segunda-feira, 20 de agosto de 2018


 
Ontem, 22:01
Teatro/CRÍTICA

"THE AND"

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Oportuna e inesquecível montagem



Lionel Fischer



"O espetáculo promove uma interseção entre as palavras de Beckett (três novelas escritas logo após a Segunda Guerra Mundial), Machado de Assis ("Memórias Póstumas de Brás Cubas") e os gritos do nosso próprio tempo. A peça apresenta uma personagem errante, expulsa de todos os lugares e movida pelo desejo de encontrar um local para ficar quieta e sossegada. Ela é o sinônimo da própria instabilidade do nosso tempo, sem garantias e em estado de permanente desintegração".

Extraído (e levemente editado) do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o contexto em que se dá "THE AND", em cartaz no Teatro Sesc Copacabana (Sala Multiuoso). Isabel Cavalcanti responde pela dramaturgia, atuação e divide a direção do espetáculo com Claudio Gabriel. 

Como explicitado no parágrafo inicial, estamos diante de uma mulher errante, expulsa de todos os lugares e que vaga em busca de paz. Mas me parece enganoso individualizá-la, pois assim nos limitaríamos a sentir compaixão por alguém que da vida só conheceu o seu lado mais amargo. No entanto, o que está em causa transcende uma tragédia específica e se estende a todos nós. Afinal, quem somos? O que pretendemos? Para onde vamos? O que ainda podemos fazer para evitar a completa desintegração de nossos valores mais essenciais? 

O presente texto não nos acena com respostas, mas sutilmente nos imputa responsabilidades. Sim, somos todos responsáveis por tudo que fazemos e sobretudo por tudo que deixamos de fazer. Se eu não acolho e não conforto, por que haveria de ser acolhido e confortado? Se a dor do outro não me sensibiliza, por que a minha dor haveria de sensibilizar alguém? Se a empatia tornou-se um conceito meramente abstrato, então nada mais nos resta a não ser admitir que fracassamos, posto que em nossos corações já não reside qualquer resquício de humanidade. No entanto, e mesmo reconhecendo que muitas vezes a mão que afaga é a mesma que apedreja, será que ainda podemos apostar no afago?    

Contendo amargas e pertinentes reflexões sobre a condição humana, os textos de Beckett foram costurados de forma admirável por Isabel Cavalcanti, cabendo também ressaltar a surpreendente inserção das dilacerantes palavras de Machado de Assis, que me levaram a um estado que, na ausência de uma definição mais precisa, me converteram em uma espécie de náufrago de mim mesmo.   

Quanto ao espetáculo, Claudio Gabriel e Isabel Cavalcanti impuseram à cena uma dinâmica em total sintonia com os conteúdos propostos pelos autores. Tudo se dá em uma atmosfera sombria e claustrofóbica, cabendo enfatizar a expressividade de todas as marcações, assim como a maestria no tocante aos tempos rítmicos. Sem a menor sombra de dúvida, estamos diante de um dos melhores espetáculos da atual temporada.

No que se refere a Isabel Cavalcanti, sempre admirável como comediante, aqui a atriz evidencia uma extraordinária capacidade de materializar a dor e desamparo de uma personagem que simboliza a dor e o desamparo humanos, para tanto valendo-se de irretocáveis escolhas vocais e corporais. Além disso, cumpre ressaltar sua forte presença, inegável carisma, inteligência cênica e uma visceral capacidade de entrega. Assim, não hesito em afirmar que Isabel Cavalcanti exibe aqui a melhor performance de sua carreira.

Quanto à equipe técnica, destaco com o mesmo e arrebatado entusiasmo as preciosas colaborações de todos os profissionais envolvidos nesta mais do que oportuna e inesquecível empreitada teatral - Inês Cavalcanti (tradução das citações de Beckett), Cristina Amadeu (direção de movimento), Fernando Mello da Costa (cenografia), Renato Machado (iluminação), Marcelo Alonso Neves (direção musical), Claudio Gabriel e Isabel Cavalcanti (figurino) e Sonia Barreto (design visual).

THE AND - Textos de Samuel Beckett e Machado de Assis. Direção de Claudio Gabriel e Isabel Cavalcanti. Dramaturgia e atuação de Isabel Cavalcanti. Teatro Sesc Copacabana (Sala Multiuso). Sexta e sábado, 19h. Domingo, 18h.

