domingo, 21 de julho de 2019

Teatro/CRÍTICA

"A Ponte"

.................................................





Lionel Fischer



"Três irmãs, separadas pela vida, são obrigadas a se reunir para enfrentar a morte iminente da mãe. Theresa, a mais velha, é uma freira que se isolou da família em um retiro religioso. Agnes, a irmã do meio, vive uma atriz falida, que foi tentar a sorte longe de sua cidade natal. Louise, a mais jovem, é obcecada por séries de TV e desinteressada pelo mundo além do virtual. Neste reencontro, ambientado na cozinha da casa onde foram criadas, as três revelam os seus valores, crenças e diferenças em busca da possível reconstrução de uma célula familiar há muito fragmentada".

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima resume o enredo de "A Ponte", do dramaturgo canadense Daniel MacIvor. Em cartaz no Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil, a montagem leva a assinatura de Adriano Guimarães, estando o elenco formado por Bel Kowarick (Theresa), Debora Lamm (Agnes) e Maria Flor (Louise).

Autor de vários textos já encenados no Brasil - "In on It", "À primeira vista", "Aqui jaz Henry" e "Cine-Monstro" -, Daniel MacIvor possui, dentre seus muitos méritos, dois que me parecem essenciais: tem sempre o que dizer e dá enorme importância ao trabalho dos atores - esta última assertiva, na verdade uma suposição, me parece válida à medida que suas peças jamais podem ser plenamente usufruídas se em cena não estiverem excelentes intérpretes, como no presente caso, como se verá mais adiante.

A primeira curiosidade com relação à peça diz respeito à sua ambientação. Por razões óbvias, a ação não poderia se passar no quarto da mãe agonizante, a menos que a intenção fosse a de conferir um caráter mórbido à narrativa. Se esta acontecesse no quarto de uma das irmãs, isto poderia sinalizar algum tipo de ascendência, o que não é o caso. Então chegamos ao ambiente escolhido: a cozinha. Ainda que possa estar enganado, penso que o autor objetivou conferir ao espaço um caráter que transcende o prosaico, pois ali os alimentos consumidos não buscam saciar necessidades físicas, mas aquelas de há muito represadas no coração das três irmãs. 

Bem escrito, contendo personagens maravilhosamente estruturados e uma ação que prende por completo a atenção do espectador - isto se dá à medida que a trama foge por completo ao previsível, sendo literalmente impossível se prever o que virá em seguida -, creio que o maior mérito de "A ponte" tenha total relação com seu título. Vejamos: as três irmãs possuem histórias de vida e personalidades diametralmente opostas, o que em princípio inviabilizaria qualquer  possibilidade de entendimento. 

No entanto, as circunstâncias as levam a explicitar mágoas e carências jamais reveladas, e quando  renunciam a todas as defesas e decidem abrir seus corações sem reservas, o que antes se afigurava como um abismo aparentemente intransponível converte-se em uma ponte capaz de aproximá-las, o que me permite supor que o autor acredita na possibilidade de que possamos e devamos conviver com as diferenças - nos sombrios tempos que correm, tal crença é não apenas necessária, mas inadiável.

Com relação ao espetáculo, e ainda que este exiba marcas diversificadas e expressivas, torna-se evidente que o diretor Adriano Guimarães deu especial atenção ao elenco, encarregado de materializar personagens de altíssima complexidade. E o resultado não poderia ser melhor: Bel Kowarick, Debora Lamm e Maria Flor extraem o máximo de suas personagens, cabendo ressaltar a coletiva capacidade de entrega, a ótima contracena e a inegável inteligência cênica das intérpretes, que nos brindam com atuações inesquecíveis. Sem sombra de dúvida, um raro presente para aqueles que, como eu, acreditam que o teatro pertence essencialmente aos que estão em cena. 

Na equipe técnica, destaco com o mesmo entusiasmo as belíssimas contribuições de todos os profissionais envolvidos nesta mais do que oportuna empreitada teatral - Emanuel Aragão (dramaturgia), Adriano Guimarães e Ismael Monticelli (cenografia), Bárbara Duvivier (tradução), Ticiana Passos (figurino), Wagner Pinto (iluminação) e Denise Stutz (direção de movimento).

