terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Cinco — vinte e cinco
Uma depressiva comédia em dois atos, com final feliz

                                                                                                                      Danila Privalov         

OBS: as personagens são todas fictícias. Qualquer semelhança com pessoas reais é pura coincidência e, portanto, algo fadado a acontecer. Esta peça é dedicada ao ano de 2002, que está sumido, e a um sol pintado na janela.


Personagens:

Kolya
Tanya
Pandus
Bolinha
Número Um
Número Dois

Sugestão para a trilha sonora:

Tequilajazzz, Higher than Autumn
Charles Gounod, Faust
Qualquer tipo de música punk
Kronos Quartet
Nike Borzov (para deprimir)

Ato I

Cena I

(Breu profundo. O bipe-bipe de um monitor cardíaco ressoa na escuridão, como em uma unidade de tratamento intensivo. As luzes se acendem. Vemos um rapaz jovem, de seus 25 anos, sentado em uma mesa de cirurgia. Traja roupas de outono elegantes: um suéter bacana, calças jeans na moda e umas botas resistentes. Não parece estar bem: círculos pálidos e escuros debaixo dos olhos, está molhado e aturdido. O barulho o irrita. Vai se livrando do soro e das outras parafernálias penduradas no peito. Sem nada para medir, o monitor desacelera. O rapaz se esconde debaixo da mesa e tapa o ouvido. Os bipes cessam. Certo de que pôs fim ao barulho, ele se ajeita e acende um cigarro. Agora, está mais calmo, está examinando o lugar)

Kolya: Ei!!! Tem alguém aí? Alô? Tem alguém vivo aí? (Dá uma risadinha) Vivo... Alôoo? Que inferno... Cadê os anjinhos e os querubins? Cadê o Diabo, aquele chifrudo? A fornalha quente? E Deus com a barba branca, que nem na Bíblia, onde é que ele tá? Não é justo... Já é ruim, e eles ainda ficam de sacanagem aí! Delírio religioso. Pastores pretos cantando música gospel. É que a gente vai vivendo, né?  Aí se pergunta o que é que tem depois da morte. E niente. Ninguém sabe. Aliás, alguém teve que escrever a Bíblia. Ou você acha que ela se escreveu sozinha? Não. Alguém teve que sentar e escrever a coisa toda. E o pessoal caiu! Paz e amor, irmãos e irmãs! E agora? Tô esperando. (Silêncio). Quer dizer, a gente vive e fica imaginando: se a gente pudesse espiar como é que seria. A gente lá nas nuvens, olhando o próprio enterro com uma satisfação meio maldosa, resmungando pra si mesmo: “Ô seus otários! Quando eu tava vivo, ninguém ligava... Bem feito! Vamos ver como é que vocês se viram aí sem mim”. É isso aí, só que agora não dá pra ver porra nenhuma. Ei! Ô de casa?! Não tem mais graça, tô ficando com medo. Droga! Eu tinha que ter me agüentado lá. Eu fui burro... Arranjei a heroína, me piquei e depois fui pro terraço. Quer dizer, se fosse Moscou, não tinha problema, lá tem aqueles prédios altos. Se você se joga lá de cima, é morte certa. Até os prédios comerciais dão pro gasto. Mas eu não voei como voam as pombas dos pombais, não. Eu caí foi que nem um saco de merda. Ploct! Cheio de merda lá em cima, mas depois nem tanto... (Ri consigo mesmo). Aí, depois veio o hospital e os médicos tentando fazer milagre — pra quê, né? Eu quebrei a coluna e tive hemorragia de tudo que é jeito e... quer dizer, tanto trabalho pra nada. Depois, eles devem ter visto, pelo exame de sangue, as drogas que eu tomo. Mais um membro inútil da sociedade — a menos. E daí? (Silêncio). Engraçado: o que é que eu vou ficar fazendo aqui? Eu morri, não morri? Então... Continua a mesma coisa — pescoço, braço, perna, tá tudo que nem antes. Mas não tem nada. E os cigarros já, já vão acabar. Eu não entendo isso. Não tem livro, não tem notebook, não tem música, não tem nada. Não dá nem pra ver TV. Eu queria jogar um pouquinho de Doom. Ia ser maneiro — tipo uma fase secreta “do outro mundo”. De quebra, ganhava um bônus: mais vida, mais munição... Não, acho que não! Ei!!! Como é que eu te chamo? Vossa Majestade? O todo-poderoso? Quanto tempo eu tenho que ficar aqui? Eu vou me matar de novo, hein! Vou tacar fogo em mim mesmo, sei lá! Deixa só eu ficar seco, aí, eu taco fogo. Tô falando sério! (Silêncio). Eles acham que eu tô com medo... Eu já tô morto, morto vivo. A mesa de cirurgia tá igualzinha. A diferença é que não tem mais ninguém. Porque, se tivesse alguém, eu ia telefonar e dizer assim, ó: “Alô? Emergência? Vem me pegar aqui no hospital, por favor. Não, é que eu morri e eu não sei o que é que eu tenho que fazer agora. Qual hospital? Sei lá. Jura? Não dá pra rastrear a minha ligação, não? Pra onde é que eu devia ligar? Pra ala psiquiátrica? Vai se foder!”. “Oi, eu podia falar com o Kolya, por gentileza? Saiu? Não vive mais aqui? É, sim, eu tô ligando do escritório dele. Não, não precisa”. Talvez eu devesse ligar pra um cientista. “Alô? Aqui é do outro mundo! Não é muito aconchegante, não. Eles me enganaram. Tô sem asa. Acho que a alma não se separou do corpo. Aqui é tudo que nem aí embaixo, a mesma baboseira. É a mesma merda, ô seu quatro-olhos!”. (Pausa. Ele termina o cigarro, apaga-o na sola da bota. De repente, grita a plenos pulmões).
Alôoo!!! Alguém responde aí! É pra fazer o quê? Isso aqui é o inferno, é? Quanto tempo vocês vão me prender aqui? Assim não dá. Não ‘tão me vendo, não? Já tô pronto! (Música alta. Luzes fortes. A porta se abre. Entram Número Um e Número Dois. Podem estar vestindo qualquer coisa. Muitos aplausos da platéia invisível)

Número Um: Senhoras e senhores, boa noite!

Número Dois: Putas e punheteiros, péssima noite!

Número Um: É com grande satisfação que lhes damos as boas-vindas!

Número Dois: É com grande irritação que a gente agüenta vocês!
(Juntos) Sejam bem-vindos ao nosso empolgante talk-show, o “Vida Nova”.

Número Um: O nosso entrevistado de hoje se encheu de heroína e acabou com a própria vida, pulando do 9º andar. Quem é ele? O que é que ele queria? Qual foi o sentido disso tudo? Eis o assunto do programa de hoje.

Número Dois: A biografia que a gente arranjou só diz isso: “Nome Kolya. Nasceu. Viveu. Morreu”. Então a gente vai fazer a primeira pergunta pra ele. Como é que você tá se sentindo?

Kolya (Descontrolado): Horrível, porra! Quem são vocês?

Número Um: Queiram desculpá-lo, senhoras e senhores. Ele ainda está muito estressado. Será que ele vai descobrir a verdadeira razão que o levou a fazer o que fez? E qual será o voto dos nossos telespectadores? “Sim” ou “não”? É só ligar pro número em sua tela. Voltamos após os comerciais. Não troquem de canal. (A música fica mais alta. As luzes mudam. O ambiente escurece)


Kolya: Porra! Que é que tá acontecendo aqui, hein? Quem são vocês? O que é que é isso aqui?

Número Um: Calma, rapaz. Não precisa ser mal-educado. O programa é ao vivo.

Kolya: Ao vivo, é? Foda-se! O que é que tá acontecendo? Algum tipo de vida após a morte, é?

Número Um: Tudo bem. Você gosta de ser malcriado, né? Vem cá, você não disse que estava pronto? Então — é por isso que você vai responder as perguntas. Senta aí e conta tudinho. Senão, você vai ficar um tempão aqui...

Kolya: Quem são vocês?

Número Um: Eu sou Deus.