   

    

           



  

domingo, 19 de agosto de 2018

TRIBO DO TEATRO / SERGIO FONTA - 94 FM / Roquette-Pinto , de segunda a sábado, ao meio-dia e meia.
 
Hoje, 21:51

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Amigos queridos,

Estou com um cineclube em parceria com o Teatro XP, que fica dentro do Jóquei – o novo point da Gávea.

Na programação de amanhã temos, comentados, os filmes:

O POETA DO CASTELO - MANUEL BANDEIRA. Curta de 10 minutos com direção emocionada de Joaquim Pedro de Andrade e fotografia de Mario Carneiro. Chance rara de conhecer o excelente trabalho dessas duas figuras fundadoras do Cinema Novo. Meu primeiro contato com o cinema, em 1959.

JUVENTUDE – “Nova versão do diretor” do longa metragem de 2008, que fiz recentemente, cortando mais de meia hora e deixando uma duração de 45 minutos. A experiência me fez pensar sobre a influência da duração que um filme tem no resultado artístico do conteúdo de uma obra.

Espero vocês lá, amanhã às 19h!
Domingos

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Teatro/CRÍTICA

"Elza"

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Belíssimo tributo a uma grande artista



Lionel Fischer



De acordo com inglês Peter Brook, o maior encenador vivo, o teatro é a arte do encontro. Com isso ele quis dizer que um espetáculo pode até ser bom, a plateia se manter interessada, mas se algo de muito significativo não acontecer entre quem faz e quem assiste, o mencionado encontro jamais se dará. Pois aqui se dá esse encontro - emocionante, arrebatador, ao mesmo tempo divertido e trágico, em total sintonia com a trajetória pessoal e artística de Elza Soares.

Em cartaz no Teatro Riachuelo, o musical "Elza" tem dramaturgia assinada por Vinícius Calderoni e direção a cargo de Duda Maia. No elenco, sete atrizes interpretam a homenageada - Janamô, Júlia Dias, Késsia Estácio, Khrystal, Laís Lacôrte, Verônica Bonfim e Larissa Luz, cabendo a esta última a condução do espetáculo e as passagens principais do mesmo. 

Ao contrário do que em geral acontece com musicais biográficos, aqui a estrutura do texto não é necessariamente cronológica. E ainda que todos saibamos que a vida de Elza Soares foi marcada por inúmeras tragédias pessoais - a morte dos filhos e de Garrincha, violência doméstica e fartas doses de intolerância -, sua trajetória pessoal e artística nos é contada com alegria (segundo consta do release que me foi enviado, a pedido da própria Elza).

Outras duas particularidades são marcantes no presente espetáculo: tanto o elenco, como a banda, são compostos exclusivamente por mulheres. E isso me parece de suma importância em função do momento em que vivemos, que se caracteriza, dentre outros aspectos, pela força e importância cada vez maiores das mulheres, negras ou não, em todos os setores da sociedade. As mulheres já não aceitam mais o papel de coadjuvantes em um mundo até então protagonizado pelos homens. E o espetáculo, ainda que de forma não explícita, presta não apenas emocionado tributo à homenageada, mas também ao feminino.

Com relação ao texto, Vinícius Calderoni produziu uma obra belíssima, mesclando o trágico e o humor com absoluta maestria. E também conseguiu inserir  na narrativa sucessos antigos e recentes de Elza Soares sem que a mesma fosse interrompida, ou seja, quase que transformando as canções em dramaturgia. Um trabalho irrepreensível, sob todos os aspectos, que é recebido pelo público com arrebatada emoção.

Arrebatamento e emoção também estão presentes na direção de Duda Maia. E tais sentimentos advém de uma dinâmica cênica que, lidando com poucos elementos - baldes, tonéis e estruturas móveis de metal - gera um resultado de altíssima expressividade. Além de surpreendentes, todas as marcações evidenciam a imensa criatividade de uma artista maior e, além disso, em total sintonia com a contemporaneidade. Sem a menor dúvida, estamos diante de um dos melhores musicais já encenados no Rio de Janeiro.

