terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Vida Longa

                                                                                                              de Ronald Fucs

Cena: velório. Ambiente solene, quieto, um caixão sobre uma mesa ao centro e dos dois lados e no fundo, bancos, onde estão sentadas algumas pessoas, que conversam em sussurros. O Velho, de boné, segurando uma lamparina com cara de antigüidade (parece aquela do Aladim), está de um lado, entre a Velha e o casal Dora/Genival (filha e genro). A Velha conversa com o casal pela frente do Velho, que está sempre olhando para o caixão.

Velha - Que idade ele tinha mesmo?
Genival - Cento e poucos.
Velho - Cáspite! Faça-me o favor. Oitenta e sete.
Dora - Oitenta e sete? Não pode ser, a mulher dele - quer dizer, a viúva - tem quase cem, será que ele era tão mais moço do que ela?
Velho - Pera lá, viúva não que eu ainda tou vivo!
Dora - A gente tá falando do falecido!
Velho - Ah, o Mausoléu? O Mausoléu tem 102. Tinha, né?
Dora - Mausoléu?!
Velho - Bem, a gente chamou ele de Léo até que ele fez uns 95 anos, por aí. Aí ele ganhou o apelido de Mausoléu. (Para Genival). Meu filho, me diz uma coisa. De onde é que eu te conheço mesmo?
Genival - Eu sou seu genro, o senhor não tá lembrado?
Velho - Ah sim, agora lembrei. E essa menina, quem é?
Genival - Ora, é a minha mulher.
Velho - Sua mulher? E você não vai me apresentar?
Genival - Mas ela é a sua filha, é a Dora.
Velho - É mesmo? (Examina Dora e depois a Velha, comparando- as). É, deve ser mesmo, é a cara da mãe.

Genival e Dora se entreolham com vontade de rir, mas se controlam. Chega uma mulher que conversa em voz baixa com os outros, evidentemente dando os pêsames, e depois se dirige ao Velho.

Mulher - O senhor era o melhor amigo dele, não é? Que tristeza...
Velho - Olha, até que não era tão ruim assim ser amigo dele...
Mulher - Eu quero dizer, que tristeza a morte dele...De qualquer modo, foi uma coisa rápida, sem sofrimento...Eu estava com ele na pracinha, aí ele medisse que não estava se sentindo bem...Fui buscar um copo d’água, e quando eu voltei, ele estava morto. Também, né? Com aquela idade...
Dora - Com licença, papai, mamãe, quando vocês quiserem ir embora é só falar, viu?
Velha - Tá bem, Dorinha.
Velho - Ir embora para onde?
Genival - Ué, para casa.
Velho - Fazer o quê, lá?
Genival - Não sei, ué, quando o senhor estiver cansado...
Velho - Cansado de quê? De ficar sentado?
Velha - Fica quieto, Velho.
Dora - Quando ele quiser ir embora ele fala, Genival.
Velho - Todo mundo tem essa mania. Eu vou pra pracinha, sento lá no banco, fico duas horas parado feito uma pedra, aí vem um mongolóide e pergunta se eu não quero ir pra casa descansar. Descansar de quê?
Dora - Tá bem, papai, o Genival só queria ser gentil.
Velho - Ou então eu fico na sala vendo televisão, aí aparece alguma anta e me pergunta se eu não quero descansar. Se ver televisão cansasse, eu já tava morto há muito tempo, que eu não faço outra coisa...
Velha - Eu gosto é daqueles anúncios compridos...
Velho - Prefiro novela. Imagina, eu fico estirado no sofá feito uma almofada e aí acham que eu tou exausto...
Dora - Papai, já entendi, agora fica quieto que tá todo mundo olhando para nós.
Velho (Falando alto) - Ah é? Devem estar se perguntando se eu não estou cansado.
Fora - Papai, por favor...
Velho (Mais alto ainda) - Pois eu não tou nem um pouco cansado, sabiam? Tou até pensando em escalar o Corcovado sem aparelho nenhum, com as mãos, assim, ó...
Velha - Vai cair.
Dora - Chega, papai!
Velho - Tá bem, com uma cordinha.

Ele acha sua própria piada muito divertida e fica um longo tempo prendendo o riso, enquanto vão chegando mais pessoas. Todos se cumprimentam com ar solene e falando baixo, como em todo velório, e vão se sentando. Enquanto isso, a Velha fica falando, sem que ninguém preste atenção, e o Velho, olhando para o caixão, vai parando de rir e acaba ficando sério. Enquanto ela fala, ele se levanta com dificuldade, põe a lamparina no banco e vai até o caixão.