Número Dois: Eu sou o Diabo. Entendeu ou quer que eu explique?

Kolya: Ah, vai nessa! Eles não têm nada a ver um com o outro! O Diabo tem chifre e Deus tem uma barba e um halo, que brilha e o caralho.

Número Um: Não, não. Foi alguém que, há muitos e muitos anos, inventou essa besteirada toda. Na cabeça das pessoas, nós não somos tão diferentes assim, eu e ele. Pensa só. Quando alguém faz uma coisa ruim pra você, essa pessoa é “o capeta”, não é? “Parece o demo”. Mas se acontece alguma coisa ruim, você vai logo culpando Deus. “Meu Deus, por quê?”. Então é porque Deus também deve aprontar as dele, se ele faz vocês sofrerem tanto. É mais ou menos a mesma coisa. Nós dois somos legais.

Kolya: Mas eu achava que ia ter nuvens, fornalhas quentes, esse tipo de coisa...
Número Dois: A gente até tem uma fornalha, mas não é muito interessante, sabe? Pelo menos, pra gente. Olha só em que século a gente tá! É mais divertido deixar as pessoas num quarto vazio, sozinhas. O lugarzinho dele também não é muito melhor, não. É verdade que no céu as pessoas não pensam, e isso mata o tédio. Mas todo mundo lá é tão simples, tão sem graça. Todo mundo querendo fazer o bem, com aquele sorriso de papa-missa na cara... É nojento.
Kolya: Mas o que era aquele negócio de votar “sim ou não”?

Número Um: Se a maioria votar “sim”, aí você vai pra fornalha ou pro quarto vazio, alguma coisa desse tipo. Mas se as pessoas votarem contra você, aí você ganha o jogo, ganha o prêmio. A regra é simples: se a sua vida foi boa, vai piorar bastante aqui.

Kolya: Como assim? Quem é bom vai pro inferno e quem é mau vai pro céu?

Número Dois: Eita! Quantas vezes eu tenho que dizer que não existe esse negócio de “bom”, nem esse negócio de “mau”?  Tem aqueles que se divertiram um pouquinho e tem aqueles que sofreram que nem o diabo. Só isso. Até que você foi bem.

Kolya: Como é que você sabe?

Número Um: Nós temos as nossas suspeitas.

Número Dois: Mas é isso mesmo. É pra isso que você tá aqui. Se as pessoas acharem que você é um calhorda, aí você ganha o prêmio. Vale a pena. Quase ninguém tenta. E — quer saber? — quase ninguém ganha também.

Kolya: Mas o programa de televisão é pra quê?

Número Um: Bem, nós temos que nos distrair de alguma forma. Já faz um bom tempo que estamos aqui.

Kolya: Pera aí, mas e todos aqueles messias?

Número Dois: Baboseira. Eles ficam dizendo um monte de mentira pras pessoas, aí quando eles vêm pra cá, a gente dá pra eles o que eles merecem. E dá mesmo.

Kolya: E a Bíblia?

Número Dois: Foi um imbecil aí que escreveu. Tá lá no céu, agora, todo prosa.

Kolya: E Jesus?

Número Dois: Ele foi um cara muito bacana.

Número Um: Está bem. Vamos lá. Vamos, Kolya...(A música fica mais alta) E... Ação!

Número Dois: Vida ou morte? Pros nossos heróis, essa é que é a questão. Nosso herói aqui se matou. De um jeito bem tradicional, pouco criativo até. Ele pulou do alto de um prédio depois de se entupir de heroína. Parece uma morte banal, bem sem graça. Mas qual será a verdadeira razão por trás dela? E quem é ele? Uma criaturinha trêmula das profundezas ou um ser humano inteligente e capaz? É isso que a gente tá sempre querendo responder.

Número Um: Como é que você se sente?

Kolya: Tô bem.

Número Dois: Ele disse “bem”, minha gente. Não disse nem “mal”, nem “ótimo”. Disse “bem”.

Número Um: Então por que é que você se matou?

Kolya: Não sei.

Número Dois: Então, quando você pulou, você não sabia o que você tava fazendo?

Kolya: Não.

Número Um: Você usava todo dia, é?

Kolya: É, tinha já uns seis meses.

Número Dois: E onde é que você conseguia o dinheiro?

Kolya: Eu trabalhava no armazém. Eu também vendia uns bagulhos por fora...

Número Dois: Ah, deixa eu ver se eu entendi. Você roubava os seus clientes, não é isso? Vai tomando a sua decisão, caro telespectador.

Kolya: Eu não roubava ninguém, não. Eu só aumentava um pouco o preço. Ou vendia pra outro traficante.

Número Dois: E aí?

Kolya: E aí... E aí eu fiquei de férias. Mas não quis viajar. Pra quê? Pra ficar vendo o oceano? Os castelos, toda essa porcaria? Pra quê? Pra dizer: “Ó, vejam, como é belo!”? Pra tomar uma cerveja na Alemanha, fumar um haxixe na Turquia?  Eu fiquei em casa mesmo, vendo TV. E só vi porcaria, porque era verão. Mas lá fora tava quente demais. Aí, um dia eu tomei tudo o que eu tinha de droga lá em casa e perdi a vontade de desistir. O verão acabou por volta de setembro, e eu fui lá na escola onde eu estudei pra fazer uma visitinha (é uma coisa que a gente costuma fazer, eu e os meus colegas). Claro que eu não voltei mais pro trabalho. E ontem de noite eu fiz um chazinho especial. Sabe como é outubro, né? Fica um pouco triste. O outono, as folhas caindo... O vento. Eles cortaram o meu telefone. Eu preferia ele funcionando.

Número Um: Você tinha muitos amigos?

Kolya: Na faculdade eu já não tinha mais amigo, só gente conhecida mesmo.

Número Um: Então pra que é que você queria o telefone?

Kolya: É que a gente se acostuma. Fica esperando alguém ligar de noite. Antes, todo mundo ligava. Nada demais, não. Mas as pessoas ligavam. Aí era só sentar no chão, perto do aquecedor, lá na cozinha, acender um cigarrinho e ficar ouvindo, ouvindo... E eles falando. Tinha uns que ligavam pra falar de trabalho — esses desligavam logo. Mas tinha também os que queriam bater papo. Aí nem precisava responder nada, era só ouvir. E eu lá dizendo “aham, aham”, “não, ridículo isso daí...”, “se fosse comigo eu também...”.

Número Dois: Mas por que é que você abandonou o estudo? Não tava mais agüentando, é?

Kolya: Não tava mais agüentando.

Número Dois: Sério mesmo? Mas você não era bom aluno?

Kolya: Ih! Eu só tirava nota boa; eles até queriam que eu fizesse doutorado e o escambal.

Número Dois: Era chato?

Kolya: Nem tanto.

Número Dois: A barra tava pesada?

Kolya: Não dava pra eu ficar lá.
Número Dois: Drogas? (Kolya fica em silêncio) Alguma coisa da sua vida pessoal?
Número Um: É... Senhoras e senhores, não se esqueçam de votar “sim” ou “não” — a favor do nosso convidado ou contra ele. E não saiam daí. Voltamos após os comerciais.
(Toca a música. Número Um vai embora)

Kolya: Aonde é que ele tá indo?

Número Dois: Foi tirar água do joelho. Mas vem cá, Kolya. Não fica enrolando a gente, não, dando uma de prisioneiro de guerra. Que a gente sabe tudinho de você, tudo mesmo. A gente sabe da faculdade, a gente sabe que você ficou uns seis meses indo de porre pra aula. E a gente sabe da... A gente tem uns vídeos aqui que a gente pode mostrar. Mas ia ser chato. A gente quer que você fale.

Kolya: Falar o quê?

Número Dois: Falar da Tanya. (Pausa)

Kolya: Não faz isso. (Pausa) Não é da sua conta.

Número Dois: É, sim. Esqueceu que foi a gente que inventou o mundo, é? Você é a criança que a gente fez à nossa própria imagem. Então relaxa. Senão eu acendo a fornalha. Vou te assar no espeto com cebola e pimentão. Brincadeira. Relaxa. Mas eu juro que a coisa vai ficar preta.

