segunda-feira, 21 de março de 2011

Teatro/CRÍTICA

                             "Eu e os meninos"

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Divertida versão da vida de Cristo 


Lionel Fischer


Como se sabe, a passagem de Jesus Cristo por este curioso planeta já foi abordada de infinitas maneiras - filmes, peças, ensaios etc. No presente caso, estamos diante uma versão teatral bem pouco ortodoxa, mas certamente muito divertida e voltada, ao que tudo indica, para o público jovem. Em cartaz no Teatro Tablado, "Eu e os meninos" leva a assinatura de André Pellegrino, João Sant'Anna e Daniel Zubrinsky, com João Brandão respondendo pela supervisão do texto. A direção ficou a cargo de Bernardo Jablonski e Cico Caseira.

No elenco, Adriano Martins, Alexandre Duvivier, André Pellegrino, Anita Chaves, Daniel Belmonte, Daniel Gawas, Daniel Zubrinsky, Eduardo Vianna, Hugo Maia, João Sant'Anna, João Gabriel Moraes, Karlo Caruso, Luana Manuel, Nicolas Bartolo, Pedro Tomé, Rodrigo Belay e Rodrigo Miranda - e aqui cabe registrar que todo os atores estão intimamente ligados ao Tablado, que este ano completa 60 primaveras.

Como dito acima, o texto apresenta uma visão nada ortodoxa do homem que dividiu o tempo, abrangendo desde a sua infância até sua maturidade. Mas isto não significa nenhum tipo de desrespeito, o que seria inconcebível e certamente causaria constrangimento nos adeptos da fé católica. O que assistimos é uma visão bem humorada, crítica e cujo principal mérito é brincar com algumas importantes passagens, a elas conferindo uma ótica surpreendente.

Com relação ao espetáculo, Bernardo Jablonski e Cico Caseira aproveitaram todo o humor do texto para criar uma dinâmica cênica irreverente e plena de soluções criativas. A mesma irreverência e criatividade se faz presente na performance de todo elenco, cuja coesão é um dos grandes trunfos do espetáculo.

Na equipe técnica, destaco com entusiasmo os ótimos figurinos de Julia Marina (supervisão de Sônia Tomé), a criativa cenografia de Rebecca Belsoff (supervisão de Teca Fichinski) e a expressiva iluminação de Felipe Lourenço, sendo igualmente de ótimo nível a composição musical de Adriano Martins e Rodrigo Miranda, a trilha sonora de Pedro Tomé e a coreografia de Carol Miranda. 

EU E OS MENINOS - Texto de André Pellegrino, João Sant'Anna e Daniel Zubrinsky. Supervisão de texto de João Brandão. Direção de Bernardo Jablonski e Cico Caseira. Teatro Tablado. Sábado às 21h30. Domingo, 20h.

sábado, 19 de março de 2011

Piadas:

breve reflexão sobre o horror
que nutro sobre o tema

Lionel Fischer


           Tudo começou em minha mais tenra infância. Tinha um tio, que por sinal adorava, que cultivava o implacável hábito de, sempre que em encontrava, "me contar a última". É óbvio que o fazia com o intuito de me divertir, mas ignorava por completo o pânico que me gerava.

          Este se devia, basicamente, a três fatores:

1) Total incapacidade de concentrar-me na breve narrativa.

2) Temor de rir na hora errada.

3)  Temor de não rir ao término da piada.

          Numa ocasião, ele me pegou pelo braço - a exemplo de Fernando Pessoa, detesto que me peguem pelo braço, mas meu tio o fazia, como aliás o fazem todos aqueles que contam piadas. Mas, enfim: num dado momento, e muito antes do desfecho, deixei escapar uma escandalosa gargalhada, completamente fora do contexto. Pois bem: ele me olhou por um momento, silencioso e grave, e preferiu a seguinte sentença, o que me gerou profundo alívio: "Nunca mais te conto uma piada". E tendo cumprido o que prometera, tornou-me mais feliz do que já era aos oito anos. Mas, prossigamos.