No tocante ao elenco, todas as atrizes cantam maravilhosamente e encarnam Elza de forma irrepreensível. Mas é claro que, em função do texto, Larissa Luz tem evidente protagonismo. E o fato de se parecer fisicamente com a homenageada e também possuir um timbre de voz semelhante ao de Elza, certamente constituem trunfos adicionais. No entanto, acredito que o essencial reside na força de sua presença, em seu enorme carisma e em sua visceral capacidade de entrega, o que lhe permite valorizar ao máximo tanto as passagens mais trágicas quanto aquelas em que o humor predomina. Não hesito, portanto, em afirmar que Larissa Luz nos brinda com uma performance inesquecível.

No que concerne à equipe técnica, parabenizo com o mesmo entusiasmo as preciosas colaborações de todos os profissionais envolvidos nesta mais do que oportuna empreitada teatral - Pedro Luís (direção musical), Letieres Leite (arranjos), André Cortez (cenografia), Kika Lopes e Rocio Moure (figurinos), Renato Machado (iluminação) e Gabriel D'Angelo (design de som). E o mesmo entusiasmo estendo às excelentes musicistas Antônia Adnet, Georgia Camara, Guta Menezes, Neila Kadhí, Marfa e Priscilla Azevedo.  

ELZA - Texto de Vinícius Calderoni. Direção de Duda Maia. Com Janamô, Julia Dias, Késia Estácio, Khrystal, Laís Lacôrte, Verônica Bonfim e Larissa Luz. Teatro Riachuelo. Quinta às 19h, sexta e sábado às 20h, domingo às 18h.



    




quinta-feira, 2 de agosto de 2018


                                    Mostra Baixada em Cena integra Fitu 2018

Entre os dias 13 e 17 de agosto, a Rede Baixada em Cena – formada por 16 coletivos da Baixada Fluminense – realiza a sua quarta mostra no Rio, em parceria com o Festival Integrado da Unirio (Fitu), no Centro de Letras e Artes da Unirio. A Mostra Baixada em Cena integra o festival na edição que tem como tema “Teatro e Periferia”. Além de espetáculos, a mostra também conta com uma performance e um sarau.

A ocupação de um espaço universitário, além do intercâmbio, proporciona à Rede a oportunidade de debater o acesso a esse espaço e apresentar a alunos da instituição, que fica na zona sul carioca, e moram na Baixada a mobilização que acontece em sua região e sua potência artística e cultural.
Criada em 2008, a Rede Baixada em Cena, que hoje mobiliza 16 grupos de nove diferentes cidades, tem o objetivo de resistir coletivamente a desafios comuns aos artistas de teatro da região, potencializar a visibilidade da produção cênica da Baixada, fortalecer a consciência política e participativa de artistas e produtores, por meio da colaboração voluntária, do fluxo de informações e trabalhos coletivos.

“O movimento nasceu da vontade de realizar um encontro entre grupos de teatro da Baixada Fluminense, pensadores, público e produtores culturais, para discutir a criação estética e o poder de mobilização por meio das vivências cênicas da região”, diz Lino Rocca, um dos fundadores da Rede Baixada Em Cena e integrante do CETA, de Nova Iguaçu. Apesar de ser um novo modelo de organização na Baixada Fluminense, a Rede Baixada em Cena já apresenta resultados satisfatórios como instrumento de luta e organização social, conquistando o Prêmio Shell 2017, na categoria Inovação.

Esta não é a primeira parceria que a Rede faz com a Unirio. A Rede é uma das parceiras da instituição na realização do projeto Artes Cênicas em Extensão, que promove o compartilhamento de saberes, por meio de encontros entre a comunidade acadêmica da Escola de Teatro da Unirio e os grupos teatrais da periferia.

Na noite de abertura do festival, apresenta-se Leandro Santanna, ator de Queimados, indicado este ano, na categoria de melhor ator, na 31º Prêmio Shell de Teatro, com o espetáculo “Lima entre nós – estudo compartilhado a obra de Lima Barreto”.