Kolya: Vai pro...

Número Dois: Inferno? Isso é moleza, eu fico em casa no inferno. (Número Um volta com um pedaço de papel na mão)

Número Um: Vou dizer isso de maneira bem direta: você é o nosso convidado aqui, hoje, mas você tem que ser sincero. (A Número Dois) Você teve uma palavrinha com o nosso amigo?

Número Dois: Ele é teimoso.

Número Um: Então vamos dar uma olhadinha nos números. Aqui, Kolya: 73% votaram “sim” e 27% votaram “não”. Está todo mundo gostando de você. Isso quer dizer que as chances de você ganhar o prêmio são muito pequenas.

Número Dois: Já não agüento mais esse cara. Começa logo. (Música do intervalo)
A gente tá de volta e o convidado de hoje tá aqui prestes a revelar os seus segredos mais íntimos. Vai, meu caro Nick, conta aí: por que é que você largou a faculdade?

Kolya: Não vou falar nada.

Número Um: Caros telespectadores, nosso herói está emocionado; não está conseguindo falar das coisas difíceis por que passou. Por isso, pra refrescar sua memória e pra não atrasar o programa, vamos recorrer à gravação de uma conversa que ele teve ao telefone, que nossos técnicos grampearam. Foi no dia 16 de dezembro, há uns três anos atrás. Na conversa, nosso herói e a colega de faculdade, a Tanya. (Toca a fita com a gravação. Kolya se encolhe e começa a fumar. Tenta parecer calmo)

(A conversa ao telefone. O aparelho dá sinal, ouve-se alguém atendendo a ligação do outro lado)

Kolya: Alô!

Tanya: Oi, posso falar com o Kolya, por favor?

Kolya: É ele.

Tanya: Ah, eu não reconheci a sua voz. Qual é a aula de amanhã, hein?

Kolya: É dicção.

Tanya: Eu não vou poder ir. Você avisa que eu tô doente?

Kolya: O que é que você tem?

Tanya: Nada...

Kolya: É resfriado?

Tanya: É. Kolya, o que é que você acha do suicídio?

Kolya: Como assim?

Tanya: Esquece...

Kolya: Deixa de ser boba, vai. O suicídio é a solução mais burra, mais antinatural que existe. Eu sei que você tem um amor não correspondido, que o sentimento do cara não é recíproco, né? Mas isso não justifica. Eu tentei uma vez, na época que eu achava que eu já sabia tudo. Cheguei tarde em casa, um dia desses, bêbado que nem gambá, tava todo mundo dormindo. Cortei o pulso quase até o osso, que eu tinha medo de cortar direto na veia — tinha medo de fazer lambança, sabe? Era bonito de se ver: uma rosa vermelha se abre na água clara. Mas quando a minha cabeça ficou levinha, levinha e eu senti que era a minha hora, eu olhei pra porta do banheiro e pensei: “Será que não tem outro jeito, não? Amanhã vão ter que arrombar a porta e, aí, ela vai ficar precisando de conserto”. Eu fui lá destravar a porta. Alô? Você ainda tá aí? E a rosa sumiu, ficou só o sangue pingando no chão. Vermelho de dar nojo. E eu me senti enjoado, porque eu vi que a morte não era a saída. Isso aqui não tem saída. Eu pulei da banheira, enrolei uma toalha no braço, joguei um pouco de vodca em cima e fui dormir. Foi estranho eu não ter morrido. No dia seguinte, tô eu lá no hospital. A morte nunca é bonita, ela não foi feita pra ser bonita. Você dá um tiro na cabeça — e a parede fica toda emporcalhada de miolo. Você se enforca — e eles vão te encontrar com o pescoço roxo, com a calça toda... estragada. Você se joga de um precipício — e vai ficar estirado lá embaixo no asfalto, que nem uma panqueca, e as pessoas vão ficar brincando com os restinhos da sua cabeça. Toda a morte é feia. Só é bonita mesmo é nos filmes de espião e nos filmes da Guerra do Vietnã. Não tenta, por favor, não tenta. É burrice e não faz o menor sentido. Isso vindo de uma pessoa que tentou esse caminho, hein! Você ainda tá aí?

Tanya: Tô, sim. Você sabe das coisas. Mas por que é que a vida dói tanto, hein? Por que é que ela dói tantas vezes assim? Se ela é mesmo uma série de decepções sem sentido, por que é que as pessoas querem viver?

Kolya: Eu não sei. Só sei que gente como você tem que viver. Tem gente que precisa existir, sim, com certeza. Basta olhar e, pronto, você sabe que aquela pessoa foi feita pra viver. Que nem você.

Tanya: E o que é que vai acontecer? A vida, agora, é uma montanha-russa. E depois? E depois, nada.

Kolya: Eu sei o que vai acontecer. Você vai se formar. Vai arranjar um bom emprego. E depois você vai se apaixonar loucamente por um cara que te ama de paixão. Você vai ter dinheiro à beça. Vai sair, de manhã, pra trabalhar, e os homens vão ficar todos de boca aberta, porque você é linda. E até no trabalho você vai ter os seus admiradores, só que você não vai dar trela pra eles, porque o amor da sua vida vai lá te buscar todo dia. E vocês vão voltar pra casa, felizes da vida. Vocês são felizes. Logo logo vão ter um milagrezinho ambulante — um bebezinho. Depois mais um e mais um... E um monte de netinhos quando ficarem velhos. Até que, um dia, vocês vão morrer juntinhos... Tanya, por favor, não faz isso... Você quer que eu vá aí? Não faz nenhuma besteira, tá? Eu conheço a sua estória; tá sempre acontecendo isso daí: a gente ama alguém que não ama a gente. Tem que aprender a viver com isso. Tô indo aí, posso?

Tanya (Chorando do outro lado da linha): Por acaso você tá apaixonado por mim, é?

Kolya: Tô já faz um bom tempo, desde o primeiro dia lá na faculdade.

Tanya: Obrigada. No telefone, você é outra pessoa. Mas não precisa vir, não. Amanhã eu ligo pra você. Prometo. Eu tenho que pensar...

Kolya: Só não vai fazer nenhuma besteira, tá bem? Escutou? Não faça besteira! (Fim da conversa)

Número Um: Já ouvimos a fita. Agora é a sua vez, Nikolai.

Kolya: Vocês são uns safados, uns canalhas...

Número Dois: Kolya, você já tá morto, lembra? Não esquece. Não dá pra piorar.

Kolya: E o que é que vocês querem que eu diga, hein? Que a minha estória é horrível? Vai pro inferno!

Número Um: Você não precisa falar assim... Conta a sua “estória”, vai.

Kolya: Ela não ligou no dia seguinte. Só uns três dias depois. Disse que tava no hospital. Que tinha tomado um monte de comprimidos, que quase tinha morrido. Eu perguntei: “Quando foi isso?”. E ela respondeu: “Uns três dias atrás”. E foi como se um raio tivesse caído bem na minha cabeça. Eu disse: “Daqui a pouco eu ligo de volta”. Fui pra cozinha, enchi o copo de vodca e bebi tudo de uma vez só, nem senti o gosto. Ela quase morreu, e a culpa ia ser minha. Quer dizer, ela tentou se matar depois da conversa que a gente teve. Eu podia ter sido o último a falar com ela. Eu fiz tudo o que eu podia naquela hora, no telefone. Mas não adiantou. Agora chega.

Número Um: E depois, o que é que aconteceu?

Kolya: Por que é que vocês querem que eu fale? Vocês não sabem tudo? O que aconteceu foi que o tempo passou muito rápido. A gente se viu depois do Ano Novo, de férias já. Ela meio que tinha voltado. E aí ela me beijou. Foi ela que me beijou. Eu não esperava aquilo, não, não esperava mesmo. Aí foram cinco meses de pura felicidade. Eu queria que tivessem sido mais... mas eu ainda não sabia. E depois... uns dois anos depois, eu vim parar aqui.

Número Dois: Sem comentários. Nossos telespectadores têm mais uma chance de votar. Vamos ver — o que será que acontece?

