sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

                            Santo Agostinho
                                                 (354-430)

           Santo Agostinho foi um escritor extraordinário, intelectual formidável, e o mosaico de gênios aqui proposto não pode dispensá-lo, apesar de todo o meu constrangimento. Agostinho defendia a dispersão dos judeus, e não o seu extermínio, mas foi também o primeiro teórico da Inquisição, segundo o biógrafo oficial, Peter Brown. Atualmente, muitos leitores das duas obras mais célebres de Agostinho - Confissões e A cidade de Deus - pendem a uma reação ambivalente, a não ser os crentes dogmáticos.

          Garry Wills, em recente estudo sucinto, sugere, com perspicácia, o emprego de Testemunho, em lugar de Confissões, a fim de evitar implicações que, de maneira equivocada, remetam à noção de "confissões verdadeiras". Infelizmente, a estratégia não funciona; as referências a Testemunho, no estudo de Wills, irritam o leitor, já familiarizado com o título original. O tema de Agostinho é a formação de um cristão, conquanto sua história transcenda o que a maioria dos norte-americanos hoje chama "conversão" a Cristo.

          A originalidade de Agostinho é responsável pela invenção da autobiografia, mas eu não depositaria ali o seu gênio. O pensamento é impossível sem a memória, e a memória, em sua consciência ampla, pode muito bem depender da leitura. Ainda hoje, Agostinho oferece mais reflexão sobre a memória do que qualquer outro estudioso, e talvez continue a ser o melhor professor de Leitura.

          Sobrecarrega-me um pouco tal afirmação, pois prezo Samuel Johnson e Ralph Waldo Emerson, e não gosto de Agostinho, mas ele foi o primeiro grande leitor, na concepção de fendida por Johnson e Emerson, e, de certo modo, ainda é o mais apto, descontando-se sua tendenciosidade, comparável a Freud, embora em direção oposta.

          Em uma voga que só agora começa a chegar ao fim, temos sofrido a imposição de "teóricos" da leitura um tanto enfadonhos. Agostinho é apresentado por Brian Stock como o teórico que proveu os fundamentos de uma cultura baseada na leitura, o que me parece irrefutável. Grande parte do entendimento a que pude chegar sobre a minha própria obsessão pela leitura e pela memória advém de Agostinho (às vezes, a contragosto).

          Começo com Virgílio, pois em Virgílio tem início Agostinho, que sempre interagiu com o poeta romano. Embora criativa, a leitura que Dante fez de Virgílio foi distorcida. Mas Agostinho leu Virgílio corretamente, o que produz uma fascinante curiosidade: o Virgílio de Dante é agostianiano, mas o Virgílio de Agostinho, absolutamente não o é. Tanto para Agostinho quanto para Dante, Virgílio é o predecessor idealizado (no caso de Agostinho, confundido, estranhamente, com Santo Ambrósio), mas Virgílio não foi o verdadeiro precursor literário nem do bispo africano, nem do poeta florentino.

          No caso de Dante, tal figura seria um misto do humanista Brunetto Latini e do poeta florentino Guido Cavalcanti. Para Agostinho, os verdadeiros precursores foram os neoplatonistas Plotino e Porfírio, ambos tendo rejeitado Cristo. Virgílio, conforme já observei, viveu à sombra de Homero e, mais ainda, de Lucrécio. Agostinho leu Lucrécio e, como seria de se esperar, detestava-o, mas fascina-me a noção de Lucrécio não ter estado disponível a Dante, cuja reação à leitura de Lucrécio seria a fúria.

          Embora Agostinho, ao lado de Ambrósio e Jerônimo, tenha se tornado um dos "fundadores da Idade Média", conforme os chamou E.K.Rand, é importante ter mente o fato de que o bispo-teólogo começou a carreira em função do que hoje chamamos professor de literatura, e seu texto primordial era Virgílio, assim como o nosso texto central são as obras completas de Shakespeare.

          Agostinho inebriava-se nas palavras, sempre fascinado por linguagem figurada, embora, com o passar do tempo, só aprovasse o uso desse tipo de linguagem na Bíblia. Mais até do que Dante (sempre um político, mesmo no exílio), Agostinho era um homem de letras, uma personalidade literária antes mesmo de se tornar figura-chave da Igreja ocidental. Agostinho, o teólogo, pouco me interessa aqui, conquanto salientar-lhe a acuidade psicológica e a perspicácia literária signifique, igualmente, invocar-lhe a originalidade espiritual, mesmo que a aspereza dessa espiritualidade dificulte a sua aceitação.

          Os estudos da consciência, Agostinho, com efeito, iniciou com Plotino, mas rompeu, decisivamente, com o neoplatonismo ao entender o autoconhecimento como resultado da memória, e não da intuição. Vemos a nós mesmos, como um processo de continuidade, através do exercício de recriação ensejada pela memória: a autobiografia é, praticamente, inconcebível sem a memória, o que, em grande parte, constitui uma descoberta agostiniana.