A PONTE - Texto original de Daniel MacIvor. Dramaturgia de Emanuel Aragão. Direção de Adriano Guimarães. Com Bel Kowarick, Debora Lamm e Maria Flor. Teatro II do CCBB. Quinta a segunda, 19h30.    






  








sexta-feira, 19 de julho de 2019

Teatro/CRÍTICA

"Estado de Sítio"

.............................................................................
Obra-prima em versão deslumbrante



Lionel Fischer




"Após os maus presságios pela passagem de um cometa, os habitantes de Cádiz, na Espanha, passam a ser governados pela Peste, que depõe um governo reacionário e institui um poder arbitrário por meio da ameaça de morte. Ela instaura o Estado de Sítio e cria um regime burocrático, esvaziado de sentido e dominado pelo medo. Uma cidade sitiada e uma população dividida. A vida dos cidadãos é submetida ao império da Peste e de sua Secretária, a Morte, de modo que o sofrimento e o desespero se tornam banais. No meio desse cenário desolador e aterrador haveria espaço para uma revolta estimulada pelo amor aos seres humanos e pela liberdade? Para se libertar da Peste será preciso resistir ao medo que se tem dela acreditando que, assim como a aparição do cometa, a situação instaurada é uma força histórica e passageira, e que o povo sempre detém o poder eterno".

O trecho acima, extraído do ótimo release que me foi enviado, contextualiza o essencial de "Estado de Sítio", de Albert Camus. Após cumprir ótima temporada em São Paulo, a montagem está em cartaz no Teatro Sesc Ginástico. Gabriel Villela responde pela direção do espetáculo, estando o elenco formado por Elias Andreato (Peste), Claudio Fontana ( Morte), Chico Carvalho 
( Nada), Rosana Stavis (Mulher do Juiz e Benzedeira), Nábia Vilela (Vitória), Leonardo Ventura (Juiz, Alcaide e Pescador), Pedro Inoue (Diego), Arthur Faustino (Governador e Velha), André Hendges (Padre), Rogério Romera (Homem do Povo e Cérbero), Jonatan Harold (Músico), Nathan MilléoGualda (Astrólogo, Cometa e Cérbero) e Zé Gui Bueno (Alcaide e Cérbero).

Não foram poucos os escritores, filósofos e críticos, infinitamente mais capazes do que eu, que se debruçaram sobre esta obra-prima.  Portanto, não tenho a pretensão de acrescentar algo de significativo ao que já foi dito. Ainda assim, gostaria de salientar algo que julgo procedente: ao contrário do que muitos supõem, Albert Camus não objetivou investir apenas contra a barbárie dos regimes totalitários de direita, mas também contra os de esquerda. Ou seja: para o genial escritor e dramaturgo franco-argelino, a ideologia importa pouco se o que predomina é a opressão. Neste sentido, a cidade espanhola de Cádiz (assolada pelo franquismo) poderia perfeitamente ter sido substituída por qualquer cidade da União Soviética vilipendiada por Josef Stalin. 

Isto posto, gostaria de frisar o que me parece mais essencial neste texto belíssimo e de surpreendente atualidade: a convicção do autor de que, por mais opressivo que seja um regime, por mais dolorosas que sejam as condições impostas, basta que um homem, um único homem diga Não e tudo pode mudar. Se o medo é contagioso, a Revolta também pode ser. E, no presente caso, é a partir da revolta que a Peste e a Morte começam a se tornar menos ameaçadoras e terminam por abandonar a cidade. Há também que se ressaltar a importância vital do Amor, não apenas no que concerne a relações pessoais, mas o amor que todos os seres humanos devem e podem partilhar, premissa essencial para a conquista da tão almejada Liberdade.   

Com relação ao espetáculo, mais uma vez Gabriel Villela nos brinda com uma encenação deslumbrante, plena de imagens poderosas e impregnada de refinada poesia. Desde que assisti (e escrevi sobre) "A rua da amargura", não tive a menor dúvida de que estava diante de um artista, na acepção máxima do termo. Assim, só me resta agradecer o privilégio de poder entrar em contato, mais uma vez, com uma montagem capitaneada por este que é, sem sombra de dúvida, um dos maiores encenadores da história do teatro brasileiro.