Programação:

13 de agosto

20h30
Lima entre nós – Estudo compartilhado a atualidade de Lima Barreto
Companhia Queimados Encena (Queimados)
Indicado ao 31º Prêmio Shell de Teatro – Melhor Ator
Local: Sala Paschoal Carlos Magno (Palcão)

Sinopse:
O monólogo interpretado pelo ator Leandro Santanna é um tributo ao escritor e cronista Lima Barreto e conta com a direção de Marcia do Valle. A atualidade da obra do autor é o mote do espetáculo solo, que pretende despertar reflexões e debates sobre o papel do negro na literatura e na cultura do Brasil.


14 de agosto

13h
Sarau do M.E.R.D.A. - A arte do encontro
Trupe do M.E.R.D.A. (Nilópolis)
Local: Jardim do Centro de Letras e Artes

Descrição:
O Sarau – a arte do encontro, popularmente conhecido como Sarau do M.E.R.D.A., se propõe a ser um espaço que oportuniza experiências e trocas artísticas, e socioculturais. O evento, realizado bimestralmente em Nilópolis, é composto por bate-papos sobre questões sociais e apresentações de diferentes linguagens artísticas, em sua maior parte de artistas e grupos da Baixada.

20h30
Francisca, uma casa enlutada
Trupe Investigativa Arroto Cênico (Nova Iguaçu)
Local: Sala Paschoal Carlos Magno (Palcão)

Sinopse:
O espetáculo “FRANCISCA – UMA CASA ENLUTADA” se desenrola em uma casa, só visitada por mulheres após a morte do varão. Cinco filhas, a viúva e uma empregada vivem emparedadas, remoendo as ambições de se libertarem do jugo dos limites em que estão cerceadas.


15 de agosto

20h30
Meias Verdades
Cia de Arte Popular (Duque de Caxias)
Local: Sala Paschoal Carlos Magno (Palcão)

Sinopse:
Em tempos onde as diferenças são cada vez mais louvadas, e ainda assim a intolerância permeia as relações humanas, Joana e Paulo se encontram numa madrugada de outono, no banco de uma praça, com suas palavras mudas e seus silêncios gritantes, se mostrando inteiros, num debate sobre a diferença, o diverso, e ao que nos identifica: a busca da felicidade em todos os seus meandros pós-modernos. Integrados e entregues ao amor que move tudo. A dor de uma mãe e a angústia e o cuidado de um homem em dizer uma verdade por inteiro.


16 de agosto

13h
Performance “Rodar… Rodar...Rodei”
CETA – Centro Experimental de Teatro e Artes (Nova Iguaçu)
Local: Jardim do Centro de Letras e Artes

Descrição:
É inspirada no poema/conto "Tranças de Maria" de Cora Coralina e feita de cânticos e danças circulares com participação dos presentes (convidados) instalando uma nova relação ativa e testemunhal do público e realizada ao ar livre em espaços pré-selecionados.

20h30
Tudo Menos Beterraba
Cochicho na Coxia (Mesquita)
Local: Sala Paschoal Carlos Magno (Palcão)

Sinopse:
A narrativa traz à tona a história de Dora, uma jovem mulher de vida cotidiana dedicada ao lar e ao marido. Ao ir ao teatro assistir um espetáculo, vê sua vida encenada por ela mesma. Diante da triste realidade e sonhado com uma vida diferente a personagem encontra nas rádios novelas o refúgio para a sua angústia.


17 de agosto

16h
Censura Livre
Grupo Código (Japeri)
Local: Jardim

Sinopse:
Afinal, o que é a liberdade?
Censura Livre é uma adaptação do renomado musical “Liberdade, Liberdade” de Flávio Rangel e Millôr Fernandes e traz no texto uma coleção de cenas inspiradas em grandes nomes da história universal que lutaram pela liberdade. A obra, que é uma criação coletiva e tem supervisão artística de Miwa Yanagizawa, traz diversos episódios históricos importantes, como a Revolução Francesa e a Abolição da Escravatura, em articulação com os acontecimentos da atualidade sem perder o tom irônico e debochado, uma das principais características do Grupo Código.

20h30
Mães de UTI
Cia Cerne (São João de Meriti)
Local: Sala Glauce Rocha (sala cinza)

Sinopse:
A partir de relatos reais colhidos através de entrevistas com mães de prematuros extremos, aborda, na fronteira entre a ficção e realidade, as dores, angústias e alegrias por que passam milhares de mulheres
que, diariamente, vivem a experiência de fazer da UTI neonatal o seu lar, enquanto acompanham o desenvolvimento de seus filhos.


