quinta-feira, 26 de maio de 2011

A Arte de Amar

Ovídio


NO LEITO


Fico acanhado com os ensinamentos que me restam dar, mas a boa Dionéia me diz: "Do que temos vergonha é justamente nossa obrigação". Que cada mulher se conheça bem; de acordo com seu físico, escolha esta ou aquela posição; a mesma postura não serve para todas.

A mulher que é particularmente bonita deitará sobre as costas. É de bruços que deverão se mostrar aquelas que estão satisfeitas com suas costas. Lucina deixou rugas em seu ventre? Faça você também como o parta que combate voltando as costas. Melanião levava sobre os ombros as pernas de Atalante: se as suas são belas, é preciso mostrá-las da mesma forma.

A mulher pequena ficará na posição do cavalheiro; como era muito alta, jamais a tebana, esposa de Heitor, montou sobre seu marido como sobre um cavalo. Ficará de joelhos sobre o leito, a cabeça um pouco curvada para trás, a mulher que deve ser admirada em todo o contorno lateral.

Se suas coxas têm o encanto da juventude e seu peito também não tem imperfeição, o homem ficará em pé, e você estendida sobre o leito perpendicularmente. Não tenha vergonha de soltar sua cabeleira, como as Bacantes, e virar a cebeça, deixando balançar seus cabelos. Há mil maneiras de provar os prazeres de Vênus; a mais simples e menos fatigante é ficar semideitada sobre o lado direito.

Mas nem os tripés de Febo, nem Amon com cabeça de touro serão para você oráculos mais seguros do que minha Musa; se algo merecer confiança, sigam os conselhos deste tratado, fruto de uma longa experiência: nossos versos não enganarão sua confiança.

Que a mulher sinta o prazer de Vênus se abater até o mais fundo de seu ser, e que o gozo seja igual para seu amante e para ela! Que as promessas de amor e os doces murmúrios não se interrompam nunca, e que palavras lascivas caibam entre suas contendas.

Mesmo você, a quem a natureza recusou as sensações de amoroso prazer, finja, com inflexões mentirosas, apreciar os doces júbilos. Como é preciso lamentar a mulher em quem este órgão, que deve trazer fruição tanto à mulher quanto ao homem, permanece insensível!

Mas que este fingimento não seja descoberto! Que seus movimentos e a própria expressão de seus olhos consigam nos enganar! Que a volúpia, que as palavras, que a respiração ofegante dêem essa ilusão!

Enrubesço ao prosseguir: este órgão tem seus meios de expressão secretos. Após essas alegrias de Vênus, pedir a seu amante um presente é querer que as preces não tenham nenhum peso.

Esquecia-me: não deixe a luz penetrar por todas as janelas no quarto de dormir; muitas partes do seu corpo são favorecidas não sendo vistas à luz do dia.
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Extraído de "A arte de amar", L&PM POCKET, primeira edição piblicada em 2001. Tradução de Dúnia Marinho da Silva.

Sobre o Autor

Ovídio nasceu em 43 a.C, em Sulmona, e morreu em 17, em Tomi (atual Constanta, Romênia). Estudou em Roma, onde conquistou a sociedade mundana com seus poemas. Consagrou-se com as obras Amores, As Heróides e A arte de amar. A partir dos 40 anos começou a reunir e reeditar sua obra. Escreveu, então, seu grande trabalho, As metamorfoses, lendas da mitologia greco-latina em 15 volumes. No ano 8 foi exilado de Roma por motivos políticos pelo imperador Augusto. Escreveu vários livros onde deixou transparecer a amargura e as dificuldades do exílio. Sua obra atravessou os séculos, sendo recuperada definitivamente na Idade Média, quando passou a servir de paradigma para os grandes poetas latinos.
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