sábado, 2 de abril de 2011

Teatro/CRÍTICA

"Um dia como os outros"

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Deliciosa montagem no Poeira


Lionel Fischer


"Como faz todas as sextas, Yolanda se reúne para jantar com a família do marido, o bem sucedido executivo Philippe. O ponto de encontro é o bar do irmão mais velho, Henrique, cuja esposa, Arlette, está atrasada justo na noite de aniversário de Yolanda. A demora exaspera a mãe dos rapazes, Madamme Mesnard e dá início às primeiras discussões da noite: sobre o futuro do bar, herdado do pai, e o da irmã caçula Betty, solteirona que namora às escondidas o garçom Denis e trabalha na mesma empresa de Philippe, graças à ajuda do irmão. Alheio aos problemas familiares, Philippe está mais preocupado com sua breve aparição na televisão naquele dia e na opinião de seus superiores. Dois telefonemas - de Arlette pedindo a Henrique um tempo na relação e entre Philippe e um de seus chefes, irritado com as ofensas que sofrera de Betty mais cedo - são o estopim para irromperem os conflitos latentes".

Extraído do ótimo release que me foi enviado por Leila Grimming,  aí está o contexto em que se dá uma das mais deliciosas peças estreadas ultimamente no Rio de Janeiro, "Um dia como os outros", de autoria dos franceses Agnès Jaoui e Jean-Pirre Bacri. Em cartaz no Teatro Poeira, o texto chega à cena com direção de Bianca Byington e Leonardo Netto, estando o elenco formado por Analu Prestes (Madamme Mesnard), Bianca Byington (Yolanda), Silvia Buarque (Betty), Kiko Mascarenhas (Philippe), Leandro Castilho (Denis) e Márcio Vito (Henrique).

Sendo o teatro a mais libertária dentre todas as artes, permite múltiplas e renovadas experiências. Mas há uma certa tendência - não inteiramente assumida - de se considerar "menor" um texto estruturado de forma simples, ou seja, isento de colagens, projeções, fragmentações etc. e que objetiva apenas contar uma história interessante através de personagens bem construídos.

No entanto, não custa nada lembrar a relatividade deste apenas, pois escrever para teatro é tarefa de extrema complexidade, mesmo que em termos formais um texto se afigure como simples. Mas tal simplicidade, evidentemente, é enganosa, pois ao renunciar a alguns dos recursos acima mencionados, o autor é obrigado a concentrar-se na essência do fenômeno teatral: criar um texto que tenha algo a dizer de pertinente e suplicar aos deuses do teatro que permitam que o mesmo chegue à cena bem interpretado e bem dirigido. E é exatamente o que ocorre no presente caso.

Explorando com doses equivalentes de humor e dramaticidade uma série de conflitos inerentes a todas as famílias, ainda que os mesmos possam sofrer sutis variações, Agnès Jaoui e Jean-Pierre Bacri chegaram a um produto final que promove imediata identificação entre palco e platéia, ratificando a melhor definição sobre o fenômeno teatral já proferida, de autoria de Peter Brook: "O teatro é a arte do encontro".

E tudo nesta montagem contribui para trazer o espectador para a cena. A começar pela precisa e criativa direção de Bianca Byington e Leonardo Netto, que sabiamente perceberam que o presente texto não comportaria inúteis mirabolâncias formais e o foco teria que recair na interpretação dos atores e na relação entre os personagens.

Mas isto não significa que o espetáculo tenha sido estruturado através de marcas previsíveis ou corriqueiras. Muito pelo contrário: as marcações são sempre muito inventivas e é notável a manipulação dos tempos rítmicos, um dos fatores essenciais quando se pretende encenar uma comédia, ainda que a mesma contenha, como esta, elementos dramáticos.

No tocante ao elenco, me vejo obrigado a repetir o que já disse tantas vezes ao longo desse 22 anos de crítica teatral: este país pode carecer de tudo, menos de atores maravilhosos. E o presente espetáculo é uma prova inconteste da excelência dos profissionais que estão em cena, sendo literalmente impossível fazer qualquer reparo às suas brilhantes performances. Assim, só me resta agradecer a inesquecível noite que me proporcionaram Analu, Bianca, Kiko, Márcio, Silvia e Leandro, e desejar que esta encantadora montagem permaneça em cartaz por muito tempo. Assim como eu, o público carioca ficará eternamente grato.

Na equipe técnica, são igualmente irrepreensíveis os trabalhos de todos os profissionais envolvidos nesta mais do que oportuna empreitada - Marcelo Lipiani e Lídia Kosovski (cenografia), Emília Duncan (figurinos), Paulo César Medeiros (iluminação), Leonardo Netto (trilha sonora) e Angela Leite Lopes (tradução).

UM DIA COMO OS OUTROS - Texto  de Agnès Jaoui e Jean-Pierre Bacri. Direção de Bianca Byington e Leonardo Netto. Com Analu Prestes, Bianca Byington, Kiko Mascarenhas, Leandro Castilho, Márcio Vito e Silvia Buarque. Teatro Poeira. Sexta, sábado e domingo, 21h    

2 comentários:

  1. parabéns pelo blog, Leonel, e pela seu claro e generoso olhar para o teatro. Lidia Kosovski

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