sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Teatro/CRÍTICA

"Mais respeito que sou tua mãe!"


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Humor desvairado no Leblon


Lionel Fischer


Embora tenha plena consciência de que conselhos são inúteis, já que ninguém os segue, ainda assim darei um agora: os puritanos de plantão devem passar ao largo da presente montagem. Em caso contrário, correm o sério risco de deixar o teatro, como dizia Nelson Rodrigues, com "os brios mais eriçados que as cerdas bravas do javali". E isto por uma questão muito simples, de natureza semântica: o vocabulário utilizado pelos personagens provavelmente chocará ouvidos, digamos, muito sensíveis; ou, para ser mais objetivo, pessoas cuja irremediável hipocrisia e falso verniz adotarão ares ofendidos e irão para suas casas praguejando como viúvas machadianas.

No entanto, cabe registrar o seguinte: se os personagens falam uma inimaginável quantidade de palavrões, assim como lançam mão de expressões inegavelmente chulas, tanto os palavrões como as tais expressões estão em perfeita sintonia com o contexto, já que estamos diante de um texto que gira em torno de uma família completamente desvairada, composta por pessoas à margem dos padrões convencionais de comportamento e que, em vista disso, só seriam críveis se agissem e se expressassem da forma como o fazem.

Isto posto, vamos ao que interessa. A partir do texto original de Hernán Casciari (não sei se uma peça, conto, novela etc.), Antônio Gasalla criou uma versão teatral, que agora chega ao público carioca em nova versão, desta vez assinada por Miguel Falabella, também responsável pela direção. Em cartaz no Teatro do Leblon, "Mais respeito que sou tua mãe!" tem elenco formado por Claudia Jimenez (Nalva), Ernani Moraes (Jorge, seu marido), Sr. Jacinto (Henrique Oscar, pai de Jorge), Frank Borges (Jair), Sara Freitas (Monique) e Gabriel Borges (Cajá) - filhos do casal - e Séfora Rangel (Suzana e Seila, personagens episódicos).

Como já foi dito acima, toda a narrativa gira em torno de uma família completamente desvairada, capitaneada por Nalva. Mulher de humor ácido e crítico, impiedosa e terna, romântica e nostálgica, ela estabelece hilariantes e imprevistas relações com os membros de sua família, ao mesmo tempo em que comenta os fatos que vivencia com a platéia. E o contexto é realmente delirante: um dos filhos de Nalva revela-se gay, sua filha evidencia inegável vocação para a prostituição, seu outro filho é um completo debilóide e o marido, um troglodita cuja única paixão é ser vascaíno. Finalmente, temos um sogro cujo passatempo predileto é plantar maconha no jardim de Nalva. Mas em meio ao desvairado caos que marca o cotidiano da família, ainda assim percebe-se que a mesma sobrevive e, numa certa medida, consegue equacionar seus bizarros conflitos.

Com relação ao espetáculo, Miguel Falabella impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com o texto: debochada, eletrizante, caótica, não isenta de elementos operísticos e, sobretudo, muito engraçada - afora o fato de investir corajosamente numa linha que, muito provavelmente, outros encenadores relutariam em adotar, sob o argumento de que poderiam causar algum (ou total) desconforto na platéia.

Por outro lado, torna-se imperioso reconhecer que muito do sucesso desta curiosa empreitada teatral se deve à presença de Claudia Jimenez. Comediante por excelência, capaz de gerar gargalhadas com um leve meneio de cabeça ou com uma imprevista pausa, a atriz domina a cena por completo, ainda que muito bem coadjuvada sobretudo pelos experientes Ernani Moraes e Henrique César, excelentes atores, com vastíssima experiência, e que extraem de seus personagens tudo que eles têm a oferecer. Quanto aos demais, todos exibem atuações eficientes, contribuindo para a harmonia - se é que esta palavra faz aqui algum sentido - do todo.

