segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Teatro/CRÍTICA

                                "Labirinto"

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Qorpo-Santo em deliciosa montagem


Lionel Fischer


Autor de 17 comédias (uma delas incompleta), todas escritas em 1866, José Joaquim de Campos Leão é conhecido como Qorpo-Santo. Mas sua obra foi muito rejeitada na época em que foi escrita, pois a forma como abordou várias questões estava muito à frente de seu tempo. Curiosamente, cumpre ressaltar, o autor até hoje permanece um tanto ignorado, e seus textos continuam gerando polêmica e espanto. 

Seja como for, agora o público carioca tem a oportunidade de entrar em contato com três peças deste imprescindível autor: "Hoje sou um; e amanhã outro" (espécie de utopia da boa governança), "As relações naturais" (ambientada em um bordel e contendo insinuações de incesto) e "A separação de dois esposos" (esta termina com um diálogo hilariante entre Tatu e Tamanduá, o primeiro casal gay da dramaturgia brasileira). 

Com direção assinada por Moacir Chaves, o espetáculo "Labirinto" (Espaço Sesc) chega à cena com elenco formado por Adriana Seiffert, Andy Gercker, Danielle Martins de Farias, Denise Pimenta, Diego Molina, Elisa Pinheiro, Fernando Lopes Lima, Gabriel Delfino, Gabriel Gorosito, Katiuscia Canoro, Mariana Guimarães, Pâmela Côto e Peter Boos.

Como creio já ter sugerido acima, estamos diante de um autor possuidor de vigorosa escrita e grande inventividade no tocante à forma como aborda os temas que elege. Esta, de uma maneira geral, prioriza o humor crítico, o que contribui para conferir grande contundência a temas que até hoje permanecem absolutamente atuais. 

No tocante ao espetáculo, este é certamente um dos mais bem sucedidos da carreira de Moacir Chaves. Encenador que prioriza o inesperado, posto que jamais lança mão de soluções previsíveis, e nunca se empenhou em agradar quem quer que seja, Chaves encontra aqui um material em perfeita sintonia com sua imensa criatividade. Valendo-se de uma dinâmica cênica algo surreal e quase sempre muito divertida - a enunciação das rubricas, por exemplo, provoca invariavelmente muitas gargalhadas -, o diretor também exibe maestria na manipulação dos tempos rítmicos e na forma como conduz o trabalho do elenco.

Dado ao grande número de intérpretes desta deliciosa e mais do que oportuna montagem, torna-se literalmente impossível particularizar desempenhos. E embora alguns possam ter maiores oportunidades do que outros, o que importa ressaltar é a força e unidade do conjunto, afora o fato de todos exibirem um inegável prazer de estar em cena e plena compreensão do que estão fazendo. Assim, só me resta parabenizar a todos e a todos desejar que mantenham acesa, ao longo da temporada, a mesma chama que seduziu o público que compareceu à noite de estréia.

Na equipe técnica, Fernando Mello Da Costa responde por belíssima e original cenografia, sendo irrepreensíveis os figurinos de Inês Salgado (que "passeiam" por várias épocas, assim reforçando o caráter atemporal do texto), a iluminação de Aurélio de Simoni e a direção musical de Tato Taborda.

LABIRINTO - Texto de Qorpo-Santo. Direção de Moacir Chaves. Com grande elenco. Espaço Sesc. Quinta a sábado, 21h. Domingo, 19h30.

  

2 comentários:

  1. Adorei a crítica!! Vida longa à Labirinto!! Abraço!

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  2. Graaaande Lionel! Vou ver por SUA causa...
    Abçs!
    Alexandre

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