Quanto ao elenco, este atende a todas as solicitações da direção, seja nas passagens cantadas quanto naquelas em que o texto predomina, cabendo também destacar a notável expressividade corporal do conjunto. E embora todos os que estão em cena mereçam os mais entusiásticos aplausos, em função da dramaturgia não há como não conferir um destaque especial às magníficas performances de Elias Andreato (Peste), Claudio Fontana (Morte) e Chico Carvalho (Nada).

Na equipe técnica, considero irrepreensíveis e inesquecíveis as colaborações de Gabriel Villela (figurinos), J.C. Serroni (cenografia), Domingos Quintiliano (iluminação), Babaya Morais e Marco França (direção musical), Babaya Morais (preparação vocal), Marco França (arranjos),  Claudinei Hidalgo (maquiagem) e Alcione Araújo e Pedro Hussak (tradução).

ESTADO DE SÍTIO - Texto de Albert Camus. Direção de Gabriel Villela. Com Elias Andreato, Claudio Fontana, Chico Carvalho e grande elenco. Teatro Sesc Ginástico. Quinta a sábado, 19h. Domingo, 18h.








quinta-feira, 18 de julho de 2019

Teatro/CRÍTICA

"Meninas e Meninos"


...................................................
Bela e dolorosa jornada




Lionel Fischer



"A protagonista do texto é uma mulher de idade não especificada, que conta ao público a história de sua vida. Abordando corajosamente (e com muito humor) questões delicadas como sexo, maternidade e machismo, a personagem vai desenhando um novo perfil feminino que, ao longo de séculos, tem lutado para se libertar das amarras patriarcais e experimentar um jeito completamente original de tornar-se mulher no mundo atual".

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima resume o enredo de "Meninas e Meninos", do dramaturgo inglês Dennis Kelly, em cartaz no Teatro Poeirinha. Kiko Mascarenhas e Daniel Chagas assinam a direção do espetáculo, que tem como única intérprete Maria Eduarda de Carvalho.

Como já disse algumas vezes, para mim um espetáculo começa quando entro no teatro e existe alguém em cena, mesmo que esteja imóvel ou não fazendo nada de especial, ainda que as luzes sejam as da plateia - tal postura, que considero essencial, contraria a de 99% dos espectadores, que em geral conversam ou permanecem grudados aos seus celulares até que seja dado o terceiro sinal.

No presente caso, quando os espectadores entram no espaço de representação do Poeirinha, Maria Eduarda de Carvalho já está em cena, totalmente visível, e sua personagem parece indecisa quanto à localização de vários caixotes e brinquedos infantis. Ela ignora a plateia enquanto organiza e reorganiza os objetos. Finalmente, começa a contar sua história, estabelecendo uma relação direta com os espectadores.

O enredo aborda, de forma não linear, a relação da personagem com seus filhos pequenos, a tentativa de obter um emprego, suas muitas e diversificadas experiências sexuais, seu envolvimento com o pai das crianças e sua ascensão profissional, afora outros momentos, cabendo destacar a hilária passagem da fila de embarque em um aeroporto. 

Mas ao mesmo tempo em que conta sua história, a personagem quase sempre se relaciona com outros, como se estes estivessem em cena, e só raramente interrompe sua relação com os objetos, como no início do espetáculo, só que a partir de um certo ponto os brinquedos vão sendo colocados nos caixotes e estes depositados em um canto do espaço, que no final se mostra inteiramente desocupado daquilo que antes o preenchia. Ou seja: estamos diante de uma belíssima metáfora, pois o que a personagem faz é progressiva e dolorosamente livrar-se do seu passado e assim criar a possibilidade de um novo presente. 

Com relação ao texto, este alterna momentos de grande humor com outros essencialmente trágicos, que opto por não explicitar pois isto privaria o espectador de usufruir impactantes e imprevistas revelações. Seja como for, há que se destacar a maestria do autor em sua abordagem de vários temas, em especial o do machismo, que nem sempre, como no presente caso, fica restrito ao predomínio da vontade masculina. 