Número Um: O programa vai acabar em 30 segundos. Vamos dar um desfecho pra esse caso. (Ele escuta o aparelho em seu ouvido). Incrível... Nikolai... Foram só 9% “a favor” e 91% “contra”. Eu não acredito!

Número Dois: Viva! Viva! Ele venceu o prêmio! Agora ele tem que decidir o que fazer do prêmio. Obrigado pela sua audiência, contamos com vocês amanhã! Nosso próximo convidado é uma grande estrela, só que ele ainda não sabe. Boa sorte! E Deus abençoe vocês!

Número Um: E vão pro inferno! (A música acaba, e Número Um acende um cigarro. Kolya fica em silêncio)


Número Dois: Uau! Por essa eu não esperava. A sua pieguice botou todo mundo contra você. Deve ter sido bem mixuruca a razão que você teve — alguma garota...

Kolya (Após uma pausa): Qual é o prêmio?

Número Um: Você pode fazer um pedido, qualquer coisa.

Kolya: Eu quero voltar.

Número Um: Ah, não. Isso não dá. Você tá morto. O pedido tem que levar em conta esse pequeno detalhe.

Kolya: Como assim?

Número Dois: Nosso trabalho é muito simples. Se você nasceu, vive. Mas você não pode mudar o dia marcado pra você morrer. Quer dizer, se você quiser se matar, aí é outra coisa! Pra dizer a verdade, a gente nunca apressa ninguém. Você bem que podia ter vivido mais uns dois anos naquela orgia de quetamina e heroína. E a sua morte ia ser au naturel.

Kolya: Puxa! Vocês têm todo um esquema armado aqui, hein? Mas então o que é que eu posso pedir?

Número Um: Como é que a gente vai saber?

Kolya: O que é que as pessoas pedem normalmente?
Número Um: Elas pedem pra ir pro céu. Elas pedem felicidade pra família. Pedem pra viver eternamente na lembrança das pessoas. E às vezes, pedem a morte de um inimigo.

Kolya: Pera aí. Vou pensar.

Número Dois: Claro. Agora você tem todo o tempo do mundo. (Pausa. Kolya tenta pegar um cigarro, mas o maço está vazio)

Kolya (A Número Um): Arranja um cigarro aí.

Número Um: Esse é o pedido?

Kolya: Não, só...

Número Um: Ah, está bem. (Dá um cigarro para ele. Kolya fuma por um tempo. Está pensando, mas não temos idéia do que se passa em sua cabeça)

Kolya: Certo... eu morri. Morri de vez. Quer dizer, bati as botas no dia 25 de outubro desse ano. Mas — vê se isso dá pra fazer: eu quero que vocês me levem de volta pro passado, pra dois anos atrás: pro dia 5 de Maio. Do jeito que eu tô mesmo. Quer dizer, não tem importância, né? Eu já morri, não morri? E no dia 25 de outubro, eu embarco.

Número Dois: Boa tentativa. Muito esperto. Você tá querendo passar o tempo pra trás, né? Mas não dá.

Kolya: Não, não é isso, não. Eu não quero ir pra sofrer só, não. Eu quero fazer alguma coisa, alguma coisa pra consertar esse dois anos.

Número Um: Você sabe o que você quer de verdade?

Kolya: Acho que sim.

Número Um: Contanto que você entenda que você não pode mudar nada... Tudo já aconteceu e, independente de qualquer coisa, você está morto. Hoje, naquele dia, você deixou de existir. Agora você não existe. E mesmo assim, quando for dia 25 de outubro, você vai ter que se jogar lá de cima.

Kolya: Então o que é que tá pegando? Vocês não têm como fazer o que eu tô pedindo, é? E toda aquela conversa de que eu podia pedir qualquer coisa?

Número Um: Você tem certeza? O seu pedido é meio idiota.

Número Dois: Que se dane. É isso que você quer, não é? Mas você só vai ter um dia. Depois você tem que voltar pra cá de novo. Aí, então, a gente decide o que a gente vai fazer contigo.

Kolya: Tudo bem.

Número Dois: Se você quiser, você pode me trazer um presentinho.

Kolya: Então quer dizer que aqui não tem tudo, é?

Número Dois: Claro que não. Como é que a gente ia trazer pra cá?

Kolya: Como assim?


Número Um: É que as pessoas, quando chegam aqui, param logo de trabalhar. Elas acham que já não precisam mais ralar, porque chegaram ao fim do poço.

Número Dois: E a gente não pode fazer mais do que isso daqui. Os meus não trabalham por princípio. Porque se sentem injustiçados no inferno e porque não tem mais repercussão lá. E os dele são uma cambada de preguiçosos. Você vai e diz pra um deles: “Seu porcaria de anjo, vai fazer alguma coisa!”. E ele vai olhar pra você com aquela cara de idiota e vai dizer: “Eu tô no céu, já fiz o que tinha que fazer lá embaixo”.

Número Um: Estamos até querendo que as pessoas fiquem mais um tempinho no purgatório, antes de serem separadas, pra contribuir com alguma coisa pelo menos. E você que achava que era o único padecendo aqui. Nem tudo aqui é bonito. Você viveu só 23 anos. Quanto tempo você acha que nós estamos aqui? Essa é que é a verdade.

Número Dois: Você quer chegar lá a que horas?

Kolya: Dez e quarenta e seis da manhã.


Cena II

(De manhã. Chove. Kolya está junto da cabine telefônica próxima ao prédio residencial. Parece o mesmo rapaz. Está sorrindo para cima, de olhos fechados, o rosto virado para o céu e uma ponta de cigarro na mão. Ele abre os olhos, tira um cigarro do maço novo e o acende. Entra na cabine e fica procurando um cartão telefônico. Põe o aparelho no ouvido e ouve o sinal de linha. Faz uma ligação, por fim)

Kolya: Alô? Emergência? Fogo! Tá pegando fogo aqui! Rápido! É Rua Gogol, nº 16. O gás explodiu! Tem vítimas, sim. Vem logo! (Bate o telefone. Liga novamente) Alô? Tanya? Tudo bem? (Pausa). Eu tô aqui embaixo. Ah, sim, feliz Páscoa pra você também! Cristo ressuscitou! É. Peguei de surpresa? Desce, vai. Não, não tá... Desce logo! Vai parar às onze e sete. Só mais um pouquinho. Tô esperando. O cartão só tem mais uns trinta centavos. Não demora, hein? (Bate o telefone e apaga o cigarro. Liga outra vez) Alô, Kolya? Aqui é o seu amigo. O corpo de bombeiros tá chegando aí, se prepara! (Ele se esconde atrás da cabine. Parou de chover. Tanya chega correndo. Olha ao redor. Ele vem por trás e tapa os olhos da moça com a mão. Tanya sorri)

Tanya: Como é que você sabia que a chuva ia parar? (Eles se beijam. É um beijo longo. Longo demais para Tanya. Ela o afasta) O que é que você tem?

Kolya: Poxa...

Tanya: Você tá todo molhado.

Kolya: Foi a chuva.

Tanya: O que é que você veio fazer aqui tão cedo? Você podia ter ligado. Era mais fácil. A gente já se conhece há tanto tempo. (Ela o abraça). Eu ia visitar o Max no hospital. Mas eu queria ir sozinha.

Kolya: O Max espera. Ah, eu não acredito, não acredito. Eu quero apertar você. (Ele a levanta do chão e gira)

Tanya: O que é que você tá fazendo? Eu sou pesada. Pára com isso.

Kolya: Eu esperei tanto tempo por isso! Eu achava que nunca mais ia beijar você de novo. Esquece o Max!

Tanya: Por quê?

Kolya: Porque — tá bem, vamos nós dois então. Hoje é o meu dia de folga; deixa esse dia pra gente ficar junto.

Tanya: Eu já tinha combinado com o Max de ir lá sozinha. Comprei até um chocolate.

Kolya: Por favor...

Tanya: Quer saber...(Vira-se para ir embora)

Kolya: Tanya, eu não tô brincando. Tem uma coisa que eu preciso dizer. Eu nunca mais vou ter outra chance.

