eu sou!

Ela - Foi só por isso que eu vim, tá? Foi só por isso que eu topei escalar essa montanha com você, porque eu te imaginei...

Ele - Então continua imaginando. Só mais um pouquinho. Não custa nada!?

Ela - Custa sim.

Ele - Você ia gostar tanto...

Ela - Eu também achei que ia...

Ele - Então!? Será possível que só porque eu falei...(Ela tapa a boca dele. Ele se espanta. Ela sorri. Depois de um tempo, retira devagar a mão. E então o beija. Ele se espanta, mas logo retribui o beijo. Em seguida, eles se abraçam e voltam a se beijar, deixando escapar os balões)


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Antígona y Ismênia
de Lionel Fischer


Personagens
Antígona
Ismênia

Cenário
Palco nu


Antígona - Ismênia, irmã querida, está aí?
Ismênia - Não, coisa enjoada, estou lá!
Antígona - Mas que fazes ajoelhada, olhos semi-cerrados, a balançar-te como se uma brisa...
Ismênia - Que brisa, Antígona? Conheces os meus hábitos. Sabes que padeço de brutal insônia e que, para dormir, após tomar meu último Frontal, tenho que postar-me de joelhos, fechar os olhos e ficar gingando. Só assim Morfeu me acolhe em seus entorpecidos braços.
Antígona - Perdoa, irmã, a inoportuna interrupção de teu noturno embalo. Mas é que estou possuída de uma tal angústia que...
Ismênia - Angústia essa que se perpetua em face de tua renitência em fazer análise. Oh, Zeus, já quantas vezes te falei que o doutor Sergius Machadus porderia pôr um fim a essa tua pentelhice crônica, mescla de afetos mal resolvidos e pruridos hormonais descompassados? Mas não: continuas firme em tua determinação de torrares o saco de quem te ama.
Antígona - Irmã, minha presente angústia nada tem a ver com afetos e pruridos. Como sabes, Etéocles ganhou digna sepultura. Quanto a Polinices, a este Creonte reservou...
Ismênia - Por favor, irmã prolixa, não enfades a platéia com informações já conhecidas!
Antígona - Mas...será possível que com tal decreto te conformes?
Ismênia - Uai...quem mandou Polinices se aliar ao inimigo? Tebas venceu e ele, consequentemente, se fudeu...
Antígona - Irmã! Não empregues tal verbo de movimento em minha presença. Sabes que sou casta e me embaraço.
Ismênia - E a culpa é de quem? Do teu cabaço, que manténs intacto sabe Zeus por que!
Antígona - Por favor, irmã. Deixa em paz minha delicada película. Aqui não estou em busca de sermões de natureza lúbrica. Vim para contigo traçar um plano que permita livrar nosso adorado irmão do trágico destino que o aguarda.
Ismênia - Nada podemos fazer quanto a isso. E agora vá, senão acabo revelando-te a principal razão que move nosso tio/tirano.
Antígona - Como assim? O que insinuas? Conheces algo que minha proverbial ingenuidade impediu-me de perceber?
Ismênia - Insistes? Pois bem: senta-te aqui, pomba-rola eternamente assombrada. E prepara-te para desmaiar após o relato que ora te farei.
Antígona - Faça-o, por Zeus! E nada omitas, nem o mais ínfimo detalhe.
Ismênia - Ouve calada, porra! Senão, dopada como estou, perderei o fio da meada.
Antígona - Prometo-te mudez absoluta.
Ismênia - Pois bem: numa noite, pouco antes de estourar essa debilóide guerra, como o sono me fugisse resolvi fazer um tour pelo palácio. Quando passava pelas imediações dos aposentos de Creonte, ouvi gemidos. Pensando que nosso tio/tirano pudesse estar padecendo de algum mal, aproximei-me visando lhe prestar socorro. Foi então que, na penumbra de sua ante-sala, deparei-me com o seguinte quadro: Polinices de pé e recostado naquela coluna rosa. A seus pés, ajoelhado, nosso tio Creonte.
Antígona - E que fazia titio em tal posição?Suplicava perdão ao nosso irmão por alguma injustiça cometida?
Ismênia - Em absoluto: dedicava-se com afinco a pagar um boguete.
Antígona - Um boquete!? Mas o que vem a ser isso? Uma nova moeda? Um objeto? Explica-me!
Ismênia - Ah, irmã querida...não fosses tu sangue do meu sangue e eu te mandaria tomar no cu!
Antígona - Por Zeus! Outra vez palavras obscenas!?
Ismênia - A elas me obrigas, porra. Mas vamos ao que interessa. Ajoelhado, pois, como já te disse, nosso tio Creonte sugava com paixão o ereto membro de nosso irmão.
Antígona - Não!
Ismênia - Sim! E tudo parecia caminhar para um desenlace satisfatório quandoPolinices soltou um urro.
Antígona - Arrependeu-se!
Ismênia - Não! Creonte lhe arrebatara um segmento do prepúcio. E a dor sentida foi tamanha que logo converteu-se em cólera. Então, Polinices amaldiçoou a inabilidade de Creonte e deu-lhe um cacete na nuca. Mas antes de tombar desacordado, nosso tio/tirano anunciou que sua vingança em muito excederia a humilhação que nosso irmão ora lhe impunha! Aí tens, irmã querida, a correta motivação para a condenação imposta. Não desmaias? (Antígona vagueia pela cena com ar perdido. Impaciente, Ismênia se aproxima e lhe estende a mão) Toma um Frontal, irmã. E amanhã procura o doutor Machadus. Seu divã, ornamentado de almofadões de veludo, há de converter-se em tua morada pelos próximos 30 anos...
Antígona - É o que imagino. (Engole o Frontal) E agora adeus...a meus aposentos me retiro...urge refletir.
Ismênia - Faça-o em versos. Fica mais profundo...

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