Na equipe técnica, José Dias assina uma cenografia perfeitamente adequada ao contexto, sendo excelentes os figurinos de Sônia Soares. Carlos Lafert responde por uma iluminação correta, a mesma correção presente na trilha sonora de Leandro Lapagesse.

MAIS RESPEITO QUE SOU TUA MÃE! -Texto e direção de Miguel Falabella. Com Claudia Jimenez, Ernani Moraes, Henrique César, Frank Borges, Sara Freitas, Gabriel Borges e Séfora Rangel. Teatro do Leblon (Sala Marília Pêra). Quinta a sábado, 21h. Domingo, 20h..

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Teatro/CRÍTICA

"Maria do Caritó"

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Belíssima celebração à vida


Lionel Fischer


"Caritó é a pequena prateleira no alto da parede, ou nicho nas casas de taipa, onde as mulheres escondem fora do alcance das crianças, o carretel de linha, o pente, o pedaço de fumo, o cachimbo. Vitalina, conforme a popularizou a cantiga, é a solteirona, a môça-velha que se enfeita - bota pó e tira pó - mas não encontra marido. E assim, a Vitalina que ficou no caritó é como quem diz que ficou na prateleirra, sem uso, esquecida, guardada intacta".

Este texto, extraído do programa, estabelece pertinente paralelo entre a dita prateleira e a protagonista do presente espetáculo, Maria, mulher à beira dos 50 anos, cuja mãe morreu quando a paria e carrega o fardo de uma promessa feita por seu pai: se Deus poupasse sua vida, esta seria a Ele dedicada, mantendo-se virgem e quem sabe promovendo milagres. No entanto, todos os anos Maria faz patéticos pedidos a Santo Antônio - e a muitos outros santos - para que lhe arranje um marido.

Eis, em resumo, o enredo de "Maria do Caritó", em cartaz no Teatro dos Quatro. De autoria de Newton Moreno, a peça chega à cena com direção de João Fonseca e elenco formado por Lilia Cabral, Leopoldo Pacheco, Fernando Neves, Silvia Poggetti e Dani Barros.

Se encarado em seu aspecto mais óbvio, o texto de Newton Moreno se limitaria a narrar o conflito de uma mulher dividida entre seus legítmos anseios e atitudes que é forçada a adotar em função da já mencionada promessa feita por seu pai. No entanto, me parece que a Maria em questão não é apenas um ser individualizado, mas símbolo de todas as Marias e, em última instância, de todos aqueles que não se conformam com o destino que lhes foi traçado. E que lutam, com esperança e fé, para reverter este quadro. E é então que o autor constrói um contexto que acaba tornando viável, através do lúdico, a materialização dos sonhos da protagonista.

Obrigada por seu pai a continuar simulando milagres, que em dado momento ajudariam a fortalecer a campanha eleitoral do coronel que manda na cidade, ao mesmo tempo Maria se agrega à trupe de um pequeno circo, candidatando-se a palhaça. E ali conhece o galã do circo, um pseudo russo que, na verdade, é um legítimo cearense. Ela se apaixona, é claro, e a possibilidade de finalmente concretizar seu grande sonho reafirma ainda mais sua esperança de deixar para trás meio século de frustrações. Entretanto, o autor conduz a narrativa de tal forma que, em seu desfecho, a peça nos mostra o triunfo da essência de um caráter que finalmente consegue se libertar das máscaras que lhe foram impostas. As "personagens" desaparecem, restando o que de fato importa: uma verdadeira mulher, agora totalmente capaz de vivenciar o amor em toda a sua plenitude.

Impregnado de humor, fantasia e lirismo, contendo ótimos personagens e uma narrativa que alterna o real e o onírico, "Maria do Caritó" é um texto absolutamente irretocável, que reafirma o enorme talento de Newton Moreno, que aqui se mostra, mais uma vez, capaz de tocar profundamente o coração do espectador, que fatalmente sairá do teatro com a certeza absoluta de que, a exemplo de Maria, vale a pena insistir até ver materializados seus mais caros anseios e impulsos. Em última instância, trata-se de uma belíssima celebração à vida.