SERVIÇO:

Mostra Baixada em Cena no Fitu 2018
Data: 13 a 17 de agosto
Local: Escola de Teatro da Unirio (Av. Pasteur, 436 - Fundos, Urca)
Entrada Gratuita


Teatro/CRÍTICA


"Minha vida daria um bolero"

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Delicioso tributo às paixões auditivas



Lionel Fischer



"Diana é uma locutora que apresenta um programa de rádio há 20 anos, uma espécie de consultório sentimental. Orlando é um professor de dança que busca o programa para se aconselhar e acaba se apaixonando pela voz da apresentadora. Diana e Orlando se relacionam durante 20 anos, embora nunca tenham se encontrado. Na medida em que o tempo passa, durante o programa, os personagens vão ajudando um ao outro, aprendendo e descobrindo o caminho do amor. E a pergunta principal da peça é: será que alguém pode se apaixonar por uma voz?"

Extraído (e levemente editado) do release que me foi enviado, o trecho acima contextualiza e resume o enredo de "Minha vida daria um bolero", de autoria de Artur Xexéo. Em cartaz no Teatro Sesc Ginástico até o próximo domingo, a montagem leva a assinatura de Rubens Camelo e Paulo Denizot, estando o elenco formado por Françoise Forton e Aloísio de Abreu.

Muitos sustentam que uma boa peça tem que necessariamente partir de uma boa ideia. Sempre discordei disso e cito como exemplo "Hamlet", de Shakespeare, provavelmente o melhor texto teatral já escrito. Vejamos: qual a premissa que dispara a trama? O príncipe Hamlet se depara com o fantasma de seu pai e este lhe informa que foi assassinado pelo irmão, com a cumplicidade da mãe de Hamlet, e pede ao filho que o vingue. Pois bem: há algo de extraordinário nessa ideia? Não me parece. Ocorre que Shakespeare era Shakespeare, e por isso foi capaz de criar a obra-prima que todos conhecemos.

Mas aqui, efetivamente, o autor teve uma ótima ideia. Ao invés de a locutora ouvir os problemas de seus ouvintes e dar conselhos, ela coloca um bolero cuja letra tem afinidade com o drama relatado. É evidente que a locutora sabe que tal artifício não vai sanar a dor daquele que sofre, mas ao menos servirá para lhe mostrar que muitos padecem de uma dor semelhante, o que em certa medida serve como consolo. Outra ótima ideia é o fato de Diana e Orlando manterem uma ligação tão longa, sem jamais se encontrarem, o que nos leva à pergunta que encerra o parágrafo inicial: será que alguém pode alguém se apaixonar por uma voz?

Particularmente, acredito que sim. Como também não hesito em afirmar que Artur Xexéo escreveu um texto simples e delicioso, que nos emociona e diverte através dos diálogos entre os personagens, e também nos faz recordar antigos amores em função dos maravilhosos e sempre melancólicos boleros selecionados, dentre eles "Tú te acostumbrastes", "Solamente uma vez", "Angustia" e "Besame mucho".

Com relação à dinâmica cênica, Rubens Camelo e Paulo Denizot também optaram pela simplicidade, criando marcações que valorizam o que de fato importa: a relação entre os dois intérpretes e deles com a plateia, que se mantém atenta e interessada ao longo de todo o espetáculo, que certamente se tornará ainda melhor quando voltar ao cartaz em um espaço menor e mais aconchegante.

Quanto a Françoise Forton e Aloísio de Abreu, ambos cantam muito bem, extraem dos personagens seu máximo potencial e evidenciam uma cumplicidade cênica só passível de acontecer quando os intérpretes confiam totalmente um no outro e acreditam sinceramente na validade do projeto em que estão envolvidos. 

Na equipe técnica, parabenizo com o mesmo entusiasmo as colaborações de Marina Salomon (direção de movimento), Paula Santoro (preparação vocal), Carlos Alberto Nunes (cenografia), Clívia Cohen (figurinos), Paulo Denizot (iluminação) e Fernando Cazione (visagismo). Quanto ao pianista e o percussionista que atuaram quando assisti o espetáculo, soube pela produção que estavam substituindo os titulares apenas naquela noite. E como ficou evidente um certo desentrosamento em alguns momentos, não vejo por que citar seus nomes.