Tanya: Dizer o quê?

Kolya: Se você ligar pra minha casa daqui a uns quinze minutos, você ainda vai me pegar lá. Se você quiser, eu posso te provar... Ele tá falando com os bombeiros agora. O que eu quero dizer é que você nunca mais vai me ver desse jeito aqui. Não consigo explicar direito... Eu tô morto.


Tanya: Não tem graça.

Kolya: Eu morri. Só tenho mais um dia... um prêmio que eu ganhei.

Tanya: Puxou fumo, foi?

Kolya: Não. Eu morri mesmo. Ontem, dia 25 de outubro — eu me joguei.

Tanya: Kolya, nós estamos em maio. O que é que tá acontecendo? O que é que você tem, hein? (Kolya fica em silêncio, olha o relógio. Olha para cima, olha para o céu)

Kolya: Presta atenção. Vai começar a chover de novo. Olha aquela nuvem escura ali. É melhor a gente ir pra dentro. Tem que entrar na sua cabeça que eu não sou mais daqui. Não, pera, pera. Olha pra mim, eu não tô diferente? Olha: quatro brincos, em vez de um só. Eu perdi peso.

Tanya: Você perdeu foi o juízo...

Kolya: Deus do céu! Fica! Eu mostro! (Levanta a barra das calças). Tá vendo? Tá vendo as marcas?

Tanya: Pera. O que é que é isso?

Kolya: São os “medicamentos” que eu tô usando. Entendeu agora?

Tanya: Não, não entendi nada.

Kolya: Ai, presta atenção! Hoje é dia 5 de maio, dia da Páscoa. Você vai pro hospital pra ver o Max, mas ele vai ter saído, porque os amigos dele vão chegar lá antes de você e vai todo mundo pro pub. Você vai deixar o chocolate na mesa da frente pra ele pegar depois. Aí você vai se encontrar comigo. A gente vai pra minha casa. Não vai ter ninguém lá — a minha mãe tá viajando, o meu pai vai sair e a minha avó vai dar uma volta. A gente vai tomar uma garrafa de vinho. Eu vou levar você até em casa. A gente vai ouvindo um CD novo que eu comprei ontem. A noite vai ser deslumbrante — o ar fresco depois da chuva, o pôr-do-sol. Tudo isso vai acontecer. Depois as provas, o meu aniversário, a gente vai pro lago. E em julho, a sua avó vai deixar você sozinha no apartamento por duas semanas. E, aí, a gente vai se separar; quer dizer, você é que vai me abandonar. Não sei por quê. A gente vai conversar no telefone um tempão — e você vai dizer que tá apaixonada pela pessoa do outro lado da linha, mas, não, por mim. (Começa a chover, e muito). Aí a gente vai se falar mais umas vezes, mas eu vou estar sempre bêbado. Eu não entendi, não entendi mesmo. Quando chegar o outono, você vai ficar umas semanas no hospício. Acho que tem a ver com esquizofrenia, alguma coisa assim. E eu nunca mais vou ligar pra você. Sou orgulhoso demais.

Tanya: O que é que você tá falando? Tá maluco, é?

Kolya: Eu sempre, sempre lembrei desse dia 5 de maio. Eu fiquei com ele inteirinho na cabeça, cada minuto, cada segundo. Desde o começo, de manhã, até o fim. A chuva. Eu acordei naquele dia e tava chovendo e eu vi a nuvem escura passando. Eu pensei: “Quando a chuva acabar, eu ligo pra ela”. E olhei pro meu relógio. Era a primeira vez que eu ficava quatro meses bebendo direto. Eu tava indo pra faculdade bêbado. Aí um dia eu levantei no meio da aula e desisti. Eu lembro que eu tava me sentindo enjoado. Fui embora. Fiquei por aí procurando, experimentei quase todos os “coquetéis” famosos. Então eu arranjei um trabalho no armazém. Virei traficante. Fiquei viciado mesmo, pra valer. Aí, depois, eu fui embora e... Tanya, eu te amo de verdade. Só agora que eu descobri. E eu sei que eu tenho mais coisa pra falar... Mas eu sempre acabo dizendo “eu te amo” mesmo, porque é o que todo mundo diz. E agora, nem isso eu digo mais, porque eu não sei mais qual é o jeito certo de dizer “eu te amo”. E desde aquele dia, eu fiquei vivendo só no passado. Sempre pensando no dia 5 de maio. Pensando que nesse dia, sim, eu tinha sido feliz. E eu pensava nele todos os dias. Tanya, fala alguma coisa, por favor...

Tanya: Tá chovendo à beça. (Ela se vira e vai andando. Kolya está mudo. Observa a moça, que vai embora. Ele acende um cigarro. E vai fazer outra ligação)

Kolya: Alô? Bolinha, é você? É, cara, sou eu, sim. Ó, vamos aprontar alguma coisa, hein! Claro, o narguilé serve, sim. Quer dizer, é Páscoa, com a graça de Deus... Tá bem, daqui a uma hora... Ótimo, eu dou uma passadinha no dormitório da faculdade. O que eu tenho dá pra metade pelo menos. Até mais, tenho umas coisas pra contar, cara, você não vai nem acreditar.

Ato II

Cena I

(Dormitório da faculdade. Bolinha, Pandus e Kolya. Música tocando)

Kolya: E aí, vocês acham que é verdade ou que é mentira?

Pandus: Por que a gente ia achar que é mentira?

Kolya: Sei lá. Se me contassem, eu ia dizer que é mentira. Parece piada. Voltar dos mortos. (A Bolinha). Vai, enche aí.

Bolinha: Cara, a gente já puxou muito fumo hoje. Eu passo.

Kolya: Ah, não. É a última vez que eu fumo, cara! Deixa disso.

Bolinha: Quer dizer que você não pode mais, tipo... voltar e tal? A outra vida que vá pro inferno, cara. Fica aí. Você tá todo real agora, tá com os braços se mexendo e dá até pra tocar em você: tá tudo certo. A gente podia, sei lá, amarrar você — aí eles que se danem. Ia ser maneiro ter dois de você. Ia ser sinistro...

Pandus: Não, não ia funcionar. Esqueceu que o espaço-tempo é um contínuo?

Bolinha: “Contínuo”? Que porra é essa?

Pandus: Seu merda, quase todo filme fala disso. Pode causar o fim do mundo. Como é que a gente pode ter dois Kolyas ao mesmo tempo? Vai desandar tudo, cara.

Kolya: Mas eu também nem quero ficar aqui. Vai ser muito chato. Eu já sei tudo o que vai acontecer nos próximos dois anos.

Bolinha: O mundo vai acabar?

Kolya: Você é burro, é? Como é que então eu ia estar aqui?

Bolinha: Não sei, ué! Vai ver você é a cria do apocalipse. Vai ver o mundo acabou, vai ver aquele negócio — qual o nome? Contínuo né? — tá desregulado e é por isso que você tá aqui. E aí você é o primeiro, o primeiro cavaleiro do apocalipse.
Kolya (Rindo): Não, cara, não é isso, não. Senão eu já tinha arrancado a sua cabeça. Não. Eu sou do futuro mesmo. Eu posso até dizer o que é que vai acontecer contigo, quer que eu diga?
Bolinha: Manda.

Kolya: Você vai arranjar um emprego sério, um emprego de verdade. Vai trabalhar de comerciante. Não vai ter mais problema pra arranjar bagulho. E você vai ficar com aquela menina do primeiro ano. Ela vai te botar de joelho, cara. Vai te fazer de cachorrinho. Você não vai nem ligar pros seus amigos. Aí, depois, eu não sei mais. Eu me mandei.

Bolinha: Sei dessa... E o Pandus?

Pandus: Não...

Bolinha: Por que não? É estranho, mas é maneiro.


Pandus: Lembra do De volta pro futuro? Se eu ficar sabendo o que vai acontecer... Você sabe... Eu prefiro viver do jeito que eu tô vivendo mesmo.

Kolya: Mesmo você sabendo, vai tudo acontecer do jeito que aconteceu. O Kolya, o outro Kolya, vai se jogar lá de cima do mesmo jeito. É sério. Deus é que disse isso, e o Diabo confirmou.