           Os três tópicos mencionados têm me acompanhado desde então. Só que, ao tornar-me adulto, tomei consciência de que deveria empreender um colossal esforço no sentido de não frustrar os inúmeros amigos que amam contar piadas - aliás, e por mais incrível que pareça, já que tenho amigos de personalidades, idades e profissões completamente díspares, todos eles possuem um infinito arsenal de piadas e, por razões que a razão desconhece, nutrem singular prazer em me contá-las.

          Pois bem: quando um deles me pega pelo braço, sinto-me como que diante de um juiz capaz de me condenar à prisão perpétua, caso minhas reações não correspondam à sua expectativa. E, convenhamos, trata-se de tarefa extremamente complexa. Dentre outras razões, porque certos contadores de piadas dão pausas tchecovianas, com o óbvio intuito de checar tua reação. E esta deve ser progressiva: inicialmente, um discretíssimo sorriso; mais adiante, a este discretíssimo sorriso tem que ser adicionado um certo brilho no olhar, signo de que a coisa está funcionando. E, finalmente, é mister contorcer-se de riso, de preferência espasmódico, como se a pessoa padecesse de malária. Caso este roteiro não seja seguido à risca, corre-se o risco de magoar uma pessoa querida.

           E eu tenho horror de magoar quem quer que seja, sobretudo pessoas que amo. Donde se conclui que, ao menos no meu caso, ouvir piadas converte-se num martírio só comparável aos de Jó - sabedores disso, meus amigos não perdem uma única oportunidade de me impor este breve flagelo auditivo.

           Mas antes de concluir esta breve reflexão, julgo oportuno insistir no terceiro tópico: temor de não rir ao término da piada, seja porque não achei a menor graça, seja porque não a compreendi. No entanto, o efeito sobre quem a contou é o mesmo, como já foi dito: uma mágoa profunda, um sentimento de rejeição tão absoluto que só pedidos de desculpas - de joelhos! - talvez tenham o poder de ao menos minimizar a imperdoável falha cometida.

           Enfim...desejo a todos os queridos parceiros deste blog um sábado esplendoroso. E agradeço a atenção devotada a esta breve e, convenhamos, inconseqüente reflexão - mas acalento a esperança de que ao menos um, dentre vocês, sinta o mesmo que eu quando se depara com a sinistra perspectiva de ouvir uma piada.
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sexta-feira, 18 de março de 2011

Teatro/CRÍTICA

"Inverno da luz vermelha"

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Primavera inatingível


Lionel Fischer


"Em uma noite no 'Bairro da Luz Vermelha', em Amsterdam, os amigos e turistas David e Matheus tem contato com uma mesma mulher, Christine. De personalidades quase opostas, cada um absorve a experiência de forma diferente. Um ano depois, já de volta ao seu país de origem, ela os reencontra e o público percebe como a experiência mexeu - em graus bem diferentes - com cada um dos envolvidos".

Este trecho, extraído do release que me foi enviado, sintetiza o enredo de "Inverno da luz vermelha", ainda que não explicite alguns aspectos importantes, o que farei mais adiante. De autoria de Adam Rapp, a peça chega ao Rio de Janeiro (Teatro Gláucio Gill) após cumprir bem-sucedidas temporadas em São Paulo e Brasília. Monique Gardenberg responde pela direção (contando com a co-direção de Michele Matalon), estando o elenco formado por André Frateschi, Rafael Primot e Marjorie Estiano.

Como dito acima, alguns detalhes importantes não estão contidos no trecho do release reproduzido. São eles os seguintes: Christine, supostamente uma francesa, na realidade é uma brasileira que se prostitui em Amsterdam, atraindo clientes nas conhecidas vitrines - mais adiante fica-se sabendo que mantém um casamento de fachada com um advogado francês gay, supostamente bem-sucedido, o que torna um tanto incompreensível sua opção pela prostituição.