Quanto ao espetáculo, este talvez seja o melhor já realizado por João Fonseca. Impondo à cena uma dinâmica em total sintonia com os conteúdos propostos pelo autor, só passíveis de serem materializados através de uma linguagem que alternasse, a cada momento, aspectos reais e oníricos, o diretor consegue criar uma atmosfera de puro encantamento, que seduz a platéia desde o início e a converte em cúmplice ao longo de todo o espetáculo. Além disso, cabe ao encenador o mérito suplementar de haver extraído maravilhosas atuações de todo o elenco.

Desdobrando-se em vários personagens, Leopoldo Pacheco, Fernando Neves, Silvia Poggetti e Dani Barros - esta última engraçadíssima em todas as suas intervenções - exibem grande versatilidade, ótima contracena e aquela esfuziante alegria de estar em cena, certamente em função da consciência que possuem de estar participando de uma inesquecível empreitada teatral.

No que se refere a Lilia Cabral, o que me restaria dizer sobre ela, além de tudo que já disse, em inúmeras ocasiões? Ressaltar, mais uma vez, seus aparentememnte inesgotáveis recursos expressivos? Estaria sendo repetitivo. Sair à procura de adjetivos até hoje não utilizados? Tarefa pueril, sem dúvida. Então, como expressar meu total encantamento por esta atriz que é capaz, com o mesmo êxito, de transitar por todos os gêneros e em todos os veículos? Vamos, pois, optar pela simplicidade: sendo o teatro, como o define Peter Brook (o maior encenador vivo), a "arte do encontro", ver Lilia Cabral em um palco converte-se em uma experiência única, pois ela me possibilita - e certamente a todos que têm o privilégio de vê-la em cena - não apenas um encontro entre seu trabalho e eu, que o analiso. Não, é muito mais do que isso: todas as vezes que vejo Lilia Cabral em um palco, o maior encontro que se dá é comigo mesmo, pois invariavelmente saio do teatro me conhecendo (e reconhecendo) bem mais do que quando nele entrei. Portanto, Lilia Cabral, devo a você alguns dos momentos mais felizes de minha vida. E por isso te sou eternamente grato.

No tocante à equipe técnica, destaco com o mesmo e irrestrito entusiamo o brilhante e expressivo trabalho de todos os profissionais envolvidos nesta montagem que, sob todos os pontos de vista, se insere entre as mais expressivas já exibidas em palcos cariocas - Nello Marrese (cenografia), Paulo César Medeiros (iluminação), J.C. Serroni (figurinos), Alexandre Elias (trilha sonora, canções originais e direção musical), Kika Freire (direção de movimento), Tatiana Wanderley (designer gráfico) e a toda equipe responsável por esta produção impecável.

MARIA DO CARITÓ - Texto de Newton Moreno. Direção de João Fonseca. Com Lilia Cabral, Leopoldo Pacheco, Fernando Neves, Silvia Poggetti e Dani Barros. Teatro dos Quatro. Quinta a sábado, 21h30. Domingo, 20h.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Pedido

Gostaria de pedir aos parceiros deste blog a gentileza de, quando postarem um comentário, deixarem e-mail ou qualquer outro tipo de endereço para que eu possa entrar em contato. O normal seria, naturalmente, que eu respondesse ao comentário de vocês no espaço destinado a isso. No entanto, minha ignorância no tocante a computadores (como já declarei várias vezes) é de tal magnitude que acabo me distraindo e errando - chega a ser constrangedora minha inabilidade com este objeto, que me causa problemas que uma criança de três anos com sono resolveria em segundos. Enfim, esta é a realidade: computadores não gostam de mim, da mesma forma que nutro por eles um sentimento análogo. Então, estamos combinados? E caso queiram me escrever, meu e-mail é este: lionelfischer54@hotmail.com