Pandus: Tá bem, cara. Mas eu não quero saber. Se você contar, vai perder a graça a minha vida.

Bolinha: Uau... Como é que Deus é?

Kolya: Ele é legalzinho. Os dois são bacanas, meio cínicos, né?

Bolinha: Como é que eles são?

Kolya: São severos, um pouquinho severos.

Bolinha: Eles parecem com o que eu acho que eles parecem?

Kolya: Cara, como é que eu vou saber o que você acha?

Bolinha: O Diabo tem rabinho e uns chifres. Deus tem barba e uma roupa branca, e é todo sorridente.

Pandus: Não, cara. Quem ri é o Diabo. Deus é um cara sério, centrado.

Kolya: Eles são normais. Sem rabo, nem nada. E Deus tem um smoking. Se bem que ele tava trabalhando, não sei como é que ele se veste em casa. E ele não é sério, não, nem centrado. E ele não tem halo. Você até que é parecido com ele, um pouco.

Pandus: Uau... Interessante isso. Sem mistério. Tomara que essa maluquice não fique na minha cabeça, quando você for embora. Senão eu vou ter que botar a culpa no bagulho.

Bolinha: Mas, Kolya, se eles são pessoas normais, parecidas com a gente, pra que é que eles inventaram os pecados?

Kolya: Sério, eu acho que foi a gente que inventou isso. Sem os pecados, eu acho que ia voar merda no ventilador. O pecado é uma espécie de lei. Só que se você mata um cara, você já sabe o que vai acontecer. Sabe como é a vida na cadeia. Já com os pecados — você não sabe nada. É por isso que eu acho que foi um cara bem inteligente que inventou isso. Pra evitar aquelas coisas horríveis, sabe?

Bolinha: Você é ateu, cara. (Pausa)

Kolya: Não me ignorem, hein? Eu ainda tenho dois anos pela frente.

Pandus: Você é que disse que a vida vai ser do jeito que é. Que a gente não pode fazer nada. Que você vai se jogar do mesmo jeito.

Bolinha: Quando é que você se jogou? Pra gente ir planejando a despedida.

Kolya: Foi no dia 25 de outubro. Sabe aquele prédio de nove andares perto do dormitório? Foi de noite.

Pandus: A gente dá uma passadinha lá. Se você se jogar mesmo, é porque você não tá mentindo.

Kolya: Vai nevar, hein!

Bolinha: A gente vai agasalhado. Você acha que a gente consegue tirar você dessa?

Kolya: Se alguém tivesse conseguido, eu não tava falando com você aqui, agora. Mas... gente... se vocês lembrarem, eu queria que vocês dessem mesmo uma passadinha lá. Ele vai — quer dizer, eu vou estar todo cheio de heroína...

Bolinha: Pode deixar.

Kolya: Mais uma rodada! Aí eu me mando. Eu quero ver a mamãe. De longe que seja. Ela não vai me reconhecer mesmo...(Bolinha enche o narguilé. Eles fumam em silêncio)
Tá certo. Tô indo nessa. Boa sorte, gente. Adeus. Cuidem-se, hein! E cuidado pro amor não fazer gato e sapato de vocês!

Pandus: Boa sorte, cara.

Kolya: Sorte não vai adiantar nada.

Bolinha: Boa sorte, cara.
Kolya: Tá. (Ele vai embora)
Pandus (Após uma pausa): Topa um chazinho?
Bolinha: Esquenta lá a chaleira.
Pandus: Esquenta você.

Bolinha: Eu tô chapadão, cara.

Pandus: A gente fica sem chá, é o jeito... (Pausa)

Bolinha: Sabe quando é que eu vi qual era a dele?

Pandus: Quando ele falou de Deus e do Diabo.

Bolinha: É, é. Então como é que a gente sabe que Deus tem barba e o Diabo, aquelas porcarias daqueles chifres? Alguém deve ter visto. E alguém viu. É por isso que a gente sabe essas coisas. Senão donde é que a gente ia tirar tudo isso?

Pandus: É, mas... Eles também dizem que a gente foi feito à semelhança de Deus, não dizem? Então vai saber, né?

Bolinha: É meio esquisita essa estória. Por que é que a gente tem Deus, os gregos — o Olimpo? E os árabes têm Alá? E eles têm a jihad, porque é a lei de Alá, e a gente não tem por causa de Deus? Então cada um tem o seu deus, é?

Pandus: Não sei, cara. Depois de hoje, eu tô mais cético ainda. E se o Kolya for um demônio ou um fantasma? Ele pode ser o castigo da gente. O que é que você acha?

Bolinha: E o que é que sobra pra gente? Em quem é que a gente vai acreditar? São todos uns pilantras — eu acho. Às vezes, eu acordo e penso assim: “Será que eu ainda tô dormindo? E se o que eu acabei de ver no meu sonho é que é real e o que eu acho que é real for só um sonho?”. E pra que é que a gente dorme? A gente nem precisa. Mas a gente dorme e vê toda aquela bobagem no sonho. Por quê? Pra quê? Tanta baboseira. A gente tem que escolher uma coisa e ser fiel a ela, senão a gente vai acabar ficando maluco. Imagina só o que ia acontecer com a gente, só por causa dessa conversa que a gente tá tendo, se a gente... sei lá, passasse pro outro lado. (Pausa. Alguém bate à porta. Kolya entra. Mas não é o mesmo que acabou de sair. É o Kolya de verdade. O Kolya do presente. Sua aparência é sadia; suas roupas, diferentes. Está mais bonito)

Kolya: E aí galera? O que foi? É tristeza isso?

Bolinha: Não, não...

Pandus (Após uma pausa): Kolya, bota a chaleira no fogo, bota. É que... a gente não tá conseguindo se levantar.

Kolya: Sei, seus bundões.

Bolinha: Vai um trago?

Kolya: Não, tá maluco? Hoje não dá. Eu vou ver a Tanya mais tarde. Se ela descobre que eu... Deixa quieto.

Bolinha: Então o que é que você veio fazer aqui?

Kolya: Seu burro. Hoje é Páscoa, esqueceu? Feliz Páscoa, galera!

Pandus e Bolinha (A uma só voz): Feliz Páscoa, cara!

Kolya (Rindo): Vocês são uns viciadinhos mesmo! Já tão chapados no domingo de Páscoa. É pecado, hein! Deixa pra lá, eu faço o chá pra vocês. (Ele pega a chaleira e sai)

Bolinha: Hoje é que eu fico lelé.

Pandus: Acho que a gente tá sonhando mesmo, cara!

Bolinha: Claro que não! A gente tem que entender isso daí. Ele acabou de ficar doidão com a gente, não foi? Então por que é que ele tá falando que “é pecado”? Vai ver ele tá doidão... Vai ver é dia dos bobos, sei lá. Vai ver ele não morreu, será?

Pandus: Vamos fazer um teste.

Bolinha: Mas ele tinha pedido pra gente não dizer nada pra ele.

Pandus: A gente não vai dizer nada, cara.

Bolinha: Temos que aparentar descontração.

Pandus: Ele tá voltando. Cala a boca. (Kolya volta, repara na “descontração” e solta um bela gargalhada)

Kolya: Que beleza, hein! Chumbados assim, a essa hora da manhã — é muita devoção!

Bolinha: Kolya, você botou a chaleira no fogo?

Kolya: Botei, sim.



Pandus: Kolya, hoje é Páscoa, não é? Eu e o Bolinha, a gente queria desejar uma boa Páscoa pra você. E a gente queria saber também — a sua opinião — como é que você acha que Deus é?

Bolinha: Mas... não fica de enrolação com a gente.

Kolya: Eu sei lá, cambada de vagabundo. Ele deve ter uma barba branca, eu vi isso uma vez num desenho animado.

Pandus: Bom. Qual?

