segunda-feira, 15 de junho de 2009

A pintura de cenário

A arte de pintar cenários chegou à notoriedade durante o Renascimento e foi dominante no teatro dos séculos XVII, XVIII e XIX. Com a vinda do realismo e do modernismo, o pintor de cenários, com seus inúmeros moldes e técnicas elaboradas, perdeu muito de seu prestígio, mas mesmo assim a arte, ou porque não chamarmos o ofício de pintar cenários continua importante. Portanto, vejamos alguns de seus aspectos fundamentais.

Tintas para cenário

1. Na maioria das lojas de decoração de cenários, são padrão as tintas secas.(1). As tintas em pó são as menos caras de todas (algumas tintas pastosas contêm cola e são fáceis de preparar, misturar e armazenar). Há uma grande variedade de tintas que são fáceis de usar. Independente do tempo que demoram para secar, elas podem ser removidas dos pincéis, das mãos e do assoalho, com água. Quando secam, apresentam um acabamento macio e por igual, que é geralmente recomendável num palco.

2. Nos últimos anos, as tintas à base de caseína têm desafiado a supremacia das tintas secas na pintura de cenários.(2). São executadas em forma de pasta e para prepará-las basta adicionar água; as cores são geralmente de excelente qualidade. Cobrem extraordinariamente e são de fácil manuseio. Deixando-as secar completamente (o que leva geralmente alguns dias), elas se tornam insolúveis. Normalmente isso traz mais vantagens do que desvantagens, pois algumas vezes, quando se trata de espetáculo itinerante, o trabalho deve ser feito com tinta resistente à água.

São as seguintes as desvantagens: as latas de tinta parcialmente usadas têm tendência a secar e deteriorar; as roupas e pincéis devem ser limpos antes que a tinta seque totalmente; o preço é maior do que o de tintas secas. Contudo, as vantagens tendem a contrabalançar as desvantagens, e muitas lojas especializadas em cenários mudaram o estoque de tintas secas para as de caseína.

3. Tintas a óleo e vernizes quase nunca são usadas, exceto em circunstâncias especiais, tais como na pintura de certos objetos de palco. Em geral elas são caras, secam vagarosamente e sujam muito ao serem manuseadas. Pincéis, roupa e assoalho, quando salpicados com tintas a óleo, devem ser limpos imediatamente com terebentina, um processo caro e inconveniente.

4. Tintas metálicas cor de bronze, de alumíneo e muitos outros matizes têm algum valor, especialmente na pintura de objetos do palco (exceto roupas e cenários). Normalmente, devem ter uso restrito, sendo visadas apenas na decoração ou execução de detalhes.

5. A goma-laca é frequentemente útil. Seca com rapidez e algumas vezes pode ser aplicada sobre tinta de cenário, para contrabalançar a tendência dessa tinta de se apagar com o tempo. Também pode ser usada para dar um brilho forte à superfície ou um efeito de verniz às partes de madeira.

Pincéis e outros materiais

O pincel mais comum encontrado nas lojas de cenário é o pincel de 10 a 12 cms. Os pincéis holandeses de 12 a 22 cms de largura são geralmente melhores, mas são caros. Muitos amadores confiam nos pincéis de fibra baratos para o seu trabalho básico. Sendo recomendável um bom material, é bom saber que, nas atuais lojas de cenários, qualquer tipo de pincel é geralmente superior ao técnico que o maneja. Alguns cenaristas executam excelentes trabalhos usando material que a maioria dos universitários modernos sentir-se-iam constrangidos até mesmo em tocar.

Os pincéis mencionados são todos grandes. São usados para aplicação da primeira camada, que exige certa rapidez e é de fácil aplicação. Além disso, são úteis os pincéis de tamanho menor, a saber, de 3 a 9 cms de largura, enquanto alguns, de cabo longo, são absolutamente indispensáveis para a execução de certos detalhes.