Atraído por Christine, David tem com ela uma breve relação de cliente, mas que parece ter marcado profundamente a jovem prostituta. Mais adiante, e desejando que o tímido e angustiado  Matheus usufrua do mesmo prazer, David leva Christine ao apartamento que divide com o amigo, chegando no exato momento em que ele tenta se enforcar. A partir daí, a trama segue o que já foi descrito.

Em entrevista publicada hoje (18/03/2011) no jornal O Globo, o autor, ao expor as razões que o levaram a escrever o presente texto, diz o seguinte:  "Eu estava interessado em refletir sobre o que uma solidão extrema pode causar ao coração e à mente. Interessava-me saber como chegamos a esse ponto em que o menor gesto que um outro ser humano pode oferecer, um toque no rosto ou um ato de gentileza qualquer, pode ser distorcido em proporções épicas. Como lutamos com a nossa vontade de ser amados e de nos mantermos sozinhos, ao mesmo tempo. O que ser verdadeiramente vulnerável na frente de outra pessoa custa à alma de alguém, o custo de tudo isso".

E certamente suas premissas podem ser identificadas na cena. No entanto, algo que talvez não saiba definir com precisão me impediu de estabelecer um contato mais profundo com o texto. É possível que a deficiência esteja em mim, mas de qualquer forma arriscaria uma hipótese: embora os diálogos sejam fluentes, alternando humor e dramaticidade, e os personagens potencialmente interessantes, a grosso modo as relações que estabelecem não produzem em nenhum deles mudanças significativas, com a ação praticamente limitando-se (salvo em poucas passagens) a troca de informações sobre o que foram ou o que pretendem se tornar.

Seja como for, é inegável que o texto contém pertinentes reflexões sobre a solidão, o desamparo e uma ânsia desesperada de amor, dentre outros temas. E sua materialização na cena está em perfeita sintonia com o contexto. Valendo-se marcas expressivas, que vão da mais absoluta ternura à mais desenfreada violência, a diretora Monique Gardenberg consegue criar uma dinâmica que valoriza ao extremo os conteúdos propostos pelo autor. E também exibe maestria na condução do elenco.

Na pele do agressivo, debochado e ao mesmo tempo terno David, André Frateschi realiza um trabalho impecável, evidenciando forte presença cênica e nada desprezíveis dotes de cantor. Rafael Primot está igualmente irrepreensível vivendo o frágil, angustiado, sonhador e reprimido Matheus, com Marjorie Estiano trabalhando muito bem a sensualidade da personagem, assim como sua amargura, dureza e, em última instância, desesperadora solidão.

Na equipe técnica, considero de primeira linha o trabalho de todos os envolvidos nesta irretocável produção, capitaneada por Beto Amaral e Pedro Igor Alcantara:  Daniela Thomas (cenografia), Cassio Brasil (figurinos) e Maneco Quinderé (iluminação), cabendo também registrar a excelência da trilha sonora, que me parece ter sido elaborada por Monique Gardenberg e Michele Matalon.

INVERNO DA LUZ VERNELHA - Texto de Adam Rapp. Direção de Monique Gardenberg (co-direção de Michele Matalon). Com André Frateschi, Marjorie Estiano e Rafael Primot. Teatro Gláucio Gill. Sexta e sábado, 21h. Domingo, 18h. 

quinta-feira, 17 de março de 2011

Apresentação do personagem

David Lodge

         
           O personagem pode ser considerado o elemento mais importante do romance. Outras formas narrativas, como a épica, e outros formatos, como o filme, são capazes de contar histórias com a mesma desenvoltura, mas nada se compara à grandiosa tradição do romance europeu em termos de riqueza, variedade e profundidade psicológica na representação da natureza humana.

          No entanto, em toda a arte da ficção, o personagem é provavelmente o aspecto mais difícil de se discutir em termos técnicos. Em parte essa dificuldade deve-se aos diferentes tipos de personagem e às várias formas de representá-los: personagens principais e secundários, personagens planos e redondos, personagens retratados a partir da psiquê, como a Mrs. Dalloway de Virginia Woolf, e personagens vistos de fora, como a Sally Bowles de Christopher Isherwood.