Beijos,

Lionel Fischer

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Flores de Chumbo

Lionel Fischer
(1984)


CAPÍTULO XII


Às nove horas eu já estava elegantemente vestido e perfumado, pronto para o encontro noturno. Como ainda fosse um pouco cedo, peguei ao acaso um trecho da vida de Ambrosina. A passagem focalizava uma longa discussão que ela tivera com Monsenhor Flávio, orientador das almas da cidade, sobre os efeitos produzidos no organismo humano pelo excesso de incenso. Fui acompanhando o desenvolvimento da monumental arenga até que um detalhe me chamou a atenção: o que teria sido feito do tal Monsenhor? Se ele tivesse comparecido ao enterro de Ambrosina eu o teria notado, pois sendo uma figura de prestígio não se conformaria em ficar misturado à plebe, teria exigido um lugar de destaque. Portanto, deveria estar vivo e ainda morando na cidade, talvez na igreja. Mas, comendo o quê? Será que também assaltara um estabelecimento público? Teria algo a ver com a hedionda Ecúria? E, finalmente: sendo uma pessoa tão íntima do Senhor, por que não procurara o convento para comunicar a tragédia?

As perguntas me ocorriam de roldão e as teria formulado em dobro se não houvesse consultado ocasionalmente o relógio, o que me conscientizou de duas realidades. A primeira, de ordem temporal: já eram vinte para as dez. A segunda, de natureza espacial: não sabia como chegar ao terraço! No calor da emoção me esquecera completamente de perguntar à irmã Geovana qual o trajeto que deveria seguir para atingi-lo - sem ser visto, naturalmente, já que se tratava de um encontro sigiloso. Assim, carente de outra opção, decidi escalar de novo os telhados. Isto representaria, sem dúvida, um grande risco, já que dessa vez minha visibilidade seria precária. Mas não havia outra alternativa e foi o que acabei fazendo.

Depois de incontáveis escorregões, tropeços, quedas e vertigens, finalmente atingi o ponto mais alto do convento. Foi aí que reparei que o terraço abrangia todo o último andar e possuía muitos planos. Não havia também, como sempre pensara, um único pátio, mas vários e de diferentes tamanhos. O convento, na realidade, era um conjunto de edifícios que se interligavam tanto internamente - através dos infindáveis corredores aos quais já me referi - quanto externamente, e dava a sensação de haver sido progressivamente ampliado. Esse tipo de construção apresentava inúmeras vantagens. No caso de um ataque, por exemplo, se um dos lados do convento estivesse sendo muito assediado, as irmãs que defendiam o outro não precisariam, como numa fortaleza convencional, dar uma volta completa para atingi-lo: bastaria enveredar por um dos segmentos existentes, economizando tempo e algumas vidas. A cidadela, sem dúvida, deveria ter sido idealizada por jesuítas, cuja ordem, como todos sabemos, sempre se caracterizou por manejar com igual destreza o evangelho e a espada.

Satisfeito com minha capacidade dedutiva e já com a respiração normalizada, comecei a caminhar lentamente à procura de minha amada. Mas a noite, desgraçadamente, não facilitava minha tarefa. Não havia nem lua nem estrelas. O céu estava carregado e tudo indicava a iminência de uma tempestade. Aquele lugar, refúgio ideal para dois amantes - considerando-se a beleza da vista e a solidão que proporcionava - parecia então um sítio de mau agouro, cheio de vibrações negativas, palco ideal para uma tragédia.

À medida que fui caminhando, tentei expulsar de minha mente esses pensamentos funestos, mas o tempo passava, não encontrava irmã Geovana e os tais pensamentos foram se tornando cada vez mais intensos e funestos. Como uma alma penada que procurasse as portas do paraíso, eu olhava à direita e à esquerda, subia e descia pequenas escadas, debruçava-me, girava o corpo ao menor ruído, mas tudo em vão. Já não tinha sequer idéia de onde estava e se precisasse retornar rapidamente ao meu quarto não saberia como fazê-lo.