Velha - Por falar nisso, preciso ligar para aquele número de telefone daquele anúncio. Quero comprar aquele travesseiro que é uma maravilha pro pescoço. Aquela panela também, imagina, basta duas gotinhas de gordura pra fazer um bife...Preciso anotar aquele número, quando passa aquele anúncio eu tou sempre sem a caneta...Acho que vou botar um caderninho e uma caneta em cima da televisão...
Velho (Olhando para o caixão) - Ele parece vivo! Parece que tá dormindo!
Velha (Levantando-se, também com dificuldade, e indo até ele) - Senta aí, Velho. Maquiaram ele, você sabe como é...
Velho - Não é isso não, eu sei que maquiaram ele, mas olha só! Ele tá até sorridente! Isso não é maquiagem!
Dora (Indo também até ele) - Senta, papai.
Velho - Maquiagem muda a cor mas não muda a expressão. Muda?
Dora - Sei lá, papai, senta aí...(Ele se senta mas mantém a expressão perplexa)
Velho (Para si mesmo) - Ah, já sei.
Velha - O quê?
Velho - Já sei por que ele tá rindo.
Dora - Que é isso, papai?!
Velho - É que antes ele devia ter medo de morrer. Aí morreu mesmo, não pode morrer de novo, ficou satisfeito.
Dora - Papai, pára de falar besteira.
Velho - Não posso, eu estou gagá.
Dora (Para Genival) - Ih, vai começar.
Velho - Tou até almoçando de babador.
Dora - Papai...
Velho - Outro dia fui enfiar a colher na boca, errei, dei com a colher no nariz e derramei a sopa na roupa. Manchei tudo.
Dora - Papai...
Velho - Era sopa de beterraba. A roupa ficou vermelha. A empregada pensou que eu estava ensangüentado, caiu desmaiada...
Dora - Mãe, eu e o Genival vamos levar ele pra casa, tá bem?
Velha - Hein? (Dora e Genival se levantam. Imediatamente o Velho se levanta também)
Velho - Ninguém vai me levar para lugar nenhum. Já tou cansado de ser levado de cá para lá por esses dois aí, nem sei bem quem são...(Dirige-se aos outros) Vocês aí, me respondam uma coisa. Eu por acaso sou menor de idade? Sou débil mental? Sou um perigo para a sociedade, qualquer coisa dessas? (Silêncio. Todos olham para ele) E aí, ninguém vai me responder? (Fala para um homem) Você quer me fazer o favor de responder?
Homem - Não, é claro que o senhor não é nada disso.
Velho - Todos concordam? (Alguns fazem que sim com a cabeça, dois ou três balbuciam “sim”) Então, pronto. Vou ficar aqui. É meu direito constitucional, o direito de ir e vir. Aliás, o direito de não ir nem vir, de ficar aqui. De ficar com meu amigo Mausoléu. E pelo jeito que ele está sorrindo, ficar aqui deve ser bem bom. Vou ficar aqui de vez. Para sempre.
Dora - Papai, pelo amor de Deus...Mamãe, fala com ele pra parar com isso...
Velha (Sem a menor convicção. Ela nem sabe de que se trata) - Pára com isso.
Velho - Tá bem, não vou ficar aqui para sempre. Vou ficar só até eu morrer. O que é pra já, pelo jeitão da coisa.
Dora - Papai, vamos pra casa.
Velho - Não.
Genival - O senhor não acha melhor...
Velho - Não.
Dora - Papai...
Velho - Não. E larga o meu braço! (Ele se esquiva da filha e vai para o outro lado do caixão. Dora e Genival o cercam. O Velho segura o caixão). Parem por aí senão eu viro o caixão e o Mausoléu vai sair rolando. (Os dois param)
Velha - O Léo vai sair rolando?Eu, hein. Hoje em dia é tudo esquisito. No meu tempo de velório não era assim não.

Levanta-se a mesma mulher que tinha falado antes com o Velho. 

Mulher - Com licença. Posso fazer uma proposta? Eu sou psiquiatra. E acho que posso resolver esse problema fazendo umas perguntinhas ao cavalheiro.
Velho - Perguntinhas?
Mulher - Sim, para verificar as suas condições psíquicas.
Velho - Me diz uma coisa, você é quem?
Mulher - O senhor não lembra de mim? Meu nome é Renata, eu sou neta do Léo.
Velho - Ah, a Tatinha? Você é a Tatinha?
Velha - Tatinha? Meu Deus, como você cresceu!
Renata - É, esse era meu apelido...
Velho - Mas eu te carreguei muito no colo!
Renata - É, isso foi há muito tempo...
Velho - Você não faz mais pipi na cama, faz?
Renata - Vamos fazer logo os testes?
Velho - Se eu quiser carregar no colo agora, tenho um enfarte...
Renata - A primeira pergunta...
Velha - Você ainda tem aquele cachorrinho de pelúcia?
Velho - Era um carneirinho.
Velha - Não senhor, era um cachorrinho, tinha as orelhinhas assim, você dava corda e ele abanava o rabinho...
Renata - Quantos dedos o senhor está vendo aqui? (Mostra três dedos)
Velho - Cinco. Três em pé e dois dobrados.
Renata - Em que dia o senhor faz aniversário?
Velho - Sempre no sábado ou no domingo, que dia de semana ninguém pode vir para a festa.
Renata - Chega. Lamento, mas o senhor evidentemente não está em condições de tomar decisões por si próprio. (Imediatamente Genival e mais dois homens agarram o Velho)
Velho - Me deixa! Me larga! Olha que eu me enfureço e acabo com os três!