          Depois de aparecer pela primeira vez em uma das histórias e esboços levemente ficcionados que compunham Adeus a Berlim, Sally Bowles teve uma carreira um tanto longa no imaginário coletivo do nosso tempo, graças às boas adaptações do texto de Isherwood para o teatro e o cinema (I am a camera) e mais tarde para dois musicais, um para o palco e outro para o cinema (Cabaret).

          Num primeiro momento é difícil entender como ela se tornou quase um mito. Sally não chama a atenção pela beleza, pela inteligência nem pelo talento artístico. É orgulhosa, irresponsável e mercenária em relação ao sexo. Mas, apesar de tudo, Sally mantém um ar inocente e frágil - e existe algo irresistivelmente cômico na disparidade entre as pretensões que tem e a vida que de fato leva.

           A história adquire interesse e relevância maiores por passar-se na Berlim da República de Weimar, logo antes de os nazistas chegarem ao poder. Ao nutrir sonhos de fama e riqueza em pensões decrépitas, entregar-se a protetores de caráter duvidoso, bajular, explorar e mentir de modo descarado, Sally simboliza o autoengano e a loucura que tomaram conta da sociedade da época.

          A maneira mais simples de apresentar um personagem, comum na ficção mais antiga, é descrever seus traços físicos e fornecer ao leitor um resumo biográfico. No entanto, os romancistas modernos preferem que os fatos sobre os personagens venham à tona aos poucos, de diferentes formas, ou então que sejam depreendidos a partir de ações e falas.

          De qualquer modo, toda descrição ficcional é altamente seletiva; a técnica retórica típica é a sinédoque - a parte que assume o lugar do todo. Christopher Isherwood evoca a aparência física de sua heroína a partir das mãos e do rosto, deixando o restante para a imaginação do leitor.Uma descrição completa dos atributos físicos e psicológicos de Sally Bowles ocuparia muitas páginas - talvez um livro inteiro.

          As roupas são sempre úteis para se determinar o caráter, a classe e o estilo de vida de um personagem, em especial no caso de exibicionistas como Sally. O figurino em seda preta (usado durante uma visita casual à tarde) evidencia o desejo de impressionar, a teatralidade (a capa) e a provocação sexual (no decorrer da história, o chapeuzinho de pajem adquire significância a partir de várias referências à ambivalência e à perversão, inclusive travestismo).

            A impressão é reforçada pelos modos de falar e de agir: Sally pede para usar o telefone a fim de impressionar os dois homens com sua mais recente conquista erótica, e o narrador aproveita a ocasião para descrever suas mãos e seu rosto.

          É o que Henry James chamou de "método cênico", e também o que pretendia fazer quando se exortou a "Dramatizar! Dramatizar!". James estava pensando nos dramas do teatro, mas Isherwood esteve entre os primeiros romancistas a crescer com o cinema, e essa influência é notável.

          Quando o narrador de Adeus a Berlim diz "Eu sou uma câmera", ele se refere a uma câmera cinematográfica. Sally é mostrada em ação.  É fácil dividir a passagem em uma seqüência de tomadas cinematográficas: Sally posa com um modelito preto - uma breve troca de olhares entre os dois homens - um close-up nas unhas verdes de Sally enquanto ela disca o número - outro close-up na maquiagem malfeita, como a de um palhaço, e na expressão afetada com que cumprimenta o amante - por fim uma tomada com os dois espectadores homens, pasmos com a performance desastrosa.

            Assim se explica a facilidade com que a história de Sally Bowles foi levada para o cinema. Mas o trecho também tem nuances puramente literárias. Aquelas unhas verdes nas mãos imundas são a primeira coisa em que penso quando ouço o nome de Sally. É possível mostrar o esmalte verde num filme, mas não o comentário irônico do narrador, "uma escolha infeliz".