Até esse momento não havia consultado o relógio, temendo me desesperar, mas de repente resolvi fazê-lo. E quando vi que já eram onze horas me descontrolei completamente e comecei, aos berros, a clamar por minha amada, indiferente ao fato de que poderiam me escutar. Mas esse risco se tornou mínimo, pois logo desabou um temporal operístico. O céu, recortado de serpentes furiosas, fazia sua catarse, descontava na Terra suas frustrações imensas. Em meio a esse orgia de cores, sons e turbulências, nem eu mesmo conseguia ouvir direito os desesperados apelos que lançava. Enlouquecido, corria pelos terraços gritando insultos contra a natureza, que tentava boicotar o meu amor; contra Deus, que o inventara; contra irmã Geovana, que faltara ao nosso encontro; e finalmente contra mim mesmo, que se tivesse dado ouvidos à minha mãe, já estaria formado em medicina e com um bela clientela. Mas não: decidira viajar, conhecer o mundo e o resultado era esse que se via...

Subitamente, um espantoso clarão iluminou a parte do terraço em que eu estava e a esperança me voltou: a cerca de cinqüenta passos, um vulto aguardava, imóvel, recostado na muralha! Assim que o vi me precipitei como um bólido em sua direção e quando o alcancei o abracei com tanta força que ele soltou um grito. Estava de costas para mim e além da dor deve ter sentido igualmente um grande susto. Mas eu estava tão exaltado que nem sequer me desculpei ou o tranquilizei: gritei-lhe, isso sim, todo o meu amor, beijei sua touca como se ela fosse seus cabelos, apalpei seu hábito como se o mesmo fosse sua pele e finalmente o virei para mim e me enfiei em sua boca, nos seus olhos, nos seus ouvidos, cegando, ensurdecendo e tornando muda aquela que amava acima de qualquer coisa neste mundo!

Num dado momento, já com a tensão aliviada, me afastei um pouco. Queria, então, apenas contemplá-la, a ela, que correra todos os riscos para me ver e que eu, injustamente, injuriara. Ela, que passara a simbolizar a própria vida e cuja doçura, inteligência e firmeza me fizeram novamente acreditar que poderia ser feliz. Ela, irmã Geovana!

Um novo clarão encheu de luz as trevas e ao meu coração de pasmo. À minha frente não estava a deusa de minha vida e sim irmã Fernanda, que me olhava sem animosidade, mas com um ar que sugeria um contido deboche. Incapaz de acreditar no que acabara de ver, recuei um passo, na esperança de que o próximo clarão desfizesse a falsa impressão que tivera. Irmã Fernanda, no entanto, que se encharcara até a medula e tremia de frio, não se dispôs a esperá-lo:

- Senhor Aquino: irmã Geovana não pôde comparecer e me pediu que lhe desse o seguinte recado. Nos arredores da cidade existe uma granja e é para lá que deve se dirigir quando sair daqui. Não será difícil encontrá-la, pois é a única que existe nas redondezas. Nela há uma dispensa com comida e água para uma semana. Seus escritos e pertences serão enviados para lá amanhã, de forma que você só terá que iludir irmã Vôncia, embarcando no trem e saltando mais adiante. Aqui está a chave da granja. Irmã Geovana irá vê-lo tão logo seja possível. E agora vamos, já passa da meia-noite.

Acompanhei-a ainda em estado de choque, como um zumbi. Não consigo sequer recordar o trajeto que fizemos, apenas que, num dado momento, ela me disse:

- Siga até o fim deste corredor. A última porta à esquerda é a sua.

Então, irmã Fernanda desapareceu. Ao chegar ao meu quarto, deitei-me como estava e conservando entre as mãos a preciosa chave, adormeci imediatamente.