Ele se debate. A Velha vai em sua defesa e dá uns tapas nos homens, que têm de se esquivar dela e ao mesmo tempo segurar o Velho. Tumulto geral. Dora finalmente segura a Velha e os três homens vão levando o Velho para fora.  

Velho - Minha lamparina! Minha lamparina! A lamparina do Mausoléu! Se vocês me deixarem levar a lamparina, eu não resisto!
Dora (Para os homens) - Espera, espera! (Eles param. Ela busca a lamparina e a entrega ao Velho) Pronto, toma a lamparina.
Velho - Se vocês não soltarem meu braço, como é que eu vou pegar?

Os homens se entreolham e acabam soltando os braços do Velho. Este faz menção de sair correndo, ri, depois se aquieta, pega a lamparina e a segura como um tesouro.  

Velho - A coisa mais valiosa que o Mausoléu tinha. É de prata. (Ele vai falando enquanto é levado para fora, até que só se ouve a voz dele, sumindo ao longe. É acompanhado pela Velha) Pertenceu ao trisavô dele, que lutou no exército de Napoleão. Foi ferido em Waterloo. Aquele desgraçado do Wellington...um sortudo, se não fosse o tempo ele ia levar uma surra, que o Napoleão era muito melhor do que ele...É o que o Mausoléu dizia sempre...O trisavô dele era tenente no exército de Napoleão...Ganhou duas medalhas...Ou será que era o tataravô? Se não fosse a chuva, aquela briga ia acabar muito diferente...acho que era trisavô mesmo...

A luz vai se apagando, até que chega a silêncio e escuridão. Todos vão embora.  A seguir, um foco de luz começa a aparecer de um lado. A luz cresce e se percebe que é a lamparina, que o Velho está segurando enquanto entra sorrateiro e se aproxima do caixão onde está o Léu.  

Velho - Pronto, Mausoléu, eu não falei que ia ficar contigo? Já tou aqui de volta. Tudo bem por aí? (Olha bem para o defunto) Mais ou menos, né? Foi todo mundo embora, hein? Gente preguiçosa. Se não fosse eu, você ficava aí sozinho. (Senta) Mas agora você não fica mais sozinho não, não se preocupe. Vou ficar contigo pra sempre. Devia ter trazido um baralho...não, besteira, não gosto de jogar paciência...(A luz começa a fraquejar) Ih, esse negócio vai apagar...Onde é o interruptor aqui? Ah, ali (Levanta, vai até o interruptor e acende a luz. A lamparina se apaga) Mas você não sabe mesmo cuidar das coisas, né?Uma lamparina relativamente nova e já com defeito...Bem cuidada, ela podia durar mais uns cem anos.
Léo (Sentando-se dentro do caixão. Ele está todo maquiado, com uma cara de boneca, as bochechas cor-de-rosa etc.) - Não cuido coisa nenhuma. Você que não botou azeite aí, seu pascácio!
Velho - Pascácio é você, biltre! Tá cheio de azeite, eu botei hoje mesmo!
Léo - E que azeite você botou aí?
Velho - Azeite de oliva sem colesterol, triplo virgem, sei lá o que quer dizer isso...como é que se pode ser triplo virgem?
Léo - Azeite de oliva não serve, seu lorpa!
Velho - Como é que não serve? Claro que serve, rufião! Qualquer azeite...(Fica mudo um tempo até se dar conta, com enorme espanto, de que algo está muito errado) Mausoléu! Você está vivo?!
Léo - Parece, não é? O que você acha? (Olhando em volta) Ei, aqui d’El-Rei! O que é isso? Eu estou num caixão?! (Começa a sair do caixão, o que para ele é um esforço descomunal)
Velho - Claro, você morreu...
Léo - Eu morri? Mas ficou todo mundo maluco? Eu estou vivo, tenho certeza! Que coisa louca, eu tava no banco da pracinha, não tava me sentindo bem, decidi deitar um pouco...e aí acordo num caixão!
Velho - Ah, foi isso? Já entendi.
Léo - Entendeu o quê?
Velho - Ora, Mausoléu, você tem 102 anos, disse que estava se sentindo mal e dormiu no banco da praça...todo mundo pensou que estava morto. Não se deram ao trabalho de ver se o coração estava batendo.
Léo (Ainda tentando sair do caixão) - Que gente mais negligente. (Ouvem-se vozes)
Genival - Olha lá, a luz tá acesa!
Dora - Ele deve estar aí mesmo!
Velha - Eu não disse que ele só podia estar aí? Conheço o danadinho!
Velho - Mausoléu, o pessoal está chegando. Sai logo daí que eu tive uma idéia.
Léo - Tou saindo, tou saindo!