Novamente sem entrar em maiores detalhes, aqui a inveja é a mola propulsora da tragédia que se materializa. Mas como detectá-la se a outra pessoa consegue camuflar este sentimento? E mais: como imaginar que este sentimento possa crescer a ponto de transformar alguém em sua própria antítese?    

Com relação ao espetáculo, cuja mais brilhante solução já mencionei, cabe destacar a expressiva, pulsante e diversificada dinâmica cênica, afora a contribuição de Kiko Mascarenhas e Daniel Chagas para que Maria Eduarda de Carvalho exiba uma das performances mais marcantes da presente temporada. 

Atriz de vastos recursos técnicos, grande carisma, fortíssima presença e inegável inteligência cênica, Maria Eduarda de Carvalho também nos brinda com comovente capacidade de entrega, o que lhe permite viver com total intensidade os múltiplos conflitos emocionais em jogo.  

Na equipe técnica, considero irrepreensíveis as preciosas colaborações de Vilmar Olos (iluminação/ambientação), Marcelo H (trilha sonora), Luciene Nicolino (direção de arte), Mauro Vicente Ferreira (cenografia) e Tereza Nabuco (figurino).

MENINAS E MENINOS - Texto de Dennis Kelly. Direção de Kiko Mascarenhas e Daniel Chagas. Com Maria Eduarda de Carvalho. Teatro Poeirinha.  Terças, quartas e quintas às 21h.




















quinta-feira, 4 de julho de 2019

Prêmio Cesgranrio de Teatro 2019
Indicados do 1º semestre

FIGURINO

Marcelo Marques - "Cole Porter, ele nunca disse que me amava"
João Pimenta - "Merlin e Artur - Um sonho de liberdade"
Tiago Ribeiro - "Interior"

CENOGRAFIA

Bia Junqueira - "Eu, Mobi Dick"
Rodrigo Portella e Julia Decache - "As crianças"
Ana Teixeira e Stephane Brodt - "Jogo de damas"

ILUMINAÇÃO

Paulo Cesar Medeiros - "As crianças"
Renato Machado - "Jogo de damas" e "Eu, Mobi Dick"

ATOR

Mario Borges - "As crianças"
Kiko Mascarenhas - "Todas as coisas maravilhosas"
Caio Scot - "Como se um trem passasse"

ATOR EM TEATRO MUSICAL

Patrick Amstalden - "Merlin e Artur"
Saulo Segreto - "Merlin e Artur"

ESPECIAL

Diego Teza - traduções de "As crianças", "Todas as coisas maravilhosas" e "Meninas e meninos"

Ana Turra, Camila Schimidt e Rogério Velloso - set designs, vídeo designs, cenografia e iluminação de "Merlin e Artur"

Celina Sodré - 10 anos de atividades do Instituto do Ator

ATRIZ

Jessica Menkel - "Cálculo ilógico"
Analu Prestes - "As crianças"
Claudia Ventura - "A verdade"

ATRIZ EM MUSICAL

Evelyn Castro - "Quebrando regras"
Kacau Gomes - "Merlin e Artur"
Bel Lima - "Cole Porter"

DIREÇÃO

Rodrigo Portella - "As crianças"
Felipe Hirsh - "Antes que a definitiva noite se espalhe por lationoamerica"
Daniel Herz - "Cálculo ilógico"

DIREÇÃO MUSICAL

Fabio Cardia e Jules Vandistadt - "Merlin e Artur"
Claudio Botelho - "Cole Porter"
Tony Lucchesi - "Quebrando regras"

TEXTO NACIONAL INÉDITO

Jessica Menkel - "Cálculo ilógico"
Luciana Pessanha - "Os desajustados"
Marcia Zanelatto - "Merlin e Artur"

ESPETÁCULO

"As crianças"
"Cálculo ilógico"
"Todas as coisas maravilhosas"

_________________________






segunda-feira, 27 de maio de 2019

Teatro/CRÍTICA

"Cálculo ilógico"

...............................................................
Ótima versão de texto belíssimo



Lionel Fischer



"Misturando ficção e realidade, o solo apresenta o sentimento de inquietação que cerca a nós, humanos, quando nos deparamos com o fim. Em cena, a personagem Ella relembra, revive, calcula acontecimentos e expõe, em números, a eliminação errada de seu irmão D+ 1. A matemática é utilizada em metáforas e nesta autoficção a autora se apropria de uma dor pessoal e tenta entender esse sofrimento por meio de fórmulas e cálculos".