MINHA VIDA DARIA UM BOLERO - Texto de Artur Xexéo. Direção de Rubens Camelo e Paulo Denizot. Com Françoise Forton e Aloísio de Abreu. Teatro Sesc Ginástico. Quinta a sábado, 19h. Domingo, 18h.  







  

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Caríssimos amigos,
Com muito prazer, damos continuidade às atividades do nosso FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA, enviando a todos os títulos escolhidos para esse segundo semestre. Esperamos contar com a presença de vocês, assim como a proveitosa divulgação junto aos amigos e aos colegas, interessados no viés cultural e psicanalítico de nosso trabalho.
Um grande abraço e até lá, Ana Lúcia e Neilton Silva.
 UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (UNIRIO/PROEXC/ESCOLA DE TEATRO) &
SOCIEDADE PSICANALÍTICA DO RIO DE JANEIRO (SPRJ)
APRESENTAM:
FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA
PROGRAMAÇÃO DE 2018-2
FILMES ANALISADOS PELO PSICANALISTA:
DR. NEILTON SILVA
E PELA MUSEÓLOGA E PROFESSORA DA UNIRIO:
DRA. ANA LÚCIA DE CASTRO
31/08 – O CIDADÃO ILUSTRE
DIREÇÃO: Mariano Cohn & Gastón Duprat, 2016, 118 min.
Um escritor argentino e vencedor do Prêmio Nobel, radicado há 40 anos na Europa, retorna ao seu país, viaja a convite ao povoado onde nasceu e que inspirou a maioria de seus livros, para receber o título de Cidadão Ilustre da cidade.
28/09 – A LIBERDADE É AZUL
DIREÇÃO: Krzysztof Kieślowski, 1994, 168 min.
Traumatizada pela morte trágica do marido e da filha, Julie se desfaz de todos os bens e se afasta das pessoas.  Em Paris, ela reencontra um antigo amigo que a ama em segredo e que pode trazê-la de volta à vida.
26/10 – O JANTAR
DIREÇÃO:  Oren Moverman, 2017, 108 min.
Dois irmãos e suas esposas se encontram em um elegante restaurante de Amsterdã e conversam sobre banalidades da vida, até que discutem sobre seus filhos adolescentes, dois rapazes envolvidos em um crime e em uma complicada investigação policial.
30/11 –  O FAROL DAS ORCAS
DIREÇÃO:  Gerardo Olivares, 2016, 110 min.
Beto  mora na Patagônia e é um homem solitário que trabalha como guarda florestal em um Parque Nacional. Lola é mãe de um menino de onze anos, autista. Depois de ver o rapaz em um documentário, vai com o filho para Argentina em busca de ajuda. Um pouco relutante, ele concorda em ajudar Tristán.
SERVIÇO:
SEMPRE ÀS ÚLTIMAS SEXTAS-FEIRAS DO MÊS, DAS 18H ÀS 22H.
LOCAL – SALA VERA JANACOPOLUS / REITORIA DA UNIRIO
ENDEREÇO: AVENIDA PASTEUR, 296 – URCA.
ENTRADA FRANCA E ESTACIONAMENTO. FILME: 18H; DEBATE: 20H
PEQUENO HISTÓRICO DO FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA
O FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA FOI CRIADO PELOS PSICANALISTAS: DR. WALDEMAR ZUSMAN E DR. NEILTON SILVA. A PARTIR DE 2004, PASSA A CONTAR COM A PARTICIPAÇÃO DA MUSEÓLOGA E PROFESSORA DA UNIRIO, DRA. ANA LÚCIA DE CASTRO, RESPONSÁVEL PELA PESQUISA, DIVULGAÇÃO E ANÁLISE CULTURAL DOS FILMES.
COM A PARCERIA: UNIRIO – PROEXC - ESCOLA DE TEATRO E SPRJ, O PROJETO DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA MANTÉM UMA REGULARIDADE HÁ MAIS DE ONZE ANOS, TORNANDO-SE UM EVENTO MUITO CONCORRIDO, COM UM PÚBLICO FIEL E PARTICIPATIVO.
INFORMAÇÕES: forumpsicinema@gmail.com