          "Uma escolha infeliz" resume a vida de Sally Bowles. Também é possível mostrar as manchas de cigarro e a sujeira, mas apenas um narrador poderia comentar que suas mãos eram "sujas como as de uma garotinha". A qualidade infantil por trás da sofisticação superficial é justamente o que faz de Sally Bowles uma personagem memorável.
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Extraído (e um pouco reduzido) de "A arte da ficção" (L&M POCKET, tradução de Guilherme da Silva Braga/2010)
Teatro/CRÍTICA

                      "Shirley Valentine"

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Humor e emoção no CCBB


Lionel Fischer


"Shirley Valentine é uma dona de casa comum que se dá conta do imenso vazio de sua vida e da sua imensa solidão. Com os filhos criados, que vivem fora de casa, e um marido que faz pouco mais do que percebê-la, Shirley literalmente conversa com as paredes para não cair em desespero. As coisas estão nesse pé quando uma amiga a convida para uma viagem à Grécia. Essa viagem muda a vida da protagonista trazendo surpresas inesperadas e uma série de oportunidades que ela aproveita redescobrindo-se como mulher e como pessoa que se apaixona e aprende a conduzir a própria vida".

O texto acima, extraído do release que me foi enviado, sintetiza o contexto e enredo de "Shirley Valentine", que, após cumprir excelente temporada em São Paulo, em 2009, pode agora ser assistida no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil. De autoria do britânico Willy Russel, a peça chega à cena com direção de Guilherme Leme e interpretação de Betty Faria.

Numa época em que a dramaturgia passa por inúmeras e saudáveis experimentações, há uma tendência generalizada (ainda que velada) de se menosprezar textos escritos, digamos, de uma forma convencional. Mas como sempre encarei o teatro como a mais libertária dentre todas as artes, o que me interessa não é o caráter mais ou menos experimental de um texto, mas sim as idéias e sentimentos que expressa, sua capacidade de me fazer refletir, emocionar ou rir - desde que o riso possua, evidentemente, um teor crítico e não seja apenas fruto de gracinhas inconseqüentes.

Pois bem: estamos diante de um texto formalmente convencional, mas absolutamente cativante, pleno de humor e humanidade, e permeado de reflexões da mais alta pertinência sobre vários temas, dentre eles o amor, a solidão, o desejo e sobretudo sobre a bizarra  capacidade que quase todos nós possuímos de desperdiçar o tempo, consumindo-o com questiúnculas ao invés de canalizar nossa energia no sentido de materializar nossos sonhos.

Assim, quando a protagonista de meia-idade resolve se aventurar numa jornada cujas conseqüências desconhece por completo, está simplesmente dando um crédito a si mesma, apostando, ainda que temerosa, na possibilidade de voltar a ser feliz, de reencontrar a pulsão de vida que há muito já imaginava definitivamente sepultada. E acompanhar essa breve trajetória foi, para mim, uma verdadeira dádiva, e tenho absoluta certeza de que a maioria dos espectadores sentirá algo ao menos parecido.

Com relação ao espetáculo, Guilherme Leme teve o bom senso de perceber que, num texto como este, o essencial passa ao largo de marcações mirabolantes, espetaculares efeitos de luz, imprevistas mudanças de cenário etc. Aqui, o que realmente importa é o trabalho do diretor junto à atriz. E neste aspecto, considero irrepreensível a parceria que o diretor estabeleceu com Betty Faria,  que exibe aqui um dos melhores - senão o melhor - desempenho de sua carreira nos palcos.

Como o texto possui um evidente caráter confessional, Betty Faria estabelece desde o início um fortíssimo canal de comunicação com a platéia. E isto em função de múltiplos fatores, cabendo destacar a forma com que expõe os conflitos da personagem, conseguindo valorizar tanto as passagens mais dramáticas quanto aquelas em que o humor predomina, e isto sem lançar mão de qualquer espécie de "truque".

