segunda-feira, 12 de julho de 2010

Teatro/CRÍTICA

"Merci"

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A complexa arte de agradecer
Lionel Fischer
"Merci é uma peça sobre o mundo, o nosso mundo, em que se crê que a vida é uma batalha que precisa ser vencida. 'O vencedor é...', 'Der gewinnwe ist...', 'The winnwe is...'. Em todas as línguas, como uma praga universal. Já o reconhecimento, na questão artística, é uma forma de controle sobre o autor. Uma maneira de domesticá-lo, através da catalogação. A partir dele, não é de bom tom fazer algo diferente daquilo que já foi reconhecido. O texto aborda também, como ponto central, o cerceamento, perpetrado por uma pedagogia violenta e utilitária, da criatividade que toda criança traz em si, daquilo que Pennac chama de luz interior".
Este fragmento, que consta do programa do espetáculo, leva a assinatura do diretor Moacir Chaves. E aqui está citado porque sintetiza de forma irretocável as premissas fundamentais que levaram o autor Daniel Pennac a escrever o monólogo "Merci", um texto ao mesmo tempo irônico e amargo, em cartaz no Oi Futuro, com interpretação a cargo de Ana Barroso.
Em termos de enredo, "Merci" é bastante simples. Tendo sido premiada pelo conjunto de sua obra, uma pintora tece várias conjecturas sobre como fazer o "agradecimento" no momento da entrega do prêmio. No entanto, revelá-las equivaleria a privar o público de uma série de pensamentos que, mesclando humor e perplexidade, em última instância evidenciam o caráter essencialmente conservador e bajulatório que envolve toda premiação.
Mais adiante, porém, a platéia é informada da amarga infância da protagonista, durante a qual foi vítima do cerceamento criativo e da violência pedagógica de seu professor, a que se referiu Moacir Chaves. E é então que essas duas, digamos, partes do texto, ganham unidade, e enfim compreendemos as razões que levam a personagem a ter enorme dificuldade na hora de "agradecer". E a conclusão que chega, que também me abstenho de revelar, é perfeitamente coerente com a postura de um artista verdadeiramente autêntico e fiel àquilo em que acredita.
Com relação ao espetáculo, Moacir Chaves cria uma dinâmica cênica bastante simples, priorizando sabiamente o trabalho da atriz - mas que não se confunda, por favor, simplicidade com banalidade, já que todas as marcas contribuem de forma decisiva para materializar os diversificados conteúdos. E Moacir ratifica aqui, como em geral o faz, sua notável capacidade de extrair ótimos desempenhos dos atores que dirige.
No presente caso, trata-se de Ana Barroso, sua amiga e parceira de muitos trabalhos. E a presente performance, salvo monumental engano de minha parte, talvez seja a melhor já exibida pela atriz. Possuidora de ótima voz, grande carisma e uma inteligência cênica admirável, Ana Barroso consegue valorizar em igual medida tanto as passagens mais engraçadas quanto aquelas em que a amargura predomina. Sem dúvida, uma atuação que se insere entre as melhores da atual temporada.
Na equipe técnica, Sérgio Marimba cria uma cenografia cujo destaque é uma enorme "escultura" de velhas cadeiras e bancos escolares empilhados, causando uma dupla sensação: por um lado, o acúmulo de obras; por outro, a eterna possibilidade de que tudo pode desmoronar a qualquer momento, pois todo verdadeiro artista, ainda que consagrado, está sempre à beira de ser sumariamente rejeitado caso sua próxima criação não atenda às expectativas daqueles que o colocaram em tão alto patamar. Destacamos ainda, e com o mesmo entusiasmo, a expressividade da iluminação de Aurélio de Simoni e da trilha sonora de Tato Taborda, com Inês Salgado assinando o correto figurino e Ana Barroso e Angela Pecego respondendo pela ótima tradução.
MERCI - Texto de Daniel Penac. Direção de Moacir Chaves. Com Ana Barroso. Teatro Oi Futuro. Sexta a domingo, 19h30.

Um comentário:

  1. Concordo plenamente! Uma beleza de espetáculo! Simples, direto e uma interpretação convincente e emocionante da atriz.

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