Extraído (e levemente editado) do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o contexto em que se dá "Cálculo ilógico", de autoria de Jéssica Menkel, que também dá vida à personagem. Em cartaz na Sala Rogério Cardoso (Casa de Cultura Laura Alvim), a montagem leva a assinatura de Daniel Herz.

Acredito que todos nós, ainda que em graus variados, tenhamos para com a morte uma relação extremamente delicada. Para os que possuem algum tipo de fé, resta o consolo da possibilidade de um encontro futuro com aquele que se foi. Mas mesmo assim a dor é inenarrável e invariavelmente tentamos entender as razões que nos privaram de alguém que amamos tanto, sobretudo quando a morte não é fruto de uma doença incurável, e sim de um acidente  imprevisto - no primeiro caso, ainda conseguimos criar mecanismos de defesa contra o inevitável; já no segundo, a surpresa gera uma sensação de orfandade absolutamente devastadora.

Pois bem: neste caso, a autora parte de um fato real, a morte de seu irmão mais velho, quando ela tinha dez anos. Ele estava de bicicleta, um ônibus avança o sinal e a tragédia se materializa. A partir daí, o que fazer? Como seguir em frente com o coração e a alma devastados, quando todas as lágrimas possíveis já foram derramadas, mas o peito segue oprimido como se sobre ele tivesse se instalado o peso do mundo? Ou sucumbimos por completo e aceitamos a depressão como algo inevitável, ou tentamos reagir de alguma forma. No presente caso, como já foi dito, a personagem tenta se valer de fórmulas matemáticas. 

Antes da tragédia, a família era composta por pai, mãe, irmão e irmã. Formavam um cubo ou seria um quadrado? Não, não é bem assim, já que o quadrado é apenas uma forma de se demonstrar uma figura de quatro vértices, enquanto o cubo mostra uma estrutura de 12 vértices. Mas agora que o irmão se foi, o que restou foi um triângulo. Então, será que o Teorema de Pigágoras poderia ser de alguma valia? 

Ele nos diz que existe uma relação matemática entre os comprimentos dos lados de qualquer triângulo retângulo. Mas a dor não passa. Então, quem sabe Euclides? Na geometria euclidiana, o teorema afirma que "Em qualquer triângulo retângulo, o quadrado do comprimento da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos comprimentos dos catetos". Mas a dor insiste em não se converter em resignação. Restaria, então, partir para um confronto direto com Deus, que Ella chama ironicamente de Senhor Superior Positivo Neutro? 

Enfim...nem a matemática, e tampouco ironias, são suficientes. No entanto, em sua desesperada busca de entendimento para o que não pode ser entendido, neste percurso tão impregnado de dor e revolta, a personagem vai aos poucos se reestruturando, reinventando a si mesma a fim de seguir vivendo, o que acaba conseguindo ao se convencer de que, se por um lado não terá mais o irmão enquanto presença física, por outro o levará sempre em seu coração. Aqui, como em qualquer situação real semelhante, essa é a única alternativa possível, a única que pode nos gerar a paz tão almejada.

Texto belíssimo, "Calculo ilógico" recebeu ótima versão cênica de Daniel Herz, cabendo destacar sua desafiadora proposta de irmanar palavra e movimento, de torná-los indissociáveis, como se verbo e  gestos não pudessem existir isoladamente, como se constituíssem um só corpo. E este é materializado de forma brilhante por Jéssika Menkel, atriz de apenas 28 anos, cuja fortíssima presença, visceral capacidade de entrega e inteligência cênica me levam a afirmar, sem nenhuma hesitação, que estamos diante de uma intérprete que reúne todas as condições para empreender uma lindíssima trajetória profissional.