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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Teatro/CRÍTICA

"Tentativas contra a vida dela"

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Exasperante hermetismo


Lionel Fischer


Em certa ocasião, instado a dar sua definição sobre teatro, Peter Brook (o maior encenador vivo) limitou-se ao seguinte: "O teatro é a arte do encontro". Com isto ele pretendia, obviamente, enfatizar que, na inexistência de um forte elo entre quem faz e quem assiste, o fenômeno teatral não se materializa. E para que tal materialização se dê, fica implícito que o espectador tenha acesso aos conteúdos propostos pelo autor, sejam eles quais forem, e independentemente da linguagem utilizada, podendo ser esta tanto acadêmica quanto de vanguarda.

No presente caso, estamos diante de um texto que, segundo o release que me foi enviado, "proporciona aos espectadores uma experiência instigante, além de sugerir uma reflexão cortante e bem-humorada sobre o mundo, as artes e algumas questões pertinentes ao momento em que vivemos. A peça, como o próprio subtítulo descreve - 17 situações para o teatro -, apresenta cenas autônomas sem personagens realistas ou narrativa linear, mas que tem uma simetria refinada e se relacionam com referências mútuas. Sem personagens e sem uma história para contar, a peça apresenta diversas possibilidades para desvendar a identidade de uma protagonista ausente. Mas cada nova tentativa de definir essa mulher acaba por comprometer a definição anterior".

Enfim...eis, em resumo, o enredo (?) de "Tentativas contra a vida dela", do dramaturgo inglês Martin Crimp, em cartaz no Espaço Cultural Sérgio Porto. Tradução e pesquisa a cargo de Daniele Avila, a montagem chega à cena com direção de Felipe Vidal e elenco formado por Gabriela Carneiro da Cunha, Lucas Gouvêa, Luciana Fróes, Carol Condé, Marcela Moura, Sérgio Medeiros, Renato Carrera, José Karini e Talita Fontes.

Ao longo desses últimos 21 anos exercendo, dentro outros, o ofício de crítico teatral, sempre fiz absoluta questão de manter inalteradas algumas premissas, tais como: jamais comparecer a um espetáculo com uma postura pré-concebida; jamais, no caso de um texto muito conhecido e que já tenha visto encenado várias vezes, estabelecer qualquer tipo de comparação entre a montagem que acabo de assistir e aquela que mais me agradou; e, fundamentalmente, sempre tentei perceber o que um grupo pretende, e não aquilo que julgo que deveria pretender. Ou seja: sempre vou ao teatro tentando, na medida do meu possível, compreender o que me está sendo mostrado. E mesmo quando eventualmente discordo daquilo que assisto, sempre faço questão de deixar claro que, por não ter a pretensão de deter o monopólio da verdade, posso perfeitamente estar enganado.

Isto posto, gostaria de ressaltar que, de tudo que presenciei, só a primeira cena me pareceu compreensível - nela, dois atores, autores ou roteiristas tentam juntos criar uma história, vivenciado as mútuas propostas. A partir daí, no entanto, me foi literalmente impossível estabelecer um mínimo de envolvimento com a montagem. É claro que, em função de minha experiência, poderia alinhavar uma infinidade de conjecturas, mas estaria sendo leviano e falso. Assim, prefiro assumir minha total incompreensão ante o que assisti, sem com isso desejar que a platéia sinta o mesmo.

E partindo-se dessa confissão, não vejo como analisar o trabalho dos atores e da equipe técnica. Tudo o que posso dizer é que, em cena, estão intérpretes em sua maioria ainda bem jovens, mas de evidente talento - aliás, já vi a maioria atuando em outros espetáculos e de forma plenamente convincente, o mesmo aplicando-se aos profissionais da técnica. E, para encerrar, não poderia deixar de formular a sequinte pergunta: será que ninguém, em algum momento do processo de ensaio, se perguntou se este estava caminhando num rumo capaz de, mais adiante, quando o espetáculo chegasse à sua forma final, poder ser minimamente apreendido pelos espectadores? Ou será que o teatro, ao contrário do que sustenta Brook, não precisa necessariamente ser "a arte do encontro?"