Muito pelo contrário: estamos diante de uma atriz que entendeu que a personagem não comporta arroubos operísticos, que deve atuar numa chave suave e delicada, mas nem por isso isenta de paixão. E é justamente graças a essa perfeita compreensão que torna-se literalmente impossível não se identificar com a protagonista, não se tornar cúmplice de uma mulher que tem não apenas a coragem de expor todas as suas fragilidades e inseguranças, mas também de arriscar tudo numa empreitada repleta de riscos, que poderia tanto conduzí-la a um beco sem saída como viabilizar sua redenção. Sob todos os aspectos, uma performance brilhante, que espero que conte com a bênção dos sempre caprichosos deuses do teatro.

Na equipe técnica, Euclydes Marinho assina uma tradução fluente, sendo irrepreensíveis a iluminação de Wagner Freire, a cenografia de Aurora dos Campos, o figurino de Tatiana Brescia e a trilha sonora e música incidental de Marcelo H. Quanto à adaptação, feita pelo diretor em parceria com Marinho, me abstenho de julgá-la, já que não li o original.

SHIRLEY VALENTINE - Texto de Willy Russell. Direção de Guilherme Leme. Com Betty Faria. Teatro I do CCBB. Quarta a domingo, 20h.  





  

quarta-feira, 16 de março de 2011

O doce veneno do pecado

Arnaldo Jabor


          Fui ver o filme "Bruna surfistinha", o mais recente fenômeno de público, e penso nas razões de seu imenso sucesso, para além das qualidades do filme, além do carisma de Deborah Secco. Uma das razões é que a prostituta nos fascina. A chamada profissão mais antiga provoca intensa curiosidade nos caretas e pessoas "comuns". Em nosso imaginário, a prostituta conhece mistérios de liberdade que nos são vetados.

          Ela vive uma impalpável ambiqüidade que nos enlouquece: ela vive no mal e dá prazer, ela é um mal e um bem, ela está entre a liberdade sexual e a escravidão. As peruas a desprezam e invejam. A prostituta é um mito. Claro que não falo da prostituta real, pobre, sofrida. Não me refiro ao problema social. Falo das que povoam nossas fantasias imaginárias.

          A prostituta antiga era o oposto das esposas santas. Hoje, nossas mulheres "da vida" são chamadas de "garotas de programa" e fazem parte da cultura do entretenimento, tanto quanto os filmes sobre elas. A prostituta contemporânea não é uma marginal; ela está no centro do sistema, como os advogados, os banqueiros ou dentistas. A exploração e violência continuam, claro. Mas a aura obscura do pecado se desfez.

          Antes, nossas bacantes se escondiam pelos cantos, trêmulas de vergonha. Agora, com a permissividade pós-tudo, ser uma "mulher da vida" é uma profissão mais nobre do que a vida de muita perua casada (também uma profissão rentável). Aliás, o nome "mulher da vida" já denota que elas se aventuram no lugar abstrato onde imaginamos que se passa a "realidade", a aridez do mundo sem lei, o mundo como um nervo exposto, demandando coragem e sobrevivência.

          Quando íamos aos prostíbulos adolescentes, tínhamos a sensação de conhecer o lado mau da vida, o lado "real" que nos escondiam, conhecer quase um doce "crime". Eu fui a bordéis para conhecer a "vida".

          Antes, as "decaídas" precisavam do casamento sagrado que as excluía. A micheteira antiga era uma necessidade fisiológica, uma extensão, um "puxadinho" das famílias, para compensar a tristeza do amor conjugal.

          Hoje, elas são "acompanhantes", "scorts", "promoters" e outros eufemismos. São malhadas, aerodinâmicas, sadias. Hoje, elas são digitais, milhares de flores se oferecendo na web.

          Antigamente, vivíamos uma feérie de gonorréias. Hoje, elas é que temem as tuas doenças. A camisinha te exclui, te faz ridículo com o pênis encapotado como um cachorrinho de suéter. A camisinha te humilha e ofende; com a camisinha, você é que é o perigo - ela, a saúde.