Teatro/CRÍTICA

"A invenção do Nordeste"



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Inesquecível encontro com o Grupo Carmin


Lionel Fischer




"Um diretor é contratado por uma grande produtora para realizar a missão de selecionar um ator nordestino que possa interpretar com maestria um personagem nordestino. Depois de vários testes e entrevistas, dois atores norte-riograndenses vão para a etapa decisiva, onde o diretor terá sete semanas para deixá-los prontos para o último teste. Durante o período de preparação, os atores refletem a respeito de sua identidade, cultura, história pessoal e descobrem que ser e viver um personagem nordestino não é tarefa simples. Afinal, existiria apenas uma identidade nordestina?"

Extraído do ótimo release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o enredo de "A Invenção do Nordeste", dramaturgia baseada na obra "A Invenção do Nordeste e Outras Artes", do professor Durval Muniz de Albuquerque Jr. A montagem, que esteve em cartaz até o último domingo no Sesc Copacabana (Mezanino), comemora os 10 anos de existência do Grupo Carmin, do Rio Grande do Norte. Henrique Fontes e Pablo Capistrano respondem pela dramaturgia, estando a direção a cargo de Quitéria Kelly. No elenco, Henrique Fontes, Mateus Cardoso e Robson Medeiros.

A pergunta que encerra o parágrafo inicial me parece determinante para o entendimento das múltiplas questões levantadas pelo texto. Ainda que existisse apenas uma identidade nordestina, qual seria ela? Um cearense é mais nordestino do que um pernambucano? É evidente que não. E como é que nós, que habitamos as regiões Sudeste e Sul do país - as mais abastadas e teoricamente as mais cultas - encaramos os que vivem da Bahia pra cima? Ainda que de forma dissimulada, com um certo desprezo. E qual seria a razão deste sentimento?

Talvez isto se deva à ignorância da maior parte dos que habitam as mencionadas regiões, posto que desconhecem a inestimável importância de escritores, dramaturgos, poetas, cineastas, pintores, compositores, escultores e músicos  nordestinos. É claro que artistas nordestinos que vieram para o Rio de Janeiro e São Paulo e aqui se consagraram, são encarados como exceções à regra. E qual seria essa regra? Tão simples quanto asquerosa: nordestino não passa de pau pra toda obra. Trata-se, evidentemente, de grotesca falácia. Mas já que falei em obra, vamos a uma breve constatação.  

Cidades como o Rio de Janeiro ou São Paulo existiriam sem a mão de obra nordestina? Em uma estimativa modesta, não hesito em afirmar que ao menos 90% dos operários que trabalharam (ou ainda trabalham) na construção civil vieram do Nordeste. Portanto, sem eles não teriam sido erguidos os portentosos prédios que abrigam multinacionais ou as não menos portentosas residências dos que detêm o monopólio financeiro. 

E o mesmo percentual se aplica aos porteiros dos prédios e aos garçons de bares e restaurantes, afora tantos outros que trabalham em feiras livres ou vendem produtos que fabricam em mercados populares. Ou seja: Rio e São Paulo devem muito ao Nordeste, em todos os níveis. Portanto, desprezar essa evidência revela ou a já mencionada ignorância ou total ausência de caráter. 

Com relação ao texto, este merece ser considerado de primeiríssima grandeza, pois consegue abordar questões da maior relevância sem jamais abdicar do humor - e por humor entenda-se a capacidade de Henrique Fontes e Pablo Capistrano de nos fazer rir não em função de piadas pueris, mas de reflexões críticas sobre os temas abordados. Bem escrito, contendo ótimos personagens e uma ação que cativa o espectador do início ao fim do espetáculo, "A Invenção do Nordeste" recebeu maravilhosa versão de Quitéria Kelly, que impõe à cena uma dinâmica que explora com total êxito múltiplas linguagens. A encenadora também responde pelos ótimos figurinos.

No tocante ao elenco, Henrique Fontes, Mateus Cardoso e Robson Medeiros exibem presença, carisma e irrepreensível técnica. Afora isto, é também evidente que estão vivenciando temas que consideram imprescindíveis e inadiáveis, o que confere às suas interpretações uma potência e uma autoridade admiráveis. Sem sombra de dúvida, estamos diante de três atores de excepcional talento, que a mim proporcionaram - e certamente a todos que assistiram o espetáculo - um encontro inesquecível.  

