quarta-feira, 4 de julho de 2018

Teatro/CRÍTICA

"NAITSU - noites com Murakami"

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O real e o imaginário em belíssima versão




Lionel Fischer



"A montagem recria em cena a atmosfera fantástica de Haruki Murakami, considerado o maior autor japonês da atualidade. Sem transpor diretamente qualquer de seus livros, NAITSU atravessa a obra de Murakami, faz convergir situações recorrentes em sua literatura e aglutina várias personagens em apenas uma, que percorre paisagens estranhas e, às vezes, pertencentes a um outro mundo. O entrelaçamento de textos de obras diversas de Murakami com o texto corpo-verbal de Regina Miranda mantém a noite viva e a pulsação emocional da personagem vibrante, enquanto ela atravessa insone as horas entre a meia-noite e o alvorecer".

Extraído (e levemente editado) do ótimo release que me foi enviado, o trecho acima contextualiza o essencial de "NAITSU - noites com Murakami", mais recente produção da Cia. Regina Miranda & Atores Bailarinos. Em cartaz no Espaço Rogério Cardoso da Casa de Cultura Laura Alvim, a montagem leva a assinatura de Regina Miranda e tem como única intérprete Marina Salomon.

Assim que entram na Sala Rogério Cardoso, os espectadores recebem uma varinha e são informados de que podem "manipular a cenografia". Esta consiste em negros véus, com algumas frestas, que envolvem o espaço de representação; e no centro do mesmo, vemos uma espécie de passarela com uma mescla de cores, sendo o vermelho a cor predominante. A mencionada manipulação, obviamente, ficaria restrita aos véus - no meu caso específico, nada fiz com a dita varinha.

Tão logo constatei o essencial da ambientação, meu olhar se concentrou na mulher que, vestida de forma atemporal, realiza movimentos que mesclam contração e expansão, como se desejasse se libertar de algo que a atormenta e ao mesmo tempo sentisse  grande temor de consumar seu desejo. Essa mulher também direciona seu olhar, seus braços e todo o seu corpo em direção aos véus, como que pedindo ajuda àqueles que a observam. Mas logo o mesmo e desesperador ritual volta a se repetir. E talvez se perpetuasse, a menos que ela tomasse alguma atitude. E é o que ela faz ao confessar que havia passado as últimas 17 noites sem dormir.  

Padeceria ela de singular insônia? Ou será que optou por ficar acordada por acreditar que, nas horas noturnas, poderia refletir melhor sobre seus anseios e receios, ainda que arriscando-se a transpor as fronteiras entre o real e o imaginário? Em minha opinião, creio ser a segunda hipótese a mais correta, ainda que possam existir outras. 

Acredito que todo aquele que se recusa a refletir sobre o próprio passado está condenado a repeti-lo. E a mesma reflexão se aplica ao presente: se não estou satisfeito com o que sou, mas me nego a pensar sobre isso, eu serei sempre o mesmo, não darei um mísero passo que me possibilite qualquer transformação. Aqui, estamos diante de uma mulher que pensa no que foi e pensa no que é, o que talvez lhe faça transcender seu estado atual. E que estado é esse?

Como explicitado no parágrafo inicial, não estamos diante de uma mulher específica, mas da aglutinação de várias. Assim, me parece que a opção dramatúrgica de Regina Miranda foi a de concentrar em um único corpo e em uma única voz toda a complexidade do feminino, que abarca tanto a fragilidade quanto a potência. E entre esses dois extremos, uma infinidade de dúvidas, que a personagem explicita com tanto destemor que, a partir de um dado momento,  tive a sensação de que ela renunciaria à própria lucidez e abraçaria a loucura, como se esta derradeira opção pudesse lhe trazer a paz tão almejada.     

Sem a menor dúvida, estamos diante de um texto que levanta questões da maior pertinência e das quais não podemos fugir, a menos que decidamos nos tornar uma espécie de náufragos de nós mesmos. O texto nos propõe urgentes e inadiáveis reflexões. Cabe a nós decidir se as faremos de dia ou em madrugadas insones. No meu caso específico, sempre preferi a noite, dentre outras razões porque acredito que o silêncio seja um excelente parceiro.

Com relação ao espetáculo, este traz a assinatura de uma artista, na acepção máxima do termo. Regina Miranda possui a notável capacidade de mesclar palavras e gestos, a ponto de torná-los indissociáveis. E a coreografia jamais objetiva reiterar o conhecimento daquela que a concebeu e o virtuosismo daquela que a executa. Isto seria pueril, levando-se em conta as brilhantes trajetórias de Regina Miranda e Marina Salomon. Posso estar enganado, naturalmente, mas creio que toda a dinâmica cênica, irrepreensível em todos os momentos, talvez seja fruto mais da alma do que da razão. 

No tocante a Marina Salomon, esta é sem dúvida uma das melhores intérpretes do país. E aqui me abstenho de enumerar seus predicados técnicos, já por demais conhecidos. O que me parece inadiável ressaltar é sua impressionante capacidade de entrega e sua notável inteligência cênica. E também sua coragem. E por coragem entenda-se, por exemplo, a forma como lida com momentos em que nada é dito ou feito, e no entanto, graças a seu poderoso estado de presença, muito está acontecendo. Isto só ocorre com intérpretes de exceção. E Marina Salomon se inclui nesta raríssima categoria.

Com relação à equipe técnica, Luiza Marcier, como já dito, assina um figurino atemporal, como a sugerir que o mesmo estaria em sintonia com todas as mulheres, de todas as épocas. Regina Miranda responde por expressiva trilha sonora, a mesma expressividade presente na ambientação. Gostaria também de ressaltar a beleza do cartaz, creio que a partir de uma foto de Luís Cancel.

NAITSU - NOITES COM MURAKAMI - Texto de Regina Miranda a partir de obras de H. Murakami. Direção de Miranda, interpretação a cargo de Marina Salomon. Casa de Cultura Laura Alvim (Espaço Rogério Cardoso). Sexta e sábado às 20h30. Domingo, 19h30.