TENTATIVAS CONTRA A VIDA DELA - Texto de Martin Crimp. Direção de Felipe Vidal. Com Gabriela Carneiro da Cunha, Renato Carrera e outros. Espaço Cultural Sérgio Porto. Sexta e sábado, 21h. Domingo, 20h.
Teatro/CRÍTICA

"Tudo que eu queria te dizer"

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Montagem imperdível nos Correios


Lionel Fischer


Numa época em que infinitas variações tecnológicas dominam (ou tentam dominar) os mais prosaicos aspectos de nossas vidas, receber ou enviar cartas tornou-se algo tão obsoleto que quase chega a ser risível. No entanto, e falando apenas em meu nome, devo confessar que sou apaixonado por cartas, um pouco porque odeio computadores (cabendo registrar que os mesmos nutrem sentimento análogo por mim) e um outro tanto porque, em muitos pontos de minha paradoxal personalidade, considero-me um homem do século 19.

Assim, quando soube que o presente espetáculo se baseava no livro homônimo de Martha Medeiros, constituído por cartas, fui ao Centro Cultural Correios num estado de excitação que, fosse eu chegado a remédios, não hesitaria em tomar um Rivotril. Além disso, veria em cena uma das mais brilhantes atrizes deste país - Ana Beatriz Nogueira - sendo dirigida pelo excelente encenador argentino Victor Garcia Peralta. Ou seja: só por inimaginável crueldade dos sempre caprichosos deuses do teatro deixaria o local com outro sentimento do que aquele que de lá saí: completamente fascinado.

Numa cena totalmente despojada, idealizada pelo diretor, ocupada apenas por uma cadeira e uma pequena estante sobre a qual estão depositadas algumas garrafas d'água, cujo precioso conteúdo a atriz sorve de tempos em tempos, tomamos conhecimento de seis cartas, totalmente independentes entre si, que não são lidas, obviamente, pela atriz, mas por ela interpretadas.

Sem entrar em maiores detalhes, pois isso privaria o espectador de muitas surpresas, limito-me apenas a dizer que a autora consegue, em todos os temas abordados, exibir doses equivalentes de humor e tristeza, sagacidade e mágoa, ironia e desamparo, enfim, observações oriundas de sua aguda percepção da realidade e de sua notória coragem de dizer o que pensa, sem levar em conta correntes de pensamento ou comportamento em voga.

Diante da excelência dos textos e tendo à sua disposição uma atriz de exceção, o diretor Victor Garcia Peralta impõe à cena uma dinâmica simples e elegante, deixando todo o resto praticamente nas mãos da atriz. Sábia opção, evidentemente, pois como acabo de dizer, Ana Beatriz Nogueira pertence ao seleto rol de atrizes capazes, graças aos seus imensos recursos expressivos, de extrair tudo que um personagem (aqui vários) pode oferecer. E se a isto somarmos seu carisma, forte presença e inteligência cênica, o resultado não poderia ser outro: uma montagem absolutamente imperdível, à qual nenhum espectador pode se dar ao luxo de não assistir.

No tocante à ficha técnica, Ana Beatriz Nogueira veste-se de negro (figurino não assinado), cabendo a Gabriel Mesquita a adequada trilha sonora. Quanto à iluminação, Maneco Quinderé exibe seu talento habitual, aqui iluminando a cena com sutis, delicadas e pertinentes variações.