Com relação à equipe técnica, considero irrepreensíveis as contribuições de Pedro Fiuza (dramaturgia audiovisual e desenho de luz), Durval Muniz de Albuquerque Jr. (consultoria histórica e de roteiro), Mathieu Duvignaud (direção de arte e cenografia), Ana Claudia Albano Viana (preparação corporal), Gilmar Bedaque (preparação vocal), Gabriel Souto e Toni Gregório (trilha original), Juliano Barreto (edição de vídeo) e Daniele Avila Small, que interpreta em off uma diretora que não diz coisa com coisa, e o faz com delicioso e crítico humor.

A INVENÇÃO DO NORDESTE - Dramaturgia de Henrique Fontes e Pablo Capistrano. Direção de Quitéria Kelly. Com Henrique Fontes, Mateus Cardoso e Robson Medeiros. 




quarta-feira, 25 de julho de 2018

Teatro/CRÍTICA

"Volta Seca"

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Surpreendente e sensível relato



Lionel Fischer



"O Brasil inteiro conhece os versos de Olê, mulher rendeira, assim como os de Acorda, Maria Bonita. O que pouca gente sabe é que o autor desses clássicos é um ex-cangaceiro. Mais exatamente, um remanescente do lendário bando de Lampião, o mais temido líder do Cangaço. O autor em questão é Antonio dos Santos, mais conhecido como Volta Seca, alcunha que ganhou aos 11 anos, quando foi raptado pelo bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Preso aos 14 anos, Volta Seca ficou detido em Salvador durante 20 anos. E a história será encenada pela primeira vez no Rio de Janeiro."

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o contexto em que se dá "Volta Seca", em cartaz na Galeria Marcantônio Villaça (Espaço Cultural Sergio Porto). Alan Pellegrino responde pela idealização do projeto, dramaturgia e atuação. Joelson Gusson assina a direção do espetáculo.

Reportando-me ao parágrafo inicial, realmente não tinha a menor ideia de que canções tão lindas haviam sido compostas por um cangaceiro. E menos ainda que este cangaceiro tenha passado a integrar o bando de Lampião aos 11 anos. É realmente curioso o fato de alguém que viveu, ainda que por pouco tempo, uma experiência em que a violência era a tônica, tenha sido capaz de produzir obras musicais tão sensíveis e definitivamente incorporadas ao cancioneiro popular nacional. Mas passemos ao espetáculo.

Este se dá na cela em que Volta Seca Seca cumpriu sua pena, no dia de sua libertação. O personagem conta sua história, faz reflexões sobre a mesma e encarna várias personalidades que integraram o bando de Lampião. Isto possibilita ao público conhecer não apenas a trajetória pessoal do protagonista, mas também a de um grupo de homens e mulheres que optaram por viver à margem da lei, em permanente embate com a Volante, força policial cujos membros eram chamados de Macacos por Lampião e seus seguidores.

Bem escrito, mesclando com a mesma eficiência passagens poéticas com outras de extrema dureza, "Volta Seca" recebeu segura e sensível direção de Joelson Gusson, que explora com grande propriedade a cenografia de sua autoria, que conta com as colaborações de Analu Prestes (o chão é coberto por máscaras rendadas), Pedro Grapiúna e Mario Coutinho (ossadas de vacas) e  Benjamim Abraão (projeções nas paredes de imagens reais do cangaço).  

Outro mérito suplementar de Gusson diz respeito à sua atuação junto ao ator, dramaturgo e idealizador do projeto Alan Pellegrino. Tanto nos momentos em que se dirige ao público como em outros em que vive diversos personagens, Pellegrino evidencia forte presença cênica e inegável capacidade de manter a plateia em permanente estado de atenção e interesse. 

No complemento da ficha técnica, Bernardo Lorga responde  
por uma iluminação em total sintonia com os climas emocionais em jogo, cabendo igualmente destacar a preparação vocal a cargo de Jorge Maia.

VOLTA SECA - Idealização, dramaturgia e atuação de Alan Pelegrino. Direção de Joelson Gusson. Galeria Marcantônio Villaça (Espaço Cultural Sergio Porto). Sábado a segunda, 20h30.