A limpeza e o cuidado com os pincéis são de extrema importância. Um pincel holandês de 45 dólares pode ser inutilizado numa única temporada por negligência, enquanto que nas mãos cuidadosas de um verdadeiro profissional, poderá durar muitos anos. Esse cuidado é simples. Os pincéis usados com tinta a óleo ou verniz devem ser limpos com terebentina; os usados com goma-laca, com álcool para madeira; e os usados com tinta de cenário ou tinta à base de caseína, com água. No fim de cada dia, os pintores que se orgulham de seu trabalho limpam os pincéis de ponta a ponta, ajeitam as suas cerdas cuidadosamente, alisando e pendurando-os para secar.

Técnicas de pintura

Mesmo hoje, a presença de cenaristas capazes é um grande investimento para qualquer produtor. Embora o naturalismo e o romantismo já não estejam em voga, ainda há uma grande procura de artistas com conhecimento de contrastes luminosos de cor e forma, e que saibam criar efeitos de terceira dimensão. Contudo, o estudo de tais técnicas não pode limitar-se à presente discussão; elas também são, em grande parte, resultantes da prática e da experiência. Portanto, só levaremos em consideração algumas poucas técnicas básicas que o leigo poderia empregar na pintura de ambientes em geral.

A primeira camada é aplicada com um pincel grande. Bons cenaristas trabalham despreocupadamente mas com rapidez usando as pontas das cerdas, cujo desenho segue o da letra X. Se o trabalho for bom, a primeira camada ficará toda por igual, quando as superfícies estiverem secas.

No cenário quase nunca se usa uma única tinta de base. Os pintores aplicam uma camada secundária para dar textura e especialmente para cobrir os defeitos (remendos, cabeças de prego, calombos) que tendem a aparecer nitidamente em uma superfície perfeita, plana e macia. Essa camada secundária é geralmente aplicada por meio de uma das seguintes técnicas:

1. Talvez seja mais útil salpicar. É preciso um pouco de prática para desenvolver a habilidade necessária. Comumente se prefere um pincel de cerdas largas. Ele é mergulhado de leve na tinta secundária, é secado, espremendo-o e sacudindo as cerdas, para que saiam todos os restos de tinta. Se as manchas deixadas são muito grandes, o pintor saberá que a tinta está muito rala, o pincel muito grande e as cerdas muito molhadas.

2. A gravura a ponto é feita comumente com uma esponja, embora possa ser empregada estopa ou outro material. O pintor simplesmente mergulha a esponja na tinta secundária, seca-a levemente e aplica-se à superfície num movimento de batidas leves e breves.

3. Pincelar a seco consiste em sombrear, e tanto é popular como útil. As camadas secundárias são simplesmente aplicadas com um pincel parcialmente seco. Este método pode ser usado em panos axadrezados ou de textura como a de um tapete, bem como em fibras de madeira.

4. A pintura com rolo produz, às vezes, bom efeito. Os rolos comuns, para decoração de casas modernas, podem ser usados para aplicar as primeiras camadas, bem como para pintura de seguna mão, embora a flexibilidade das telas, numa superfície plana, faça com que o rolo tenha menos efeito do que numa parede sólida de cal. Um rolo totalmente seco pode ser usado para produzir interessantes efeitos e texturas. Os rolos cobertos com estopa, toalha felpuda e outras fazendas grossas dão os melhores resultados. Outras técnicas empregadas em geral pelos pintores de cenário incluem o uso de sprays rolos moldados. (3)

NOTAS

1. Preparam-se tintas secas misturando uma parte de goma quente concentrada com aproximadaente dez partes de água. . Pode-se incluir, em geral, uma pequena porção de ácido carbólico, para evitar deterioração.

2. Tintas à base de goma elástica e de resina também estão sendo usadas, mas são um tanto caras.

3. Verdadeiro papel de parede, usado algumas vezes para dar uma aparência real a interiores.

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Artigo extraído de "An introduction to the theatre", de F. M. Whiting, N. Y. 1954. Tradução de José L. Porto de Magalhães. Este artigo consta da revista Cadernos de Teatro nº 76/1978, edição já esgotada.

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