          Virgílio, presença contínua para Agostinho, da infância à velhice, contribuiu, implicitamente, para essa formulação do papel da memória na construção da consciência individual. Contudo, para Virgílio, e para o Enéas por ele criado, memória implicava nostalgia, ou pesadelo. Virgílio é, por assim dizer, um aperitivo da insistência de Nietzche de que a dor é mais memorável do que o prazer.

          Para Agostinho, até o esquecimento constitui parte vital da memória, pois torna-se um mito cristão da memória, no qual as três forças da alma refletem, em nós, a Trindade e sua unidade misteriosa. A noção de "entendimento" foi herdada da filosofia clássica, mas a "vontade" agostiniana, assim como a "memória", é criação de Agostinho, por mais surpreendente que a asserção possa parecer.

          Todavia, para se revalorizar a memória, é preciso modificar a visão que se tem do intelecto, e, para Agostinho, o que une a memória a intelecto é a vontade de Deus, atuando na alma como o princípio paulino de caritas, o amor do deus criador por suas criaturas, homens e mulheres. A memória, conforme reiterado nas Confissões, é o agente por meio do qual as outras forças da alma são forjadas à imagem de Deus. Apresento aqui uma amostra das Confissões, Livro 10:

          É prodigiosa a força da memória, meu Deus. É um santuário vasto, imensurável. Quem pode sondar-lhe as profundezas? Todavia, é uma faculdade da minha própria alma. Embora seja parte da minha natureza, não consigo entender tudo o que sou...
Chegamos a denominá-la, a memória, mente...

          A força da memória é grande, Ó Senhor. É assombrosa, em sua complexidade profunda e incalculável. No entanto, é a minha própria mente: sou eu mesmo. O que, então, sou eu, meu Deus? Qual a minha natureza? Uma vida sempre a variar, cheia de mudanças, dotada de imensa força. As vastas planícies da minha memória e suas inúmeras cavernas e vales estão repletas de incontáveis elementos, de todos os tipos...

          Mas em que parte da minha memória estás presente, Ó Senhor? Que cela construíste para ti em minha memória?

          Estavas no meu interior, e eu, no mundo exterior. Procurei por ti no mundo exterior e embora desvirtuado, deparei-me com as tuas adoráveis criações. Estavas comigo, mas eu não estava contigo...

          Está implícita, nos trechos anteriormente citados, a transição, quase invisível, da memória à vontade, processo denomidado conversão. Não somos capazes de recordar todo o conteúdo da nossa memória, e o que somos mais propensos a esquecer é a felicidade de ter conhecimento de Deus. A memória é força mais poderosa do que o eu, até que eu chegue à seguinte percepção: "Estavas comigo, mas eu não estava contigo". A vontade de conhecer Deus supera a fraqueza que nos faz dele esquecermos. Tal fraqueza envolve um mistério a ela relacionado - o tempo:

          O que, então, é o tempo? Sei muito bem , desde que ninguém me pergunte; porém, se perguntado, ao tentar explicar, fico perplexo.

          Não podemos entender a eternidade, pois a nossa linguagem está inserida no tempo, e, portanto, como poderemos definir, precisamente, a natureza do tempo? O tempo presente é apenas uma ficção de permanência, um poema, ou um conto; todavia, tudo o que sabemos do passado ou do futuro está contido nesse poema, ou conto, à medida que o escrevemos.

          Não vejo a Trindade no trecho notável a seguir, ao contrário de Garry Wills, mas lembro-me dessas palavras sempre que recito um poema em voz alta, o que significa que, embora descrente, penso em Agostinho várias vezes todos os dias, pois quem mais teve essa percepção com respeito à experiência interior de recitar um poema que se tem na memória?

          Suponhamos que eu vá recitar um salmo, de memória. No momento incicial, a minha capacidade de expectativa é tomada pela totalidade do salmo. Após ter iniciado, os trechos do salmo por mim removidos da esfera da expectativa, previamente relegados ao passado, passam a ocupar a minha memória, e o escopo da ação por mim sendo realizada é dividido entre as duas faculdades, da memória e da expectativa, uma olhando, em retrospectiva, para o trecho já citado, a outra contemplando o trecho que ainda falta ser recitado.

           Mas a faculdade da atenção está presente o tempo todo, e, através dela, aquilo que era futuro flui para o passado. À medida que o fenômeno prossegue, a esfera da memória estende-se, na proporção em que a esfera da expectativa se retrai, até a expectativa ser totalmente absorvida. Isso ocorre no momento em que concluo a recitação, e tudo já fluiu para a esfera da memória.

          O que vale para o salmo, como um todo, vale também para as partes, e para cada sílaba. Vale para qualquer ação de caráter mais demorado da qual eu me ocupe e na qual a recitação do salmo represente apenas uma pequena parte. Vale para a vida inteira de um homem, na qual todas as suas ações fazem parte. Vale para toda a História da humanidade, da qual a vida de cada homem faz parte. (Confissões, Livro 11,28)

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Fragmento extraído do livro "Gênio", de Harold Bloom. Editora Objetiva.

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