Kolya: Era um desenho religioso. Passou na TV uma vez, quando eu era pequeno. Eu acho que eu tava na segunda série. Tinha um menino e uma menina que viajavam pela Bíblia. E tinha Deus também. Ele ficava sentado numa nuvem. Não mostrava o rosto dele. Mas ele tinha uma barba, sim, com certeza. E ele tava todo vestido de branco. E eu acho que quem fez aquele desenho, seja lá quem for, sabe mais de Deus do que eu. Por isso é que eu acreditei.

Pandus: Bom. Por que é que você acha que nós perguntamos isso?

Kolya: Porque vocês tão mais fumados que incêndio na floresta.

Pandus: Tá bem, Kolya. Mas o que foi que você fez hoje de manhã?

Kolya: Eu tive uns problemas lá. Algum otário quis me fazer de trouxa, e aí eu fiquei cheio de bombeiro lá em casa, equipe médica e o escambal. Acabou com o meu sossego de manhã. Quando eu acordei, eu tava me sentindo bem. Foi algum panaca que quis se divertir às minhas custas. Ele até ligou e disse: “Olha o corpo de bombeiro aí!”. Era uma voz conhecida, mas eu não consegui identificar quem era.

Bolinha: Então você ficou em casa a manhã toda?

Kolya: Aham.

Pandus: Tá, a água já deve tá fervendo, né?

Kolya: Não, acho que não. Mas olha o que eu trouxe aqui pra vocês. (Procura dentro da mochila). Eu trouxe uns docinhos de Páscoa. Minha vó é que fez. E eu comprei uma columba pascal também. Pra beber, a gente bebe chá.

Bolinha: Já sei! Já sei! Não tinha a mochila.


Pandus (Com tristeza): Não tinha a mochila.

Kolya: O que é que vocês tão falando, hein?

Pandus: Tem certeza que não quer um trago?

Kolya: Tenho.

Pandus: Mas a gente vai querer. Que eu tô meio perdido.

Bolinha: Eu não quero, não.

Pandus: Quer, sim. Senão o chá não vai ferver nunca.

Kolya: Eu vou dar uma olhada. (Sai)

Pandus: Enche aí, cara.

Bolinha: Eu tô bem, eu não quero mais, não.

Pandus: Enche aí. Tô mandando.

Bolinha: É ou não é ele?

Pandus: Não é ele, não. Depois de tanta maconha você acha que ele ia conseguir ficar em pé? Eu mal consigo levantar, e olha que eu sou mais velho, hein! Põe mais bagulho.

Bolinha: Não, cara. Vai ser outro pecado.

Pandus: Como se fizesse diferença, né? (Kolya volta com a chaleira)

Kolya: O chá tá pronto.

Pandus: Excelente.

Bolinha: Vamos dar uma fumada.

Kolya: Eu não quero, não. Mas bem que eu queria uma picadinha na veia. (Kolya serve o chá. Bolinha carrega o narguilé. Pandus fica em silêncio)



Bolinha (De repente): Kolya, liga pra Tanya agora, vai! Vai, cara! Liga pra ela, eu tô mandando. Liga pra casa dela. Vai!!!

Kolya: Por quê?

Bolinha: Vai, cara. Liga logo! (Kolya sai) Vai! Vai logo! (Pausa)

Pandus: Toma, dá um trago. (Eles se sentam à mesa. Pandus está fumando. Kolya volta)

Kolya: Posso dar um trago? (Pandus oferece; Kolya aceita)

Bolinha: O que é que ela tem?

Kolya: Hoje é Páscoa. Não tá certo isso. Acho que eu vou indo.

Bolinha: O que é que aconteceu, cara?

Kolya: Do terraço. Acho que eu vou indo...(Põe tudo na mochila e sai)

Pandus: O que é que aconteceu?

Bolinha: Eu não sei. Eu pensei que, se eles se vissem, se o Kolya contasse tudo pra ela... aí ela ia amar ele de verdade. Quer dizer, o que é que ela ganha, se ele... morrer? E, então, eu fiquei com muito medo.

Pandus: É isso mesmo, cara. Essas mulheres... Elas quase nunca sabem o que querem.

Bolinha: Eu tô com medo que ele faça alguma besteira agora...

Pandus: Não, ele não vai fazer nada, não. Ele vai precisar de mais dois anos e um monte de heroína pra se jogar do terraço. Ele vai agüentar, por um tempo, sem ela, e aí ele vai se mandar. É a única coisa que eu sei mesmo. Dia 25 de outubro. Daqui a dois anos...


Cena II

(Dia 25 de outubro. Dois anos depois. Terraço. Está nevando. O tipo de noite em que um lampião de rua mais parece uma estrela. A porta se abre. Kolya entra. Está como na cena I. A roupa é a mesma. Um suéter qualquer. Drogou-se, por isso não sente frio. Com cautela, Pandus segue logo atrás)

Kolya: O que é que você tá fazendo aqui? Eu só tô olhando as estrelas. Daqui de cima a vista é linda.

Pandus: Eu vim me despedir. O Bolinha deve ter esquecido, mas eu não esqueci, não.

Kolya: Você veio dar boa noite?

Pandus: Nem tenta me enganar. Eu sei muito bem o que é que você tá fazendo aqui.

Kolya: Puxa, esse é amigo mesmo! Isso aí. Mas onde é que você tava nos últimos dois anos, hein? Agora é que você vem dar adeus? Felicidades, até logo! Tá bom assim? Hasta la vista e vai pro inferno.

Pandus: Cala essa boca. Mesmo que eu tivesse alguém te vigiando 24 horas por dia, de qualquer jeito, hoje, você ia vir pra cá.

Kolya: E agora você é médium? É o Rasputin, é? Por que é que você tá aí dando sermão? Vai embora, eu não quero nem olhar pra tua cara.

Pandus: Você é que sabe. Eu tinha prometido que vinha me despedir. E eu vim.

Kolya: Você prometeu? Você só sabe é se picar e ficar reclamando, é só pra isso que você serve.

Pandus: Eu não vou me aborrecer contigo. Já, já você vai morrer. Aí, depois que você tiver morrido, você vai entender por que é que eu tô aqui. Talvez não na hora, mas depois do programa de televisão e do seu encontro com a Tanya, aí você vai entender.

Kolya: Pelo jeito, você tá usando umas drogas bem pesadas também. Você pirou de vez. Que programa de televisão é esse? Que encontro é esse? Ela morreu! Eu visitei o túmulo dela mês passado. Ela morreu, morreu pra sempre.

Pandus: Vocês vão se encontrar outra vez.

Kolya: Seu puto de merda!

Pandus: Quer que eu vá embora?


Kolya: Quero! Vai, vai embora daqui. (Se acalma) É que eu quero ficar sozinho. Eu não tô mais acostumado com gente.

Pandus: A coisa é séria mesmo.

Kolya: Pode ser. Vai, por favor. Eu não preciso de você, não. Sério.

Pandus: Eu nunca entendi o que é que aconteceu naquele dia, dois anos atrás.  Nunca entrou na minha cabeça que isso tudo ia acontecer de verdade. Eu tô indo. Mas vamos nos despedir direito. Eu prometi.

Kolya: Tá bem, cara. Adeus. Eu só não sei como é que você descobriu tudo isso, donde é que você tirou tudo isso. Mas agora não importa. Eu tô cansado. Gente como eu não tem futuro. Um dia eu fui ver, e ele não tava mais lá, tinha desaparecido. E aí tudo perdeu a importância. Tem gente que consegue fazer os ajustes e esquecer. Tem gente que nem percebe, mas eu, não — pra mim acabou. Tudo virou uma mentira, assim de repente.

Pandus: Pode acontecer isso. Pode passar também. Você só tem que esperar.

Kolya: Eu não gosto de esperar. Uma coisa é ir atrás: pelo menos você tá se mexendo. Mas esperar é que nem ficar lá sentado, depois você fica com hemorróidas. E você não pode ir embora porque você tá esperando, esperando que alguém apareça. Eu já esperei muito tempo... talvez não o suficiente, mas eu cansei. Pode ser fraqueza. Mas também é força, força pra quebrar a espera. Se você perguntar por que é que eu tô aqui, hoje, eu não vou saber responder. Eu não planejei nada. Foram os meus pés que me trouxeram aqui. Que heróis! Mas é assim que o barco corre. Não dá pra mudar o destino.