          As ex-decaídas (hoje ascendentes) modernas não aspiram a uma "vida normal"; preferem a gelada aventura pela grana. Cada vez mais a prostituta é pura - a vida social é que se "bordelizou". A mulher romântica e a "perdida" infeliz são invenções dos homens, para minorar a insegurança que sentem diante das mulheres. Os frequeses de bordéis pagam as prostitutas para que elas não "existam".

           A prostituta contemporânea não se envergonha do trabalho e não tem sentimento de culpa; talvez, apenas nojo...de você. Elas te olham de igual para igual, ou melhor, com uma finíssima superioridade. Elas são ativas, despachadas, tomam providências, tirando do homem seu maior prazer, que era o sentimento de superioridade moral em folga passageira - um habitante.

          Hoje, o sujo é você. Havia no velho putanheiro a vaga crença na recuperação das "infelizes". No ar dos prostíbulos antigos, flutuava um silêncio triste pela ausência de amor, por um visível sentimento de culpa que fregueses tentavam preencher com uma repugnante bondade. O diálogo melodramático de antanho denotava seu desejo de parecerem mais "humanos":

- Por que você caiu nessa vida? - perguntavam os hipócritas bordeleiros, antes do ato.

- Ah...meu noivo me fez mal, meu pai me expulsou...- gemia a rapariga.

- Mas por que você não larga essa vida? - sussurrava o canalha, superior e sinistro, tirando as calças.

          Por isso é que elas se apaixonavam pelos cafetões boçais, que as espancavam com jubilosas bofetadas.

          Elas não pensam em se salvar pelo casamento. Esse papo da "Pretty woman" já era; elas não sonham com algum babaca romântico que lhe dê a mão; muitas são até bem casadas e ajudam os maridos. Conheci uma professora de Ribeirão Preto que se prostituía regularmente no Rio, num famoso lupanar da Rua Senador Dantas, onde era muito desejada, orgulhosa como uma rainha-mãe.

           Mais "anormais" que elas são os homens que as procuram. Trata-se de um teatro a dois, onde as gargalhadas, os gozos fingidos, escondem o drama, a dor, a realidade.

           Os putanheiros não querem saber da realidade. Assim, escondem de si mesmos o constrangimento da situação, com mentiras consentidas, como se fosse possível o encontro feliz entre classes sociais. Para eles, a prostituta é uma utopia, a prostituta é o socialismo.

          Há algo de artista nas prostitutas; mais que atrizes, elas acreditam em sua obra. Nelson Rodrigues disse: "Não há atriz mais inepta ou medíocre que represente mal uma prostituta. A meretriz de teatro é perfeita como a Eleonora Duse".

          Mais artistas ainda são os travestis, pois eles fazem arte séria e corajosa. O travesti tem orgulho de ser quem é; ele é uma afirmação de identidade. Há algo de clone no travesti, algo de robô, pois eles nascem de dentro de si mesmos; eles são da ordem da invenção poética.

          Antigamente, ia-se ao bordel em busca de ilusões. O homem queria se sentir um sultão no harém. O putanheiro era o "sujeito" do lupanar. Hoje, ele é o "objeto". Há um vento gelado nos bordéis atuais - limpos, rápidos e eficientes como uma lanchonete. Há algo de enfermeira ou psicóloga na moderna "cocote". Há algo de McDonald's nos puteiros de hoje.
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Artigo extraído do jornal O Globo (15/03/2011)
                           Deborah Secco:
                           maravilhoso drop interpretativo

                                                                                                                        Lionel Fischer

          Antes de mais nada, gostaria de esclarecer aos queridos parceiros deste blog que meu objetivo não é fazer uma crítica do filme do momento, "Bruna surfistinha", posto que nada entendo de cinema - desconheço por completo como se fazem enquadramentos, movimentos de câmera, estabelecimento de planos, utilização de lentes etc. Em termos cinematográficos, sou um modesto apreciador deste poderoso veículo expressivo.

          No entanto, suponho deter algum conhecimento no tocante à arte da interpretação, ainda que consciente de que o trabalho de um intérprete no cinema é completamente diverso do executado no teatro, que não necessita de qualquer tipo de intermediação. Isto posto, vamos ao que interessa.