O Velho o ajuda e ele finalmente sai do caixão. O Velho desliga a luz. No escuro, ouvem-se as vozes da Velha, de Genival e de Dora, entrando.

Dora - Pronto, agora ele apagou a luz.
Velha - Esse menino nunca vai crescer.
Genival - Onde é o interruptor?
Dora - Tem que ser aqui junto da porta, deixa eu ver...
Genival - Achei.

Acende-se a luz. O Velho, na verdade Léo usando o paletó e o boné do Velho, está sentado com a cabeça entre as mãos.

Velha - Não fica assim, Velho.
Dora - Eu sei que você está triste, pai, mas vamos pra casa.
Genival - O senhor não pode ficar aqui.
Velha - Vamos embora, Velho.
Léo (Disfarçando a voz) - Só se ele for também.
Genival - Ih...
Dora - Pronto, vai começar de novo.

De dentro do caixão ouve-se a voz do Velho, em tom cavo.

Velho - Então eu vou.

Ele começa a se levantar do caixão. Pânico geral. Genival desmaia. Léo tira as mãos do rosto e o boné da cabeça enquanto o Velho se senta no caixão.

Dora - Papai!
Velha (A única que não se assustou) - Velho, o que você está fazendo aí? Sai daí, anda!
Léo (Levantando os braços e avançando para os outros) - Olha eu aqui!Uuuuuu! O morto! Uuuuuu! Vim do outro mundo para assombrar vocês! Uuuuuu! Uuuuuu!
Velho - Mausoléo, quer parar com isso? Mas é uma cavalgadura! (Imitando, em tom de deboche) Uuuu, sou o morto,uuu, vim do outro mundo...eu te falei pra dar um susto neles, não pra fazer imitação de Pluft, o fantasminha!
Léo - Ah, é? Não sei dar susto não? E o que esse sujeito (Apontando para Genival, caído no chão) tá fazendo aí no chão?
Dora (Somente então reparando que ele desmaiou) - Genival! (Genival começa a se levantar)
Velha - Ei, Léo, você não devia estar lá dentro? Vai pra lá, homem!
Léo (Em tom sedutor, mas cuidando para que o Velho não o ouça) - Enquanto você estiver aqui fora eu também fico aqui.
Genival - O senhor...está...vivo...?
Léo - Descobriu a pólvora.
Velho - Eu não falei pra vocês que ia ficar com o meu amigo Mausoléo? Pois já que vocês não me deixam ficar aqui, então ele vai comigo. (Passando o braço sobre o ombro de Léo) Vamos embora, Mausoléo. Está um dia lindo, podemos passear na pracinha...
Léo - NÃO, NA PRACINHA NÃO! É perigoso. Vamos ver televisão.
Velho - Então tá. Hoje tem novela?

A Velha pega o outro braço do Velho e os três vão saindo, enquanto os demais permanecem estatelados. A Velha e Léo trocam olhadelas furtivas, sem que o Velho perceba.

Velho - Mausoléo, você precisa visitar a gente um dia desses.
Velha - Você precisa conhecer nosso bisneto, é um rapaz lindo...
Léo - Vocês já têm bisneto? Tão moços...
Velho - Por que você não aparece lá quinta-feira que vem? Ele vem visitar a gente, eu faço chá pra todo mundo... (Os três vão saindo e finalmente os outros saem também. De repente, o Velho volta) Minha lamparina! Minha lamparina! (Olha para dentro do caixão) Ah, tá aqui! (Pega a lamparina. Léo entra também)
Léo - Sua lamparina coisa nenhuma, MINHA  lamparina!
Velho - Você me deu! É minha!
Léo - Era sua enquanto eu estava morto! Agora é minha! Passa pra cá!
Velha - Crianças, parem com isso!

Eles saem, discutindo sem parar sobre a lamparina. As vozes vão sumindo ao longe.


F  I  M

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