Na equipe técnica, Thanara Schonardie responde por um figurino de grande expressividade, composto de roupas que se sobrepõem, incluindo uma camisa do irmão da protagonista - posso estar enganado, naturalmente, mas acredito que a intenção possa ter sido a de criar uma pele impregnada de memórias. A mesma profissional responde por uma cenografia simples e eficiente, composta basicamente por cubos e os destroços da bicicleta do irmão falecido. A mesma eficiência se faz presente na seca e pontual iluminação de Aurélio de Simoni, na preparação vocal de Jane Celeste e na direção musical de Éric Camargo. Finalmente, gostaria de ressaltar a beleza e sobretudo a objetividade do design gráfico de Bruno Niquet e Sheila Gelsleuchter - em muitos casos, os designers são tão criativos que para se chegar às informações essenciais temos que empreender hercúleos esforços. 

CÁLCULO ILÓGICO - Texto e atuação de Jéssika Menkel. Direção de Daniel Herz. Casa de Cultura Laura Alvim. Sexta e sábado, 19h. Domingo, 18h.













quinta-feira, 23 de maio de 2019


Esta mensagem foi enviada com Alta prioridade.
Ana de Castro <anadecastro@terra.com.br>
Qui, 23/05/2019 16:58
  • Ana de Castro
UNIRIO – PROEXC/ESCOLA DE TEATRO & SOCIEDADE PSICANALÍTICA DO RIO DE JANEIRO APRESENTAM:
FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA
Prezados amigos e colegas, no dia 31 de maio, às 18 h,  será analisado o premiado filme: MADRE JOANA DOS ANJOS, vencedor do Prêmio de Júri no Festival de Cannes de 1961, um clássico do cinema polonês, dirigido e roteirizado por Jerzy Kawalerowicz. Baseado em fatos reais, passado no século XVII, a obra recria o episódio ocorrido em um convento localizado na Polônia. Um padre é enviado ao local para exorcizar a religiosa que dá título à obra, pois se acredita estar sob posse demoníaca. Lá, ele encontra suas próprias tentações à espera.  Com vigorosa direção de fotografia em preto e branco, o ambiente reforça o aprisionamento das freiras submetidas à rigidez religiosa, em regime autoritário e ameaçador. Esse clássico, considerado uma obra-prima pela crítica, vale ser assistido e debatido, por seu pioneirismo e atualidade. Assim, na última sexta-feira do mês, na Sala Vera Janacópulos da UNIRIO, analisaremos e discutiremos a película, em seus múltiplos aspectos e prismas diversos. Como sempre, aguardamos todos vocês e contamos com a divulgação aos amigos e aos interessados no viés cultural e psicanalítico.  Um grande abraço de Ana Lúcia de Castro e Neilton Silva.
SERVIÇO:
DATA: 31 DE MAIO DE 2019.
HORÁRIO: FILME: 18 h; ANÁLISE E DEBATE: 20 h às 22 h.                                                        
LOCAL: SALA VERA JANACÓPULOS – UNIRIO                                                                                
ENDEREÇO: AV. PASTEUR, 296. URCA.
ANÁLISE CULTURAL: PROF. DRA. ANA LÚCIA DE CASTRO
ANÁLISE PSICANALÍTICA: DR. NEILTON SILVA
ENTRADA FRANCA - INFORMAÇÕES: forumpsicinema@gmail.com
NOTA: Quem se interessar em adquirir o livro: Fórum de Psicanálise e Cinema: 20 filmes analisados, de autoria de Ana Lúcia de Castro e Neilton Dias da Silva, ele se encontra à venda nos dias do FÓRUM ou através da editora Letra Capital.
HISTÓRICO: O FÓRUM DE PSICANÁLISE E CINEMA FOI CRIADO EM 1997, COMO UM PROJETO CIENTÍFICO DA ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA RIO 3, PELO ENTÃO PRESIDENTE, DR. WALDEMAR ZUSMAN, E PELO DIRETOR DO INSTITUTO, DR. NEILTON DIAS DA SILVA. DESDE 2004 PASSOU A CONTAR COM A PARTICIPAÇÃO DA MUSEÓLOGA E PROFESSORA DA UNIRIO, DRA ANA LÚCIA DE CASTRO, RESPONSÁVEL PELAS ANÁLISES CULTURAIS DOS FILMES. CELEBRAMOS OS 14 ANOS DO FÓRUM E A PARCERIA DA SPRJ COM A UNIRIO PARA SEDIAR O PROJETO MENSALMENTE, SEMPRE MUITO CONCORRIDO.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Teatro/CRÍTICA