          Já li muitas críticas sobre o filme, muitos artigos assinados por renomados colunistas e recolhi opiniões ao acaso. E o que tem me espantado é uma certa insistência na afirmação de que o sucesso absoluto do filme se deve, fundamentalmente, a dois fatores: a nudez de Deborah Secco (e as cenas picantes que protagoniza, com o perdão do tocadilho) e seu carisma.

          Quanto ao primeiro quesito, só alguém desprovido de visão ou que padeça de monumental inveja é capaz de negar que Deborah Secco é uma mulher linda, com ou sem roupa - aliás, com um mínimo de imaginação qualquer um pode olhar para qualquer mulher (ou homem) e imaginá-la (o) como veio ao mundo. E no que concerne às mencionadas e picantes cenas, não acredito que as mesmas introduzam alguma novidade que já não era largamente praticada no Antigo Egito há cinco mil anos. E então chegamos ao carisma.  

           No presente caso, e ao contrário do que possa parecer, adjetivar a atriz como sendo "carismática" não passa de um recurso
que visa minimizar sua esplêndida performance. É como se disséssemos: "Ora, sendo ela tão graciosa e possuidora de inegável carisma, já mais do que comprovado através de seus inúmeros papéis na TV, nada mais natural que esteja fazendo tanto sucesso". 

           Diante disto, uma indagação se impõe: desde quando "carisma" leva um intérprete a um nível de atuação como o exibido por Deborah Secco? Um ator pode ser carismático, mas isso não significa que seja um bom ator. E o mesmo se aplica ao inverso: podemos admirar profundamente o talento de um ator e por ele nutrirmos irremediável antipatia.

           Assim, o que realmente importa destacar é que Deborah Secco, ao encarnar a protagonista de "Bruna surfistinha", atinge um patamar de excelência interpretativa que a mim, particularmente, surpreendeu e emocionou em igual medida. Já no início do filme fiquei impressionado com sua composição: andar meio curvado, postura algo desajeitada, um olhar impregnado de desconforto em seu ambiente familiar que já sugeria um sentimento de profunda solidão. 

            Mais adiante, a atriz materializa de forma comovente a ingenuidade da personagem e sua subseqüente indignação ao ser vítima de uma "pegadinha" abjeta de um colega de escola, que sob o pretexto de com ela estudar, a atrai para sua casa e praticamente a força a fazer sexo oral - não contente com a abjeção que perpetrara, o mauricinho crápula filma a cena e a coloca no facebook, orkut ou seja lá que nome tenha essa diabólica forma de tornar público o que deveria permanecer no campo do privado.

          Sem villumbar outra alternativa, humilhada e ofendida, a personagem abandona sua família e começa a se prostituir. E aqui, mais uma vez, uma composição maravilhosa. Nos primeiros programas, Deborah consegue transmitir uma mescla de dor (física e moral), perplexidade e muda revolta, mas aos poucos, como não poderia deixar de ser, endurece seu coração e passa a exercer "a mais antiga das profissões" com uma competência que gera revolta em suas experientes colegas.

          Mas ainda assim, em meio ao sórdido ambiente que é obrigada a freqüentar, mesmo que em muitas passagens deixando-se dominar completamente pelas drogas, mesmo quando participando de orgias com o olhar sonâmbulo de um espectro que buscasse desesperadamente encontrar repouso, em nenhum momento deixamos de perceber que ali ainda existe uma menina, uma réstia de pureza impregnada de humanidade.

           E é justamente por conseguir expor de forma tão visceral as contradições de sua complexa personagem que Deborah Secco, ao menos em minha opinião, demonstra de maneira inequívoca que é muito mais do que uma atriz bonita e/ou carismática: é uma grande atriz. E para aqueles que insistem em aprisioná-la nos dois predicados acima citados, só me resta implorar aos Deuses que deles se compadeçam e, quem sabe, consigam um dia iluminar suas mentes estreitas, preconceituosas e, sobretudo, invejosas. 
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