Pandus: O que você quer?

Kolya: Nada.

Pandus: Mentira.

Kolya: Eu sei.

Pandus: Hoje eu podia tirar você dessa. Eu pensei nisso, sem parar, por dois anos. Aí eu percebi que eu não ia conseguir. Pra ser honesto, eu nem sei o que é que eu tô fazendo aqui. Eu vou embora e você vai dar esse passo pra além da beirada. Sério. Quando alguém morre, as pessoas costumam dizer: “Ó, que pena!”. Sempre dizem isso depois. E agora eu tô com esse pressentimento estranho de que você vai morrer e eu tô começando a aceitar. E eu não acho que seja uma pena, não, nem nada disso. É que nem ver um conhecido pegar um trem, de mudança pra outra cidade, sabe? Eu vim me despedir. Mas eu não quero ver o trem partindo. Adeus, cara. As pessoas vão te esquecer. Mas tem alguém aqui que vai lembrar de você por muito tempo.

Kolya: Adeus. (Pandus sai. Kolya se aproxima da beirada. Apesar das drogas, ele tem medo) É isso aí. Acabou a sua vida, Kolya. Curtinha, mas... A noite tá bonita. A neve. Demais. Até os lampiões tão diferentes. Noite bonita mesmo. (A porta se abre e Tanya chega ao terraço. Ela tem o mesmo aspecto de antes. Pausa. Kolya a abraça. Ficam assim por bastante tempo. Em silêncio) Eu sabia que um dia você vinha.

Tanya: É, você tá que nem naquele dia.

Kolya: Não desaparece, por favor. Fala comigo.

Tanya: Eu não ia desaparecer. Eu não sou uma alucinação, não.

Kolya: Não, você é uma aparição. Eu já ouvi falar disso. Tem até livro sobre o assunto. Mas eu nunca tinha visto uma aparição antes. Já tive umas viagens bem bizarras, cara, mas aparição eu nunca tinha visto, não. Pelo menos você não tá... desfigurada.

Tanya: Seu bobo. Eu sou de verdade. (Abraça-o).

Kolya: Que noite esquisita! Eu tava crente que eu tava sozinho, e de repente me aparece o Pandus dizendo que sabia de um negócio aí. E agora é você, você de verdade, mas eu fui no seu enterro. Eles te enterraram. Será que eu pirei?

Tanya: Não. É que o que eu tô sendo aqui pra você, agora, você foi pra mim dois anos atrás.

Kolya: Como assim?

Tanya: Dois anos atrás, na Páscoa, você me apareceu todo magrinho, zangado e cansado, você tava diferente mesmo. E você disse umas coisas bem vagas. Eu não cheguei a entender tudo, mas eu me senti muito mal, eu não agüentei aquilo...

Kolya: Como é que você me viu? A gente não se encontrou na Páscoa daquele ano, lembra? A gente nem se falou por telefone. Onde foi que você me viu?

Tanya: Você veio do mesmo lugar que eu vim agora. Eu tô morta, não tô aqui. Pra mim, só tem hoje. Dia 25 de outubro. Você tentou me avisar. E depois, depois que eu morri, eu fiquei sabendo de toda a história.

Kolya: E quem é que te contou?

Tanya: Você não conhece. Você ainda não conhece. Dependendo da pessoa, eles podem mudar. E alguém inventou os nomes “Deus” e “Diabo”. Eu conheci um homem e uma mulher. Eles meio que pareciam a mãe e o pai de alguém. Pra você, pode ser diferente, outras pessoas. Eles não têm rosto. Eles apenas são. Eu pedi, e eles me deram a chance de ver você de novo.

Kolya: Por que é que você fez aquilo, naquele dia? Por quê?

Tanya: Naquele dia, de manhã, eu percebi que eu não podia, de jeito nenhum, deixar você fazer alguma bobagem por causa de mim. Eu não ia conseguir viver sem a pessoa que eu vi naquele dia de manhã. Foi só depois que eu aprendi que não se pode mudar nada.

Kolya: Eu não entendo.

Tanya: Não importa. Porque agora, agora você vai se jogar. Isso tem que acontecer. Porque a vida é assim mesmo. Você não pode não pular. Você vai pular, nem que
seja porque daqui a pouco eu vou embora.

Kolya: Eu não deixo.

Tanya: Se fosse simples assim... A gente nunca vai ser feliz como a gente quer. Nem eu, nem você. É a vida.

Kolya: Eu não vou deixar você ir embora, de jeito nenhum.

Tanya: A gente vai se ver de novo. Porque você vai pedir de novo o dia 5 de maio. E você vai lá me ver nesse dia, de manhã. E, então, vão ser dois anos de sofrimento. E, depois, você vai voltar aqui pro terraço de novo. E eu vou aparecer. A gente não vai ter muito tempo. Mas o tempo que a gente tiver vai ser de pura felicidade. Vai ser curto, mas vai ser nosso. Só eu e você.

Kolya: Eu não tô entendendo nada. Eu te amo. Sem você, eu não vou conseguir viver.

Tanya: Eu sei. É por isso que, hoje, você vai se jogar daí.


Kolya: E a gente vai se encontrar depois da morte?

Tanya: Não. Porque a morte não existe. O que existe é a eternidade, só isso. E é lá que a gente vai se encontrar de novo, dia 5 de maio.

Kolya: Quanta complicação.

Tanya: Nada é simples. Mas vai, me beija, por favor. Que nem no dia 5 de maio. Que nem você vai fazer, daqui a pouquinho, no dia 5 de maio.

Kolya: Eu não...

Tanya: Eu não tenho muito tempo. Vai, me beija. (Eles se beijam) Tô indo. A gente se vê. A gente se vê, logo logo.

Kolya (Segurando a mão dela): A gente vai se encontrar?

Tanya: A gente vai se encontrar. (Ela sai. Kolya fica em silêncio. Não por muito tempo. De repente, abre um sorriso. Ele entendeu. Tira os dois pés do chão. Moleza. Segundos depois, Bolinha chega arfando por causa da escada)

Bolinha: Cheguei atrasado. Ele já foi. Eu disse pra Yelena várias vezes que eu tinha uma coisa pra fazer hoje à noite. Mas, não...  “Você tá com uma amante. Você não me ama mais”. Ô mulherzinha chata! (Olha para baixo). Kolya! Neca. Ih!... Já era. Será que o Pandus veio? É uma coisa extraordinária mesmo — a vida. E dizem que milagre não existe. E isso não foi milagre, não? Hein?... E agora? O que é que vai acontecer? E se, amanhã ou depois, eu faço isso?... Não. Nunca. É pecado. Vai que a moda pega e todo mundo começa a imitar. Era o que faltava! Não vai ter mais onde enterrar as pessoas. O que eu queria dizer pra você, Kolya, é que a vida vale a pena. Porque a vida, a vida é magnífica. E ninguém sabe o que é que vai acontecer. Hoje, você se joga, aí, depois, você vai lá e vê que tinha tirado a sorte grande! O propósito divino não é pro nosso bico. Fazer o quê? (Olha para baixo). Se você tá vivo, tem que continuar vivendo. Mesmo que a vida seja uma merda. E tem que amar também — no fundo, isso é que é viver. O amor não morre nunca. Nem com a morte. Você podia ter superado isso, cara, mas você não quis, não quis mesmo. Porque você é um imbecil.  E daí que eles já tinham traçado tudo pra você lá em cima? Você podia ter vivido. E é isso que eu vou fazer. Porque se eu tô vivo, então é porque eles deixaram. Permitem, logo existo. E você foi burro. Mas também foi um bom sujeito. Tem gente que te ama aqui, cara. Então eu... A vida é boa; é boa, sim. Que se dane o que ela diz! Eu amo aquela mulher... Quer dizer, não sei. Quando o assunto é amor, nunca se sabe. Mas viver é importante. A gente tem que viver! (Olha para baixo).

F   I   M
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Rodrigo Neves Carvalho assina a presente tradução. Esta peça está publicada na revista Cadernos de Teatro nº 178.

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