TUDO QUE EU QUERIA TE DIZER - Texto de Martha Medeiros. Direção de Victor Garcia Peralta. Com Ana Beatriz Nogueira. Espaço Cultural Correios. Quinta a domingo, 19.

sábado, 11 de setembro de 2010

Teatro/CRÍTICA

"A caolha"

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Tragédia e lirismo no Jockey


Lionel Fischer


Certas relações, como todos sabemos, são inevitavelmente complicadas, ainda que não deixem de ter aspectos positivos. No presente caso, estamos diante de uma mulher que, além de pobre (trabalha como lavadeira), possui um defeito que infunde "terror às criancinhas e repulsa aos adultos". Isto se deve à ausência de seu olho esquerdo, onde existe uma ferida repugnante que jamais cicatriza. Quando atinge a idade escolar, o filho, que até então não dera importância a este fato e tratava a mãe com extremo carinho, passa a ser alvo de chacotas de seus colegas, o mesmo acontecendo quando, já mais velho, é hostilizado pelos companheiros de trabalho. Da adolescência em diante, o filho vai aos poucos mudando seu comportamento com relação à mãe. Até que, no final, lhe é revelada uma surpresa aterradora.

Eis, em resumo, o enredo de "A caolha", texto de João Batista livremente inspirado no conto homônimo de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934). Em cartaz no Teatro Municipal do Jockey, "A caolha" - mais recente produção da Cia. Dramática de Comédia - chega à cena com direção de Batista e elenco formado por Sonia Praça (Caolha), Pericles Amim (Antonico, seu filho), Leonardo Miranda (Narrador/Seu Tobias/Dono do bar), Giselda Mauler (Madrinha), Cleiton Rasga (Inspetor/Marceneiro/Alfaiate/Rapaz do Bar), Julia Deccache (Isabel/Professora) e Conrado Cavalcante (Músico/Rapaz do Bar).

Como não li o original, não posso avaliar os méritos da presente adaptação. De qualquer forma, ela consegue materializar na cena uma história pungente, cuja fluência mantém o espectador em permanente estado de tensão e interesse. E a estes predicados se junta um outro, que em muito contribui para a forte relação que se estabelece entre palco e platéia: a linguagem utilizada. Esta se apóia nos melodramas circenses (circo-teatro), muito em voga em palcos nacionais no início do século passado.

Aqui, tal linguagem é trabalhada com total seriedade, sem nenhuma pretensão de criticá-la. Isto significa que o grupo assumiu uma série de riscos, à medida que retoma um gênero já há muito abandonado e que poderia perfeitamente ser encarado como algo anacrônico, e portanto sujeito a um certo ridículo. Mas tal seriedade, aliada à beleza das marcas, à delicadeza com que os sentimentos são abordados e à atmosfera impregnada de lirismo e tragédia conferem ao presente espetáculo um inquestionável grau de excelência. Isto só vem demonstrar o seguinte: um espetáculo pode ser eficaz tanto se utiliza os mais avançados recursos tecnológicos quanto este, que opta pelo despojamento e simplicidade. Sem dúvida, uma montagem que merece ser prestigiada de forma incondicional pelo púublico carioca.

Com relação ao elenco, todos os atores se mostram perfeitamente à vontade nos personagens que interpretam, deles extraindo os principais conteúdos propostos pelo autor - e aqui cabe destacar os secos e curtos diálogos criados por João Batista, suficientes para fazer chegar até a platéia os principais sentimentos e emoções implícitas.

Na equipe técnica, são de excelente nível a direção musical e música original de Marcelo Alonso Neves, assim como as letras das canções, assinadas pelo diretor. Igualmente irrepreensíveis a belíssima cenografia de Doris Rollemberg e os apropriados figurinos de Mauro Leite, em total sintonia com a condição social e personalidade dos personagens. Outro destaque fica por conta da expressiva luz de Renato Machado, determinante para o aprofundamento dos múltiplos conflitos em jogo, cabendo ainda ressaltar a ótima direção de movimento de Dani Canavellas, a preparação vocal de Paula Leal, e as precisas intervenções do operador de luz Luiz Oliva e do operador de som Eduardo dos Santos.

A CAOLHA - Texto e direção de João Batista. Com a Cia. Dramática de Comédia. Teatro Municipal do Jockey. Quinta a domingo, 21h.