"Como se um trem passasse"

.................................................................................
Elenco transcende fragilidade dramatúrgica


Lionel Fischer



"A peça aborda a relação de uma mãe e seu filho pós-adolescente, deficiente intelectual, que deseja a vida com paixão. A mãe, superprotetora e medrosa, transmite ao filho seus receios e a impossibilidade de alcançar sonhos. A chegada da prima da capital evidencia fissuras na situação fechada em que vivem mãe e filho, muda as relações na casa e abre a perspectiva de que desejos se realizem".

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o contexto em que se dá "Como se um trem passasse", em cartaz no Teatro Poeirinha. De autoria da dramaturga argentina Lorena Romanin, também responsável pela direção, a montagem tem elenco formado por Dida Camero (Mãe), Caio Scot (Filho) e Manu Hashimoto (Prima).

Muitos sustentam que uma boa peça tem que necessariamente ser fruto de uma boa ideia, de preferência impregnada de grande originalidade. Sempre discordei disso, ainda que concordando que partir de uma boa e original ideia é melhor do que o inverso. Mas vamos a um exemplo: "Hamlet", de Shakespeare, que todos consideram o melhor texto teatral já escrito.  

Pois bem: o que dispara a trama? O pai de Hamlet surge como um fantasma, informa o príncipe que foi assassinado pelo irmão e clama por vingança. Trata-se de uma boa e original ideia? Não me parece. No entanto, a partir dela, o fabuloso bardo escreveu a obra-prima que o mundo não se cansa de reverenciar.

No presente caso, o contexto nada tem de original, mas se trabalhado com mais profundidade poderia resultar em uma excelente peça. Infelizmente, não é o que acontece. Ainda que explicitados, os conflitos jamais são levados às últimas consequências e os embates só muito raramente ultrapassam a superficialidade. Além disso, a previsibilidade impera, o que inviabiliza qualquer possibilidade de espanto ou desconforto para o espectador. 

Quanto ao final, acredito que o mesmo tenha surpreendido tanto a mim quanto a todos que assistiram a montagem: a mãe, que sempre relutou em deixar o filho ir sozinho a escola, permite que ele vá embora com a prima, quando esta retorna à capital. Mas, justiça seja feita, apesar de todas as ressalvas cumpre destacar as passagens em que o humor predomina, muito bem trabalhadas pela autora.  

Com relação ao espetáculo, a simplicidade é a tônica, tornando-se evidente que a diretora apostou todas as suas fichas nos atores. E estes não decepcionam. No papel da mãe, Dida Camero exibe excelente desempenho, conseguindo materializar as principais características de uma personalidade autoritária e protetora, mas ao mesmo tempo amorosa e desamparada. Caio Scot compõe de forma irrepreensível o jovem com "deficiência intelectual", como consta no release, embora eu não saiba exatamente o que é isso - será que, em nome do politicamente correto, a clara doença do jovem não pode ser devidamente mencionada? Finalmente, Manu Hashimoto valoriza com eficiência a revolta, a doçura e o humor da prima adolescente.

No tocante à equipe técnica, Dina Salem assina um cenário belíssimo, sendo igualmente primorosa a sutil iluminação de Renato Machado. A mesma eficiência se faz presente nos figurinos de Julia Marques, em total sintonia com o contexto e as personalidades retratadas. Cabe também destacar a ótima tradução deCaio Scot e Junio Duarte.

COMO SE UM TREM PASSASSE - Texto e direção de Lorena Romanin. Com Dida Camero, Caio Scot e Manu Hashimoto. Teatro Poeirinha. Quinta a sábado, 21h. Domingo, 19h.